José Ramos Tinhorão era um jornalista dono de uma bagagem intelectual invejável. Era um erudito, podemos dizer. Saia-se bem em espanhol, italiano, inglês e francês, que conseguia falar sem sotaque e escrever sem erros gramaticais. Deixou publicados 29 livros, todos tratando a fundo sobre música popular, o primeiro (Música Popular - Um Tema em Debate) lançado em 1966. Era propósito de Tinhorão fechar o ciclo de pesquisas que iniciou em fins dos anos de 1940 com um livro sobre licenciosidade ou "putaria", como dizia fazendo graça aos amigos mais próximos. Ele achava um barato e como tal respeitava os cordelistas, também chamados de "poetas de bancada". De fato, os cordelistas são grosso modo bastante inspirados. A literatura de cordel é classificada por ciclos temáticos: religião, cangaço, guerra, política, personalidades, esporte, erotismo, feitiçaria, gracejo e tal. Dentre o material "garimpado" para fechar seu próprio ciclo como pesquisador ou historiador como preferia ser chamado e não como crítico musical, Tinhorão começou a reunir folhetos de cordel e livros nacionais e estrangeiros que tratassem de putaria. Foi assim que caíram em suas mãos Manoel Monteiro, Franklin Maxado, Klévisson Viana, Bastinha Job, Dalinha Catunda e outros. No folheto de oito páginas Um Jumento e Duas Doidas as autoras, em peleja, se desafiam numa quase agressão. Começa assim:
DALINHA CATUNDA Eu sou nordestina Da cabeça chata Raiva não me mata E nem me alucina Olhando sua crina Pensei em montar Se me derrubar Não tem nem talvez Até lhe amansar
BASTINHA JOB
Também sei montar Cedinho aprendi Jamais esqueci Achei bom trepar Melhor é gozar De tanto prazer Corpo e alma gemer Sentir alegria Que até contagia Quem meu verso ler!...
O paraibano Manoel Monteiro sustentou a família publicando e vendendo folhetos Nordeste afora. Era chegado a gracejos e até explícito nas suas incursões que fazia no campo erótico. Em Mulher Gosta de Ouvir, por exemplo, indicava já na capa ser "impróprio para menores de 90 anos". Veja:
Qual a mulher que não gosta De ter o homem que ama Com o corpo nu sobre o seu No vai e vem duma cama Ofegante e meio torpo Com as mãos a roçar-lhe o corpo E a boca a sugar-lhe a mama?...
É provável que você já tenha ouvido falar em Casanova, Giacomo Casanova. É provável que você nunca tenha ouvido falar em Aretino, Pietro Aretino. Casanova e Aretino amavam amar mulheres e escrever tudo que sentiam e viam ao derredor. Os dois tinham em comum, além disso, o fato de serem italianos. Viveram, porém, em tempos diferentes. Casanova nasceu em 1725 e morreu em 1798. Seu livro mais conhecido é A História de Minha Vida, em quase 4 mil páginas manuscritas. Aretino morreu em 1556, aos 64 anos de idade. Seu livro mais conhecido é Sonetos Luxuriosos. Casanova tinha um ídolo: Pietro Aretino. Para Casanova, acabo de gerar o poeminha abaixo:
Como expressão artística, a licenciosidade se acha em tudo quanto é língua no vasto campo da cultura popular e erudita. Seja na música, na dança, na poesia, no romance e em todo canto mais.
A poesia popular é a poesia feita por pessoas não letradas, sem nenhuma ou pouca frequência nos bancos escolares; ao contrário do que podemos classificar de erudito ou erudita.
Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Drummond eram eruditos, por exemplo.
A licenciosidade como tal conhecemos e chamamos se acha nas culturas espontâneas ou fabricadas desde os tempos de tresontonte, também conhecido como tempo em que galinha tinha dente e voava que nem águia.
