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quinta-feira, 1 de março de 2018

LENDAS DA BOCA DO LIXO

Ah! Esqueci de dizer: João Acácio, o Bandido da Luz Vermelha, virou filme de sucesso no final dos anos de 1960. É como se diz uma filme-biografia em tela grande de Rogério Sganzerla. E houve duas versões, uma em preto e branco e outra a cores. Nessa última versão, o cantor rei do bolero Roberto Luna, paraibano de Serraria está lá. Ao lembrar disso lembro também que em algum lugar do acervo do Instituto Memória Brasil, IMB, há uma carta manuscrita que o bandido me confiou para entregar ao então presidente general da República João Figueiredo.
E como uma coisa puxa a outra, lembro-me que também entrevistei o rei da Boca do lixo Hiroito de Moraes Joanides (1936-1992).
A entrevista que fiz com Hiroito foi publicada nos jornais paulistanos Notícias Populares e Folha de S.Paulo. Isso em fins de 1977.
Além de Hiroito e utras figuras do crime também entrevistei Quinzinho.
Quinzinho era a pedra do sapato de Hiroito. Os dois viviam aos berros e tapas.
Hiroito, como Quinzinho, atirava muito bem e a navalha era a surpresa que guardava para os inimigos, como Quinzinho.
Quinzinho morreu depois de atropelado na Av. São João. Hiroito morreu de morte natural.
Hiroito também foi para atela de cinema. Quinzinho não.
A entrevista que eu fiz com Quinzinho foi publicada no tablóide independente Feijão com Arroz, que durou apenas 5 números. Detalhe: esse foi o único jornal que acolheu nas suas páginas uma coluna assinada pelo compositor Adoniran Barbosa (1910-1982).
E como uma coisa puxa a outra... Pois é, também entrevistei o pioneiro do cinema marginal no Brasil: Ozualdo Candeias (1935-2014).
A entrevista que fiz com Candeias, chamado de cineasta rei da Boca do lixo, ocorreu no programa radiofônico São Paulo Capital Nordeste, que apresentei durante pouco mais de 6 anos na Rádio Capitam AM 1040.
Pois é.


O POVO E QUINZINHO

Embora perigoso como Hiroito, Quinzinho era chamado de malandro. Lembrei-lhe disso no correr da entrevista que fiz com ele para O Feijão com Arroz, e ele: "Malandro é o povo que vive de salário mínimo".

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

MISÉRIA, MORTE E COLARINHO BRANCO


Outro dia falei sobre Mineirinho, o pistoleiro que rendeu muitas manchetes na Imprensa carioca e acabou morto com 13 tiros. Isso em 1962. Prá ser exato no último dia de abril daquele ano.
Mineirinho, de batismo José Rosa de Miranda, foi um fora da Lei comparado a Lampião. Aliás também comparado a Lampião, foi o pernambucano Vilmar Gaia. Como Lampião, Vilmar, que entrevistei na cadeia de Caruaru, caiu no mundo do crime para vingar a morte do pai. Mas Vilmar, depois de preso, escapou da cova comum. E é bem capaz de ainda estar vivo, não sei.
No próximo dia 28 de Julho completam-se 70 anos da armadilha em que caíram Lampião, Maria Bonita e mais pelo menos 11 cangaceiros. Isso, em Sergipe.
Sergipe é, segundo dados oficiais, o Estado brasileiro que encabeça o ranking dos mais violentos do País.
Muitos bandidos, assassinos, fizeram história. Eu conheci e entrevistei alguns deles, como João Acácio (1942-1998). João ficou conhecido como o Bandido da Luz Vermelha, eu o entrevistei no Juqueri, foto ao lado. Também entrevistei Mariel Mariscot (1940-1981).
Mariscot era um policial da elite do Rio de Janeiro. Ele integrava a Scuderie Detetive Le Cocq e era também conhecido por integrar o Esquadrão da Morte, no Rio.
Pois é, entrevistei muita gente do mundo do crime. Não, não entrevistei Lampião, mas entrevistei alguns do seu bando, como Sila e tal. E também sua irmã, Dona Mocinha, falecida com 102 anos, a filha Expedita e a neta Vera, que moram em Sergipe. 
O esquadrão da morte ganhou muita força em São Paulo. O delegado Sérgio Paranhos Fleury (1933-1979) era um dos seus cabeças. Diziam até que era o chefão. Guardo péssimas lembranças dele. Do esquadrão entrevistei, na Penitenciária do Estado de São Paulo Zé Guarda, Fininho e Correiinha, tidos como perigosíssimos. Nesse pacote de entrevistas sobre o Esquadrão também entrevistei o jurista Hélio Bicudo e o ex secretário de Segurança Pública de São Paulo Erasmo Dias, o mesmo que invadiu com centenas de policiais o campus da PUC-SP. Tudo isso foi publicado em várias páginas de uma edição só do extinto semanário Pasquim (detalhe da capa com a reportagem acima).
Vocês já ouviram falar da rebelião ocorrida no Presídio da Ilha Anchieta, litoral Norte de São Paulo, em 1952? Essa rebelião resultou em mais de cem mortos, entre presos e policiais. O líder dessa rebelião, a maior do mundo à época, foi o pernambucano João Pereira Lima. Claro, Também o entrevistei para a Folha, mas essa é outra história.
O Brasil anda muito violento. Muitos Estados pedindo intervenção Federal. A propósito, a colega jornalista Cris Alves acaba de me trazer uma frase que leu em algum lugar: 
"No Brasil o governo é corrupto. A justiça é uma bagunça, mas o crime é organizado". E não custa dizer: o crime organizado usa colarinho branco.
Uma perguntinha: quem matou mais, o cangaço de Lampião ou o ex governador Sérgio Cabral?

POVO E JECE VALADÃO

O ator Jece Valadão viveu no cinema o fora da Lei Mineirinho. Numa entrevista para a Folha, Jece um dia me disse : "Se o povo soubesse a força que tem, não deixaria que lhe pusesse cabresto".

