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sábado, 4 de novembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (50)

Como expressão artística, a licenciosidade se acha em tudo quanto é língua no vasto campo da cultura popular e erudita. Seja na música, na dança, na poesia, no romance e em todo canto mais.
A poesia popular é a poesia feita por pessoas não letradas, sem nenhuma ou pouca frequência nos bancos escolares; ao contrário do que podemos classificar de erudito ou erudita.
Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Drummond eram eruditos, por exemplo. 
A licenciosidade como tal conhecemos e chamamos se acha nas culturas espontâneas ou fabricadas desde os
tempos de tresontonte, também conhecido como tempo em que galinha tinha dente e voava que nem águia. 
Até hoje o Brasil gerou centenas de ótimos poetas populares como Leandro Gomes de Barros, Zé da Luz, Patativa do Assaré, Manoel Monteiro,  Franklin Maxado, Klévisson Viana, Marco Haurélio.
Populares aí falei de homens, mas não são poucas as mulheres que se aventuram nesse campo. Entre essas Dalinha Catunda (Maria de Lourdes Aragão Catunda), Bastinha Job (Sebastiana Gomes de Almeida Job), Nevinha (Maria das Neves), que entrou para a história da cultura popular ao publicar o primeiro folheto intitulado O Violino do Diabo ou o Preço da Honestidade. Ela usava o pseudônimo do marido. Mas essa é outra história. 
José Ramos Tinhorão era um jornalista dono de uma bagagem intelectual invejável. Era um erudito, podemos dizer. Saia-se bem em espanhol, italiano, inglês e francês, que conseguia falar sem sotaque e escrever sem erros gramaticais. Deixou publicados 29 livros, todos tratando a fundo sobre música popular, o primeiro (Música Popular - Um Tema em Debate) lançado em 1966.
Era propósito de Tinhorão fechar o ciclo de pesquisas que iniciou em fins dos anos de 1940 com um livro sobre licenciosidade ou "putaria", como dizia fazendo graça aos amigos mais próximos. 
Ele achava um barato e como tal respeitava os cordelistas, também chamados de "poetas de bancada". 
De fato, os cordelistas são grosso modo bastante inspirados.
A literatura de cordel é classificada por ciclos temáticos: religião, cangaço, guerra, política,
personalidades, esporte, erotismo, feitiçaria, gracejo e tal.
Dentre o material "garimpado" para fechar seu próprio ciclo como pesquisador ou historiador como preferia ser chamado e não como crítico musical, Tinhorão começou a reunir folhetos de cordel e livros nacionais e estrangeiros que tratassem de putaria. Foi assim que caíram em suas mãos Manoel Monteiro, Franklin Maxado, Klévisson Viana, Bastinha Job, Dalinha Catunda e outros.
No folheto de oito páginas Um Jumento e Duas Doidas as autoras, em peleja, se desafiam numa quase agressão. Começa assim:

DALINHA CATUNDA 

Eu sou nordestina
Da cabeça chata
Raiva não me mata
E nem me alucina
Olhando sua crina
Pensei em montar 
Se me derrubar 
Não tem nem talvez
Até lhe amansar


BASTINHA JOB

Também sei montar
Cedinho aprendi
Jamais esqueci
Achei bom trepar
Melhor é gozar
De tanto prazer
Corpo e alma gemer
Sentir alegria
Que até contagia
Quem meu verso ler!...


O paraibano Manoel Monteiro sustentou a família publicando e vendendo folhetos Nordeste afora. Era chegado a gracejos e até explícito nas suas incursões que fazia no campo erótico. Em Mulher Gosta de Ouvir, por exemplo, indicava já na capa ser "impróprio para menores de 90 anos". Veja:

Qual a mulher que não gosta
De ter o homem que ama
Com o corpo nu sobre o seu
No vai e vem duma cama
Ofegante e meio torpo 
Com as mãos a roçar-lhe o corpo 
E a boca a sugar-lhe a mama?...


(CONTINUA…)

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

PAPO BOM COM WOILE E REGINA

Regina, Woile e Assis

Você sabe quem é Woile Guimarães?
Pois bem, Woile Guimarães é um cidadão paulista de Glycério. Glycerense. Essa cidade fica a quase 500km da Capital paulistana.
Em 1975, ano do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, Woile tinha uns 30 e poucos anos e trabalhava na TV Globo. Ficou nessa TV durante década e meia. Chegou a ser editor do JN. Tem muita história pra contar.
É casado com a jornalista Regina que conheceu em 1977 nos seus tempos de TV Plim Plim.
Regina e Woile estiveram ontem 2 enchendo de alegria minha casa.
Woile deixou marca indelével na histórica revista Realidade, da hoje falida Abril. Ele lembra:
"Essa revista foi muito importante. Inovou no jornalismo com pautas ousadas e textos desenvolvidos muitas vezes na primeira pessoa. Provocou polêmicas ao discutir o aborto, por exemplo".
Nesse momento, lembrei do saudoso amigo Antonio Severo que um dia me disse ter pulado de um avião para, com emoção, escrever uma reportagem sobre paraquedismo. 
Ainda nesse momento lembrei que Audálio Dantas contando como fizera uma reportagem com o compositor Adoniran Barbosa, levando-o a "passear" nos subterrâneos da estação Sé do metrô.
Essa reportagem de Audálio foi uma das últimas da revista Realidade. 
Enquanto conversávamos sobre jornalismo, a coleguinha Regina mexia nas prateleiras do nosso acervo à procura de exemplares da revista. De repente, radiante anunciou ter achado números com o nome de Woile no expediente. Woile riu, orgulhoso. Disse: 
"O primeiro número dessa revista, trouxe na capa o rei Pelé. Muita coisa legal foi feita lá. Para tristeza de todos nós a Realidade mostrou em capa o repórter Zé Hamilton todo ensanguentado ao ser ferido no Vietnã".
O encerramento das atividades da revista Realidade, em 1976, deixou os leitores aflitos sem saber a razão de tal decisão.
No lugar da Realidade se acha até hoje a Veja, que foi às bancas pela primeira vez no dia 11 de setembro de 1968.
Nascido no dia 15 de dezembro de 1938, Woile muito cedo trocou a cidade de origem por Marília (SP), berço do cantor, compositor e instrumentista Sérgio Ricardo. Sim, isso mesmo: Sérgio foi aquele camarada que irritado com a platéia que o vaiava num Festival de Música quebrou o violão numa pancada e meia.
Sérgio Ricardo foi uma figura maravilhosa, marcante.
A última vez que me encontrei com Woile foi a vez em que saímos juntos com o saudoso Audálio Dantas e sua mulher Vanira, mãe da bela Mariana e da coleguinha jornalista Juliana.
Ontem falamos, falamos, falamos e até declamar, declamei. Declamei poesia de cego que compus como Poema dos Olhos.
Atualizada em questões diversas, Regina falou com tristeza até sobre os ataques do Hamas a Israel. Lá pras tantas, na base da conversa que vai e vem, Woile contou histórias que têm gosto de causo. 
Entre as histórias uma que tem o ex-todo poderoso da Globo, Boni: o telefone toca, alguém atende e chama Woile. É o Boni. Antes de concluir a frase "como vai, tudo bem...?" do outro lado uma voz enrolada dizia "Tudo bem porra nenhuma, seu filho disso e daquilo!". Woile tascou na mesma moeda: "Seu filho disso e daquilo é você  e sua raça toda!" e bateu o telefone.
Ao bater o telefone, Woile imediatamente ligou para o seu chefe mais próximo: Armando Nogueira. Disse que certamente seria demitido por ter feito o que fez.
Era Carnaval e por ser Carnaval Woile meteu na telinha uma insinuante e colorida bunda feminina. Boni não gostou.
Woile não foi demitido nem nada.
Como sempre fazemos os jornalistas da Velha Guarda quando nos encontramos, criticamos uns aos outros pelos erros gramaticais muitas vezes gritantes ditos no Rádio e TV. E como já não há mais a categoria de revisores nos jornais, os erros impressos grassam. Sem falar no notório despreparo de muitos coleguinhas, cuja maioria sabidamente não gosta de ler livros. É como se para eles não houvesse curiosidade. Ora! Sem curiosidade não há conhecimento e  sem conhecimento não se vai decentemente a lugar nenhum. 
Há pouco o que ver e ouvir hoje no rádio e TV.
O rádio continua sendo um veículo muito dinâmico. Ao contrário da TV. A Internet veio pra pôr ordem e desordem na coisa. Ordem no sentido de chamar a atenção do rádio e da TV para que primem pelos programas e profissionais que apresentam.
Na TV faltam bons programas. E por falar em bons programas, acaba de se findar o Podcast Foro de Teresina. Programaço! Durou 5 anos e meio e o motivo foi a demissão da jornalista Thais Bilenky e o pedido de demissão do jornalista José Roberto de Toledo. Ouça:


