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domingo, 16 de julho de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (31)

Nada impede que se interprete temas em duplo sentido poético ou musical em textos líricos, de amor, de paixão. Chega a ser, digamos, brincadeira ou desafio. Pode se contar uma história em versos com um quê de graça e lirismo pra se falar de uma relação sexual, por exemplo.
Os franceses criaram uma palavra para definir pessoas que sentem prazer ao observrem outras em carícias e atos sexuais. A palavra é “voyeur”. Ipsis Litteris, a definição da palavra é esta: “é a prática que consiste em um indivíduo obter prazer sexual através da observação de pessoas praticando sexo”.
No poema Sexo e Liberdade/No Jogo Louco da Paixão, eu utilizo de um personagem real (Lampião) e crio dois outros (Zilidoro e Riachão) para contar um pouco da história do Nordeste. São poetas esses dois últimos personagens. Cordelistas. Mudo um pouco o rumo da história para inserir mais dois outros personagens (Rita e Juca). Até aqui tudo em sextilha. Rita é uma moça muito bonita, fogosa, que não se faz de rogada para cair nos braços dos admiradores. Alguns até a levam pra cama, sob aquiescência do companheiro Juca. Essa primeira parte, termino ao moldes dos repentistas. Em seguida, a narrativa segue abordando mais diretamente o sentimento paixão, em quadras.
O poema é este:

Dizem que sou poeta
Bobagem! Isso não sou não
Poeta é Zilidoro
Poeta é Riachão
Que do nada fazem versos
E brincando até canção!

Zilidoro e Riachão
São da lira popular
Fazem versos de Cordel
Pra o povo apreciar
São versos bem bolados
Que dão pra rir, dão pra chorar

Eu li de Zilidoro
O Macho Alfa do Sertão
Cordel que conta tudo
A respeito de Lampião
Desde seu nascimento
Até a morte sem perdão

Não foi no Norte nem no Sul
E tampouco no Sudeste
Que um dia tombou morto
Lampião cabra da peste
Por muitos considerado
Uma praga do Nordeste

O velho Lampa derramou
Muito sangue pelo chão
Seu prazer era matar
Inclusive sem razão
Mais prazer teria tido
Se tivesse um bom canhão

Mas canhão ele não tinha
Tinha só muito poder
E uma moça bonita
Que jamais pensou perder
Por ela faria tudo
Se preciso até morrer

Riachão por sua vez
Detestava hipocrisia
Detestava o que não presta
Pelo bem da fantasia
Seu cordel A Quenga Pura
Tem bastante putaria

O cordel começa assim:
Leitor preste atenção
No que ora vou contar
É um causo de traição
Provocado por um corno
Chamado Juca Pavão

Rita mulher do Juca
Era linda como a lua
Andava se balançando
Sem vergonha quase nua
Era fácil gostar dela
Daquele jeito na rua

Seu andar bamboleante
Provocava sensação
Uns a levavam pra cama
Outros ficavam na mão
Rita rindo punha galhos
Na testa do seu Pavão

Mas ele não ligava
Pois gostava era de ver
Rita nos braços dos outros
Se desmanchando em prazer
Pra ele era tudo
Que um corno podia ter

Mas deixa isso pra lá...
Pois poeta não sou não
Poeta é Zilidoro
Poeta é Riachão
Cujos versos eles tiram
Com delicadeza do chão

Chão bom tem o Nordeste
Coisa boa é meu torrão
Semente bem plantada
Na terrinha dá pirão
É por isso que dou vivas
Aos poetas pés no chão

Poetas plantam versos
E também paz e paixão
Plantam sonhos e desejos
De inverno a verão
Dá tudo o que se planta
Quando cai chuva no chão

Dá romã, dá siriguela
Dá maçã em bananeira
Dá cana, caju e cajá
E manga em pitombeira
Só não dá se não plantar
Buraco na buraqueira

Mas chega de conversa!
Eu não sou poeta não
Poeta é Zilidoro
Poeta é Riachão
Pra vocês o meu abraço
E um beijo no coração



Mais ainda posso falar
De amor e sedução
De prisão e liberdade
De Justiça e traição
Pra mim falar é fácil
Até mesmo de paixão

Paixão é mal que pega
Ou um bem que faz tremer
Um ser apaixonado
De repente sem querer?

Quem na vida nunca teve
Um xodó, uma paixão
Um amor destemperado
Mal criado, sem razão?

A razão não tem espaço
Nos domínios da paixão
— E o ser apaixonado?
— É bicho besta sem noção!

Até eu posso dizer
Sem temer estar errado
Que já vi um bicho desse
Choramingando, coitado!

Não há quem não se fira
Nos espinhos da paixão
Espinhos que deixam marcas
Indeléveis no coração

Se alguém lhe perguntar
O que diacho é paixão
Diga logo: É um trem bala
Disparado na contra mão!

Pra que fique muito claro
Clara é a conclusão:
A paixão é uma fada
Com garras de gavião!

Dito isso, não se perca
Não se meta em confusão
Ninguém escapa ileso
Aos caprichos da paixão

Quem avisa amigo é:
Ninguém se perde no baião
Ninguém se perde no batuque
Mas se perde na paixão

Se não crê no aqui dito
Solte freios e direção
Caia na buraqueira
E nos domínios da paixão

 

Ilustração de Fausto Bergocce

sexta-feira, 14 de julho de 2023

SONHAR É UM DIREITO DE TODOS

É bonito meu país Brasil. Bonito de todas as formas e rico em tudo, com seus 8.515.759 km².
No meu país Brasil tem tudo quanto é minério, inclusive o que mais brilha: ouro.
O Brasil é rico em tudo, inclusive no tocante a fauna e a flora. Mas sabemos que a Amazônia corre risco em todos os sentidos e em toda a sua área. A fauna também.
A Amazônia está sendo "loteada" por organizações criminosas como Família do Norte, Comando Vermelho e PCC. Como se não bastasse, ainda há as ONGs estrangeiras, infernizando aquele ambiente.
Mais do que nunca o governo brasileiro tem de pôr rédeas e controlar nossa terra, nossa gente, nossos bens; proteger os indígenas e prender e punir os bandidos que nos massacram.
Nos últimos quatro anos o Brasil virou uma espécie de "terra de ninguém".
Onde o Estado não chega, não se impõe em benefício da população, os bandidos chegam armados até os dentes e tomam conta de tudo.
A diretora de cinema Theresa Jessouroun, sempre preocupada com as questões sociais que afetam o Brasil, acaba de pôr nos canais a cabo Claro TV+ (Now), Vivo e Oi Play o seu novo filme, um documentário, intitulado Direito de Sonhar.
Esse filme de Theresa é um grito de socorro colhido numa comunidade do Rio de Janeiro. Ela diz:
"Gravado no Complexo do Alemão, Direito de Sonhar mostra como a ausência do Estado, a violência, o racismo e o difícil acesso à educação e à cultura afetam vidas e sonhos de crianças e jovens e mostra as soluções criadas para superar estes desafios".
Não é de hoje que Theresa Jessouroun volta seu olhar às injustiças que o povo humilde mais sofre.
Em Direito de Sonhar tem depoimentos tocantes, profundamente tocantes, como o de uma garotinha vestida de bailarina. Essa garotinha diz que muita gente lhe diz que como bailarina ela não chegará a canto nenhum. Mas ela garante não acreditar nisso, pois a esperança a move e a moverá sempre na vida. Tem uns 8 anos, talvez 9 de idade.
Um garoto de uns 10 anos aparece no filme de Theresa lendo livros com o maior gosto do mundo. Emociona.
Crianças e jovens adultos permeiam todo o filme de Theresa.
Direito de Sonhar, ao mesmo tempo que é um grito de socorro, é também um sopro de esperança. A pesquisa, muito bem desenvolvida, traz a marca da jornalista paulistana Cilene Soares. Veja o trailer:

quinta-feira, 13 de julho de 2023

HOJE É DIA DE ANACLETO E CORNÉLIO PIRES

Anacleto e Cornélio
Meu amigo, minha amiga, você sabe quem foi Anacleto de Medeiros?
Meu amigo, minha amiga, você sabe quem foi Cornélio Pires?
Bom meu amigo, bom minha amiga, Anacleto de Medeiros foi um negro fantástico, músico. Nasceu na Ilha de Paquetá, RJ, em 1866.
Anacleto e Cornélio Pires têm algo em comum: ambos nasceram no dia 13 de julho, um dia como hoje.
No tempo de Anacleto, os negros eram simplesmente escravizados.
No tempo de Cornélio, que foi também um cara incrível, a escravidão ainda corria solta no Brasil.
Cornélio, nosso primeiro produtor musical independente, nasceu no município paulista de Tietê no ano de 1884. Morreu em 1958, no Hospital das Clínicas. Não casou e nem deixou filhos, mas deixou 52 discos de 78 rpm gravados e 23 livros publicados.
Anacleto Augusto de Medeiros, esse o nome completo de Anacleto de Medeiros, interessou-se pela música muito cedo. Começou tocando flautim e seguiu apaixonado por outros instrumentos de sopro. Seu instrumento preferido era o saxofone. Aos 18 de idade, já era um bam-bam-bam conhecido em Paquetá. Foi maestro da Banda Musical do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. É autor de uma centena de músicas. Uma de suas músicas, Rasga Coração, ganhou letra do poeta e violonista Catulo da Paixão Cearense e chegou a inspirar o compositor e maestro Heitor Villa-Lobos num chorinho. 
Rasga Coração ganhou a primeira versão em disco na voz de Mário Pinheiro e Vicente Celestino. Ouça com Celestino:
 


LEIA MAIS: O CHORO É NEGRO  CORNÉLIO PIRES E POLÍTICA  Humor desde sempre. Viva Cornélio Pires!

quarta-feira, 12 de julho de 2023

DEUS, O DIABO E LULA

A simbologia do mal tem por nome Diabo.
Cresci ouvindo dos mais velhos que "Deus está em todo canto".
Pra contrariar essa fala, sempre tinha alguém a dizer que o Diabo está em todo canto. Eu me arrepiava. 
Confesso que, pelo pavor que eu tinha do Demo, eu me arrepiava todo.
Fui crescendo e sabendo que o diabo "atende" por vários nomes: Demo, Demônio, Belzebu, Capeta, Cão, Bute, Satã, Satanás, Lúcifer, Tinhoso... 
Essa história vem-me à memória após ouvir o Lula tirar onda do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que insiste em manter a taxa de juro na estratosfera. Lula chamou o cara de "Teimoso" e "Tinhoso".
Tinhoso, como se sabe, é o Diabo. 
Aliás, o Diabo personagem vivo na memória popular e em tudo quanto é mídia desde tempos d'antanho. 
No século XV foi gerado um livro tornado clássico desde então: A Divina Comédia, do italiano Dante Aliguieri (1265-1321). Esse livro tem por partes o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Nessas três partes, na primeira principalmente, o bicho pega.
O livro de Dante inspirou outros grandes autores, como Goethe (1749-1832). Desse alemão é também a obra-prima Fausto. 
O personagem Fausto, de idade alí pelos 50, é um sujeito cheio de curiosidade. Quer saber de tudo: de onde viemos, pra onde vamos e tal. Realiza seu sonho, depois de "vender" sua alma ao Diabo.
Ah! Dante é nominalmente citado por Goethe na parte chamada Carnaval, na qual desfilam deuses e demônios à moda do sambódromo carioca.
Cresci ouvindo histórias de pessoas que vendiam até a mãe para alcançar seus objetivos. 
Também cresci ouvindo histórias de pessoas que tinham "o corpo fechado". Um cara assim, como Lampião, é duro na queda. Leva tiro, leva facada, leva pedrada e não cai, não morre. E quando morre é porque o corpo já não se segura de pé.
Lampião morreu com 39 anos de idade. 
Goethe com o seu Fausto inspirou até o nosso Guimarães Rosa. E antes, Machado de Assis. 
Machado fala do Diabo a dar com pau. 
Em 1884, Machado escreveu o belíssimo conto A Igreja do Diabo. A respeito não falarei, pois prefiro que você delicie-se com a leitura:

terça-feira, 11 de julho de 2023

VIOLÊNCIA E BOLSONARISMO, UMA PRAGA!

A violência continua atingindo o Brasil e brasileiros.
A violência, de todo tipo, flui com a naturalidade de quem tira um pirulito das mãos de uma criança. Infelizmente. Essa violência encontra guarida na cartilha bolsonarista. Não que antes dessa praga não existisse violência, mas multiplicou-se com o incentivo de Bolsonaro.
Estimular a população a comprar armas indiscriminadamente é, por si só, um crime. Isso foi feito no decorrer dos último quatro anos. E o resultado é o que se vê.
Até templos católicos têm sido alvo da bandidagem.
E o que dizer das torcidas de futebol, hein?
As brigas entre torcidas "organizadas" estão se multiplicando. O último caso, de morte, ocorreu no último fim de semana em São Paulo.
Uma jovem de 23 anos, Gabriela Anelli Marchiano, estava numa fila para comprar ingresso e assistir a uma partida entre Flamengo e Palmeiras. De repente, uma briga. A polícia chegou e passou a ser agredida a garrafadas pelos tais torcedores. Uma garrafa atingiu a jugular da jovem. Isso foi sábado 8. Dois dias depois, na Santa Casa de Misericórdia, ela não resistiu e morreu.
Neste ano de 2023 torcedores de times diversos morreram em confusões em Fortaleza, Alagoas, Pernambuco e sei lá onde mais!
É triste e perigoso viver numa sociedade violenta, onde as leis nem sempre são cumpridas e a impunidade resiste que nem um jatobá milenar. 
Tudo isso tem a ver com Justiça e Política.
Apesar de tudo ouso dizer que a Justiça jamais morrerá, ao contrário de Bolsonaro.
Politicamente Bolsonaro morreu. O bolsonarismo, não.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

JACKSON E ROSIL, SAUDADE

Ilustração de Fausto Bergocce


Foi num dia e mês como hoje que partiram para a Eternidade os craques da boa música popular Rosil Cavalcanti, pernambucano, e o paraibano Jackson do Pandeiro. 
Rosil morreu em 1968, ano da decretação do famigerado Ato Institucional nº 5. Jackson, em 1982.
O pernambucano Rosil Cavalcanti deixou menos de uma dezena de composições, mas muitas delas clássicas. Ele mesmo não gravou nenhuma, mas Luiz Gonzaga e tantos e tantos gravaram.
Em 1953, Jackson do Pandeiro estreava em disco de 78 rpm com as músicas Sebastiana, de Rosil; e Forró em Limoeiro, de Edgar Ferreira.
Edgar Ferreira (1922-1995) eu conheci durante palestra que fiz em Aracajú, SE. Grande figura!
Rosil Cavalcanti e Jackson do Pandeiro têm suas histórias contadas em livros. O primeiro por Rômulo Nóbrega (Pra Dançar e Xaxar na Paraíba) e o segundo, pelos jornalistas Fernando Moura e Antônio Vicente (Jackson do Pandeiro: O rei do ritmo).
O coco Sebastiana, primeiro grande sucesso de Jackson, foi lançado há 70 anos. Ouça: 



sábado, 8 de julho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (30)

Pedi a Oliveira de Panelas que desenvolvesse um texto poético abordando a questão palavrão no mundo da Cantoria. Sem se fazer de rogado, lá foi ele serelepe dizendo tudo o que sabe dizer. Com lirismo, graça e tudo mais. O resultado foram 120 versos distribuídos em 20 estrofes.
Começa assim:

Na Cultura Popular
De nossa imensa Nação,
O palavrão tem espaço
Em toda nossa emoção
Não há quem não tenha dito
Algum dia um palavrão.

