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terça-feira, 12 de dezembro de 2023

ERASMO É O CARA!

Livros clássicos assim chamados são os livros escritos há muito tempo cuja leitura permanece, de algum modo, atual. É o caso, por exemplo, de Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam (1466-1536).
Erasmo teve a brilhante ideia de personalizar e dar voz à Loucura.
Essa personagem, que continuará viva sempre a folgar e a incomodar muita gente ao mesmo tempo, arvora-se filha do deus romano Plutão equivalente ao deus grego Hades.
No livro de Erasmo a Loucura pinta e borda, tira sarro de todo mundo e até das instituições. 
O quase padre Erasmo mete o pau na Igreja, através da Loucura.
A Loucura não poupa praticamente ninguém. Não dá bola aos sábios, que considera idiotas; diz que os sucessores dos apóstolos de Cristo são fanáticos, demagogos, charlatões e quase sempre avaros. 
No correr das páginas de Elogio a Loucura o autor, pela boca da sua personagem, diz que quem deveria seguir os mandamentos divinos não os seguem.
Ma verdade, na verdade, a Loucura está em todos nós num grau maior ou num grau menor. O fato é que alguém desprovido de Loucura é desprovido de tudo, seja em que grau for.
No livro famoso de Erasmo há muitas citações a personagens históricos e lendários como Homero, Virgílio, Cícero, Platão, Sócrates, Aristóteles, Aristófanes. 
Na falta de a Loucura elogiar alguém, ela autoelogia-se:

De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não reconheço? De resto, esta minha conduta me parece muito mais modesta do que a que costuma ter a maior parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo.
Pois bem, a Loucura é uma loucura. Está em todo canto, em todas as cabeças masculinas ou femininas.
Na leitura de Erasmo a Loucura aparece de modo mais natural, portanto mais original, na cabeça das crianças e dos idosos.

Por tudo isso, observai, senhores, que, quanto mais o homem se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incômoda velhice, tão insuportável para si como para os outros. E, já que falámos de velhice, não fiqueis aborrecidos se por um momento chamo para ela a vossa atenção. Oh! como os homens seriam lastimáveis sem mim, no fim dos seus dias! Mas, tenho pena deles e estendo-lhes a mão. Não raro, as divindades poéticas socorrem piedosamente, com o divino segredo da metamorfose, os que estão prestes a morrer: Fetonte transforma-se em cisne, Alcion em pássaro, etc. Também eu, até certo ponto, imito essas benéficas divindades. Quando a trôpega velhice coloca os homens à beira da sepultura, então, na medida do que sei e do que posso, eu os faço de novo meninos. De onde o provérbio: Os velhos são duas vezes crianças.
De tudo tem no livro Elogio da Loucura. 
No referido livro o autor, sempre pela boca da Loucura, diz do nascimento e da morte; da vaidade narcisista, da gratidão, do amor, verdade, mentira, da volúpia... 

Que seria esta vida, se é que de vida merece o nome, sem os prazeres da volúpia? Oh! Oh! Vós me aplaudis? Já vejo que não há aqui nenhum insensato que não possua esse sentimento. Sois todos nuito sábios, uma vez que, a meu ver, loucura é o mesmo que sabedoria. Podeis, pois, estar certos de que também os estóicos não desprezam a volúpia, embora astutamente se finjam alheios a ela e a ultrajem com mil injúrias diante do povo, a fim de que, amendontrando os outros, possam gozá-la mais freqüentemente. Mas, admitindo que esses hipócritas declamem de boa fé, dizei-me, por Júpiter, sim, dizei-me se há, acaso, um só dia na vida que não seja triste, desagradável, fastidioso, enfadonho, aborrecido, quando não é animado pela volúpia, isto é pelo condimento da loucura. Tomo Sóflocles por testemunho irrefragável, Sóflocles nunca bastante louvado. Oh! nunca se me fez tanta justiça! Diz ele, para minha honra e minha glória: “Como é bom viver! mas, sem sabedoria, porque esta é o veneno da vida”. Procuremos explicar essa proposição.

Volúpia tem a ver com sensualidade, prazer, sexo; infidelidade... Erasmo:

O que dissemos da amizade também pensamos e com mais razão dizemos do matrimônio. Trata-se (como deveis estar fartos de saber) de um laço que só pode ser dissolvido pela morte. Deuses eternos! Quantos divórcios não se verificariam, ou coisas ainda piores do que o divórcio, se a união do homem com a mulher não se apoiasse, não fosse alimentada pela adulacão, pelas carícias, pela complacência, pela volúpia, pela simulação, em suma, por todas as minhas sequazes e auxiliares? Ah! como seriam poucos os matrimônios, se o noivo prudentemente investigasse a vida e os segredos de sua futura cara metade, que lhe parece o retrato da discrição, da pudicícia e da simplicidade! Ainda menos numerosos seriam os matrimônios duráveis, se os maridos, por interesse, por complacência ou por burrice, não ignorassem a vida secreta de suas esposas. Costuma-se achar isso uma loucura, e com razão; mas é justamente essa loucura que torna o esposo querido da mulher, e a mulher do esposo, mantendo a paz doméstica e a unidade da família. Corneia-se um marido? Toda a gente ri e o chama de corno, enquanto o bom homem, todo atencioso, fica a consolar a cara-metade, e a enxugar com seus ternos beijos as lágrimas fingidas da mulher adúltera. Pois não é melhor ser enganado dessa forma do que roer-se de bílis, fazer barulho, pôr tudo de pernas para o ar, ficar furioso, abandonando-se a um ciúme funesto e inútil?

Por fim, no excepcional livro de Erasmo, lê-se que a Loucura não é chegada à memória. Na verdade, a Loucura detesta a memória: 

Esperais um epílogo do que vos disse até agora? Estou lendo isso em vossas fisionomias. Mas, sois verdadeiramente tolos se imaginais que eu tenha podido reter de memória toda essa mistura de palavras que vos impingi. Em lugar de um epílogo quero oferecer-vos duas sentenças. A primeira, antiquíssima, é esta: Eu jamais desejaria beber com um homem que se lembrasse de tudo. E a segunda, nova, é a seguinte: Odeio o ouvinte de memória fiel demais. E, por isso, sedes sãos, aplaudi, vivei, bebei, oh celebérrimos iniciados nos mistérios da Loucura.

O livro Elogio a Loucura foi originalmente publicado em 1511, dois anos depois de ser escrito. Provou e ainda provoca polêmica. Sempre.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

POR QUE SE MATA TANTO?

Não sei exatamente o que leva os poderosos a fazer guerra mundo a fora. Isso desde tempos imemoriais.