Você sabe quando surgiu o rádio no Brasil?
Faz 100 anos que o Rádio mostrou a que veio. É uma história longa.
O curioso disso tudo é que até há pouquíssimo tempo não havia um hino enaltecendo esse veículo. Pensando nisso, Jarbas Mariz e eu compusemos O Samba do Rádio. 
Ah! Sim: Woile deu amor à Regina que lhe deu filhos que lhes deram netos... O homem é ou não é feliz?
Agora meu amigo, minha amiga, ouça o sambinha que fizemos:

LEMBRANDO CARMÉLIA ALVES

O que passa rápido, nós ou o tempo?
Não sou filósofo, não sou nada, mas acho que o tempo não passa; nós é que passamos. 
Passei quase todo o meu tempo ouvindo dizer que o tempo não espera, que o tempo passa rápido e tal. E a máxima: o tempo é o Senhor de tudo.
Pois bem, num pano rápido, posso dizer que parece que foi ontem que morreu Carmélia Alves. 
Hoje 3 completam-se 11 anos do encantamento definitivo da cantora que entrou para a história da nossa música popular como a Rainha do Baião. 
Eu gostava muito de Carmélia. Era carioca filha de nordestinos. Sua voz era muito bonita, muito afinada. Interpretava tudo que quisesse: samba, marchinha de carnaval, frevo, toada, forró e baião. E até bossa-nova. Nesse rítmo e gênero chegou a gravar, em 1964, um LP inteirinho. No repertório do disco incluiu até uma música de Geraldo Vandré: Quem quiser encontrar o amor.
A Rainha do Baião morreu esquecida, viúva e sem ninguém, no Retiro dos Artistas, RJ.
No último 14 de fevereiro ela teria completado 100 anos de idade.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

REGINÓPOLIS EM BOAS MÃOS

Seja qual for a sua área de atuação, o artista pertence a uma categoria de pessoas sempre inspiradas e prontas, naturalmente, a inspirar outras pessoas.
Cantor, compositor, bailarino, ator, cineasta e até assoprador de apito, me entusiasmam.
E o que dizer de desenhista, pintor, escultor e cartunista?
O cartunista Fausto Bergocce é um dos mais sensíveis e criativos artistas do traço que conheço. 
Fausto está sempre com uma ideia nova nos fazendo pensar e rir.
Ele leva tudo ou quase tudo na brincadeira, mas sempre com olhar arguto, crítico. "Estou deixando um pouco de lado o cartum. Não é por nada, não. É que estou chegando neste mês de novembro aos 71 anos de idade. Quero relaxar mais", ele diz.
Fausto e eu acabamos de levar à praça o livro Histórias de Esquina. O prefácio é assinado pelo craque da batuta Julio Medaglia.
E como quem não quer nada, rindo, Fausto conta que acaba de gerar mais uma exposição com suas ideias e quer espaço para mostrá-la.. Trata-se de Reginópolis em Boas Mãos.
Já pelo título, posso afirmar que essa exposição dará muito o que falar. Não à toa, os 41 personagens nela enfocados são parte da nossa história recente. São eles: Rivelino, Oswaldo Mendes, Inácio de Loyola Brandão, Maurício de Souza, Júlio Medaglia, Paulo Carneiro, Lázaro Ramos, Vitor Nuzzi, José Augusto Lisboa, Assis Ângelo, Rubens Chiri, Alexandre de Paula e Caio Miranda, Trio Gato com Fome, Custodio Rosa, Santiago, Zélio Alves Pinto, Ridaut Dias Jr, Eulália Pinheiro, Odair Batista, Jose Ramos Tinhorão, Nani, José Maria Mayrink, Antonio Moura Reis, Hermano Henning, Oswaldinho da Cuíca, Xavier de Lima, Jorge Nagao, Carlos Alberto Barbosa, Dilené Barreto, Cris Tomaz, Anastácia, Fátima de Morais, Célia e Celma, Kydelmir Dantas, Ziraldo, Henrique Perazzi de Aquino, Edson Mauro, Levi Ramiro, Paulo Vitale, Valdek de Garanhuns, Fausto Bergocce, Solenne Deringound, Rômulo Nóbrega.
Todo o conteúdo da exposição Reginópolis em Boas Mãos, integrará o acervo Escola Municipal Regina Olinda Martins Ferro. "Nessa escola eu estudei e fiz boas amizades no meu tempo, digamos, de juventude. O mínimo que posso fazer é deixar essa exposição para que os novos alunos conheçam um pouquinho de São Paulo e do Brasil através dos seus personagens", finaliza Fausto.
Cá pra nós, essa exposição tem tudo para circular Brasil afora. É isso aí!
O município paulista de Reginópolis fica a cerca de 400km da Capital paulista.











quarta-feira, 1 de novembro de 2023

TSUNAMI NO NORDESTE. SIM, SENHOR!

No dia 1° de novembro de 1755, o Nordeste brasileiro foi atingido por ondas gigantescas matando tudo em volta. Só o sol e a lua escaparam, aparentemente. E peixes graúdos do mar. 
O que ocorreu naquela data, meus amigos e minha amigas, foi um tsunami.
Sim, isso mesmo: um tsunami gigante e bravo, violento, poderoso e assassino.
A violência desse tsunami alcançou várias praias paraibanas, entre essas a praia de Lucena. 
Lucena é o nome de um município localizado a pouco mais de 50km da Capital, João Pessoa. 
Bom, no começo, ele acrescentava ao nome o sobrenome do Estado em que nasceu: Paraíba.
A fama do nosso personagem começou quando lançou à praça o primeiro LP pela extinta CBS, em 1978.
Estou falando do cantor, compositor e instrumentista Zé Ramalho.
Zé sempre foi uma espécie de "profeta". Não que saiba ou "adivinhe" tudo a que lhe diz respeito. Mas pensando bem... 
Em outubro de 1982, Zé Ramalho gravou o ótimo LP Força Verde. Nesse disco há uma música intitulada Eternas Ondas na qual Zé conta cantando a tragédia que ocorreria na Indonésia, em dezembro de 2004, provocada por um tsunami que deixou cerca de 250 mil pessoas mortas.
Pois é, ouça:


terça-feira, 31 de outubro de 2023

O MENINO E O MAR




O Brasil e o mundo estão pegando fogo. E também sofrendo com inundações, que provocam desespero e morte. No Amazonas, Norte do Brasil, a seca tá correndo solta. 
No Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, Sul do Brasil, a chuvarada está matando afogados bichos e gente. 
No Nordeste do Brasil, o sol quente de sempre cai forte na cabeça do povo.
Tanto no Norte quanto no Sul há caminhos para o Saci se divertir. No Nordeste também.
O Saci é um ser criado pela imaginação popular e como o Saci existem muitas criações povoando o mundo da imaginação. 
Sempre é tempo de pormos nossa imaginação no oco do mundo, para descobrir os seres mágicos que lá povoam. 
Seca d'água e enchentes ferem e matam.
E o mar, hein?
Sempre é tempo de pensarmos a respeito dos mares do nosso planetinha, que podem morrer secos ou matar tudo e todos com água e tal.
Hoje, mais do que nunca, é preciso que cuidemos do nosso meio ambiente. 
Acompanhe a aventura fabulosa que gerei e interpreto aqui: O Menino e o Mar na Trilha do Etéreo


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

ADEUS, DANILO!

