Seguir o blog

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

DORNELES, É O CARA 

Meus amigos, minhas amigas, estou feliz, hoje, que nem um passarim diante de um saco de alpiste. Esse saco de alpiste, perdoem-me os precipitados, tem o nome bonito e mágico de origem portuguesa, Manoel.

Esse Manoel, por completo, é Manoel Dorneles.

Esse Manoel é paulista de um lugar chamado São José do Rio Pardo, cidadezinha bela que fica a 300 quilômetros da capital de São Paulo. 

Meus amigos, minhas amigas, a minha casa fica mais bonita e cheia de alegria quando esse Manoel cá chega. É jornalista. Trabalhamos juntos no Grupo Folhas. Figura incrível, maravilhosa, que sempre soube desenvolver com categoria a profissão que eu assumi no final dos anos 1960. 

Dorneles foi demitido no final da greve, a primeira e única até agora, dos jornalistas de São Paulo, dois anos antes de mim.

E a vida foi, foi, foi...

E o tempo, que ninguém segura, foi nos levando pra lá e pra cá, porém, nunca nos perdemos.

Dorneles tem uma deusa chamada Silvana Lima.

Silvana é daquelas mulheres que encanta quem dela se aproxima nos momentos mais simples, como num bate-papo sobre coisas banais. Ela é engraçada, ri, e nessa brincadeira faz de conta, ela sabe, que quem está junto dela a conhece há muito tempo.

É uma jovem, 40 anos, que sabe de ontem e de hoje, até porque não é à toa que tem por pai, José e Flor.

Seo José, a mim foi dito, é tão grande como o pensamento e ações de dona Flor.  Deus, é bonito, isso eu sei desde o tempo de ontem.

Dorneles tem a minha idade.

Quanta coisa bonita fez esse Manoel Dorneles no campo do jornalismo. No campo das artes.

Fico eu, mais do que pedindo, mais do que sugerindo, que publique uma belíssima série de entrevistas com artistas brasileiros, que fez quando era editor da extinta e belíssima Revista Kalunga.

De novo, agora, Dorneles, toma vergonha na cara e procure publicar em livro as belíssimas entrevistas que você fez com amigos meus, como Rolando Boldrin, Inezita Barrozo, Jair Rodrigues, Sérgio Reis, Pena Banca e Xavantinho e tantos.

Meus amigos, minhas amigas, quem sabe um dia eu apresentarei a vocês esse cara chamado Manoel Dorneles.

   .  

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (161)

Machado de Assis

Viúvos e viúvas abundam na literatura nacional e estrangeira. Não são poucos os autores que criam esses personagens. Nesse campo, Machado de Assis deitou e rolou. No seu último livro, ele põe um viúvo e uma viúva no romance Memorial de Aires (1908).

Aires, depois de se aposentar e de perder a mulher, decide contar a sua própria história num diário. E vai, vai e chegam na sua vida a viuvinha Fidélia e um jovem que ao vê-la logo se apaixona. E é correspondido, para tristeza do velho conselheiro.

Viúvos e viúvas aparecem bastante nos escritos de Machado, como se vê.

É dele a história curiosíssima que conta O Caso da Viúva. Nesse conto, o pai da personagem Luísa, viúvo, mora com uma irmã também viúva. Luísa, muito recatada, faz tudo o que o pai pede e vice-versa. É aí que aparece um tal de Dr. Rochinha, ou simplesmente Rochinha. Em seguida, mais um cara: Vieira. Com Vieira ela se casa, pra desencanto de Rochinha. Mas Vieira morre e Luísa fica viúva…

Também é de Machado o conto Confissões de Uma Viúva Moça. Nessa história a viúva atende pelo nome de Eugênia. Antes de o marido falecer, a personagem estica olhares para o moço Emílio. E vai, vai, vai… De repente Eugênia descobre que Emílio é um canalha. E mais não digo.

E não custa lembrar que o Bruxo do Cosme-Velho, como era chamado na intimidade Machado de Assis, ficou viúvo depois de 35 anos de casado com a mulher a quem tanto amava: Carolina.

Ele não era brinquedo, não. E foi não foi, lá vem ele sempre surpreendendo os leitores. Enganando, às vezes.

No conto A Mulher de Preto, ele dá um nó no leitor. De cara pensamos que essa mulher é uma viúva, pois trajada costuma andar de preto. E não é viúva de ninguém, apenas o seguinte: o marido Menezes, um deputado, desconfia que ela o traía.

Num momento qualquer desse conto de 11 capítulos, aparece um médico chamado Estevão, tem 24 anos e apaixona-se pela tal mulher de preto. Hmmm… Nada digo mais.

A sempre extraordinária Júlia Lopes de Almeida nos encanta já no seu primeiro livro, Memórias de Martha. Em Memórias de Martha, a Martha do título é filha de outra Martha, essa viúva. Sofreu com a acusação de roubo que o marido sofreu. Acusação injusta, mas que levou o marido de dona Martha ao suicídio.

A personagem narradora desse livro, de pouco mais de 100 páginas, é a filha do pai suicida. Ela conta todas as dificuldades que ela e a mãe passaram depois da tragédia. As duas deixaram a casa onde moravam e, sem escapatória, foram habitar um cortiço. Sofreram muito. Preparem o lenço, pois a história leva as almas mais sensíveis às lágrimas.

Memórias de Martha foi originalmente publicado em capítulos no jornal Tribuna Liberal do Rio de Janeiro, entre 3 de dezembro de 1888 e 17 de janeiro de 1889. Em livro saiu exatamente dez anos depois.