Ninguém procure deter
A fúria desse sujeito,
Que na hora que o bicho “incha”
Nas cavidades do peito
Se a gente tentar freá-lo
O desmantelo está feito.

Até Índio na aldeia
Diz palavrão com o tacape...
Se for necessário diga
Antes que você “derrape”
Porque o buraco é fundo
Talvez você não escape.

Ele ama a liberdade
Deixá-lo preso é tolice,
É ótimo pras coronárias
Ante tanta esquisitice.
É mentiroso quem fala
Que um palavrão nunca disse.

Você topa numa pedra
E fere o dedão do pé,
Você diz, gota serena
Moléstia de cabaré,
Nessas horas a gente sente
O bom que o palavrão é.

Acho eu que até o Papa
Se levar um machucão,
Se for forte ele não lembra
Da Virgem da Conceição
Diz inconscientemente
O nome de um palavrão.

O palavrão está na China,
Japão, Itália, Paris...
Até o nosso vigário
Quando reza na matriz
Não diz na hora da missa
Mas fora da missa diz.

Vladimir Putin na Rússia
Solta seu palavrão brabo,
Diz pensando na Ucrânia:
Dessa vez sei que me acabo,
Pensei de vencê-la fácil
Mas vou levando no rabo.

Rita Lee era famosa
Nos palavrões que dizia,
Não tinha papas na língua,
Em todos shows que fazia,
O pau rolava e cantava
Sem nenhuma hipocrisia.

Só que o palavrão não pode
Ser dito de qualquer jeito,
Com calúnia e com fobia
Com ofensa e desrespeito.
Senão perde toda graça
Se denegrir o sujeito.

Assim foi Dercy Gonçalves
A rainha absoluta,
Babaca na unha dela
Levava pau na disputa,
Em meia hora escutava
Quarenta filha da puta.

O palavrão no Brasil
Vem de nossos ancestrais!
Está dentro da política,
Nas camadas sociais,
Quanto mais o tempo passa
Mais o bicho aumenta mais.

Romário, Zico, Pelé
E outros da Seleção,
Todos os craques da bola
Ou noutra competição,
Ninguém sabe o quanto eles
Falaram de palavrão.

Dilma Rousseff enfrentou
Selvageria e tortura,
Fez o mundo inteiro ver
Os males da Ditadura,
Seus palavrões têm espaço
Dentro de nossa Cultura.

Chico Anísio, Jô Soares...
Nem precisaram de teste,
O jornalista Assis  Angelo,
Esse é um Cabra da Peste,
Difunde no mundo inteiro
Os palavrões do Nordeste.

Palavrão é uma arte
Depende como se diz,
O palhaço diz com graça,
O louco fala feliz.
Sem o palavrão vejo “furo”
Na Cultura do País.

Roberto Carlos, Ratinho...
Têm seus palavrões também,
O Rei do Baião dizia:
Eu falo e me sinto bem.
Tinhorão, gênio escritor
Falava pra mais de cem.

Lampião, Rei Virgulino
Com sua bela Maria,
Só suportava a dureza
Do Cangaço em que vivia,
Pela coragem que tinha
E os palavrões que dizia.

Os palavrões mais usados
Que o Brasileiro já viu:
“São filho de rapariga,
Vai pra puta que pariu,
Vai tomar naquele canto”
E muita gente aderiu.

Do jeito que o mundo está
Passando tanto aperreio,
Os dias densos chumbados
E o ódio ferindo em cheio,
Sei que pra gente escapar
É necessário jogar
Uns palavrões pelo meio.

No dia 23 de julho de 1981, o jornalista e historiador José Ramos Tinhorão publicou belo e analítico texto sobre o LP O Perguntador, que na ocasião estava sendo lançado à praça. Anos depois, precisamente em 2010, Tinhorão inseriu o referido texto no livro Crítica Cheia de Graça. Para acessar a leitura, clique: OLIVEIRA DE PANELAS VEM CHEIO DE RESPOSTAS EM SEU O "PERGUNTADOR"
Ainda sobre Oliveira de Panelas, clique na entrevista que fiz com ele em 2012: https://www.youtube.com/watch?v=__NTrRZ4ezE

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

sexta-feira, 7 de julho de 2023

MARIA MOITA FOI PLAGIADA

Ontem 6 escrevi uma coisinha a respeito da canção bossa-novista Maria Moita de Vinícius e Carlos Lyra. Essa música foi composta em 1962. Recebeu várias gravações, inclusive do Lyra. No ano seguinte, no estrangeiro, Maria Moita foi simplesmente plagiada. O autor da façanha foi um grupo, por sinal, muito conhecido em todo canto: Deep Purple.
Não é de hoje que músicas de autores brasileiros "grampeadas" por plagiários internacionais.
Em 1968 ganhou notícia mundo afora o plágio que o gringo Rod Stwart fez de Taj Mahal, de Jorge Ben ou Jorge Ben Jor. O autor brasileiro entrou com processo na Justiça e ganhou. Mas a grana não chegou a suas mãos: foi para uma instituição filantrópica.
Outras músicas de Ben também foram alvo da cobiça gringa, e plagiadas. Entre essas Cinco Minutos.
No Brasil, brasileiros também plagiam brasileiros. Até o RC. Mas essa é outra história.
Ouçamos Maria Moita na versão plagiada:

quinta-feira, 6 de julho de 2023

LULA APROVA LEI DE IGUALDADE SALARIAL

O negro e a mulher sempre sofreram na sociedade brasileira. Sempre foi assim e assim continua sendo, de certo modo. Na tentativa de corrigir um pouco essa situação, o presidente Lula sancionou na segunda-feira 3 a Lei nº 14.611 que "Dispõe sobre a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens; e altera a Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943".
Quer dizer: há exatos 80 anos nada havia sido feito, nesse sentido em prol da mulher. E é coisa óbvia, pois se a mulher desenvolve funções idênticas a funções que um homem desenvolve, por que ela ganha menos?
Essa história tem a ver com cidadão e cidadã de segunda classe, não é mesmo?
A história registra muitos absurdos no tocante à figura do negro e à figura feminina. Mas isso aos poucos vai mudando, como se vê.
Não custa lembrar, porém, que jornais, revistas, livros e nossa música popular registram as desigualdades da sociedade de todas as épocas.
O poetinha Vinícius escreveu uma letra muito interessante chamada Maria Moita, musicada pelo bossa-novista Carlos Lyra. Lá pras tantas, diz a letra: "Deus fez primeiro o homem/ A mulher nasceu depois/ Por isso é que a mulher/ Trabalha sempre pelos dois".
A Bossa Nova nasceu em 1958.


Ouça a música Maria Moita, clicando: https://youtu.be/FB3ekFa3oqc

TEATRO OFICINA

O Teatro Oficina surgiu na Capital paulista em 1958, com iniciativa de José Celso Martinez Correa. À época Zé era estudante de Direito no Largo São Francisco. Não concluiu o curso, mas arregimentou estudantes para pôr em prática suas ideias para Teatro. É uma história e tanto!
José Celso morreu na manhã de hoje 6, vítima de complicações decorrentes de um incêndio no apartamento onde morava no bairro do Paraíso, SP.
Segunda-feira 3 escrevi texto especial sobre Licenciosidade na Cultura Popular, série que vem sendo publicada há uns meses no Newsletter Jornalistas&Cia e neste Blog. Um trecho do texto ainda inédito: 

Em 2005, o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa esteve em Berlim,  Alemanha, apresentando a peça Guerra no Sertão. Baseada no livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, na história adaptada por Corrêa aparecem personagens vivenciando o dia a dia da região de Canudos. E aí tem putaria, sexo e tal.
Boa parte da imprensa alemã não gostou do que viu. O diário Bild, em matéria de página inteira, pergunta o que os problemas dos brasileiros têm a ver com orgias. O diretor da peça respondeu: 

“O desejo da orgia vive em cada cultura e em cada pessoa. O teatro pode contribuir para libertar esse desejo”.