A cada dia vejo se distanciar do povo a própria cultura que faz.
Cultura popular é a cultura que o povo faz desde que povo é povo. Anônimo.
Cada vez mais esse tipo de cultura fica distante de quem a aprecia e a aplaude. E cada perda de quem a aprecia e a leva a outros olhares é de se lamentar, é uma tristeza.
São Paulo e boa parte do Brasil estão hoje de luto pela perda do agitador cultural fluminense Danilo Santos de Miranda, aos 80 anos de idade.
Danilo dedicou bem mais da metade do tempo de vida à vida cultural levada aos brasileiros pelas diversas unidades do Sesc.
Aqui rendo minhas homenagens a esse grande brasileiro.

domingo, 29 de outubro de 2023

É PRECISO FAZER MAIS PELA CULTURA

É importante, mas não basta "tombar" um ritmo ou gênero musical com o intuito de enaltecê-lo ou preservá-lo, transformando-o em patrimônio imaterial. É preciso mais.
O samba já foi tombado e já virou patrimônio, como patrimônio também já viraram o samba de roda, o jongo, o forró, o frevo...
Além de fazer isso é preciso fazer com que o alvo pretendido seja levado de todas as maneiras principalmente ao conhecimento dos jovens, que aparentemente por falta de opção consomem e dançam tranqueiras estrangeiras. Bom, o começo de uma boa mudança no campo cultural pode ser a realização de festivais que visem descobrir e incentivar talentos. 
No caso da música, mais precisamente a música folclórica, necessário se faz que chegue às escolas públicas e privadas de primeiro e segundo graus. Da mesma maneira também se faz necessário abrir concursos para descobrir e incentivar talentos no campo literário. A propósito, hoje é o Dia Nacional do Livro.
O que está sendo feito para de fato preservar os nossos valores literários?
O frevo como eu já disse foi tombado. E daí?
Será que o Brasil sabe quem foi Capiba?
Será que o Brasil sabe quem foram os criadores do samba?
E o jongo, hein?
O forró sabe-se o que é. Sabe-se, aspas.
Andei falando de Capiba um monte de vezes. Esse cara foi incrível. Fez músicas maravilhosas, do samba ao maracatu. Aliás, ontem 28 foi o dia do seu nascimento. E nem uma linhazinha sequer saiu por aí para lembrá-lo.
Pois é!

sábado, 28 de outubro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (49)

“Seria na moda, entretanto, que a galanteria, servida por fundamentos filosóficos, estava destinada a encontrar
a sua maior concretização.
No complicado das roupas de golas largas e na opulência das perucas havia repousado até os princípios do século toda gama de diferenças sociais, que faziam as odiosas distinções entre as senhoras burguesas e as senhoras nobres, e entre estas servia para tornar diferente uma duquesa de uma condessa − quando vestidas, naturalmente.
O grande vento da liberdade, que em breve ia fazer desaparecer no redemoinho da Revolução títulos e privilégios, fez voar longe o emaranhado das rendas e das fitas, enquanto ao calor da libertinagem abria-se cada vez mais o ângulo obtuso dos decotes.
Os irmãos Edmond e Jules de Goncourt, falando da mulher do século XVIII, afirmaram que era a volúpia que as vestia.
Em lugar das perucas, passaram homens e mulheres a empoar os cabelos, e a estilização das vestes tornou-se em certo momento tão semelhante à moda feminina a masculina que o Marquês de Sade
atribuiu a essa identidade aparente de sexos o incremento do amor entre iguais.
Aliás, nunca esteve tanto na moda o amor por vias travessas e, enquanto Mme. Tallien podia ser vista, na Ópera, usando um provocante vestido aberto dos lados, nas ruas se viam comumente mulheres exibindo o chamado cul de Paris, um desinibido modelo que lhes deixava à mostra aquela parte do corpo que a riqueza de músculos não torna menos vulnerável.
Como um desafio à velha moral cultivada por tantos séculos de escolástica, apareceram as sandálias de salto alto, origem daquele andar que imprime aos quadris o compasso binário a que hoje chamamos rebolado.
Num corolário perfeito, a filosofia reivindicava a liberdade de discussão, a liberdade de discussão levava à conclusão de que a felicidade estava em viver de acordo com a natureza, a natureza indicava que a felicidade estava no gozo dos sentidos, e como nada excitava mais os sentidos do que a musculatura desenvolta das mulheres, em sua parte posterior, o rebolado feminino chegou a extremado requinte no século XVIII.
As mais famosas rebolantes do tempo saíam dos teatros, e d’Alembert, aplicando com cinismo bem-humorado o seu espírito científico na observação desse fenômeno sociológico, chegaria a concluir que ‘a prosperidade e fortuna das bailarinas era uma consequência natural da lei do movimento’.
Onde toda a galanteria do século XVIII marcava seu encontro, no entanto, era nas longas avenidas do Palais Royal, a vasta área em forma de paralelogramo próxima ao Louvre, que Felipe Igualdade convertera num elegante conjunto de palacetes, jardins, bazares, teatros, cafés, restaurantes e dezenas de pequenos bosques, a cuja sombra homens e mulheres podiam tranquilamente procurar a bem-aventurança que Deus lhes punha ao alcance das sôfregas mãos.
Uma eficiente guarda de soldados suíços impedia a entrada apenas de escolares, trabalhadores e cachorros.
Diderot confessa no seu Le Neveu de Rameau que gostava de sentar-se solitariamente por volta das cinco horas da tarde num dos bancos do Palais Royal: ‘Converso comigo mesmo sobre política, sobre amor, sobre filosofia e abandono meu espírito a toda doce libertinagem’ − escreveu, confessando com bonomia: ‘E como me agrada ver, pela avenida da Fé, um satirozinho de cabeleira empoada e casaquinho de Lyon seguir os passos de uma ninfa, que tanto mais revela suas graças, quanto mais finge ocultá-las’.
Por seus jardins, Rétif de la Bretonne pôde conhecer, orientado pelo médico Guillebert de Préval, charlatão em doenças venéreas, as várias espécies de mulheres que classificaria por nomes que indicavam à maravilha as suas especialidades no amor: segundo Rétif faziam ponto no Palais Royal as ‘boquissábias’, as ‘mãosintrépidas’ e as ‘sunamitas’, virgens de 12 a 15 anos cujo nome e função lembrava a bíblica figura de Abisas Sunamita, de quem nos fala o Livro I do Velho Testamento: a moça levada ao decrépito Rei Davi para lhe servir de cobertor, e que, colada a ele, ‘o esquentava e o servia’, como lá diz o Santo Livro. Assim foi o galante e
profundo século XVIII, tão levianamente acusado às vezes de ter sido apenas um século de frivolidade cortesã e
de sangue revolucionário.
Um século ao mesmo tempo tão galante e tão profundo, que soube encontrar um jeito de conciliar a moral e o gozo da vida, como sintetizaria Saint-Lambert num verso em que, referindo-se a Deus, afirmava:
‘Jouir c’est l’honorer; jouissons, il l’ordonne.’
O bravo Saint-Lambert que, feitas as contas com a posteridade, só lhe restaria a glória extraliterária de ter tomado Mme. du Châtelet de Voltaire e Mme. d’Houdetot do cândido Jean-Jacques Rousseau − no melhor estilo galante do século XVIII.” (Fim)

Foto e ilustrações por Flor Maria e Anna da Hora

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

É CAPIBA, MEU BEM!

