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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (12)

Alguns autores de músicas feitas para Sampa

Jarbas Mariz nasceu na estrada, no dia 14 de março de 1952, entre Minas Gerais e Espírito Santo. Foi criado na capital paraibana, onde, em 1967, abraçou a profissão de músico. Em 1968 formou o grupo Pedras Rolantes, que viraria Selenitas, um dos mais populares e requisitados conjuntos de baile do Nordeste, que existiu por sete anos. Em 1977, começou a gravar discos. O primeiro foi um compacto duplo. Dois anos antes, fez show histórico no Teatro Santa Rosa, de João Pessoa, ao lado de Zé Ramalho: Três Aboios Diferentes; e com o próprio Zé e outros artistas, como Lula Côrtes, gravou o mais caro (e raríssimo) disco independente da história da MPB, Paembirú. No Rio de Janeiro, cantou com o rei do ritmo, Jackson do Pandeiro, e com a rainha do forró, Anastácia. Em 1989, e já morando na Capital de São Paulo, foi dirigido por Tom Zé e com ele passou a correr o mundo. Tem músicas gravadas por Marinês e Gilberto Gil. 

Alberto Marino era paulistano da Liberdade, criado no Brás. Nasceu no dia 23 de março de 1902 e morreu em 11 de fevereiro de 1967. Seus pais se chamavam Rosário e Carmella. Foi maestro da Sinfônica do Municipal e professor-diretor do Conservatório Dramático de São Paulo. Compôs Rapaziada do Braz na noite de 20 de novembro de 1917, para Ângela Bentivegna, com quem contrairia matrimônio em 1924. Antes de ser gravada pelo Sexteto Bertorino Alma (anagrama de Alberto Marino) e lançada pela Brasilphone, em 1927, já integrava o repertório dos seresteiros, e por sugestão do cantor Carlos Galhardo ganharia letra de Alberto Marino Jr.. No dia 25 de janeiro de 1968, junto a uma multidão, o prefeito Faria Lima inaugurava o Viaduto Alberto Marino. Prestigiaram o evento Vicente Celestino, Gilberto Alves, Nélson Gonçalves e Demônios da Garoa. É o primeiro clássico musical sobre o Brás, o mais cantado dos paulistanos.

Paulo Vanzolini nasceu na Capital de São Paulo, no dia 25 de abril de 1924 e faleceu em 28 de abril de 2013. Seus pais eram Carlos Alberto, engenheiro civil e eletricista, professor da Escola Politécnica; e Finoco Guidici, dona de casa. Foi criançaprodígio. Tornou-se cientista e um dos mais importantes especialistas em répteis do mundo todo. Shakespeare e Dante, que lia no original, eram seus autores de cabeceira, mais Camões e Bilac. Era PhD de Harvard, EUA. Trazia no currículo a formação de 38 doutores. Antes de concluir o curso de Medicina na USP, em 1947, e se especializar no estudo de vertebrados, serviu o Exército (reservista de 1ª Categoria) entre 7 de junho de 1944 e 14 de novembro de 1945. Um de seus livros, Tempos de Cabo, teve edição ilustrada por Aldemir Martins. Declarava-se apaixonado pela a cidade onde nasceu. Foi o criador dos clássicos Volta por Cima e Ronda, essa com versão até na Suíça. Sua obra musical cabe em quatro CDs.

Zica Bérgami nasceu em Ibitinga (SP), no dia 10 de agosto de 1913 e se criou na capital paulista; faleceu em 16 de abril de 2011. Em 1958, procurou a cantora Inezita Barroso e a ela apresentou várias músicas, entre as quais Lampião de Gás, cuja letra era comprida e foi encurtada para se transformar numa referência musical, a partir de sua gravação. O arranjo coube ao maestro mineiro Hervê Cordovil. Nesse mesmo ano, a valsa recebeu versão japonesa de Kikuo Furuno, gravada por Yoko Abe. Ganhou também o Troféu Zequinha de Abreu. A partir de 1960, passou a expor desenhos e pinturas de estilo primitivista em Portugal, Itália, México, Israel e França. Em 1999, o cantor e instrumentista Filó Machado assinou a produção e direção musical do CD Zezé Freitas Interpreta Zica Bérgami. Em 2001, o mesmo Filó, mais Camila Machado e Zezé Freitas, produziria o CD Salada de Danças, no qual pode ser ouvida sua voz em músicas até então inéditas.

Cacique e Pajé. Cacique nasceu a 25 de março de 1935, em Monte Aprazível (SP). Antes de formar dupla com Pajé, adotou os pseudônimos Peixoto e Rei do Gado. O primeiro disco que gravou foi um compacto duplo, pelo selo Centenário, em 1969. O disco trazia Violeiro Franco, chibata (gênero musical de origem indígena); A Viola e a Guitarra, cururu; Cristão Verdadeiro, moda campeira; e Aliança dos Noivos, valsinha. Em 1970, pelo selo Califórnia, gravou o primeiro LP: Tião Campeiro e Rei do Gado, produzido por Carreirinho. O segundo LP surgiu em 1972, com João Ferreira, pela Fermata. O maior sucesso da dupla, formada originalmente em 1978, ocorreu em 1979, com o LP Patrão e Secretária (220 mil cópias vendidas). O primeiro Pajé se chamava Roque Pereira Paiva (1936-1994) e era paulista de Bofete. O atual se chama Geraldo Aparecido da Silva, também paulista de Itapuí, nascido no dia 29 de julho de 1943.

Costa Senna é cearense de Fortaleza, nascido no dia 30 de novembro de 1955. Filho de Joaquim Raimundo e Raimunda Senna da Costa, ele trocou sua cidade de origem por São Paulo em 1990, dez anos após decidir a trabalhar com cultura popular. Nessa área tem produzido espetáculos e escrito folhetos de cordel. Atuou em peças teatrais e filmes de curta e longa metragem. Também compõe músicas, toca violão e canta. Tem CDs gravados, como Moço das Estrelas e Fábrica de UniVersos, e livros publicados, entre os quais O Doido, O Raulseixismo e Jesus Brasileiro, esse em parceria com o cordelista Marco Haurélio, revisor de textos e consultor da mais antiga e importante editora de folhetos de cordel do País, a Luzeiro. Na música, um de seus parceiros mais frequentes é Cacá Lopes. Em 2007, participou de Educar para Transformar, documentário em vídeo de Tânia Quaresma, sobre o educador pernambucano Paulo Freire.


Téo Azevedo, de batismo Teófilo de Azevedo Filho, é natural de Alto Belo, distrito de Bocaiúva (MG). Nasceu no dia 2 de julho de 1943. Antes de ficar famoso como compositor e violeiro, foi engraxate, camelô, lutador de boxe e soldado corneteiro do 12º RI na capital mineira. Começou a gravar em 1965, pela Discobel. O primeiro LP, independente, lançou no ano de 1974. O último, Guerrilheiro da Natura, duas décadas depois, pela Brasidisc. Tem músicas em discos de Zé Ramalho, Luiz Gonzaga, Sérgio Reis, Dominguinhos, Jair Rodrigues, Genival Lacerda, Banda de Pífanos de Caruaru, Cascatinha e Inhana, Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Caju e Castanha e pelo bluesman Charles Musselwhite (Feel it in Your Heart). O poeta Carlos Drummond escreveu Viola de Bolso para seu pai, Tiófo, O Cantadô de um Braço Só. Tem publicados alguns livros, como Literatura Popular do Norte de Minas e Plantas Medicinais.


