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segunda-feira, 9 de março de 2015

O BRASIL CONTINUA CHORANDO, INEZITA PARTIU.


A sensibilidade do artista pernambucano
Jô Oliveira nos leva ao céu
Inezita Barroso foi uma das mulheres mais incríveis que eu já conheci. Viramos amigos nem sei bem desde quando, mas seguramente há mais de trinta anos.
Inezita era uma mulher livre, linda, na sua maneira de ser, viver e compreender as pessoas, todas as pessoas e o mundo. Lembro-me que a mim ela nunca reclamou da sua pessoalidade. Ela era plural e sabia do quão todos somos tão pequenos.
Lembro-me das muitas conversas que tivemos à beira de  copos, na minha e na casa dela. E nos bons restaurantes, claro.
Lembro-me das suas risadas, gargalhadas que o vento levava.
Lembro-me das noites – e madrugadas que passamos no inesquecível Parreirinha.
Lembro-me, sim, daquelas noites alegres e intermináveis ao lado do Miro nos servindo uisquinho de sempre, sem gelo.
Noites, belas noites, com Jamelão, Miltinho, Elifas, Arley, Adoniran, Zé Kéti, Silvio Luiz, Ronald Golias, meus Deus! Quanta gente bonita!
E ela, Inezita, rindo, cantando e brindando a alegria de viver.
Inezita viveu todas as vidas.
Lembro-me de tantas coisas...
Ela partiu no dia em que o mundo se curva à mulher; Corintiana, nesse mesmo dia, 08, o Timão deu de um a zero no São Paulo. ainda nesse mesmo dia à noite, a presidente da República, dona Dilma, foi a televisão para pedir compreensão ao já chumbado povo brasileiro pelos desatinos que tem feito. Foi demais. E aí fico imaginando Inezita olhando para mim com o jeito mais sarcástico do mundo, dizendo: "Tô fora". E Partiu numa gargalhada de fazer inveja ao Jânio.
Hoje, no começo da tarde, estive na TV Cultura falando sobre ela com o meu amigo Zuza Homem de Mello, clique: 
 

Viva Inezita Barroso!

JÔ OLIVEIRA

Só hoje descobri que eu nasci no mesmo dia da Inezita, 4 de março.
Embora todos meus documentos sinalizem o dia 25 de março, eu nasci de verdade foi no dia 4. Está registrado no livro de batismo da igreja de N. S. do Amparo, em Itamaracá.
Abraço,

- Jô Oliveira, Pernambucano e amigo desde sempre, era o artista do traço por mim escolhido para dar vida ao texto que escrevi sobre Inezita Barroso e que, também com a sensibilidade de Ciro Fernandes ganhou o titulo de A Menina Inezita Barroso (Cortez Editora 2011).




sábado, 7 de março de 2015

O BRASIL ESTÁ FERIDO, CHORANDO...

O Brasil está doente, o Brasil está chorando, o Brasil está gemendo cheio de dores, o Brasil está ferido pedindo socorro.
No Rio de Janeiro a malária dá as caras sob chuva de balas que matam crianças e adolescentes.
Em São Paulo, um surto endêmico já registra muitos mortos.
Em Brasília, bom, em Brasília há crise de tudo: Energética, econômica, política e de falta de vergonha na cara.
O Brasil é uma pérola que há séculos desperta a cobiça dos espertalhões.
O Brasil tem sobrevivido a todas as invasões, a todas as agressões e infâmias expressas nas mais diversas línguas aqui aportadas desde Cabral.
Você sabe meu amigo, minha amiga, qual é a origem da expressão  “santo de pau oco”?
Pois bem?
A expressão foi cunhada há pelo menos há quatrocentos anos. E surgiu de maneira óbvia e espontânea quando, os primeiros espertalhões que aqui chegaram. Esculpiram em madeira imagens de santos escolhidos a dedos e venerados pela Igreja Católica. Essas imagens eram esculpidas cuidadosamente. Nelas era feito uma cavidade na qual se escondiam riquezas minerais extraídas da nossa terra e enviadas à terras de Além-mar. Surgiam ai os primeiros contrabandistas do ouro brasileiro. Hoje é a desgraceira que se vê.
De novo estão rasgando o coração de Serra Pelada.
São muitas as riquezas naturais do nosso País.
No começo dos anos de 1930, foi desenvolvida uma campanha de alcance nacional para brecar a ambição desmedida dos ratos viciados em roer não a roupa do rei, mas, sim, o erário público. A campanha dizia: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”.
A história mostrou o seguinte, nem uma coisa nem outra ocorreu. E é o que se vê hoje nas grandes estatais como a Petrobras, criada por Vargas em 1953 e tema musical desenvolvido e cantado pelo rei do baião, Luiz Gonzaga.
Em 1956, Gonzaga compôs Marcha da Petrobras. Clique: 

Mas, eu ia dizendo,
O Brasil está chorando...
“Santo de pau oco”, “nem que a vaca tussa”, “a vaca foi pro brejo”, “pingo nos is” e outras expressões que o povo consagrou continuam hoje na boca das autoridades que ocupam a presidência da República, o Senado, a Câmara dos Deputados, o STF etc.
Mas, um detalhe: as expressões que enriquecem a nossa cultura popular são repetidas à exaustão por essas autoridades que, curiosamente, nem sabem a origem dessas e outras expressões que o povo criou.
O que eu quero dizer com isso?
Simples: Os gatunos continuam a garfar o produto do suor do povo enquanto a cultura popular também é expropriada sem que lhe deem o devido crédito ou importância. Isto é: A cultura popular brasileira continua órfã.