O pernambucano de Surubim Lourenço da Fonseca Barbosa marcou época e fez história deixando para os de hoje e os que virão depois uma obra fundamental para entender a música do Nordeste, no caso aqui, o Frevo pernambucano.
Esse Lourenço ficou famoso pelo pseudônimo de Capiba.
Já escrevi muito a respeito de Capiba e dele ouvi muita coisa bonita na boca de pessoas do povo. Destacar o que eu ouvi é algo praticamente impossível. Mas nesse espaço de hoje, recomendo que ouçam É Frevo, Meu Bem! e Oh! Bela.
Dêem uma procurada aqui no Blog que acharão muita coisa bonita desse grande artista, desse grande compositor, que costumava compor sozinho tocando piano na sua casa em Recife, PE.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DE CAPIBA?

Capiba e Assis
A Discografia Brasileira registra nomes de grandes compositores e intérpretes, como Capiba.
Capiba, de batismo Lourenço da Fonseca Barbosa, era pianista e compositor dos mais importantes do Brasil. Nasceu em Pernambuco e deixou uma quantidade incrível de músicas de sua autoria. Uma vez o chamei de Pai do Frevo. Ele não gostou.
A verdade é que Capiba não compôs só frevos.
Da discografia de Capiba constam canções, cirandas e tal. 
Chico Alves, o Rei da Voz, foi o primeiro artista de renome a gravar uma composição de Capiba: a canção-frevo Júlia, de 1938, um ano antes de explodir a 2ª Grande Guerra.
A primeira composição de Capiba foi a valsa Lágrimas de Mãe, que compôs junto com seu irmão Antonio, em homenagem a mãe Maria Digna da Fonseca Barbosa. 
Corria o ano de 1924 quando isso ocorreu. 
Em 1924, Capiba escolhera João Pessoa/PB, para estudar. Nesse mesmo ano em São Paulo estourava a Revolução Constitucionalista.
Capiba nasceu no dia 04... Não! Capiba nasceu no dia 28 de outubro de 1904, 10 anos antes de explodir a 1ª Grande Guerra.
Capiba foi um herói da nossa música e continuou a compor até pouco antes de nos deixar, no dia 31 de dezembro de 1997. 
Em dezembro de 1933, portanto há 80 anos, o cantor Mário Reis gravava de Capiba a marcha pernambucana intitulada É de Amargar. Essa música foi composta em homenagem ao irmão do autor, Antonio, que morrera naquele ano. Ouça: 


LEIA MAIS: CARNAVAIS DAS PANDEMIAS DE ONTEM E DE HOJE (1)

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

AS GUERRAS SURGEM DO NADA

Ilustração de Fausto Bergocce

Uma guerra pode começar do nada. Pode ser pequena, de alcance regional, ou grandona que nem a 1ª de 1917. Essa começou do nada, durante ou após uma briga de rua. Foi assim: um tiro de pistola e um homem morto caído no chão.
A 2ª Guerra começou também do nada: um doente dos infernos, Hitler, achou de "transformar" o mundo matando tudo quanto era judeu e deficientes físicos e mentais. 
O ódio é, a rigor, o estopim que leva à guerra.
Desde que nos entendemos por gente, da linhagem Sapiens, milhares e milhares de guerras já explodiram nesta terrinha-de-meu-Deus-do-céu!
Agora mesmo um número incalculável de homens, mulheres e crianças estão morrendo a tiros, de sede e de fome mundo afora. Na Ucrânia, por exemplo.
O Continente africano, que é formado por 54 países, vive o tempo todo em guerra. Muitas delas, entre tribos.
E pensar que foi na África que surgiu o Homo Sapiens...
Milhares de jovens estão armados até os dentes em Israel esperando dos chefões o grito de ordem para invadir por terra a Faixa de Gaza. Pode ser a qualquer momento. A Faixa, localizada no Oriente Médio, tem apenas 365 km². E Israel: 22.145 km² de área ocupada por 9,5 milhões de pessoas. 
Aquele pedaço do mundo, das Mil e Uma Noites, vive pegando fogo. Não é de hoje, portanto.
Cristo, nascido em Nazaré, morreu por nós depois de pregar a paz e seu conhecimento na Palestina, Judeia, Galileia e redondezas. 
Em terras do Egito Cristo também pisou, ao lado dos pais José e Maria. Ver Bíblia.
Em 1948, Israel foi criado. Também era para ter sido criado o Estado da Palestina, que já era um pedacinho de terra do tamnho de nada.
Os árabes, mesmo preteridos, nunca desistiram da Palestina. Tanto que em 1967 falaram alto pedindo o que lhes era de direito. E de surpresa Israel encheu de morte o Egito, jogando bombas do céu. Depois do Egito, Síria, Jordânia e Iraque, que receberam o apoio velado dos vizinhos Kuwait, Líbia, Arábia Saudita, Argélia e Sudão. Mas não adiantou. Israel ganhou e na ocasião anexou ao seu território a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém e as Colinas de Golã.
A Península do Sinai foi devolvida ao Egito em 1982. E não custa lembrar às memórias adormecidas que foi nessa região que Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei.
Essa guerra, que durou apenas 6 dias, deixou um saldo de mais de 5 mil mortos de ambos os lados.
Atenção! Importante: o grupo terrorista Hamas não representa os anseios dos palestinos. O Hamas quer o fim do mundo, como Hezbollah e outros e outros. Quem representa a Palestina é a chamada Autoridade Palestina, hoje liderada por Mahmoud Abbas.
Mahmoud representa a OLP, criada em 1964 por Yasser Arafat (1929-2004).
E como diria o REPÓRTER ESSO: ATENÇÃO! ATENÇÃO! ATENÇÃO!!! Os EUA estão atulhando de armas os quarteis de Israel. Querem a guerra.
E ATENÇÃO! ATENÇÃO! A Rússia está prometendo encher de armas os terroristas do Hamas.
A paz é o que nos faz integrados harmoniosamente com o próximo e a natureza.
A pensar, não é mesmo?


LEIA MAIS: GUERRAS SÃO PASSAPORTE PARA O FIM DO MUNDO (1) • GUERRAS SÃO PASSAPORTE PARA O FIM DO MUNDO (2, FINAL)

terça-feira, 24 de outubro de 2023

O PEQUENO PRÍNCIPE CHEGA AOS 80

Não foi só o grande escritor Saint Exupéry que participou de guerra.
O avião de Exupéry, do Correio Postal, caiu no mar no dia 31 de julho de 1944. O tempo era de guerra, da Segunda Grande Guerra.
O livro O Pequeno Príncipe foi escrito nos EUA e publicado em inglês e francês em 1943, portanto um ano antes de o autor ter o avião abatido por aviadores alemães, hitleristas.
O escritor norte-americano Ernest Hemingway participou não de uma, mas de três guerras: da Primeira Grande Guerra, da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Grande Guerra. Da primeira escapou ferido e da segunda e terceira ileso, como correspondente de jornais de sua terra.
É de Hemingway o livro Adeus às Armas.
O indiano Eric Arthur Blair, para o grande público George Orwell, naturalizou-se norte-americano e pela terra nova que adotou participou da Segunda Guerra. Depois é que publicaria por lá A Revolução dos Bichos e 1984. Obras-primas.
Até a escritora Agatha Christie participou de uma guerra, da Primeira, em 1917. Sua participação foi como enfermeira da Cruz Vermelha. Logo depois dessa guera, Agatha começou a publicar livros policiais. Uns 500.
Da chamada Revolução de 32, de São Paulo, participou o violonista Aníbal Sardinha que entrou para a história do violão brasileiro com o pseudônimo de Garoto.
Pessoalmente gosto de todos esses escritores e seus livros. Mas Hemingway tem um livro apaixonante: O Velho e o Mar, que não deixa de ser guerra. No caso é o homem brigando até não mais poder para se salvar da violência das ondas do mar. Esse livro foi publicado no ano em que nasci: 1952.
Hemingway deixou a vida suicidando-se.
O mundo continua em guerra...

