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sábado, 11 de fevereiro de 2017

A MARCA TINHORÃO


Aristófanes e Aristóteles
Convidaram Sócrates e Platão 
Para irem a um forró

Dançar xote, xaxado e baião

Quando lá eles chegaram
Encontraram Simone de Beauvoir
Toda arrumadinha
E já pronta prá dançar

O cantor era Bethoven
O sanfoneiro, Debussy
Na zabumba o bamba Bach
e Jackson, no pandeiro

Zé Limeira e Shopenhauer
Num canto filosofavam
Enquanto Marx e Tinhorão
Uma cabrocha disputavam

A festa foi animada
Com eruditos no salão
Cantando, se divertindo
Ao som de Luar do Sertão

(FORRÓ ERUDITO, Assis Ângelo)


A obra do historiador José Ramos Tinhorão é toda desenvolvida pela ótica marxista-leninista. Talvez por isso ele tenha, ao correr do tempo, levado tanta bordoada. Essas bordoadas têm sido desferidas tanto pela esquerda quanto pela direita. Muitos o chamam de radical. Por que hein?
Tinhorão ingressou no jornalismo em 1951, e por muito tempo assinou uma coluna no extinto Diário Carioca, do Rio de Janeiro. Nessa coluna ele assentou alicerce para sua bibliografia que se iniciaria, de modo independente, em 1966.

Suas pesquisas em torno da história musical do Brasil alumiaram a escuridão até então reinante na nossa música. 
Não será exagero dizer que Tinhorão é uma espécie de farol da cultura brasileira.
Tinhorão não é do tipo "bateu, levou". 
Nomes famosos como Tom Jobim, Caetano, Chico, nunca mediram palavras para condená-lo, pelo fato de ele dizer o que lhe vinha à mente. O nome de Tinhorão pode ser ouvido numa música famosa: Querelas do Brasil, com Elis...
Da Bossa Nova, por exemplo, ele disse ser o ritmo da goteira, e que as músicas de festival tiveram por base a Bossa Nova. Sobre o Tropicalismo, Tinhorão disse uma vez que foi uma invenção de malandros.
Rock nacional? Sua resposta: "há samba japonês?"
Outros nomes famosos vêm em Tinhorão e nos seus livros a defesa e o reconhecimento de um Brasil de grande valor cultural.
Rolando Boldrim, Vital Farias, Oswaldinho da |Cuíca, Oliveira de Panelas e tantos e tantos sempre aplaudiram o historiador, pela originalidade e clareza nos escritos. Sobre ele, escreve o cantador de Panelas:



O GENIAL TINHORÃO



Tinhorão é formado, fez Direito,

Jornalismo, tal qual Filosofia;

Neste aval a real Sabedoria

Vem trajada nos halos do respeito.

Pelo bem que este homem já tem feito

Que o Brasil lhe agradeça e dê-lhe a mão.

Faço unânime e sincera afirmação:

Este reino da Música Brasileira

Não teria a história verdadeira

Sem o grande Zé Ramos Tinhorão!



Tinhorão é jazida de cultura,

Tem seus discos, - acervo, - uns sete mil!

Nas imprensas -vitrines do Brasil-

É um nome lendário que fulgura.

Vê na letra, a razão da partitura:

Sustenidos, bequadros, vê bemóis...

Onde quer que exponha sua voz

Deixa raios de sua inteligência,

Tinhorão será sempre a referência

Do respeito maior de todos nós.                                                        
                                                    OLIVEIRA DE PANELAS




José Ramos Tinhorão nasceu no dia 07 de fevereiro de 1928, em Santos, SP. E para saber mais sobre ele, leia o livro de Elizabeth Lorenzotti.


PARABÉNS

Todo dia é dia de aniversário. Todo dia algum amigo aniversaria. Hoje, por exemplo, o aniversário é do advogado Felipe Garofalo. Felipe parece um ser comum, à primeira vista. Mas não é. Ele é de uma sensibilidade e inteligência incríveis. Parabéns Felipe. Tim Tim!