Sebastião Marinho, de sobrenome Silva, é paraibano de Solânea e filho de Manoel Anulino e Damiana Marinho do Nascimento. Nasceu no dia 10 de março de 1948, e do verso se tornou profissional no dia 15 de novembro de 1968. É presidente da União dos Cantadores, Repentistas e Apologistas do Nordeste (Ucran), entidade criada em 1988. Mora na capital paulista desde 1976. Há anos forma dupla com o pernambucano de São Bento do Una José Saturnino dos Santos, o Andorinha, com quem tem disco gravado. Andorinha participou do 2º Concurso Paulista de Literatura de Cordel, promovido em 2004 pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos e pelo Metrô de São Paulo, no qual classificou o folheto CPTM e Metrô, Orgulho Paulistano, que numa estrofe diz: “Quem vem a São Paulo encontra/Um transporte especial/ Os trens metropolitanos/Trafegam na Capital/Norte, Sul, Leste, Oeste/ Cobrindo a área central”.


Peter Alouche é bacharel em Letras e poliglota. É o que se pode chamar de cidadão do mundo. Embora nascido no Cairo, Egito, terra dos faraós, e apesar de sua pátria cultural ser, como ele mesmo costuma dizer, “a língua francesa”, a sua única e verdadeira pátria de adoção e de devoção é o Brasil. Ser engenheiro de formação e ter dedicado 35 anos de sua vida profissional à tecnologia do Metrô de São Paulo não o impediram de se aventurar nas letras brasileiras e até, pasmem, na literatura de cordel. Em 2002 participou, com o pseudônimo de Pedro Nordestino, do 1º Concurso Paulista de Literatura de Cordel, e classificou, entre duas centenas de concorrentes de todo o País, a história em sextilhas Encontro no Metrô, publicada em folheto cuja capa recebeu a assinatura do cordelista Klévisson Viana. Essa “ousadia ímpar”, segundo ele, só conseguiu “graças ao amor que tanto nutre pelo povo” de nossa terra. 


Durval Souto é instrumentista, compositor, cantor e produtor musical natural da cidade de Itaji (BA), nascido no dia 25 de fevereiro de 1954. Tinha 15 anos de idade quando se apresentou em público pela primeira vez, num circo. Morou em Salvador e Rio de Janeiro, antes de se iniciar profissionalmente na capital paulista. Em 1973, atuou na peça O Homem em Função do Meio, de Alfredo Zonalto, dirigiu o espetáculo Música Popular do Brasil, produzido pelo Grupo Esquema Novo e apresentado nas escolas da capital por seis anos. Ainda em 1973 estreou no disco, gravando um compacto simples que trazia, de sua autoria, a canção Época de todos nós. Participou de vários festivais de música popular, até lançar o seu primeiro LP, em 1981, pela extinta gravadora Continental. Gravou ao lado de Zé Geraldo e Inezita Barroso, lançou oito discos, entre compactos, LPs e CDs. Seu último trabalho, o CD Lobisomem Americano, é de 2002.


Osvaldinho Da Cuíca, de batismo Osvaldo Barro, é paulistano do Bom Retiro, e filho de Benedicta de Almeida e Domingos Barro. Nasceu numa terça-feira de carnaval (12/2/1940). Iniciou-se nos estúdios de gravação em 1957. É o mais famoso cuiqueiro do Brasil. Gravou com os maestros Peruzzi, Léo Peracchi, Chiquinho do Acordeon, George Henri, Erlon Chaves. Seus instrumentos de percussão podem ser ouvidos em discos de Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Martinho da Vila, Adoniran Barbosa, Germano Matias, Paulinho da Viola, Cartola, Zé Kétti, Ângela Maria, Clementina de Jesus. Participou da trilha do filme Orfeu Negro, premiado em Cannes, com a Palma de Ouro. Integrou o grupo Demônios da Garoa. Fundou a Ala dos Compositores da Escola de Samba Vai Vai, em 1975. Um ano antes lançou seu LP de estreia e recebeu o título de Cidadão Samba de São Paulo, pela Secretaria de Turismo do Município.

Curiosidades sobre São Paulo

• Você sabia que Rapaziada do Brás, com “z” no original, foi a primeira música dedicada a um bairro da cidade e que seu autor tinha apenas 15 anos de idade quando a compôs?

 • Você sabia que o autor de Rapaziada do Brás, Alberto Marino, era violinista e assinava suas obras com o anagrama Bertorino Alma, também nome de um sexteto criado por ele no início dos anos de 1920? 

• Você sabia que Alberto Marino Jr. foi promotor e desembargador do Estado de São Paulo e que atuou em mais de 300 sessões do Tribunal do Júri? 

• Você sabia que Alberto Marino Jr. levou à cadeia o Bandido da Luz Vermelha e um de seus filhos, o juiz da Vara das Execuções Criminais Alberto Marino Neto, foi quem o libertou, em 2009?

 • Você sabia que Paulo Vanzolini foi um zoólogo muito respeitado no mundo, com PhD em Harvard e também membro da Academia Brasileira de Ciências, desde 1963? 

• Você sabia que Paulo Vanzolini foi por muitos anos diretor do Museu de Zoologia da USP, cuja biblioteca ele formou com os direitos de autor pelo samba Ronda? 

• Você sabia que a cantora Laura Okumura participou do filme de suspense A Dama do Cine Xangai, cantando Ronda em japonês? 

• Você sabia que Mary Buarque foi professora de piano de Inezita Barroso, a primeira cantora a gravar o samba Ronda, em 1953, no seu segundo disco de carreira? 

• Você sabia que a letra do samba Trem das Onze ficou engavetada por cinco anos e quem a desengavetou a pedido do produtor Braz Baccarin foi Arnaldo Rosa, um dos fundadores do conjunto Demônios da Garoa? 

• Você sabia que o rei do baião, Luiz Gonzaga, faz referência a São Paulo em cinco músicas e que até lançou um LP intitulado SP: QG do Baião, em 1971?

Não deixe de ouvir


Ao longo da carreira, Assis Ângelo entrevistou centenas de compositores, cantores e músicos. Para este especial, ele selecionou 18 trechos em que os entrevistados falam sobre São Paulo. Não deixe de ouvir: AlbertoMarinoJr, Antenógenes Silva, Benito di Paula, Billy Blanco e De Athayde, Germano Mathias, Mário Albanese, Mário Zan, Mário Zan e Demônios da Garoa, Moraes Sarmento, Nelson Gonçalves, Osvaldinho da Cuíca, Patativa do Assaré, Paulo Vanzolini, Rielinho, Roberto Fioravanti, Roberto Lapiccirella, Silvio Caldas e Zica Bérgami.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

CAYMMI, O CANTOR DOS ORIXÁS

Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Escrevi um bilhete a ela Pedindo pra ela me ajudar
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou


O baiano de Salvador Dorival Caymmi (1914-2008) foi o primeiro artista da nossa música popular a compor e a cantar a Orixá feminina Iemanjá, a rainha do mar. Ou dos mares.
Iemanjá é homenageada em dias diferentes no Brasil: 2 de fevereiro, 15 de agosto, 8 e 31 de dezembro.
A homenagem que mais junta gente é em Salvador, BA, no dia 2.
Na Capital cearense, Fortaleza, Iemanjá recebe louvores no dia 15 de agosto.
Na Paraíba, Pernambuco, São Paulo e em outros lugares, o dia dessa entidade é 8 de dezembro.
No Rio de Janeiro o dia escolhido é o último do ano.
A 1ª vez que Caymmi fala numa música sobre Iemanjá, tida como a mãe de todos os Orixás, data de 1939. Título: Caminhos do Mar.
Essa é uma história linda e comprida. IEMANJÁ, RAINHA DOS MARES
O samba Dois de Fevereiro, gravado originalmente em 1957, é um dos muitos clássicos da discografia de Caymmi.
O ilustre baiano deixou uma obra riquíssima, mas não custa lembrar que essa obra foi iniciada, e encerrada, no Rio de Janeiro.
Bom tocador de violão e dono de uma belíssima voz, Dorival Caymmi trocou Salvador pelo Rio com o propósito de ganhar a vida como desenhista e pintor.