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

ATENÇÃO, O ESTOPIM DO MUNDO ESTÁ ACESSO!

O governo Biden soltou nas primeiras horas de hoje 23 comunicado pedindo para que os americanos residentes no Líbano deixassem o lugar, com urgência. Aí tem coisa. Nos preparemos para o pior. O mundo naquelas bandas árabes está que nem uma bomba, com o estopim aceso. Fiquemos ligados e rezemos...
Meu amigo minha amiga, você já leu ou ouviu falar de Julio Verne, Saint-Exupéry ou Khalil Gibran?
Gibran nasceu no Líbano e logo teve que fugir.
Israel já invadiu o Líbado para afugentar os palestinos. Foi em 1982.


Os franceses Júlio Verne (1828-1905) e Saint-Exupéry (1900-1944) marcaram época dizendo e escrevendo coisas bonitas como o amor. Verne deixou um monte de livros como 20 mil léguas submarinas. Li na infância. Exupéry, que era aviador e sumiu com seu avião no céu, deixou poucos livros. Dentre esses, O Pequeno Príncipe.
Julio Verne sempre foi um autor recomendado para tudo quanto era idade, desde quando aprendemos o be-a-bá.
Cresci ouvindo dizer que O Pequeno Príncipe era uma bobagem, "um livro pra ser lido por misses".
Os livros de Verne e Exupéry são todos ótimos. Verne: "O amor é uma paixão absorvente e deixa pouco espaço para algo mais no coração humano".
Exupéry, também sobre o amor, escreveu: "O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção".
O amor foi e é cantado e decantado em todas as línguas, desde sempre.
A temática dos românticos é, literalmente, o amor. Pergunto: Khalil Gibran era romântico?
O poeta, pintor e pensador libanês Khalil Gibran chegou à fase adulta vivendo em terras norte-americanas. A sua poesia, sem métrica nem rima, despertou e ainda desperta a curiosidade de muita gente. Seu libro O Profeta, publicado em 1923, é o mais conhecido da sua lavra. Ele falou de muitos temas, de quase todos os temas, incluindo a tristeza e a alegria, Deus,o amor e tal. Sobre o amor, disse:

Quando o amor vier ter convosco, 
Seguros embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos. 
E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o, embora a espada oculta sob 
as asas vos possa ferir. 
E quando ele falar convosco, acreditai, 
Embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos como o vento do norte 
devasta o jardim. 
Pois o amor, coroando-vos, também vos sacrificará. Assim como é para o 
vosso crescimento também é para a vossa decadência. 
Mesmo que ele suba até vós e acaricie os mais ternos ramos que tremem ao 
sol, 
Também até às raízes ele descerá e abaná-las-à 
Enquanto elas se agarram à terra. 
Como molhos de trigo ele vos junta a si. 
Vos amanha para vos pôr a nu. 
Vos peneira para vos libertar das impurezas. 
Vos mói até à alvura. 
Vos amassa até vos tomardes moldáveis; 
E depois entrega-vos ao seu fogo sagrado, para que vos tomeis pão sagrado 
para a sagrada festa de Deus. 
Toda estas coisas vos fará o amor até que conheçais os segredos do vosso 
coração, e, com esse conhecimento, vos tomeis um fragmento do coração da 
Vida. 
Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor e o prazer do amor, 
Então é melhor que oculteis a vossa nudez e saiais do amor, 
Para o mundo sem sentido onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e 
chorareis mas não com todas as vossas lágrimas. 
O amor só se dá a si e não tira nada senão de si. 
O amor não possui nem é possuído; 
Pois o amor basta-se a si próprio. 
Quando amardes não deveis dizer "Deus está no meu coração", mas antes 
"Eu estou no coração de Deus". 
E não penseis que podeis alterar o rumo do amor, pois o amor, se vos achar 
dignos, dirigirá o seu curso. 
O amor não tem outro desejo que o de se preencher a si próprio. 
Mas se amardes e tiverdes desejos, que sejam esses os vossos desejos: 
Fundir-se e ser como um regato que corre e canta a sua melodia para a noite. 
Para conhecer a dor de tanta ternura. 
Ser ferido pela vossa própria compreensão do amor; 
E sangrar com vontade e alegremente. 
Despertar de madrugada com um coração alado e dar graças por mais um dia 
de amor; 
Repousar ao fim da tarde e meditar sobre o êxtase do amor; 
Regressar a casa à noite com gratidão; 
E depois adormecer com uma prece para os amados do vosso coração e um 
cântico de louvor nos vossos lábios.  

Pra quem tiver a curiosidade de ler o livro completo, clique: O PROFETA

domingo, 22 de outubro de 2023

VIVA O CHORO E OS CHORÕES!

Callado e Patápio 
Mais o craque Pixinguinha 
Ao Choro deram formas
Diferentes da modinha

Quem sabe tocar choro
É chamado de "chorão"
O Choro vem da flauta 
Do cavaco e violão 

Quem não sabe tocar choro
Se quiser pode aprender
Impossível isso não é 
Para tanto é só querer 

O caso é que o choro
É bonito e delicado
Foi feito por Patápio 
Pixinguinha e Callado!

Foi o tempo em que as mídias, como rádio e jornal, tinham interesse de divulgar tudo o que ocorria no campo das artes.
Esse interesse acabou.
O rádio hoje divulga basicamente tudo o que não presta. O mesmo faz o jornal, sem falar em revista e TV.
Quando completou 90 anos de idade, o jornalista e historiador José Ramos Tinhorão declarou em entrevista a Wilson Baroncelli que a MPB já não existia e por isso considerava concluída a sua bibliografia de temática musical. 
A MPB, na visão de Tinhorão, foi-se acabando aos poucos.
Ligo o rádio e a TV e não escuto lhufas com cheiro de qualidade musical.
É uma droga o que se ouve ora no rádio. Só bobagens a ferir ouvidos e sensibilidades. A programação da USP e da Cultura ainda respeita o ouvinte, tanto da área popular quanto da área erudita.
O Choro como ritmo e gênero caiu na vala comum dos mortos. Pena. 
Aqui não custa lembrar da importância de Joaquim da Silva Callado, Patápio Silva e Pixinguinha. 
Patápio nasceu no dia 22 de outubro de 1880 e morreu 26 anos depois. Deixou uma obra pequena em quantidade e enorme em qualidade. Com sua flauta ele ia do popular ao erudito. Os discos que gravou saíram pela pioneira Casa Edison, do Rio.
O ano do nascimento de Patápio foi o mesmo da morte de Callado, que nasceu em 1848. 
Callado, que era funcionário público no Império, foi o cara que juntou amigos para cantar e tocar. Os instrumentos do grupo eram flauta, cavaquinho e violão. Foi daí que nasceu o embrião do Choro.
Na primeira década do século 20, Pattápio achou o ponto e começou a gravar Choro. 
Em 1898, nascia Alfredo Vianna Filho que entraria para a história com o pseudônimo de Pixinguinha. 
Pixinguinha foi o cara que deu o acabamento necessário ao choro.
Um clássico de Callado é Flor Amorosa. 
Um clássico de Patápio é Primeiro Amor. 
Um clássico de Pixinguinha é Carinhoso. 
Fica o registro.
 

sábado, 21 de outubro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (48)

O fogo da carne não se acendia sem espírito. E essa necessidade de espírito chegaria a tal ponto, no século XVIII, que uma mulher de certa categoria não se sentia o suficientemente excitada antes de pelo menos meia hora de conversação inteligente.

