O
pensar serve para tudo, para o bem e para o mal.
Repito,
não sei se foi Kamie ou Sartre, quem disse que estamos de passagem. Parece
óbvia a impressão, mas não é. Outra aparente obviedade é a do Espinoza, segundo
a qual “a vida é feita de encontros”.
Mas
o mundo como está, hoje, certamente terá dificuldade de distinguir o que é ou
não é obviedade.
É
óbvio gerar apátridas como hoje se gera?
É
óbvio congelarmos nossa sensibilidade diante do caos que a vida humana está se
tornando?
Portanto,
o que é ou não é óbvio está bem embaixo do nariz.
É
a velha questão do ser ou não ser, questionada em Hamlet pelo popular
Shakespeare.
Sim,
toda a obra do Shakespeare é baseada nos contos e demais histórias que ele
colheu na sua região há uns 500 anos. E é popular, também, porque é o
dramaturgo mais conhecido e aplaudido mundo afora nos últimos cinco séculos.
Mas
por quê diabos estou falando dessas coisas hoje, de novo?
Vocês
já perceberam que o Brasil poderia ser o palco em que melhor os personagens de
Shakespeare se movimentariam?
Dilma
cai ou não cai?
Pessoalmente,
acho que a cria de Lula não deveria cair; até porque teríamos de enfrentar nova
crise. Ou seja: uma crise dentro da outra.
Quem
assumiria as rédeas da situação? Temer? Cunha? O fato é que nós, todos,
continuaríamos perdendo.
Mais
uma vez, estamos num beco sem saída. E nem vou falar, como sempre falo, a
respeito de educação e cultura, ciências, matemática...
O
professor finge que ensina, o aluno finge que aprende, e nessa brincadeira de
empurra-empurra, mais uma vez, quem perde somos nós e quem virá depois de nós.
O
Brasil é mesmo estranho. Estamos no inverno: 33 graus, no momento.
O
mundo nos deus, através dos tempos, grandes pensadores. Filósofos que
mergulharam no Eu, tentando explicar praticamente o inexplicável do pensamento
humano, da dor humana, da vida em si. A esse tipo de estudo dá-se o nome de
Existencialismo.
Camus
e Sartre foram grandes pensadores que abraçaram essa linha de pesquisa para,
supostamente, nos salvar.
O
mundo está fervendo, está em polvorosa, gente matando gente como nunca se
matou. Mas, claro, isso não é e nunca foi novidade. Textos bíblicos já tratavam
do assunto. Caim matou Abel, não foi?
Façamos
de conta que o mundo, hoje, é um ônibus. Um grande ônibus, um ônibus enorme,
lotado de gente gorda, magra, de todo tipo. E aí, sádico, o motorista dá um brecada,
uma forte brecada, para arrumar os passageiros.
É
um inferno, não é?
Boa
parte do mundo árabe está pegando fogo, com o Estado Islâmico queimando e
matando gente ainda viva.
Acho
que foi Sartre quem disse que somos todos estrangeiros. Somos estrangeiros em
qualquer parte do mundo. Somos estrangeiros porque não somos pedras, nem
árvores com raízes profundamente fincadas no solo. Em qualquer solo do planeta.
Quer dizer, estamos de passagem por este mundinho que estamos explodindo.
E
sabe você aí, meu amigo, como em certas horas eu me sinto?
Sinto-me
que nem um barquinho de papel à deriva em alto mar, sem rumo nem capitão. E
você?
O mundo está pegando fogo, incluindo o Brasil e seus dirigentes sempre insensíveis com o futuro do povo.
O mundo está pegando fogo.
Vejamos o que está acontecendo no mundo árabe, na Europa.
Tudo um horror, um horror pela incapacidade de nós todos e, principalmente dos dirigentes mundiais, que escondem em si a capacidade de contribuir amando o próximo.
Os sírios continuam tentando atravessar o mediterrâneo para chegar à Itália, à Alemanha, Europa.
As pessoas continuam correndo atrás da sobrevivência. Isso mostra a importância do que é a vida.
A busca pela vida é a negação da morte.
Mas o que é que isso tem a ver com cultura popular?
O nome já diz.
Cultura Popular.
A cultura popular é feita pelo povo, povo de qualquer país.
Viver é um esforço de o povo se desdobrar em si, se desdobrar em arte.
O desdobramento do ser em si, em arte, é vida.
Quer ver?
Agora, a pouco, estiveram comigo na sede provisória do Instituto Memória Brasil (IMB), o maior cuiqueiro do Brasil, Osvaldinho, e o seu biógrafo: André Domingues. Com André veio o Gato com Fome, Cadu.
Foi uma conversa muito bonita a que nós tivemos hoje, aqui. Falamos de Brasil, de brasilidade, das incongruências da vida brasileira.
E na vida do mundo, em todos os tempos, tem e haverá, sempre, a lua.
A lua no nordeste é a lua que o mundo conhece. E tem a Lua Luana, o nome, um poema.
Na vida há tristezas, alegrias e, nisso tudo, a cultura popular.
Vocês querem saber um pouquinho sobre um fazedor de cultura popular?