Terminava a década de 30, em pleno reinado do rádio, quando chegou ao Rio um novo compositor, praticamente desconhecido do público carioca, que se acompanhava ao violão em músicas de sua autoria. Chegou e vencer, porque não tardou que o povo soubesse de cor as suas canções de linda melodia, que cantavam a Bahia natal do autor no que tinha de mais característica e sedutora. Era Caymmi que tomava o Rio de Janeiro de assalto e logo o país. Os êxitos se contavam pelo número de músicas que ele lançava em rápida sucessão, revelando desde então o compositor inspiradíssimo e versátil que se tornaria mais tarde conhecido internacionalmente, notando-se em suas canções a preponderância do motivo “mar de pescadores”, a refletir a vivência do artista, “um homem do cais da Bahia”, segundo sua própria definição.

(Do livro Cancioneiro da Bahia, Editora Record, 1978)


Como artista plástico, Caymmi teria um grande futuro. Desenhava e pintava muito bem. DORIVAL CAYMMI E CARLOS LACERDA: 100 ANOS
Até hoje não existe, a rigor, ninguém que interprete tão bem a obra de Caymmi como o próprio Caymmi.
Foi um artista bom que só.
Quem quiser saber detalhes da vida e obra do mestre da música de Salvador, recomendo que leia a biografia Dorival Caymmi - O mar e o Tempo, de Stella Caymmi (Editora 34, 2001).
A letra em que o artista fala de Iemanjá pela primeira vez, é esta:

Rainha do mar
Yemanja Odoiá Odoiá

Rainha do mar

O canto vinha de longe
De lá do meio do mar
Não era canto de gente
Bonito de admirar

O corpo todo estremece
Muda cor do céu do luar
Um dia ela ainda aparece
É a rainha do mar

Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar

Quem ouve desde menino
Aprende a acreditar
Que o vento sopra o destino
Pelos os caminhos do mar

O pescador que conhece
as historias do lugar
morre de medo e vontade
de encontrar

Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar
Yemanja Odoiá Odoiá

TIETÊ, UM RIO COM LÍNGUA DE FORA

Água do meu Tietê,Onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...
É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?...
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!...

(A Meditação Sobre o Tietê, poema de Mário de Andrade, composto entre 30 de novembro de 1944 e 12 de fevereiro de 1945)

O atual ocupante da cadeira presidencial envergonha todos os dias o Brasil e o mundo. Quando abre a boca, o mal cheiro toma conta do ar.
Ele fala, fala e diz só besteira.
Visando seu inimigo governador de São Paulo, disse mais uma besteira atingindo, mais uma vez, o povo.
A sua última fala, ontem 2, foi sobre o importantíssimo rio Tietê, de muitas histórias.
Disse o inqualificável portador da faixa presidencial que viu em São Paulo a transposição do Tietê, numa referência zombeteira à transposição das águas do São Francisco.
Essa é uma fala lamentável sob todos os aspectos, principalmente quando parte de um presidente eleito pelo voto universal.
O rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas. Tem 2.830km e é uma das inúmeras riquezas do nosso País.
O rio Tietê, Rio Grande na língua Tupi, tem 1.136km e passa por 62 municípios. Seu berço é Salesópolis, município distante 117km da Capital paulista. Em Salesópolis, suas águas continuam claríssimas, mas à medida que vai correndo, vai recebendo todo tipo de lixo. Quando chega em Guarulhos, recebe mais de 700 toneladas de tudo quanto não presta. E na Capital, o volume de porcarias ultrapassa 1.100 toneladas. Isso tudo, todos os dias.
Sim, claro, o Tietê está com a língua de fora.
Há poucos dias publiquei um especial sobre São Paulo no newsletter Jornalistas&Cia. Nesse especial, inseri pequenos depoimentos de personagens ligados, de um modo ou de outro, à Capital paulista. Um desses personagens, Bill Hinchberger, escreveu:

I Love that Dirty Water
Em 1991, como correspondente de The Financial Times, fui convidado para fazer parte de um grupo minúsculo de jornalistas, quase todos brasileiros, que se encontraria com o governador Luiz Antonio Fleury Filho. O governador anunciou um empréstimo então recorde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a despoluição do Rio Tietê. Fiz uma matéria relativamente extensa para aquele grande jornal inglês. Tanto dinheiro para um projeto ambiental era inédito.
Depois, Fleury prometeu beber água do rio no ano 2005. Nada disso. Em 2007, em parceria com a TV PUC São Paulo, recorri quase todo o rio, desde a fonte (onde, sim, eu bebi um copo de água) até lá longe, no interior, onde o rio finalmente voltava a desfrutar a vida.
Acompanhei uma peça de teatro flutuante dentro da cidade de São Paulo, uma iniciativa que simbolizava a importância cultural do rio para a metrópole. Ao pousar em Guarulhos no final do ano, vindo de Paris, para minha primeira visita desde o começo da pandemia, vi a triste realidade: milhões de dólares e duas décadas depois, o rio continuava morto.
O título acima vem da música de mesmo nome pelo conjunto The Standells, gravada em 1966: THE STANDELLS - DIRTY WATER
Os roqueiros cantavam o Rio Charles, de Boston. Naquela época, quem caía no rio da cidade de Boston era encaminhado para o hospital. Hoje você pode nadar no Rio Charles. Até quando esperar para a volta do Tietê?
 
O São Francisco é personagem de muitas histórias e músicas. O rio Tietê, também.
 

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (11)

São Paulo Esquina do Mundo, samba pop de Assis Ângelo/Jarbas Mariz 


São Paulo Ponto Chic, 

Viaduto, correria, carros, 

Anhangabaú, Ipiranga, Butantã, 

A garoa dos nortistas 

Pacaembu, Morumbi – gol!!! 

 Vida corinthiana, 

Nos hotéis de mil estrelas, 

Viva Deus, povo do Brás, 

Quanta gente, quanta idade, 

Da Mooca à Liberdade 

São Paulo, São Paulo

 São Paulo, São Paulo esquina do mundo (bis) 

São Paulo, São Paulo São Paulo de todo mundo 

Dos poetas romanticamente 

De Vanzolini à Inezita, 

Que bonito, São Paulo 

De um, de dois, de mil, 

Dos poetas romanticamente 

De Adoniran à Geraldo Filme,

 Que bonito, São Paulo 

De um, de dois, de mil 

São Paulo esperança 

De negro, de branco, de rico 

São Paulo, São Paulo São Paulo, São Paulo esquina do mundo (bis)

 São Paulo, São Paulo de todo mundo...

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Acorda Brasil, samba-enredo de Osvaldinho da Cuíca/Serginho/Namur


No ar.... 

Nosso grito de alerta 

O Bixiga desperta, a cantar 

Acorda Brasil

 É chegada a hora de mudar 


Divina Luz Dos deuses da mitologia 

Clareia... Me conduz a exaltar 

Um anjo que desceu lá na favela 

E hoje traz pra passarela 

Um lindo sonho a realizar 

Viver...

 É amar a esperança 

Lutar E deixar como herança

 Um mundo melhor mais feliz

 Educando as crianças... 

Do nosso País Bate coração 

Bate feliz quando “ti vê”

 É um presente carinhoso 

Do saudoso poeta pra você 

Quero a paz... 