É CARNAVAL!
  


O carnaval paulistano começa a pegar fogo. Começou a rolar agora, o som de dois blocos já tradicionais do Rio de Janeiro: Banda La Fumega e Sargento Pimenta. O som tá rolando logo ali na Praça do Memorial da América Latina.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

SOBRAL PINTO, ESCOLA E CIDADANIA.

Se corretos os dados do MEC há cerca de 50 milhões de estudantes em 200.000 escolas de todos os tipos, de lata e pau a pique, inclusive. Mesmo assim, se verdadeiros os dados, uns dez ou doze milhões de brasileiros continuam analfabetos da silva. Isto é, sem saberem distinguir um ó de uma roda de caminhão.
Triste essa realidade, não é mesmo?
As realidades em nosso País são todas absolutamente terríveis. Retrato disso são as cadeias etc.
soldados do nosso brioso Exército continuam chegando às ruas do mimoso Estado do Espírito Santo, ES. Enquanto isso, o Brasil continua sem ministro na pasta da Justiça.
Em 1955, setores do Exército, se movimentavam na caserna, com o fito de impedir a candidatura do mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira à presidência da República.
Um ano antes, o ditador gaúcho, Getúlio Vargas, havia se matado com um tiro no peito.
Sempre atento às injustiças, o jurista e advogado de presos políticos Heráclito Fontoura Sobral Pinto, em movimento rápido criou a Liga em Defesa da Legalidade. Com isso, Juscelino conseguiu chegar à presidência da República. Empossado, JK convidou Sobral a assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, STF.
Chamado carinhosamente pelos brasileiros lúcidos, Sobral Pinto, educadamente declinou do honroso convite.
Lembrei desse caso ao ouvir no rádio a notícia de que o paulista Alexandre Moraes anda adoidado, exibindo seu currículo aos senadores que o vão sabatinar, com vistas a ocupar a cadeira do recém falecido Teori Zavascky.
Que tempos, hein?
O rádio também diz que o novo candidato à cadeira no STF é um plagiário.
Quem será o novo ministro da Justiça?
Ontem, os aplicados senadores aprovaram projeto de reforma do Ensino Médio, com isso garantiu-se no currículo escolar as disciplinas Português, Matemática, Inglês, Artes, Educação Física, Filosofia e Sociologia. Menos mal, não é? Mas faltou História.
Um povo que não conhece a sua história, a história do seu País, é um povo manco.
Para ilustrar arrisco-me neste poeminha:

Diógenes foi um craque
Do escracho e do Saber
Viveu antes de Cristo
Tentando só entender
Por que se rouba tanto
E se rouba até morrer

Procurar um ser honesto
Em plena luz do dia
Com uma lanterna acesa
Como Diógenes fazia
É coisa para quem sabe
O que é cidadania

Cidadania se faz
É com Democracia
Muita força de vontade
E muita teimosia
Sem essas três "coisinhas"
Não se faz Cidadania


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TINHORÃO E MACHADO DE ASSIS, ALGO A VER?


Até o século 19, o Brasil era Francês.
Coisa de doido, não é? Em todas as solenidades oficiais, tocava-se a Marselhèse.
Em 88 a princesa Isabel canetou a liberdade. Liberdade?
Imaginemos um escravo livre, sem saber o que fazer num lugar que não é dele e sem saber prá onde vai.
Mas não é disso que eu quero falar.
Até 1982 houve, no Brasil, um brasileiro que passou a vida tentando entender e explicar a desigualdade entre pretos e brancos, ricos e pobres.
Esse brasileiro ganhou na pia batismal o nome, puro e simples, de José Ramos.
José Ramos, Tinhorão depois, marcou na vida brasileira. Foi esse cara, craque na escrita e no saber, que inventou, no jornalismo, "a foto legenda".
Vocês sabem o que é foto legenda?
José Ramos Tinhorão é o cara mais importante que há no tocante ao estudo da história da cultura musical no Brasil.
Tinhorão é caso único na história do Brasil, no tocante à história do Brasil.
Ele nasceu no dia 07 de fevereiro de 1928.
Todas as turbulências acontecidas no Brasil, Tinhorão vivenciou, desde então.
Tinhorão é de esquerda?
Tinhorão é de direita?
Essa história de direita e de esquerda vem da França de antigamente, só não sabe disso que não quer saber.
Machado de Assis era republicano, socialista, centrista, comunista?
O nosso principal escritor politicamente pendia para o lado que até hoje chamamos de liberal. E ele viveu com Viscondes, Barões. Foi do tempo do Imperador Dom Pedro II.
O carioca Machado de Assis foi de uma grandeza ímpar na história o Brasil, como Tinhorão.
Voltarei ao assunto.