Disse mais:

“Trata-se do ímpeto de liberdade das sociedades isoladas. Mas eu vejo isso só do ponto de vista político, econômico ou militar. Trata-se da libertação das origens humanas que isolamos em nós”.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

JARBAS MARIZ TEM NOVO DISCO NA PRAÇA

O cantor, compositor e multi-instrumentista Jarbas Mariz é do tipo de artista que não para, está sempre se coçando, arrumando inspiração na terra e no céu.
Jarbas, que durante mais de 30 anos formou e liderou a banda que acompanhou mundo afora o bamba baiano Tom Zé, chegou à casa dos 70 que nem um moleque que chega à casa dos 15 ou 20 anos: com todo vigor.
Artisticamente Jarbas começou a carreira tocando e cantando em bailes na Capital paraibana, João Pessoa. Sua primeira participação em disco foi em Paêbirú, lançado pela primeira vez em 1976 pela extinta gravadora Rozenblit. Esse disco, um álbum duplo, tinha como estrelas o pernambucano Lula Côrtes (1949-2011) e o paraibano, em início de carreira, Zé Ramalho.
Não custa dizer que Jarbas Mariz é mais conhecido no Exterior do que no Brasil. Tem meia dúzia de discos na praça e participação em gravações de amigos como o próprio Tom Zé.
O novo disco de Jarbas, o CD Jarbas Mariz, traz 13 faixas e a participação especial de Zé Ramalho, Chico César e Crônica Mendes.
É pra ouvir e dançar. Alto nível.
A faixa 1 desse disco é um rock-canção, interpretada por Zé e Jarbas. A faixa 2, 3 e 6 são canções. A faixa 4 e 7, rocks. Faixa 5 é um xote com a participação de Chico César. A 8 é um forró "RAPiado", com a participação de um bamba chamado Crônica Mendes. A 9, forró/batucada. A faixa 10 é um arrasta-pé estilizado, com bateria e tal. A faixa 11 é uma espécie de rock-balada. A 12 é um poema/RAP cheio de trocadilho e filosofia, de Marconi Notaro. E a faixa 13, bônus, tem texto de Jarbas e interpretação de Crônica Mendes.
Esse Jarbas vai longe... Ouça o que ele faz na música Augusta, Angélica e Consolação, de Tom Zé. reinterpração nota 10:

terça-feira, 4 de julho de 2023

LEONEL PRATA, UM CARA DE OURO

Outro dia o cartunista Fausto, que está com novo livro saindo do forno, perguntou se eu ainda me lembrava de Leonel Prata. Na bucha, respondi: "Endoidou, Fausto? O Leonel é daqueles caras que a gente conhece e não esquece mais".
A pergunta de Fausto foi me feita pelo fato de eu lhe ter dito que há uns 30 ou mais anos publiquei uma entrevista com Chico Buarque, mas não me lembrava em qual revista. Foi numa revista, era o que me lembrava. E Fausto, puxando pela memória, arriscou: "Acho que li essa entrevista, que foi publicada numa das revistas da Editora Três".
Pois é, revista Homem!
Foi então que Fausto disse que era possível que o Leo, que foi editor dessa revista e de outras da Editora Três, tivesse nos seus arquivos um exemplar da referida revista. E não deu outra: entramos em contato com Leonel Prata e ele, de pronto, confirmou que tinha de fato um exemplar dessa revista com a minha entrevista, que agora compartilho com vocês: 
 
 
O colega e amigo jornalista Leonel Prata, um cara de ouro e da minha geração (Ele é de 1951 e eu, de 1952), tem um bocado de livro publicado, roteiros pra TV, peça de teatro, o escambau! Mais sobre ele, acesse o site: http://www.leonelprata.com.br/
 

HISTÓRIAS DE ESQUINA

Está saindo do forno o livro Histórias de Esquina, desenhado por Fausto e escrito por mim. Modéstia às favas: esse livro está muito bonito, está legal, e vai dar muito o que falar. O prefácio é do batuta Júlio Medaglia. Aguardem!

segunda-feira, 3 de julho de 2023

"A JUSTIÇA É CEGA, MAS NÃO É TOLA"

Clique para ler
O ministro Alexandre de Moraes, do STF, desde o segundo semestre do ano passado presidindo o TSE, disse na sua justificativa de condenação ao ex-presidente Bolsonaro, por abuso de poder e tal, que "A Justiça é cega, mas não é tola". A frase completa é:
“Nós alertamos quais seriam as consequências de uma conduta dessa forma. A Justiça pode ser cega, mas não é tola. Nós não podemos criar de forma alguma o precedente avestruz. Todo mundo sabe o que ocorreu, o que causou, mas todos escondem a cabeça”.
Como homem hoje sem olhos para ver, gostei do que disse o ministro. A propósito, com a condenação de Bolsonaro por abuso de poder, daí a inelegibilidade por oito anos, abre-se uma porta para o negacionista Bolsonaro ocupar uma cela na Papuda ou em outra cadeia de segurança máxima, claro.
Bolsonaro não estava preparado para ser presidente da República. Isso todo mundo sabe, pelo menos aqueles e aquelas que tem o mínimo de bom senso e de comportamento civilizado na nossa sociedade.
No dia 3 de abril de 1988, um domingo, publicamos em matéria de página inteira resumo de uma mesa redonda/debate que, como chefe de reportagem da editoria de Política do Estadão à época, mediei. Dessa mesa participaram Roberto Cardoso Alves, o Robertão; José Serra, Guilherme Afif, Victor Faccioni e Lula. Entre outros assuntos, debatiam-se questões referentes à nova Constituição que seria aprovada em outubro do mesmo ano. Afif soltou uma frase interessantíssima, e atual: "Sarney é um acidente em nossa história. Ele sequer estava preparado para assumir a Presidência da República".
Pois, pois!
Eu, se fosse você meu amigo minha amiga, leria a íntegra dessa mesa na página que ilustra este texto.

DITADURAS

Pois é, nem de esquerda nem de direita: ditaduras não prestam, são uma merda. E deixa de dizer besteira, Lula, pois não dá pra relativizar a Democracia.

domingo, 2 de julho de 2023

TÉO AZEVEDO, ENFIM: 80 ANOS

 
Exatos 120 anos depois da declaração da Independência da Bahia, nasce na região de Alto Belo, Minas, o compositor e violeiro Téo Azevedo. Também cantador dos bons, voz forte e afinada. Como produtor musical, é o mais profícuo da história da nossa música popular. Tem mais de 2 mil títulos no currículo.
Téo, depois de servir o Exército, partiu em direção da música regional para fazer história. Tem vários LPs e CDs gravados cantando e acompanhando-se à viola ou violão.
Da cultura popular mineira e folclórica, Téo Azevedo sabe de tudo e um pouco mais. À propósito, já publicou uma dúzia de livros sobre o assunto. O último tem por título Léxico Catrumano. 
Nascido no dia da independência baiana, exatamente no dia 2 de julho, Téo está completando hoje 80 anos de idade. Tem filhos e muita história pra contar.
Neste domingo 2 os baianos comemoram o bicentenário de sua Independência. O presidente Lula estará lá participando da solenidade.
Meu amigo, minha amiga, você conhece a história da Independência da Bahia?
Muitas mulheres participaram das batalhas que findaram pela independência da Bahia. Entre essas mulheres, a religiosa Joana Angélica, Maria Filipa e Maria Quitéria.
Maria Quitéria foi a primeira soldada do Exército brasileiro, do qual é patrona desde 1953. Leia: EXEMPLOS DA CORAGEM FEMININA e NEGREIROS ETERNOS
Em Alto Belo, MG, a população local em peso vai participar hoje da programação alusiva às comemorações dos 80 anos de Téo Azevedo. Acima, ouça entrevista que fiz com Téo. E ainda sobre ele autor de centenas e centenas de músicas, escrevi um texto poético que foi musicado por Cacá Lopes e Luiz Wilson. Esse texto, esse poema, eu o escrevi na primeira pessoa. Título: O Cantador de Alto Belo. Ouça:

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sábado, 1 de julho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (29)

O palavrão e versos de sentido duplo, ou mesmo triplo, começam a aparecer na discografia brasileira na primeira década do século 20.
Mário Souto Maior revelou a este Autor que Gilberto Freyre foi quem o provocou a escrever  o Dicionário do Palavrão e Termos Afins. E o ponto de partida foi um questionário que enviou a milhares de pessoas, via Correios. O questionário tinha por objetivo obter dos destinatários o maior número de palavrões que conhecessem.
Enquanto tinha vetado seu Dicionário, Souto Maior publicava em Recife o livrinho Folclorerotismo, no qual falava de sociologia do sexo e temas correlatos como pornoerotismo e adivinhas.
Na parte de adivinhas lê-se: "Qual é o lugar onde a mulher tem o cabelo mais pixaim? Resposta: Na África ".
Mário Souto Maior conclui no seu Folclorerotismo lembrando que:

Minelvino Francisco da Silva
“Nem todos os poetas populares participam do ciclo da safadeza ou da putaria. São, realmente, bem pouco numerosos os que se dedicam a explorar, mesmo sob um anonimato justificado, os assuntos sexuais em seus folhetos. A maioria prefere escrever seus folhetos usando palavras de duplo sentido prática que não é de hoje mas que vem de muito longe, desde alguns folhetos de João Martins de Athayde como é o caso de O Jeca na praça.”

Houve nessa história um cordelista chamado Minelvino Francisco da Silva, que não concordava absolutamente com nenhum de seus colegas que fizessem uso de palavrões pra contar histórias. Na última página de seus folhetos, Minelvino dizia:

“Através desta mensagem estou convidando em nome de Cristo todos os trovadores cristãos para batalhar contra livros imorais. Na cidade que residir um trovador este não deve vender nem aceitar que alguém venda tais livros. Eu por exemplo não consinto que alguém venda tais livros. Eu por exemplo não consinto que alguém venda tais livros. Eu por exemplo não consinto que alguém venda aqui em Itabuna livros pornográficos que seja literatura de cordel, pois outros tipos de livros eu nada tenho a ver com isso. Chegando aqui um vendedor desses livros escandalosos, eu chamarei ele atenção e o aconselharei com carinho e com amor, se continua sou obrigado a usar de todo rigor, denunciando-o as autoridades competentes. Meus amigos; livro imoral é um escândalo! e assim disse Jesus: Ai do homem pelo qual vem o escândalo. São Mateus 18,7. Minelvino Francisco Silva. Rua dos Trovadores, 591-B. Sto. Antônio Itabuna-Ba”.

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

sexta-feira, 30 de junho de 2023

FESTA É FESTA!

O Festival de Parintins, em Manaus, AM, começa hoje 30. É 56ª edição. Os personagens principais são os bois Caprichoso e Garantido.
Essa festa é uma das inúmeras festas que há no mês de junho, no Brasil.
No Nordeste, principalmente no Nordeste, o mês de junho é o mês junino, de São João.
Em Caruaru, PE, e em Campina Grande, PB, ocorre o que os marqueteiros de plantão dizem ser "o maior São João do mundo". É e não é. É porque no Brasil o São João continua sendo uma grande festa, ao contrário do que ocorre noutros países. E não é porque o São João dessas duas cidades virou um pastiche. Ou seja: o sertanojo e a sofrência estão substituindo a música tradicional da época.
O Festival de Parintins é algo parecido com o que ocorre no sambódromo do Rio de Janeiro, nos fevereiros de Carnaval. É festa luminosa para os olhos estrangeiros, principalmente.
Parintins é diferente do Boi-Bumbá que tão bem conhecemos.
Mas festa é festa. E ponto.



LEIA MAIS: O BOI NA CULTURA POPULAR

quinta-feira, 29 de junho de 2023

ATENÇÃO, LIVRO NOVO À VISTA!

Atenção, atenção, senhores e senhoras, meninos e meninas! 
Atenção Brasil! 
O mundo literário e dos quadrinhos tem motivo pra começar a se agitar: está na boca do forno o novo livro do cartunista Fausto. Esse novo livro, Histórias de Esquina, traz também a assinatura deste que cá escreve. Pois, pois. O prefácio é do maestro Júlio Medaglia e o posfácio de Valdir Carleto. Craques.
Eu se fosse você, meu amigo minha amiga, entrava correndinho em contato com o Fausto para reservar pelo menos um exemplar de Histórias de Esquina. O email dele é este aqui, ó: faube@uol.com.br
O cara que deu forma ao livro que está pra sair tem jeito pra coisa: Sérgio Bergocce. 
A primeira prova do novo livro de Fausto, feito com uma mãozinha minha, é esta:

A VIDA POR JOÃO CARLOS PECCI (4, FINAL)

João Carlos Pecci
ASSIS ÂNGELO:
Eu perdi a luz dos meus olhos há 10 anos. O motivo foi descolamento de retinas. E o acidente que paralisou você, ocorreu como e quando?

JOÃO CARLOS PECCI: Como disse antes, foi num acidente na Via Dutra. Eram 5 horas da tarde de um domingo chuvoso, eu viajava sozinho. Na época não havia cinto de segurança nos carros. Quando me socorreram, eu estava desacordado no piso de trás do Fusca. Imagina o impacto. Você perdeu a visão e continua enxergando através dos sentidos e com a profundeza da alma. Eu perdi a mobilidade e continuo me locomovendo sem deixar pegadas no chão mas exercendo minha vida no Ser, no Existir e no Evoluir. Assim, ambos enxergamos e caminhamos.


ASSIS: Pra mim é muito difícil viver sem a luz dos olhos meus. E você, adaptou-se completamente à nova vida?

JOÃO: Para quem perde alguma capacidade física ou sensorial, a adaptação dificilmente será completa. Mas a paraplegia, ao invés de me trancar, me soltou para a vida. Tornei-me mais sensível e evolui meu espírito na compreensão das diferenças. Sei que não posso tudo, mas posso muita coisa. Enveredei pelas artes, que me possibilitam expor sentimentos e angústias. Através delas eu me doo um pouco, essencial para o ser humano. O casamento fez de mim um homem maior ao lado de uma mulher ainda maior que eu. Deu-me uma filha, renovação de nossas vidas. E prossigo, velejando a vida, perseguindo a realização de novos sonhos, como um novo livro, que vem ai em breve. Há que continuar sempre em busca do novo, embora o novo seja a transformação de algo que já conhecemos…


ASSIS: Do alto dos meus 70 anos, ainda sonho. E você, já realizou todos os sonhos?

JOÃO: Sonhar é renovar caminhos e esperanças. Ai daquele que deixa de sentir o aroma desse perfume...

quarta-feira, 28 de junho de 2023

A VIDA POR JOÃO CARLOS PECCI (3)



ASSIS ÂNGELO: Seu irmão Toquinho tem uma parceria musical com Geraldo Vandré. A última vez que você viu Vandré foi no Carnaval de 1968. O que acha da obra desse artista?

JOÃO CARLOS PECCI: Conheci Geraldo Vandré no Guarujá, carnaval de 1968. Ele tornou-se amigo de minha turma, afável, carinhoso, divertido. Disponível em muitos momentos de vários dias. Depois o vi somente em 1976, levado à minha casa por uma amiga. Era um outro Vandré. Ficou quieto, sentado em um canto, falando pouco, escrevendo o tempo todo. Vandré é um romântico revolucionário. Polêmico, sua música é forte e transformadora. No final de 1968 ele agitou o Maracanãzinho apenas com seu violão e sua voz falando de flores e canhões. Depois saiu pelo mundo propagando o Brasil e suas raízes nordestinas.