Que a brisa beija e embalança 

Eu quero é mais 

Respeito com nossas crianças 

Numa sinfonia triunfal 

Ver o bem vencer o mal

 Vai-Vai feliz é carnaval

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Declaração de Amor a São Paulo, poema de Assis Ângelo

São Paulo da rapaziada do Brás. 

São Paulo dos passeios, das charretes. 

São Paulo dos segredos e mistérios do Pátio do Colégio e do Mosteiro de São Bento. 

São Paulo das zoadas, rezas e silêncios; dos sambas e batuques dos negros forros. 

São Paulo-babel de todas as cores, sotaques e culturas que se expressam nas falas e gestos. 

São Paulo do Butantã e das cobras e lagartos do poeta Vanzolini. 

São Paulo de Nóbrega e Anchieta; de Tibiriçá e Bartira; de João Ramalho e Borba Gato...

 São Paulo do Patriarca, Bom Retiro, Itaquera, Itaim. 

São Paulo da Saúde, Jaguaré, Penha, Tatuapé. 

São Paulo da Liberdade, Aclimação e Mooca... 

 São Paulo da Fiesp, Bovespa e mais-valia; do cansaço, da correria... 

Ah, São Paulo! Bela e infinita... Deusa, Deus, rainha do pobre e do rico. 

São Paulo do Solar da Marquesa, do Largo de São Francisco, do Masp, USP e dos mirantes a se perder de vista. 

São Paulo dos heróis sem berço e dos profetas e loucos do marco zero da Sé. 

São Paulo dos anjos tortos, caídos, perdidos no breu da noite. 

São Paulo das trevas, cortiços e favelas. 

São Paulo dos lampiões, dos bondes camarão e da garoa fina, finda. 

São Paulo guerreira, das entradas e bandeiras. 

 Ah, São Paulo! Menina-mulher pura e pecadora, durona e conciliadora. 

Esfinge à frente do próprio tempo! No teu leito de vida e morte, 

São Paulo, mão e contramão se chocam contra o irreal e a razão... 

Palitos de aço e concreto te ferem o céu do teu pulmão, que chora poeira, óleo e carvão... 

 São Paulo, São Paulo... 

Em ti, por ti, joões e marias se atiram às cegas na eterna luta pela vida, e ao fim e em uníssono, de todas as formas, todos dizem: 

 Te amo!

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Habitat 

Paulo Garfunkel 


Nascemos aqui, meu irmão e eu. 

Fazer o quê?

 Tanto Brasil pra nascer, tanto mar, tanto céu. 

E a gente deu de aterrissar neste lugar: Babel.

 O horizonte, um paredão.

 Eu e meu irmão, só mais dois “cidadão”. 

Entre outros tantos irmãos e outras tantas irmãs.

 Passando o bastão, nesta corrida vã. 

Sob um véu de fuligem, na vertigem do Tempo. 

Mas se o tempo é voraz, São Paulo é veloz. 

São Paulo é a cara de cada um de nós.

 Avenida São João – de Pratinha, Jean e Paulo Garfunkel

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

OBRAS DO METRÔ TRAVAM O TRÂNSITO EM SP


Já ruim e problemático sob todos os aspectos, o trânsito na Capital paulista piorou ontem 1, depois das 8 horas, com o gigantesco vazamento de uma galeria de esgoto localizada a vários metros abaixo da Marginal Tietê.
O rompimento pode ter sido provocado por um tatuzão, equipamento enorme e de várias toneladas feito para abrir túneis em profundidade.
Na ocasião do rompimento da galeria havia centenas de operários trabalhando na construção de uma nova linha do metrô: a 6 Laranja, que começa no bairro de São Joaquim e segue por baixo da Bela Vista, 14 Bis, Higienópolis, Angélica/Pacaembu e outros bairros até a Brasilândia, na zona Norte da cidade. Essa linha, que deverá ser inaugurada em 2024, terá 15km e 15 estações.
Ninguém morreu, mas alguns trabalhadores tiveram de ser transportados a hospitais da região. 
O que deverá ter provocado esse acidente?
Para o engenheiro Peter Alouche, ex-professor da FAAP e Mackenzie e um dos fundadores da CIA do Metropolitano de São Paulo (Metrô), o problema está na falta de supervisão nas obras. E "excesso de irresponsabilidade".
O metrô de São Paulo, um dos mais movimentados do mundo, parece estar cansado e perdendo credibilidade.
Inaugurado em setembro de 1974 (trecho Jabaraquara-Vila Mariana), o Metrô paulistano sempre foi uma grande referência para todo o tipo de público.
Os problemas começaram a partir das chamadas PPP (Parceiras Público-Privadas).
Atualmente o metrô administra 3 linhas: Azul, Verde e Vermelha.
Além disso é de responsabilidade da Cia do Metrô Paulistano a administração e operação do monotrilho. Detalhe: monotrilho é um tipo de transporte completamente defasado e descartado noutros lugares do mundo.
"Eu gostaria de saber o que fazem com os pneus do monotrilho", pergunta curioso o engenheiro Alouche.
As linhas administradas pelo metrô paulistano transportam cerca de 4 milhões de pessoas, diariamente.
O metrô já foi o meio de transporte mais admirado pela população e cantado em prosa e música.
Em 1978, o compositor Adoniram Barbosa compôs o belíssimo samba Praça da Sé. Ouça:

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (10)

São Paulo, poema de Paulo Vanzolini

Nesta minha cidade de São Paulo, 
Neste meu berço, nesta minha arena, 
Eu sou, na noite, uma espécie de poeta das menores e mais fáceis 
Que sai sem rumo e volta sem destino 
Traçando o chão por força do costume e não faltando no braço ao dia a dia. 
Na noite entrante, nas peludas asas da morcega madrugada 
Sobrevoo meu chão, num giro míope, cada vez mais certo 
Na segurança de encontrar sem pressa minha minúcia, meu detalhe, meu flagrante 
O ponto fino de contato e entendimento que é reforço de umbigo e de semente 
Que me marca sem dúvida e que me dá certeza da noite e da manhã de mim. 
Neste meu berço, nesta minha arena, neste meu chão, 
 Nesta minha cidade de São Paulo
 
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Praça da Sé, forró de Durval Souto

A Praça da Sé 
É a praça do povo 
Todo domingo 
É um domingo novo
 
É comedor de gilete
Engulindo fogo 
Cobra venenosa 
Serve de remédio 
Mas a vida dessa gente 
Não se resume num prédio 
Sanfoneiro perdido tocando forró 
Bilheteiro vendendo a idade da avó 

São tantas as esperanças 
Que a vida se trai São tantas as esperanças 
Que a vida é maior 
Pra quem veio com a ilusão de ser engenheiro 
De repente olha a caixa eu sou biscateiro 
Mas meu orgulho de raça 
Olha a sorte que eu tive
 Estou é fazendo um curso de detetive 
Vou escrever para minha mãe 

Que sou importante 
Mas aqui peguei peso como um elefante 
Não vejo a hora de regressar 
Pois tomei consciência vou pro meu lugar 

A Praça da Sé 
 É a praça do povo 
Todo domingo 
É um domingo novo
 
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A Briosa Colônia Nordestina em São Paulo, mote decassílabo Sebastião Marinho e Andorinha