Até hoje o Brasil gerou centenas de ótimos poetas populares como Leandro Gomes de Barros, Zé da Luz, Patativa do Assaré, Manoel Monteiro, Franklin Maxado, Klévisson Viana, Marco Haurélio.
Populares aí falei de homens, mas não são poucas as mulheres que se aventuram nesse campo. Entre essas Dalinha Catunda (Maria de Lourdes Aragão Catunda), Bastinha Job (Sebastiana Gomes de Almeida Job), Nevinha (Maria das Neves), que entrou para a história da cultura popular ao publicar o primeiro folheto intitulado O Violino do Diabo ou o Preço da Honestidade. Ela usava o pseudônimo do marido. Mas essa é outra história.
Confesso que achei meio esquisito, pois ainda não me acostumei a certas coisas. Digo isso porque nem bem cheguei à casa e logo fui cercado pelos amigos que atropeladamente perguntavam o que havia ocorrido comigo. Pedi calma. Contei que fizera uma viagem de última hora à Grécia. Deu tudo certo, não fosse a irresponsabilidade que me levou a esticar as pernas até Israel. Eu jurara a mim mesmo que na primeira oportunidade iria pagar pecados de amigos no Muro das Lamentações. Eu nem acabara de dizer isso, justificando minha ausência na casa, os amigos caíram na risada.
"Desculpa, chefe", disse se levantando o brutamontes Lampa, acrescentando: "Desculpa de novo, mas eu não consigo imaginar o chefe ajoelhado rezando num muro e pedindo a Deus que apague os pecados dos amigos!".
Dessa vez fui eu que não aguentei e caí na gargalhada. Outros me acompanharam.
Zilidoro pediu a palavra e antes mesmo que todos cedessem o aparte pedido, foi logo dizendo que Lampa estava enganado. Explicou: "Lá no Muro pecador não se ajoelha pra rezar".
"Lampa é uma besta!", falou em voz alta Barrica. Bil, seu irmão, disse que Lampa é uma besta mesmo. E nem acabara de dizer isso, Lampa deu um pulo do tamborete ameaçando: "Se repetir eu te sangro!".
Barrica repetiu.
Lampa, suando e babando feito um bicho, partiu pra cima dos irmãos Barrica e Biu.
Tumulto feito, Lampa foi imediatamente imobilizado. E desarmado.
A turma do chega disso, que somos todos nós, evitou que algo grave pudesse acontecer.
Ânimos acalmados, pedi que Barrica e Biu se desculpassem apertando a mão de Lampa.
Com cara de poucos amigos, Lampa apertou a mão dos irmãos cuspindo de lado. E resmungando disse: "Na próxima não vou apertar a mão de feladaputa nenhum".
Bom pessoal, recomecei. Faltei a várias reuniões porque fiquei preso em Israel.
Zoião, Zé, Jão e Mané se levantaram e curiosos perguntaram em uníssono: "Seu Assis, o Sr. viu a guerra?".
Não só vi, eu disse, escapei dela no primeiro avião que pude.
E todos bateram palmas.
Encerrando, Zilidoro abriu a boca pra dizer que "Estamos no fim do mundo!".
Não pude ficar indiferente à fala de uma mulher que eu saberia em seguida ser de origem palestina. Rosto antigo de quem sofre muito, machucado. Voz trêmula, balbuciante, disse: "Mas consegui salvar uma tartarugazinha e quatro passarinhos, estes aqui".
Chorar não chorei, mas o talo do gogó deu-me um nó que tocou fundo na minha alma. Fiquei com cara de paisagem, tentando entender o que ocorria no íntimo daquela mulher que tinha uns 80 anos de idade. Eu a ouvi num canal de TV.
O canal de TV onde falou essa mulher mostrava, além dela um amontoado imenso de destruição. Prédios no chão, caídos e corpos espalhados ao Deus dará. Um horror! A cena lembrou-me Dante e o Inferno que criou.
Enquanto a mulher falava, ao fundo ouviam-se estouros de bombas e pipocar ensurdecedor de balas de metralhadora.