Seguindo a trilha de Descartes, a filosofia já era capaz de reduzir a metafísica do amor ao plano das demonstrações matemáticas. E eis porque, quando uma mulher finalmente se entregava ao seu galanteador, fazia-o com a satisfação superior de não estar cedendo exatamente à carne, mas a um argumento irrespondível.

Aliás, mesmo quando fazia alguma resistência, não era absolutamente para opor pela força o que não soubera contrapor pelos argumentos, mas apenas — como escrevia de uma sua personagem o contemporâneo Pigault Lebrun — para não deixar sem um preço a sua derrota. 

O próprio Marquês de Sade — o Divino Marquês, que um dia distribuiu bombons recheados com cantárida num bordel de Marselha, provocando o maior escândalo jamais presenciado numa casa de escândalos — chegou a apontar o aparecimento do romance como consequência da galanteria, que refinava os espíritos fazendo ainda a fortuna de muitos especialistas na incipiente ciência dos males venéreos. Escrevendo um ensaio intitulado "Idéia Sobre os Romances", o Marquês notou que o homem oscila entre a superstição e o amor, concluindo: 


"...et voilà la base de tous les romans."


Amor de tipo especial que serviria realmente de base a Choderlos de Laclos para compor a mais

pungente história de um libertino, a do Visconde de Valmont, no seu romance "As Ligações Perigosas". O dramático Visconde de Valmont, que, por puro amor da libertinagem, escrevia cartas fingindo amor puro à pudica. Mme. de Tourvel debruçado sobre o corpo de uma amante, o que confessava depois a uma terceira mulher com este requintado pormenor: "Elle me servit de pupitre pour écrire à ma belle dévote."

Mas o espírito do século não se revelaria apenas na filosofia e na literatura, onde se demonstrava que o vício era a melhor forma de protestar contra a autoridade, simbolizada na virtude. A galanteria e a libertinagem invadiram também o teatro, a pintura, a arquitetura, a moda e até o mobiliário, pois foi exatamente no século XVIII que os franceses adotaram do Oriente o uso do sofá, com tôdas as suas implicações.

A nova sociedade burguesa, mal-acomodada nos rígidos esquemas herdados da organização feudal, ao levar o escândalo ao campo das artes estava apenas pregando a libertação da educação retórica jesuítica do século XVII, que tão tiranicamente os obrigava nos planos da cultura e do sexo à obediência dos modelos clássicos.

As representações das peças de Molière caíram de 132 para apenas 66, anualmente, e em seu lugar entraram a proliferar as óperas cômicas, os ballets, os teatros de boulevard e as marionnettes.

Era a vitória dos chamados petits genres, que deixariam como legado às gerações futuras tantos exemplos de obras-primas construídas sobre o nada.

Segundo Mercier, havia no Palais Royal um teatro público onde, em 1791, se representou uma comédia tão espontânea que a cena de maior comicidade deu-se quando os três casais de atores começaram a agir no palco exatamente como os casais de verdade agem em casa, geralmente à noite.

Os mais calorosos aplausos — observou Mercier — partiram das mulheres, que compunham, aliás, a maioria da assistência.

Na pintura, Boucher, Watteau, Lancret e principalmente Fragonard, desprezando a sadia nudez das deusas de Lebrun e Nicolau Mignard, vestiam suas dianas e pastoras pelo modelo daquelas meninas fáceis de Paris que — no dizer indignado de George Brandes — "tinham orgulho em mostrar seus seios e traseiros, ora no Trianon ora em Luciennes."

Os maiores conquistadores da época davam-se ao luxo de mandar pintar suas amantes em posições provocadoras, e Casanova, de passagem por Paris, estava destinado a pagar caro essa galanteria: mostrando ao Rei Luís XV o retrato da jovem irmã da atriz O'Morphi numa pose cheia de intenções, o soberano revelou tal interesse em conhecer a moça, para "apreciar com justeza a fidelidade da reprodução", que não houve como deixar de trazê-la ao retiro do Parque dos Cervos — ficando daí por diante Luís XV com o original e Casanova apenas com a pintura.

O arredondamento das formas, tão apreciado nas mulheres, acabaria influenciando a arquitetura, também sujeita até ali à rigidez das linhas clássicas. A figura de Pan passou a povoar os jardins, ao fundo dos quais a necessidade de pousos quietos para o exercício do amor fez surgirem as petites maisons, perfeitas garçonières de um tempo em que não havia apartamentos.


Foto e ilustrações por Flor Maria e Anna da Hora.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

AGORA E NA HORA DA NOSSA MORTE., AMÉM!

O mundo é uma bola, não é?

Pois bem, a cada dia essa bola está ficando menor e perigosa. Nessa bola há, vivendo, mais de oito bilhões de pessoas. Dessas, pelo menos oitocentos milhões não têm o que comer no dia a dia. Isso não é brinquedo. 

Enquanto a bola que é esse mundinho se apequena e ferve que nem uma chaleira tapada esquecida num fogão. Quer dizer, prestes a explodir. 

O presidente dos EUA, Joe Biden, dá corda para que as guerras na Ucrânia e em Israel prossigam. E isso não é de graça. Faturam-se com as guerras. O faturamento vem da fabricação e venda de armas. 

Na guerra da Ucrânia os EUA já investiram bilhões de dólares. 

Nesse caminho, de investimento, os EUA deverão de cara enfiar pelo menos 14 bilhões de dólares para que Israel prossiga na guerra.

Isso tudo quer dizer: indústria da guerra, que provavelmente jamais falirá. 

Pois é, nesse meio tempo ou tempo que nunca finda, os mais de oitocentos milhões de pessoas que vivem mundo afora abaixo da linha da pobreza propositadamente continuam esquecidas pelos EUA e outras potências desta bolinha doida em que vivemos. 

Essa coisa de bola me faz lembrar a minha querida e saudosa vó Alcina. Ela jurava por tudo quanto era santo que um dia "o mundo vai se acabar numa bola de fogo". Quer dizer, numa explosão. 

Estamos à beira do Apocalipse?

Sei não, mas por via das dúvidas acho bom começarmos a rezar:

"... rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém".

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

CANGAÇO: ACHADO HISTÓRICO

Com 24 anos 

Virgulino Ferreira 

Ganhou lugar no bando

De Sinhô Pereira 


Chefe de cangaço 

Era o maior do Sertão 

Antes de Virgulino 

Transformar-se em Lampião 


Sinhô era discreto

E desejava Lampião 

Comandando o seu grupo

Nas quebradas do Sertão...


Documentos referentes a um processo criminal contra Lampião e o seu bando acabam de ser descobertos num canto qualquer do Fórum do município de Triunfo, PE, a 410 km da Capital pernambucana.

Esse processo é o primeiro em que o famoso cangaceiro é arrolado. Não consta, porém, que ele tenha se sentado no banco dos réus. 

Aparece como vítima no processo uma pessoa influente da região. 

Há 20 anos promovi um julgamento em que Lampião era o réu. Foi uma sessão muito concorrida, com todos os lugares ocupados por estudantes, convidados e jornalistas de vários órgãos da imprensa paulistana. Isso ocorreu em 2003 no Centro Acadêmico da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. 

Lampião, de batismo Virgulino Ferreira da Silva, foi "condenado" a 12 anos de cadeia por matar um morador da cidade de Jeremoabo, BA. A vítima era um informante da polícia. 

A TV Globo deu a notícia ao vivo.