O meu querido amigo jornalista Vitor Nuzzi gravou ontem as perguntas que fiz para Marimbondo Chapéu, um criador brasileiro. Leiam:
Quem é Marimbondo Chapéu? Nasceu
quando, onde, e qual o nome verdadeiro?
Marimbondo Chapéu é da região dali de
Alto Belo, próximo à cidade de Janaúba, vem da origem da espécie de marimbondo,
foi o nome que eu ganhei, mas o meu nome mesmo é Ivanilton da Silva. Tenho 34
anos de idade, resido em Montes Claros, pretendo residir também em São Paulo,
através de um grande projeto.
Você nasceu quando, exatamente?
Dia 27 do dois de 1981.
Pai e mãe, como chamam?
Maria de Fátima Marcelina
Silva, Antônio Augusto Silva.
Todos mineiros?
Todos mineiros.
Quantos filhos o casal teve?
Nós somos nove filhos. Eu sou mais do
meio. Tem mais três caçulas depois de mim.
E o pai e mãe, têm a ver com música?
A família já vem de origem de música,
né, Assis? Desde contando com Jaquinho, Jackson Antunes, já vem do trabalho de
ator. A nossa família já é direcionada a esse lado de trabalho. Eu parti para o
lado da música porque gostava de ouvir o som da rabeca, pela primeira vez, com
Zé Coco do Riachão. De lá para cá, apaixonei-me com a história.
E o Zé Coco, você conheceu?
Conheci, com certeza. Eu fui na casa
dele quando era novinho. Um dia, vendendo picolé ainda na rua, vi ele
fabricando as rabecas, as violas. Fiquei encantando com aquele trabalho dele,
passei a ir lá várias vezes, fui aprendendo aos pouquinhos, depois vim a São
Paulo para aperfeiçoar, porque não é fácil pegar uma perfeição de
fabricar.
O apelido, quem deu?
Foi José Osmar e Téo Azevedo.
Puxa, como assim?
Quando eu tinha 13, 14 anos, lá na Folia
de Reis lá de Alto Belo, eu era meio traquinas, falavam que eu era um menino
meio levado... Nisso, a gente estava foliando numa casa já antiga e na cumeeira
da casa tinha a ... Aí, eu tocando a rabeca, vi a caixa, direcionei o arco da
rabeca, coloquei o arco no meio dos marimbondos, os bichos veio caindo nas
minhas costas, deu uma ferroada. Téo Azevedo olhou assim, deu uma risada e
falou assim: "Esse aí é marimbondo chapéu, bicho". Aquela vozona
rouca, estridente dele... Os dois (Téo e o declamador José Osmar)
falaram na hora, né? Então ficou de autoria dos dois.
E você constrói rabeca, como é que é
isso?
Assis, eu gosto de construir rabeca
com pouquinha ferramenta. para mim não tem tanto maquinário para trabalhar. A
rabeca é fabricada com amor, carinho, coração, você se entrega a alma, viaja no
mundo. Cada vez que você dá um detalhe numa madeira, mais um sorriso você se
encontra. Eu fabrico com facão, estilete, um serrotinho e o coração.
Quantas rabecas você fez até hoje,
você tem ideia?
Já perdi a conta.
Quanto custa uma rabeca sua?
É baratinho, 300 reais.
E você escreve seu nome na rabeca?
Tem meu nome dentro da caixa da
rabeca.
Que madeira usa pra fazer?
Eu uso pinho, cedro, uso aquela caixa
de bacalhau. São madeiras fáceis de encontrar, porque tem aquela madeira de
lei, que é difícil, então uso madeira mais tradicional mesmo.
A
Igreja do Diabo é um conto do sempre bom Machado de Assis. Eu gosto muito desse
conto. Nesse conto o Diabo, cansado dos ensinamentos de Deus e cheio de inveja
pela quantidade enorme de seguidores de Deus, o Diabo inventa de fazer
concorrência com Deus. Mas antes disso, o Diabo vai ao Céu pedir permissão a
Deus para fundar a sua própria Igreja. E assim é feito. Ao descer a Terra, o
Diabo resolve criar uma filosofia própria para destronar Deus.
Na
sua nova investida contra Deus e as coisas Divinas, o Diabo inverte tudo.
Inverte os valores sociais, os valores de cada um de nós. Assim, por exemplo, a
venalidade vira a principal virtude humana. Se a mulher pode vender o seu
cabelo, o homem o seu chapéu, as botas, por que não pode também vender a sua
palavra, a sua crença, a sua fé, o seu voto?
Essas
questões se acham no conto A Igreja do Diabo.
Ouvindo
ontem no Rádio os feiticeiros Barbosa e Levy justificando o injustificável
perante o povo brasileiro, não deixei de pensar no Diabo e na sua igreja.
Pois
bem, do forno da danação planautina acaba de sair um bolo amargo e indigesto.
Esse bolo, chamado de “Pacote de corte de gastos” pela imprensa d’aqui d’acolá
tem gosto de jiló. Um horro, na verdade, é bem mais amargo do que jiló, pois
nesse bolo não há tempero que o torne digesto.
