Essa
história, do carioca Machado Assis, me fez lembrar, não sei por quê, o
nordestino Luiz Lulalá.
Na
história, o Capeta se diz insatisfeito com tudo e vai até Deus falar de um
projeto de fundação de uma igreja. De uma igreja dele, do Capeta.
Não
sei por quê, continuo lembrando do Lulalá.
A
Igreja do Diabo, este um dos títulos da série de Contos Fantásticos do genial Machado,
trata da mudança que o Capiroto quis fazer na vida nossa cotidiana, que tem
como símbolos ou regras os ditames do bom caminho. De cara, ele, o Fela,
resolveu mudar as virtudes que tanto honramos para valores totalmente
condenáveis, como a gula, a injúria, a luxúria, a preguiça, a inveja, a ira,
etc.
A
ira, por exemplo, o Sete Peles, como cita o Bahiano Riachão na música “Vai morar
com o Diabo”, foi o que levou Homero a escrever Iliade, em que se destaca o
furor de Ulysses, obra-prima traduzida para o português pelo meu querido
Houaiss.
E
não sei por quê, continuo achando que a Igreja do Diabo tem a ver com o Lulalá.
O
Diabo fundou sua igreja que não levou a nada, está no conto do Machado.
No
comecinho dos anos de 1930, o assassino suicida Adolf Hitler investiu-se de
salvador da pátria a partir de um movimento de trabalhadores na velha Alemanha.
Eu
digo sempre: ler é fundamental, nossos autores são incríveis.
Quem
ler mais, sabe mais. E o Lobato já dizia: “Um país se faz com homens e livros”.
E no século XVI, o inglês Francis Bacon já dizia que a leitura torna o homem um
ser completo.
Pensando
assim e lembrando de fatos e gentes, chego à conclusão que os luminares da
nossa judiada república estão numa peinha e merecidamente, pulando miudinho feito calango na
frigideira.
Janelas
se abrirão em dias próximos, para o bem do Brasil.
As
leituras substanciosas, com conteúdo, marcam para sempre.
O
Lobato –quem não lembra?- dizia que “um país se faz com homens e livros”.
A
leitura forma, informa, esclarece, acrescenta, muda e marca um tempo, uma
sociedade.
Quem
ler mais, sabe mais.
Francis
Bacon dizia lá pelo século 16 que “a leitura faz do homem um ser completo”. E
dizia também algo como a conversa nos prepara para a vida, para o descobrimento.
Naturalmente, a conversa é um diálogo. Um fala, outro escuta, fala. E é por aí
que tanto um quanto outro interlocutor se enriquece e enriquece as pessoas do
entorno.
A
conversa gera conhecimento.
Bacon
também dizia que a escrita mostra o saber, a sabedoria de quem escreve.
Escrever
é fácil ou difícil?
Eu
sempre gostei de ler e muitas leituras, pelo menos parte delas, ficaram retidas
na minha memória. Aliás, tudo é memória. A memória não retém o tempo, mas
registra a história.
O
amanhã é hoje, que vira ontem, passado, história; história que guarda tudo,
tudo o que é memória, até o escárnio da escória.
Guardo
comigo autores que me fizeram e me fazem o ser que sou, antenado, compreensivo,
ciente da presença enriquecedora do outro.
Os
clássicos, da música inclusive, estão aí, mais presentes do que nunca.
O
livro, Grandes Sertões: Veredas, do Rosa, traz uma passagem que me remete à
minha infância. É aquela em que Riobaldo antes da fase adulta é encaminhado por
seu padrinho Selorico Mendes,a estudar no lugar
chamado Curralinho porque não tinha queda para trabalhar no pesado. Uma hora
ele conta que Mestre Lucas, seu professor, era rígido, grosso, e que dava de
palmatória na molecada; nele, inclusive.
Eu
também apanhei muito de palmatória. Mais: eu fui posto de joelhos em cima de
caroços de milho. E com os braços abertos, diante da classe...
Sobrevivi.
Lembro
essa historiazinha em homenagem ao 1º ano –completado esta semana- da lei
federal que proíbe os pais, professores ou quem for a dar palmada nos seus pequenos,
pupilos.
Grande
Sertão: Veredas está para completar 70 anos do seu lançamento.
Certa vez, o sanfoneiro Sivuca me
contou que fizera parte de um trio musical chamado O Mundo Pegando Fogo. Desse
grupo participavam, além dele, Hermeto Pascoal e seu irmão Zé Neto.
Hermeto é sanfoneiro e multitudo
musical, como todo mundo sabe.
Zé Neto é pianista.
Por que lembro disso?
Simples: o mundo hoje, mais do que
nunca, está pegando fogo. A Grécia, por exemplo, está numa enrascada de fazer
dó. Dó de dor, não musical.
No Brasil vê-se o que se vê: o
legislativo brigando com o judiciário e, no meio dessa briga, o governo
impotente da dona Dilma, que, aliás, outro dia andou saudando a modo muito
próprio, a nossa mandioca de sempre.
Por falar em mandioca, lembro que no
belo livro Iracema, do cearense José de Alencar, há uma passagem em que a
mandioca é citada.
Falei Iracema?
Pois bem, esse livro clássico, lançado
a público em 1865, começa assim: “Verdes mares bravios de minha terra natal,
onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Verdes mares que brilhais como líquida
esmeralda aos raios do sol nascente perlongando as alvas praias ensombradas de
coqueiros. Serenai, verdes mares, alisai com doçura a vaga impetuosa para que o
barco aventureiro, manso, resvale a flor das águas”.