Ah! Tinhorão é personagem explícito do tarado pernambucano Nelson Rodrigues, de que era amigo pessoal, e com quem trabalho no Diário Carioca. O personagem Tinhorão tá lá no romance que virou filme Bonitinha Mas Ordinária. O filme está em algum lugar, procurem-no.





VIVA JOSÉ RAMOS TINHORÃO ?

Em 1964,soldados e tanques do Exercito invadiram as ruas do Brasil .
Há dois ou très dias, soldados do Exercito invadiram as ruas do Brasil  em Espírito Santo,ES.
O Brasil está em guerra, vocês perceberam ?
Anualmente,mais de 50 mil pessoas são assassinadas em nosso País.
Nem no Oriente Médio, mata-se tanto.
Em 21 anos de ditadura militar, no Brasil,  matou-se tanto quanto mata-se num mês hoje, no Brasil.
Mas não é disso que eu quero falar, pois chega de tristeza.
O brasileiro José Ramos Tinhorão viveu todas as turbulências ocorridas em nosso país desde o ano, de1928.
Hoje, Tinhorão  está com 89 anos e dois dias de idade.
È um menino?
Eu conheço José Ramos menino há 40 anos.
José nasceu em Santos, SP, e com 9 anos de idade foi morar com a família  no Rio de Janeiro.Estudou Direito e ingressou no Jornalismo em 1951.e fez história a parti da redação do Diário Carioca.Foi lá que ele teve acrescentado ao seu nome de batismo o nome da planta venenosa que o consagrou :Tinhorão 
antes de ganhar o nome da Planta, apenas José Ramos ou J.Ramos.
Esse José é o José mais importante da historia crítica da música brasileira.
Tinhorão está para a historia da música brasileira, como Luís da Câmara Cascudo está para o folclore Brasileiro.
Não dá para falar de música e folclore no Brasil sem falar desse José e desse Luis.
esses dois caras são de fundamental importância para a compreensão da história do Brasil.
voltarei a o assunto .
No próxímo sábado 11, um monte de cabras bons no samba vai tocar e cantar em homenagem ao aniversariante. isso se dará no bar Amélia, ali na Vila Buarque.
quem não for bater palmas pro Tinhorão é bobo, certo?
enquanto sábado não chega, clique abaixo para ver e ouvir o menino Tinhorão falando sobre o que mais sabe: música.

 O CRAQUE FAUSTO
O Brasil é rico até na pobreza, eu já disse e não canso de dizer.
Não é porquê são meus amigos,mas Alcir, Gê, Angeli e Fausto são gênios.Gênios do traço. e da alegria de viver.Convivi com o mestre Fortuna e tantos.
com uma simples caneta,com lápis,os gênios do traço criam e alimentam a vida.