Mas,
diachos, de novo não era bem isso o que eu queria dizer.
O
povo brasileiro é muito, muitíssimo, maior do que as feitiçarias e maldades
contra ele praticadas.
Ontem
eu fiz uma referência, cá, neste blog a respeito do compositor, cantor e
luthier Marimbondo Chapéu.
No centro do poder político, Brasília,
feiticeiros estão em ação contra o humor de nós todos, brasileiros. O clima lá
está fervendo, frevendo, do jeito que o diabo gosta.
Eu
disse frevendo. O frevo veio daí. Digo: a origem da palavra frevo vem de “frever”.
E hoje é o dia Nacional do Frevo, mas não é desse dia que eu quero falar e nem
da “frevança” política que ora se desenvolve em salas secretas do Planalto.
Estamos
nos últimos dias do inverno, mas a seca predomina em boa parte do território
nacional. Inclusive São Paulo, onde o governo nega – mas há – racionamento da
água. Há racionamento de água também, em Campina Grande, que é a principal
cidade paraibana depois de João Pessoa, a capital do Estado.
No
Piauí, há municípios que não tem o solo molhado por água de chuva há mais de 04
anos.
E
o Rio São Francisco, hein?
O
Rio São Francisco está secando, pedindo socorro.
A
seca atinge o velho Chico há pelo menos dois anos seguidos. A sua nascente, na
Serra da Canastra já secou, faz tempo. Em alguns pontos dos seus dois mil e
setecentos quilômetros já é possível fazer a travessia a pé. Terrível, não é?
O
rio passa por cinco munícipios beneficiando cerca de 16 milhões de pessoas. Mas
e agora?
Há
quase 200 anos já se falava na sua transposição. Parte dessa transposição foi
inaugurada em Cabrobó, PE, há coisa de dois meses.
A próxima novela da Globo, Velho Chico, vai
abordar o tema. A novela tem estreia prevista no segundo semestre do ano que
vem, de acordo, como nos disse a autora, Edmara Barbosa, em visita ao Instituto
Memória Brasil, IMB. Na ocasião ela estava acompanhada de um de seus
colaboradores, o cordelista Marco Haurélio.
CANTORIA NO IMB
Nesse
último final de semana, esteve em visita no Instituto Memória Brasil o luthier
e instrumentista Marimbondo Chapéu. Marimbondo, que faz parte da trupe do ator
mineiro, Jackson Antunes, atualmente na novela das 09 (Globo), tocou e cantou
belas páginas do cancioneiro rural, entre as quais Luar do Sertão.
Os
últimos dias do inverno estão se indo. A temperatura aqui, na capital paulista,
está pra lá de baixa. Ali pelos 14, 15 graus.
O
Coringão acaba de abater o Joinville, por 3 a 0. E aí, naturalmente, a
temperatura aumentou... E como se não bastasse, amigos e amigas chegam trazendo
luzes à minha mente: Daniel, Celia e Celma...
A
Celia chega toda feliz de Minas Gerais. Passou por Ubá, São João del Rei,
Tiradentes, Bichinho... Em Bichinho, elas apresentaram a seus amigos Marisa e
Osvaldinho Viana –excelente dupla de artistas-, que as acompanhavam, as doceiras
da região, Maria e Osni.
A
apresentação de Celia e Celma a Osvaldo e Marisa, foi só o começo de uma festa
consagrada pela mágica das doceiras e da cantoria, que contou no repertório
belíssimos clássicos da música brasileira, como Tristezas do Jeca, Luar do
Sertão e Chalana. Fiquei encantado.
Puxa,
como é a vida!
Hoje
eu ia só falar de um cara que nasceu em 1265. Esse cara partiu com 56 anos de
idade. Eu quero falar de Dante, o autor de A Divina Comédia.
No
século XIV, a obra prima do poeta italiano já era conhecida do público na sua
primeira e segunda partes.
A
Divina Comédia, originalmente escrita como A Comédia, é dividida em três
partes: o Inferno, que trata de ciclos terríveis relacionados ao humano; o
Purgatório, que trata dos pecados capitais e ameniza o humano; e, por fim, o
Paraíso, que é a parte em que o autor, na sua grandeza genialíssima, carrega
para a felicidade, em pensamento, o amor da sua vida: Beatriz.
Beatriz
já faz parte da música brasileira, por intermédio de Edu Lobo.
A
Beatriz de Edu é, naturalmente, inspirada no poema do Dante.
Esse
poema gerou muitas inspirações, como a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. O
nosso Belchior espraiou-se por inteiro nesse famoso poema de Dante. Salvador Dali, também. Em tempo mais distante,
Franz Liszt, também espraiou-se numa composição totalmente baseada nas três
partes de A Divina Comédia.
Dante
Alighieri é incrível! E é tanto, que não me espantei quando o Papa Francisco
disse que ele, Dante, foi o Poeta da Esperança.
E
a esperança, cá pra nós, está na mágica das doceiras Maria e Osni, e, é claro,
em Dante.
Todos
nós deveríamos ser como vinho, ou seja: quanto mais velho, melhor.