Zapeando, encontrei outros canais. Em um deles aparecia o primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, dizendo que o Hamas vai aniquilar-se por completo. O Hamas, por sua vez, tem jurado e espalhado aos quatro ventos que nem cinzas restarão de Israel.
Pois é, está na Bíblia: olho por olho, dente por dente.
Enquanto isso, as guerras continuam engolindo inocentes.
Ah! Sim: não sei se a mulher da tartaruga e dos passarinhos sobreviveu após a entrevista à TV.
Menino novo que sou e memória boa que tenho lembro como se fosse hoje das primeiras lições de Bê-á-bá que a dona Margarida me deu já no primeiro dia de aula, em Alagoinha, PB. Dizia: um b com a... Dias depois, avançando nos estudos, a professora pedia pra repetir: Ivo viu a uva... Pois bem, essas histórias continuam ilustrandi as paredes da minha memória. Ontem 8 acompanhei a aprovação da Reforma Tributária no Senado. No placar: 53 × 24. Foi quando me lembrei do Ivo. Vamos fazer de conta de que Ivo é Iva e Ivo é Ivo mesmo. Ivo representa o governo que temos e Iva é o povo que ganha nada ou muito pouco. Na reforma em pauta IVA é a sigla Imposto sobre Valor Agregado. Esse imposto reunirá IPI, PIS e tal. Ouça:
Você sabe quem foi o cantor e compositor Pensamento da Silva?
Esse artista, paulistano, nasceu no dia 8 de novembro de 1945. E quando morreu tinha 46 anos de idade.
Esse Silva começou a carreira de cantor cantando em programa de calouros. Seu primeiro disco foi um compacto simples com as músicas A partida e Quero te dar meu Coração. Saiu pela extinta RCA. Nesse disco, o artista foi acompanhado musicalmente pelo grupo Os Iguais. Não vendeu horrores, mas deu para o gasto.
A essa altura o público começava a conhecer o jovem Antônio Marcos.
Conheci de perto Antônio Marcos. Era um cara bom, tranquilo, em paz com a vida. Estava sempre com a língua molhada de álcool. Mas era bom de papo, conversador. Eu o definiria como uma pessoa ótima. Foi casado com a cantora Vanusa, com quem teve 2 filhos.
Antônio Marcos deixou vários sucessos, um desses entrou para a história da música romântica. Título: Como Vai Você, lançada por Roberto Carlos em 1972.
O cantor e compositor baiano Dorival Caymmi, um dos nossos grandes cidadãos, adorava não fazer nada. Mas o nada que ele fazia, nunca ninguém fez. Exemplo?
Caymmi, que tive o prazer de entrevistar para o programa que eu apresentava na Rádio Capital, partiu para a Eternidade deixando uma obra pequena em tamanho e densa na qualidade... E aí perguntei ao mestre sobre o seu esporte predileto, o de não fazer nada. E ele, rindo uma risadinha sacana, disse apenas: "Pois é, Assis, ninguém me chama pra nada".
Não era para tal, mas até hoje me surpreendo com notícias sobre guerras.
Pra mim, guerra é coisa do Capeta.
Grandes escritores brasileiros, como Joel Silveira e Zé Hamilton Ribeiro, cobriram guerras. Joel, que era empregado de AssisChateaubriand, cobriu parte da Segunda Guerra Mundial. Zé Hamilton, repórter da Realidade, foi enviado ao Vietnã.
No momento há várias guerras rolando mundo afora. Umas lá pelos lados africanos, outras na Europa e Oriente Médio. A mais recente foi deflagrada há um mês.
No dia 7 de outubro deste quase findo 2023, os incendiários do ultra-violento e radical grupo Hamas invadiram a parte sul de Israel provocando a morte de pelo menos 1,5 mil homens, mulheres e crianças. A resposta israelense foi imediata.