O Brasil está ferido, o Brasil está chorando.

quarta-feira, 4 de março de 2015

INEZITA BARROSO, 90 ANOS!

Deus do céu, como esquecer?
A paulistana Ignez Magdalena Aranha de Lima, que o Brasil sensível e consciente dos seus valores conhece por Inezita Barroso, é a grande aniversariante do dia.
Ela conhece a terra como poucos.
Desde criança, ela passava férias escolares ora numa, ora noutra fazenda de familiares no interior de São Paulo.
A menina Inezita, que a molecada do seu tempo chamava de Zita, teve uma infância pra lá de sadia: ela corria de bicicleta, de patins, jogava bola e no campinho da várzea do Pacaembu, ali nas proximidades do bairro onde nasceu - Barra Funda, além de jogar pintava e bordava, pois era literalmente a dona da bola.
Ela cresceu e virou a grande mulher que todos nos amamos.
Conheço Inezita Barroso desde OS começos dos anos de 1980, quando passamos a nos frequentar. Em 2011 eu escrevi A Menina Inezita Barroso (Cortez Editora), o primeiro livro publicado  a seu respeito.
Inezita, além de cantora e violeira, estudou e ensinou a arte de tocar piano. Fora isso, fez teatro e cinema.
A sua carreira artística começou, pra valer, em Recife, PE, pelas mãos do grande compositor e também pianista Lourenço Barbosa da Fonseca, Capiba (1904 - 1997).
Cornélio Pires, paulista de Tietê, foi o primeiro homem a gravar modas de viola. Inezita, foi a primeira mulher.
A carreira dela é compriiida!
Viva Inezita Barroso!
Ah! Ela, durante esses anos todos, tem revelado para a música muita gente boa, como a novíssima Bruna da Viola. Clique: 





terça-feira, 3 de março de 2015

CELIA E CELMA, ESCORPIÃO E COBRA

Dia desse eu disse que o cantor Roberto Luna tem muita história pra contar. Claro, óbvio mesmo, se tratando de quem é: um profissional que deslanchou para o sucesso bem na metade dos anos de 1950. Por ele passaram muito nomes da música popular que a história consagrou, como Silvio Caldas, Orlando Silva, Chico Alves, Nelson Gonçalves, com quem, aliás,  chegou a trocar alguns sopapos.
Como Luna, naturalmente outros grandes artistas trazem na bagagem muitas histórias. Celia e Celma, por exemplo. As duas presenciaram uma cena curiosa – entre tantas - no Rio de Janeiro dos anos setenta, que foi a seguinte:
Maria José, a Dona Zezé, mãe de Carlos Imperial, um dia foi surpreendida pelo filho que lhe mostrou uma gravação de Meu Limão, Meu Limoeiro. Enquanto o disco rodava na vitrola, Dona Zezé pôs as mãos nos quartos e se balançando ironicamente ralhou:
- Tenha vergonha, eu fiz você dormir muitas vezes cantando esta música.
A música em questão, do folclore brasileiro, trazia estampado na etiqueta o nome do filho de Dona Zezé.
Atenção: Vem aí um documentário sobre a vida e “obra” de Carlos Imperial, com a participação das cantoras Celia e Celma.
Mas as duas têm muito, mas muuuuito o que contar.
Na China, por exemplo, as duas só não passaram fome porque a fome é um sintoma natura entendido por todo mundo. E, claro, fecharam os olhos diante de algumas iguarias esquisitas e engoliram o que não viram, como escorpião, grilo, cobra, grelhados e fritos à moda da casa, isto é, à milanesa ou a algo que até agora, o paladar de ambas não conseguiu identificar, mas toda hora que as duas se lembram do que ingeriram se arrepiam.
No Japão, um fã desses apaixonadíssimos à primeira vista, delas lhes ganhou a confiança e as levava quase toda noite para conhecer restaurantes com iguarias exóticas. Numa dessas ocasiões, as duas estavam comendo qualquer coisa com pauzinhos, quando de repente lhes chamaram a atenção algumas figurinhas carimbadas do cinema do Tio Sam: Gregory Peck, Rock Hudson, Kirk Douglas, Tony Curtis, Jack Palance, Burt Lancaster e Charlton Heston. As duas se levantaram e foram trocar um dedo de prosa com eles. De todos o mais animado deles era Heston, que queria saber tudo sobre o Brasil: Futebol, carnaval e praia.
Hoje elas lamentam o fato de não portarem naquela ocasião uma dessas maquininhas simples de fazer retrato, como o celular.


 CAUBY PEIXOTO
O cantor Cauby Peixoto está fora de combate há três semanas, num hospital da capital paulista.

Os médicos ainda não permitiram visitas ao paciente que está com 84 anos de idade.

segunda-feira, 2 de março de 2015

E O BELCHIOR, PIROU?