É uma história muito bonita, de
conteúdo indigenista, que trata, mesmo ficcionalmente, de um pouco da história
dos primeiros habitantes desta terra. Pelas páginas deste livro se movimentam o
guerreiro branco Martim e a “virgem dos lábios de mel” Iracema, ora de olhos
verdes, azuis e negros como “as asas da graúna”.
É uma história que tem muito a ver com
o Brasil. Inclusive no tocante à nossa cultura popular.
Você sabia que é de autoria do mesmo
José de Alencar o romance também indigenista O Guarani, que virou tema da
primeira ópera do paulista Antônio Carlos Gomes, estreada no Ala Scalla, de
Milão, em 1870?
Hoje
é véspera do dia D para gregos e troianos. Mas como troianos se a Tóia não
passa ora de um sítio arqueológico esquecido do mundo moderno?
O
Aléxis, primeiro ministro dos tempos de hoje da Grécia está fazendo das tripas
coração para salvar a história marcada por Sócrates, Platão, Aristóteles e do
bebum Epicuro, e também do cego fantástico Diógenes, que passou a vida inteira
andando ans ruas de Atenas com uma lanterna acesa em pleno meio-dia procurando
homem honesto, que nunca achou.
Mas,
verdade seja dita, não era bem o que eu queria dizer agora.
Dia
D, sim, pois amanhã o Aléxis vai tentar convencer os credores europeus para
continuarem a investir na Grécia. Ele está mais forte, pois seus eleitores lhe
deram mais um crédito ao optarem pelo “não” no plebiscito de ontem.
Mas
ainda não é exatamente o que eu quero dizer aqui.
Pagar
conta faz parte da vida, como faz parte da vida morrer.
Todos
nós pagamos conta desde que nascemos. E desde que nascemos perdemos. Os gregos
e todos nós perdemos o tempo todo.
Sim,
é mais ou menos isto o que eu quero dizer: nascemos e morremos. E ao nascermos,
além de começarmos a morrer, começamos também a perder. Ou seja: ao ganharmos
perdemos, pois a morte leva tudo.
A
perda é a única coisa definitiva na vida.
Pois
bem, ontem o meu amigo Osvaldinho da Cuíca telefonou para saber como eu estou.
Bem, eu disse. Conversa vai conversa vem ele falou da tristeza de perder mais
um amigo do mundo do samba. Foi quinta e a perda, o nome, Aldo Menezes.
Aldo
era ritmista, um incrível pandeirista e craque nas cordas do cavaquinho.
Aldo
era do camisa verde. Aldo era um cara brincalhão, presepeiro, cheio de marmota.
Aldo
estava indo para mais um show com amigos numa Van. Na estrada, a certa hora ele
começou a fazer trejeitos, caretas, se retorcer em si. Os amigos riam, mas lá
pra frente...o Aldo estava apresentando os sintomas comuns de um AVC.
E
Aldo partiu.
E
Aldo foi embora deixando tristeza e saudade no coração e na mente dos amigos. E
a imprensa nem, nem.
O ano de 1893, foi um ano muito importante. Foi ano, por exemplo, em que pela primeira vez na história mulheres puderam votar. Foi na Nova Zelândia. Nesse mesmo ano, uma bobagem: Os franceses brincaram o carnaval atirando serpentina num e noutro.
No Brasil dois fatos importantes se destacam: As margens do Rio Vaza-Barris, na Bahia, seguidores do peregrino cearense Antonio Conselheiro se reuniam para discutir os rumos do arraial de Canudos em formação. O segundo fato importante desse ano foi o nascimento de um moleque que o Brasil todo passaria a admirar: Mário de Andrade.
Mário de Andrade foi tudo que um brasileiro poderia ser: intelectual sob todos os pontos de vista. Até compositor ele foi. É dele por exemplo a bela moda Viola Quebrada, que entrou para a lista dos clássicos da musica nacional.
Porque falo do Mário?
Hoje termina o evento literário mais importante do País, que anualmente se realiza lá pelas bandas do Rio de Janeiro: Flip. E por ser tão importante esse evento, fico eu a pensar: Porque diachos ao se elevar, lá, à as estrelas o nome do grande nome que representa Mário para as artes destaca-se em primeiro plano a sua escolha homossexual? Será que o fato de o autor de Macunaima, um marco de nossa literatura, ter sido gay diminuí o seu talento?
Os ingleses tiveram Oscar Wilde...
Em 1945, Luiz Gonzaga poria a sua voz em disco pela primeira vez. A musica foi Dança Mariquinha, uma mazurca de Miguel Lima e do próprio Gonzaga.
Nesse mesmo ano, o mundo respirava com alivio, o fim da Segunda Grande Guerra.
Ainda nesse mesmo ano, morria Mário de Andrade. A consequência disso é que toda a sua obra está em domínio público. Ou seja: depois de setenta anos, a obra de Mário está ao alcance de todos os brasileiros.
Ouço
no rádio alguém dizer que Alice no País das Maravilhas, o livro, está completando
150 anos de existência.