ASSIS: Você escreveu livros sobre Vinícius de Moraes. O que mais importante você vê na obra de Vinícius?

JOÃO: Vinícius é um grande poeta e um grande músico também. Aliás, a música chegou para ele antes que a poesia propriamente dita. Sua primeira canção é de 1929, com 15 anos, “Loura ou morena”. Anterior ao seu primeiro livro, “O caminho para a distância”, de 1933. Vinícius retrata o amor e a paixão em poemas, sonetos, baladas, crônicas e peças teatrais. Acredito que o mais brilhante de sua obra são os sonetos que ele criou entre 1938 e 1940 quando esteve na Inglaterra como bolsista em Oxford. Mas o mais importante de sua carreira é o fato de ele ter transferido sua poesia para a música popular, dotando-a de leveza e simplicidade, tornando-se, ao lado de Tom Jobim, artífice da mais dignificante transformação musical que encantou e encanta o mundo até hoje: a Bossa Nova. E mais: na música, ele jamais deixou escapar o viço de sua poesia, mantendo-se sempre ao lado de parceiros jovens como Baden Powell, Carlos Lyra, Francis Hime, Edu Lobo e Toquinho.


ASSIS: João, o Brasil é um país fantástico. O que falta para o Brasil ser de fato um país feliz? Os políticos atrapalham?

JOÃO: Há tempos o brasileiro descobriu a mágica de ser feliz ludibriando a realidade. Com todo direito e criatividade. Seu divertimento é fazer piada de políticos que atravancam esse país. No Brasil, o povo vive de lampejos. Com alguns clarões mais promissores, mas sempre interrompidos. Passamos por suicídio, renúncia, ditadura, morte quase no dia da posse, dois impeachments, corrupção, um ex-presidente preso, ameaças à democracia... E sempre na esperança de que algum lampejo se transforme num brilho mais duradouro. Longe disso. Vivemos hoje um parlamentarismo disfarçado. Mas o nível dos congressistas é cada vez mais desanimador....

terça-feira, 27 de junho de 2023

A VIDA POR JOÃO CARLOS PECCI (2)



ASSIS ÂNGELO: O que ou quem inspirou você a trilhar o caminho das artes? Quando você começou a escrever livros?

JOÃO CARLOS PECCI: A deficiência física provoca obstáculos imprevisíveis, principalmente no início, quando tudo é espantoso. Mas também abre portas para a superação. Primeiro veio a pintura, como terapia para fortalecer os dedos das mãos. Jamais imaginei pintar quadros. Entre outras portas, a paraplegia me abriu também essa. A terapia foi virando profissão. De 1972 a 1978 expus meus quadros na Praça da República, numa época romântica e artesanal. Depois comecei a expor em galerias e meus quadros passaram a ser valorizados. Hoje os divulgo nas redes sociais recebendo retornos elogiosos e compensadores. A literatura surgiu de toda transformação provocada em minha vida. Mudava muita coisa, mas eu conseguia manter em torno de mim a abnegação da família, o carinho e apoio dos amigos. Além de usar a cadeira de rodas, tornei-me um itinerante apoiado em duas bengalas, o corpo suportado por uma órtese da cintura até os pés. A vida me caminhava, imitando Paulinho da Viola: “Não sou eu que me navego, que me navega é o mar...”. Namorava com mais poesia, fazia sexo – sim, fazia sexo com mais ardor. Então resolvi: “Preciso escrever sobre tudo isso”. Em 1980 foi editado pela Summus Editorial meu primeiro livro, “Minha Profissão é Andar”. Um texto transparente, real, sem pieguice nem vaidade. É um livro precursor desse tema no Brasil, virou ‘best seller”, foi adotado em escolas e faculdades, me fez palestrante. Hoje conta mais de 30 edições, sendo incentivo para que surgissem outros livros sobre o assunto. A literatura passou a fazer parte de mim e vieram mais livros. Atrevi-me a escrever crônicas e poesias em “Existência” (1984 – Summus). Enveredei pelo romance, “O ramo de hortências” (1987 – edição própria). Aí resolvi trabalhar em uma biografia sobre Vinícius de Moraes. Tarefa árdua de 4 anos de pesquisas e aprendizados resultando no livro “Vinícius-Sem Ponto Final” (1994-Saraiva). Minha filha nasceu em 1996. Dois anos após pensei em escrever sobre um outro periodo de minha vida: o do casamento com Márcia e o nascimento de Marina, concebida por meio de uma autoinseminação, método até então não experimentado no Brasil, sendo eu o primeiro brasileiro paraplégico a tentá-lo usando o próprio esperma, introduzido na mulher através de uma seringa. O livro: “Velejando a Vida” (1998-Saraiva). Entre pinturas e palestras, fui montando a trajetória musical de Toquinho, meu irmão. Deu em três livros: “Toquinho-40 Anos de Música” (2006), “Toquinho-Acorde Solto no Ar” (2010) e “Toquinho-História das Canções”, em parceria com Wagner Homem (2011-Leia do Brasil)


ASSIS: Você costuma compor música ou letras para música?

JOÃO: Não é comum. Acontece eventualmente, como “Caminhantes”, musicada e gravada por Paulinho Nogueira. “O robô”, “Doce martírio” e “Além do portão”, musicadas e gravadas por Toquinho em diferentes discos.


ASSIS: Outro dia você me falou que tem um ou dois livros inéditos. Quais são e do que tratam?

JOÃO: São dois livros. Um deles escrito em colaboração com a Laramara, associação que cuida de deficientes visuais. O livro conta a história de 10 pessoas deficientes visuais que conseguem conviver e superar suas deficiências de diferentes naturezas enxergando a vida com sabedoria e sensibilidades que vão além da visão comum. Continuo pintando e escrevendo. Nos próximos meses será lançado meu novo livro, “Ser, Conceber, Evoluir...”. Aborda um caso real de uma mulher portadora de Esclerose Múltipla, conseguindo superar a doença com coragem e determinação.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

A VIDA POR JOÃO CARLOS PECCI (1)

Falar com o paulistano João Carlos Pecci é uma alegria. Cabra bom, de boa formação e otimista. É um velejador da vida, do mar. É um dos filhos do casal Nico e Diva. Tem um irmão famoso: Toquinho, compositor e violonista dos bons, conhecido em boa parte do mundo, parceiro eterno do poetinha Vinícius.
Esse João de quem falo é da safra de 42. Em 1965, na PUC, fez o curso de Ciências Econômicas. Sempre foi alegre, despachado. Conhece muita gente, muitos artistas. Sente saudade de Vandré, parceiro de Toquinho (Presença). "Conheci Geraldo Vandré no Guarujá, carnaval de 1968. Ele tornou-se amigo de minha turma, afável, carinhoso, divertido. Disponível em muitos momentos de vários dias. Depois o vi somente em 1976, levado à minha casa por uma amiga. Era um outro Vandré".
Após concluir Ciências Econômicas, João Carlos Pecci enveredou pelo caminho do Direito, mas não foi longe. Um acidente de automóvel, na Via Dutra, mudaria sua vida. Tinha 26 anos de idade. "... Eu cochilei na direção, meu Fusca derrapou dando várias voltas. Em consequência, deu-se uma lesão medular na altura da 6ª vértebra cervical e eu fiquei paraplégico", lembra.
A literatura e as artes plásticas alcançaram João após o lamentável acidente. Já publicou meia dúzia de livros. O primeiro: Minha Profissão é Andar (Summus; 1980). Também lançou à praça um monte de quadros. A geometria é a marca da sua obra. "De 1972 a 1978 expus meus quadros na Praça da República, numa época romântica e artesanal. Depois comecei a expor em galerias e meus quadros passaram a ser valorizados. Hoje os divulgo nas redes sociais recebendo retornos elogiosos e compensadores".
Em raras ocasiões, João também inventa de compor. Tem músicas gravadas por Paulinho Nogueira (Caminhantes) e Toquinho (O Robô, Doce Martírio e Além do Portão).
O sonho, a vontade de fazer coisas move João Carlos Pecci a seguir firme na vida. "Sonhar é renovar caminhos e esperanças. Ai daquele que deixa de sentir o aroma desse perfume...", ele diz.