Formalmente declarada, o sangrento conflito já gerou pelo menos 10.000 mortos. Ou 11.000? Ou 12.000...
Verdade é que oficialmente ninguém sabe quantos mortos essa maldita guerra já gerou.
Israel, pedaço de terra que fica ali nas proximidades de Canaã, vive em sangue há milhões de anos.
Nessa terra Jesus, Maria e José puseram os seus santos pés.
Antes de crescer, o filho famoso de Maria e José foi levado em fuga ao Egito governado tempos atrás pela majestosa Cleópatra, filha de Ptolomeu XII.
Como rainha do Egito, Cleópatra desposou o ditador Júlio César e depois o General Marco Antônio, com quem teve pelo menos três filhos. Mas essa é outra história.
Jesus, depois de batizado por João no Rio Jordão, saiu por lá pregando pela paz. Mas não deu certo, como se vê...
Mexendo nos arquivos do Instituto Memória Brasil encontrei um exemplar da extinta Realidade, revista que marcou época. Durou
10 anos, de 1966 a 1976. O exemplar achado, de n° 33 de dezembro de 1966, traz na capa o rosto do revolucionário Luis Carlos Prestes (1898-1990). E uma chamada à leitura de uma bela reportagem escrita pelo saudoso Eurico de Andrade (1940-2005), ex-diretor de jornalismo da Globo de São Paulo e Rio de Janeiro.
A reportagem em pauta tratava da história de Israel, Estado fundado em 1948.
Junto com Israel, era também pra ser criado o Estado da Palestina. Não foi e o resultado é bomba pra lá e pra cá e gente inocente morrendo à toa.
O título da reportagem de Eurico é Israel: Paz e Guerra no Kibutz. Começa assim:
Eles abandonaram seus cursos, deixaram seus países, mudaram seus valores, adotaram uma nova língua. Vieram construir o lar nacional judeu. Em Bror Chail — fazenda coletiva israelense —, nosso repórter Eurico Andrade presenciou o resultado da fusão do jeitinho brasileiro com os ideais socialistas e a mística da Terra Prometida. Em Israel, esse pequeno país encravado entre o mar, o deserto e a morte, 85 mil pessoas vivem na fazenda
GUERRA E PAZ NO KIBUTZ
Centenas de brasileiros já foram repatriados. Outros, deverão voltar ao Brasil ainda nesta semana.
Enquanto isso o presidente da Ucrânia lamenta o fato de a guerra declarada por Israel ao Hamas venha desviando a atenção da guerra da Rússia contra o seu país. Ele disse: “É claro que está claro que a guerra no Médio Oriente, este conflito, está tirando o foco”.
Isso tudo me faz lembrar a definição de guerra feita pelo filósofo francês Charles Voltaire (1694-1778): "A guerra é o pior dos crimes, mas não existe agressor que não disfarce seu crime com pretexto de justiça".
