Um Moço Muito Branco é texto que pode ser classificado como fantástico.
O curioso nessa história, publicada originalmente no jornal O Globo e depois no livro Primeiras Estórias, é que a figura central surge praticamente do nada. Vamos lá:
No dia 11 de novembro do ano de 1872, conta o narrador que houve nos confins de Minas um quase fim de mundo. Melhor dizendo é que um terremoto seguido de trovões, raios e algo como um dilúvio desabou violentamente sobre todos os seres vivos, racionais ou não, de uma cidadezinha esquecida por Deus e o Diabo, denominada Serro Frio. Os mortos não foram poucos. Daí, de repente, um jovem saído do nada ou de entre nuvens caminha pela cidade. Assim, meio sem destino. É calmo e bonito. Nada fala e isso logo chama a atenção de todos que o topam no seu caminhar.
Um preto alforriado de nome José e por todos tido como maluco, conta que o estranho desceu do céu como quem abre uma porta e sai tranquilamente por aí.
Um extraterrestre ou o próprio filho de Deus?
Logo a um rico fazendeiro o desconhecido é levado. Dão-se bem.
O fazendeiro, Hilário Cordeiro, é pessoa de boa índole e querido pelo povo.
Ao contrário de Hilário é Duarte Dias, também rico fazendeiro da região. Só que esse é ambicioso e ranzinza ao extremo. Tem uma filha, Viviana, muito bonita. Mas vive de boca fechada e sem rir por coisa nenhuma. Pra desespero do pai, o estranho é levado a sua casa e num minuto espalma a mão nos seios da jovem. E ela, enfim, ri destacando a sua beleza de jovem donzela.
Milagre?
A população de Serro Frio é toda cristã e crê que o desconhecido possa ser um enviado do céu. Cristo, por que não?
Nessa história há um cego de nome Nicolau, que chama a atenção do estranho visitante.
Bom, paro por aqui.
Esse é um dos mais incríveis contos do mineiro João Guimarães Rosa.
- Interessante, não lembro de ter lido esse conto.
- Natural, natural, Maria. O Rosa deixou muita coisa boa publicada. Ele e todos e todas que escreveram contos, novelas, romances, peças de teatro e mais e mais como o Alencar, o Macedo, o Nabuco, o Patrocínio, o Machado, os irmãos Azevedo, a Nísia Floresta, a Maria Firmina dos Reis, a Narcisa Amália e a Júlia Lopes de Almeida. Sem falar dos autores e autoras do século 20 e do século em que hora vivemos. Claro, dá pra comparar personagens e não a escrita. A escrita do Rosa é única. Ao juntar a fala popular e a fala erudita, o Rosa achou o ponto certo pra tornar a sua obra universal.
- Os livros do Guimarães Rosa já foram publicados até em chinês, certo?
- Sim, sim. E em muitos outros idiomas: inglês, alemão, francês, espanhol e italiano.
- Ele falava muitas línguas também, né?
- O curioso... Na verdade, há muitas curiosidades em torno do grande Rosa. Ele começou a virar poliglota estudando praticamente ao mesmo tempo os idiomas russo e alemão. Em novembro de 1977 andei publicando no Suplemento da Tribuna (Tribuna da Imprensa, RJ) texto sobre o autor do conto Um Moço Muito Branco. À época, completavam-se dez anos da morte do escritor. Nesse texto ressalto a beleza e originalidade da história Cara de Bronze. No correr do texto tem muita coisa bacana. Até um velho cego sanfoneiro é lembrado.
Já falamos que Guimarães Rosa estreou na literatura publicando contos na extinta revista O Cruzeiro, em 1929.
Falamos também que Guimarães Rosa começou pra valer ao participar de um concurso literário que tinha entre os jurados Menotti del Picchia (1892-1988) e Graciliano Ramos (1892-1953)
Quase sempre a história nos põe cara a cara com coisas inesperadas. Exemplo disso é que Ariano Suassuna começou a carreira publicando poesia no Jornal do Comércio, PE. O poema tinha por título Noturno.
Em 1946, o Rosa publicou o primeiro livro de sua carreira: Sagarana.
Em 1946, Ariano Suassuna pôs ponto final no seu livro de estreia Uma Mulher Vestida de Sol , publicado em 1947.
Em 1956, enquanto Rosa publicava Grande Sertão: Veredas, a peça Auto da Compadecida, de Ariano, era levada à cena no Teatro de Santa Isabel.
É de 1960 a peça A Farsa da Boa Preguiça.
Nessa farsa, o autor de O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971), incluiu entre os personagens Jesus que se passa por um cego pedinte.
Na obra do Rosa e do Ariano há vários personagens cegos e cegas.
- O tão falado sertão de Guimarães Rosa também se acha na obra do Ariano?
- Sim e não. O sertão do Rosa é apenas uma forte e bela expressão, pois sertão em Minas não há. Mas tem uma coisa legal, muito legal, que é quando Riobaldo diz e rediz o seguinte: "O sertão está em toda parte". O sertão é uma das quatro subdivisões do Nordeste. O sertão do Ariano é o sertão nordestino, cáustico, que se estende por uma área estimada em 1,1 milhão de km².
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