GILMAR MENDES, QUE HORROR

Esse ministro sabe tudo sobre o crime.



terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

VIVA A FILOSOFIA



É muito bom saber que há público, e bom público, disposto a ouvir filósofos num dia de segunda que foi de primeira como ontem.
As mais de 700 poltronas do teatro da Pontifícia Universidade Católica, SP, estavam todas ocupadas para ouvir Mário Sérgio Cortella falando sobre Felicidade. Esse é um bom tema. Bom e complicado e simples, se me entendem.
Cortella saiu-se bem no tema proposto e foi muito aplaudido.
Antes de Cortella falar, ouviu-se o Coral da Universidade (foto ao lado), formado por 20 vozes femininas interpretando 3 temas musicais.
A tarde no TUCA começou com Chalana de Mário Zan e Arlindo Pinto.
Fiquei sabendo através do amigo José Cortez que no curso intensivo direcionado a pessoas da maturidade, que ele frequenta, há três centenários, duas mulheres e um homem. E com meus botões, matutei: o que faz alguém com mais de 100 anos frequentar um curso promovido por uma Universidade. E eu e meus botões concluímos: quem tem cem ou mais anos ensina e aprende, pois essa é a vida. E viver assim, dessa forma, é muito bom. Isso tem, certamente, a ver com felicidade. Tem ou não tem?
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, revelam que há no Brasil hoje, pelo menos 11 mil pessoas com 100 anos de idade e até mais.
Após a palestra do Cortella, que durou exatos 60 minutos, uma fila imensa, formada por seus admiradores encheu o Foyer. Cortella fotografou e deixou-se fotografar até cansar.
O tema Felicidade, como filosofia, é bastante comum na discografia brasileira. Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa são exemplos disso:

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

BRASIL DO MEDO E DA VIOLÊNCIA



É certo que jamais vivemos num estado de preocupação e insegurança tão grande quanto esse que vivemos hoje, em que os cidadãos se acham completamente à merce dos foras da lei, traficantes, assassinos etc.
Os números contra a cidadania são alarmantes. Somente em 2017 passaram de 60 mil os casos que registraram morte por violência no Brasil.
Os números ainda indicam que Sergipe encabeça o ranking dos estados mais violentos, seguido do Rio Grande do Norte e Alagoas.
O Rio de Janeiro ocupa o 10º lugar nesse ranking de violência contra o cidadão comum.
O presidente de plantão, Temer, assina hoje papelada que dá existência a uma nova pasta: a de Segurança Pública, cujo titular será o da Defesa: Jungmann não sei o quê. Esse é mais um Ministério pra sugar legalmente a paciência do povo.
Senhores da Justiça norte americana estão ouvindo, hoje, um cara que é considerado o maior traficante de armas para o Brasil e sei lá mais pra onde. 
E o Rio, como se sabe, está sob intervenção federal, desde o último dia 16.
Esse estado de desespero é um verdadeiro Deus-nos-acuda!
Milhares e milhares de homens das polícia militar, da polícia civil, do exército e da caixa prego foram acionados para trazer de volta a paz para os cidadãos. Isso me faz lembrar os milhares de homens da lei, armados até os dentes, acionados para prender ou matar José Rosa de Miranda, o Mineirinho.
Mineirinho caiu em desgraça depois de matar a tiros um desgraçado como ele, um deserdado da vida. Foi no Rio, num morro. 
De um dia para o outro, os jornais "apresentavam" a população o "mais perigoso facínora" da virada dos anos de 1950.
 No dia 1º de maio de 1962 jornais sensacionalistas voltavam a estampar manchetes dando conta da morte, em tiroteio, de José Rosa de Miranda, aos 28 anos de idade.
José Rosa não morreu em tiroteio, soube-se depois. Foi assassinado à queima-roupa e o corpo atirado nas quebradas de Jacarepaguá, região ainda considerada muito perigosa.
A escritora Clarice Lispector (1920-1977) escreveu e publicou na extinta revista Senhor um tocante conto sobre "o perigoso facínora". 
Logo depois, na verdade dois meses depois, o cantor e compositor paraibano Antonio Barros fez o mesmo lançando à praça a canção A História de um Pistoleiro (Philips, junho 1952).
Em 1969, o cineasta Aurélio Teixeira levou ao cinema Minherinho, vivo ou morto, com Jece Valadão e Leila Diniz.

A História de um pistoleiro está no terceiro e ultimo disco (acima)  de 78 rpm gravado por Antonio Barros.
Em 1996, portento há 22 anos, Wilson das Neves (1936-2007) e Paulo César Pinheiro compuseram um samba antecipando a realidade hoje vivida pelo Rio de Janeiro. lançou uma música que falava dos problemas que o Rio ganharia com a descida dos malandros para o asfalto carioca. Ouçam:


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

DÁ PRA VER NO ESCURO? DÁ



Meu amigo, minha amiga: você neste momento está me lendo, mas poderia não estar. Ficar cego é a coisa mais fácil do mundo, depois de comer pipoca e sorve sorvete. Eu mesmo perdi a visão depois de uma coceirinha ingênua e incômoda. Uma coceirinha besta.
Dados recentes da Organização Mundial da Saúde, OMS, indicão que há cerca de 130 milhões de cegos no planeta e que 80% desse total poderiam ser evitados se diagnosticados a tempo e a tempo tratados. Confira: http://g1.globo.com/pa/para/especial-publicitario/associacao-paraense-de-oftalmologia/noticia/2016/04/cegueira-saude-da-sua-visao-pode-estar-em-risco-.html

No Brasil, há pelo menos 1,2 milhão de pessoas como eu vendo a vida cor de breu.
O número de pessoas que apresentam algum tipo de deficiência visual é muito grande, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. O total de pessoas que sofre algum tipo de deficiência visual, e não são poucas, mora na casa dos 6 milhões.
A última edição da revista Veja (acima) trás um texto, em forma de depoimento ao repórter Sérgio Martins, em que falo sobre a questão cegueira. Dói, mas doeu mais antes quando tudo começou.
A cegueira tornou-me um ser invisível, uma pessoa pouco notada no ambiente social.
Poderíamos ser mais amáveis, delicados, solidários...

Você conhecer a Associação  Laramara? (https://www.facebook.com/laramara.associacao.brasileira). Meus agradecimentos nestes versos:


O SEGREDO


Laramara veio a nós
Contente prá nos contar
Que no mundo há um modo
De o cego enxergar
A luz do fim do túnel
E seguir seu caminhar

Longo e tortuoso
É do cego o caminhar
É do cego a sina
De viver sem enxergar
A luz que vem da lua
Para o mundo alumiar

Outras luzes vem de longe
Prá também iluminar
São as luzes do Saber
Para quem não quer cegar
Quem caminha hoje sabe
Que o Saber é enxergar

Mas tem cego que não sabe
E se recusa a caminhar
Preferindo ficar quieto
A ir à luta  prá lutar
O segredo está no túnel

E na luz a nos chamar




segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

OSVALDINHO DA CUÍCA: 78 CARNAVAIS!

A contar de hoje 12, faltam somente 12 anos para Osvaldinho da Cuíca alcançar os 90 do historiador José Ramos Tinhorão, feitos no ultimo dia 7 com direito a muito samba, cachaça e alegria (as fotos abaixo) ali na Vila Buarque.