No Memorial de Maria Moura (1992), da cearense Rachel de Queiroz, a personagem do título encontra a mãe pendurada numa corda, morta e se desespera. Uma das razões de seu desespero é o fato de que as terras que herda estão sendo tomadas por familiares, incluindo o padrasto Irineu, que a estupra. A heroína sofre e vai-se embora construindo seu destino recheada de ódio, perseguição e violência. Pode-se-ia até dizer que Moura é a versão feminina do rei do cangaço, Lampião.

Memorial de Maria Moura foi o último livro de Rachel. Livraço!

Em 1982, o português José Saramago passou a ser mundialmente conhecido por seu magnífico romance Memorial do Convento. A história se passa na primeira metade do século 18, no decorrer do reinado de João V.

Esse João era metido, vaidoso, galante e tudo mais. Casou-se por procuração com a Maria Ana de Áustria, mulher nascida para rezar e parir. Deu seis filhos ao rei.

Além dos filhos que a rainha lhe deu, o rei teve muitos outros filhos com amantes diversas. Entre as amantes, uma certa freira que foi por ele embuxada todas as vezes.

O rei faz uma promessa de construir um grande convento caso a sua querida esposa lhe desse filho no prazo de um ano. Deu-lhe uma menina: Marina Xavier. A partir daí, a história segue a passos largos com personagens reais.

Sobre essa figurinha poderosa de Portugal há um livro que merece leitura: As Amantes do Rei João V, do escritor portuense Alberto Pimentel (1849-1925). 

Pouco ficcional é o personagem Baltasar que perde a mão esquerda em guerra na Espanha. Abandonado pelo exército o personagem volta pra casa e um dia encontra uma mulher de nome Blimunda.

Blimunda, filha de uma mulher posta pra correr pelo santo ofício, é vidente. Ela vê o interior dos corpos humanos. É apelidada de Sete Luas e o seu Baltasar, de Sete Sóis.

Na parada entra também o brasileiro de Santos Bartolomeu de Gusmão (1685-1732). É padre, com passagem na Bahia. Foi o primeiro cientista e inventor cá desta nossa terrinha de meu Deus do céu. Entrou para a história como o Padre Voador.

Essa história de Saramago é maravilhosa.

Domingos Fernandes Calabar

A propósito de voador, há a história de um boi que voou durante a inauguração da Ponte do Recife, ora ainda chamada de Ponte Maurício de Nassau. Não é lenda.

Essa ponte foi inaugurada no dia 28 de fevereiro de 1644. Milhares de pessoas estiveram presentes e, como prometido, um boi empalhado foi visto nos ares de Recife.

Tal boi ganhou páginas de um livro do frei português Manuel Calado do Salvador (1584-1654). Título: O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade na Restauração de Pernambuco, lançado em 1648.

Frei Calado foi o confessor do alagoano Domingos Fernandes Calabar (1609-1635), acusado de trair a Pátria em favor dos holandeses que invadiram o Brasil em 1630. Condenado, o acusado foi enforcado e o seu corpo esquartejado.

Em 1973, Chico Buarque e Ruy Guerra escreveram a peça Calabar O Elogio da Traição. Essa peça foi censurada pelos milicos no dia 22 de janeiro de 1974.

O resto é história.


Foto e ilustrações por Flor Maria e Anna da Hora


domingo, 19 de janeiro de 2025

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (160)

Essa história de juntar uma coisa com outra, no caso aí uma cabeça com o corpo de pessoas diferentes é algo, na realidade, impensável. Na ficção, porém, tudo é possível. Na ficção, eu disse.
Ignácio de Loyola Brandão
Claro que na medicina a ficção parece estar se tornando realidade. 
Há casos confirmados dando conta de que humanos já têm substituído braços e pernas mecânicos. Até cabeças humanas já tentaram e continuam tentando transplantar de um corpo para outro. Com chips e tudo mais.
RoboCop é um personagem meio humano, meio máquina, que ganhou repercussão internacional na TV e no cinema. 
Num campo mais amplo, além da Terra, há muito se cogita a existência de seres chamados, grosso modo, ETs, OVNIS...
Há muitos estudos sobre o assunto desde tempos imemoriais. 
Não é de hoje que todo mundo diz que os gringos norte-americanos sabem muito mais do que nós, pobres mortais, nem sonhamos saber, pelo menos no campo científico e tal.
Sobre esse assunto, existe um seriado chamado Arquivo X (1993).
O suiço caçador de mistérios interplanetários Erich von Däniken, autor do best-seller Eram os Deuses Astronautas?, disse acreditar piamente na existência de seres vivos espalhados galáxias mundo afora. Eu o entrevistei. Disse ele que não estamos sós no Espaço. Hmmm…
Em nome da ciência, muita bobagem tem sido feita, inclusive no que tem a ver com safanagem.
Monteiro Lobato
Em junho de 1903, o escritor taubateano Monteiro Lobato (1882-1948), sob o pseudônimo Lobatoyewscky, escreveu um conto a que intitulou Rubis.
Nesse texto, Rubis são os biquinhos do peito de uma virgem, durinhos. O personagem Paulo dialoga com a prima Lúcia, convencendo-a a mostrar, em nome da ciência, seus peitinhos duros e lindinhos.
Na sua doçura adolescente, Lúcia cai na onda do seu primo e mostra tudo o que ele quer ver e apalpar. No momento X chega a vovó quase cega de Lúcia. E espantada pergunta: “Minha filha! Tudo bem!?”.
Uma coisa puxa outra.
Pois, pois: no decorrer da sua existência, Coelho Neto abordou temas sobre homossexualidade e tal. Provocou polêmica. E muita.
No conto O Patinho Torto, ele faz ligação inversa do que fez Christian Andersen (1805-1875) com O Patinho Feio. 