Zona Sul, zona Norte, Leste, Oeste 
Do Tucuruvi a Jabaquara 
Guaianazes a Lapa, Vila Iara 
Em qualquer direção São Paulo investe
A chegada do povo do Nordeste 
Transformou a metrópole da bandeira 
A maior do Brasil e a primeira 
De toda a América Latina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Osasco, Guarulhos, Arujá, 
Carapicuíba, Itapevi 
São Bernardo, Poá, Barueri,
Santo André, Diadema e Mauá
Cubatão, Bertioga a Guarujá 
Toda Santos, a região praieira 
Da serra do mar na Cantateira 
A grande São Paulo nos fascina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Paulistano da gema come angu 
Vatapá e jabá com gerimum 
Casquinha e pirão de guaiamum 
Xerém tapioca e bijou 
Buchada pirão de aratu 
E sarapatel com macaxeira
Bobó de galinha capoeira 
Carne seca e moqueca de corvina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

São milhões e milhões de paulistanos 
Divididos em filhos cearenses 
Piauenses, maranhenses 
Pernambucanos, alagoanos 
Potiguares, baianos 
Sergipanos e paraibanos de primeira 
E a megalópole brasileira 
Galopante para o mundo descortina
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

São Paulo já tem aboiador 
Forrozeiro nos clubes e shows nas praças
Restaurantes e bares têm cachaças 
Pratos típicos do nosso interior 
Cordelista, coquista, embolador 
Mês inteiro.no parque, praça, feira 
Cantador repentista e rezadeira 
Mamulengo e forró em toda esquina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Do Nordeste em São Paulo tem pedreiro
Faxineiros, políticos, cientistas 
Empresários, juristas, jornalistas 
Militares, artistas, engenheiros 
Zeladores, vigias, cozinheiros
Obstetras, doméstica e enfermeira 
Professores de química e capoeira 
Português, matemática e medicina.
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira
 
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Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, poema de Téo Azevedo

Faculdade de Direito 
Do largo de São Francisco 
Lhe decanto com a viola 
Canção que eu gravei num disco 
Eu relembro seu passado 
No dia onze de agosto 
Quando você foi criada 
Deu São Paulo um fino gosto 
Convento de São Francisco 
Sua oficial morada 
E no estilo barroco 
Você foi edificada 
Lembro de José Arouche 
Seu primeiro diretor 
E na arte do Direito 
Você é mestre e doutor 
Falo de Ademar Brotero 
Que foi o primeiro lente 
E lá no curral dos bichos 
Se encontrava muita gente
O nemine discrepante 
Era o grau de bacharel 
Os Gerais ficou marcado 
Nesse ponto tão fiel 
Manuel Dias Toledo 
O tempo não esqueceu 
E capelo, recebeu 
E o Teixeira de Freitas 
Também foi o seu filho
Leis civis com muito brilho 
No edifício de taipa 
Que foi o velho convento 
Franciscanos, jesuítas 
Do direito um lenimento 
Repúblicas de estudantes 
De todo lugar do mundo 
O Ensaio Filosófico 
E o Ateneu profundo 
Da nossa independência 
E também abolição 
Seu papel foi importante 
Para o bem dessa nação 
O Julio Frank e a Bucha 
Acadêmicos das Arcadas 
Encontros Misteriosos 
Iam até nas madrugadas
Eu lembro filhos ilustres 
O querido Rui Barbosa 
E também Joaquim Nabuco 
Castro Alves verso e prosa 
O Álvares de Azevedo 
E o Fagundes Varela 
Maria Augusta Saraiva
Uma mulher muito bela 
Viva Monteiro Lobato 
Viva Oswald de Andrade 
E o Menotti Del Picchia 
O Paulo Eiró, que saudade 
Salve Olavo Bilac 
E o José de Alencar 
Pois são tantos vultos juntos 
Que não dá para contar 
Viva o Centro Acadêmico
De idade tem cem anos 
Dia onze de agosto 
A pindura tá nos planos
Salve o território livre 
Piqui, piqui e meia hora
No direito de ir e vir 
É que o rá-tchim-bum chora
 
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São Paulo Antigo, moda campeira
Caetano Erba/Cacique

Lendo um livro de um velho amigo 
Meu São Paulo antigo pude rever 
Histórias concretas, gravuras pintadas 
Muito bem narradas no meu entender
 No Beco dos Barbas, caminho dos homens
Que hoje seu nome é “porto geral” 
Tamanduateí, caminho dos barcos
 Foi o grande marco na era imperial. 

Quem viveu nos Campos Guaré 
Que hoje, então, é o bairro da Luz 
Não são fantasias que faz o poeta
 São coisas concretas que a história traduz 
A igreja da Sé com suas torres quadradas
 Uma obra arrojada no estilo imperial 
Mil e novecentos, pois foi demolida 
Para ser erguida a nova catedral. 

Tanque no zuniga hoje é o Paissandu
 Ladeira do Açú, hoje é a São João 
E no Martinelli mudou-se bastante 
Esquina importante no Café Brandão. 
Lá no Ouvidor, seu nome era assim 
Largo do Capim no tempo que foi 
Lugar que passavam gente da roça 
Charretes, carroças e carros de boi. 

Seresta se ouvia pela noite adentro 
Nas ruas do centro à luz do lampião 
Nasceu outro centro do lado de lá 
Viaduto do Chá fez a ligação 
Saudade ficou do velho bondinho
 E novo caminho aqui se implantou 
Os trilhos montados subterrâneo 
E o paulistano já tem o metrô.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O BRASIL TEM FUTURO


Bom dia, boa tarde, boa noite meus amigos e amigas.
Eu já suspeitava, mas agora tenho certeza: através de vocês pessoas que pensam, que falam, que gritam, o Brasil não se perderá. 
Temos futuro.
O Brasil popular e erudito tem futuro.
Digo tudo isso porque acabo de receber a informação de que este Blog acaba de alcançar a casa de 1 milhão de acessos.
Fico feliz por isso, é claro,
Fico feliz porque quem acessa os textos deste Blog são pessoas que não deixam parados, inertes, os neurônios. Uma curiosidade, porém: o maior número de acessos a meus textos são na sua grande
maioria de brasileiros radicados nos EUA: 58%.
Nos EUA vivem cerca de 1,8 milhão de brasileiros.
Os brasileiros residentes no Brasil que acessam este Blog estão na casa dos 26%.
O Brasil tem mais ou menos 213 milhões de brasileiros. No entanto, não podemos esquecer que dessa imensa população, pelo menos 11% não sabem sequer assinar o próprio nome. Triste, mas é a realidade. Nua e crua.
O Brasil tem futuro, mas faz-se necessário que saiamos imediatamente do buraco em que fomos jogados pelo atual comedor de farofa e frango de Brasília.
Inaugurei este Blog no dia 1º de abril de 2009. Dia da Mentira, mas é pura verdade o que digo. Comecei falando da cantora e atriz Vanja Orico.
Obrigado, obrigado, obrigado.
Vamo simbora gente, porque quem fica parado é poste!


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SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (9)

São Paulo em verso e música

São Paulo de Todos Nós
, canção Téo Azevedo/Peter Alouche

Vim de terras bem longínquas 
Abrigar-me no teu calor 
Fugi da fome de solos áridos 
Fugi de guerras de almas secas 
Vim da Sicília, vim do Japão 
Sou português, sou catalão 
Sou libanês, perdi meu chão 
Não tenho pátria, sou judeu errante 

Vim procurar paz, lar e pão
Sou branco, sou negro, sou oriental 
Sou nordestino do sertão 
Deixei a casa onde eu nasci 
Ah! Que saudades do Cariri! 
Vim descobrir minha esperança 
Ao te pedir chão e trabalho 
Com muita lágrima e suor 
Fui perseguir teu futuro 
Edifiquei tua riqueza 
Tornei-te forte e poderosa 
A mais altiva da nação. 
São Paulo, São Paulo de todos nós
Ao te ver de braços abertos 
Te adotei no coração.
 

