O paraibano de Uiraúna José Nêumanne Pinto é dos mais atualizados jornalistas da imprensa brasileira. Comentarista politico, dele nada escapa. Nêumanne começou a careira na Paraíba, mas foi no eixo Rio-São Paulo que ele deslanchou.
Nêumanne foi repórter especial da Folha, editou do Jornal do Brasil e da Editoria de Política do Estadão.
Trabalhei com ele no Estadão, chefiando a reportagem.
Mas José Nêumanne Pinto não é só jornalista. É mais. Muito mais.
Poeta de sensibilidade incomum, José Nêumanne chegou a gravar até um CD (CPC-Umes, 2007), com arranjo do maestro Marcus Vinícius.
Poemas de Nêumanne foram musicados e gravados por artistas do naipe de Téo Azevedo e Zé Ramalho.
Eu mesmo gravei um poema de Nêumanne, intitulado Desafio da Viola Repentina e Guitarra Cética. Essa gravação abre o repertório do CD Assis Ângelo interpreta poetas brasileiros.
Ouvir Nêumanne é um privilégio. Quem o ouve como atenção só tem a aprender. Que o diga o radialista baiano Carlos Sílvio.
Ontem 24 José Nêumanne deu uma belíssima entrevista ao programa Paiaiá na Conectados, apresentado por Sílvio.
No ano de 2012 o Sesc Santana, SP, abriu espaço para que eu pudesse apresentar
uma exposição/ocupação sobre músicas que falam da Capital paulista. Mais de
3mil títulos, resultado de uma pesquisa que fiz no decorrer de mais de 20 anos. Na ocasião, estiveram comigo muita gente bacana: Inezita
Barroso, Altamiro Carrilho, Paulo Vanzolini e tantos e tantos. Entre esses
tantos e tantos:
Antônio Severo,
Joel dos Santos,
Ana Maria
e eu.
Foi uma exposição muito bonita, visitada por milhares de pessoas no decorrer
de 2 a 3 meses.
Severo nos deixou na madrugada de hoje 24.
Em junho deste ano escrevi um texto lembrando a trajetória do jornalista João do Rio. Foi texto originalmente publicado no Newsletter Jornalistas&Cia. Neste texto, que também saiu no folheto de cordel (ao lado), faço uma singela homenagem ao querido Severo.
O mundo continua girando, girando e dele gente caindo e subindo. Aos trancos.
Gente querida tem partido sem se quer dizer adeus. Rapidamente. Fechando os
olhos e pronto.
No começo da madrugada de hoje 24, ali pela 1h30, partiu para a Eternidade
José Antônio Severo. Gaúcho. Amigo querido. Jornalista.
Ali pelas 5 horas de hoje 24 foi juntar-se às estrelas outra pessoa querida:
José Xavier Cortez.
Guardo de Severo e Cortez gratíssimas lembranças, boas risadas.
E é assim, estou me sentindo só. Cada dia mais.
Primeiro foram meus irmãos ainda crianças. Depois a minha mãe e o meu pai.
E assim seguimos, voltando de onde viemos: o Cosmos?
A última vez que falei com
Severo, pessoalmente, foi dia 16 de julho passado. Cá em casa.
A última vez que falei com Cortez, por telefone, foi na tarde de domingo 19
passado. Falamos um monte de coisas, como sempre falávamos. Naquela tarde,
falamos e falamos sobre o educador Paulo Freire. Confira:
Claro que é política a proposta de alfabetização contida no livro Pedagogia do
Oprimido, de Paulo Freire.
O que é que há em comum entre o pernambucano Paulo Freire e o baiano Anísio
Teixeira?
Freire nasceu em 1921 e Teixeira, 21 anos antes. Ambos formaram-se
primeiramente em Direito e só depois tornaram-se educadores.
Teixeira foi o primeiro educador a detectar falhas e necessidades na
alfabetização de jovens e adultos, no nosso País.
Como Teixeira, Freire abandonou a profissão de advogado para continuar no
direito de ensinar para aprender junto aos analfabetos seus alunos.
Em 1963, Paulo Freire pôs em prática um método revolucionário de alfabetização
no município de Angicos, no Rio Grande do Norte, RN.
Naquele ano, conseguiu ensinar as primeiras letras a mais de 300 trabalhadores
da construção civil, que não conseguiam distinguir um “O” de uma roda. Foi
quando os empregadores se arrepiaram, recusando-se a pagar até os direitos
trabalhistas.