Faz tempo que não falo com Belchior. Uma das últimas vezes foi no programa São Paulo Capital Nordeste (ao lado), que apresentei durante mais de seis anos na Rádio Capital AM 1400 kHz.
Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernades é um um cearense cantor, compositor, instrumentista e, no meu ponto de vista o principal intelectual da Música Popular Brasileira. 
Por que digo isso?
Belchior foi seminarista - fala com domínio até o latim - e por pouco não virou padre, quando padre era referência do que melhor existia como ser pensante. Claro, na nossa música popular - e também na música erudita - tivemos e temos grandes criadores, grandes compositores como Orestes Barbosa e Paulo Vanzolini entre outros.
Conheço Belchior faz tempo e goto da música dele e do seu jeito muito peculiar de cantar. Sempre foi profundo no que vez.
Ele frequentou a minha casa e meus filhos achavam graça do seu jeito de falar e tiravam onda do seu bigode.
Mas Belchior sumiu. Está em local incerto e não sabido e seus amigos feito doidos querendo dele pelo menos notícias.
Onde andará o Bel?
Bel é como os amigos o chamam, na intimidade.
Pois bem, o Bel sumiu do convívio natural dos amigos no mesço de 2006. Nesse ano, eu participava uma ou duas vezes de um programa, ao vivo,  na rádio record chamado "Balanço Geral". Lembro que numa das edições desse programa convidei o cantor, compositor, showman piauiênse Jorge Mello, parceiro do Bel em 29 canções. Jorge me disse que meses antes recebera um telefonema do amigo. Foi um telefonema muito estranho, no qual Belchior perguntava dos amigos do passado como Mesquetinha. "Não entendi nada, foi uma conversa estranha e confusa", lembrou Jorge acrescentando que naquela ocasião o Bel já estava "sumido".
Três anos depois, na última semana que antecedeu o fim de agosto de 2009, o programa Fantástico, da TV Globo, trouxe notícia e uma  curiosa  e confusa entrevista que beirou o surreal com o coautor de Mucuripe, um dos clássicos da MPB; e, diga-se de passagem, reconhecida como uma das pérolas musicais até pelo autor de Disparada e Caminhando, Geraldo Vandré. Aliás, os dois são amigos de longa data.
Por onde andará Belchior?
Dizem que endoidou, mas não acredito nisso.

 RIO, 450 ANOS
A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro completou ontem 450 anos de fundação. São Paulo, completou essa idade 11 anos antes.
Foi uma festa e tanto a do Rio de Janeiro, com espetáculo inesquecível que contou com a presença de artístas de primeira grandeza do panorama musical brasileiro, como Paulinho da Viola.
Em 1954, quando São Paulo completou 400 anos, o Brasil inteiro ganhou festa e teve a sua história passada a limpo. Dessa festa participaram nomes como Pixinguinha e Paulo Vanzolini. Foi uma confraternização geral.
Por que digo isso?

Simples: O Brasil se uniu nesse aniversário, sem notas dissonantes de personagens discutíveis da vida brasileira, como o apresentador de uma bobagem lamentável chamada BBB. Quem é esse personagem que disse bobagens sobre São Paulo, agora no aniversário do estado vizinho? Não lembro, mas ouvi isso num programa da Globo apresentado por Fátima Bernardes, marcante como reporter e ex-apresentadora do Jornal Nacional.

domingo, 1 de março de 2015

ELIS, DITADURA E VANDRÉ

Assis e Vandré, no Instituto Memória Brasil, IMB. Reprodução: Darlan Ferreira.
A gaúcha “Pimentinha” Elis Regina disparou para o sucesso a partir das terras paulistanas. Isso, em 1965, quando arrebatou o primeiro lugar do 1º Festival Nacional de Música Popular Brasileira, com Arrastão, do poetinha Vinícius e do seu parceiro Edu Lobo.
Esse foi um ano bastante promissor no campo da nossa música. Geraldo Vandré, por exemplo, lançou um dos seus discos politicamente mais provocativos para o momento que se vivia: Hora de Lutar. O disco, com doze faixas, trazia, para surpresa de muita gente, a belíssima toada nordestina Asa Branca, do Rei do Baião Luiz Gonzaga e seu parceiro cearense Humberto Teixeira. Asa Branca recebeu de Vandré uma das mais belas interpretações.
Vivíamos sob a símbolo da chibata, isto é: da botina e da baioneta.
Elis é considerada até hoje uma das maiores cantoras do País.
José Ramos Tinhorão, um dos nossos mais sérios historiadores, achava que ela cantava bem, sim, mas não tinha “alma” ou sentimento. Sempre discordei. Sem alma ou sentimento e com técnica acima do convencional é, até hoje, para mim, a baiana Gal Costa.
Conheci Elis no final dos anos de 1970, na Folha de S.Paulo. Ela acabara de nos dar entrevista para o extinto suplemento dominical Folhetim. A época, editado por Osvaldo Mendes, jornalista, ator e autor dos melhores que temos, provocava encontros/debates com grandes nomes da vida cultural do Brasil. Lembro que lhe perguntei sobre o Vandré. E ela, rindo, respondeu: “Ele é muito complicado”.
Vandré também achava Elis “complicada” e sobre Asa Branca, rindo de modo maroto, certo dia ele me disse: “Eu também gosto da interpretação”.
Mas Vandré gostava muito da Dalva de Oliveira, para mim – e para ele – uma cantora brasileira sem concorrência.
Você já ouviu a gravação de Asa Branca, com Vandré? Clique 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

OBRA DE MÁRIO DE ANDRADE AGORA É DO POVO

Fevereiro de carnaval e alegria.
Fevereiro de carnaval e tristeza 
pelo passamento de um dos mais importantes intelectuais brasileiros: Mário de Andrade.
Fevereiro termina hoje trazendo a lembrança da finitude material do autor paulistano de Macunaíma.
Mário Raul Moraes de Andrade, que no começo da carreira literária apresentava-se como Mário Sobral, foi o teórico e um dos organizadores da histórica Semana de 22 realizada no teatro municipal de São Paulo.
Nascido no dia 9 de outubro de 1893, Mário foi romancista, poeta, pianista, musicólogo, compositor bissexto, político (foi secretário municipal de cultura de São Paulo), pesquisador (de campo), jornalista (de O Estado S.Paulo) e amigo dos amigos. Na madrugada de 25 de fevereiro, um sábado Mário sofreu um colapso e minutos depois já era saudade.
Ao completar agora 70 anos do seu falecimento, toda a sua obra cai em domínio público.  