Assis e Osvaldinho


Pois é, Osvaldinho completa hoje 78 anos de vida.
Não tinha ainda nem 18 anos de idade, Osvaldinho já estava na gandaia carnavalesca, cuicando e batucando. O primeiro samba de sua autoria, feito para o cordão Garotos do Tucuruvi trás a data de 1958. Nesse ano, o Brasil era apresentado à Bossa Nova. Era também o ano do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976).
Em 1902, o cantor bahiano abria a discografia brasileira interpretando o lundu Isto é Bom, que anos depois Osvaldinho também o gravaria. Mas não é dele que eu quero falar, agora. Quero falar de Osvaldinho da Cuíca. Osvaldinho nasceu do dia 12 de fevereiro de 1940 no bairro paulistano do Bom Retiro. Nesse bairro também nasceu o Corinthians, em 1910. Curiosidade: é de Osvaldinho (e Papeti) o grito da torcida que virou marca através do samba Vai Corinthians!

sábado, 10 de fevereiro de 2018

BARÃO DO RIO BRANCO E CARNAVAL

É provável que pouquíssimas pessoas saibam quem foi o cidadão José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845-1912). Se dissermos, porém, que esse mesmo cidadão atendia pelo nome de Barão do Rio Branco ai sim todos sabem, não é mesmo? Esse barão, de inteligência finíssima, morreu no dia de carnaval, num dia 10 de fevereiro. Por causa disso o Marechal Presidente Hermes da Fonseca decretou luto oficial adiando a folia para o dia 16.
O barão dizia que há duas coisas rigorosamente organizadas no Brasil, a desorganização e o Carnaval. Detalhe, naquele ano houve dois carnavais. Isso é história. O Barão do Rio Branco , também chamado de o  Advogado do Brasil, serviu no Império e nos primeiros anos da República, como diplomata. Se não fosse ele o mapa do Brasil certamente estaria desfalcado do Acre, Pará  e um bom pedaço de Santa Catarina. No total, por meio dele foram anexados mais de 900 mil Km quadrados.  Ele foi tão importante quanto o baiano Ruy Barbosa (1849-1923). No acervo do instituto Memória Brasil (IMB) há um raríssimo disco (na foto) com o registro de um discurso proferido pelo próprio barão. E lá pra tantas, ouve-se bem o povo gritando “Muito bem, muito bem!” Detalhe: num tempo em que existia o Cruzeiro, uma das notas mais valiosas era chamada de "Barão". E curiosamente, nenhum compositor de música popular, como era chamada a boa música do povo, homenageou o herói Barão do Rio Branco.

GILMAR CONTINUA SOLTO

O ministro Gilmar Mendes continua solto e soltando quem está preso, mas presos importantes. Tem uma marchinha muito bonitinha circulando por aí.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

UM ENCONTRO HISTÓRICO COM TINHORÃO

Foi, como previsto, um encontro muito bonito no projeto Ação Educativa (foto acima). Lá estávamos, Eu, Tinhorão, Bete e Jorge, que mediou o encontro. No auditório, pessoas que iam dos 30 aos 150 anos, ou 160, sei lá! Juntando tudo, todos e idades, tínhamos ali, no auditório da ação cultural , um tempo que somado que chegava ao início do império romano, quer dizer: há uns 200 anos a.C. ou à arca de noé....
Foi legal, mesmo.
Tinhorão falou sobre a influência da cultura européia e norte americana na vida brasileira e a ligação da capoeira e o frevo pernambucano. Muito bom. Deu um show. Como se não bastasse, ele falou sobre temas que abordou em seus livros como O Negro em Portugal, O Fado, etc. Silêncio na platéia, enquanto ele falava. Falou também que o Brasil já não tem mais música popular brasileira. Sobre ele eu disse o que digo sempre: é um intelectual completo, um pensador, sem papas na língua, que diz o que diz, um não-hipócrita.
O encontro que tivemos  foi aberto com um pequeno documentário sobre vida e obra de Tinhorão, um documentário que ficou aquém do que deveria ser. É oque eu acho. Foi um documentário que enalteceu a parte negativa que entendem sobre a obra de José Ramos Tinhorão, o cara que é esculhambado por muita gente, que nem sequer o leu. Uma pena. Juntando tudo, os seus mais de 30 livros, não chega a 50 ou 60 mil   leitores. E dito isto, basta. Infelizmente.
No Instituto Memória Brasil ( IMB) há todos os títulos de Tinhorão.

CARNAVAL É TINHORÃO!!!
Amanhã 10 é dia de comemorar com alegria, cachaça e samba, os 90 anos de idade do historiador José Ramos Tinhorão. A comemoração, atenção pessoal, é ali na Vila Buarque, no bar da Amélia, a partir das 15 horas. Eu vou,  você vai?

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

CARNAVAL COM TINHORÃO NA VILA BUARQUE



Oficialmente a folia de Momo começa amanhã, 09. Extra oficialmente, digamos assim, essa folia não tem dia para começar e nem prá terminar.
Uma vez entrevistando Juca Chaves, o cantor e humorista modinheiro, ouvi conclusiva definição sobre os brasileiros nascidos na Bahia, disse-me Juca: "Baiano quando não está dançando está ensaiando".
E assim é, no Brasil inteiro.
Também amanhã estaremos trocando um dedo de prosa sobre a obra do historiador José Ramos Tinhorão. Isso ocorrerá a partir das 18:30 hs, na sede do Projeto Ação Cultural: Rua General Jardim, 660, Vila Buarque.
Já falei muito a respeito do Tinhorão, mas todo o momento é oportuno para falar dele. E também é sempre tempo para desmistificar a fama de ranheta, mau humorado, radical etc. Tinhorão é polêmico. Isso é verdade. Como pessoa, ele é um doce de coco: educado, simples, atencioso, solícito. Ele carrega todos as qualidades de uma pessoa civilizada. Um cidadão incrível! Ele completou 90 anos de idade no último dia 07. Na foto acima, feita na minha casa por Cris Alves, aparecem Rômulo Nóbrega, eu, O tinhorão e o cartunista Fausto.  
O News letter Jornalistas & Cia desta semana traz uma saborosa entrevista que Wilson Baroncelli fez com Tinhorão. Confiram:


E depois de amanhã, 10, grupos de samba de Mauá, Santos, Capital e outros lugares estarão batucando com alegria em nome de Tinhorão, No Bar Amélia 596, à Rua General Jardim, 596, Vila Buarque, a partir das 15 hs. Todos estão convidados para beber, pular e cantar em nome da alegria.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

OS BLOCOS ESTÃO VOLTANDO

Mais uma vez tive o prazer de receber  na sede provisória do Instituto Memória Brasil ( IMB), equipe profissional de jornalismo da TV Cultura. À frente, a repórter de sensibilidade agudíssima,  Luiza Morais. E mais uma vez falei sobre o que entendo: cultura popular.
Claro, claro, eu sei das limitações de tempo.
Tempo em televisão é eternidade. Trinta segundos, por exemplo, parece um minuto....
Receber mais uma vez, uma equipe da TV Cultura é dez.
Poxa vida, todos os momentos em que vivemos são momentos de discussão, de memória ou reflexão.
É carnaval!
O tema carnaval é tema para refletirmos sobre nós como pessoa e, principalmente,  sociedade.
Herdamos  dos nossos primeiros invasores, muitas coisas, inclusive o Entrudo.
O Entrudo foi a primeira manifestação carnavalesca, digamos assim, que tivemos.
O Entrudo foi um horror, no rigor do termo entendível.
À equipe da TV Cultura eu teria que falar sobre marchinhas e blocos.
Os blocos carnavalescos, no Brasil, começaram com Entrudo. Quem trouxe isso para o Brasil foi o português, José Nogueira de Azevedo Paredes. Era sapateiro, pequeno comerciante.
Pois bem, eu deveria falar a TV Cultura sobre marchinhas e blocos.
A primeira marchinha de carnaval foi criada pela carioca Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Ó Abre Alas.
Eu falei muitas coisas sobre o carnaval brasileiro, naturalmente desde as suas origens.
Falei também que o carnaval de 2018, este em que estamos vivendo, será o carnaval político; politicamente incorreto....e não adianta a gente ficar falando sobre os sexos dos anjos, ou seja: que o negro não é negro, que o branco não é branco....
Na música brasileira se acha  o comportamento do ser brasileiro com seus acertos e desacertos.
Anotem aí: os blocos de carnaval estão voltando para ocupar o espaço que sempre tiveram.