No
primeiro momento, lembrei-me do Brasil. Mas foi um pensamento que passou por
mim muito depressa, pois o nosso País não é propriamente um país de maravilhas. É bonito por natureza, como dizia o Jorge Ben, lá
atrás, embora formemos uma nação de entusiastas ao nosso País, que não tem
terremotos, maremotos, vulcões, que provocam grandes catástrofes em lugares tão
perto de nós como por exemplo, o Chile.
Pois
bem, somos um país bonito por natureza, mas não cheio das maravilhas narradas
por Charles Lutwidge Dogson (1832/1898).
Dogson
era nada mais nada menos do que Lewis Carroll para todos nós.
A
notícia do rádio fez-me lembrar os grandes autores pioneiros do encantado
universo da cultura literária infantil, como os irmãos Grimm e Andersen, sem
falar em Fontaine.
Naqueles
tempos, tempos antigos, tempos em que gato falava e galinha tinha dentes, as
histórias infantis não eram bem infantis. Eram violentas, tenebrosas até.
Tenebrosas
como as histórias que a gente lê nos jornais e ouve de boca em boca sobre a Pátria
espoliada de uma cera Dilma que nas caricaturas dos impagáveis cartunistas
aparece com dentes de coelhinho.
O
belíssimo livro Alice no País das Maravilhas, que tantos filmes e peças
teatrais tem inspirado mundo afora, a mim me deixou marcas indeléveis.
Alice
é uma menina incrível, que a curiosidade leva para a toca dum coelho. Na toca,
a história começa e nunca termina.
Na
toca do coelho em que Alice caiu, há ratos e livros que enriquecem a história.
Na
república dos desalmados nunca há livros, há ratos.
Aliás,
você sabia que a média de livros lidos/ano por pessoa no Brasil é de apenas
1,7?
Eu
vejo em Alice uma menina incrível no mundo fantástico, no mundo completamente
deteriorado, no abismo, praticamente em extinção, um pouco parecida com a Mafalda
do meu querido Quino.
A
menina Mafalda acabou de fazer 50 anos.
Mas,
eu estava falando era de Alice.
Alice
está fazendo amanhã 150 anos de história publicada, mas continua menina e sapeca.
Viva
Alice!
Você
quer saber mais sobre o mundo encantado das histórias infantis?
O mundo ficou grego, pois parece que ninguém mais se entende. Nem os gregos entre si. O que está acontecendo lá no velho - e deserto - Olímpo de Zeus é coisa quem nem o mais sábio ser de Maracangalha consegue compreender. Como entender o que está acontecendo na terra dos deuses, dos filósofos, dos grandes poetas de séculos anos antes de Cristo?
O Capital está engolindo tudo. Gente, coisas e pensamento.
A Grécia é um país que habita até hoje a nossa imaginação ou a imaginação de todo mundo que um dia estudou a história antiga.
A Grécia pra mim, por exemplo, é uma terra tão importante e marcante quanto a Paraíba.
Domingo que vem o povo grego deverá escolher, através de plebicito, se permanecerá ou não afundado na areia movediça do bloco econômico chamado união européia ou se bancará o seu próprio destino com uma nova moeda.
Na verdade o mundo vive uma tragédia, incluindo o Brasil e a Grécia.
Lá, é o Aléxis; aqui, a Dilma.
Mas não era sobre isso que eu queria falar. Eu queria falar sobre leitura e cultura musical.
Pesquisa recente da conta de que o brasileiro lê 1,7 livro/ano. Esquisito, não? Mas, enfim, não lemos nem dois livros por ano.
Somos, mesmo, um país de analfabetos.
Aí estão as estatísticas mostrando a gravidade e perigo da vida nacional com nossas cadeias atulhadas por mais de 600 mil condenados. Agora querem levar pra cadeia também os adolescentes criminosos.
Isso é certo ou errado?
Só sei que matar não é certo, seja o criminoso de maior ou menor idade.
É como diz um personagem de Guimarães Rosa: "Viver é um negócio danado de perigoso!".
INDEPENDÊNCIA DA BAHIA
A independência do Brasil ocorreu em 1822. Por razões que a história explica, os baianos ficaram livres de Portugal um ano depois. tendo como um dos seus heróis, aliás uma heroína, Maria Quitéria. Saiba mais clicando no vídeo acima.
O tempo não se ajusta. O tempo não se ajusta a nada. E por não se ajustar a nada, o tempo faz com que o relógio se ajuste ao tempo. Hoje, por exemplo, o tempo mostra num segundo, que é preciso o tempo do relógio se ajustar ao tempo. Ou seja: o tempo de quem pensa ter o tempo para se ajustar ao tempo. E quem pensa ter o tempo não o tem. Tanto que o tempo, pensam os cientistas, é deles. E não o é.
Hoje, 30 de junho um minuto antes de acabar o 30 de junho, um segundo antes, faltará um segundo para o meio exato do ano se firmar.
Não entendeu?
Às 23h 59 minutos tradicionalmente como nós entendemos, faltará um segundo para meia-noite.
Disto isso, conte um segundo a mais.
O que você faria com um segundo a mais na sua vida?
Melhor: o que você fará você com um segundo a mais na sua vida.
Pois bem, hoje, você terá, nós teremos, um segundo a mais na vida.
Tá bom, você pode pensar que um segundo a mais não significará nada.
Mas sim, e se um doido qualquer que manda no mundo, resolver nesse segundo a mais, apertar o botão que detonará a bomba atômica.