Você sabia que Viola Quebrada é uma moda de autoria de Mário de Andrade? Se sim ou se não, clique e ouça a belíssima gravação na voz de Inezita Barroso.


PESQUISA NO IMB
O jornalista José Hamilton Ribeiro, acompanhado do craque da fotografia Ernesto, 
esteve hoje de manhã fazendo pesquisa sobre moda de viola e caipiras no acervo do Instituto Memória Brasil, IMB. No registro fotográfico acima, de Darlan Ferreira, 
Ernesto, Zé e Assis.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

ROBERTO LUNA, O REI DO BOLERO

Roberto Luna em visita ao IMB;
abaixo, ele interpretando seu maior sucesso: Molambo


Valdemar Faria nasceu em Serraria no dia primeiro de dezembro de 1929.
Valdemar que o Brasil todo conhece pelo pseudônimo artístico de Roberto Luna, começou a carreira de cantor quando tinha nem vinte anos.
E começou bem.
Cercado por grandes seresteiros da época, entre os quais Orlando Silva, Sílvio Caldas e Nelson Gonçalves, Luna chegou a participar de uma das últimas gravações do rei da voz Chico Alves.
Roberto Luna - Atenção! - integrou o coro que se ouve na regravação da canção "Serra da Boa Esperança" feita nos estúdios da RCA Victor, RJ, no dia 24/9/1952, composição do carioca Lamartine Babo. 
Detalhe: Desse coral também fazia parte Odaléa.
Não caiu a ficha?
Pois é, Odaléa era uma dançarina da noite carioca e para reforçar a bolsa se virava como podia, inclusive participando de gravações em discos de 78 voltas.
Ainda não caiu a ficha?
Então, lá vai:
Odaléa veio a ser a mãe do cantor e compositor Luiz Gonzaga do Nascimento Jr., que todo mundo passou a conhecer como o filho do rei do baião, Luiz Gonzaga.
Roberto Luna, o rei do bolero, tem muita história pra contar.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

DIA DE CÃO

Trânsito travado e eu dentro de um táxi em São Paulo, cidade selvagem que há anos escolhi para viver – e trabalhar - de livre e espontânea vontade até o tempo que me for possível.
Travada e com trilha sonora ensurdecedora, recheada de gritaria, xingamento e buzinação de timbres diversos.
Aparentemente tranquilo, do alto de sua experiência o taxista com uma risadinha de lado, cínica, diz que no Brasil é tudo assim mesmo, dotô.
Aquela fala tranquila que diz ser nordestina ao incauto pode parecer estar se referindo ao ano chinês, de cabra verde de madeira, que esta se iniciando. Mas, não, é isso a que o motorista se refere.
A sua observação me remete à máxima segundo a qual o ano brasileiro (de cachorro louco?), todo ano brasileiro, começa mesmo depois do Carnaval.
Tudo aqui começa depois do Carnaval. Mas não imediatamente após, pois por ai, se se aguçar bem os ouvidos, é possível ouvir lá longe o gemido ou miado exausto de um tamborim ou cuíca roncando na hora de sua morte, amém.
Pra mim, o dia de hoje foi um dia sem fim.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

POVO E CARNAVAL

Ninguém fez mais eu faço a seguinte pergunta: O Carnaval faz parte do universo da cultura popular?
Visto daqui diante da telinha própria da máquina de fazer doido a que se referia o Ponte Preta, sim. Porém de outro prisma, não.
O Carnaval desde as suas origens remotas, o povo não era parte excludente.
Hoje, sim.
No começo era o Entrudo (imagem ao lado)depois, e ainda no século dezenove, o Carnaval era ainda brincadeira de rua, com cordões famosos, blocos e já no século vinte, escolas.
A primeira escola no Rio chamou-se Deixa Falar; em São Paulo, Lava Pés.
Era tudo feito e brincado de modo espontâneo, até que as escolas se profissionalizaram.
E hoje o que se vê é a contravenção marcando presença num batecumbum que se ouve a partir dos Sambódromos e a partir daí o povo foi excluído para dar lugar à elite que não brinca em serviço.
Em suma: Não há cultura popular sem povo.
Em grandes cidades brasileiras, como Recife, a espontaneidade popular no Carnaval ainda perdura com seus blocos atraindo milhares de foliões, mas há um detalhe: essa espontaneidade ganha eco na forma antiga do Entrudo, em que se sentia prazer e achava-se graça no mau comportamento em que o próximo era a vitima; isso, aliás, tem ocorrido de maneira lamentável em bairros famosos como o paulistano Vila Madalena, onde desajustados se divertem na sujeira e no aperreio do próximo.
 A Madalena transformou-se numa espécie de Sodoma e Gomorra. E isso não é folia, tampouco folia saudável.
Será que estamos voltando ao pior da Idade Média?

ESCÂNDALO

O homem corrompe e é corrompido desde que desceu da árvore e passou a andar equilibrando-se em duas pernas. Rouba-se e mata-se com a naturalidade dos anjos. Isso no mundo todo. Agora mesmo, no Brasil, as denuncias de corrupção estão alcançando índices tsunâmicos. Da Europa vem à notícia de que milhares e milhares de contas de ditadores, ladrões, assassinos, e outros e outros, incluindo brasileiros foram abertas no HSBC suíço. Um detalhe me chamou a atenção: o jornalista Peter Oborne pediu demissão do diário londrino Deily Telegrapg e sabem o motivo? Simples: o Jornal não está cobrindo o escândalo provocado pelo HSBC. Pois é! Que lição poderemos tirar daí?






sábado, 21 de fevereiro de 2015

TEM CONTRAVENÇÃO NO CARNAVAL

Eu desafio a qualquer seguidor deste blog ou não, a cantar de memória qualquer samba de enredo de quaisquer escolas de samba, seja do Rio de Janeiro ou de São Paulo.
Claro, talvez só seus autores e puxadores ou fanáticos em último grau das escolas.
Não nego que a maioria desses sambas traz no enredo histórias interessantes e mais das vezes necessárias ao conhecimento e lembrança. Os sambas de enredo são feitos para fazer brilhar as suas escolas e seus puxadores, evidentemente.
Claro, que no passado há autores cujos nomes permanecem vivos na memória: Mano Décio, por exemplo.
Aliás, o primeiro samba de enredo com essa denominação foi carimbado por Mano Décio e Fernando Barbosa.