A partir de hoje e até quinta-feira, os amigos seguidores deste Blog terão a oportunidade de acompanhar a entrevista que fiz com o João.

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João Carlos Pecci e o irmão, Toquinho
ASSIS ÂNGELO: Fale um pouco a respeito dos seus pais e irmãos. Em que bairro de São Paulo você nasceu e quando?

JOÃO CARLOS PECCI: Eu nasci em 1942. Morava no bairro do Bom Retiro, reduto de famílias italianas, na época. Minha mãe, Diva, falecida aos 92 anos. Mulher ativa, doadora para o marido e para os filhos. Não media esforços para dar aos filhos carinho e proteção. Tocava violino, minha mãe, e era uma grande modista. Meu pai, Antonio, conhecido como Seu Nico. Viveu bem e forte até 94 anos. Um homem além de seu tempo. Agregador, liberal, fascinado por livros, música e cinema. Tornou-se até um cinegrafista amador, na época, coisa incomum. Deixou para a família, em filmes, momentos inestimáveis. Fazia de tudo, meu pai. Foi alfaiate, taxista, industrial e empreendedor no ramo imobiliário. Dona Diva e Seu Nico. Ela nos ensinou o amor sem limites. Ele nos ensinou a acariciar as adversidades com ternura; a amenizar as ansiedades com paciência; a buscar os objetivos com determinação; a absorver cada momento difícil para poder vencê-lo com o gosto do prazer. Eles são responsáveis pelos Homens que somos hoje, eu e meu irmão Antonio, nascido em 1946. A música o tomou desde os 13 anos, estimulado pela Bossa Nova e João Gilberto. Abraçado ao violão, tornou-se o Toquinho, violonista, compositor e intérprete, cujas músicas alcançam uma dimensão internacional. Vivemos uma infância livre, o bairro facilitava. Tudo era muito bucólico, apesar de um bairro central da cidade. Brincadeiras de rua, jogo de botão, pipa, rolimã, pega-pega. Em junho, cadeiras na calçada, balão, fogueira, quentão, batata doce. A várzea nos oferecia campos de grama e traves com rede, e o futebol impregnou-se em nós desde crianças, fanáticos pelo Corinthians. Com vários campos à disposição, a vida se abria em lampejos de prazer: nas primeiras corridas atrás da bola, na escolha dos times, no barato de constatar que tinha rede nas traves! Era diferente jogar com rede nas traves. Podia-se vibrar mais ainda nos gols vendo a bola estufá-la e correr pela extensão dela rumo ao chão. Num gol com rede nas traves, parece que a bola desliza pelo coração do jogador fazendo-o pulsar com mais força. Sem rede é como se se esquecesse um poema no fim da última estrofe. E esse poema prosseguia quando nosso pai nos levava aos treinos do Corinthians, na velha Fazendinha, onde podíamos chegar perto dos ídolos da época, Cláudio, Luizinho, Baltazar, Gilmar, e tirar fotos com eles. Mais que irmãos, tornamo-nos amigos e cúmplices em venturas e aventuras pela vida. Hoje, além de meus pais, minha esposa e minha filha, ele é um dos orgulhos de minha existência.
 

ASSIS: Fale um pouco da sua formação.

JOÃO: Completei o curso de Ciências Econômicas na PUC em 1965, com 23 anos. Trabalhava na Philips do Brasil e ao mesmo tempo cursava o 5º ano de Direito na USP, visando exercer uma atividade conciliando os dois setores, Economia e Direito. Mas, em março de 1968, com 26 anos, sofri um acidente na Via Dutra, indo para o Rio de Janeiro. Eu cochilei na direção, meu Fusca derrapou dando várias voltas. Em consequência, deu-se uma lesão medular na altura da 6ª vértebra cervical e eu fiquei paraplégico. Tive de interromper meu trabalho e meus estudos. A vida dava uma guinada de 180 graus...

domingo, 25 de junho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (28)

No final, bem no final dos anos 70, o estudioso da cultura popular Mário Souto Maior escreveu um livro a que intitulou Dicionário do Palavrão e Termos Afins. Prefaciado pelo sociólogo Gilberto Freyre, foi bloqueado à praça pelos milicos. Abençoado pelos ares democráticos, a obra de Souto Maior foi finalmente liberada. Hoje clássica, é referência.

Freyre saúda com entusiasmo o Dicionário do Palavrão. Aqui e ali diz, porém, que faltou algo. Normal. Lamenta que:
"Mário Souto Maior não tenha se valido de maior número de clássicos. Clássicos literários e clássicos da crônica histórica. Matéria que poderia ter colhido não só em Bocage e Guerra Junqueiro, como em Gil Vicente, em Gregório de Matos e em documento valioso do século XVI: as catolicíssimas Denunciações do Santo Ofício. Nestas, o autor deste prefácio, ao elaborar, no começo da década de 30, seu Casa-Grande & Senzala, deparou-se com expressões grosseiras e surpreendentemente obscenas da parte de colonos com aparências de virtuosos. Expressões que registrou no mesmo livro, como 'jurar pelos pentelhos da Virgem' e 'ardor de rabo' ".
Freyre encerra o prefácio que fez para o Dicionário do Palavrão, dizendo:
“O autor do Dicionário evita a pornografria pela pornografia, embora não pretenda entrangular o que é erótico na língua portuguesa do Brasil: o comunicativamente erótico ou o apenas descritivamente erótico. Seria um moralista caturra se se apresentasse, no seu Dicionário, como um antierótico, a exibir repugnância pelo que é vivo e corrente na linguagem mais secreta que aberta, porém de modo algum inexpressiva da sua e nossa gente. Fixa predominâncias regionais. Acentua usos generalizados no país inteiro ou quase inteiro. Revela-se conhecedor tanto de escritores literários — embora algumas deficiências possam ser apontadas nesse setor — como do próprio linguajar plebeu do Brasil. É, assim, um trabalho, este, que faltava aos estudos sociais, folclóricos, semânticos, desde a década de 20 tão em desenvolvimento no Brasil; e tão característicos do afã do brasileiro do conhecer-se cada dia mais a si mesmo e de, cada vez mais, interpretar-se por seus próprios intérpretes.”
Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 24 de junho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (27)

Muito antes de Caju e Castanha, foi proclamado pela crítica um rei da embolada: Manezinho Araújo.
Manezinho Araújo foi quem criou o duplo sentido na embolada. Ele, como personagem, aparece como um traído depois de apanhar de quem lhe levou a mulher. Título: Tadinho do Manezinho.
Também consideradas de duplo sentido são as emboladas do Manezinho intituladas A Mulher e o Automóvel e Cuma é o Nome Dele?
Lá no passado cantores como Chico Alves, Patrício Teixeira, Jorge Veiga e Colé também puseram as unhinhas de fora ao cantarem safadezas.
O pioneiro na temática foi o cantor Manuel Pedro dos Santos, o Bahiano, que em 1902 gravou o lundu Isto é Bom, do ator Xisto Bahia. Saiu no lado A do primeiro disco gravado do Brasil. Começa assim: “A renda de tua saia/ Vale bem cinco mil réis/ Arrasta mulata, a saia/ Que eu te dou cinco e são dez/ Isto é bom, isto é bom, isto é bom que dói…”.
Tão elegante como Chico Buarque e Ney Matogrosso é o repentista pernambucano Oliveira de Panelas. Uma reserva do mundo da Cantoria, com andanças por Portugal, França, Cuba e EUA...
Panelas, de batismo Oliveira Francisco de Melo, é um artista altamente criativo e dono de voz poderosa. Nascido no dia 24 de maio de 1946, Oliveira tem publicados 19 livros, gravados 11 LPs e uma trintena de CDs. Tem músicas gravadas por nomes como Zé Ramalho, Teca Calazans, Flávia Wenceslau e Socorro Lira.
Fora isso, Oliveira de Panelas tem presença em vários filmes, entre os quais Chatô o Rei do Brasil, que trata da história do paraibano de Umbuzeiro Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, chamado de o magnata da Imprensa brasileira.
O brincante Ariano Suassuna tinha por Oliveira verdadeira veneração, tanto que o convidou para se apresentarem nas cantorias que fazia Brasil afora.
Caneta é arma na mão de quem sabe escrever.
Entendo também que palavras são que nem fio de navalha. Quando não mata, machuca.
A nossa língua, a que falamos, é formada por cerca de 600 vocábulos ou expressões. Desse total, há cerca de quatro ou cinco mil palavrões. Talvez um pouco mais. Homens, segundo pesquisa da Preply realizada em março de 2023, falam pelo menos 8,48 palavrões por dia, enquanto mulheres falam 5,35 vezes. Ainda segundo a pesquisa, Brasília lidera como o Estado que mais fala palavrões, empatado com Rio de Janeiro e Fortaleza: cerca de 8 palavrões por dia.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