Foi esse o “pulo do gato” de Freire ao imaginar e desenvolver o método que
leva o seu nome no Brasil e mundo afora. Em 1964, Anísio Teixeira foi
exilado pelos poderosos de plantão. Em 1964, Paulo Freire foi exilado
pelos poderosos de plantão. Os poderosos de plantão são personagens que
atuam em movimento contrário ao avanço da sociedade moderna, sempre à
espreita. Um povo analfabeto é um povo cego sem luz, sem graça, sem
futuro, que precisa de muleta para existir.
Um povo analfabeto e sem futuro é presa fácil de quaisquer poderosos de
plantão, ditadores, prepotentes, obscurantistas. Uma pessoa alfabetizada
reconhece com facilidade o mundo em que vive e nele se movimenta com a graça
de quem ama a vida.
Uma vez o paulista Monteiro Lobato (1882-1948) disse que “quem ler mais, sabe
mais”. Uma vez, há muito tempo, o grego Sócrates à beira da morte teria
dito: “Só sei que nada sei”. No livro A Importância do Ato de Ler, agora na
52ª edição (Cortez Editora), Paulo Freire diz à pág. 66: “Na verdade, para que a
afirmação ‘quem sabe ensina a quem não sabe’ se recupere de seu caráter
autoritário, é preciso que quem sabe saiba sobretudo que ninguém sabe tudo e que
ninguém tudo ignora. O educador, como quem sabe, precisa reconhecer, primeiro,
nos educandos em processo de saber mais, os sujeitos, com ele, deste processo e
não pacientes acomodados; segundo, reconhecer que o conhecimento não é um dado
aí, algo imobilizado, concluído, terminado, a ser transferido por quem o
adquiriu a quem não o possui”. Atualmente, o Brasil tem cerca de 11 milhões
de analfabetos completos. Fora isso, é incontável o número de analfabetos
funcionais. Esses são aqueles que aprenderam o bê-á-bá mecanicamente, sem
raciocinar, na base da decoreba. O método Paulo Freire é importante, muito
importante, por identificar esse caminho errado. Ou seja, não basta decorar o
bê-á-bá, é preciso interpretar o bê-á-bá. “A leitura do mundo precede a
leitura da palavra”, afirma Freire na palestra que proferiu no Congresso
Brasileiro de Leitura, realizado no dia 12 de novembro de 1981, em Campinas
(SP). O analfabeto é analfabeto por não saber ler nem escrever, mas não é
analfabeto no mundo real em que vive. Pois nesse mundo, o seu mundo, ele
distingue facilmente os códigos que o rodeiam. Portanto, nesse caso, o bê-á-bá
pouco acrescenta ao sujeito em questão. Sabe aquela história de o caipira
ou o matuto falar errado?
“A primeira vez que mantive contato com Paulo Freire, foi por telefone. Ele se
achava na Suíça ou na Suécia, não lembro bem. Propus-lhe editar seu livro
Pedagogia do Oprimido. Mas ele respondeu que já tinha editora, a Paz e Terra”,
lembrou o potiguar José Xavier Cortez. “Isso foi pouco antes de ele voltar do
exílio”, acrescentou.
No decorrer do tempo, Cortez e Paulo Freire tornaram-se amigos. “Antes de A
Importância do Ato de Ler publiquei Educação e Atualidade Brasileira,
Pedagogia: Diálogo e Conflito e Paulo Freire: Uma Bibliografia”, relembra
Cortez.
Enquanto publicava livros pela Cortez, Paulo Freire publicava artigos na
revista Educação e Sociedade. Essa revista era resultado de uma parceria entre
a editora Cortez e a Unicamp.
É possível que os textos de Freire publicados na revista virem livro.
A gratidão que o educador pernambucano tinha pelo editor potiguar fica
explícita nesta declaração: “Se o país tiver sensibilidade, reconhecimento,
amor e o sentimento do agradecimento corajoso e leal, Cortez vai virar nome de
instituição no País todo. Tenho Cortez como editor e também como amigo”.
Cortez já virou nome de escola: Escola Estadual José Xavier Cortez, no extremo
sul da Capital paulista.
Anísio Teixeira envolveu-se com a educação desde muito cedo.
Em 1931, já figura de destaque no campo da Educação, Anísio assinou o
Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.Corria o governo Vargas. O ministro
era Capanema e seu chefe de gabinete, Carlos Drummond.
Esse manifesto, assinado por 26 educadores e intelectuais como Cecília
Meirelles, não agradou o governo Vargas. O tempo passou e muita água correu
sob a ponte.