Importante que se diga que o julgamento foi uma espécie de aula magna para os estudantes de Direito de São Paulo. Ficcional só a sessão, mas o histórico do processo relatado foi real. Quanto ao achado histórico em Triunfo deve-se dizer que é muito importante para os estudiosos do cangaço. 

Fica o registro. 


quarta-feira, 18 de outubro de 2023

GUERRA DO FIM DO MUNDO?

O sangue de inocentes
Enche de dor a terra
Que em fúria maldiz
Os homens que fazem guerra

São homens violentos
Nascidos para matar
Matam tudo que se mexe
Se o gatilho não falhar

Assim tudo acontece
Neste mundão de meu Deus
É homem matando homem
Palestinos e judeus

Triste logo percebo
Que não temos salvação 
Que somos uma praga
Em eterna gestação 

Ao contrário das crianças
Que não pedem para nascer
O bicho homem não presta
Porque faz tudo para ter poder

Isso dito e posto
Pergunto se tem perdão
Para quem faz o que fez
O Caim com seu irmão!

Centenas e centenas de conflitos ocorrem todos os dias nesse nosso planetinha azul. São conflitos de todos os tamanhos. Golpes e guerras. 
A guerra declarada pela Rússia contra a Ucrânia continua como antes, agora sem detalhes.
Os golpes e guerras no continente africano parecem extintos.
O que está pegando agora é a guerra declarada de Israel contra os criminosos do Hamas, grupo de radicais atuante no Oriente Médio.
São muitos os grupos armados, terroristas em atividade naquelas bandas.
O Brasil está no momento à frente do conselho de segurança da ONU, mas pouco está conseguindo fazer.
O Brasil quer o imediato cessar fogo de Israel.
Os EUA querem que Israel continue a matar.
O Irã tá doidinho pra entrar nessa história, junto com o grupo Hezbollah, que há muito o apoia financeiramente. 
Do jeito que a coisa anda é possível que o mundo exploda. Ou parte dele, como de certo modo previu um cara francês chamado Nostradamus.
E mais não digo.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

SÃO PAULO QG DO FORRÓ

Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Zé Calixto, nascido José Calixto da Silva há 90 anos, são alguns dos principais pilares do forró como gênero musical.
Gonzaga era pernambucano de Exu e Jackson e Zé paraibanos de Alagoa Grande e de Campina Grande respectivamente.
A partir do Forró de Mané Vito, de Gonzaga e Zé Dantas, esse ritmo primeiramente gravado no Rio de Janeiro ganhou o Brasil de Norte a Sul.
Zé Calixto morreu no Dia Nacional do Forró: 13 de dezembro, em 2020.
Com a chegada da Bossa Nova em 1958, o Forró entrou em declínio como em declínio entrou também o Baião. Por pouco Gonzaga não desistiu da carreira, pendurando a sanfona num prego de parede.
No começo de 1960, fazia algum sucesso em São Paulo a casa de forró do baiano Pedro Sertanejo. Era na Zona Leste, frequentada até pelo então jovem Lula.
O tempo passou e o Forró foi renascendo das cinzas, como a Fênix. 
O detalhe nessa história é que o Forró de Gonzaga metamorfoseou-se e virou tranqueira. Entre essas tranqueiras uma tal de "pisadinha". Mas é em São Paulo que o Forró começa a revigorar-se.
Várias casas de forró "pé de serra" foram abertas na Capital paulista, entre essas Remelexo e Canto da Ema, na região de Pinheiros. 
Está se revigorando, pois o Forró iniciado por Luiz Gonzaga segue na base de triângulo, sanfona e zabumba. Portanto não será exagero dizer que São Paulo é uma espécie de QG do Forró, como foi do Baião até o final dos 70. A propósito, Gonzaga gravou um LP com esse título (acima).

Clarissa e colegas do Instituto Brincante

Na Capital paulista muita gente boa e jovem aderiu ao canto e dança do Forró inserindo a rabeca ao lado de pandeiro e zabumba e tal. Entre essas pessoas, Clarissa Angelo. Ouça: https://www.instagram.com/p/CbvTLWNjzOJ/ • https://www.instagram.com/reel/Cxla2g7vPln • https://www.instagram.com/p/CKSsUCTn7zk/ • https://www.instagram.com/reel/CfpcF8ljwn6/ • https://www.instagram.com/reel/CdefwGMD-sO/
Meu amigo, minha amiga, você já escutou o pessoal aí abaixo? Garanto que é supimpa, que toca rabeca de modo que nos faz bem. Se procurar na Internet, acha: Siba, Renata Rosa, Filpo Ribeiro, Luana Caroline, Maria Carolina Fernandes, Zé Pereira, Renato Macedo, Felipe Gomide, Alício Amaral, Wan Dourado, Vanille Goovaerts, Nicolas Krassik, Ricardo Herz, Carla Raiza, Antônio Nóbrega (Brincante).
Como se não bastasse, sempre em prontidão para atender quem os procura estão os Luthiers Adam Bahrami, Ricardo Bressan e Filpo Ribeiro.
Até numa reserva indígena de Sampa, a Casa de cultura Yvy Porã Jaraguá, há rabequeiros mantendo a tradição de tocar o que é bom.
Está gostando?
Pois é! E pra gostar mais ainda procure um lugar bem bom no seu apartamento ou no quintal de casa, abra uma cervejinha gelada e caia num gostosíssimo Baile de Rabeca clicando: https://open.spotify.com/playlist/2EPIVkhjHCmaWu2IFG3VnS?si=3a80beddc88e4231
Quer mais?
Faça o mesmo no apartamento ou em casa e caia num "pé de serra", clicando: https://open.spotify.com/playlist/5ALkIdVcXKdKSwf424sY2j?si=8271a0f490eb49cd
No correr da última pandemia, rabequeiros do Brasil se reuniram pra tascar o arco na rabeca. Confira o resultado: https://youtu.be/eBsOyXMb2-w
Por fim meus amigos, minhas amigas, tire aí um tempinho para ouvir um podcast sobre a rabeca e tal. Vale a pena: https://open.spotify.com/show/2JSfxL4pzDZUaE4l14fs7o?si=0eb9cdd8ddb44d7a
Em 2021, o Forró foi reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Antes, em 2019, foi criado em São Paulo o prêmio Anastácia de Forró. Merecidamente. Viva!

domingo, 15 de outubro de 2023

PROFESSOR COME O PÃO DO DIABO

Atenção eu vou pedir

Que me ouça por favor 

Tenho muito o que dizer 

De aluno e professor 


Professor faz o que pode 

Ensinando sem parar

Pois quer ver o seu aluno

De ano em ano passar


De nada sou exemplo 

Mas não me custa contar

Que coisa boa na vida

É aprender pra ensinar 


É pouco dizer que é pífia a educação no Brasil. 

Entra governo sai governo e a situação, no campo da educação, piora que nem a cantiga da perua. Numa nota só e, ainda assim, inaudível.

A pandemia da Covid-19 matou muita gente mundo agora e atrofiou a mente já lerda daqueles que foram escolhidos para governar o País.

Estamos retroagindo é certo, dando um passo pra frente e quinze pra trás. 

Tem aumentado de modo estratosférico a tal educação à distância (EAD).  Esse negócio, pois é negócio mesmo, aumentou uns 500, 600 ou sei lá quanto por cento. Só sei que é uma vergonha!

Essa tal educação está crescendo que nem fermento em pão de padaria. Em miúdos: são milhões de formandos no campo da graduação à distância. Pode?

Com meus botões, penso que daqui a pouquíssimo tempo teremos doutores analfabetos. Já temos, mas vai crescer horrores. 

Fico imaginando pedagogos ensinando o que não sabem a quem nada de nada sabe bulhufas.

Também fico imaginando um advogado analfabeto, sem conhecimento de leis, defendendo um cidadão acusado sei lá do quê!