Mas
não é sobre isso que eu quero falar.
Há
750 anos, nascia na Itália o poeta Dante
Alighieri (1265 – 1321), autor da obra-prima A Divina Comédia.
Mas
não é sobre Dante que eu quero falar.
Houve
um tempo em que todos nós éramos jovens.
Eu
sou da safra de 1952 e o conterrâneo Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, de 1935.
Geraldo
é o criador do mais polêmico personagem da música popular brasileira: Vandré.
Eu
conhecí Geraldo em agosto de 1978 e um mês depois, precisamente no dia 17, um
domingo, publiquei no extinto Folhetim, do paulistano Folha de S.Paulo, a primeira
entrevista que o criador de Vandré deu ao retornar do exílio.
A
entrevista intitulada O Desaparecido provocou grande polêmica dentro e fora da
imprensa. Recebi centenas de telegramas e cartas de leitores espalhados Brasil
a fora.Desde então eu e o entrevistado temos conversado muito. Ontem mesmo, à
noite, conversamos um pouco sobre seus 80 anos hoje completados. Brincando, ele
disse:
- Vou comemorar a data no próximo ano.
Também
ontem falei com Boldrin, que conheço desde o começo dos anos 80.
À
época ele gravava o programa Som Brasil no teatro Nydia Lícia. Bom, disse
Boldrin:
-
Há muito tento trazê-lo ao meu programa. Cheguei a convidá-lo para estar comigo
na gravação do programa de dez anos na TV Cultura.
Geraldo
é um ícone da nossa música popular e, como tal, por muita gente considerado uma
pessoa “muito difícil”.
Ano
passado ele me perguntou se eu poderia pô-lo em contato com a cantora Joan
Baez, também ícone da música norte-americana. Realizei o seu desejo pondo-o
frente a frente a Baez. Na ocasião, ela disse estar a sua disposição, inclusive
para gravarem juntos um disco. Enigmático,
Geraldo riu e não
respondeu
se aceitaria ou não a inusitada proposta.
Um
amigo meu, Vitor Nuzzi, me disse outro dia que não poderia morrer sem assistir
um Fla-Flu no Maracanã, Rio de Janeiro.
Ele
é paulistano da Aclimação, bairro que faz divisa com a Liberdade.
O
bairro da Liberdade é o que acolhe o maior número de japoneses no Brasil, desde
1908. Uma curiosidade: 100 anos antes, em 1808, era implantada no Brasil a
Imprensa Régia.
Tanta
coisa a dizer...
O
meu amigo, ao contar que não poderia partir sem assistir um Fla-Flu, fez-me
lembrar o tempo em que os grandes clássicos de futebol eram disputados naturalmente
em campo e comemorados ao sair do campo.
Nuzzi,
paulistano, como já disse, espantou-se com o fato de que as torcidas de Fla e
Flu deixaram o estádio em confraternização, brincando, cantando, se divertindo.
Um passatempo natural de domingo, com famílias inteiras assistindo e brincando,
comemorando, se confraternizando...
A
fala do Nuzzi me lembra também os grandes embates medievais entre mouros e cristãos.
Também
me lembra os embates entre cantadores repentistas, aqui no Brasil...
A
fala lembra ainda os embates entre compositores da nossa música, como Vandré,
Chico, Gil, Sérgio Ricardo...
Mas
tudo é paz, e tudo deve ser feito em disputa em paz.
No
Maracanã, meu amigo realizou a sua vontade de assistir um Fla-Flu. Um Fla-Flu
em que as torcidas se uniam e brincavam entre si, comemorando a vida, a alegria
de viver.
Assim
é que é a vida.
Ou
assim é que deveria ser.
Por
lembrança, o mineiro Rosa (1908-1967) dizia que todo ser inteligente deveria
ser necessariamente torcedor do Flamengo.
Ninguém
é perfeito, o Nuzzi é são-paulino.
Amanhã
12, um amigo em comum, e aqui me refiro a mim e ao Nuzzi, está fazendo 80 anos
de vida.
Geraldo
Pedrosa de Araújo Dias, paraibano de João Pessoa, torcedor do Botafogo da
Paraíba, nasceu no dia 12 de setembro de 1935.
E
um dia, quem sabe, o levaremos a assistir a uma partida histórica entre o
Juventus e o Nacional, cá da capital paulistana. Essa partida, certamente,
ocorrerá no mítico estádio da rua Javari, que fica ali localizado no centro do
mundo: Mooca.
Amanhã
12, quem sabe, voltaremos a falar um pouco mais a respeito de um cara que quer
um Brasil para brasileiros, brasileiros cidadãos. Esse cara é Geraldo Pedrosa
de Araújo Dias, que nós todos conhecemos como Geraldo Vandré.
Fico
ouvindo na vitrola o disco rodar com Piaf repetindo quase a exaustão:
Padam,
Padam...
Padam,
Padam talvez não queira dizer nada, não há tradução.Mas Padam, Padam, na memória
de Piaf traz uma história de amor que termina em “coração de madeira”.