O resto é história.
Anísio Spínola Teixeira nasceu no ano de 1900 e morreu em março de 1971, isto
é: há 50 anos.
Paulo Reglus Neves Freire morreu em 1997 e nasceu no dia 19 de setembro de
1921, ou seja: há 100 anos.
A educação deve muito a esses dois brasileiros.
O cantor e compositor paraibano Chico César compôs e cantou, no ritmo de aboio, isso aqui:
Esta semana de setembro começou com boa parte do mundo enaltecendo o talento e a contribuição do pernambucano de Recife Paulo Freire no campo da educação.
Domingo 19 passado comemoraram-se os 100 anos de nascimento do autor de Pedagogia do Oprimido, escrito no Chile e publicado primeiramente na Espanha e EUA, nos fins dos tumultuados anos de 1960. Esse livro somente seria publicado no Brasil, pela Paz e Terra, em 1974.
Sobre Paulo Freire e o seu revolucionário método de ensino existem inúmeros folhetos de cordel e livros escritos no Brasil e no Exterior.
Dentre os folhetos de cordel destaque para Tributo a Paulo Freire, Cordel ao Educador Paulo Freire, Paulo Freire em Cordel, Paulo Freire, O menino à sombra da mangueira e o mundo; A História de Paulo Freire e Paulo Freire Mestre dos Mestres.
A cena correu mundo: Bolsonaro e seus asseclas comendo numa rua de Nova York.
Pizza. Na rua porque ele e os seus foram impedidos por lei de comer nos
restaurantes da cidade.
O motivo que gerou essa cena foi simples: o tal não estava vacinado contra o
novo Coronavírus.
Triste, muito triste, saber que o mundo todo tira sarro do Brasil. De nós, que
trabalhamos e pagamos impostos regiamente.
Entre os membros da comitiva do presidente à ONU, estava o ministro da
saúde.
O ministro Marcelo-não-sei-o-quê protagonizou cena particular que à todos nos
horrorizou, ao estirar obscenamente o dedo a brasileiros que chamavam
Bolsonaro de "assassino" e "genocida".
Esse ministro da Saúde é o mesmo que há poucos dias determinou a suspensão de
vacinas contra o novo Coronavírus no braço dos adolescentes.
Esse aí é o mesmo que se sente bem pendurado no saco do presidente. Que
vergonha!
Ao tentar voltar ao Brasil, Marcelo-num-sei-o-quê foi flagrado com o vírus no corpo. Resultado: está em quarentena num quarto de hotel em Nova York.
Não dá pra esquecer: em 1931 foi gravado, pela primeira vez o chorinho Tico Tico no Fubá, do paulista de Passa Quatro, Zequinha de Abreu.
Essa gravação despertou, primeiramente, a atenção da portuguesinha naturalizada Carmem Miranda. E depois dela, o mundo todo tomou conhecimento de Tico Tico no Fubá, que era pra ser chamado de Tico Tico no Farelo.
A Colbaz, cujo nome tem a ver com a extinta gravadora Colúmbia, tinha como líder, o maestro e arranjador Gaó, Odmar Amaral Gurgel(1909-1992).
Zequinha, de batismo José Gomes de Abreu foi um artista que ganhou projeção mundial depois que partiu para a eternidade.
A cidade paulista Santa Rita do Passa Quatro é uma das 12 estâncias climáticas do Estado, localizada a cerca de 250 quilômetros da capital. Foi lá que nasceu no dia 19 de setembro de 1880 o compositor e pianista José Gomes de Abreu, o Zequinha de Abreu, que ganhou notoriedade mundial com o choro Tico-Tico no Fubá, de sua autoria, gravado pela primeira vez no começo de 1931 pela Orquestra Colbaz e, depois, por centenas de intérpretes nacionais e estrangeiros, de Carmen Miranda ao maestro Roberto Inglez (aí ao lado, na reprodução do selo do disco original feito em Londres), Ethel Smith, Alberto Semprini, Georges Henry e, mais recentemente, por uma malaia, JIt San, de seis anos de idade que o interpreta de modo incrível num instrumento chamado Electone. Clique:
Tico-Tico no Fubá, que era para se chamar Tico-Tico no Farelo, foi apresentado com letra, de Eurico Barreiros, pela primeira vez pela cantora Ademilde Fonseca (à direita, na reprodução do selo do disco), em setembro de 1942.
Zequinha de Abreu, cuja mãe o queria padre e o pai, médico, morreu no dia 22 de janeiro de 1935.