-> O Fim dos sambas de enredo

Não quero falar aqui de saudosismo, mas não custa lembrar que os carnavais de outrora traziam no seu bojo um charme muito especial, que era o brincar por brincar.
La atrás era o povo simples honesto e trabalhador que fazia o Carnaval para si.
Em suma o Carnaval era do povo para o povo.
Sem dinheiro sujo, Carnaval não seria o mesmo, diz Neguinho da Beija-Flor Hoje o Carnaval virou um negócio com um quê de muita beleza e perigo mortal, por ser produzido por profissionais de extremo requinte e financiado por “empresários” do submundo do crime. E não duvidem, inclusive por que entrevista do puxador Neguinho da Beija Flor à Rádio Gaúcha não deixa duvidas. Clique.
Pois é, e claro que isso não é surpresa.
Mais tarde, a partir das 21hs, tem mais desfile na Marques de Sapucaí, no Rio. A última a desfilar é a Campeã Beija Flor, com o samba de enredo patrocinado por dinheiro sujo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

UM RIO CHEIO D'ÁGUA

Depois das cinzas, muito porre, orgia e arrependimento os foliões voltaram à vidinha do feijão com arroz.
Os estragos, como lembranças presas à retina ficaram para trás.
N'alguns pontos da Capital paulista, como a Vila Madalena, ficaram os restos orgíacos de quem não nasceu para conviver em sociedade.
Um horror!
Muito bicho com cara de gente foi visto nas ruas da cidade, em bandos.
Agora juntem-se o horror e a beleza, O dinheiro sujo de sangue e miséria com risos, brilhos e fantasias.
O resultado é êxtase sob as palmas do mundo.
Não dá para esquecer nesse processo a dinheirama que o ditador da  Guiné Equatorial despejou na conta dos donos da beija-flor.
Quatro décimos levaram á vitória a Beija-flor.
Foi tudo muito bonito, inclusive a poética contida no enredo. Entendo, porém, que a ética é um bem impagável, e como tal, qualquer cidadão, de qualquer lugar dele deva se orgulhar.
Um cidadão aético não é cidadão.

Depois de muito tempo, o Rio Piracicaba transbordou. Foi hoje. Com isso enormes volumes d'água seguiram para o Rio Tietê e do Tietê para o Paraná, para a Argentina e de lá, para o mar.
O que quero dizer com isso?
Quero dizer da incompetência e da indiferença dos nossos governantes que não mexem uma palha para, por exemplo, criar um meio para guardar ou represar a água que sobra dos rios.
É pra chorar ou não é?

Para lembrar uma cantiga que trata do Rio Piracicaba, clique: 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

COISAS DA TELINHA E DA TELONA

Mesclada por meninas recém saídas da adolescência, uma multidão de mães e vovós pra frentex como se dizia lá atrás, nos anos de 1970, ocupou, no último fim de semana, as mais de um mil salas de projeção de filmes espalhadas Brasil a fora, doidas para ver cenas picantes e de maus tratos saídas das páginas de três tijolões intitulados 50 tons de cinza, da londrina Erika Leonard James, que estão sendo consumidos pelos rabos de saia do mundo todo.
Na estreia, o filme dirigido por Sam Taylor-Johnson, faturou cerca de 150 milhões de dólares nos EUA. No Brasil, até agora cerca de nove milhões de reais.
A história é babaca. Trata-se de uma jovem estudante que vai entrevistar para um jornal da sua faculdade. Os dois se envolvem nos lençóis e lá fazem tudo o que o diabo manda. E aí rola de tudo. Além de chicote e algemas, tem até serrote, frigideira, martelo e prego! Eu, hein!

...

Ontem, ouvindo o programa Cartão Verde da TV Cultura, me deliciei com as histórias do ex-craque de futebol dos campos brasileiros Dadá Maravilha.
Dentro ou fora do campo, Dadá sempre foi e é uma maravilha!
Indagado sobre se fora proibido de transar antes dos jogos da Seleção, ele respondeu com a maior tranquilidade do mundo algo como: não se perdia na solidão, se completava por si próprio.

Viva o Dadá!

...

Como eu disse ontem, a Vai-vai conquistou esse ano o seu 15º título.
A festa pelo novo título rolou na quadra da escola na Bela vista até de manhã. E atenção, no próximo ano, os foliões da Vai-vai, vão estar noutro lugar, pois no atual deverá surgir uma nova estação do Metrô.
A informação nos foi passada pelo amigo Tobias.
Daqui a pouco, saberemos qual será a campeã do carnaval carioca. Eu gostei muito da Unidos de Vila Isabel, que levou a Sapucaí, merecida homenagem e corpo presente ao paulistano Isaac Karabtchevsky, um dos maiores maestros do mundo. Tem 80 anos de idade.

...

Muitos amigos tem me telefonado para falar da minha presença na banca de pitaqueiros do Jornal da Cultura anteontem. Foi legal, quem não assistiu, clique:



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

VIVA O CARNAVAL BRASILEIRO!