Padam,
Padam, talvez seja essa expressão entendida na interpretação da Piaf como o “tam,
tam, tam, tam”, do Beethoven; o “pararam”, do amigo Luiz Guerrero. É como se de
um modo ou de outro usássemos o et-cetera para dizermos coisas que tais. Assim,
como...Reticências servem para deixar no ar uma imagem, uma repetição, uma
ideia de algo por vir. Também quase uma obviedade.
Padam,
Padam...O amigo José Cortêz me telefona,um tanto decepcionado, com os rumos
inda indefinidos ora hoje o Brasil passa.
Através
dele, José, fico sabendo que a Bienal do Livro de Recife foi abreviada.
E
também através dele, José, fico sabendo que houve – a imprensa não noticia – que
como tão rapidamente chegou da mesma forma acabou a Bienal, ou algo que o
valha, do Rio de Janeiro. O assunto é música, o assunto é poesia, o assunto é
conhecimento.
E
também através do meu amigo José, fico eu sabendo que o governo deixou de
comprar livros para distribuição entre as escolas do meu Brasil brasileiro.
È,
também não gostei. É como se a Pátria Educadora fosse uma mera referência a
educação.
E
aí o meu amigo José, um louco educador, fundador de uma tradicional editora que
leva o seu nome (Cortêz Editora), como espécie de protesto achou de presentear
o Brasil com algo em torno de 1,5 milhão e meio de exemplares de livros que
editou distribuindo praticamente de graça. De graça porque cada exemplar, desse
milhão e meio, custará pra todo mundo reais de cincoenta 50 centavos, um, dois,
três...
A
tristeza de José Cortêz reflete na grandeza dele em distribuir todo o seu estoque
de livros a preço de banana. De banana não, pois banana esta com o preço pela
hora da morta, como o tomate, o abacaxi, o limão...
As
bienais ou feiras de livros no Brasil, estão em extinção.
Nós, brasileiros, lutamos desde sempre
pelo direito de ir e vir. Está na Constituição, em todas as nossas Constituições;
desde a primeira, de 1824. E desde ontem, vivemos problemas de todos os tipos.
Problemas graves. Problemas de corrupção...
O Regente Feijó (Diogo Antônio Feijó, 1784 -1843), foi o nosso primeiro governante.
Bastardo, criado entre padres, fez a
sua época o que hoje ninguém faz: dedicou-se completamente ao Brasil, querendo,
desejando, lutando de todas as formas para que o Brasil ganhasse a liberdade.
Em 1821, o Regente Feijó, paulista,
herdou da família que o criou um volume bastante de dinheiro.
Em 1822, Dom Pedro disse num berro “independência
ou morte”.
Foi num dia como hoje, 7 de setembro.
Era um sábado. Hoje, tantos anos
depois, segunda, ainda não o entendemos.
O grito do Ipiranga, ou seja: foi um
grito pela insatisfação que o seu autor, a essa altura, já nutria por sua terra
Portugal. Mas esse seu gesto, só foi reconhecido cinco anos depois.
Que eu quero dizer o seguinte: a
liberdade tão ansiada por nós, todos, é um passarinho que deve ser, sempre, bem
tratado.
O grito do Ipiranga passou a ser
reconhecido como importante verdadeiro, repito, só cinco anos depois.
A Inglaterra e França foram os
primeiros países, depois de cinco anos, a reconhecer o ato de Dom Pedro como um
berro de liberdade.
Agora, que tal você aí procurar saber
o que é que tem o Regente Feijó com a independência
do Brasil?
O
dólar no céu, cutucando o sol que está meio doido, torra os miolos do Brasil. Quer
dizer:: dólar subindo, alto estima descendo e o prato na mesa do pobre cada vez
mais minguando ...
A
crise política e a crise econômica se abraçam pondo a vida brasileira em estado
de alerta.
A
imprensa mundo a fora, especialmente The
Economist e o Financial Times, bota lenha na fogueira dizendo que dona Dilma e
a sua equipe econômica perderam o rumo tipo: Apertem o Cinto Que o Piloto
Sumiu.
Pois
é, é como se todos nós estivéssemos sozinhos dentro de um avião a três mil pés
e a três mil km/h voando em direção ao inferno. Mas, calma, pensemos como Gramsci (1891 -1937). Segundo ele ser pessimista na
avaliação é correto, como é correto também
sermos otimistas na ação.
O
mundo, desde a sua origem, tem se apresentado a nós pobres mortais crise, crise, crise, crise e crise, mas de
todas as crises, pequenas, médias e catastróficas, temos saído. Portanto, não
vai ser essa merrequinha, ou marolinha como dizia Lula, que vai nos levar as
profundas do inferno.
O
Brasil não é propriamente o Olimpo, embora alimente deuses de todas as matizes.
Eu
Gostaria de saber como é que os cordelistas deste Patropi estão acompanhando a
turbulência que o avião Brasil esta sofrendo.
O
dia começou com os jornais noticiando só coisas feias como, por exemplo, o estágio em que se acham os processos da operação
Lava Jato conduzida com mão de ferro pelo Juiz Sérgio Moro, que já mandou para
o Xilindró duas dúzias de roedores do Tesouro Público.