CORDEL, ESCOLA E VIOLÊNCIA



Territorialmente, o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking definido pela ONU. Populacionalmente, o Brasil também está entre os primeiros. No tocante à questão cultura, o nosso País é também um dos mais ricos do mundo.
O Brasil, oficialmente, foi “descoberto” pelo navegador Cabral na segunda parte do mês de Abril do ano de 1500.
Em 1498, portanto antes de Cabral, desembarcaram portugueses no Brasil. E aí foram chegando espanhóis, franceses, holandeses... E o Brasil foi virando uma espécie de casa de mãe Joana, famosa cafetina portuguesa...
Os portugueses e outros povos que primeiro por aqui chegaram trouxeram seus hábitos e costumes; sua cultura, por exemplo. Com isso, nos tornamos a maior nação miscigenada do planeta.
Esses povos deixaram até parte de suas línguas: árabe etc.
Boa parte do folclore português nós assimilamos. A folia de reis, por exemplo. A desgarrada, que aqui virou “cantoria de repente”. E por aí seguiu a história.
Com dimensões continentais, o Brasil é rico até na miséria.
Muitos milhões de brasileiros vivem ou sobrevivem instalados em barracos, nas favelas, quando não perambulando sem rumo nas ruas das grandes cidades, principalmente.
Cerca de 12% dos brasileiros ainda são, hoje, analfabetos de pai e mãe.
O número de analfabetos funcionais triplica.
Terrível, não é?
O professor faz de conta que ensina na sala de aula e na sala de aula o aluno faz de conta que aprende. E o resultado disso é “pancadão”, no sentido completo que o leitor entender.
Os números são desencontrados no tocante a brasileiros recolhidos às cadeias. Há estatísticas que indicam sermos o 4º país a ocupar esse ranking, atrás apenas dos Estados Unidos, Rússia e China.
Há números que indicam também que ainda há mais de 400 mil mandados de prisão a serem cumpridos e que não o são por uma razão bastante simples: não há espaço nas cadeias públicas, porque também há cadeias privadas, você sabia? Em Minas, por exemplo. E também no Amazonas. E também...
O ano de 2017 começou com uma carnificina no presídio de Manaus e essa tragédia ganhou outros presídios noutros lugares e também nas ruas.
O que está acontecendo, hoje, no Espírito Santo é terrível. Em cinco dias foram assassinadas mais de uma centena de cidadãos, em consequência da insegurança total que reina naquele Estado.
Mata-se mais no Brasil hoje do que nunca. Nem em Aleppo, no Oriente Médio, mata-se tanto.
E a coisa pode piorar.
Isso tem a ver com analfabetismo?
Somos um país rico até na miséria, se é que me entendem.
Os portugueses nos trouxeram parte da sua cultura, eu disse lá em cima. Dessa cultura, faz parte a literatura de cordel, como a folia de reis e a desgarrada.
Em país nenhum do mundo a cultura portuguesa se desenvolveu tanto quanto entre nós.
A literatura de cordel passa a germinar, no Brasil, a partir do século XIX. O melhor e mais expressivo cordelista brasileiro foi o paraibano Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918).
Leandro foi um cronista muito importante da vida brasileira. Ele é tão importante para a nossa cultura escrita como o carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1831 – 1908).
Voltarei ao assunto. Mas antes, deixo no ar uma pergunta: será que um dia teremos mais cadeias do que escolas públicas?
E por falar em Cordel, cliquem:




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A SECA MATA SEM O GOVERNO VER...