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Viagem por São Paulo, rap Costa Senna

Já passei em Parelheiros 
Perto de Embu-Guaçu, 
Fui a Itapecerica 
De lá pulei pro Embu. 
Não me lembro qual o dia 
Me aproximei de Cotia 
Vi a Regis Bittencourt. 

Cruzei Carapicuíba 
E toda Barueri, 
Santana do Parnaíba 
Lá que parei pra dormir; 
Cajamar, Parque 
Anhanguera 
Não lembro que data era 
Mas sei que passei ali. 

Caieiras, Mairiporã, 
Guarulhos e Arujá; 
Lá em Itaquaquecetuba 
Tive o prazer de pisar. 
Em uma noite sem luz 
Passei em “Mogi das Cruz” 
Onde pretendo voltar. 

Suzano penetrei nela 
Pela estrada do morro, 
Quando entrei em Cubatão
Fui mordido por cachorro. 
Não parei naquela terra, 
No Rio Grande da Serra 
Que me prestaram socorro. 

São Caetano do Sul, 
São Mateus e Santo André; 
Em São Bernardo do Campo 
Me aplaudiram de pé. 
Não sei se cometo engano 
Tem outro São Caetano 
Mas eu não sei onde é. 

No São Miguel Paulista 
Já fui me apresentar 
E no Itaim Paulista,
Bem pertinho de Poá, 
Ferraz de Vasconcelos 
Onde um dos Vasconcelos 
Me convidou pra almoçar.

Por toda a São Paulo o poeta já passou.
Por toda a São Paulo o poeta já passou.
A Cidade Tiradentes, 
A Terceira Divisão, 
As zonas da Zona Leste 
Despertam meu coração, 
Ali o grito do povo 
Morre mas nasce de novo 
Em busca de solução. 

Vila Matilde, Itaquera, 
Guaianazes, Mauá, 
Vila Prudente ou Formosa, 
Ipiranga vou citar. 

Não sei se foi verdadeiro
Mas sei que Pedro Primeiro 
Soltou seu grito no ar. 
Conheço Ribeirão Pires, 
Mooca e Tatuapé, 
Vila Guilherme ou Maria,
Nome da santa mulher, 
Cangaíba, Belenzinho, 
Deus me olha com carinho 
Pois sou um homem de fé.

Fiz discurso em Sapopemba,
Militei em Diadema. 
O poeta popular 
Protesta contra o sistema 
E mesmo estando cansado,
Lá no Parque do Estado, 
Pichei um grande poema

Por toda a São Paulo o poeta já passou

De Jabaquara à Saúde 
Três estações de metrô. 
Onde fica Indianópolis? 
Me responda por favor 
A festa da primavera 
Transforma o Ibirapuera 
No mais perfeito esplendor. 

Após a Vila Mariana 
Já é Aclimação,
Cambuci e Liberdade
Que no Brasil é Japão; 
Digo perante a vocês 
Que o povo japonês 
Merece a nossa atenção.

A paranoia da Sé 
Com a louca agitação, 
Depois a Santa Efigênia
E a Avenida São João; 
Preciso dar um suspiro 
Que rima com Bom Retiro 
E segue a composição... 

Jaçanã, Tucuruvi, 
Brasil Grande, 
Cachoeirinha, 
Espero que a Casa Verde 
Já esteja madurinha; 
A Freguesia do Ó 
Santana friso melhor 
Porque conheço todinha.

Osasco, Jabaquara,
Pirituba, Jaraguá,
Do Limão à Barra Funda 
Cruzei lugar por lugar, 
Me sentiria feliz 
Se encontrasse em Perdiz 
Um lugar pra eu morar

Adoro a Santa Cecília, 
Curto a Consolação, 
Bixiga, Bela Vista 
É minha grande paixão.
Linda Vila Madalena, 
Mesmo não sendo pequena, 
Te levo em meu coração. 

Cidade Universitária 
Faz divisa com Pinheiros, 
Ali amei uma mina 
Corpo lindo por inteiro,
Me amou depois partiu
Talvez porque descobriu 
Que eu não tinha dinheiro. 

Ermelino Matarazzo, 
Jardim América, Brás,
Pari, Cerqueira Cesar,
Cruzei via marginais; 
É preciso andar com mapa 
O Paraíso e a Lapa 
Não posso deixar pra trás.

 Santo Amaro, Campo Limpo,
Andei de carro e a pé, 
Grajaú, Parque Cocaia, Eliana, São José,
Conheço todo lugar, 
Já fui até me banhar 
Na Ilha do Bororé. 

Pelo Taboão da Serra 
Não lembro quando passei, 
Na Capela do Socorro 
Na sexta-treze rezei.
No domingo de manhã 
Na feira do Butantã 
Ali me apresentei. 

Pantanal, Capão Redondo, 
Granja Viana, Carrão, 
Heliópolis, Imirim,
Brooklin e Jardim Japão. 
São Paulo é com prazer 
Que ofereço a você 
Toda a minha inspiração. 

De Cubatão a Perus, 
Embu-Guaçu, Jaraguá;
Dessa tão Grande São Paulo 
Já terminei de falar.
Se alguma coisa faltou, 
Não sou um computador, 
Sou poeta popular. 

Se alguma coisa faltou,
Não sou um computado 
Sou poeta popular.
 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (8)

 Olhares sobre São Paulo
Assis Ângelo pediu a alguns de seus “considerados” que enviassem depoimentos sobre São Paulo. 

Eles estão reproduzidos a seguir:

São Paulo em notas e versos

A presença e a contribuição de Assis Ângelo na cultura nacional estão consagradas na sua vasta obra de pesquisador e de artista. O seu esforço em reunir cerca de três mil músicas e composições de alguma forma relacionadas com a cidade de São Paulo constitui um reconhecimento à altura da metrópole fundada pelos jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta e que se tornou símbolo e síntese da grandeza do Brasil. A alma nordestina e a brasilidade de Assis Ângelo ganharam asas e inspiração em São Paulo, e o apreço pela cidade mobilizou o pesquisador na busca das demonstrações de carinho e amor de tantos quantos músicos e compositores tomados pela mesma paixão. Assis Ângelo deve a São Paulo o acolhimento generoso que recebeu, e São Paulo deverá para sempre ao ilustre paraibano de João Pessoa o acervo musical de merecidas homenagens.

Aldo Rebelo − Jornalista e escritor

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Encantos de São Paulo

Uma cidade tão grande e diversa e produtiva quanto São Paulo haveria de ser inspiração para farta produção de música diversa e, muitas vezes, grande. A Pauliceia e muitos de seus bairros e logradouros − a Praça da Sé, a Avenida Paulista, o aeroporto de Congonhas, o estádio do Pacaembu, a Mooca, a Pompeia − têm inspirado tantas obras musicais quanto as atrações cariocas, excelentes cartões de visita para passeio e lazer, ao passo − passo bem paulistanamente ligeiro − que os encantos de Sampa refletem esforço, trabalho, luta pela vida, até o prazer é conquistado. Este que vos escreve precisou aprender a entender a cidade onde nasceu para vir a gostar dela. Vivi dos 12 aos 22 anos no interior paulista, sempre reclamando da poluição, agitação e neurose da “capitár”. Mas, uma vez de volta, em dois anos me assumi de vez como paulistano. E, como compositor, já escrevi algumas dezenas de canções, quase sempre bem-humoradas, sobre a terra onde a garoa é mais garoa.