O que move os poderosos a matar crianças,  mulheres nesse mundo de meu Deus do céu e do Diabo dos infernos, será que é o poder pelo poder ou simplesmente a vontade louca de acabar com a própria raça?

A Rússia está engolindo a Ucrânia há quase dois anos.

O terror do Hamas engoliu crianças, mulheres, homens e um pedaço da esperança da região invadida, na manhã do último 07 de outubro, há quase dois meses.

A uma ação segue-se uma reação, como prova a Ciência.

É gente morrendo como diacho mundo a fora.

Os conflitos sangrentos pipocam no continente africano, formado por cinquenta e quatro países.

Agora, como se não bastasse, o ditador de plantão da Venezuela botou as garras de fora enquanto baba e ameaça aos berros invadir a pacata e rica Guiana que faz fronteira com este nosso País.

Escutei há pouco o ministro da defesa José Múcio dizer, pacientemente, que o Brasil não permitirá de modo algum que o podre Maduro invada o território da Guiana.

Pois é, foi na África que surgiu o tal homo sapiens.

BOM PAPO NO VIRGULINO

Fui, não vi e gostei.
Não vi porque meus olhos não me deixam ver. Ai, ai, ai...
Pois é: sábado fui conhecer o mais novo restaurante de culinária nordestina. Fica pertinho daqui de casa, no bairro paulistano de Santa Cecília e tem por nome Virgulino. Fica na Martin Francisco, 111. Seu proprietário é um mineiro chamado Wagner Martins. Bom papo e coisa e tal.
Quem me levou ao Virgulino foi Luiz Wilson e a sua excepcional produtora musical e cantora Fatel. Téo Azevedo, o craque das quebradas de Montes Claros, MG, foi conosco. Ele e a filha, Ana Cláudia.
Além de saborear uma feijoada "laite", molhei o bico com um tiquim de uma caninha muito da mimosa feita lá na minha terrinha paraibana. Pois, pois.
Na ocasião, começo de tarde, findei por fazer um papo com Wagner, Téo Azevedo, Fatel e Luiz Wilson.
Wilson está lançando o segundo livro da carreira. É este aqui (aí em cima, na foto). O título já diz tudo: Minha Terra Minha Gente Minha Vida.
Já o leram pra mim. Meu ouvido gostou. Ele conta tudo ou quase tudo que lhe a aconteceu e o que  continua a lhe acontecer, desde seu nascimento em Pernambuco e sua presença cá em São Paulo. Ah! Sim: tem até foto minha no livro, pra quem não gosta de ler.
Recomendo a leitura do novo livro de Luiz Wilson, que oficialmente foi lançado sexta-feira no Virgulino. Entre inúmeros amigos, amigas e admiradores e tal, estiveram prestigiando o autor que também é radialista (Rádio Imprensa FM), a empresária Isabel Soares, Carol, Anastácia, Daniel Gonzaga, Cajú e Castanha, o cordelista Varneci, Dantas do Forro e Cacá Lopes.
O papo feito lá no restaurante Virgulino está aí embaixo. Clique:

domingo, 10 de dezembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (59)

Muita gente já falou a respeito de prostituição, cafetina, rufião, bordel e tudo mais. Isso em tudo em muitas línguas de países pobres ou ricos, livres ou ditatoriais, conservadores e tal.
Esse tema tem sido abordado na poesia, no romance; no teatro, no cinema, por aí.
Mas uma coisa é literatura, ficção. Outra coisa é a realidade que quando não mata deixa marcas. A coisa é séria.
Em 1982, a Edições Paulinas reuniu estudiosos para exporem suas ideias no livro A Prostituição em Debate. Nesse livro há interessantes artigos como A Mulher de "Vida Fácil" Numa Conjuntura Difícil, A Prostituição Aspectos Jurídicos, De Canaã a Corinto: o Sexo Explorado, escritos respectivamente por José Alberto da S. Curado, Euclides Benedito de Oliveira e Airton José da Silva.
Na artigo De Canaã a Corinto, o autor começa assim:

"Em face do fenômeno da prostituição, quando abordado teologicamente, uma pergunta logo se impõe: o que diz a Bíblia? Pergunta que vem acompanhada, logicamente, pela necessidade de maiores precisões: era fenômeno conhecido nas épocas do Antigo e Novo Testamento? Como foi visto e tratado pela sociedade israelita e pelos primeiros cristãos? Há na Sagrada Escritura alguma pista para a solução do problema?".
A prostituição em si nunca foi um problema que afetasse de modo negativo todos os povos. Houve em civilizações antigas igualdade entre homens e mulheres no tocante a sexo.
Em alguns lugares de antigamente a mulher adúltera era punida com apedrejamento até à morte. No tempo de Cristo, o próprio Cristo partia contra os  agressores  e a favor das mulheres.
No livro Historia da Prostituição em Todos Os Povos do Mundo Desde A Mais Remota Antiguidade Até Aos Nossos Dias, de 1885, o autor Pedro Dufour dá um mergulho profundo nessa questão trazendo à tona o comportamento de povos antigos, como o gauleses.
Na Galícia, a prostituição era praticada nas sombras das árvores, de modo sutil e distante de olhos indiscretos e era coisa rara.

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO…)
Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 9 de dezembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (58)

Fora a música, a temática aqui abordada estende-se pelas áreas mais diversas da cultura popular.
No campo da literatura de cordel o primeiro autor a escrever e a publicar um folheto narrando o cotidiano de um bordel foi o paraibano Leandro Gomes de Barros. Título: Meia Noite no Cabaré.
Depois de Leandro, vieram inúmeros outros cordelistas escrevendo sobre o assunto. Exemplos: Velório no Cabaré, Antonio Leite; O Velho no Cabaré, Tiago Monteiro; O Pau-de-Sebo no Cabaré de Tumbaúba,  Marco Di Aurélio; Lampião no Cabaré do Oscar Frota, Lucarocas; A Deusa do Cabaré, Adalgiso de Oliveira; O Rufião Broxa Que Não Largou o Vício de Ficar na Rua Com Prostitutas, K. Gay Nawara; ABC da Meretriz, Bonelfo Coelho Cavalcante.
O pernambucano de Bezerros J. Borges é o mais longevo, criativo e reconhecido xilogravador do Brasil. Suas xilos já ilustraram inúmeros livros de autores nacionais e estrangeiros, como Eduardo Galeano (1940-2015). 
Além de xilogravador consagrado mundo afora, Borges também estende o seu talento no campo da literatura popular.  Entre tantos folhetos que já publicou, destaque para A Chegada da Prostituta no Céu. Já no começo desse folheto, Borges escreve:

Do rosto da poesia
Eu tirei o santo véu
E pedi licença a ela
Para tirar o chapéu 
E escrever a chegada 
Da prostituta no céu

Sabemos que a prostituta
É também um ser humano 
Que por uma iludição 
Fraqueza ou desengano 
O seu viver é volúvel 
Sempre abraça ao engano

Em 1975, a diretora de cinema Tânia Quaresma (1950- 2021) assinou o longa Nordeste: Cordel, Repente e Canção. Nesse filme, uma pérola do gênero, aparecem os ainda iniciantes Zé Ramalho e a dupla de emboladores Caju e Castanha. Aparece também o poeta e rabequeiro Cego Oliveira (1912-1997) interpretando um verdadeiro clássico da poesia popular. Um trecho:

Estava cantando em Goiânia
Na casa de um amigo
Quando uma mulher mundana
Chegou pra falar comigo...