O Jequitinhonha, em Minas, e todo o semiárido nordestino estão ardendo, queimando o solo, como há muito tempo ocorre, sem que as autoridades do momento tomem as providências necessárias em favor dos flagelados. A coisa está feia e isso, não sei por quê, não aparece nos jornais e revistas e no noticiário do horário nobre. Esquisito, não é? É tudo muito esquisito neste nosso País secularmente tão judiado...
Eu disse e repito: a seca no Brasil se acha como tema em tudo quanto é manifestação artística.
A crônica poética do cordelista paraibano, Leandro Gomes de Barros (1865-1918), registra momentos de grande efervescência social, especialmente no Nordeste.
Da antena aguda e sensível de Leandro não escaparam a fome, a seca, a carestia, a política. De tudo, ou de quase tudo, ele falou.
A seca de 1877 foi de lascar, muita gente sabe disso. As secas subsequentes também.
Leandro Gomes de Barros deixou para a história o seu relato sobre o miserê provocado pela ardência do Sol de 1915, que fez mortos gentes e bichos (acima a menina Francieli lê o texto...)
A seca no Ceará, de Leandro Gomes de Barros é uma obra-prima. Em 1930, a escritora cearense Raquel de Queiroz publicou o seu primeiro livro, a obra-prima O Quinze. Antes dela, em 1928, o paraibano José Américo de Almeida lançou A Bagaceira, marco do romance regionalista brasileiro. Dez anos depois foi a vez de o alagoano Graciliano Ramos tornar pública, em livro, a sua visão sobre o flagelo da seca. Isso está em Vidas Secas.
Raquel tinha 20 anos quando lançou O Quinze.
Os personagens que se movimentam nesses três livros se fundem por identificação.
Valentim é pai de Soledade, uma linda jovem desejada por um dono de engenho e seu filho. A história com sangue, suor e tristeza, tem por foco um triângulo amoroso. Falo de A Bagaceira.
O livro de Raquel traz, digamos assim, uma história central e outra paralela.
Em O Quinze, o leitor sofre e vibra com Vicente e Conceição; e com Chico Bento e seus cinco filhos, que rompem estrada comendo poeira em busca por dias melhores. No meio do caminho, um dos meninos se perde e outro morre depois de comer mandioca crua. Mandioca, ao contrário de macaxeira, mata.
Em Vidas Secas, o sofrimento provocado pelo rigor do sol é transmitido ao leitor através de Fabiano, sua mulher Sinhá Vitória, seus dois filhos sem nome ou sobrenome, a cachorra Baleia e um papagaio, que morre logo no começo da história para amenizar a fome da família de retirantes.
É tudo muito triste.
A ficção é filha da realidade terrível que aflige o povo sem posses no nordeste brasileiro e no Brasil inteiro.
A realidade parece ficção, tudo junto e misturado.
A seca de 1932 levou o poeta popular cearense Patativa do Assaré (Antonio Gonçalves da Silva, 1909-2002) a criar o tocante poema a Morte de Nanã. Poucos anos depois, o mesmo poeta publicou originalmente num folheto o poema Pau de Arara do Norte, que viria a integrar as páginas do seu primeiro livro, Inspiração Nordestina (Borsoy, 1956, RJ), sob o título A Triste Partida. Esse poema ganharia música, uma toada, que Luiz Gonzaga eternizaria na sua voz em 1964.
A Triste Partida é um clássico do cancioneiro nordestino, por muita gente considerado um hino do povo.
Um amigo meu e do chargista Fausto, Roberto Barbosa, acaba de voltar do Nordeste com lágrimas nos olhos. Disse ele não se recordar de ter visto seca tão braba como a que assola o sertão paraibano. "Em Campina Grande já nem há água para tomar banho".


O colaborador deste blog Rômulo Nóbrega confirma as palavras de Barbosa. "Não sei não, o que poderá acontecer até o fim deste mês se não chegar água às torneiras".
Já passa de um mil o número de municípios atingidos pela falta de água do céu.
Em 1985, quando mais uma seca devastava o sertão nordestino, a pedido de Fagner e Chico Buarque, o poeta Patativa compôs o poema Seca d"Água. Esse poema foi musicado por Chico e Fagner e gravado por um coral de mais de 150 vozes da música popular brasileira, incluindo Luiz Gonzaga, Chico, Fagner, Simone, Belchior, Elba Ramalho, João do Vale, Gonzaguinha, Fafá de Belém, Gal Costa, Ney Matogrosso...Esse disco, um compacto, foi vendido e o dinheiro disso resultante vertido para os flagelados.