Hoje 18 estão se completando exatos 40 anos do desaparecimento do pernambucano de Recife, Marcos Cavalcanti de Albuquerque, o Venâncio da famosa dupla com Corumba.
Venâncio nasceu em 07 de outubro de 1909 e logo cedo decidiu que seria artista.
Tinha 19 anos de idade quando conheceu Manoel José do Espírito Santo, que se tornaria conhecido como Corumba.
Venâncio e Corumba compuseram muitas músicas, entre elas alguns clássicos como os baiões Boi na Cajarana (1952) e "Último pau-de-arara"(1956).
No correr do tempo, Venâncio separou-se de Corumba depois de 40 anos de parceria, em 1968.
Os dois seguiram desenvolvendo atividades relacionadas à música.
Em 1970, Venâncio criou a ARPOFOB (Associação de Repentistas, Poetas e Folcloristas do Brasil).
O baião Boi na Cajarana, de tanto sucesso que fez, terminou por virar mote no chamado mundo da cantoria.
"O Venâncio me inspirou a fundar a UCRAN – União dos Cantadores, Repentistas e Apologista nordestinos, que reúne profissionais da área residente em São Paulo", diz o profissional da viola repentista Sebastião Marinho.
JORNALISMO/JORNALISTAS
Apesar dos riscos naturais, o jornalismo continua sendo importante na vida de qualquer sociedade.
O jornalismo está em todo canto. Está onde o fato está.
Ontem, completaram-se oito anos do encantamento do jornalista Lourenço Diaféria. . O texto continua repercutindo. Bom. Os coleguinhas Simão Zygband e Selma Nunes, compartilharam o nosso blog com seus leitores.
Enquanto isso Carlos Sílvio continua impossível, em batepapos, imperdíveis. Os dois últimos entrevistados dele foram a angolana Neusa e Silva e o paulistano Rivaldo Chinem.
Neusa, ex-aluna do norte-americano Bill Hinchberger falou e falou bastante sobre jornalismo investigativo. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=Bqr-Wp5kEsY&t=625s .Rivaldo lembrou algumas passagens do tempo de repórter diário e revelou que um dia seu amigo Tim Lopes contara-lhe que andava com medo das reportagens que estava fazendo. https://www.youtube.com/watch?v=ItgPkG9GP74
Nestes tempos malucos em que o presidente da República chama o Exército
brasileiro de “meu”... Nestes tempos malucos de fome e guerras absurdas
que matam homem, mulher e criança, brancos e pretos…
Neste mês de
setembro, quando o mundo lembra os 20 anos do ataque terrorista às Torres
Gêmeas, que mataram quase 3 mil pessoas, de Manhattan, não custa também
lembrar que foi num mês como esse que Lourenço Diaféria foi preso acusado de
“manchar” a imagem do nosso brioso Exército. Lourenço Diaféria foi um
mestre da crônica jornalística e essa acusação “rendeu-lhe”, lamentavelmente,
enquadramento na Lei de Segurança Nacional, LSN. Antes do enquadramento,
o chefe militar de gabinete do governo de Geisel (1974-1979), Hugo de Abreu,
telefonou ao dono do diário Folha de S.Paulo, Octavio Frias de Oliveira
(1912-2007), ameaçando fechar o jornal. A Folha era editada por Cláudio
Abramo (1923-1987), cuja a cabeça foi pedida pelo militar. No lugar de
Abramo ficou Bóris Casoy, que se identificava plenamente com o regime da
época.
Depois de muita confusão, depois de muita polêmica, Lourenço
acabou solto por decisão do Supremo Tribunal Federal, STF. A crônica
Herói. Morto. Nós., que entrou para os anais da história, rendeu também a seu autor um chute na
bunda. Quer dizer: demissão do jornal onde trabalhava. Eu conheci
Lourenço na Folha, em 1977. A amizade seguiu firme por outros lugares:
JT, Diário Popular… Foi não foi, Lourenço me citava em suas crônicas.