O dia 5 de novembro, hoje, foi escolhido para refletirmos sobre a língua que falamos. A língua portuguesa é língua antiga. Surgiu na Península Ibérica, durante a ocupação dos mouros. É resultado do latim vulgar, que também gerou o galego. Todo mundo diz que a língua portuguesa é uma língua difícil. E é. Era a língua de Camões. A propósito, sobre Camões proferi palestra na Biblioteca Mário de Andrade. Foi legal. Veja e ouça:
Como expressão artística, a licenciosidade se acha em tudo quanto é língua no vasto campo da cultura popular e erudita. Seja na música, na dança, na poesia, no romance e em todo canto mais. A poesia popular é a poesia feita por pessoas não letradas, sem nenhuma ou pouca frequência nos bancos escolares; ao contrário do que podemos classificar de erudito ou erudita. Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Drummond eram eruditos, por exemplo. A licenciosidade como tal conhecemos e chamamos se acha nas culturas espontâneas ou fabricadas desde os tempos de tresontonte, também conhecido como tempo em que galinha tinha dente e voava que nem águia. Até hoje o Brasil gerou centenas de ótimos poetas populares como Leandro Gomes de Barros, Zé da Luz, Patativa do Assaré, Manoel Monteiro, Franklin Maxado, Klévisson Viana, Marco Haurélio. Populares aí falei de homens, mas não são poucas as mulheres que se aventuram nesse campo. Entre essas Dalinha Catunda (Maria de Lourdes Aragão Catunda), Bastinha Job (Sebastiana Gomes de Almeida Job), Nevinha (Maria das Neves), que entrou para a história da cultura popular ao publicar o primeiro folheto intitulado O Violino do Diabo ou o Preço da Honestidade. Ela usava o pseudônimo do marido. Mas essa é outra história. José Ramos Tinhorão era um jornalista dono de uma bagagem intelectual invejável. Era um erudito, podemos dizer. Saia-se bem em espanhol, italiano, inglês e francês, que conseguia falar sem sotaque e escrever sem erros gramaticais. Deixou publicados 29 livros, todos tratando a fundo sobre música popular, o primeiro (Música Popular - Um Tema em Debate) lançado em 1966. Era propósito de Tinhorão fechar o ciclo de pesquisas que iniciou em fins dos anos de 1940 com um livro sobre licenciosidade ou "putaria", como dizia fazendo graça aos amigos mais próximos. Ele achava um barato e como tal respeitava os cordelistas, também chamados de "poetas de bancada". De fato, os cordelistas são grosso modo bastante inspirados. A literatura de cordel é classificada por ciclos temáticos: religião, cangaço, guerra, política,
personalidades, esporte, erotismo, feitiçaria, gracejo e tal. Dentre o material "garimpado" para fechar seu próprio ciclo como pesquisador ou historiador como preferia ser chamado e não como crítico musical, Tinhorão começou a reunir folhetos de cordel e livros nacionais e estrangeiros que tratassem de putaria. Foi assim que caíram em suas mãos Manoel Monteiro, Franklin Maxado, Klévisson Viana, Bastinha Job, Dalinha Catunda e outros. No folheto de oito páginas Um Jumento e Duas Doidas as autoras, em peleja, se desafiam numa quase agressão. Começa assim:
DALINHA CATUNDA
Eu sou nordestina Da cabeça chata Raiva não me mata E nem me alucina Olhando sua crina Pensei em montar Se me derrubar Não tem nem talvez Até lhe amansar
BASTINHA JOB
Também sei montar Cedinho aprendi Jamais esqueci Achei bom trepar Melhor é gozar De tanto prazer Corpo e alma gemer Sentir alegria Que até contagia Quem meu verso ler!...
O paraibano Manoel Monteiro sustentou a família publicando e vendendo folhetos Nordeste afora. Era chegado a gracejos e até explícito nas suas incursões que fazia no campo erótico. Em Mulher Gosta de Ouvir, por exemplo, indicava já na capa ser "impróprio para menores de 90 anos". Veja:
Qual a mulher que não gosta De ter o homem que ama Com o corpo nu sobre o seu No vai e vem duma cama Ofegante e meio torpo Com as mãos a roçar-lhe o corpo E a boca a sugar-lhe a mama?...
Pois bem, Woile Guimarães é um cidadão paulista de Glycério. Glycerense. Essa cidade fica a quase 500km da Capital paulistana. Em 1975, ano do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, Woile tinha uns 30 e poucos anos e trabalhava na TV Globo. Ficou nessa TV durante década e meia. Chegou a ser editor do JN. Tem muita história pra contar.
É casado com a jornalista Regina que conheceu em 1977 nos seus tempos de TV Plim Plim.
Regina e Woile estiveram ontem 2 enchendo de alegria minha casa.
Woile deixou marca indelével na histórica revista Realidade, da hoje falida Abril. Ele lembra:
"Essa revista foi muito importante. Inovou no jornalismo com pautas ousadas e textos desenvolvidos muitas vezes na primeira pessoa. Provocou polêmicas ao discutir o aborto, por exemplo".