E os futuros administradores, hein?

Poi bem, esses são os cursos mais concorridos nas faculdades de garagens, de balcões, pois é nesses ambientes que muitos futuros profissionais podem estar começando e terminando suas graduações. 

As mensalidades para essas graduações variam de uns 30 a uns 200 reais.

Enquanto isso profissionais formados anos atrás, depois de muito pastar nas bancas de verdade, estão comendo o pão que o diabo amassa nos fornos do inferno. Isto é: ganham 20 merrecas por hora. Ao fim do mês, no bolso uns 2 paus. 

Isso tudo sem falar na violência física que os professores sofrem.

Se isso não for o fundo do poço da educação no Brasil, não sei o que é fundo nem fim de nada. Falência?

Bom, jornalista também é um ser ferrado. Aposentado então...

Não é à toa que o Brasil se acha em 52° lugar no ranking mundial da Educação, atrás de países do Oriente Médio como Egito, Irã e Jordânia. 

E atenção: em 1963, no governo João Goulart, foi aprovado por congressistas o Dia do Professor: 15 de outubro. 

Diante do exposto, pergunto: tem o professor brasileiro a comemorar o quê no seu dia?


LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (47)

Tinhorão não cita, mas é do século 18 uma das raríssimas reedições do livro Sonetos Luxuriosos do italiano Pietro Aretino. Era bocudo, obsceno até a medula. Por esse caminho foi muito mais longe do
que o nosso baiano Gregório de Matos e Guerra. Para lembrá-lo, não custa:
Diverti-me ... escrevendo os sonetos que podeis ver ... sob cada pintura. A indecente memória deles, eu a dedico a todos os hipócritas, pois não tenho mais paciência para as suas mesquinhas censuras, para o seu sujo costume de dizer aos olhos que não podem ver o que mais os deleita.
O livro Sonetos Luxuriosos, traduzido para o português pelo poeta paulista de Taquaritinga José Paulo Paes (1926-1998), é um bom começo para um mergulho no pensamento e obra do debochado e desbocado italiano Pietro Aretino (1492-1556).
José Ramos Tinhorão dedicou-se abertamente à pesquisas sobre as origens da música popular brasileira, mas isso não o impediu de cavucar outros temas. Escreveu e publicou 29 livros. O 30° livro poderia ter sido sobre encontros e desencontros provocados pelos impulsos sexuais. Gostava disso e se interessava por tudo que tivesse no meio um quê de sacanagem.
Eu achava graça quando Tinhorão usava termos como putaria, safadeza, libertinagem e hipocrisia. "Somos hipócritas! Qual é o homem que não deseja levar para a cama uma mulher bonita e sensual?"
Mais de uma vez lembrei que a licenciosidade se acha em todo canto, até na literatura de cordel e nos quadrinhos. E conversa vai conversa vem, apresentei-lhe um amigo que poderia contribuir nessa questão. Esse amigo, Rômulo Nóbrega, passou a mandar-lhe folhetos de sacanagem. "O Tinhorão foi um cara surpreendente", diz Rômulo.
O encontro de Tinhorão com Rômulo aconteceu na tarde de agosto de 2017, na capital Paulista. Desse encontro participou também o cartunista Fausto. Houve um momento que Fausto sacou seu celular e mostrou um monte de fotos e vídeos eróticos. Tinhorão: "Qual é o homem que não gosta disso?".

Sempre alçando voos mais altos, me incumbiu de garimpar cordéis que abordassem o tema da  sacanagem, da putaria, em alto estilo, e assim caí em campo nas cidades fontes dessa literatura nos estados do Nordeste.
Conheci Tinhorão num prazeroso encontro na casa do jornalista Assis Ângelo em São Paulo, quando fui presenteado com um de seus livros, ao mesmo tempo em que recebi comentários sobre a edição da  biografia do compositor Rosil Cavalcanti feita por mim. O tema já vinha sendo abordado há anos por Tinhorão de forma suave, quando publicamente era quase que proibido se falar em putaria, em sacanagem, em sexo explícito, a menos nos famosos “catecismos” elaborados por Carlos Zéfiro −  pseudônimo, mais tarde descoberto, de Alcides Caminha −, vendidos a sete chaves.
Tinhorão, especialista em análise musical, daria um verdadeiro furo com o tema em pauta, o que não era estranho nem novidade para um jornalista do seu quilate.
- Rômulo Nóbrega
Em algumas entrevistas que deu ao completar 90 anos, José Ramos Tinhorão chegou a dizer que desejava encerrar sua bibliografia com um livro que tratasse do interesse de todos pelo sexo.
À pergunta sobre quantos livros tinha publicado e se havia algum em andamento, Tinhorão respondeu a Wilson Baroncelli, editor do newsletter Jornalistas&Cia:

"Não sei de cabeça, acho que uns 30. O mais recente foi um ensaio biográfico sobre Ismael Silva. Não sei se vou escrever mais algum. Estou em fim de vida (risos). Se fizer não será sobre MPB, pois esta não existe mais. Tenho pesquisado, juntado material sobre literatura erótica, livros proibidos. Quem sabe?".
Leia a entrevista completa de Tinhorão a Baroncelli: Os 90 anos de José Ramos Tinhorão
Leia na íntegra o texto Galanteria, originalmente publicado na extinta revista Senhor e anos depois, inserida no livro Crítica Cheia de Graça:
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O século XVIII, na França, foi um século de galanteria iluminado pelas luzes da razão filosófica.
Como os grandes pensadores haviam chegado à conclusão de que à filosofia cabia a tarefa de indicar o caminho da felicidade para o homem, os amantes depreenderam que ao amor cabia indicar, logicamente, o caminho do prazer. E foi assim que, numa síntese perfeita, metade do pensamento e da literatura francesas de 1700 à Grande Revolução surgiu dentre lençóis, não sendo por acaso que o médico e filósofo La Mettrie (1709-1751) publicaria em 1751 o seu conhecido livro L’Art de Jouir (A Arte de Gozar).
Certos termos julgados até então antiéticos se conciliariam a tal ponto, aliás, que Rétif de la Bretonne — o precursor de Nabokov — poderia escrever um dia, estendendo as conclusões da filosofia ao campo da moral, que "o prazer era a virtude sob um nome mais alegre".
Não era sem razão, também, que antes de serem denominados filósofos, os maiores pensadores do início
Marquês de Sade
do século, como Saint-Évremmond (1613-1703), haviam sido chamados de libertinos.
O Dr. Eugênio Duehren, escrevendo sobre o Marquês de Sade um livro feito expressamente para intrigar a França com o resto do mundo, declarou que o século XVIII francês foi "o século da concupiscência erigida em sistema".
No que se refere aos representantes da nobreza decadente que se reuniam nos célebres salões dos Deffand, Necker, Lespinasse, Geofrin ou Grandval, pelo menos, a afirmação não deixa de ser verdadeira.
Mme. d'Epinay conta no primeiro volume das suas "Memórias" que era muito comum nas tertúlias dos Duclos ou Saint-Lambert a conversa recair sobre assuntos como a virtude ou o pudor. Era quando se travavam diálogos animados, como este que ela descreve citando as falas entre aspas — embora omitindo os nomes das personagens — e em que uma senhora diz, entre risadas:
— "Veja, marquês: o meu pudor é como o meu vestido; só o prendo em mim por alfinetes que, ao menor esforço..." E, unindo o gesto à palavra - é Mme. d'Epinay quem conclui - abre suavemente as sedas que lhe encobrem o seio, numa gentil demonstração do seu argumento".
Não havia nessas cenas a mínima intenção de escândalo: em Paris, sob a aparência fácil da libertinagem, fazia-se então o amor para provar princípios filosóficos.

Foto e ilustrações por Flor Maria e Anna da Hora.

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