NA SANGRIA O RIO SÃO FRANCISCO GEME




A história é incrível, tanto a real quanto a fantástica.
Os negros de África trouxeram para o Brasil a lenda de Iemanjá, rainha dos mares, oceanos... Segundo a lenda, Iemanjá salgou as águas do mar e do mar se fez dona.
Desde menino, ouvi dizer que no mar tem sereia...
Iemanjá é uma divindade, de acordo com a lenda, nascida no Rio Ogum.
Iara é a rainha, é a dona das águas doces; das águas de todos os rios...
O mundo é fantástico, incluindo o real em que vivemos.
A divindade que habita as profundezas do rio São Francisco atende pelo nome de Irati.
Irati, segundo a imaginação geral dos ribeirinhos do São Francisco era uma índia; uma índia apaixonadíssima por seu índio que um dia, de arco e flexa, saiu da oca para enfrentar o inimigo branco, invasor...
O Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas.
O Rio São Francisco é comprido e largo, muito largo, e na origem com águas da quantidade de um mar.
O Rio São Francisco corta a Bahia, faz fronteira com Pernambuco e põe limites em Sergipe e Alagoas. Tem mais de 2.800.000 quilômetros. Bondoso, receptivo, atende diretamente a mais de doze milhões de pessoas.
O Rio São Francisco foi descoberto em 1501, pelo navegador aristocrata Américo Vespúcio.
O Rio São Francisco está sofrendo, há muito tempo. A razão do seu sofrimento somos nós, chamados de humanos.
Desde o começo do ano de 1990 que ele, o rio, está sendo demasiadamente violentado pelo homens que o querem minguado, dividido, judiado... Tudo isso em nome do povo, dos Estados de Pernambuco, Paraíba...
A primeira grande seca de que se tem notícia ocorrida no Brasil data do começo do século XVIII.
Entre os anos de 1876 e 79, a seca no Nordeste fez pedra chorar, de tão grande. Num momento qualquer desse período, um agente do governo cearense procurou o imperador Dom Pedro II para lhe propor a transposição das águas do Velho Chico. O imperador, depois de ir pessoalmente ao Ceará e constatar com os próprios olhos a desgraça, disse que isso não era possível. Detalhe: por esse mesmo tempo, Dom Pedro jurara que venderia até a última pérola da Coroa para que a situação dos flagelados fosse minimizada...
Depois da seca de 1877, veio a de 1915.
A seca de 1915 também matou muita gente e muito bicho no Nordeste; de novo no Ceará. Dessa vez, lá, foram construídos até campos de concentração.
E se olharmos com olhos de quem vê, veremos que nada mudou no Brasil; no tocante, especialmente, à seca.
Os problemas do nosso País são os mesmos do passado agigantados no presente.
Deus do Céu, como erramos na escolha dos nossos governantes!
O Rio São Francisco é conhecido desde séculos como o Velho Chico.
Como o Velho Chico, o rio tem despertado a atenção de todo mundo.
E no seu silêncio, a tragédia se consome.
Mais de 15 bilhões de reais já foram desviados em seu nome. E outro dia ouvi a notícia de que serão necessários mais pelo menos 10 bilhões para que ele seja sangrado para  Pernambuco, Paraíba...
O Velho Chico virou tema de livro, de estudos. O seu nome é cantado em verso e prosa, por repentistas e poetas de bancada. Já virou nome de filme e telenovela.
O Velho Chico está sofrendo (eu constatei estando lá, acima).
Eu gostaria de saber a opinião de Guimarães Rosa sobre a violência, mais uma, que está se praticando contra esse fabuloso rio, um dos maiores do mundo.
Já que isso não é possível, na minha imaginação eu perguntaria a Diadorim... Melhor, imagino o valente Diadorim convidando Riobaldo a, com ele, atravessar o São Francisco numa canoa antes de o São Francisco se acabar.
Ah! Rômulo Nóbrega acaba de me mandar as fotos que ilustram esse texto. São fotos feitas no município pernambucano de Sertânia, terra do meua migo cordelista, radialista, Luiz Wilson. O governo promete às vítimas da seca as águas do rio São Francisco ainda para este mês. Veja as fotos. Vc acredita?
Ouça, agora, meus amigos Valdir Teles e Sebastião da Silva cantando a modo próprio...