Na sua história, Neto conta que uma mulher deu à luz a uma criança no mesmo dia em que morria o seu marido. A mulher entrou em parafuso, em depressão, quase ficando doida. A criança foi crescendo, crescendo pelas mãos de uma babá que aos poucos ia transformando o seu comportamento de menino numa menina, como desejava a mãe. 
A mãe do menino queria uma menina, mas deu zebra. E aí…
Essa história ganhou formato impresso em 1924. Quatro décadas depois foi encenada pela primeira vez em outubro de 1964, no Teatro Nacional de Comédia, RJ. E, em 2001, ganhou espaço na série Brava Gente (Globo).
Como jornalista, Coelho Neto começou a carreira num jornal de José do Patrocínio, de quem se tornou amigo. Usou muitos pseudônimos, entre os quais Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur e Manés.
Em 1923, Coelho Neto conheceu o escritor português Júlio Dantas (1876-1962).
Neto e Dantas tornaram-se amigos de infância.
Dantas é autor do interessantíssimo livro A Conquista. 
Os personagens que transitam nas páginas desse livro são reais denominados, porém, por nomes como Anselmo Ribas, Rui Vaz, Paulo Neiva e Octávio Bivar, respectivamente, Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Paula Ney e Olavo Bilac.
O título do livro é uma referência à vitória dos abolicionistas.
Casado, Coelho Neto foi pai 14 vezes.
Também por 14 vezes foi pai o poeta simbolista de Minas Alphonsus de Guimarães.
Os poemas de Alphonsus tratam de religião, amor e morte. Seu personagem mais conhecido é Constança, dedicada à uma prima por quem se apaixonara e que morrera aos 17 anos de idade.
Alphonsus era casado com uma filha do romancista Bernardo Guimarães, autor do livro A Escrava Isaura.
A história em todos os tempos é longa e a tendência é se alongar cada vez mais. 
O movimento modernista de 22 foi ingrato com Coelho Neto e Lima Barreto.
Injustiçado como Coelho Neto, foi o inspiradíssimo escritor Júlio Dantas.
Júlio Dantas
Dantas deixou pelo menos 40 livros publicados, incluindo poesia, romance, história. É dele a peça de teatro A Severa. É dele também a peça Sóror Mariana e A Ceia dos Cardeais.
A Ceia dos Cardeais continua sendo encenada mundo afora até hoje, nas línguas mais diversas.
Em 2011, essa Ceia foi apresentada no Theatro Municipal de São Paulo. 
Ceia por ceia, bobagem, pois histórias surgem e seguem quase sempre de modo incomum, aqui e alhures.
Há histórias simples e complexas, reais e inventadas. Reflexivas…
Do nada, Machado de Assis inventava histórias reais.
Do nada também há quem crie ficção do real.
A cada história que traz à tona, o escritor paulista de Araraquara Ignácio de Loyola Brandão se supera. Seus livros são todos bons, desde Zero lançado em 1971 na Itália e aqui proibido pelos milicos de plantão. 
No conto Obscenidades para uma Dona de Casa, Brandão deixa o leitor babando. E quanto mais lê, o leitor baba. Muito bom. Trata de uma mulher que passa a receber cartas obscenas de um desconhecido. No começo ela não quer saber de nada, mas com o passar dos dias vai se envolvendo chegando ao desespero quando a carta demora pra chegar. E mais não digo.
Curiosidade: até o fim de 2024, Brandão havia escrito e publicado o espantoso número de 8 mil crônicas. Foi o que me disse.
Em 1980, Ignácio de Loyola Brandão havia publicado apenas oito livros. Até 2024, ele contabilizava exatos 58 títulos publicados em francês, italiano, alemão e outras línguas mais.
Loyola Brandão é membro da Academia Brasileira de Letras, ABL, desde 2019. A cadeira que ocupa é a de número 11.
Machado de Assis conta num conto o caso de uma mulher casada que passa a receber cartas anônimas. Nessas cartas a pessoa que as manda sugere de forma incisiva que a destinatária pare de trair o próprio marido e de atacar os maridos alheios.
São muitas as cartas anônimas que a suposta adúltera recebe. Uma dessas cartas, é interceptada pelo marido que até então de nada desconfiava. 
O caso cá em pauta não termina bem. 
Ah! Sim: ia-me esquecendo que há uma viuvinha nessa história do bruxo.
Digo com certeza que Machado de Assis foi o escritor  que mais criou personagens viúvas na literatura brasileira. Dezenas e dezenas. Começa já no seu primeiro romance, Ressurreição (1872), segue em A Mão e a Luva (1874), em Helena (1876) e, entre outros mais, Memorial de Aires (1908).

Foto e ilustrações por Flor Maria e Anna da Hora

 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (7)


O romance A Mão e a Luva, do bruxo Machado, foi originalmente publicado no formato de folhetim entre 26 de setembro e 3 de novembro do ano de 1874, no jornal O Globo de Quintino Bocaiuva. No mesmo mês de novembro, o folhetim foi à praça como livro. 

Conta a história de uma órfã de pai e mãe, Guiomar, adotada pela madrinha baronesa.

Baronesa não tem o nome revelado, aparece simplesmente como uma mulher detentora de título nobre. Viúva e rica.