ESTÃO DESCARACTERIZANDO O SÃO JOÃO

Hoje 23 de junho é o dia de São José Cafasso, padre italiano nascido no começo do século 19. Era chegado a dar conselhos. Todo mundo gostava dele, mas não é dele que quero falar agora. Quero falar de São João.
São João Batista, filho de Zacarias e Isabel, nasceu em Israel num 24 de junho. Virou profeta e como tal anunciou a chegada do Messias, quer dizer: Jesus, seu primo, por ele batizado nas águas do Rio Jordão. Esse santo é o centro dos festejos juninos.
Os festejos juninos herdamos de Portugal, mas custou a pegar e virar uma coisa religiosa bem popular. Só ali pela década de 30 do século 20 é que esses festejos se firmaram entre nós. Porém não custa lembrar que já no século anterior esses festejos já engatinhavam nos salões do Império com a dança da quadrilha. Coisa chique, nobre, da elite. A música era valsa ou polca. O povo vendo aquilo, passou a imitar sem pompas. E aí vieram as fogueiras, milho assado, canjica, pamonha, doces, pipoca, pé de moleque; bandeirinhas, pau de sebo...
O baiano Assis Valente foi quem inventou a marcha junina, gênero inicialmente gravado com algum sucesso por Chico Alves e Aurora Miranda, irmã da portuguesinha Carmen.
Essa história eu já contei neste Blog, em livros, rádio... Ouça: RAÍZES DO BRASIL
É importante que se diga, e se rediga, que coube ao pernambucano Luiz Gonzaga disseminar a marcha e outros ritmos do período junino. O forró, por exemplo.
Uma vez Gonzaga me disse: "Todo mundo me chama Rei do Baião, mas eu sou o rei do forró e da marcha junina; do xote, xaxado...".
Foi Luiz Gonzaga que deu as principais características juninas no campo musical, claro. Mas as festas juninas são mais do que música. É nesse período, quer dizer em todo o mês de junho, que esse tipo de festa é comemorado com muita alegria, especialmente no Nordeste. No entanto, um detalhe: está havendo uma rápida descaracterização nesses festejos. Ouça o que diz a paraibana Elba Ramalho: https://youtu.be/wZn7CD6DYLE
Realmente não parece ser de bom alvitre não ter em uma festa de São João artistas do naipe de Biliu de Campina e Alcymar Monteiro. Concordo com Elba. E concordo também quando ela diz que "No céu cabem todas as estrelas".
Pessoalmente, não sou chegado a rock e nem a música sertanoja. Também não gosto dessas coisas chamadas de pisadinha, funk, mas respeito quem faz e quem goste.
O escritor Onaldo Queiroga também é da linha do bom gosto. Defende a tradição junina. Ele: "A importância desses festejos está na manutenção da tradição, se fugir desse formato passará a ser um festival, pode até alcançar públicos enormes, mas não será São João".
O forrozeiro Flávio José, que conheço de perto e sei do seu talento, foi contratado para cantar uma hora e meia no São João de Campina Grande. Perfeito. Mas antes de abrir o fole, alguém se aproximou dele e disse: "Você só vai tocar uma hora e dez minutos". Ouça Flávio:



LEIA MAIS: A MELHOR FESTA DE SÃO JOÃO É AINDA NO BRASILVIVA SÃO JOÃO!LUIZ GONZAGA E SÃO JOÃO

FORRÓ NA LUA

Pra quem está fora de Campina Grande, apresento esta composição que Jorge Ribbas e eu criamos. Confira: https://youtu.be/kHNTKvQuphU

LULA ARRASA NA FRANÇA

Num tempo não muito distante, dizia-se que fulano "está botando pra quebrar!". Isso quando alguém estava a fazer algo positivo, com firmeza. 

Num tempo mais distante, dizia-se que fulano "está mandando brasa!". Isso tal tal e tal.

Por estes tempos atuais diz-se que fulano "arrasou!" ou "está arrasando!".

Pois é, com as bênçãos do papa Francisco,  Lula deixou o Vaticano e desembarcou hoje 23 num Palácio em Paris para participar de um encontro reunindo pelo menos uma centena de chefes de Estado. A ideia desse encontro,  promovido pelo presidente francês Emmanuel Macron, é fechar um pacto financeiro global que tem por base a preservação do meio ambiente e coisa e tal. De repente totalmente de improviso, Lula sacou da cachola um discurso dizendo que é preciso acabar com as desigualdades no mundo.

A fala do presidente brasileiro provocou espanto geral. Disse ainda que não basta preservar o meio ambiente e todo mundo respirar bem, pois ainda assim o povo continuará morrendo de fome.

Ao espanto multiplicaram-se os aplausos.

No seu discurso improvisado Lula disse que não adianta apenas cuidar do clima se não se cuida das necessidades humanas, ressaltando a necessidade de se acabar com a miséria. Disse, com a firmeza de quem conhece as coisas que "os políticos só lembram do povo nas eleições".

E muito mais disse Lula.

Com certeza o presidente brasileiro fez um discurso histórico. 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

TUDO PELO BEM DO MUNDO!

O Lula está apresentando, ou reapresentando o Brasil ao mundo. Há quem o critique por isso, mas quem o critica por isso precisa rever a crítica.
O governo anterior deixou o Brasil bambo, de pernas quebradas, o corpo torto.
Ontem 21 o papa Francisco recebeu, mais uma vez, o presidente Lula. Com ele, a mulher Janja. Foi um encontro demorado e rico de ideias.
É preciso que todos os governantes pensem na paz e no povo, caso contrário o mundo pode explodir.
Durante o encontro, Lula presenteou o papa com uma obra do pernambucano de Bezerros J. Borges. Título: A Sagrada Família.
 Janja, por sua vez, presenteou o pontífice com uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira da Amazônia. 
No papo com o Papa rolaram temas de importância fundamental, como a preservação do meio ambiente e a Amazônia. 
Claro que nós, brasileiros, ficamos orgulhosos com isso.
J. Borges, de batismo José Francisco Borges, é nome muito conhecido pelo trabalho que faz no campo da cultura popular. Nasceu em 1935. Suas gravuras exibidas mundo afora enriquecem também obras de autores brasileiros e estrangeiros, entre os quais Eduardo Galeano (1940-2015).
A cultura popular representa com clareza e beleza o Brasil dos brasileiros.
O papa Francisco presenteou Lula com um quadro em bronze, feito no Vaticano. Nesse quadro lê-se: "A paz é uma flor frágil".
Sobre cultura popular, ouça o que um dia  mestre Câmara Cascudo me disse:



LEIA MAIS: O VELHO QUE SABE TUDO

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