Fora
isso, os jornais continuam destacando as diversas crises que ora, nós, pobres mortais
brasileiros, amargamos. Mas crise mesmo, das grandes, é a de sem-vergonhice que
assola o País de ponta a ponta.
Na
TV, hoje, vi para minha alegria, a bem humorada Inezita Barroso chamando pra
cantar no palco os seus violeiros. Na mesma telinha ouvia-se a chamada para o
filme em que ela era a personagem central: Mulher de Verdade.
Ainda
no mesmo canal, o 2, o Boldrin proseava com os integrantes do Trio Gato Com
Fome.
Bela
prosa em torno de Raul Torres.
O
Gato Com Fome está lançando seu primeiro CD, que traz apurado repertório
baseado na obra musical de Torres.
Mas
voltando às mazelas do nosso cotidiano,
uma foto na primeira página do Estadão era estampada com o propósito de
nos chocar pela irresponsabilidade dos homens que nos governam. A foto substituía mil palavras, como no jargão
jornalístico.
A
foto em questão mostrava animais pastando no que fora há bem pouco tempo o
reservatório da Cantareira. Imediatamente
lembrei das diversas crises hídricas que endoida o povo mais simples do Nordeste, que secularmente têm tangido
populações inteiras de um lado para outro, como o poeta popular Patativa do Assaré
muito bem registrou na sua clássica toada A Triste Partida, em que conta a fuga de uma
família de nordestinos para São Paulo.
A
foto estampada no jornal me trouxe
outras imagens geradas pela solidão assassina da seca secular também
tratada na canção Maringá, do poeta Joubert de Carvalho. Essa canção, lançada em
julho de 1932 pelo cantor Gastão Formenti, conta de uma bela retirante chamada
Maria do Ingá e nasceu a pedido do político paraibano José Américo de Almeida,
integrante do governo Vargas.
A
irresponsabilidade dos governantes nas suas três esferas, é chocante; tão
chocante quanto a foto publicada hoje na primeira página do Estadão.
São
Paulo está vivendo a sua pior seca desde 1924.
Não
custa lembrar que o Imperador D. Pedro II, chocado com a tragédia provocada
pela seca no Ceará, jurou que venderia, se preciso fosse, até a última pérola
da Coroa. Milhares e milhares de
nordestinos sucumbiram diante da seca e diante do Rei que, na verdade, nada fez
para impedir que morresse gente, gado e até passarinho.
Em
1915, portanto há exatos cem anos, levas de retirantes tangidos pela seca
saqueavam os estabelecimentos comerciais de Fortaleza (Ce).
Dado
o noticiário do dia, recordo o escritor Rômulo Nóbrega dizendo da tragédia que
hoje continua a viver o Nordeste profundo, o Nordeste pé no chão, o Nordeste
descalço, faminto, esquecido pelo poder público ou pelas autoridades de que, a
rigor, cuidam mais é mesmo de interesses próprios.
Rômulo
é Campinense. Ele conta que Campina
Grande (Pb), vive com racionamento de água há meses e que a situação é
gravíssima em vários municípios paraibanos.
Ele me pergunta:
-
Você já ouviu falar em Stênio Lopes?
Pois bem, do Dr. Stênio (1916-2010) escreveu um livro em que relata os
problemas provocados pela estiagem e assume uma espécie de máxima que diz “Não
haverá futuro para Campina Grande sem a transposição de águas do Rio São
Francisco”.
Pois
é, as águas do Velho Chico estão sendo desviadas para Pernambuco, Paraíba... A
troco de bilhões.
Tomara
que nessa empreitada não haja problemas que a operação Lava Jato identifique.
Terminando
agosto, fim de mês, o Capeta se afastando...
Segundo
o folclore, no que há no folclore, fica-se sabendo que agosto “é o mês do
cachorro louco”.
Para
muita gente, o mundo acaba ou acabou em agosto.
O
Brasil todo, a exceção de São Paulo, enlutou-se com a morte do caudilho gaúcho
Getúlio Vargas, na manhã de 24 de agosto de 1954.
Eu
tinha dois anos de idade e não vou morrer nunca, pelo menos da forma acontecida
com Getúlio e narrada minuciosamente por cordelistas do nordeste- de-meu-Deus-do-céu.
Getúlio,
aliás, foi o presidente da nossa República mais cantando em verso e prosa até
hoje.
Foi
também num mês de agosto que o Brasil exasperou-se com a renúncia inexplicável
do mato-grossense Jânio Quadros.
Uma
vez entrevistando Jânio, perguntei a razão que o levou a renunciar a presidência
da República. Ele soltou uma risada que reboa até hoje nos recônditos invioláveis
da minha memória. A sua risada estrepitosa, emendei:
-
Presidente, o Sr. é um grande ator!
Ouvindo
o rádio, fiquei sabendo que o Brasil hoje é habitado por 204 milhões de pessoas
e São Paulo figura como o estado mais
populoso, com 44 milhões.