Tinha 17 anos de idade Guiomar quando foi adotada pela caridosa baronesa, que acabara de perder a única filha.

Conta o narrador que Guiomar é belíssima e de uma inteligência fora do comum. Carismática, a menina pôs na cabeça que tinha de ascender à sociedade com categoria e brilho. E com grana na bolsa. 

Dois marmanjos disputavam a pau o coração de Guiomar. Um deles, Jorge, vivia torrando a fortuna que herdara dos pais. Era preguiçoso e sem iniciativa. O segundo, Estevão, era um melancólico cidadão. Não tinha vontade de crescer no meio social. Ramerrão. Eram os dois advogados. 

De repente, e não mais do que de repente, aparece um terceiro personagem no jogo: Luís Alves.

Luís era também advogado e foi ele quem apresentou Estevão a Guiomar. Apresentação formalíssima, mas suficiente pra deixar o mancebo arriado dos quatro pneus. Isto é, a-pai-xo-na-dís-si-mo. E ela ó, nem nem.

Jorge, o sem valia dos infernos, era protegido da baronesa. 

Jorge terminou caindo nas graças da governanta inglesa da baronesa, Mrs. Oswald. 

Bom, a história vai vai até que Jorge pede a sua protetora licença pra se casar com Guiomar. 

E mais não digo, ora! A não ser que Estevão remoe a perda do coração que não ganhou e pensa seriamente em se matar.

Pois, pois.

Suicídios e tentativas de suicídio são facilmente encontrados nas páginas dos pequenos e grandes romances. 

No belíssimo A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, o personagem principal Simplício chega a subir o Corcovado e a pensar em atirar-se lá de cima para subir ao céu. Hummm...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (6)



A Intrusa de Júlia Lopes de Almeida tem um fim feliz, como se viu.

Fim diferente tem Helena, personagem homônima de um dos primeiros romances de Machado de Assis. 

A história começa com a morte repentina do Conselheiro Vale, viúvo e irmão de Úrsula.

Úrsula é uma virgem irredutível beirando os sessenta. Durona e respeitável. Mora com o  sobrinho, Estácio. 

Tudo se passa entre 1850 e 1851.

O Conselheiro deixou boa fortuna e apenas um filho.

No testamento deixado pelo finado havia uma cláusula obrigando os herdeiros a compartilhar os bens com uma adolescente cujo nome era Helena, que vivia estudando num convento.

O Conselheiro declarava-se no testamento como pai da menina e que os herdeiros se viam obrigados a acolhê-la como tal.

A notícia caiu como uma tempestade, deixando Úrsula transtornada.

Um dia, Helena chega. É linda, discreta e muito inteligente. 

Estácio fica atarantado. Seu coração parece querer saltar pela boca. Encurtando: Estácio apaixona-se perdidamente por Helena. 

Incesto à vista?

O Conselheiro tinha como um dos seus grandes amigos o médico Camargo.

Camargo era um cara muito influente na sociedade do seu tempo. Era ambicioso e queria porque queria que sua filha única Eugênia se casasse com Estácio. Chegaram a noivar. 

Num determinado dia, bate a porta de Estácio o amigo Mendonça. 

Mendonça depressa apaixona-se por Helena. 

E paro por aqui deixando perguntas.

Quem casa com quem?

Quem herda o quê?

E quem é Salvador, personagem que só agora cito?

Na obra do bruxo do Cosme Velho tudo tem significado, nas entrelinhas ou não. 

Esse romance, o terceiro de Machado, foi publicado originalmente na forma de folhetim entre agosto e setembro de 1876, no jornal O Globo. Na origem o título era Helena do Vale. Em outubro desse mesmo ano, o livro foi publicado com o título simplesmente de Helena.

Dica aos navegantes: o aqui referido jornal O Globo foi fundado por Quintino Bocaiuva e durou até o ano de 1883. Era do Rio. 


sábado, 11 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (5)



Claro que é claro que Joana é uma intrusa na casa do viúvo João Batista, um cara rico até não querer mais e altamente benquisto entre os seus do seu tempo. 

Joana chegou à casa de João depois de ler um anúncio de jornal oferecendo a posição de governanta à mulher que aceitasse a convocação. 

Os dois personagens aí citados são protagonistas de um conto de Machado de Assis. 

Enredo parecido escreveu Júlia Lopes de Almeida, sob o título A Intrusa.

Essa história a autora publicou, na forma de folhetim, no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro. Isso no correr de 1905. Três anos depois A Intrusa ganhou formato de livro. 

Júlia inventou no seu enredo a história de uma jovem brasileira que desenvolvia estudos em Paris. Foi quando, derrepentemente, a jovem recebe a notícia de que ficara órfã. Àquela altura, de pai e mãe. 

A jovem, Alice,  teve de voltar ao Brasil e no Brasil procurar meios para se manter. Foi quando, já no Rio, folheando um jornal deparou-se com anúncio dando conta de um viúvo que precisava de uma governanta para cuidar da filha Maria da Glória, criança de uns 8 anos.

Alice apresentou-se e foi atendida pelo tal viúvo, de nome Argemiro.

Argemiro era um importante empreendedor, rico e desejado pela mulherada.

Pra ganhar o emprego, Alice teve de aceitar a condição de nunca apresentar-se e falar diretamente com o contratante.

A jovem órfã deu conta do recado, de modo que findou a encantar o viúvo que jurara a sua moribunda esposa que jamais voltaria a se casar.

A sogra de Argemiro, a baronesa Luíza, irritou-se e fez o maior escarcéu quando soube da nova presença feminina na casa do genro.