Nesse momento, lembrei do saudoso amigo Antonio Severo que um dia me disse ter pulado de um avião para, com emoção, escrever uma reportagem sobre paraquedismo.
Ainda nesse momento lembrei que Audálio Dantas contando como fizera uma reportagem com o compositor Adoniran Barbosa, levando-o a "passear" nos subterrâneos da estação Sé do metrô.
Essa reportagem de Audálio foi uma das últimas da revista Realidade.
Enquanto conversávamos sobre jornalismo, a coleguinha Regina mexia nas prateleiras do nosso acervo à procura de exemplares da revista. De repente, radiante anunciou ter achado números com o nome de Woile no expediente. Woile riu, orgulhoso. Disse:
"O primeiro número dessa revista, trouxe na capa o rei Pelé. Muita coisa legal foi feita lá. Para tristeza de todos nós a Realidade mostrou em capa o repórter Zé Hamilton todo ensanguentado ao ser ferido no Vietnã".
O encerramento das atividades da revista Realidade, em 1976, deixou os leitores aflitos sem saber a razão de tal decisão.
No lugar da Realidade se acha até hoje a Veja, que foi às bancas pela primeira vez no dia 11 de setembro de 1968. Nascido no dia 15 de dezembro de 1938, Woile muito cedo trocou a cidade de origem por Marília (SP), berço do cantor, compositor e instrumentista Sérgio Ricardo. Sim, isso mesmo: Sérgio foi aquele camarada que irritado com a platéia que o vaiava num Festival de Música quebrou o violão numa pancada e meia. Sérgio Ricardo foi uma figura maravilhosa, marcante. A última vez que me encontrei com Woile foi a vez em que saímos juntos com o saudoso Audálio Dantas e sua mulher Vanira, mãe da bela Mariana e da coleguinha jornalista Juliana. Ontem falamos, falamos, falamos e até declamar, declamei. Declamei poesia de cego que compus como Poema dos Olhos.
Atualizada em questões diversas, Regina falou com tristeza até sobre os ataques do Hamas a Israel. Lá pras tantas, na base da conversa que vai e vem, Woile contou histórias que têm gosto de causo.
Entre as histórias uma que tem o ex-todo poderoso da Globo, Boni: o telefone toca, alguém atende e chama Woile. É o Boni. Antes de concluir a frase "como vai, tudo bem...?" do outro lado uma voz enrolada dizia "Tudo bem porra nenhuma, seu filho disso e daquilo!". Woile tascou na mesma moeda: "Seu filho disso e daquilo é você e sua raça toda!" e bateu o telefone.
Ao bater o telefone, Woile imediatamente ligou para o seu chefe mais próximo: Armando Nogueira. Disse que certamente seria demitido por ter feito o que fez. Era Carnaval e por ser Carnaval Woile meteu na telinha uma insinuante e colorida bunda feminina. Boni não gostou.
Woile não foi demitido nem nada.
Como sempre fazemos os jornalistas da Velha Guarda quando nos encontramos, criticamos uns aos outros pelos erros gramaticais muitas vezes gritantes ditos no Rádio e TV. E como já não há mais a categoria de revisores nos jornais, os erros impressos grassam. Sem falar no notório despreparo de muitos coleguinhas, cuja maioria sabidamente não gosta de ler livros. É como se para eles não houvesse curiosidade. Ora! Sem curiosidade não há conhecimento e sem conhecimento não se vai decentemente a lugar nenhum.
Há pouco o que ver e ouvir hoje no rádio e TV.
O rádio continua sendo um veículo muito dinâmico. Ao contrário da TV. A Internet veio pra pôr ordem e desordem na coisa. Ordem no sentido de chamar a atenção do rádio e da TV para que primem pelos programas e profissionais que apresentam.