Então, nessa hora de um segundo a mais você pode estar dormindo... você pode estar amanado, você pode estar brindando num bar com amigos, jantando num restaurante, falando de uma amor perdido... Num segundo você pode fazer tanta coisa! Seja para quem for você pode estar dizendo Te Amo!
`te amo´ tem 1 segundo.
O
Olimpo hoje é um grande deserto, outrora habitado por todos os deuses; deuses
que hoje estão extintos, sumidos, desaparecidos.
Há,
os Deuses!
A
Grécia de tantas histórias incríveis, de tantos mitos, hoje sucumbi aos poderes
do capitalismo. O seu povo sofre e nós choramos.
A
Grécia é um pequeno país que abitou a nossa imaginação e nosso conhecimento.
A
Grécia de Sócrates, Platão e tantos outros grandes filósofos que tanto nos
ensinaram nos bancos escolares.
Hoje
a Grécia chora diante da humanidade que é outra desde séculos antes de Cristo.
A
mistura de democracia e capitalismo não deu certo na Grécia de hoje.
O
que será da Grécia de amanhã e dos gregos mortos, deles um dia nos lembraremos?
A
Grécia de hoje, habitada por 12 milhões de almas, 40 por cento delas pobres de
dinheiro, tem de pagar o que não tem a banqueiros, num prazo que vence amanhã
pela enésima vez.
E
se não pagar, o bicho vai pegar.
Será
que Lampião dobraria os credores dos gregos? Lampião, alias, entrou no cangaço
no dia 29 de Junho de 1920 com o proposito de vingar o assassinato do pai, não
vingou, pois seu pai acabou morrendo de morte morrida. Que coisa!
Tradicionalmente
o mês de junho é mês de frio, é mês de inverno, é mês de São João.
Desse
mês guardo na memória muitas coisas bacanas, muitas histórias.
Cresci
ouvindo histórias de Trancoso e da 2ª Grande Guerra.
Hoje,
no rádio, ouvi alguma coisa a respeito do baiano de Salvador, Raul Seixas.
O
Raul nasceu num dia como o de hoje dois meses antes do anúncio da guerra.
O
Raul, como todo nordestino, também cresceu com as lembranças das festas
juninas. Luiz Gonzaga, o rei do baião, era um dos seus ídolos.
Lembro
disso por uma razão simples: hoje é véspera do dia de São Pedro e São Paulo,
santos que integram o calendário dos festejos juninos que começam no dia 13
(Santo Antônio) e 24 (São João).
Na
tradição popular, São Pedro é o chaveiro do céu e o cara que abre e fecha a
torneira pra despejar chuva na terra; e São Paulo, o apóstolo que empresta o
nome à 5ª quinta maior cidade do mundo, que é esta em que moramos.
Este
é um mês festivo em todo o Nordeste, especialmente em Caruaru, PE e Campina grande,
PB, cidades que disputam à unha a fama de realizarem o maior São João do mundo.
Uma bobagem, mas enfim...
Há
uma dúzia de anos, mais ou menos, inventaram em Pernambuco um tal de Trem do
Forró, que na origem ia de Recife a Caruaru com muita música boa do repertório
gonzagueano. Hoje esse percurso é feito entre a cidade do Cabo de Santo
Agostinho e Caruaru. Morei em Caruaru e lá editei um jornal chamado Diário do
Agreste. A cidade do Cabo foi o berço do rei da embolada, Manezinho Araújo
(1910-1993).
Coisa
parecida com o que se inventou em Pernambuco há também na Paraíba, onde um trem
de forró parte de João Pessoa a Cabedelo.
Cabedelo
é uma cidade portuária, distante cerca de 18 quilômetros da capital paraibana. Esse
mesmo trajeto eu o fiz algumas vezes no tempo que havia trem, mas não trem de
forró. Era um tempo de Luiz, rei do baião, e do também adolescente Raul Seixas,
lá na Bahia de São Salvador.
Agora
dão-me a notícia de que “todos os forrós” do Nordeste anunciaram com pêsames o
acidente que vitimou o famoso cantor desconhecido Cristiano não-sei-o-quê,
que -diga-se de passagem- não faz a
menor falta ao mundo da música. Eu disse Música.
A
semana que termina hoje, nos deixa muita coisa para reflexão. O Lula, por
exemplo, disse que “a educação no Brasil avançou pra cacete”. Antes, no correr
desta mesma semana, a Dilma louvou a mandioca “como uma grande conquista do
Brasil”. Na mesma ocasião, numa tribo falando para índios, ela disse do alto do
seu conhecimento, que, como há o Homo sapiens, há também a “mulher sapiens”. É muita sabedoria ou não é?
Vivemos
sem dúvida num país fora de qualquer contexto.
É
incrível, mesmo, o meu Brasil.
E
a imprensa hein? No encerramento no jornal da manhã do dia 10 para o dia 11,
ouvi na Pan o Joseval anunciar a morte de um desses sertanojos.
Morrer,
ao contrário de nascer, é sempre uma tragédia.
Através
do Joseval fiquei sabendo que existira no mundo da tranqueira musical
tupiniquim, um cidadão chamado Cristiano Araújo.
Por
mais que puxasse pela memória, eu não conseguia lembrar quem era esse cidadão.
Como
lembrar de algo ou alguém que não se conhece ou sequer se ouviu falar?
A
resposta veio no correr do dia através do noticiário de todos os meios de
comunicação.