No ferrenho propósito de pôr a correr Alice, a baronesa fez-se aliada de um escravo. 

A menina Maria da Glória passou a gostar de Alice como ninguém. Resultado: superando a todos os obstáculos, Alice e Argemiro casaram-se e foram felizes para sempre.

Esse conto Júlia escreveu quase 30 anos depois de Machado ter escrito A Melhor das Noivas. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (4)



Joana e Lucinda disputavam a pau o coração do viúvo João Batista. 

Joana tinha 38 anos de idade quando atendeu a um anúncio de jornal para trabalhar numa casa como governanta. Era decidida e convictamente virgem. Nesse ponto, agia com total discrição. Parecia feliz.

Lucinda era mais nova de idade do que Joana. Casou-se com 17 anos, por exigência do pai. O seu par era um oficial da Marinha lá do lugar onde nasceu. Ficou viúva aos 28 anos de idade.

Joana logo ganhou a confiança de João, o autor do anúncio no jornal. 

João era um viúvo podre de rico. Tinha dois sobrinhos que não viam a hora do tio bater as botas.

Essa história classificada como conto, A Melhor das Noivas, foi publicada no Jornal das Famílias em 1877. O autor, Machado de Assis. 

As noivas nessa história referidas, não eram formalmente noivas.

Joana era uma pobre diabo, sem eira nem beira nem lugar sequer pra cair. 

Lucinda, por sua vez, era uma remediada de classe média. Seu sonho era brilhar nos salões das noites burguesas. Joana, ao contrário, sonhava ter apenas as atenções de João, como mulher. 

A obra de Machado de Assis é, basicamente, um espelho da sociedade canalha que tão de perto observou e viveu. Politicamente, Machado pode ser hoje entendido como um intelectual de esquerda. 

Os sobrinhos de João Batista ficaram a ver navios. 

Lucinda, que apostou o que não podia, ficou só, pois não deu certo o plano que engendrara: casar-se com o viúvo João, setentão e dele herdar a grana com a qual realizaria seu desejo de ser estrela nas noites de frivolidades. 

Ah! Sim: João Batista casou-se com Joana e com ela foi feliz durante 200 anos, pelo menos...

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (3)



Nos tempos de ontem e de hoje, dificilmente encontra-se registro de moço rico casando-se com moça pobre. 

Moça rica dificilmente registra a história que aja-se casado com moço pobre. A não ser nos contos de fada.

Na vida real o fato é o que aí está dito.

Na vida dita ficcional, a coisa é outra. Isto é, mais ou menos. 

Sabemos que a realidade facilmente é transportada para a ficção. É quando o real se mistura com o irreal.

Pois, pois. 

O Bruxo de Cosme Velho, como era chamado Machado de Assis, em 1866 publicou no Jornal das Famílias o conto  A Pianista. 

A história trata de uma belíssima e simples jovem de 22 anos, chamada Malvina.

Malvina era órfã de um rábula. 

Pobre, mas muito educada e decidida a seguir em frente cuidando da mãe, dando aulas particulares de piano. Uma das suas alunas, Elisa, era filha de um sujeito riquíssimo de nome Tibério Valença. Esse tinha, além de Elisa, um filho de nome Tomás. 

Dito o que já foi dito, acrescente-se: o ricão aí queria para o filho e a filha altos e boníssimos partidos. Estava tudo pronto. Pra Elisa, um deputado do Norte com o bolso cheio de grana e um futuro brilhante de ouro. Com o tal ela casou-se.

O perrengue nessa história é que Tomás tomou gosto pelo comportamento e boniteza de Malvina. Quando o pai soube disso, despenteou-se dando socos no ar. Ameaçou deserdar o pimpolho. 

O finalmente é o seguinte: Tomás juntou-se a sua amada, casando-se modestamente. O pai foi convidado, mas nem nem.

Na realidade, como na ficção, nada melhor do que um dia depois do outro. 

Num determinado momento, Tibério cai de cama com febre de mil graus. O médico fica doido. Malvina sabe da coisa e se oferece para cuidar do sujeito. Com o passar dos dias o doente retoma a vida. E assim, o tal cai na realidade e vê que dinheiro não é tudo.

Amor e solidariedade curam, pois não?

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (2)



Ao contrário de Duarte, um cara que nasceu pobre e que lutou para ficar rico e depois milionário, Falcão nasceu pobre e virou milionário já ali na casa dos 40 anos. Seu prazer era fartar-se a ver a montanha de dinheiro, ouro e títulos. Gastava só o extremamente necessário. 

Duarte é um pai dedicado e bem casado. Depois de trabalhar muito e ganhar o que queria, satisfazia-se em ajudar amigos necessitados.

Duarte é cria do escritor José de Alencar. 

Falcão é cria do escritor Machado de Assis e personagem central do conto Anedota Pecuniária.

A história aqui começa em abril de 1870, com Falcão andando pra lá e pra cá dentro de casa. Uma casa simples, de poucos cômodos. A cama em que dormia não era fofa. 

Solteiro, ao chegar aos 45 de idade Falcão passou a sentir falta de um filho ou uma filha. Mas aí já era tarde. A sorte é que o personagem recebeu a incumbência de criar uma sobrinha de 11 anos cuja mãe morrera. 

A menina, Jacinta, logo apegou-se a Falcão e Falcão a ela. 

O tempo foi passando e, com 13 anos de idade, a menina já tomava conta da casa. Aos 17, era já como se fosse a dona. É quando chega um gavião...