Levantava a bola, como se diz. Um dia, pedi-lhe que escrevesse um texto
de apresentação para o livro que eu estava em vias de publicar:
Nordestindanados, Causos e Cousos de uma raça de cabras da peste (1992). E em
três páginas, sob o título Como um Gosto de Tapioca, ele começou:
“Este é mais um livro do mais paulistano dos paraibanos. Vivendo uma
diáspora sentimental em busca de melhores perspectivas de trabalho, Assis
Ângelo, o autor, não abandona as raízes, a placenta e o umbigo viscerais de
seu modo nordestino de ser. A escritura de Assis Ângelo tem a umidade
fecunda que banha a lâmina ao talhas a palma do xique-xique. Como não é
romance, nem novela, nem autobiografia, nem relatório de serviço, a primeira
vantagem deste livro é que as páginas podem ser lidas sem sequência, de trás
para frente e vice-versa. Todavia, se alguma página for saltada, e não for
lida, o leitor ficará sem saber algumas coisas que o tornarão mais rico de
conhecer a alma de um autor. Por vezes, são anotações quase fortuitas,
temperadas em meia dúzia de palavras, escritas, aparentemente, como rubricas
de uma vida”
No seu delicioso texto, sempre na linha de loas, conclui: “Este
livro nada tem de empombado. Não pretende ser um ensaio. Muito menos tratado.
É simples, como a tapioca. Mas para fazer igual é preciso ter estrada. Ser
filho de dona Anunciada. Ter ido a trezenas de santos infinitos a rogo de dona
Alcina. Ter sabido ganhar e perder na vida. E ter aprendido a receita de saber
dosar com emoção o recheio do alimento sertanejo”. O pai de Lourenço era
italiano e a mãe, portuguesa. O resultado dessa mistura deu no que deu:
um cidadão explicadíssimo à vida, de olhares sensíveis ao cotidiano da cidade
que lhe deu berço. Nascido no dia 28 de agosto de 1933. “Não havia lugar
melhor pra nascer, a não ser o bairro paulistano do Brás”, disse-me uma
vez. Lourenço Diaféria, de batismo Lourenço Carlos Diaféria, cresceu
brincando e chutando bola, como qualquer moleque de infância comum. Pelo gosto
do pai, seria advogado. “A minha mãe não ligava muito pra isso, ela dizia não
querer interferir na minha escolha profissional. Bastava-lhe que eu fosse uma
boa pessoa, sem inimigos”, lembrou. Lourenço começou, mas não terminou o
curso de jornalismo na Cásper Líbero. Em 1956, inscreveu-se num concurso
para redator do extinto Folha da Manhã, hoje Folha de S.Paulo. Passou, trancou
o curso que também iniciara na USP, e seguiu firme na mesma profissão que seu
pai exercia no começo dos anos 20, quando chegou da Itália e escolheu o Rio de
Janeiro para morar. Lourenço Diaféria era onipresente. Estava em todo
lugar. Ele via tudo e tudo anotava com descrição: as pessoas, os animais, a
chuva, o sol, o vento, tempestades, caras feias e bonitas, sem falar dos
monumentos espalhados pela cidade, dos teatros, dos cinemas, dos jardins...
Foi um cronista completo. As palavras ele colhia do seu jardim
particular, que regava com dedicação e amor. Em 2000, o Jardim da Luz
completou 200 anos. Para comemorar a data, o cartunista Fausto
desenvolveu uma obra gigantesca em que aparecem pessoas que marcaram a cidade.
Pessoas simples, inclusive. E lá está Lourenço. Lourenço fazia das
palavras suas amigas. Da mesma maneira que ele cuidava delas, por elas era
cuidado. Ele sempre pôs as palavras no lugar certo, nos lugares certos.
Elas não o surpreendiam. E vice e versa. Era um craque, um verdadeiro
jardineiro do Lácio. Lourenço foi jornalista, cronista, romancista... Deixou
uma montanha de belos livros, entre os quais: Empinador de Estrelas, Um Gato
na Terra do Tamborim e Coração Corinthiano. Foi um grande corinthiano.
Sabia tudo e algo mais sobre o Timão. Quando um dia dispensaram sua
crônica do Diário Popular, sem justa causa, sem motivo algum, escrevi uma
carta que o jornal publicou. Nela mostrei a minha insatisfação, o meu desgosto
como leitor. No dia seguinte, pra minha surpresa, recebi uma carta do mesmo
Lourenço agradecendo o que eu fizera. Ele começava dizendo: “Querido Ângelus”.
Ângelus, na verdade Di Ângelus, foi um dos pseudônimos que usei nos meus
tempos de artista plástico. Quando uma equipe da TV Gazeta me procurou
pra falar do bairro do Brás, lembrei-me do livro de Lourenço: Brás - Sotaques
e Desmemórias.
Lourenço Diaféria morreu no dia 16 de setembro de 2008. Morreu não,
encantou-se Ah! Sim: seus pais eram Filipe e Maria. Grande Lourenço!