Poxa
vida, torturei-me à toa; mas ainda assim fiquei sem saber quem era o Cristiano tão
exaustivamente anunciado, falado, elogiado, endeusado...meu Deus!
No
programa da Fátima Bernardes ouvi a própria dizer que quem morrera fora
Cristiano Ronaldo. Quer dizer, nem ela mesma sabia porque nós, brasileiros,
estávamos sendo levados a cair em prantos por uma alma que desconhecíamos.
O
que está havendo com a nossa imprensa?
Nem
o Pixinguinha quando morreu recebeu tanto choro. E nem por Cristo choramos
tanto, não é mesmo?
Definitivamente
tudo está errado nesta inversão de valores.
E
a semana seguiu com o anúncio de novas prisões, pela PF, de roedores do erário
público nacional.
O
inverno chegou ontem 21, no começo da tarde. Era fato esperado, marcado,
previsto como as demais estações e todos os trens programados em todas as
linhas, daqui e dacolá.
O
que não chega com data marcada é chamado de imprevisto, o que chega
derrepentemente. Exemplo? O sumiço da luz dos meus olhos: fui dormir outro dia,
acordei e tudo continua noite.
Isso
é um imprevisto.
Informam-me
que cerca de 80% da população do mundo sofre de algum tipo de deficiência visual.
Você, por exemplo, que usa óculos de grau é deficiente.
Mas
nada é demais nesta vida, nem o fim do mundo.
Perder
a luz dos próprios olhos não é o fim do mundo, não é mesmo?
Então,
aí vai um texto poético, construído no modo sextilha. Esse modo é construído em
estrofes de seis versos de sete a onze sílabas. Pois bem, é assim:
Nesse
frio danado de outono, anuncia-se o começo do inverno para domingo.
Na
última madrugada, cá em Sampa, os termômetros marcaram a noite mais fria do
ano: 12ºC.
Em
Vacaria, RS, a temperatura caiu para -2ºC.
No
entanto, o meu coração continua quente...
Diante
dessa besteirama toda, lembro a tia Benê dizer brincando que o ano “miou”.
O
que ela queria dizer com isso?
É
que acabamos de passar exatamente pelo meio do mês de junho, isto é: 15 de
junho, que foi anteontem. E então ela dizia: “o ano miou”.
O
miou dela era meado, de meio. Então, estamos no meado do ano de 2015. Isto é,
falta agora a outra metade para o ano findar.
Quanta
besteirama...
É
que acho que estou meio fora de forma; pois, enfim, faz um mês ou mais de mês
que não blogo coisa nenhuma para vocês que me acompanham e que formam uma
legião de quase 200 mil almas pensantes. É só ver ali embaixo, à direita, a
catraquinha que registra a entrada de vocês para acessar as coisas que vem do
meu miolo meio doido e que de um modo ou de outro, vocês parecem gostar,
certo?.
E
pode até nem parecer, mas durante esse tempo muita coisa interessante sucedeu
cá à minha volta. O mês de maio foi riquíssimo de acontecências e lembranças, e
junho que fez “miar” o ano também já deixou muitas marcas; e aqui não quero nem
falar da desgraceira que tem infestado o nosso País.
Bom,
dependendo do que ocorrer, amanhã é bem capaz de eu dizer as razões pelas quais
me afastei de vocês por esse tempo todo.
Assis e Tom Zé num encontro na Bienal Internacional do Livro, em um debate sobre o poeta Patativa do Assaré, promovido pelo SESC
A
vida é uma eterna corrida na qual todos caem, inclusive os que alcançam o
pódio.
A
vida também é uma eterna magia, uma mágica a rigor sem explicação.
Darwin,
depois de se debruçar por anos na sua pesquisa científica, em torno da origem
humana, chegou à conclusão de algo que todos sabemos, verdadeira ou não.
Descendemos
do macaco? Ou primo do macaco?
A
verdade é que somos seres extremamente confusos, caóticos, perdidos em nós
mesmos.
Sim,
sem dúvida a vida é uma eterna corrida na qual todos perdem.
Muito
já se questionou sobre de onde viemos e para onde vamos.
Há
muito tempo, li o livro “Eram os deuses astronautas?”.
Fui
entrevistar o autor, Erich Von Daniken, tido por muita gente como um charlatão,
mas, cá pra nós, eu o achei incrível. A entrevista, longa, foi publicada num
ano qualquer da década de 1970, no caderno Ilustrada, do jornal Folha de
S.Paulo.
“Tom Zé é um gênio”, me disse outro dia a
minha filha Clarissa. Ela tem razão, quer ver?
Tô bem
de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair
Tô dividindo prá poder sobrar
Desperdiçando prá poder faltar
Devagarinho prá poder caber
Bem de leve prá não perdoar
Tô estudando prá saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar
Eu tô
te explicando
Prá te confundir
Eu tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminado
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar
Suavemente
prá poder rasgar
Olho fechado prá te ver melhor
Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência
Carinhoso prá poder ferir
Lentamente prá não atrasar
Atrás da vida prá poder morrer
Eu tô me despedindo prá poder voltar
À
guisa de curiosidade, devo dizer que conheci Tom Zé nos meus tempos de repórter
da Folha e da extinta revista Visão.