Aqui vai uma de bom humor lírico: 

Ayrton Mugnaini Jr. – compositor

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I Love that Dirty Water

Em 1991, como correspondente de The Financial Times, fui convidado para fazer parte de um grupo minúsculo de jornalistas, quase todos brasileiros, que se encontraria com o governador Luiz Antonio Fleury Filho. O governador anunciou um empréstimo então recorde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a despoluição do Rio Tietê. Fiz uma matéria relativamente extensa para aquele grande jornal inglês. Tanto dinheiro para um projeto ambiental era inédito. Depois, Fleury prometeu beber água do rio no ano 2005. Nada disso. Em 2007, em parceria com a TV PUC São Paulo, recorri quase todo o rio, desde a fonte (onde, sim, eu bebi um copo de água) até lá longe, no interior, onde o rio finalmente voltava a desfrutar a vida. Acompanhei uma peça de teatro flutuante dento da cidade de São Paulo, uma iniciativa que simbolizava a importância cultural do rio para a metrópole. Ao pousar em Guarulhos no final do ano, vindo de Paris, para minha primeira visita desde o começo da pandemia, vi a triste realidade: milhões de dólares e duas décadas depois, o rio continuava morto. 

O título acima vem da música de mesmo nome pelo conjunto The Standells, gravada em 1966:

 

Os roqueiros cantavam o Rio Charles, de Boston. Naquela época, quem caía no rio da cidade de Boston era encaminhado para o hospital. Hoje você pode nadar no Rio Charles. Até quando esperar para a volta do Tietê? 

Bill Hinchberger – jornalista norte-americano

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Um pulo em São Paulo

O sonho de quase todo garoto do interior do Brasil é ir para cidade grande. Para um garoto do sertão baiano, o destino, no sonho desse garoto, é São Paulo. Comigo não foi diferente. No Paiaiá, povoado do município de Nova Soure (BA), vivi até os meus 21 anos de idade. Mas desde a infância São Paulo já passeava na minha imaginação. Um dia dou um pulo em São Paulo, pensava, ao ver muita gente chegar de férias e com um novo visual. No dia 10 de janeiro de 1999 desembarquei no Terminal Rodoviário do Tietê. Do espanto inicial, por contemplar o vaivém dos carros, o pra lá e pra cá de um monte de gente apressada que parece não encontrar seu destino, há uma relação de amor e muito afeto. São Paulo é minha segunda casa. Depois do meu Paiaiá, é a cidade que mais amo. A cidade onde aprendi o pouco que sei; cidade que continua a me ensinar. Obrigado, São Paulo!

Carlos Sílvio Ramos – radialista (Paiaiá na Conectados)

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Vim-me embora pra São Paulo

 Vim-me embora pra São Paulo. Aqui não sou amigo do rei. Aqui não tenho a mulher que eu quero nem a cama que escolherei. Vim-me embora pra São Paulo. Lá, no sertão baiano de Nova Soure, eu não era infeliz. Aqui a inexistência é uma desventura de tal modo pertinente que Getulio Vargas, do Sul, rei e falso dirigente, vem a ser contraindicado até para a sogra que já tive. E como não farei academia, não andarei de motobói, não montarei em viatura braba da Rota, não subirei em arranha-céus, não tomarei banhos de enchente? E, quando não estiver cansado, levanto na beira do rio Tietê, mando chamar os bueiros de esgoto pra me desmentirem as histórias que, no tempo de eu adulto, a Turma da Mônica jamais iria me contar. Vim-me embora pra São Paulo. Em São Paulo, não tem tudo. É outra esculhambação. Não tem um processo seguro de impedir o assalto e qualquer violação. Não tem mais bondinho elétrico, não tem mais madrugadas à vontade. Não tem mais acompanhantes vestidas para a gente azarar. E quando eu estiver alegre, mas alegre de ter um infarto na poluição, quando na garoa da manhã me der vontade de viver, aqui não sou amigo do rei, não terei a mulher que eu quero nem a cama que escolherei. Assim mesmo e apesar de tudo, vimme embora pra São Paulo.

Darlan Zurc − historiador

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Por que estou em São Paulo

 Só podia ser uma cidade com nome de um santo – São Paulo – a que me acolheu, depois de longos anos de batalha nesta minha vida. São Paulo, você vem me dando tanta alegria e profissionalismo que não me vejo saindo daqui pra morar em outro lugar! Aqui, eu consolidei minha carreira de músico, cantor e compositor; conheci pessoas; conquistei espaços para criar e implantar muitos projetos educacionais e culturais! Aqui, eu criei meus filhos, minha família e fiz grandes amigos... e me criei como cidadão! Eu até fiz músicas pra São Paulo!... Uma, São Paulo, Esquina do Mundo, com o jornalista e escritor Assis Ângelo, e a outra, Cruzando a Pauliceia, com o músico Fubá! Além, claro, de tocar e cantar, em shows com Tom Zé, duas grandes músicas feitas para a cidade, que são: Augusta, Angélica e Consolação e São São Paulo. Agora, SÃO PAULO, continue me acolhendo e me ensinando a ser uma pessoa cada vez melhor! Obrigado, São Paulo!!!

Jarbas Mariz – músico, cantor e compositor

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Valsa Paulistana

 No ano de 2005 foi criado na cidade de Salzburg, na Áustria, o Instituto Karajan, na casa onde nasceu o maestro. Nesse Instituto estão armazenados todos os dados e documentos da vida e carreira do maior maestro da segunda metade do século XX em todo o mundo. O Instituto é um centro cultural que promove hoje os mais diversos eventos e atividades culturais. Quando ele foi inaugurado, em 2005, um grupo de instrumentistas da Filarmônica de Berlim − orquestra que ele regeu por mais de três décadas − foi convidado para participar da festa de inauguração, já que a orquestra inteira não caberia na casa. Esse grupo de instrumentos de sopro pediu-me que escrevesse uma peça bem brasileira para animar a festa de inauguração. Pois bem. Enviei a eles a mais brasileira das músicas, uma valsa. Uma Valsa Paulistana. Os alemães morreram de rir. Como uma valsa “bem brasileira” para a “terra da valsa”?
Mas, a nossa valsa não tem nada a ver com as valsas vienenses, dançantes, festivas. Nossa valsa, de estilo paulistano, é sentimental, lenta, chorosa... Bem. A Valsa Paulistana foi executada, com enorme sucesso, e gravada pelo Quinteto de Sopros da Filarmônica de Berlim, selo BIS 952. O CD chama-se Summer Music. Essa valsa para quinteto de sopros foi acrescentada a uma suíte de nome Belle Époque in Süd-Amerika, juntamente com um tango e um choro. A partitura completa dessa suíte encontra-se gratuitamente no site Musica Brasilis. 

Júlio Medaglia − maestro

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Memórias de São Paulo

Cheguei em São Paulo num frio domingo de março de 1978. Eu conhecia a capital paulista dos postais que mostravam uma cidade com muitos prédios, uma linda praça, a República, e a Avenida Paulista, com seus arranha-céus futuristas. Ao descer do ônibus, em Cumbica, bairro de Guarulhos, então com ruas de terra e grandes muros, típicos de uma região industrial, me decepcionei profundamente: “Como São Paulo é feia”, pensei. Somente meses depois passaria a conhecer, de fato, a cidade, como office-boy de uma agência de turismo sediada na Praça da República. Me apaixonei perdidamente, como era de se esperar. São Paulo, a mais cosmopolita das cidades brasileiras, me ofereceu uma profissão, de jornalista e professor, uma boa condição de vida, uma filha, a querida Júlia, e o gosto pela história, adquirida no tempo em que trabalhei cuidando da estante da área em uma livraria, e na condição de repórter de dois jornais, Estadão e Diário Popular, em que escarafunchei essa cidade de alto a baixo. Enfrentei, claro, muitas dificuldades, típicas de um forasteiro tentando se estabilizar − no caso, de um pernambucano do sertão, em plena metrópole −, mas sempre deu certo. Enfim, fico contente em saber que, depois de 42 anos, conquistei a tão sonhada “cidadania” paulistana e estou, a cada dia, mais apaixonado por esta grande cidade. Abraços a todos e todas conterrâneos. 