TINHORÃO É MADEIRA QUE CUPIM NÃO RÓI

Audálio Dantas, Tinhorão e as cantoras Célia e Celma
na casa do Assis onde costumeiramente se encontram...
Ali pelo meio da manhã. liguei para Tinhorão perguntando como ele se sentia no dia em que faz 90 anos de idade."Bobagem, quero que isso acabe logo", ouvi dele após uma risadinha sarcástica.
Não é modesto e besta não é. José Ramos Tinhorão é o mais competente e desafiador estudioso da história do Brasil, a partir da cultura popular. Isso é óbvio e por ser óbvio não nego o que vejo.
Tinhorão nunca recebeu um prêmio em dinheiro ou troféu. Mas forte que é, insiste ainda aos 90 anos a pôr os pingos nos i.E, diga-se de passagem: nunca fez nada para receber prêmio algum. Prêmio, para ele, é sua própria vida.
Desconheço alguém que conheça tão bem sobre a nossa  cultura popular. E é crítico, sem papas na língua. A ele não importa agradar a seu ninguém, a "a" ou "b". Pra ele acima de tudo a verdade histórica. Claro que há outros estudiosos abnegados, mas a maioria desses dedica-se à biografias, como Laurentino Gomes...
Pesquisar, estudar, dá um trabalho dos infernos, mas ele vai em frente. Agora mesmo, está escrevendo mais um livro. Dessa vez sobre licenciosidade na cultura popular.
Vai ser muito difícil surgir alguém que se dedique tanto à pesquisa como José Ramos Tinhorão.
Você meu amigo, minha amiga, sabe que Tinhorão já se meteu a fazer poesia e desenhos? E por falar nisso,  dedico a ele  estes versos que acabo de fazer:

Nessa nossa terra tem
Xote, xamego e canção
Frevo e maracatu
Samba, batuque e baião
E poeta popular
Tirando verso do chão.

É uma terra bonita
Que dá vida, dá lição
Ensinando a sua gente
A ter mais educação
A ler para entender
O Brasil de Tinhorão

Esse mestre logo pôs
A cultura em discussão
Pra depressa entender
Sua origem e formação
Ora juntos aplaudamos
J.R.Tinhorão.

Folha de S.Paulo
E não é que o "pluralista" Jornal paulistano FSP dedicou, hoje, uma página inteirinha ao nosso José Ramos Tinhorão? pois é, procurem ler o que foi dito. No site da própria Folha, por exemplo. Aliás, a própria Folha noticia um encontro que teremos sexta, 9, com Tinhorão e sua biógrafa: Elisabeth Lorenzotti. Não sei de cabeça o local. Está na Folha.

ELISABETH LORENZOTTI
Elisabeth escreveu um belo livro sobre a vida e obra de Tinhorão.O livro abre com ela apresentando o mestre:
 Ele sempre nadou contra a corrente. Escreveu que a Bossa Nova é uma variante americana do samba, tão brasileira como um carro montado no Brasil. Que João Gilberto inventou um jeito de cantar para adaptar a música brasileira ao estilo americano. Garantiu que Sinhô havia inventado a batida da Bossa Nova com quase 30 anos de antecedência.
Personagem singular da história do jornalismo brasileiro, trata-se do único que, a partir de seus artigos em jornais, começou a construir uma outra carreira, a de historiador da cultura urbana.  Hoje, seus artigos  reunidos em livros são respeitável fonte de estudos e pesquisas, assim como toda sua obra de historiador.
Alma de pesquisador que se revelou quando o poeta e criador de jornais Reynaldo Jardim encomendou, em 1961, no Jornal do Brasil : “Tinhorão, faça uma série sobre música popular brasileira”. Mas não havia livro, nem pesquisa, quase nada sobre isso. “Então se vira, vai entrevistar o pessoal, recorta jornais”, aconselhou Jardim. Um e outro não tinham idéia de que naquele momento -- por acaso, sorte, oportunidade, conjuntura astral? – estava dado o primeiro o passo para uma carreira ímpar no jornalismo.
Ímpar porque o jovem José Ramos foi contratado pelo Diário Carioca e por todos os outros jornais e revistas em que veio a trabalhar – Jornal do Brasil,  Correio da Manhã, O Cruzeiro, O Jornal, Última Hora, revista Veja , entre outros – para a função de redator, copydesk ou copidesque, termo recém adaptado do jornalismo norte-americano nos anos 50.
Ele sempre se refere à “humilde função de copidesque”, na qual o jornalista não assina matérias, não escreve o texto de sua autoria, apenas torna mais legível o que o outro escreveu, e muitas vezes faz milagres.
Nesta função o jovem José Ramos começou em 1952 no pequeno e famoso Diário Carioca, onde Pompeu de Souza e Danton Jobim introduziram uso do lead e o primeiro, enxuto e corretíssimo, manual de redação. Uma revolução na imprensa brasileira.
Lá ele ganhou o apelido de Tinhorão, que se tornou um sobrenome-adjetivo, pois eis que se trata de uma planta tóxica. E por ter se destacado como exímio fazedor de textos-legendas, recebeu um epíteto apropriadissimo: “Tinhorão, o legendário”.
Poderia ter ficado como copidesque a vida toda. Mas não o irriquieto Tinhorão, que fazia suas pesquisas e escrevia desde sempre nos suplementos de cultura de tantos veículos. E que nos anos 70, já em São Paulo, para onde viera fazer parte da primeira turma da revista Veja, lançada em 1968, foi chamado para fazer crítica no Caderno B do Jornal do Brasil.
Aí se cristalizou a fama de chato, que já havia se formado em fins da década de 1950, começo da de 1960, com suas críticas à Bossa Nova e seu nacionalismo. A colaboração na coluna foi extinta em 1981, segundo o informaram, um corte por medida de economia.
A par da vida jornalística, que tanto exige dedicação intelectual e física, Tinhorão já escrevia livros, desde 1966.
Em 1980, infeliz com a profissão e com sua vida pessoal, largou literalmente tudo e tornou-se um quase ermitão, um militante solitário da cultura, vivendo literalmente dentro da pesquisa: seu quitinete de 31 metros quadrados entupido de livros, discos, partituras, documentos raros e de incrível valor. Mas era feliz, fazendo o que queria, embora vivendo com estreita margem financeira.
E suas pesquisas, então, já haviam causado mais polêmicas: ele disse que o samba nasceu na Cidade Nova, no coração do Rio, e não no Recôncavo baiano. Que a modinha nasceu no Brasil e não em Portugal, e depois conquistou Lisboa. E que o fado também nasceu no Brasil. Descobriu que Lereno, o poeta e músico fluminense Domingos Caldas Barbosa, introduziu a modinha e o lundu na corte portuguesa por volta de 1770.
Hoje são 27 livros, editados entre Brasil e Portugal.
Embora sem contar com  o reconhecimento formal da academia (“esse pessoal come Tinhorão e arrota Mário de Andrade”, costuma observar),  suas pesquisas até hoje não foram refutadas e ele mesmo diz: quem quiser, que conte outra história, o que nunca aconteceu.  Suas opiniões, sim, sempre originaram grandes e raivosas polêmicas, até hoje, em menor intensidade e paixão, amenizadas pelo tempo e pelas tantas transformações das coisas deste mundo. Mas não do pensamento de Tinhorão, fiel ao seu método histórico, o materialismo dialético,  ferramenta de explicação dos fenômenos que trouxe luz às suas interrogações, ainda jovem.
Quem ouve falar dele, assim de orelhada, do seu nacionalismo e de suas contendas, pensa tratar-se de um ser mal-humorado, ranheta, tosco. Uma imagem oposta ao jovem Tinhorão que completou 80 anos em 7 de fevereiro de 2008. Ágil, vital,elétrico, engraçado, sempre com uma resposta afiada na ponta da língua, um tipo muito culto e erudito, apreciador da boa música e não só a popular. Esforçado, estudioso desde criança, o filho de imigrante português que, menino, foi mandado sozinho para o Brasil, não conheceu facilidades na vida e batalhou por abrir seu caminho.
Não era de noitadas depois de sair da redação, sempre teve muitas atividades, sempre foi freqüentador assíduo de sebos no centro do Rio e ávido recortador de jornais. Nunca recebeu patrocínio oficial, apenas uma parca bolsa de estudos no seu curso de mestrado em História Social, na Universidade de São Paulo.
Empreendedor de sua própria obra, portanto, é alguém a quem o país só tem a agradecer (mesmo discordando dele algumas vezes).





segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

IDEIAS DE TINHORÃO VIRAM TESE DE MESTRADO

Eu já disse que aqui e acolá é possível encontrar alguma tese sobre José Ramos Tinhorão e a sua obra, extensa e valiosíssima. Quem procura acha, e achei. 
Em 2008 Luisa Quarti Lamarão debruçou-se sobre os escritos de Tinhorão no Jornal do Brasil. O resultado disso foi a dissertação de mestrado a que intitulou As Muitas Histórias da MPB, as ideias de José Ramos Tinhorão. Eu gostei. São 155 páginas cuja a leitura recomendo.
O trabalho de Luisa Lamarão, apresentado á banca especial da Universidade Fluminense, é realçado pelos pontos de vista políticos do polêmico autor. Clique:




domingo, 4 de fevereiro de 2018

TINHORÃO, UMA LEITURA NECESSÁRIA

José Ramos Tinhorão, Monarco e Elizabeth Lorenzotti, no lançamento de Tinhorão, o Legendário
Eu já disse e digo de novo: O Brasil é o quinto maior país do mundo em espaço e população. São quase 9 milhões de quilômetros quadrados e mais de 200 milhões de habitantes. Aqui em se plantando tudo dá, disse o primeiro missivista que pôs os pés no Brasil, o português Pero Vaz de Caminha, em 1500.
No nosso País sempre houve briga, massacres, guerras.
Não faz muito, o Papa Francisco canonizou de uma só vez 30 ou mais vítimas da violência holandesa no Rio Grande do Norte, RN.
Há escravos no Brasil desde a chegada dos primeiros invasores...
Em 1539, já havia escravos negros por aqui.
No final do século 19, a princesa Isabel assinou famoso documento de libertação dos negros escravos.
Foi, não, foi ainda se ouve notícia da existência de escravos negros e brancos no território nacional. Uma vergonha!
O brasileiro de Santos, SP, José Ramos Tinhorão desde sempre tem direcionado holofotes à escuridão histórica em que nos vemos mergulhados.
Na trintena de livros que já publicou, Tinhorão falou de tudo e mais um pouco, a partir da música e da dança. É assim, por esse meio, que ele tem trazido à tona a nossa história. A propósito, repito: há muito defendo a necessidade de os livros dele serem adotados nas escolas públicas em todos os níveis.
Tinhorão nunca fugiu da raia, da briga, da discussão em torno da formação cultural do Brasil. A prova são seus livros e entrevistas publicadas há muito tempo e o tempo todo em todos os meios. Não à toa transformou-se no historiador mais polêmico até os dias de hoje. É lido, consumido no meio acadêmico. Mas, aparentemente, esse meio não o digere como deveria, citando-o, por exemplo.
Aqui e acolá é possível achar teses universitárias sobre Tinhorão. E até um livro já foi publicado sobre ele. Esse livro, Tinhorão, o Legendário (Imprensa Oficial, 2010) de Elizabeth Lorenzotti, é um mergulho na vida e obra desse grande brasileiro. A biografia foi muito bem recebida pela imprensa, confiram ao lado.
A leitura é recomendadíssima.

Não resisti e acabo de fazer umas perguntas à autora do livro, Elizabeth. Deleitem-se:


1.      Quando e por que você decidiu escrever a biografia de José Ramos Tinhorão? 

     Eu havia feito uma entrevista com ele para a revista Sem Terra, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que dedicava um bom espaço para a cultura. Já era sua leitora desde O Pasquim,e morria de rir com sua língua ferina, mesmo não concordando com muita coisa.Um dia, batia um papo com o Paulo Moreira Leite-que estava de passagem pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, tratando da  edição do meu livro “Suplemento Literário- Que falta ele faz!”. Então o Paulinho me disse: você gosta muito de música popular não é? Por que não escreve a biografia do Tinhorão?”
     Ele estava reativando a coleção Imprensa em Pauta. Eu adorei a ideia e aceitei. 

2.       Ele colocou algum empecilho para que isso não se concretizasse?

     De jeito nenhum. No começo talvez, mas foi convencido.

3.       Quais as maiores dificuldades que você encontrou para mergulhar na vida de Tinhorão?

     Nenhuma. Tinhorão tem guardadas todas as matérias que escreveu na vida, desde o primeiro texto legenda para o Diário Carioca. Ele levava material toda a semana, na ex-querida livraria Metido a Sebo, na Vila Buarque, onde sentávamos em banquinhos no pequeno quintal e conversávamos. Os entrevistados também não dificultaram.