Por Deus escreva um poema
Relativo ao meu dilema
Na Porta dos Cabarés

Deixei a casa paterna
Com 15 anos de idade
Para viver na taverna
De escândalo e vaidade...

De chorar tenho razões 
Sem ter dos meus pais notícias
Por pai, por mãe e por irmão
Eu tenho somente a polícia...

E agora meus senhores
Acabei de terminar
Hajam de me desculpar...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

OS HORRORES DE BARBACENA

Pergunto por perguntar: o que havia em comum entre o escritor Lima Barreto, o jogador de futebol Heleno de Freitas, o playboy João Acácio e a dona de casa Letícia Poletti?
Bom, Lima Barreto passou temporadas num hospício no Rio de Janeiro. Morreu em novembro de 1922, deixando uma obra maravilhosa.
Heleno de Freitas era um cara muito bonito, charmoso, advogado e um futebolista excepcional. Morreu num hospital psiquiátrico de Barbacena, MG. Ano: novembro de 1959.
João Acácio, que ficou conhecido como Bandido da Luz Vermelha, depois de preso pela polícia de São Paulo, foi enviado ao hospital psiquiátrico de Franco da Rocha, SP, onde permaneceu durante uns 30 anos. Morreu a tiros num bar em Santa Catarina, em 1998.
Barreto escreveu Diário do Hospício e o romance (inacabado) Cemitério dos Vivos, em que conta os momentos que viveu como "doido" no hospital. 
Sobre Heleno de Freitas há um livro e pelo menos um filme. Dizem as boas ou más línguas que Freitas chegou a ter um caso com Eva Perón, Evita, quando integrou o Boca Juniors. 
Acácio, que cheguei a entrevistar no manicômio, foi o personagem título do filme Bandido da Luz Vermelha.
Já houve quem questionasse sobre o fato de um louco poder ou ter condições de escrever obras-primas e tal.
No livro A História da Loucura o autor Michel Foucalt, diz lá pras tantas que "a loucura do homem é um espetáculo divino". E que "o mundo aos olhos de Deus é uma loucura".
O assunto é muito importante e já foi falado de muitas formas. Mas necessário se faz, sempre, falar de Elogio da Loucura, do holandês Erasmo de Roterdã (1466-1536). Nesse livro, Erasmo dá voz à loucura.
"De médico e louco, todos nós temos um pouco", segundo o dito popular.
Pois bem, Letícia Poletti ficou órfã da mãe quando tinha 10 anos de idade. Ainda tinha essa idade quando o pai pegou uma mulher e sumiu, deixando pra trás Letícia e três irmãos que foram enfiados num orfanato em Minas. Ao sair do orfanato, Letícia teve um homem arrumado por um irmão. Esse homem casou-se com ela.
A vida de Letícia Poletti foi um inferno, ao lado do marido João de Souza.
Com João, Letícia teve três filhas.
O detalhe trágico nessa história toda é que Letícia apanhava muito do marido e um dia resolveu fugir. 
Ao tentar ficar com a guarda das filhas, Letícia foi de novo agredida pelo marido e levada a uma delegacia onde também apanhou. Em seguida, o marido, que era um cara muito rico, a "internou" no hospital Colônia de Barbacena. Morreu novinha, aos 36 anos de idade.
O hospital de Barbacena foi inaugurado em 1903, virou espécie de prisão em 1911 e num ano qualquer de 1980 foi fechado. No seu lugar foi criado o Museu da Loucura.
Conta a história que morreram pelo menos 60 mil "internos" do hospital Colônia de Barbacena.
A vida trágica de Letícia Poletti é reconstituída e muito bem narrada no podcast O Coração nas Sombras, cujo roteiro traz a assinatura de Paulo Garfunkel, o Magrão, também autor da vinheta de abertura do documento.
A história de Letícia é contada em quatro episódios. Ouvi três, que compartilho com vocês:


quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

LUIS WILSON CONTA SUA HISTÓRIA EM LIVRO

O cantor e compositor pernambucano Luís Wilson está contando em livro as suas origens e trajetória profissional. 
No livro Minha Terra Minha Gente Minha Vida (Editora Areia Dourada), Wilson lembra que está em São Paulo há quase três décadas. Trabalhou no comércio varejista e há 15 anos apresenta o programa Pintando o 7, aos domingos (das 10 às 12h) na Rádio Imprensa. É um programa apresentado ao vivo, com a participação na produção da cantora mineira Fatel.
A obra de Luis Wilson está distribuída num compacto, LP e CDs. Tem parceria com muita gente bonita, como Anastácia. A propósito, os dois acabam de lançar o forró A Corda e a Caçamba.
Em 2009 Wilson publicou o livro Vendendo e Aprendendo em Cordel, em pouco tempo esgotado.
Minha Terra Minha Gente Minha Vida será lançado amanhã 8, a partir das 19h, no restaurante Virgulino.
Você vai ao lançamento do livro de Luis Wilson? Eu vou!




LEIA MAIS: NO RÁDIO: MÚSICA DO NORDESTE (1)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

É PALMEIRAS NA CABEÇA!