Moacir Assunção – jornalista 

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São Paulo de todos nós

 Realmente, São Paulo é do mundo todo. Nas pesquisas, São Paulo é a quarta maior cidade do mundo em população, mas em se tratando de espaço, cidadania, trabalho, liberdade, paz e amor, para mim ela é a maior do mundo. Porque, além do trabalho, ela tem de tudo que um ser humano precisa para viver ou sobreviver. Para isso basta que lhe seja um cidadão que respeita o direito de ir e vir, que vive e deixa os outros viverem. Sou mineiro de Alto Belo, distrito de Bocaiúva, no norte do estado. Fui para São Paulo em 1969, e por lá estou até hoje. Rodei o Brasil todo. Estive em Portugal, mas São Paulo nunca saiu do meu coração. Tudo que tem pelo mundo afora você acha em São Paulo. Pra viver em São Paulo basta saber navegar, não importa se é rico ou se é pobre. Fiz mais de 30 músicas em homenagem a essa gigante de cimento e continuarei até o fim dos meus tempos exaltando os paulistas e os paulistanos. A minha carreira artística eu devo muito a essa cidade fantástica e sua gente. A minha eterna homenagem a São Paulo. 

Téo Azevedo – músico, cantor e compositor

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Bilhete paulistano para Assis Ângelo 

No início da carreira, algumas dificuldades me levaram a fazer o que eu chamava de “reportagem cantada”. Primeiro foi em Irará, com as pessoas e casos de lá. Depois, em Salvador, com seus personagens históricos, monumentos que são muito vivos etc. Quando cheguei em São Paulo, eu, que componho sobre meu entorno, fiquei sem saber a que me referir nos primeiros dias. O que me salvou foi que na rua 7 de Abril entrei para ver um filme chamado São Paulo S/A, de Luís Sérgio Person. Mudou completamente o meu jeito de ver a cidade e seus problemas. Comecei a escrever as canções que fizeram meu primeiro disco, chamado Tom Zé – Grande Liquidação. Ou seja, continuei, como era e é meu costume, a fazer canção sobre o que está à minha volta. Essa “liquidação” tematiza a explosão da venda a crédito, que anteriormente era uma maldição para o comércio. Circulava até um dito: “Fiado, cinco letras que choram”. Mas o fiado passou a ser uma insistência. No dia 21 de abril de 1968, quando acordei e cheguei à porta de casa, estava fazendo muito frio. Frio mesmo, que hoje não faz mais.
Eu estava na Rua Conselheiro Brotero e me dirigi para a Alameda Barros. No meio do quarteirão havia uma banca de revistas e nela, uma grande manchete: Prostitutas invadem o centro da cidade. Em vez de tremer frio, comecei a tremer de emoção. E naquele instante me ocorreu toda a forma da canção São São Paulo, Meu Amor. Quando você encontrava uma pessoa ela quase imediatamente começava a falar mal e a enumerar os defeitos de São Paulo. Achando que assim se identificava, mostrando que estava “por dentro”. Reuni esses “defeitos” e discuti-os no refrão. Tá bom, Assis Ângelo, pode chamar tudo isso que falei de “paixão por São Paulo”. 

Tom Zé – músico, cantor e compositor

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Bairros de São Paulo em cordel

A Editora Nova Alexandria de São Paulo desafiou há uns dez anos o poeta, cordelista e cantador Cacá Lopes a escrever a história dos bairros da cidade em cordel, para publicar no site da empresa com o título Bairros de São Paulo em Cordel. 
Cacá aceitou o desafio e escreveu de oito a dez estrofes em sextilhas sobre uns 30 bairros, tendo publicado três em gráfica: as histórias de Guaianases, Itaquera e São Miguel Paulista. Os folhetos sobre a Freguesia do Ó e Francisco Morato estão no prelo. Também já publicou cordéis sobre as cidades de Cajamar e Louveira, no interior paulista, distribuídos nas escolas e bibliotecas da região.
Em outra obra poética, o cordel Palavras de Origem Tupi Guarani, que publicou em parceria com Josué Gonçalves, pela Editora Cordel, do mestre Kydelmir Dantas, Cacá Lopes cita em versos os seguintes locais e bairros de Sampa: Anhangabaú, Aricanduva, Cambuci, Arujá, Anhanguera, Ibirapuera, Iguatemi, Butantã, Jaçanã, Guarapiranga, Sumaré, Canindé, Morumbi, Mooca, Itapecerica, Tremembé, Ipiranga e Jabaquara, entre outros.

Cacá Lopes, músico e cordelista

Viajando na história 
Fui de aluno a professor, 
Sobre alguns bairros paulistas 
Que pesquisei com ardor, 
E agora neste Cordel 
Repasso para o leitor.



Brás

O migrante é povo forte
Busca o sonho, é capaz,
Foi assim que muita gente
Deixou tudo para trás,
E veio para São Paulo
Para trabalhar no Brás

Esse distrito que está
Bem na Região central,
À leste do centro histórico
De São Paulo capital,
Nas terras de José Brás
Que se tornou imortal.



Santo Amaro

No universo dos versos
Cada verso eu encaro,
Laço, teço, ouso, busco
Meço, rimo, nunca paro,
Chego, canto a Zona Sul
Começo por Santo Amaro

Aldeia de Jeribatiba
Tantas vezes visitada,
Por José de Anchieta
Firme na sua jornada,
Sobre a criação da vila
Após ser catequizada



São Miguel Paulista

Mais um bairro de São Paulo
Acrescento em minha lista,
Ao descrevê-lo em cordel
À memória se avista.
Minha homenagem em versos
Para São Miguel Paulista

Feche os olhos, imagine
Como tudo começou,
De’um aldeamento indígena
A vilinha se formou,
Narro poeticamente
Quem o lugar desbravou.


Cidade Tiradentes

A Cidade Tiradentes
No fundão da capital,
Um conjunto periférico
E monofuncional,
Tipo bairro dormitório
De proporção sem igual.

Na América Latina
É tido como o maior
Complexo habitacional
Com conjuntos ao redor,
Do bairro que a cada dia
Em “infra” fica melhor.


Capão Redondo

Capão é uma porção
De mato quase isolado,
No meio de um grande campo,
Já o bairro retratado,
Do tupi – mato redondo
Vem o seu significado.

O nome Capão Redondo
Foi dado por moradores,
Os primeiros habitantes
Fortes colonizadores,
Também praticavam caças
E eram bons pescadores.



Itaquera

Itaquera – Zona Leste
Seu povo quero saudar!
Trago um canto diferente
E quero lhe ofertar,
Um Cordel com sua história
À memória do Lugar

Itaquera é pedra dura
Vem do Tupi Guarani,
Dizem que Tomé de Souza
Um dia passou aqui,
Pela estrada de Santos
Próxima do Iguatemi.



Paraisópolis

Povo de Paraisópolis
Estou chegando pra rimar,
A história desse bairro
Na cultura popular,
Convido você leitor!
Para no tempo voltar.

O processo começou
Lá na década de cinquenta.
A colônia japonesa
Toma posse e logo tenta,
Transformar as suas chácaras
De grileiro não se isenta

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