sábado, 4 de fevereiro de 2017

CACHAÇA E SECA MATAM


O Brasil não é somente o maior produtor de cana de açúcar.  É o maior produtor de cana de açúcar do mundo, seguido da China.
O Brasil é o maior produtor e consumidor de cachaça do mundo.
Dentre os derivados da cana produzidos pelo Brasil, acha-se o Etanol.
O Brasil é o segundo maior produtor e exportador de Etanol do mundo, atrás apenas dos EUA.
Pernambuco já foi o Estado que mais produziu cana de açúcar no País. A seca, porém, o levou a ocupar o 7º lugar no ranking nacional de produtores de cana de açúcar do País. Agora, em 1º lugar, acha-se o Estado de São Paulo.
Dentre os cinquenta municípios brasileiros que mais cultivam a cana de açúcar, 34 integram o mapa paulista.
Somente Pernambuco e Alagoas, esse último o mais violento Estado do país, fazem parte do ranking nacional dos sete maiores produtores de açúcar e derivados.
Minas Gerais é o 2º maior Estado produtor de cana de açúcar e lá se acha a cidade que mais produz cachaça no mundo: Salinas.
São nove os Estados nordestinos. Juntados, esses Estados ocupam uma área superior a 1,5 milhões de Km². Nesse espaço vivem mais de 40% da população brasileira.
A população do Agreste e do Sertão nordestinos não vê água de chuva há mais de cinco anos seguidos. É um horror dos infernos! Até a Zona da Mata pernambucana está sofrendo com a seca que tem matado muito bicho, incluindo gado.
Rômulo Nóbrega, um dos colaboradores do Nordeste para este Blog, informa que Sertânia, PE, está numa peinha de nada, numa penúria que dá pena. Em Campina Grande, PB, o racionamento já dura quase um ano. No Rio Grande do Norte, lá no interiorzão está tudo lascado. Em Terezina, PI, tem chovido umas coisinhas, informa Wilson Seraine. Também no interiorzão da Bahia, informa o cordelista Marco Aurélio: " Em Senhor do Bonfim, os olhos da gente marejam de tanto sol e calor, de tanta quentura. A tristeza é enorme. Falta tudo..."
Já passa de hum mil o número de municípios nordestinos em estado de emergência e calamidade pública.
Dos 181 municípios pernambucanos, 151 se acham na miséria provocada pela falta d'água dos céus.
No Ceará , a situação não é diferente. Também em Sergipe e Maranhão.
Os profetas da seca cearenses estão em constante vigília, rezando e clamando a São Pedro que mande chuva, pelo amor de Deus.
O Rio São Francisco de novo começa a gemer, pedindo água.
As frutas não estão vingando, a plantação de macaxeira está perdida... Viva, mesmo, só a esperança do povo que não morre...
Também terrível nessa história toda é o descaso do Poder Público.
A cachaça faz bem e faz mal.
Nos meus tempos de repórter conheci um delegado que dizia: "cobertor de pobre, é cachaça".
A cachaça está em todo canto, na literatura, no cinema, na música (abaixo um clássico do genero, com Vicente Celestino).
São milhares e milhares os rótulos de cachaça encontráveis Brasil afora. Muitos deles já extinto, como Meneguetti, de Reginópolis, SP.
Em Belo Horizonte, BH, eu tenho um amigo, o jornalista Carlos Felipe, que coleciona não só rótulos de cachaça, mas também a garrafa, lacrada, naturalmente. No depósito da sua casa há mais de 6.000 tipos diferentes da branquinha
Vamos lá meu amigo, minha amiga, o que acham desta frase: "cachaça é como mulher, no começo é bom e depois dá dor de cabeça". Outra: "Dizem que cachaça é o pior inimigo do homem, mas homem que é homem não se acovarda diante do inimigo".



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