Logo mais as 21h 30, em Belo Horizonte, o Palmeiras sairá do Mineirão com a taça de campeão do Brasileirão, depois de enfiar uns três gols na caçapa do Cruzeiro. Será a 12ª taça, para a alegria dos seus torcedores.
Todos ingressos foram vendidos antecipadamente.
O primeiro título de campeão do Brasileirão o Palmeiras papou em 1959.
É claro que o português Abel Ferreira está botando banca de mestre, como técnico do Palmeiras há três anos. Até agora são oito títulos que deu ao time e de tabela, aos palmeirences.
O Palmeiras foi fundado em 1914, com o título de Palestra Itália. O nome mudou  no começo da 2ª Grande Guerra.
Um dos maiores ídolos do Palmeiras é o carioca Ademir da Guia, hoje com 81 anos de idade. Mora no bairro paulistano de Perdizes.
Um dos grandes torcedores do Palmeiras foi o cantor Silvio Caldas (1908-1998). Pra seu time, Sílvio fez e cantou a música Tarantela Verde e Branco. Ouça:


VANDRÉ É HOMENAGEADO EM FESTIVAL DE CINEMA

Assis, Geraldo e Medaglia
Exatos 55 anos e dois meses depois da histórica noite de apresentação de Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, ou Caminhando, o seu autor o paraibano Geraldo Vandré reuniu a imprensa hoje 6 para falar a respeito da homenagem que recebeu do 18° Festival de Cinema Aruanda. A entrevista ocorreu em João Pessoa, PB.
Durante a "sabatina", Vandré confirmou a informação de que o refrão de Caminhando foi feito de improviso enquanto apresentava a música no Festival Internacional da Canção realizado em outubro de 1968, no Maracanãzinho, RJ.
Em junho deste ano de 2023 Geraldo Vandré concedeu a primeira entrevista à TV Bandeirantes depois que voltou do exílio em 1973.
A homenagem do Aruanda se completará com a exibição de um documentário sobre ele feito por uma televisão da Bulgária, em 1970. A exibição desse documento ocorrerá no auditório do Hotel Manaíra na Capital paraibana logo mais, nesta noite.
A entrevista à Bandeirantes ocorreu dois dias antes da prosa que tivemos com ele e o maestro paulistano Júlio Medaglia. 
No começo da carreira, Vandré teve pelo menos uma música com arranjos de Medaglia.




terça-feira, 5 de dezembro de 2023

A LEVEZA DE KUNDERA NUM DE SEUS CLÁSSICOS

A história é boa e muito bem contada. Passa-se no decorrer da invasão russa em Praga, na República Tcheca, antiga Tchecoslováquia. No enredo se acham dois homens e três mulheres. 
Tereza é uma mulher simples que trabalha num banco. Certo dia, surge a sua frente um médico muito bem quisto num hospital onde dá expediente. Seu nome: Tomas. 
Os personagens aqui já citados vivem sob o regime comunista. 
A segunda mulher que aparece no romance A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, é uma artista plástica chamada Sabina. 
Além de Tereza, Tomas e Sabina, surge de repente o casal Franz e Marie Claude. 
Tomas e Tereza é um casal como outro qualquer da vida real. Ela é independente, tem o seu trabalho e tal. Ele é do tipo libertino, daqueles que não se controlam diante de um rabo de saia. Tereza não liga, tanto que um dia descobre Sabrina na vida do marido. Chega até a ir ao ateliê da artista. Dão-se bem. Lá pras tantas, Sabina tira a roupa e o mesmo faz Tereza. Riem, enquanto Sabina lhe conta sua história. 
A história de Kundera ganha ritmo quando Sabina se muda de cidade indo pra Suíça, onde faz amizade com um casal de idosos muito ricos. Nesse meio tempo, Sabina dá em cima de um professor nomeado pelo autor como Franz. 
O fim da história é interessante, mas não vou adiantar. Acrescento, porém, que o médico cai em desgraça ao ter publicado no jornal de linha comunista uma carta em que sugere que os líderes do partidão ceguem os olhos como fez o personagem  Édipo.
Quanto ao casal Franz e Marie, bom... 
Recomendo a leitura do belíssimo A Insustentável Leveza do Ser.
Kundera (1929-2023) era de origem tcheca.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

DIA DA RAPADURA

Cachaça é um aperitivo, uma coisa boa, advinda de uma planta chamada cana.
A cana nos deu açúcar, aperitivo alcoólico e rapadura.
Rapadura é o suco da cana, não no seu estagio de fermentação.
Desse estagio de fermentação resulta o bom álcool cachaçal.
A cana como planta vem do mundo asiático.
A Índia foi o primeiro país a descobrir a cana. Corria o século V a.C.
O papo é bom, gostoso, enebriante.
Em 1532 chegou ao Brasil o português Martim Afonso de Souza. Navegador.
Em 1533 o Souza citado criou o primeiro engenho no Brasil. Ali em São Vicente, nossa primeira cidade como tal falada.
E a rapadura?
No Brasil a rapadura nasceu junto com o açúcar.
Nosso primeiro produto pecuário.
A rapadura, derivada da cana de açúcar, é produzida em três ou quatro dezenas de países.
A Índia lidera a produção de cana. 
O país que mais consome rapadura é a Colômbia. Cada colombiano ingere pelo menos 30kg de rapadura/ano.
Até aqui falei e falei. E antes de falar mais, sugiro aos políticos de plantão que criem o dia nacional da rapadura.
A rapadura exista na literatura popular, literatura erudita e na música. 
A quem interessar, sugiro a leitura dos livros do escritor paraibano José Lins do Rego (1901-1957).


LEIA MAIS: KLÉVISSON VIANA LANÇA MAIS UM BELO LIVRO

domingo, 3 de dezembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (57)

Corria os anos de 1960 quando o baiano de Irará Tom Zé conquistava o primeiro lugar do IV Festival de Música Popular Brasileira promovido pela TV Record. A música premiada tinha por título São São Paulo, meu Amor. Um trecho: 

Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo o centro da cidade 
Armadas de rouge e batom
Dando vivas ao bom humor 
Num atentado contra o pudor 
A família protegida
O palavrão reprimido
Um pregador que condena
Uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

A propósito bordel, prostituição e coisas do gênero como orgia se acham às pampas na discografia da nossa música popular. Alguns títulos e autores: Orgia, de Luiz Peixoto e A. Neves; Cabaré, de João Bosco; Bordel Lilás, Pablo; Mulher de Bordel, Adalberto e Adriano; Rei do Puteiro, Gasparzinho; Tango do Meretrício, João de Almeida Neto; Vida de Cabaré, Felipão; Mulher de Cabaré, de Luiz Guimarães. 
E quase todos os grandes e conhecidos cantores e cantoras gravaram discos interpretando coisas que tais. Nelson Gonçalves foi um deles, como Chico Alves, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Alceu Valença, Roberto Müller, Marília Batista, Zaira Cavalcanti, Elis Regina e mais tantos e tantas.
Marília gravou, de Noel Rosa, a canção dor de
corno A dama do Cabaré. Essa dama é conquistada num papo de meia hora.  
O piauiense Roberto Müller, de batismo, é dos anos 30 e em 1975 gravou o bolerão de Luiz Guimarães, Mulher de Cabaré. Lá pras tantas, ele canta:

Mulher de cabaré
Não tem amor sincero
Mulher de cabaré
Eu amo, mas não quero
Sob luzes fluorescentes
Passa a noites acordada
Forçada a um copo de bebida
Morta de sono amargurada.