Certo
dia, seguindo pauta do editor Osvaldo Mendes, fui entrevistar o iraraense Tom
Zé, que estava ameaçando abandonar a carreira profissional de artista, por
ninguém mais dele se lembrar; e por dele não se lembrar, naturalmente lhe
faltava convites para fazer shows por aí a fora. E olha que o Tom foi um dos
criadores do polêmico movimento tropicalista. Depois dessa entrevista,
coincidentemente, o líder do grupo musical Talking Heads, David Byrne,
encontrou num sebo do Rio do Janeiro o LP Estudando o samba. A partir daí a
vida de Tom Zé teria uma grande reviravolta com a contratação do Tom para
gravar nos Estados Unidos.
E
pronto. Tom Zé teve o reconhecimento que tão bem Clarissa observa.
A
VÓ DO SAMBA
Vó
Maria é o nome de Maria das Dores Santos, que a exatamente uma semana partiu
para a eternidade. Ela tinha 104 anos de idade e por muito tempo foi a
companheira inseparável de um dos pioneiros do samba, Donga, de batismo Ernesto
Joaquim Maria dos Santos (1890 – 1974).
Donga
foi o coautor do samba Pelo Telefone, lançado em 1917.
Eu
não soube de notícia nos jornais e revistas sobre o encantamento de Vó Maria. E
assim, a memória musical brasileira vai pra cucuia.
No
dia 22 de maio de 1946 o grupo musical 4
Azes e 1 Coringa, formado por jovens estudantes
cearenses, lançava no Rio de Janeiro o 1º baião -gênero musical- de que se tem
notícia no mundo, da autoria de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
Essa
música serviu de catapulta para o futuro Rei do Baião e Humberto Teixeira
chegarem à boca do povo. A partir daí Humberto deixaria em 2º plano a profissão
de advogado para se tornar um dos mais aplaudidos compositores do País.
Detalhe: ele compôs com Gonzaga exatas duas dezenas de pérolas musicais, como
Assum Preto e Estrada do Canindé.
Você
sabe como se chama a banda musical mais antiga da cidade mineira de Ubá?
Pois
é, os ubaenses se alegram até hoje com a performance da Banda 22 de Maio,
criada no distante ano de 1898.
O
que tem a ver o baião de Gonzaga e a Banda 22 de Maio de Ubá?
Nada.
Os
dois eventos -o lançamento do gênero musical baião e a fundação da corporação musical
de Ubá- levam o meu pensamento pra bem longe daqui: Irã, Iraque, Pérsia,
Palmira...
Hoje,
22 de maio de 2015, ouço no rádio a triste notícia que dá conta das estrepolias
do terrorista Estado Islâmico acabando com tudo que há de mais importante, documentalmente
falando, do tempo de Cristo e até de mesmo de antes de Cristo. Esses felas, com
suas ações depredatórias e até inacreditáveis estão apagando algumas das
memórias mais antigas da humanidade. E a própria humanidade.
O
que será do ontem nas mãos desses celerados?
O
que será do mundo árabe nas mãos desses celerados?
O
que será de nós, hein?
O
amanhã é hoje/ que vira ontem/ passado/ história; história que guarda tudo/
tudo o que é memória/ até o escárnio da escória.
O
baião e a banda musical de Ubá veem resistindo bravamente na história que
continua sendo feita hoje.
E
hoje, ainda 22 de maio de 2015, do Planalto desaba sobre nós um super-pacote de
maldades denominado de Ajuste Fiscal
Informações do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística – IBGE dão conta de que a população do Estado de São
Paulo acaba de chegar aos 43 milhões de habitantes.
Ainda, segundo o IBGE, a população
da capital paulista está próxima de 15 milhões.
É muita gente.
Não sei bem por quê, ao ouvir
esta notícia alinhei à música.
Por quê? Porque simples: logo
imaginei a população paulistana sendo movimentada por uma impressionante e bela
trilha sonora.
Durante mais de duas décadas
encetei pesquisas voltada ao tema. Em miúdos: reuni mais de três mil títulos
musicais que encontram na capital dos paulistas eco, inspiração e eco, nas
composições desenvolvidas por cerca de sete mil autores de todas as partes do
Brasil, como Chiquinha Gonzaga, Lamartine Babo, Ary Barroso, Nelson Gonçalves, Luís
Gonzaga, Paulino Nogueira, Osvaldinho da Cuíca, Tom Jobim, Billy Blanco e até
Geraldo Vandré.
Há uns três ou quatro anos eu
contei a história da capital paulista através da música, numa bela instalação
que ocupou pelo menos 350 m2 na unidade SESC do bairro de Santana. Um
punhado de anos antes, numa série de palestras, abordei este mesmo tema na rede
CEU - Centro
Educacional Unificado. Aliás, na ocasião, eu e o baiano Gereba
compusemos uma música que trata de educação e que foi gravada por Dominguinhos.
Clique:
Isso tudo para dizer o seguinte:
tem sido muito comum, e já há tempo, que amigos e colegas jornalistas me
perguntam qual música elejo como a melhor já feita para a cidade de São Paulo. Não
é fácil escolher entre milhares de músicas aquela que melhor retrata São Paulo
e seu povo. Mas, vou aqui arriscar enumerar alguns títulos que a mim me dizem
muito:
·Rapaziada do Brás, de Alberto
Marino, composta há 90 anos a se completar no correr deste 2015. Originalmente
composta em modo instrumental, essa música – uma valsa-choro – ganharia letra
em 1960, a pedido do argentino naturalizado Carlos Galhardo ao filho de Marino,
Alberto Marino Jr..