4.       O que foi mais difícil: o acesso a ele ou a toda sua obra?

     Não houve dificuldades, porque ele facilitava qualquer acesso a qualquer das obras, com sua memória fantástica, e me indicava. E ele tem todos os livros.

5.       Quais livros você desataca como fundamentais da obra de Tinhorão?

     O que eu gosto mais é Historia Social da Musica Popular Brasileira. Indispensável. Foi publicada primeiro em Portugal, em 1990, vejam só. Pesquisas minuciosas, desde a Torre do Tombo em Portugal, e tudo comprovado. E a visão discordante sobre a MPB de tudo o que se havia publicado até então.

6.       A seu ver, Tinhorão é rejeitado pela academia?

     Acho que hoje nem tanto. Há citações da sua obra em sites internacionais. Mas aqui ele sempre foi tratado, na academia, como “o jornalista” e não como grande sociólogo, historiador da nossa cultura urbana. Diz: “A academia come Tinhorão e arrota Mário de Andrade”. Porque ele sempre foi fonte, e também porque, afirma, os acadêmicos em geral não são acostumados a se embrenhar em sebos poeirentos, como ele fez a vida inteira. E Tinhorão iniciou sua pesquisa quando a academia não se preocupava com estas questões: não havia um livro para consultar na época em que começou a escrever (porque havia se encerrado uma série sobre história do jazz), convidado por Reynaldo Jardim, no Jornal do Brasil. ”Mas Reynaldo, onde é que eu vou pesquisar? Não tem nada.” E o Reynaldol:” Sai por aí e entrevista a crioulada”. Foi o inicio.

7.       Você acha que escreveu a biografia completa de Tinhorão?

     Eu acho que seria preciso mais alguns livros para contar a história dessa grande figura.A cada encontro com ele conta alguma coisa interessante do passado e eu: “Mas Tinhorão, por que você não me contou isso para a biografia?”
     Acontece que o repertorio é tão vasto que nem mesmo sua ótima memória lembraria tudo, só aos poucos.
     E tem também o que sei mas não publiquei, afinal, é uma biografia autorizada, e o Tinhorão não é mole não! Porém,não  se trata de nada que embace o brilho de sua contribuição à nossa historiografia e sociologia da MPB. Folclore não entrou,e  como disse o João Máximo na matéria de 2010 no Globo:”o livro retrata o jornalista, e não a lenda”.




terça-feira, 30 de janeiro de 2018

ALÔ BRASIL, TINHORÃO ESTÁ VIVO!





Garimpeiro de bom quilate, José Ramos Tinhorão é o que sempre mostrou ser: um brasileiro de valor.
Detonado pela esquerda e pela direita, Tinhorão chega aos 90 anos de idade incólume e lépido.
Advogado e jornalista, Tinhorão sempre soube separar o joio do trigo. Nunca defendeu causa alguma em nenhum tribunal, mas como jornalista marcou profundamente a vida brasileira, especialmente a cultural. Detalhe: Nunca deixou de dizer o que quis, seja no rádio, na tevê ou nos seus escritos em jornais e revistas.
Tinhorão iniciou a vida profissional de jornalista no extinto Diário Carioca, do Rio de Janeiro, no começo dos anos de 1950. No fim dessa década, ele criou o que ficou conhecido como "texto-legenda". Texto-legenda é o texto feito a partir de uma fotografia, que se baseia entre o texto jornalístico propriamente dito e o texto poético, fora de pauta.
Textos-legenda de Tinhorão chegaram a ter autoria atribuída ao poeta maranhense Ferreira Gullar.
Até hoje, Tinhorão é considerado um dos melhores textos do jornalismo brasileiro.
No Caderno B do Jornal do Brasil, Tinhorão assinou a mais importante coluna semanal sobre música popular brasileira, intitulada Primeiras Aulas de Samba, que assinava com seu colega Sérgio Cabral.
No campo da música popular, Tinhorão tornou-se a maior referência. A sua obra chega a casa dos 30 títulos, metade deles lançada ou relançada pela Editora 34.
José Ramos Tinhorão, santista nascido no dia 7 de fevereiro de 1928, meteu-se fundo pelas veredas da história, da cultura popular brasileira. Entrevistou quase todos os grandes criadores de música dos últimos 60 anos, entre os quais Donga, Pixinguinha, João da Bahiana, Ismael Silva, Almirante, Luiz Gonzaga e Nelson Cavaquinho, que, aliás, abriu a coluna Música Popular assinada por Tinhorão a partir de Janeiro de 1974, no Caderno B do Jornal do Brasil. 
Os bossanovistas só faltaram perder o juízo por causa dos textos concretos publicados por Tinhorão.
O nome de batismo de Tinhorão é José Ramos, só José Ramos. Tinhorão foi um "sobrenome" dado por um dos seus chefes de redação, no Rio. No caso, nada a ver com a venenosa planta que carrega esse nome.
Tom Jobim detestava Tinhorão. Diz a lenda que Jobim teria comprado um vaso com essa planta e sobre ela fazia xixi toda a vez que chegava em casa meio chumbado.
Tem uma música que Elis Regina gravou, Querelas do Brasil, composta depois que Tinhorão disse que o melhor de João Bosco era Aldir Blanc, seu parceiro.


Tinhorão por Nair de Teffé

Há muito disse me disse sobre José Ramos Tinhorão. Sobre ele a jornalista, poeta e professora universitária paulistana, Elizabeth Lorenzotti escreveu Tinhorão o Legendário, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em 2010. Nesse livro há histórias do Arco da Velha e até a reprodução de uma caricatura de Tinhorão feita por Nair de Teffé, Rian, a primeira caricaturista do Brasil (acima). Não custa lembrar que Nair, filha do Barão de Teffé foi a mulher do marechal presidente Hermes da Fonseca (1910-1914). Detalhe: Em março de 1977, Tinhorão descobriu Nair de Tefé morando sozinha nos arrabaldes do Rio de Janeiro. Como repórter deu um furo de reportagem nacional.

Muito já se escreveu sobre Tinhorão e muito ainda se escreverá sobre ele. Em resumo: Tinhorão é duro na queda, é árvore que não cai, que sobrevive a todas as intempéries. A propósito, o cartunista Fausto o interpreta de modo perfeito, acima.
Não custa dizer, e é sempre importante dizer, que a obra de Tinhorão é a mais completa no campo da pesquisa musical feita até hoje no País. Aliás, é impossível alguém escrever sobre música popular brasileira sem citá-lo. Ah! uma curiosidade: no filme Bonitinha mas ordinária, de Nelson Rodrigues, Tinhorão é personagem... Agora pura provocação: ouçam o grupo musical Filarmônica de Passárgada, interpretando a saborosa canção Enfartando Tinhorão.