Nelson, dentre todos, foi provavelmente o artista que mais gravou músicas falando de orgia, bordel, prostituição e prostituta. Alguns exemplos: Abre a Janela, Auto-retrato, Fica Comigo Esta Noite, Leviana, Quem há de dizer, Meu vício é você, Dolores Sierra e o tango Carlos Gardel, de David Nasser e Herivelto Martins. Lá pras tantas diz a letra:

Carlos Gardel
Se cantavas a tragédia das perdidas
Compreendendo suas ouvidas
Perdoavas seu papel

Por isso enquanto houver um tango triste
Um otário, um cabaret, uma guitarra 
Tu viverás também 
Carlos Gardel

Além de cantoras e cantores, o tema também tem sido gravado por grupos musicais como O Raimundos.
Esse grupo, formado no ano de 87 em Brasília, começou a gravar disco quatro anos depois. 
Em 1994, o Raimundos lançou sua música mais famosa: Puteiro em João Pessoa. No puteiro do título em questão um dos integrantes do grupo perdeu a sua inocência. O chargista Angeli conta essa história em quadrinhos.

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO…)
Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 2 de dezembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (56)

A Bíblia dá conta de que cornos são a representação da força e do poder divinos.
O bordel mais famoso do Estado de São Paulo foi a Casa de Eny, em Bauru.
Muita gente importante e conhecida virou noites nesses bordéis, cujos produtos de comer, de comer mesmo, custavam os olhos da cara. 
Essa casa de Bauru foi estudada por Lucius de Mello, autor do livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro. 
No La Licorne passaram nomes como Nat King Cole, Julio Iglesias e Henry Kissinger para quem "o poder é afrodisíaco".
Da área do cinema norte-americano foi visto num dos inferninhos da noite paulistana um cara chamado John Wayne, figurinha carimbada dos filmes de faroeste. 
"Os conservadores não têm por que temer o futuro do bordel", escreve Murphy no seu livro. E acrescenta: 
"Depois de mais de 3 mil anos de serviços à comunidade, poucos duvidam que ele irá sobreviver sob uma ou outra forma durante milhares de anos mais, ou pelo menos enquanto continuar sendo uma fonte de renda".
Os bordéis se metamorfoseam e se multiplicam por aí das formas as mais diversas.
Sempre haverá uma mulher ou homem dispostos a oferecer o corpo. Os lugares para uso dele podem variar: ora uma casa, ora um apartamento. Pode ser também num sítio alugado ou próprio. 
Os caminhos de acesso ao prazer sexual são fáceis. Para tanto, basta um clique num site pornô e, como num passe de mágica, aparecerá ou aparecerão uma ou mais mulheres ou homens, dependendo do gosto do interessado ou interessada.
A imaginação humana não tem limite.
O escritor japonês Yasunari Kawabata no livro A Casa das Belas Adormecidas conta a história de uma hospedaria que tinha como especialidade oferecer aos velhotes que a procuravam moçoilas belas e virgens.
O detalhe da narrativa feita por Kawabata, Nobel de Literatura em 1968, é que as mocinhas ofertadas estavam sempre deitadas nuas, dormindo, sob o efeito de drogas. 
Os clientes dessa história pagavam para admirar esses corpos inertes, sem avançar o "sinal".
Em última análise, a tal hospedaria era uma espécie de bordel. 

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

TODO DIA É DIA DE ONÇA (2 final)

A onça pintada e outras onças da família são os maiores felinos das florestas do nosso País. Habitam a mata atlântica, a Amazônia e coisa e tal. 
Dados recentíssimos indicam que o desmatamento da mata atlântica caiu 50% nos últimos 12 meses. Isso quer dizer que o IBAMA e seus colaboradores estão fazendo com eficiência o trabalho a que foram incumbidos. Quer dizer: estão evitando a ação demolidora dos assassinos da Natureza. 
A propósito é bom que se diga que hoje 30 foi aberta a COP28, em Dubai, Emirados Árabes. 
COP é um encontro que reúne representantes de quase todos os países do nosso planetinha, cuja finalidade é discutir problemas provocados pela agressão ao clima. Coisa séria, seriíssima. 
O clima da Terra esquentou dois graus a mais neste ano de 2023.
Pois bem, a onça que habita nossas matas habita também a nossa imaginação e a imaginação dos romancistas, contistas, poetas e demais criadores de histórias infantis, infanto-juvenis e, por que não, historiadores preocupados com a preservação do meio ambiente. 
Como personagem a onça está em tudo quanto é livro que trata da fauna e a flora. E está também no teatro, no cinema e na música popular. 
Como tema da nossa música, ouça: COMO DOIS ANIMAISONÇA PINTADAÔ BAFO DE ONÇA
Desde já, e mais uma vez, recomendo  leitura dos livros de Ariano Suassuna e Guimarães Rosa. 
Uma pergunta: meu amigo, minha amiga, você sabe com que cor a onça foi pintada?


O MEU TIO IAUARETÊ

Em 1961, ou 62, o escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967) publicou o conto O Meu Tio Iauaretê. É um monólogo. O personagem fala com alguém invisível a sua frente. Originalíssimo. O personagem é um caçador de onça, que aos poucos se transforma numa onça. E mais não digo. A não ser que o referido conto integrou as páginas do livro Estas Estórias, publicado em 1969. Ouça-o aqui na interpretação do ator Lima Duarte:

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

TODO DIA É DIA DE ONÇA (1)

Hoje é o Dia da Onça, não propriamente do Amigo da Onça. Esse, aliás, personagem clássico do chargismo brasileiro criado pelo pernambucano Péricles, que nas horas livres achava de inventar músicas, sambas e tal. 
Pois bem, hoje é o Dia da Onça Pintada.
O dia dedicado à onça serve pra gente refletir sobre sua existência. 
Existe pelo menos meia dúzia de onças de tipos variados. A onça preta é um desses tipos, por exemplo. 
Em vários países a onça já foi extinta, como nos EUA. No México está perigando, tem uma aqui, outra ali. 
Nas florestas brasileiras uma diversidade enorme de animais. O número passa de 100 mil, dos quais 1254 estão relacionados no
campo da extinção. Nossa onça é um desses animais que correm o risco de extinguirem-se pela ganância e crueldade dos homens. 
Num dos últimos incêndios ocorridos no Pantanal houve quem salvasse um exemplar da onça pintada. Foi quase um milagre, pode-se dizer.
Faz-se necessária a intervenção imediata e rigorosa do governo contra os assassinos da Natureza. 
Bom, eu fiz referência ao cartunista Péricles.
Péricles começou a publicar o Amigo da Onça na extinta revista O Cruzeiro. Desiludido, Péricles deu cabo à própria vida.
Pois é,  a extinção da vida é sempre lamentável, sob qualquer ângulo. 