Chico Borges era um cara que tinha grana e era amigo de Falcão com quem, aliás,  matava parte do tempo noturno jogando cartas. Sem dinheiro na parada. 

Um dia Falcão procura Chico para oferecer um negócio envolvendo títulos bancários. Falcão já esperava faturar uns 30 ou 40 contos. Chico respondeu que iria lhe fazer proposta idêntica. 

A história segue. E o detalhe é que Chico estava de olho crescido na figura de Jacinta. 

Chico e Jacinta terminam juntos, casando-se. Pra isso porém, Chico ofereceu um negócio a Falcão, que sem titubear aceitou. Era negócio envolvendo grana, tenso como objeto Jacinta.

O tempo, no seu movimento incessante, continuou a passar.

Um dia, Falcão recebe em casa mais uma sobrinha órfã. Linda, nos seus 17 anos, Virgínia chamava fácil, fácil a  atenção de todos. 

Um dia, a menina recebe a carta de um jovem admirador. Vem dos EUA.

A carta cai nas mãos de Falcão, que já fica todo ligado.

Reginaldo é o cara que está chegando dos EUA trazendo na bagagem 300 mil dólares e uma coleção de moedas de vários países. 

Encurtando a história: Falcão encontra-se com Reginaldo, que nem precisa pedir a mão da bela Virgínia. O motivo disso, dessa rapidez,  é que Falcão aceita de bom grado a coleção de moedas estrangeiras que lhe fez brilhar os olhos.

O castigo, alguém já disse, anda a galope: as moedas estrangeiras da coleção que tanto encantou Falcão eram falsas.

domingo, 5 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (1)



Data de muito tempo o surgimento do casamento como trato, contrato e instituição social que junta duas pessoas para viverem juntas o tempo todo até que um dos dois morra, segundo o combinado perante o que se chama "lei divina".

O trato ou contrato entre duas pessoas ocorre quase sempre por interesse pecuniário. Hoje nem tanto, mas no passado era algo mais do que comum.

A realidade de casamentos por interesse aparecem o tempo todo na literatura de época. 

Em 1875, o cearense José de Alencar pôs à praça Senhora, romance que se tornaria clássico do gênero. 

O enredo de Senhora gira em torno de uma órfã, Aurélia Camargo. 

Aurélia, é cuidada por uma parente chamada Firmina.

Firmina é viúva e muito dedicada à Aurélia. 

Aurélia, ainda muito jovem, arrastada as asas para um alpinista social chamado de Fernando Seixas. 

Seixas troca Aurélia por uma garota de família de posses. Seu dote seria de 30 contos. 

De uma hora pra outra, Aurélia recebe uma herança de uns mil contos, ficando rica derrepentemente e, assim, desejada pelos caçadores de fortuna fácil. É quando surge na sua cabeça privilegiada, pois inteligentíssima que é, a ideia de vingar-se do namorado interesseiro, cuja mãe viúva vive com simplicidade criando duas filhas. Em suma: Aurélia tem êxito no seu intento e...

Depois de se casar com Seixas, comprando-o por um dote de 100 contos, Aurélia dá-se por feliz. 

E qual será o fim dessa história?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

EU E MEUS BOTÕES (76)

Olá pessoal, tudo bem?

Fui eu perguntando e, em uníssono, meus queridos botões levantaram-se batendo palmas. E disseram, juntos, "Tudo bem, mestre!".

Que coisa é essa de mestre?

Zilidoro, sem segurar o riso, por todos respondeu: " É que a gente ouviu por aí que o sr. foi premiado com, vá lá, um negócio chamado Mestre da Cultura Popular".

"Realmente, vimos isso em algum lugar", disseram juntos os amigos Bil e Barrica. "Me-re-ci-da-men-te", aplaudiu Zoião, logo interrompido por Lampa: "Para de puxar o saco, cara".

Bem, pessoal, eu trouxe aqui uns amigos para lhes apresentar. Este aqui é o músico e roteirista Magrão. Este aqui é maestro, dos bons. Representa o Brasil, mundo afora, há muito tempo. E aqui temos a jornalista Cilene Soares. É sabidona. Emprestou o seu talento à TV Globo, TV Bandeirantes e à TV do sistema SESC. 

"Há muito tempo o Assis fala de vocês. E bem", foi falando fácil o artista da nossa boa música Magrão. 

Eu da minha parte, foi dizendo Cilene "Sinto-me bem aqui com vocês, como certamente diria o cantor Nelson Gonçalves".

A referência feita a Nelson deve-se ao fato de ele ter gravado uma música, um samba, com esse título. Foi a primeira da sua longa discografia desenvolvida na extinta gravadora Victor. Isso aconteceu numa tarde de março de 1941.

"Bom, aqui estou", disse o maestro Marcos Arakaki. 

O maestro contou da trajetória que tem trilhado no espaço musical de concerto. Antes de gabaritar-se como regente de orquestras, Arakaki formou-se em violino. Em 2001, acrescentou, "Ganhei um concurso musical denominado Eleazar de Carvalho".

Pois é, pessoal, essas são as pessoas que eu tenho o prazer de trazer a esta casa.

"E cadê a dona Flor Maria, seu Assis?", foi dizendo sem gaguejar e afoitamente, o desabrido Lampa. 

Respondi a pergunta prometendo trazer em breve a dona Flor. Agora, é o seguinte: estou notando que há duas pessoas a mais nesta casa.

Lampa,  de repente, levanta-se num pulo e diz que um dos desconhecidos é amigo seu. "O Fuinha é gente boa, corajosa e sem papas na língua".