No
tempo de Jânio não havia nem 15 milhões de brasileiros aptos a votar. Hoje,
somos cerca de 120 milhões. Mas tanto ontem como hoje é enorme o número de
brasileiros judiados, analfabetos, sem rumo nem prumo, perdidos, desprovidos de
educação e distantes, também, da cultura que forma uma nação.
Ontem
a Câmara Municipal de São Paulo , representando o povo, homenageou em sessão
solene, um dos mais visíveis artífices da cultura popular, Téo Azevedo, 72
anos, mineiro de Alto Belo.
Téo
Azevedo é compositor e violeiro. No seu alforje de cantador se acham mais de 80
mil fonogramas por ele produzidos. Ele é o artista com o maior número de músicas
próprias gravadas em disco.
A
primeira música que Téo gravou foi de cunho religioso, Deus te Salve Casa
Santa. Isso, em 1965; ou seja, a exatos 50 anos.
Onde
estão os responsáveis do Guiness Book, para registrar as façanhas do mais novo Cidadão
Paulistano?
Eu
abri a sessão falando de crises e crises históricas que o Brasil tem vivido
desde o século 16. A sessão foi encerrada, hora e meia depois, com Téo Azevedo
cantando a canção São Paulo de todos Nos, dele e de Peter Alouche.
Neste ano de 2015, completam-se exatas
cinco décadas que o mineiro de Alto Belo Téo Azevedo entrou, pela primeira vez,
em um estúdio de gravação que resultou num acetato com a cantiga Deus Te Salve
Casa Santa, adaptada do folclore português. Essa gravação perdeu-se na poeira
do tempo e daquela data até hoje, Téo entrou milhares e milhares de vezes em
centenas de estúdios espalhados em Minas, São Paulo etc.
Eu conheci Téo Azevedo quando ele
tinha 33 anos de idade. Naquele tempo, eu era repórter da Folha.
Nos últimos 38 anos, tornamo-nos
amigos e parceiros musicais.
Téo pôs melodia em pelo menos uma
trintena de poesias, várias delas gravadas por intérpretes de reconhecido
talento, entre os quais ele próprio.
Uma de nossas composições (Clarissa)
chegou a ser inserida no filme Saudade do Futuro de produção franco-brasileira.
Hoje, a Câmara Municipal de São Paulo
confere a Téo Azevedo o título de cidadão paulistano.
Eu já passei por essa maravilhosa
experiência.
A solenidade de entrega do título de
Cidadania a Téo Azevedo tem início previsto para às 19 horas. Eu estarei lá
formando a mesa e saudando o homenageado.
No
calendário dos dias, meses e anos, fica-se sabendo que agosto é o mês de
grandes acontecimentos.
No
Brasil, o 5 de agosto marca a fundação da cidade que desde o começo dos anos de
1930, leva o nome de um cidadão chamado João Pessoa.
O
dia 11 lembra o dia que D. Pedro criou a faculdade de direito no Brasil. O 24,
nos lembra a tragédia que foi a morte de Vargas; dia seguinte, outra tragédia
marcou profundamente a vida brasileira: a renúncia de Jânio.
Hoje
26 estávamos, eu e o editor da revista Kalunga, Manuel Dorneles, conversando
exatamente sobre Vargas e Jânio quando, de repente, chega o historiador José Ramos Tinhorão.
Tudo
se passa aqui, no Instituto Memória Brasil.
E
a conversa seguiu por aí.
Crises,
crises, crises.
Ora,
a República começou com a derrubada do Imperador.
Deodoro
foi tirado da cama em pijamas para assumir a República.
Não
demorou muito Floriano assumiu o poder e mandou muita gente ao paredão e depois
também sumiu. O tempo o emparedou. O Hermes chegou, São Paulo em guerra: 24,
32...
João
Pessoa se junta a Getúlio Vargas para, em campanha, assumirem a Presidência.
No
meio do caminho, João Pessoa é morto a tiros em Recife. E aí Getúlio perde e
golpeia o Brasil assumindo à revelia dos votos nas urnas o comando do País.
E
aí, hein? Isso é crise ou não é crise?
E
ainda teve: 32...
Em
1939 (ou 37?), Getúlio dá outro golpe dentro do golpe e cria o Estado Novo.
Bom,
a 2ª Guerra começa em 39 e termina em 45.
Em
1945, além de entrar em guerra, o Brasil entrou em parafuso.
E
aí, em 1954, Getúlio dá um tiro no peito e transforma aquele dia em noite: luto
de ponta a ponta do Brasil, menos São Paulo que não chorou.
São
Paulo não chorou, porque Getúlio fez São Paulo chorar em 32.
E
aí chegou JK, chegou JQ e chegou também Jango.
E
a noite mais escura do Brasil chegou exatamente com a deposição de Jango em
1964.
Essa
noite durou 21 anos.
E
aí, Diretas, Tancredo...
Essa
história de crises dura muito tempo, vem desde o macaco desceu do galho e
achando que tinha duas pernas, pulou, pulou, pulou e cá estamos nós, achando
que a crise está começando agora.
E
essas lembranças históricas vêm e são compartilhadas com Dorneles –nome que a
mãe deu ao Manuel em homenagem a Vargas.