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

Em todo tempo e lugar o macho forte, alfa, que bate e impõe-se à mulher está fadado ao lixo. Naturalmente. Como deve ser.
Isso talvez ainda demore a acontecer. 
Por que?
Tudo é muito louco. 
Segundo a Bíblia, Eva foi a mulher que se antecipou ao prazer ao convencer o companheiro, Adão, com o corpo gozar. 
E segundo Freud...
O número de mulheres mortas por machos no Brasil é enorme. 
Mulheres que amam, mulheres que querem viver se perdem nas garras dos espancadores e assassinos.
Outro dia ouvi uma apresentadora famosa de TV, Ana Hickmann, dizer que fora agredida violentamente pelo próprio marido. Depois de uns dez anos de convivência e um filho como resultado. 
Doeu-me o que ouvi.
E aí eu me lembrei de uma mulher chamada Clarissa Pinkola Estés, autora do livro Mulheres Que Correm Com os Lobos. Esse livro tem jeito de clássico, é clássico e tudo o mais. Foi lançado em 1992. Sua autora entende tudo de sentimento, do que rola na cabeça de todos nós. Ela  mergulhou no poço profundo da mente feminina. 
Desse poço, segundo Estés, pode ou poderia sair de volta o feminino selvagem, no sentido natural do termo.
O livro traz 14 capítulos. Um melhor do que o outro. Num deles, o primeiro ou segundo, a autora aborda o mito do Barba Azul. Noutro, talvez o terceiro ou quarto, ela fala de uma menina cuja madrasta é forçada a entrar mata adentro em busca de gravetos e fogo para aquecer a casa.
A menina referida tem encontro com uma bruxa. A esperança da madrasta era que a bruxa matasse e comesse a menina, mas isso não ocorre.
No seu livro, Pinkola Estés esmiúça com detalhes e sensibilidade invejáveis cada história abordada. 
Cada capítulo do livro traz uma história. 
Mulheres Que Correm Com os é para todo mundo ler, inclusive os machos predadores. 
Particularmente, encantei-me com esse livro de Clarissa Pinkola Estés. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

O FUTURO DOS RIOS É O PASSADO

Poderosos que flutuam à margem dos valores humanos estão, de um modo ou de outro e há muito tempo fazendo tudo para destruir o verde das nossas matas. 
Pois é, não é de hoje que os indígenas são vítimas da violência dos brancos que, além de derrubar o verde, procuram extrair o último pingo de ouro do rico solo amazônico.
Fora tudo isso, os rios estão sendo contaminados e mortos pela ganância dos poderosos de plantão. 
Acabo de ouvir com um nó na garganta o livro Futuro Ancestral, de Ailton Krenak. 
Krenak começa lembrando de um grupo de crianças numa canoa num rio ainda navegável. Um deles diz que estão se aproximando do tempo passado. Algo assim. 
É belíssima a leitura do livro de Krenak. 
Após falar dos meninos na canoa, Ailton Krenak nos leva a um mergulho na história dos seus antepassados. Descreve com impressionante clareza a beleza dos rios perenes, em que os indígenas podiam alimentar-se dos peixes que as águas lhes davam. 
Na sua escrita, Krenak fala das doenças que o homem branco tem levado aos rios brasileiros. Nesse ponto, ele faz referência ao Tietê paulista com suas impurezas fedorentas e mortais nas áreas urbanas por onde passa.
Confesso que ainda estou com nó na garganta. 
Ailton Krenak é o primeiro intelectual indígena a ocupar uma cadeira na centenária Academia Brasileira de Letras, ABL.

domingo, 26 de novembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (55)

Lê-se na apresentação do livro História dos Grandes Bordéis do Mundo, de Emmett Murphy, o seguinte: 
"Em meados de 1970, na maior cidade da América, na capital mundial do entretenimento, foi elaborado um plano para abrir o maior bordel dos Estados Unidos. 
O estabelecimento deveria ficar situado a poucos passos do Times Square: segundo as estimativas, o local é frequentado anualmente por dezesseis milhões de visitantes, tanto turistas como participantes de congressos, que geram um movimento anual de 5 bilhões de dólares...".
A exploração do lenocínio sempre rendeu muito dinheiro, em qualquer tempo e lugar. E quem menos ganha nessa história é a mulher que abre as pernas. 
O que se sabe com certeza é que vem de tempos imemoriais o uso do corpo como mercadoria. 
Já no início do primeiro capítulo do seu livro, Murphy escreve:
"Estamos em 1200 a. C. Na Ásia os chineses estão publicando um dicionário de 40 mil caracteres. Na Ásia Menor, os gregos estão sitiando Tróia. No Mediterrâneo os fenícios constituem o principal poder comercial. No Egito, são promulgadas as primeiras leis regulamentando a venda de cerveja. E na Terra Santa, Josué está prestes a atacar a cidade de Jericó...".
Jericó é uma cidade palestina localizada na Cisjordânia. É das mais antigas do mundo. Por lá andou Cristo.
Na Bíblia há a informação de que Josué, depois de comandar uma matança em Jericó, casou-se com uma prostituta de nome Rahab.
O Velho Testamento apresenta algumas pistas para se ir a lugares em que mulheres de má fama atendiam os estímulos sexuais de homens de boa fama, casados e tal.
Pois é, no tocante a essa questão, a história ainda se acha muito distante de nós. Nebulosa.
Os portugueses trouxeram para o Brasil além de folguedos populares, ditos que caíram facilmente na boca do povo. Um desses é "casa da mãe Joana".
Você não sabe o que é casa da mãe Joana?
Essa expressão, surgida lá pelo século 14, talvez na França, tem por significado um lugar ou local em que a desordem é uma constante. Desordem no sentido de desarrumação, bagunça etc.
Outra versão dessa expressão tem a ver com uma cafetina muito "bondosa" que tratava as prostitutas como uma mãe. Chamava-se Joana.
A prostituta Rahab era independente. Atendia a "clientela" em casa, como tantas e tantas fazem até hoje nos pequenos e grandes centros.
Mas, enfim, o papo aqui é bordel. 
Não sei como se fala ou se escreve bordel em grego.
Há uns seis séculos antes de Cristo, o governador de Atenas era Sólon não sei de quê. Era grandão e integrava o grupo fechado de meia dúzia de sábios idolatrados pelos gregos.
Naquela época, gregos tarados pegavam mulheres na rua. Era uma esculhambação, uma zona só! Foi quando Sólon chegou pra dar um basta e pôr ordem na desarrumação. 
Àquela altura, Sólon tentava a todo custo resolver problemas de ordem financeira que estava enfrentando. E aí ele delimitou espaço para a prática da prostituição remunerada. 
O curioso nesse caso é que o Estado recebia uma porcentagem do faturamento do que hoje chamamos lenocínio. 
Como se vê, não é de hoje que se faz ou se tenta fazer o que se fez lá atrás, na Grécia.
Há até os dias atuais cidades mundo afora que têm ambientes reservados para exploração sexual: Rio, São Paulo...
No Rio existiu um bordel muito famoso chamado Casa Rosa. Começou nos anos 40 e seguiu anos adentro. Ficava em Laranjeiras. Foi tombada e virou centro cultural. Até um filme virou. Título: Pretérito Perfeito, em cujo elenco entrou o compositor e cantor roqueiro Lobão. 
Tão famosa como a Casa Rosa foi a boate La Licorne. Funcionou na capital Paulista, entre 1965 e 1991. Ficava na Vila Buarque.
O título dessa casa remete à figura mitológica do Unicórnio, que nas páginas da história aparece como uma espécie de cavalo com um corno na testa.