Pedi que Fuinha se apresentasse. Ele: "Eu sou da terra de Ariano Suassuna, de Taperoá, sertão paraibano. Toco viola, toco sanfona e toco também pau na cabeça de quem não presta".

Todos caíram na risada, até mesmo o sempre desconfiado e sisudo Lampa. Antes que eu pedisse que a outra figura aqui chegada se apresentasse, Zilidoro levantou a mão e disse: "Seu Assis, o Pitoco é um amigo de infância. Gosto muito dele. Perdeu o pai numa emboscada, no interior de Pernambuco. Filho único. A mãe morreu de desgosto, de tristeza com a morte do marido...".

Puxa vida, que história! "E tem uma coisa ainda, seu Assis. O Pitoco é meio gago".

Hummm... Essa história de meio gago é que nem aquela história de meio gay, meio grávida!

Pitoco, um tanto acanhado confirmou o que Zilidoro dissera. "Eeeu,eeeu, eu sooou aaassim. Assim mesmo! Eeeu, eeu, eu fafalo assim, maas penso direito!".

Pois olhe só, Pitoco, eu gostei de você. 

O maestro Arakaki,  Magrão e Cilene riram puxando palmas para Pitoco. 

De repente, Zé, Jão e Mané surgiram do fundo da casa trazendo bandejas com suco, queijo e outras cositas mais incluindo uma cachacinha do nosso engenho em Areia e aos dois novos ocupantes da casa brindamos: saúde e vida longa a nós todos. 


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (159)

Eu não ia falar de mais um romance de Asimov, mas vou falar. 

No livro O Fim da Eternidade (1955) há o que não poderia haver no seu enredo: um cara, chamado Andrew, treinado pelo sistema para não ter emoção de tipo algum, apaixona-se perdidamente por uma cientista de nome Nöys.

Quem é essa mulher e o que ela pretende?

Essa história passa-se quase toda na casa do chapéu, num inimaginável século 482.

Será que Nöys é uma figura perigosa?

Será que Nöys vai corresponder à paixão de Andrew?

Andrew é um técnico de uma organização chamada Eternidade. Os habitantes dessa coisa são chamados de “Eternos”.

Ora, ora, não posso deixar de comparar Asimov a Guimarães Rosa, mas numa bobagenzinha só: Rosa era um paquerador e amante incorrigível, como o autor Isaac Asimov.

A pergunta: quem matou o primeiro e o segundo cientistas de As Cavernas de Aço e de O Sol Desvelado?

Uma coisa a mais: houve um escritor que inspirou a criação do Dia da Ficção Científica Brasileira. Era paulistano e chamava-se Jeronymo Monteiro (1908-1970).

Como Machado de Assis, Jeronymo Barbosa Monteiro era autodidata e poliglota. E também jornalista e um dos pioneiros da ficção científica ou ficção do futuro, como também esse gênero é chamado.

Como Machado, Jeronymo traduziu livros de autores como Victor Hugo. Falava quatro línguas: francês, italiano, espanhol e inglês.

E como Coelho Neto, Jeronymo caiu no esquecimento, pois são poucas as pessoas que lembram dele hoje e da obra que deixou. Entre seus livros se acham Três Meses no Século 81 (1947), A Cidade Perdida (1948) e Os Visitantes do Espaço (1963). 

E ainda como Coelho Neto, Jeronymo escreveu livros direcionados ao público infantil.

Sua atividade como jornalista estendeu-se pelas páginas da Folha, Estadão e O Globo.

No jornal Tribuna de Santos, Jeronymo assinou uma coluna intitulada Admirável Mundo Novo. Nessa coluna, ele divulgava notícias do mundo científico.

Antes de trabalhar nesses jornais, assumiu a direção e edição da primeira revista publicada pela Editora Abril, em 1950. São dele a tradução e adaptação dos primeiros números do gibi O Pato Donald.

O maranhense Henrique Maximiano Coelho Neto foi um dos mais criativos jornalistas e ficcionistas da vida intelectual brasileira. Publicou centenas e centenas de contos, crônicas, poesias, romances. Muita coisa ele escreveu, até livros para o público juvenil. Chegou a assinar obras com Olavo Bilac.

Neto tem um conto bastante curioso no qual um cientista gera um ser esquisito denominado James Marian. Esse ser foi resultante da junção de um corpo masculino jovem cuja cabeça fora degolada e de uma jovem que teve o corpo esmagado de que sobrou apenas a cabeça intacta.

Cabeça de uma jovem num corpo de um jovem resultou no personagem próximo a Frankenstein. Detalhe é que, ao contrário de Frankenstein, Marian é bonito e encantador.

Lá pras tantas, Marian conta sobre seu criador:


…Tive um protetor, Arhat. Vivi em sua companhia e ele velou por mim. Não era de amor que me cercava, mas de cuidados. Eu era feitura sua, obra do seu saber. Tinha grande zelo por mim, sempre atento à minha saúde, às minhas tristezas, medicando-me, defendendo-me de todo o mal para que eu resistisse. Eu era para ele como objeto delicado que se conserva em vitrina. Amor não havia. Que fez por mim? Deu-me a vida, educou-me e instituiu-me herdeiro da fortuna que dissipo. Eu dormia e ele despertou-me... e ando agora como estremunhado, só desejoso de voltar ao sono…


Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (158)

Isaac Asimov

Mulheres também têm sido personagens de muitos contos e romances de ficção científica mundo afora, nas mais diversas línguas. 