"Acho que estou ficando velho", disse-me outro dia ao queixar-se de uma dorzinha nas costas. Em outra ocasião disse-me "ficar velho é uma merda".

Digam o que disserem de Tinhorão, mas a sua obra é inconteste, de valor imensurável. Tinhorão é o mais importante e longevo estudioso da cultura popular brasileira. Nenhum estudioso dessa cultura viveu tanto para mostrar a grandeza do país através da sua história.
Cadê os repórteres de revistas, jornais e tevês que não o entrevistam? Ele tem ainda muito o que contar.


COMEMORAÇÃO


No próximo dia 10, a partir das 15 hs, amigos e "inimigos" de Tinhorão vão se reunir no Bar do Raí, ali na Vila Buarque, centro paulistano. A ideia é brindar os 90 anos de idade do incansável e polêmico José Ramos Tinhorão, vamos? O dia 10 é um sábado de carnaval.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

LULA É FOGO NA ROUPA!


Fogo Pagô é o título de um forró supimpa do eico repertório do saudoso paraibano Sivuca. Fogo Pagô também é o nome de um passarinho que bate asas no Nordeste de meu Deus do Céu (acima).
Fogo é fogo.
No Nordeste tem uma expressão que guardo na memória desde os meus tempos de criança. Essa expressão serve prá definir um sujeito bravo, temido. Esse temor provocado pelo cabra pode ser contínuo ou passageiro. "Fulano está com fogo na roupa", ou "Fulano tem fogo na roupa". Seria o caso de dizer: "Lula está com fogo na roupa".
O Brasil todo e boa parte do mundo está falando de Lula, do bater do martelo dos juízes de Porto Alegre, que resultou em confirmação de sentença do juiz de Curitiba, acrescida de mais quase 3 anos de condenação.
Perguntei a uma amiga que mora no Chile o que pensam os chilenos do brasileiro Lula: pensam que Lula está sendo perseguido por ser pobre".
Há muito tempo o Brasil é conhecido mundo afora por suas mazelas.
Em dezembro de 2016 a febre amarela voltou a mostrar que "tem fogo na roupa". Isso foi em Minas. E o surto está aí levando milhares, milhões de pessoas a formar filas em busca de vacinação. Muita briga, muito desentendimento com a presença da polícia etc. 
Nos jornais, hoje, a notícia de gente matando macaco com medo da febre amarela. Um Horror! Macaco não transmite a febre. Macaco é vítima do mosquito que transmite a febre.
Hora dessa falarei de povo, da formação do povo etc.
A febre amarela mostrou pela primeira vez a sua cara em 1685. E mostrou a sua cara feia que nem o bute. Primeiro em Recife, Olinda e na Ilha de Itamaracá, estendendo-se a Goiânia e Salvador.
No capítulo 32 do belíssimo romance Esaú e Jacó, o autor Machado de Assis faz referência a febre que muitos milhares de vítimas tem feito no correr do tempo. Oswaldo Cruz, o grande sanitarista criou no começo do século passado vacina para o mal, mas ele está aí, vivo que nem Lula.




SÃO PAULO, 464 ANOS



Entre as milhares de músicas feitas em homenagem a São paulo, além de Sampa, dá para destacar Perfil de São Paulo, do paulista Francisco de Assis Bezerra de Menezes, que o carioca Sílvio Caldas lançou em 1954. De destaque também são as composições de Nelson Gonçalves e  do gaúcho Teixeirinha, ouçam, pela ordem:








terça-feira, 23 de janeiro de 2018

SÃO PAULO, SECA E NORDESTE

Os estrangeiros começaram a chegar no Brasil em 1898, século 15. Foi um espanhol a mando do rei português Dom João III. Em 1500, foi a vez de Álvares Cabral aportar na Costa baiana, e tudo virou um inferno. Os índios foram dominados e de África começaram a chegar os escravos. Já em 1540, o inferno tropical estava posto.
São nove os Estados que formam o Nordeste, ocupando cerca de 1,5 milhão de Km².
E aí veio, fugido de Bonaparte, o gorducho imperador Dom João VI, que aqui botou banca. E Dom Pedro I e Dom Pedro II e o fim da monarquia com o alagoano Marechal Fonseca, em 1889.
Em 1822, foi dado o grito de independência ali a beira do hoje poluído riacho do Ipiranga.
Em 1922, o presidente da república era o paraibano Epitácio Pessoa, que vinha a ser parente do cidadão que desde 1930 dá nome à Capital paraibana.
Em 1554, os jesuítas Nóbrega e Anchieta demarcaram e fundaram a cidade dos paulistanos.
O Nordeste sempre foi a região mais explorada, agredida e abandonada do País, desde sempre.
Muitos movimentos revolucionários e guerras marcaram a vida nordestina.
Uma vez os holandeses invadiram o Rio Grande do Norte e judiaram do povo de todas as formas. Muita gente morreu na ocasião.
Há pouco o Papa Francisco santificou de uma vez só um grupo de 30 nordestinos do Rio Grande do Norte.
Há sete anos o Nordeste todo pena com a seca que bate e abate bichos e gente.
Dos 400 e tantos açudes e barragens do Nordeste, cento e poucos estão completamente vazios com o solo esturricado. E o governo federal nem, nem. Igualzinho ao comportamento dos governos estaduais.

O grande cidadão musical Luiz Gonzaga, ciente e lamentoso das condições precárias do povo da região que deu Bárbara de Alencar, avó do escritor cearense José de Alencar, gravou uma obra prima da sua lavra: Sertão Sofredor:

A construção do Município de São Paulo começou no Pátio do Colégio, ali nas proximidades da Sé.
No correr de mais de 20 anos, desenvolvi uma pesquisa que resultou em mais de 3.000 títulos musicais que tratam, de uma forma ou de outra, desse município, que se transformou no quinto maior do mundo em termos populacionais e industriais, e nesse município, que tem o mesmo tamanho territorial do Nordeste se acham brasileiros de todos os recantos do país.