E
presentes nessa conversa no IMB, Tinhorão, Celia, Celma...
Sem
ter muito que fazer, ontem à noite liguei a televisão e, para a minha alegria,
ouvi a minha querida Inezita Barroso chamar a seu palco para cantar a paraguaia
Perla.
Perla!
Perla
é meio soprano, como Inezita.
Que
beleza ouvir Perla cantar Las Cositas de Nuestra America!
A
última vez que vi Perla foi em Campo Grande, MS, cantando para mim. Eu entendi
que era para mim que ela estava cantando naquele começo de noite em terras
mato-grossenses.
Inezita
é incrível!
Sem
ter muito que fazer, hoje de novo liguei a televisão, e para a minha surpresa,
deparei-me com Inezita chamando a seu palco Pereira da Viola.
Antes
de Pereira cantar tocando, apareceram na telinha grupos musicais de São Luís do
Paraitinga e de Mogi das Cruzes cantando e dançando em louvor ao Divino E.S.
Eu
conheço esses grupos.
O
Paranga, de São Luís, em ação toca em qualquer coração.
Lindo!
Em
Mogi, a grupos de Congada, Marujada, e Moçambique.
Pois
é, ai estar uma bela parte do folclore que herdamos de Portugal.
O
povo de Portugal foi o que mais nos deu por tudo que de nós levaram.
A
riqueza cultural do Brasil tem tudo a ver com Portugal.
Você,
que me ler sabe que em Portugal a uma belíssima cidade chamada Baião?
Quem
já não ouviu falar que “agosto é mês de desgosto”?
Pois
é, esta é só uma das milhares e milhares de frases carimbadas pela boca do
povo.
E
esta aqui: “quem cochicha, o rabo espicha”.
Claro,
esta serve para todos nós peregrinos do céu e da terra: “quem tem boca vai à
Roma”.
Tem
outra que diz: “quem fala muito, dá bom dia a cavalo”. Aliás, outro dia uma
amiga me contou que certa vez inventou de bater boca com uma senhora que o
tempo parece ter esquecido de levar e boca vem e boca vai, as duas findaram por
se desentenderem completamente. A amiga então lhe dirigiu essa velha frase do
folclore. Resposta:
-Você
tá pensando que eu sou o que, uma cavala?
A
minha amiga riu muito e apaziguadora apenas disse:
-Eu
estou lhe provocando só porque eu gosto de ouvir a senhora falar, e como fala!
Hoje
é o Dia Internacional do Folclore, que os países civilizados certamente
comemoram.
A
palavra folclore é uma palavra que ainda não tem nem duzentos anos. Ela surgiu
da curiosidade de um arqueólogo inglês chamado William John Thoms (1803–1885).
Um
dia, Thoms enviou uma longa carta à redação da revista de Atheneu, de Londres.
Nessa carta ele demonstrava toda a curiosidade que nutria em torno das coisas
que o povo fala e faz. Coisas que têm a ver com anedotas, histórias infantis, cantigas,
rezas mágicas, pragas e tudo mais que tem a marca anônima e indelével do povo.
Pois
bem, o conjunto de todas essas coisas vindas, surgidas, criadas, por obra e
graça do popular, têm a ver com folk-lore, de origem anglo-saxônica. Em
tradução livre e espontânea: folclore vem a ser nada mais nada menos do que ciência
do povo.
O
meu querido Luiz da Câmara Cascudo detestava a expressão folk-lore.
Cascudo
–que bela palavra como sobrenome para um ser tão importante para o Brasil- foi
um dos nossos mais importantes e o mais prolífico estudiosos do saber popular. Deixou
cerca de 150 títulos publicados, dos quais cerca de 10 ou 15 podem se achar por
aí.
Aprendi
muito com o mestre Cascudo. O folclore é de fato uma ciência de suma
importância para a compreensão da vida. Toda inteligência passa pelo saber do
povo.
Há
uns cinco séculos, outro cidadão inglês e também de nome William, no caso,
Shakespeare, inventou de passar todo seu tempo a escrever histórias; histórias.
Do povo para o povo.
Pois
bem, grosso modo, podemos afirmar que toda obra de Shakespeare é baseada no
tesouro em que se encerra a sabedoria popular. E o que fez Shakespeare, antes e
depois, fizeram outros grandes nomes da literatura e música que não morrem. Bach,
também fez isso, por exemplo.
O
folclore é tão importante que até faz parte do imaginário de mestres da música
erudita como o húngaro Béla Bartok (1865-1945).
Em
1923, Bartok decidiu compor uma obra em homenagem às cidades que deram o nome
de Budapeste. E de sua mente privilegiada saiu a Suíte das Danças. Nessa música
o autor expõe, a partir do imaginário, o que seria na sua visão, folclore.
Entre
nós, brasileiros, Tom Jobim, Zé Dantas, Luiz Gonzaga e tantos e tantos, foram
céleres beber na fonte imorredoura da sabedoria do povo.
Asa
Branca e Assum Preto são boas amostras disso, cá entre nós.