No primeiro livro de contos do russo naturalizado norte-americano Isaac Asimov, (1920-1992), Eu, Robô (1950), aparece uma personagem identificada como psicóloga roboticista. Seu nome: Susan Calvin.

Susan é alguém que desfruta de prestígio e respeito  numa empresa fabricante de máquinas robóticas. Nada vai adiante sem a sua aprovação. E aí é que vem a coisa. 

Um dia, um jornalista bate à porta de seu escritório pedindo entrevista. Ela anda ali pela casa dos oitenta, carregando consigo histórias tantas. É simpaticíssima. No campo sexual, porém, parece ser completamente inexperiente. Ingênua até, embora um dia tenha se apaixonado por um cientista conceituado. Coisa do tipo platônico.

Ao jornalista a personagem abre o coração e diz o que a mente manda.

O livro contém nove contos. Um deles surpreende quando o personagem, um robô, convence a psicóloga dizendo que há correspondência entre ela e uma paixão oculta. Esse robô é programado para obedecer ordens e jamais ferir ou decepcionar um ser humano. Assim é, pode ou poderá ser. E ela chora desesperadamente ao descobrir a verdade. Que verdade?

A psicóloga Susan é o elo de ligação entre os contos que formam o livro Eu, Robô. 

Não custa lembrar que esse livro começa com um robô babá cuidando de uma criança que por ele se afeiçoa. A mãe da menina é contra máquinas de inteligência artificial cuidando de humanos. 

Em 1954 Asimov lançou o livro As Cavernas de Aço. Conta uma história que se passa num futuro longínquo, com humanos habitando subterrâneos de Nova Iorque. Nesse imaginário mundo há mais robôs do que gente. Num determinado momento, um cientista é assassinado e para descobrir o assassino é destacado um superinvestigador de polícia, Elijah Baley.

Esse livro é cheio de ação, emoção, suspense, suícidio, amor e paixão. É um tempo em que há controle de natalidade. 

Esse foi o primeiro romance de Asimov. O segundo, O Sol Desvelado (1957), traz a continuação do primeiro. 

O enredo desse novo romance trata de descendentes de terráqueos habitando dezenas de mundos diferentes. São chamados de solarianos, habitantes do planeta Solaria, onde há 20 mil “humanos” e 20 milhões de robôs. Lá também ocorre um misterioso crime. A vítima é um importante cientista.  Para elucidá-lo são convocados o investigador Elijah e seu parceiro no livro anterior, o humanoide R. Daneel Olivaw, movido a energia nuclear.

Como o primeiro, esse segundo romance de Asimov, tem como pano de fundo o tempo futuro.

Isaac Asimov começou a publicar suas coisas em 1940, em revistas de ficção científica. No total deixou quase 500 livros, incluindo livros didáticos e da história universal. De profissão era bioquímico. 

Os crimes que aparecem em As Cavernas de Aço e O Sol Desvelado têm como vítimas especialistas em robôs, quer dizer: cientistas e tal.

As histórias de robôs contadas por Asimov são mais do que curiosas: interessantíssimas.

Até no mundo dos robôs há leis. Estas:


1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal

2ª lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei

3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis

domingo, 22 de dezembro de 2024

EU E MEUS BOTÕES (75)

"Barrica, o que está acontecendo que até agora o seu Assis não chegou? Já era pra ele ter chegado...", falou sussurrando no ouvido do irmão, Bil.

A casa estava em completo silêncio. 

Bil nada disse a Barrica. 

Mané olhou pra Zoião, fazendo um sinal de interrogação. "Não me pergunte nada, não sei de nada", adiantou-se Zoião. 

O silêncio era constrangedor na casa de Zilidoro,  que calado estava e calado ficou. 

Mané levantou-se batendo palmas e quase gritando... "Ôôôô pessoal! Cadê o papo? Sem papo não há graça na vida!".

Segundos depois da provocação de Mané todos se levantaram.

Jão, quieto até então, sugeriu: "Quem espera sempre alcança, vamos tomar uma?".

Todos os botões estavam ali reunidos a espera do seu Assis. 

De repente,  derepentemente, soa a campainha na casa onde todos estão. Antes de quem quer que fosse acessar a porta, entrou na casa com sorriso relaxado Flor Maria. Foi entrando e dizendo que estava feliz por ali estar chegando. 

Até então, Lampa continuava sentado no seu tamborete cutucando as unhas com o seu inseparável punhalzinho. Levantou-se rapidamente e com um sorriso meio sem graça, disse: "Doutora a gente tava isperando a senhora até agora. A senhora é legal e muito sabida".

Todos os colegas botões de Lampa acharam graça do que foi dito. Lampa não gostou e por não gostar, olhou nos olhos de todos com a mão já no punhal. 

"O que é isso, Lampa? Poxa, você falou que eu sou legal e tal...", interveio Flor Maria. 

Lampa, constrangido, ajoelhou-se pedindo milhões de desculpas pelo comportamento até ali inadequado. 

Enquanto essa cena se registrava, Zilidoro deu um pulo da cadeira onde estava, dizendo animado em voz alta: "Olha aí, olha aí quem está chegando! É o Assis, o seu Assis!".

Todos se levantaram, incluindo Lampa...

Boa tarde pessoal, andei fora do Brasil...

Flor Maria aproximou-se, cumprimentando-me.

De repente, tudo virou festa. E começaram a cantar Jingle Bell. Era o Natal chegando. 

É isso aí, pessoal. Bom Natal e Bom Fim de Ano pra todos nós.

Lá do canto Zé complementou: "E que 2025 seja um ano do caralho!".

POSTAGENS MAIS VISTAS