·Trem blindado, de João de Barro,
composta no calor das emoções que provocaram a Revolução Paulista de 1932.
·Êh, êh, São Paulo, de Alvarenga e Ranchinho, composta no
começo dos 40 do século passado e que tornou-se um clássico enfatizado pelo
talento dos caipiras Tonico & Tinoco.
·Ronda, dePaulo Vanzolini,
misto de compositor e cientista especializado em herpetologia, que ganhou o
disco pela primeira vez em 1953 através de Inezita Barroso. Essa obra, hoje com
mais de uma centena de versões, foi composta em 1946.
·Perfil de São Paulo, de Francisco de
Assis Bezerra de Menezes, que ganhou o 1º lugar no concurso musical promovido
pela Prefeitura paulistana para escolha da música-símbolo do 4º centenário da
cidade, fundada pelo jesuíta espanhol José de Anchieta. Detalhe: na ocasião
(1954), foram inscritas pelo menos duas centenas de músicas praticamente em
todos os gêneros musicais, como o dobrado Quarto
Centenário, do italiano naturalizado Mário Zan e o português, também
naturalizado, J. M. Alves Curiosidade: a música de Zan e Alves chegou a vender
algo em torno de cinco milhões de discos e teve até uma versão em japonês,
gravada em disco de 78 voltas.
·São Paulo, de Teixeirinha.
·Porque amo São Paulo, de Nelson
Gonçalves.
·Lampião de gás, de Zica Bergami,
lançada originalmente em 1958, foi imortalizada na voz da mesma intérprete de Ronda. Curiosidade: essa música também
ganhou uma versão no idioma japonês, por Kikuo Furuno.
·São São Paulo meu amor, de Tom Zé. Essa música ganhou oIV Festivalde Música Popular Brasileira da TV Record, em 1968, mas o autor não recebeu o prêmio até
hoje.
·Avenida Paulista, de Eduardo Gudin.
Esse samba beira à perfeição na voz de quem o lançou em disco: Vânia Bastos.
·Estação da Luz, de Herivelto Martins
e David Nasse.
··São Paulo de todos nós, de Peter Alouche e Téo Azevedo. Essa música
é uma verdadeira ode à capital paulista, escrita por um imigrante egípcio que
em Sampa encontrou os meios que precisava para se desenvolver como cidadão e profissional
da área de engenharia elétrica. É uma espécie de hino à capital paulista, que,
aliás, não tem hino oficial até hoje. Quer ouvi-la?·
Clique:
JORNALISTAS & CIA
Hoje, quarta, o newsletter Jornalistas
& Cia, no gênero, o mais antigo do País, chegou a edição número 1.000.
Todos estamos de parabéns. Coisa de um ano e pouco, encerrei uma etapa
profissional neste informativo direcionado especialmente aos jornalistas, ao
levar à praça o último dos dezessete especiais que trataram de cultura popular.
Esses especiais eram mensais. Estou com saudade. E tudo começou há vinte anos com
o projeto FaxMoagem, por sugestão do decano do jornalismo brasileiro José
Hamilton Ribeiro. Para lembrar aí está a reprodução do primeiro número.
Parece
que estou ouvindo as irmãs cantoras Celia e Celma entoando os versos acima em
homenagem à mãe de Jesus. E agora não estou só a ouvi-las, estou a lembrar meus
tempos de moleque no interior da Paraíba, ouvindo contrito as ladainhas puxadas
por minha avó Alcina.
A
lembrança, muitas vezes, dói.
Estamos
no Mês de Maria, mais precisamente no meio do Mês de Maria, quando as crianças,
enlevadas, coroam a imagem da santa. É cena marcante.
Em
Alagoinha, uma cidadezinha muito bonita, localizada a poucos quilômetros da
capital paraibana, João Pessoa, eu costumava passar férias e também fins de
semana: saía do colégio e ia pra lá, brincar de agricultor, junto com meus
primos, plantando no roçado do tio José. Tempos inesquecíveis de alegria, de
descompromisso, de aprendizagem, de vida.
O
Mês de Maria me traz, enfim, boníssimas lembranças de um tempo que não volta mais.
Mas o Mês de Maria se repete, com sua graça como se fosse ontem. É do mesmo
período a queima de flores, com cânticos alusivos à mãe de Jesus e com os devotos
fazendo louvação, com as crianças cantando versos assim:
que te podemos
ofertar Mãe pura
com expressão
de filial ternura
recebe, já que
outros bens não temos
esta coroa que
te oferecemos...
Pois é, coisas anônimas, coisas do povo, que continuam na boca do povo. Falo de cultura popular. Alás, a nossa cultura popular, incluindo a música popular, é muito rica. Quando falamos de cultura popular, falamos de coisas anônimas do povo. Mas, a música popular em casos específicos tem autor e nem por isso deixa de ser popular. É popular porque cai na boca do povo. Um exemplo? O carioca Lamartine Babo entrou para a galeria dos nossos grandes compositores por compor obras incríveis como esta, Ó Maria Concebida, que ele fez aos 15 anos de idade. Clique:
Aprendemos com o tempo. Tenho
aprendido, por exemplo, que podemos ver o tempo, a vida e tudo o mais de outra
forma, inclusive através da porta do sol e da janela do mar, também pelo
assobio do vento e o balançar das árvores. Podemos ver também pelos olhos da
consciência, do saber, da inteligência. Aprendi que posso ver até com os teus
olhos. Quer ver?