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO…)
Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 25 de novembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (54)

Em que lugar, na história, surgiu o primeiro bordel? Teria sido na Grécia ou em Roma, na China ou Japão, na Índia ou Egito?
Num livro há informação de que surgiu na Grécia, noutro em Roma e assim por diante.
Na verdade, na verdade, ninguém sabe ao certo onde e quando surgiu o primeiro bordel. Mas ainda é o caso de se perguntar: em Sodoma ou Gomorra? Há 2 ou 3 mil anos?
A História de Sodoma e Gomorra é contada e recontada de todas as formas no Teatro, no Cinema e em livros, como fez Sade em 120 dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem. É um livro muito louco, escrito em 1785. Romance no qual algumas dezenas de pessoas se juntam num castelo ou algo parecido para fazer o que os capetas do inferno fazem: putaria de todos os níveis, incluindo masoquismo. Ninguém sai ileso dessa história. E nem o leitor.
Sade de católico não tinha nada.
A Bíblia conta que Deus mandou fogo e o diabo a quatro para acabar com Sodoma e Gomorra e mais duas cidades de população pecadora. 
Sodoma e Gomorra que ficavam no Oriente Médio, foram destruídas centenas de anos antes de Cristo. 
Pompéia, que pertencia a Roma, implodiu poucos anos depois de Cristo. Num piscar d'olhos.
Arqueólogos descobriram restos de Pompéia. Nesses restos havia rastros pontilhados com o que seriam representações de falos indicando como chegar ao que chamamos hoje de casa de tolerância. 

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

O PAPA, LULA E TERROR. E AÍ?

O Papa Francisco disse que o Hamas é terrorista. Disse também que o reverso é Israel.
Israel está fazendo o que o Hamas começou, há um mês e meio.
O noticiário dá conta de que o Exército israelense já matou mais de 15.000 palestinos, incluindo gatos pingados do Hamas. O mesmo noticiário internacional dá conta de que as baixas israelenses são, desde o fatídico 7 de outubro, 1.200 pessoas.
Tem muita coisa errada nessa história. 
O que o Papa disse sobre o Hamas e Israel, Lula já tinha dito ali pelo dia 8 ou 9 do mês passado. 
Hoje 24, caminhões com víveres e tal estão chegando a quem ainda está vivo na Palestina.
O grupo extremista Hamas soltou 30 e poucos reféns, dos 240 sequestrados. Em troca, Israel tem de soltar pelo menos 150 palestinos, entre crianças e mulheres. 
No começo dos anos 1980, Israel homenageou a brasileira Aracy.
Aracy Moebius de Carvalho Guimarãe Rosa (1908-2011), no caso, era viúva do escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1067).
A homenagem deveu-se ao fato de dona Aracy, que era paranaense do Rio Negro, ter salvado centenas e centenas de judeus das garras de Hitler. À época, a viúva de Guimarães Rosa trabalhava no consulado de Hamburgo, Alemanha. 
Entrevistada sobre o assunto, dona Aracy disse apenas que agira certo, com justeza.

domingo, 19 de novembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (53)