Na TV faltam bons programas. E por falar em bons programas, acaba de se findar o Podcast Foro de Teresina. Programaço! Durou 5 anos e meio e o motivo foi a demissão da jornalista Thais Bilenky e o pedido de demissão do jornalista José Roberto de Toledo. Ouça:
O curioso disso tudo é que até há pouquíssimo tempo não havia um hino enaltecendo esse veículo. Pensando nisso, Jarbas Mariz e eu compusemos O Samba do Rádio.
Ah! Sim: Woile deu amor à Regina que lhe deu filhos que lhes deram netos... O homem é ou não é feliz?
Agora meu amigo, minha amiga, ouça o sambinha que fizemos:
O que passa rápido, nós ou o tempo? Não sou filósofo, não sou nada, mas acho que o tempo não passa; nós é que passamos. Passei quase todo o meu tempo ouvindo dizer que o tempo não espera, que o tempo passa rápido e tal. E a máxima: o tempo é o Senhor de tudo. Pois bem, num pano rápido, posso dizer que parece que foi ontem que morreu Carmélia Alves. Hoje 3 completam-se 11 anos do encantamento definitivo da cantora que entrou para a história da nossa música popular como a Rainha do Baião. Eu gostava muito de Carmélia. Era carioca filha de nordestinos. Sua voz era muito bonita, muito afinada. Interpretava tudo que quisesse: samba, marchinha de carnaval, frevo, toada, forró e baião. E até bossa-nova. Nesse rítmo e gênero chegou a gravar, em 1964, um LP inteirinho. No repertório do disco incluiu até uma música de Geraldo Vandré: Quem quiser encontrar o amor. A Rainha do Baião morreu esquecida, viúva e sem ninguém, no Retiro dos Artistas, RJ. No último 14 de fevereiro ela teria completado 100 anos de idade.
Seja qual for a sua área de atuação, o artista pertence a uma categoria de pessoas sempre inspiradas e prontas, naturalmente, a inspirar outras pessoas. Cantor, compositor, bailarino, ator, cineasta e até assoprador de apito, me entusiasmam. E o que dizer de desenhista, pintor, escultor e cartunista? O cartunista Fausto Bergocce é um dos mais sensíveis e criativos artistas do traço que conheço. Fausto está sempre com uma ideia nova nos fazendo pensar e rir. Ele leva tudo ou quase tudo na brincadeira, mas sempre com olhar arguto, crítico. "Estou deixando um pouco de lado o cartum. Não é por nada, não. É que estou chegando neste mês de novembro aos 71 anos de idade. Quero relaxar mais", ele diz. Fausto e eu acabamos de levar à praça o livro Histórias de Esquina. O prefácio é assinado pelo craque da batuta Julio Medaglia. E como quem não quer nada, rindo, Fausto conta que acaba de gerar mais uma exposição com suas ideias e quer espaço para mostrá-la.. Trata-se de Reginópolis em Boas Mãos. Já pelo título, posso afirmar que essa exposição dará muito o que falar. Não à toa, os 41 personagens nela enfocados são parte da nossa história recente. São eles: Rivelino, Oswaldo Mendes, Inácio de Loyola Brandão, Maurício de Souza, Júlio Medaglia, Paulo Carneiro, Lázaro Ramos, Vitor Nuzzi, José Augusto Lisboa, Assis Ângelo, Rubens Chiri, Alexandre de Paula e Caio Miranda, Trio Gato com Fome, Custodio Rosa, Santiago, Zélio Alves Pinto, Ridaut Dias Jr, Eulália Pinheiro, Odair Batista, Jose Ramos Tinhorão, Nani, José Maria Mayrink, Antonio Moura Reis, Hermano Henning, Oswaldinho da Cuíca, Xavier de Lima, Jorge Nagao, Carlos Alberto Barbosa, Dilené Barreto, Cris Tomaz, Anastácia, Fátima de Morais, Célia e Celma, Kydelmir Dantas, Ziraldo, Henrique Perazzi de Aquino, Edson Mauro, Levi Ramiro, Paulo Vitale, Valdek de Garanhuns, Fausto Bergocce, Solenne Deringound, Rômulo Nóbrega. Todo o conteúdo da exposição Reginópolis em Boas Mãos, integrará o acervo Escola Municipal Regina Olinda Martins Ferro. "Nessa escola eu estudei e fiz boas amizades no meu tempo, digamos, de juventude. O mínimo que posso fazer é deixar essa exposição para que os novos alunos conheçam um pouquinho de São Paulo e do Brasil através dos seus personagens", finaliza Fausto.