Os mais de 3.000 títulos musicais que colhi durante a pesquisa são de autoria de mais ou menos 7.000 compositores. Para ilustrar ouçam os links abaixo:




LULA

Do que mais se fala hoje é sobre o destino do ex-presidente da república Luís Inácio Lula da Silva: a sentença que recebeu do juiz Sérgio Moro será ou não confirmada pelos juízes de Porto Alegre? Podia-se falar sobre a seca do Nordeste, e não só sobre a seca do Nordeste, mas sobre a solução para os tantos problemas que afligem o país, não é mesmo? Sete anos de seca não é bolinho... O amigo paraense José Pinto, do alto dos seus 88 anos de idade a se completarem no próximo dia 27 de novembro, fala sobre isso, sobre o abandono do Nordeste brasileiro. E resume: "quem pecou que pague os pecados, e seja quem for".

domingo, 21 de janeiro de 2018

BRASIL, UM PAÍS DA IGNORÂNCIA

Assis  e Cortez (D) no Instituto Memória Brasil (IMB)
O potiguar de Currais Novos, José Cortez, fundador da Cortez Editora, foi atingido pela crise econômica que se estabeleceu no Brasil gravemente há um ano e pouco.Perdeu a livraria, mas não a esperança de produzir e viver. Ele é daquelas pessoas que bebem no poço da esperança, que nunca seca.Felizmente.
Pois bem, como empresário do ramo editorial  no País, Cortez é direto: "as pessoas estão cada vez mais lendo menos livros".
O tema vem à tona, por uma razão pura e simples: fica-se hoje mais tempo diante da telinha da TV e do computador , incluindo celular, segundo pesquisas divulgadas por aí afora.
Os sinais de ignorância são visíveis, não é mesmo?
O Enem 2017 registrou 4, 72 milhões de candidatos. Desse total 309.127  receberam  zero daqueles enormes, grandões. Do total de inscritos, apenas 53 candidatos receberam a nota máxima de 1000 pontos.Vejam: apenas 53!
O tema da redação que resultou em tantos milhares de zero, foi oportuníssimo por se tratar de interesse geral e social. O tema foi: Desafio para a formação educacional de surdos no Brasil.
O total de pessoas que apresentam algum tipo de deficiência no nosso país é, segundo dados da última pesquisa IBGE (2010), chega a casa de 40 milhões. Nessa mesma pesquisa, foram identificados aproximadamente  9 milhões de surdos moderados e total.
Eu digo que o tema Enem 2017 foi oportuno por uma razão:para chamar atenção do grave problema social que são as deficiências nas pessoas do Brasil e do mundo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), garante que há 42 milhões de surdos nos 4 cantos do nosso planetinha que tanto  judiamos.
Vivemos uma tragédia, e não uma tragédia grega. A nossa tragédia é uma tragédia brasileira, brasileiríssima.
A tragédia que vivemos é total, vai desde o desemprego à falta de especialização profissional. E aqui nem me refiro aos deficientes auditivos, visuais, etc.. Convivemos também com mais de 12 mihões de analfabetos totais, ou seja, o cidadão que não é cidadão, e nem sabe o que é isso, tampouco distingue um "o" de roda de caminhão.E tem mais, temos o analfabeto funcional, cujo total chega a 30 milhões. Você sabe o que é um analfabeto funcional? é aquele que até consegue obter um diploma universitário, mas é incapaz de raciocinar sobre um texto.
O paulista de Taubaté, Monteiro Lobato (1882-1948) dizia que " quem lê mais, sabe mais" e que " um país se faz com homens e livros". E se lemos tão pouco e nos interessamos tão pouco pela cultura, pelos rumos do país que nascemos, que país podemos ter amanhã?
O poço da ignorância em que vivemos é profundíssimo ou não é?
O austríaco Stefan Zweg (1881-1946), que morreu em Petrópolis- RJ, escreveu um livro bastante interessante: Brasil, um país do futuro, mas essa é outra história.


A CUÍCA QUE FALA, CHORA E RI É DE OSVALDINHO

Osvaldinho da Cuíca, André Domingues e Assis Ãngelo na verdadeira rede social.

Todo tempo é tempo de falar ou escrever sobre os artistas incluindo cantores e compositores que engrandecem a terra brasileira. E temos muito que plantaram e colheram respeito traduzido em homenagens. Foram-se já muitos, mas muitos outros ainda permanecem plantando obras na história do Brasil. Do Brasil musical, do Brasil cultural, do Brasil do branco, do preto, do pobre, das gentes.
Osvaldo Barro, que o Brasil e boa parte do mundo conhece pelo diminutivo de Osvaldinho com o sobrenome do instrumento que reinventou, a cuíca, é um dos grandes artistas que enobrecem a cultura popular. Ele é paulistano, do bairro do Bom Retiro, nascido num dia de carnaval em 1940. E corintiano!
E você sabe, meu amigo, minha amiga, quem é André Domingues?
André Domingues é pesquisador da cultura musical popular, paulistano, que hoje vive numa cidadezinha baiana bem longe da capital Salvador, chamada Teixeira de Freitas.
Em 2009 Domingues, junto com Osvaldinho, publicou um livro de extrema importância para a compreensão do samba fincado em São Paulo, do rural ao batuque. Esse livro tem por título Batuqueiros da Paulicéia.


Osvaldinho da cuíca enveredou pelo mundo do samba ali pelos finais da década de 1950. Ele já gravou com todo mundo, dos bons aos melhores sambistas. E não só de São Paulo. Fora a cuíca que reinventou, ele tem centenas de composições gravadas por meio mundo. Só de sambas de enredo puxados na avenida ele tem uns 30. E há pouco pôs na praça um disco com 11 faixas reunindo alguns desses sambas. Esse disco tem como título Sambas Enredo: História de Uma Vida. Nessa coletânea há verdadeiras pérolas como Na Arca de Noel Rosa, faixa 4 e Cuíca de Ouro, faixa 10, de R. do Cavaco, Thiago, Juninho e Nunes, em homenagem ao próprio Osvaldinho. Em 2008 a Escola de Samba Vai-Vai ganhou o carnaval com Acorda Brasil, faixa 8.





Em Teixeira de Freitas, André Domingues dá aulas de artes na Universidade. Ele já anda por lá há bons pares de anos e não pensa voltar à Paulicéia. Porém, anteontem, 19, ele esteve comigo cá no bairro de Campos Elíseos onde moro, ele e Osvaldinho. Foi um papo e tanto, que durou até o começo da madrugada de ontem. O registro desse belíssimo encontro pode ser conferido aí em cima, numa rede bem melhor do que a rede social que balança por aí que em vez de ligar, desliga as pessoas. Desliga, envenena e aliena.
E pra fechar, que tal ouvir Osvaldinho num solo de cuíca? A cuíca de Osvaldinho fala o que tem de falar, ri quando acha que deve e chora pela loucura em que está se transformando a política nacional. A propósito, Osvaldinho tem andado decepcionado e triste como o quê. Tem dado muito chute em pau de barraca.





ANDRÉ DOMINGUES


André Domingues é crítico musical e hoje leciona no curso de Artes da Universidade Federal do Sul da Bahia, na cidade de Teixeira de Freitas, no extremo sul do estado. Antes mesmo de se graduar em Filosofia, pela Unicamp, começou a publicar críticas e reportagens sobre música popular na imprensa paulista. Essa paixão foi levada para a academia nas posteriores pesquisas de mestrado e doutorado em História Social, na USP, dedicadas a temas como a obra de Dorival Caymmi ou a formação de vanguardas populares na MPB. É autor dos livros Os 100 Melhores CDs da MPB (Sá Editora, 2004) e Caymmi Sem Folclore (Editora Barcarolla, 2009), além de assinar com o mestre Osvaldinho da Cuíca o livro Batuqueiros da Paulicéia (Editora Barcarolla, 2009), de que tratou este blog.

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