Não será ou seria exagero dizer que entre tantos profissionais de áreas diversas se acha o psicanalista alemão Sigmund Freud (1856-1939). Não foi Freud que certa vez disse que "Vivemos sob o princípio do prazer"?
Rétif de La Bretonne foi um cara que despertou antipatia e discussão, amor e raiva. O seu tempo foi o tempo do Iluminismo. Brilhou. Era poeta bissexto, político sem grande expressão, mas tinha lá seus admiradores. Não foi vítima nem algoz da Revolução Francesa. Era, digamos, um defensor dos oprimidos e dos vagabundos de rua. Pelas narrativas, era um devasso. Teve centenas de mulheres e um número expressivo de filhos, embora não se saiba exatamente quantos. Espécie de Casanova?
É possível que Casanova tenha inspirado Kierkegaard a escrever o Diário de um Sedutor, que no rigor do termo é uma bobagem. 
Tinhorão, no seu texto para o Diário Carioca, lamenta que o nome de Bretonne não fosse ainda conhecido no Brasil.
Em 1989, o diplomata e ensaísta carioca Sérgio Paulo Rouanet (1934-2022) publicou pela Companhia das Letras, SP, o livro O Espectador Noturno, com o subtítulo A Revolução Francesa através de Rétif de La Bretonne no qual discorre sobre a vida e obra deste autor. O destaque é para a política, mesmo assim afirma que "Rétif é dominado pelo fantasma da paternidade e, se defende o incesto, é em parte porque ele permite a cada família produzir um número ilimitado de filhos. Nisso ela se distingue do aristocrata Sade, que representa o consumo, e não a produção, que defende o incesto na perspectiva do consumidor - fonte de gozo, e não de filhos - e que de resto advoga a sodomia porque ela constitui um freio para a natalidade".
Para se contrapor ao livro Justine, de Sade,
Bretonne escreveu e publicou o livro Anti-Justine. No seu livro Sade falava de política social, criando uma personagem que perde os pais prematuramente e sofre todas as injustiças possíveis que alguém possa sofrer. Mas ao fim dessa história, o bem vence o mal. Enquanto isso, na vida real, Bretonne soltava o tesão e refestelava-se na cama com quem estivesse mais próximo. Por isso e outras coisas foi que José Ramos Tinhorão encerra seu artigo para o Diário Carioca dizendo que:
"Rétif de La Bretonne precisa ser lido novamente. O precursor do romance realista, que Lavater, o criador da fisiognomonia, chamava de 'Richardson francês' - embora outros preferissem chamá-lo de 'Voltaire das criadas de quarto' - não faria má figura, num tempo onde ainda se vende tanto as Confissões de Rousseau e as Memórias de Casanova".
Na vasta obra de Bretonne destacam-se vários títulos, entre os quais Le Palais-Royal, Le Paysan et La Paysanne Pervertis, As Noites Revolucionárias e Anti-Justine.
A sua biógrafa Elizabeth Lorenzotti, Tinhorão disse alto e bom som: 
"Fui eu quem, muitos anos antes de Sérgio Rouanet, revelou o Rétif de La Bretonne, grande ícone da literatura  libertina francesa, e um cronista da Revolução".
A vida e obra de José Ramos Tinhorão tem conteúdo e são extensas. Atuou em vários
jornais e revistas, ora com contrato fixo ora como freelancer. Como free chegou a publicar na revista Chuvisco e no Jornal dos Sports. 
Em maio de 1965, Tinhorão publicou no Jornal dos Sports o artigo As Dúvidas do Gênesis ou a Gênese da Dúvida. Na página onde aparece esse texto, aparecem também propagandas das extintas boates Pigalle e Moulin Rouge. E mais uma: da rádio Mayrink Veiga anunciando na programação a presença do seu astro rei do baião Luiz Gonzaga. 
E Tinhorão não bastou-se nos jornais e revistas do Rio, também apresentou um programa de entrevistas, Tudo é Música, na TV Brasil.
No cinema, Tinhorão aparece curiosamente como um dos personagens de Nelson Rodrigues. O filme, Asfalto Selvagem, deu o que falar. A respeito da "participação" de Tinhorão, o jornalista Ruy Castro escreveu no livro O Anjo Pornográfico:
"O futuro historiador da música popular, José Ramos Tinhorão, então copy desk do Jornal do Brasil, era mostrado como um jovem sátiro a bordo de um calhambeque e mantendo um caderninho onde anotava os nomes de suas conquistas - a maioria das quais iludia com a promessa de que Accioly Neto mandaria fotografá-las para a capa de O Cruzeiro".
Tinhorão gostou.

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

VAMOS FALAR DE BOA MÚSICA?

Assis Ângelo e Manezinho Araújo 
Sempre bom falar do que é bom, principalmente do Brasil. Somos ricos em música, literatura, cinema, dança, teatro, do popular ao erudito e tudo o mais.
É grande o número de cantoras e cantores e recomendo uma visita à obra de Manezinho Araújo, Carmem Costa, Maria Bethânia e por aí!
Manezinho Araújo, com quem tive a alegria de partilhar a amizade, deixou uma obra musical muito significativa. Neste ano de 2023 completam-se 90 anos da primeira gravação de de Manezinho em disco de 78rpm..
Além de emboladas, Manezinho gravou sambas, toadas, canções e outros ritmos.
Carmen Costa foi uma cantora muito importante para a nossa música. Cantava com alegria, extraíndo da garganta a beleza da sua alma. Nasceu em 1920. Eu a entrevistei. Perguntei sobre Luiz Gonzaga, Rei do Baião. 
A primeira cantora a gravar Luiz Gonzaga foi Carmen Costa. Dele gravou dois chorinhos.
E Bethânia? 
A filha de dona Canô é irmã de Caetano, recebeu na pia batismal o nome de Maria Bethânia por causa de uma canção de mesmo nome composta pelo pernambucano Capiba.
É bela e rica a cultura musical popular do Brasil.
É isso. Acesse:

terça-feira, 14 de novembro de 2023

BAMBAS NEGROS DO BRASIL. VIVA!

Os negros no Brasil tem uma história própria, além do período terrível de escravidão que viveram no Brasil até recentemente. Claro, antes de 1888 a situação era muito pior. Mas ainda sim problemas graves ainda atingem a vida dos brasileiros e brasileiras negros.
A maior parte da população brasileira é constituída de negros e pardos. 
O cantor pioneiro da nossa música popular, Manuel Pedro dos Santos, era negro. Sua primeira gravação em disco ocorreu em 1902. A música era um lundu intitulada Isto é Bom. O autor dessa música, também ator e autor de teatro, era negro e tinha por nome Xisto Bahia. Esses dois artistas nasceram em Santo Amaro da Purificação, mesmo berço de Caetano e tal.
Na mesma leva de intérpretes pioneiros da nossa música também se acha Cândido das Neves. Antes de cantor, Neves era palhaço de circo. Negrão, alto e dono de dentes alvíssimos. A história conta que esse Neves era cheio de onda, engraçado, admirado e desejado pela mulherada.
Cândido das Neves, carioca, é um dos personagens do jornalista João do Rio. Passeia no livro A Alma Encantadora das Ruas.
João do Rio, pioneiro no jornalismo, era baixo, fofinho e negro. Foi o mais novo integrante da Academia Brasileira de Letras, ABL.
Tudo que João do Rio escreveu e deixou em livro, principalmente, vale a pena ler.
Sou, confessadamente, um apaixonado por João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto. Em sua homenagem, perdi a vergonha e compus Embolada pra João do Rio. A gravação é da dupla Cajú e Castanha. Ouça:

ESTÃO NO CÉU

Eu não disse, mas digo agora: o craque da graça e da música Cândido das Neves nasceu no dia 24 de julho 1899, mesmo ano em que a maestrina Francisca Edwiges Neves, mais conhecida como Chiquinha Gonzaga, compunha a primeira marchinha de Carnaval, a famosa Ó Abre Alas. E morreu num dia como hoje em 1934.
E Zé Kéti, você sabe quem foi Zé Kéti?
Zé Kéti (acima, com Assis) foi um dos mais importantes compositores de música de Carnaval do nosso País. Nasceu em 1923, no Rio e morreu em 1999. Agora façam as contas: se Cândido das Neves nasceu em 1899, quantos anos passariam para que o bamba Zé, também morresse?
Viva os bambas!

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