Cá pra nós, essa exposição tem tudo para circular Brasil afora. É isso aí!
O município paulista de Reginópolis fica a cerca de 400km da Capital paulista.
No dia 1° de novembro de 1755, o Nordeste brasileiro foi atingido por ondas gigantescas matando tudo em volta. Só o sol e a lua escaparam, aparentemente. E peixes graúdos do mar. O que ocorreu naquela data, meus amigos e minha amigas, foi um tsunami. Sim, isso mesmo: um tsunami gigante e bravo, violento, poderoso e assassino.
A violência desse tsunami alcançou várias praias paraibanas, entre essas a praia de Lucena.
Lucena é o nome de um município localizado a pouco mais de 50km da Capital, João Pessoa. Bom, no começo, ele acrescentava ao nome o sobrenome do Estado em que nasceu: Paraíba. A fama do nosso personagem começou quando lançou à praça o primeiro LP pela extinta CBS, em 1978. Estou falando do cantor, compositor e instrumentista Zé Ramalho. Zé sempre foi uma espécie de "profeta". Não que saiba ou "adivinhe" tudo a que lhe diz respeito. Mas pensando bem... Em outubro de 1982, Zé Ramalho gravou o ótimo LP Força Verde. Nesse disco há uma música intitulada Eternas Ondas na qual Zé conta cantando a tragédia que ocorreria na Indonésia, em dezembro de 2004, provocada por um tsunami que deixou cerca de 250 mil pessoas mortas. Pois é, ouça:
O Brasil e o mundo estão pegando fogo. E também sofrendo com inundações, que provocam desespero e morte. No Amazonas, Norte do Brasil, a seca tá correndo solta.
No Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, Sul do Brasil, a chuvarada está matando afogados bichos e gente.
No Nordeste do Brasil, o sol quente de sempre cai forte na cabeça do povo.
Tanto no Norte quanto no Sul há caminhos para o Saci se divertir. No Nordeste também.
O Saci é um ser criado pela imaginação popular e como o Saci existem muitas criações povoando o mundo da imaginação.
Sempre é tempo de pormos nossa imaginação no oco do mundo, para descobrir os seres mágicos que lá povoam.
Seca d'água e enchentes ferem e matam.
E o mar, hein?
Sempre é tempo de pensarmos a respeito dos mares do nosso planetinha, que podem morrer secos ou matar tudo e todos com água e tal.
Hoje, mais do que nunca, é preciso que cuidemos do nosso meio ambiente.
Acompanhe a aventura fabulosa que gerei e interpreto aqui: O Menino e o Mar na Trilha do Etéreo
A cada dia vejo se distanciar do povo a própria cultura que faz. Cultura popular é a cultura que o povo faz desde que povo é povo. Anônimo. Cada vez mais esse tipo de cultura fica distante de quem a aprecia e a aplaude. E cada perda de quem a aprecia e a leva a outros olhares é de se lamentar, é uma tristeza. São Paulo e boa parte do Brasil estão hoje de luto pela perda do agitador cultural fluminense Danilo Santos de Miranda, aos 80 anos de idade. Danilo dedicou bem mais da metade do tempo de vida à vida cultural levada aos brasileiros pelas diversas unidades do Sesc. Aqui rendo minhas homenagens a esse grande brasileiro.