Oitenta e cinco anos depois de fundada, a escola de samba Vai-vai fatura o seu 15º título: o de campeã do carnaval paulistano 2015.
O novo título foi conquistado após um belíssimo desfile no sambódromo, onde outras 13 escolas desfilaram para gaudio dos milhares de espectadores que lotaram as arquibancadas e camarotes mesmo com os preços custando os olhos da cara.
A Mancha Verde e a Tom Maior, caíram.
No Rio de Janeiro, as escolas também fizeram bonito.
O resultado se saberá amanhã.
Eu, particularmente, gostei muito da Unidos de Vila Isabel, que homenageou o paulistano maestro Isaac Karabitchevsky.
A festa de comemoração ao 15º título da Vai-vai começou agora pouco, por volta das 18 horas, no bairro da Boa Vista, sua sede.
Essa festa se prolongará até o ano que vem, com muita cerveja, chuva e alegria.
Os canais de TV e emissoras de rádio não param de falar do carnaval que ainda prossegue em várias cidades brasileiras, como Salvador, onde folia não tem hora pra começar nem dia pra terminar.
Em Recife o frevo também continua.
O resultado disso tudo é o seguinte: a música está ganhando. Explico: a Vai-vai ganhou comemorando Elis Regina e, no Rio de Janeiro, quem sabe? A música também se reafirmará na batuta do maestro.
Detalhe: além da Vai-vai, outra escola que também abordou o tema música, a Tucuruvi, também  brilhou. O seu tema para o samba foi as antigas marchinhas do carnaval de outrora. Ficou em 6º lugar.
Viva o carnaval brasileiro!

Para lembrar, clique:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

NA AVENIDA, MAESTRO UNE O POPULAR AO ERUDITO


Um fio invisível separa a cultura popular da cultura erudita, mas, a fonte que abastece a cultura erudita é visível e tem um nome: cultura popular. Exemplo disso é a obra de Shakespeare, de Alighieri e Cervantes. A obra de mistérios e calafrios de Poe também tem tudo a ver com o popular, por ser baseada no cotidiano banal da sua época. Porém, é do banal que se extrai a essência das qualidades literárias, musicais etc.

Na verdade, nem precisamos ir à Inglaterra de Shakespeare, à Itália de Alighieri e à Espanha de Cervantes, tampouco à Boston (EUA) do autor de O Corvo. Aqui mesmo, no Brasil, temos Augusto dos Anjos, Gilberto Freyre, Machado de Assis e outros grandes literatos de ontem. De hoje, Dalton Trevisan.

Carlos Gomes, o maior compositor operístico das Américas, foi quem levou pela primeira vez o nome Brasil para a Itália e outras partes do mundo. Isso a partir da segunda metade do Século XIX, que é quando ele apresenta O Guarani no Scalla de Milão.

São muitos os exemplos de arte popular e arte erudita, com a segunda bebendo diretamente na fonte da primeira. E para ilustrar tudo isso, não custa lembrar que a escola de samba Unidos de Vila Isabel, este ano com o enredo O Maestro Brasileiro Está na Terra de Noel, tem Partitura Azul e Branca da Nossa Vila Isabel, (para ouvir, clique abaixo) confirma que a nossa rica diversidade étnica se une com perfeição numa só unidade cultural, como bem diz o jornalista e escritor José Antônio Severo, autor do livro “os Senhores da Guerra”.  

A escola que leva o nome do bairro onde o bamba do samba Noel Rosa nasceu, homenageia o maestro Isaac Karabitschevsky que tantas alegrias já nos deu nas salas de concerto afora. Nessa madrugada, na própria avenida, mostrou toda sua grandeza ao reger em campo aberto uma orquestra. Foi coisa de encher os olhos. E ouvidos.  


Quero dizer com isto que o Brasil, com todas as suas mazelas e incongruências, ainda tem jeito. Viva o samba! 


domingo, 15 de fevereiro de 2015

O QUE HIENA TEM A VER COM CARNAVAL?



 Não faz tempo brincava-se o Carnaval por três dias seguidos, tanto que o período era chamado de “tríduo momesco” que culminava com a quarta feira de cinzas.
Eram brincadeiras simples, de cantigas simples, de marchinhas, de confetes e serpentinas nos clubes.
Hoje isso mudou nem confetes e serpentinas há por ai. O que há é muito exagero acompanhado de muita coisa que não presta como crack e desrespeito ao vizinho.
O tempo em que o Carnaval era brincado de modo simples e espontâneo e seu período chamado de tríduo momesco não existe mais, pois foi substituído por um tempo que é o tempo todo. Não tem mais esse negocio de três dias. Na Bahia, por exemplo, o Carnaval começa em Janeiro, ou antes.
Para ilustrar isso, basta lembrarmos que na Bahia quando não se esta dançando está-se ensaiando, como certa vez me disse o menestrel Juca Chaves.
Refiro-me, claro, ao nosso Carnaval.
O povo brasileiro é um povo difícil de ser entendido.
Como definir um povo que sofre e ao mesmo tempo ri tanto, até de si próprio.
Será que temos algo a ver com hiena?
Andei escrevendo mais longamente a respeito do nosso Carnaval, dos seus personagens compositores, da musica característica do período...
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sábado, 14 de fevereiro de 2015

CARNAVAL VENDIDO!