Eu vejo com os teus olhos
E caminho com os meus pés
É teu o meu pensamento
Eu sou quase quem tu és
Neste mundo meio torto
De Marias, Joões, Josés.
Estes teus olhos me trazem
Imagens da natureza
O movimento das águas
No fluir da correnteza
O florir da plantação
E de Deus toda a grandeza.
Sem teus olhos não veria
Rumos na escuridão
Esperança no porvir
Ao cantar uma canção
Sem teus olhos não veria
A força de uma oração.
Meu amigo Marco Haurélio, poeta
erudito enrustido no seio do povo, dá um chute cá na minha canela que hoje é
dia de libertação. Pois é. Nesse dia e mês, proclamou-se a abolição dos
escravos. Corria o ano de 1988. Foi uma vitória e tanto para todos, inclusive
brancos, até porque, nessa luta pela liberdade, engajaram-se intelectuais
brancos e pretos, como Joaquim Nabuco, Luís Gama e José do Patrocínio. Foi, com
certeza, o primeiro grande movimento social ocorrido neste nosso país tão desregulado
pelas elites governamentais. Mas, de certo modo, as correntes da negritude
estão voltando à nossa gente.
E lá vem o Marco Haurélio
fechando esse texto com uma setilha:
Este
é livro importante por ter sido escrito de modo espontâneo por uma fã declarada
de Nelson Gonçalves, Onélia Setubal Rocha de Queiroga; e não, necessariamente,
por especialista nos estudos da história da música popular, cujo resultado,
aliás, quase sempre é chato.
Na
verdade, são poucos os textos em que os autores têm a coragem de revelar
histórias de ídolos com firmeza e beleza como tão bem Onélia Setubal o faz, à
parte graça no escrever.
Este
livro é uma contribuição importante e natural à compreensão da força que os
grandes artistas da música popular imprimiam aos fãs nos tempos dos anos 40,
50...
Dito
isto, lembro que o cantor Nelson Gonçalves nasceu em 1941, pois foi nesse ano que a extinta gravadora Victor o contratou. Já o gaúcho Antônio Gonçalves Sobral, nome de batismo do cantor, nasceu no dia 21 de junho de 1919, mesmo ano em que o Rei da Voz, Chico, estreava em disco gravado com
marca do selo Popular do companheiro da maestrina Chiquinha Gonzaga, João,
confundido até hoje como filho dela, a marcha carnavalesca Pé de Anjo, de J. B.
da Silva, o Sinhô.
Dito
isto digo também, e assino em baixo, que Nelson foi um grande cantor, dos
melhores no campo da música popular desde Vicente Celestino, Silvio Caldas,
Chico Alves, Orlando Silva, o argentino naturalizado Carlos Galhardo e outros mais.
Um
grande.
No
palco, Nelson era impecável.
No
palco Nelson arrasava, no melhor dos sentidos.
Fora
do palco, Nelson era um pecador, grosso, bruto, um mal-educado que arrasava, no
pior dos sentidos.
A
história de Nelson é cheia de mentiras e contradições, de desrespeito e
maltrato as mulheres.
Pode?
Não
pode.
Nelson
não estava preparado para a vida em família, entendem seus biógrafos e amigos
mais próximos, como Marco Aurélio Barroso, autor do livro A Revolta do Boêmio;
e Moacir Fontana, um dos seus mais fiéis seguidores, desde sempre.
Nascido
em Santana do Livramento, RS, de pais portugueses, Nelson viveu na capital paulista
por muitos anos; desde os seis, quando deixou a sua cidade natal.
Em
São Paulo, ele viveu vendendo jornais, engraxando sapatos e fazendo bicos etc.
e tal e atendendo a clientela do bar do irmão Joaquim, Quincas, na esquina da
Alameda Nothmann com a Rua São João, ali perto da Ipiranga famosa da canção do
baiano Caetano.
Eu
o conheci bem.
Nelson
frequentou por pouco tempo os bancos escolares, e nesses bancos pouco aprendeu.
A
vida foi o seu professor.
O
pai, seu Manoel, não era chegado a trabalho e se fingia de cego tocando rabeca
para o filho; ele, Antônio, Nico, o futuro Nelson, cantar sobre caixotes nas
feiras-livres e na Praça da Sé de São Paulo.
Essa
rotina durou até ele, crescido agora chamado Metralha, sair de casa por causa
das provocações sacanas da mãe, dona Libânia, que o chamava de vagabundo puxado
ao pai.
Tinha
uns 18, 19 anos de idade Nelson quando casou e teve dois filhos biológicos.
Os
únicos.
Já
na rua, Nelson tentou a carreira de lutador de boxe; mas um colega de academia,
no Brás, lhe capou a vontade e o fez estéril, com um golpe nas partes pudendas.
Depois
disso, o seu sonho passou a ser cantor.
Com
a ajuda dos amigos Oswaldo e Orlando, compositores em início de carreira,
Nelson gravou um acetato para mostrar que poderia ser um grande cantor ao
mandachuva da extinta Victor, Vitorio Lattari, por recomendação do vendedor de
discos por atacado, Cássio Muniz.
Lattari
gostou do que ouviu, mas não acreditou que fosse dele a voz que ouviu do acetato,
e sem conversa o expulsou da sala, chamando-o de gago e charlatão.
Dois
ou três dias depois, Nelson voltou para se explicar.