Na última madrugada perdi o sono e pelos meus ouvidos entrou o manjado e - quase sempre - irritante baticumbum das escolas de samba do grupo especial paulistano, no sambódromo, criado pela conterrânea Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo.
O baticumbum começou com a Mancha Verde, cujo enredo tratou do centenário de criação do Esporte Clube Palmeiras, seguido dos Acadêmicos do Tucuruvi.
O enredo do samba da escola da Zona Norte da cidade tratou das antigas marchinhas de carnaval.
A última escola a desfilar no sambódromo paulistano foi a Nenê de Vila Matilde.
O baticumbum continua hoje.
Nas ruas do centro e da Vila Madalena, principalmente, o que se viu e ouviu foi a zoeira de dezenas de blocos de sujos.
Um bloco feminino, afro, chamado Ilu Obá de Min, foi um dos que, como sempre, encheram de alegria olhos e ouvidos dos foliões.
Hoje o desfile no sambódromo será aberto pelo samba da Vila Maria e encerrado com a X9 paulistana, escola pela qual desfilei há dois anos, em cima daqueles enormes carros alegóricos (acima, coisa que certamente jamais voltarei a fazer).
O baticumbum no Rio de Janeiro começará amanhã, na Marquês de Sapucaí.
Mas o carnaval de escola de samba, tanto no Rio quanto em São Paulo, está vendido: quem paga mais, vai pra avenida.
A Beija-flor de Nilópolis, é um exemplo disso: o ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, que detém a oitava fortuna pessoal do mundo, segundo o ranking da revista norte-americana Forbs, comprou a sua alegria pela bagatela de dez milhões de reais, em dinheiro vivo. E mais: ele ainda entendeu de enfiar um "verso" seu na letra do samba intitulado "um griô conta a história: um olhar sobre a áfrica e o despontar da guiné equatorial. caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade".
Que vergonha, ter os bolsos cheio de dinheiro sujo procedente de um país que vive na miséria, como a Guiné Equatorial.
Desde já, zero para os dirigentes da Beija-flor.

TV CULTURA
Depois de amanhã, segunda, estarei integrando a mesa de pitaqueiros do Jornal da Cultura, a partir das 21 horas. Meus pitacos serão expostos após a apresentação das mazelas em forma de notícia em destaque no correr daquele dia. Um exemplo? Digamos que o apresentador dê a notícia que o mundo acabou. O meu comentário certamente será: "já não era sem tempo, acabou porque não prestava". 
Quem não tiver muito o que fazer, sintonize a Cultura nesse horário.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O SAMBA PEDE PASSAGEM

Hoje é sexta feira 13, de Carnaval.
É a festa mais popular do Brasil e uma das maiores do mundo.
Começou com o Entrudo, no século 19.
O carnaval como nós conhecemos, é brasileiro. Mas as suas origens remontam há muitos séculos, desde os tempos em que galinha tinha dente. No entanto, repito: Como tal o conhecemos é brasileiro.
Nos barracões a bagunça está organizada há meses e ganhará a avenida logo mais às 23 horas.
A primeira escola a desfilar é ....
Na telinha de fazer doido, como dizia o bem humorado Stannislaw Ponte Preta, é uma mesmisse só com muito colorido e pernas e outras coisas de fora. Mas há alternativa para olhos cansados dessa mesmisse: O rádio.
Aliás, hoje é o Dia Mundial do Rádio, criado pela ONU - Organização das Nações Unidas.
Quando o carnaval começou a substituir o entrudo, a bagunça começou a ser organizada. Tão organizada que o Barão do Rio Branco chegou a falar a respeito:
E aí vieram as marchinhas.
Vieram as marchinhas, os sambas de ritmos diversos e só bem depois, os sambas de enredo.
O primeiro disco com sambas de enredo, foi gravado nos fins de 1950.
Era tudo muito simples, tudo muito natural, tudo, a bem dizer, familiar.
Em São Paulo, havia corsos, como no Rio de Janeiro.
Lembro que certa vez, o maestro - vejam só! - Eleazar de Carvalho contou-me da beleza que era desfilar na Rio Branco dos anos 50; ele, tocando tuba; Pixinguinha, flauta; João da Baiana, Villa-Lobos e Almirante, entre outros bambambans da época.
Uns 20 anos antes, o mesmo Eleazar estreara em disco "de 78 voltas", acompanhando com a sua tuba a portuguesinha abrasileirada Carmem Miranda.
Mas essa é outra história.
Em São Paulo, as escolas de samba datam dos anos de 1930.
Em São Paulo, o carnaval passou a ser notícia de rádio, com narração inclusive, no começo dos anos de 1960. Quando, por iniciativa do radialista Moraes Sarmento, a gravadora Continental levou à praça o primeiro LP reunindo sambas de enredo interpretados pelo paulistano Geraldo Filme e a rainha do baião, a carioca Carmélia Alves.
A televisão encontrou nos desfiles carnavalescos um modo simples de ganhar audiência e faturar alto para seus cofres.
Só anos depois, e me refiro aos anos 60/70, é que o rádio também entrou na parada.
A partir de hoje por exemplo, a Rádio Estadão promete por seu bloco de jornalistas/radialistas na rua e no ar, sob o comando do craque Emanuel Bomfim. Com Bomfim, estarão Leão Lobo, Renê Rodrigues, a compositorta, deputada e cantora Leci Brandão e o veteraníssimo Moisés da Rocha, titular há quase 40 anos do Programa O Samba Pede Passagem, pela rádio USP.
A palavra Carnaval aparece escrita pela primeira vez no dicionário Aulete, impresso em Portugal no ano de 1842. Diz o verbete:
"Carnaval (kar-na-vál), s. m. os dias próximos e anteriores á quaresma, e principalmente os três dias antes da quarta feira de cinzas. // Folguedos, mascaradas; orgias.// F. ital. Carnavale.
Como se vê, pouco mudou da essência do carnaval desde as suas origens.
Os sambas de enredo do carnaval paulistano deste ano de 2015 são, na sua maioria, muito bonitos. Destaque para "Entre confetes e serpentinas, Tucuruvi relembra as marchinhas do meu, do seu, do nosso Carnaval", dos compositores Fábio Jelleya, Henrique Barba, Leandro Franja, Serginho Moura, Gabriel, Fabinho Chaves, Edu Borel e JC Castilho.
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NOTA TRISTE
Da página do Facebook do amigo cordelista Marco Haurélio, o seguinte registro:

Morreu ontem, como um passarinho, em Brumado, Bahia, Dona Maria Rosa Fróes, contadora de histórias, cantadeira de romances, rezadeira, mestra da cultura baiana, brasileira, universal.
Conheci-a em 2005, apresentado por minha colega do curso de Letras da UNEB e neta de Dona Maria, Giselha Rosa Fróes. Registrei com a sua voz dezenas de contos e lendas, espalhados nas seguintes obras:
_Contos folclóricos brasileiros_ (Paulus, 2010);

_Contos e fábulas do Brasil_ (Nova Alexandria, 2011);
_O Príncipe Teiú e outros contos do Brasil_ (Aquariana, 2012);
_Contos e lendas da Terra do Sol_ (com Wilson Marques, Folia de Letras, 2014).
Também devo a Dona Maria talvez a versão mais estruturada em língua portuguesa da milenar “História dos três Conselhos”, que registrei em sua forma original e depois verti para o cordel, conservando sua estrutura básica.
Reproduzo aqui, em sua homenagem, o conto “Toco Preto e Melancia”, que faz parte da obra _Contos e fábulas do Brasil_.
Era uma vez um homem que vivia com a mulher e as filhas. Uma de suas filhas se apaixonou por um rapaz que morava nas redondezas. Pelo fato de o moço ser tropeiro, o pai dela não permitia o casamento, alegando que ele viajava muito e não parava em casa. Ela respondeu que ele viajava para ganhar a vida, mas que se tratava de um bom rapaz:
— Quem vai casar com ele sou eu, e não o senhor, meu pai!
Como não adiantava reclamar, a moça e o rapaz começaram a namorar escondido. Um dia, combinaram um encontro na roça de mandioca do pai dela, onde tinha um toco preto no lugar de uma árvore queimada. Ele disse:
— Nós vamos nos encontrar toda semana no dia tal.
E assim foi feito: eles se encontravam para conversar sem o pai da moça saber. De noite, ela dizia que ia à casa da vizinha e, desviando do caminho, ia ao encontro dele. O namorado, então, fez essa proposta:
— Vamos nos tratar com outros nomes: você me chama de Toco Preto e eu a chamo de Melancia. Assim ninguém vai desconfiar. O casal continuava a se encontrar nos dias marcados. Mas, depois do último encontro, ele ficou um ano sem vir, viajando com sua tropa. Nesse espaço de tempo, apareceu um moço chamado Antônio de Zé Moreira que queria casar com Melancia. A moça disse aos pais:
— Ele é muito bom, mas não para casar comigo. — Mas, depois de pensar que já fazia um ano sem ver o seu amado, resolveu aceitar o casório. O casamento foi marcado no mesmo dia em que se davam os encontros entre Toco Preto e Melancia. Quando Toco Preto retornou da viagem, ficou sabendo do casamento de sua amada. Então ele disse:
— Não tem nada, não. — E chamou um empregado, dizendo:
— Vai na casa da moça que está se casando e faça tudo o que eu mandar. — E passou todas as informações para o empregado.
A festa rolava solta com os noivos no salão. Naquilo, chegou um homem e começou a jogar uns versos que diziam:
Lá na serra da Taquara
Desceu hoje um cachorrinho
Tomando sol pela testa
E vento pelos ouvidos.
Lá no toco preto, ingrata,
Eu deixei o seu gemido.
E o homem continuou dançando e cantando:
— Samba pra trás, rapaziada! Samba pra trás, rapaziada! — enquanto jogava os versos. Mas Melancia só ouvia, sem desconfiar do que se tratava:
Oh! que moça tão bonita
Tão custosa a desconfiar.
Minhas avistas, Melancia.
Toco Preto está no lugar!
Bastou ele cantar estes versos para ela entender tudo. Pediu licença à madrinha, dizendo que ia se deitar um pouquinho para descansar. Em casa, chamou uma empregada que lavava a louça, e disse:
— Ana, pegue uma lata, coloque uma galinha cheia e um lombo com farofa, feche-a e ponha numa sacola e traga para mim, rápido!
As outras empregadas pensaram que era presente para alguém na festa. Com toda cautela, Melancia saiu pelos fundos com a empregada Ana. Na estrada para a roça, tinha uma porteira. Ana segurou-lhe o vestido para não se sujar e as duas seguiram viagem. Quando chegaram na roça de mandioca, no toco onde se davam os encontros, o rapaz que jogou os versos já as esperava. Toco Preto ordenou, então, ao empregado que pegasse os cavalos, que estavam arreados. Montaram rapidamente e tocaram viagem para a terra de Toco Preto.Na festa, quando deram por falta da noiva, a mãe perguntou à madrinha:
— Cadê Ana?
— Está na cozinha lavando louça!
— E minha filha?
— Ah, ela foi se deitar um pouco porque estava cansada, mas já faz um bocadinho.
A mãe resolveu, então, ir ao quarto procurar a fi lha, mas não a encontrou. Na cozinha, soube que ela e Ana saíram com uma sacola, e que já fazia um tempinho.
Desta forma, Melancia saiu para encontrar-se com seu Toco Preto e deixou noivo, festa e todos para trás.


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