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sexta-feira, 24 de junho de 2022

JOGANDO CONVERSA FORA

Fausto Bergocce e Assis Angelo no IMB
Eu já disse e repito: receber amigos é uma coisa muito boa. 
Ontem 23 tive a alegria de abrir a porta, abrir um sorriso e apertar a mão para receber o amigo do peito Fausto Bergocce. 
Dois dias antes fiz isso com o colega jornalista Wilson Baroncelli, editor do Newsletter Jornalistas&Cia.
Baroncelli trouxe um negocinho para o bico e levou-me a um boteco na esquina. Até então, e desde que perdi a visão dos olhos, ninguém tinha feito isso comigo. E conversamos e conversamos à mesa do boteco. Senti-me importante.
Fausto é um menino às vésperas de completar setentinha. Ele fará isso, essa joia, em novembro próximo. E eu, em setembro.
Ando contando os dias dos 70 que ele e eu faremos neste ano da graça de 2022.
E conversamos e conversamos sobre tudo e mais um pouco. Claro que a política foi assunto forte. 
Falamos dos potenciais candidatos à presidência Lula e Bolsonaro.
Bolsonaro, uma besta quadrada, está com toda força que a máquina dá a quem se acha num cargo de presidente.
Lula, sem máquina, se acha acima de Deus e do mundo. Pena. É o que apontam as pesquisas de opinião.
Lula está se movimentando em saltos altíssimos. Como diz o povo: está se achando. Quando abre a boca, e Fausto concorda, diz um monte de asneiras. É a favor, por exemplo, do aborto. E tal e tal e tal.
Simone Tebet, ai, ai, ai, diz coisas repetidas o tempo todo. É candidata à cadeira de presidenta pelo conjunto de partidos identificado como União Brasil. De direita.
O União Brasil está se colocando como terceira via. Hmmm...
Há muitos partidos políticos doidos para ocupar a cadeira hoje ocupada pelo malandro Bolsonaro.
Bolsonaro representa tudo o que não presta na vida pública. Sabemos disso, mas pelo menos 25 milhões de loucos, tapados, imbecis, não veem o que um cego vê. Ai, ai, ai. Eu.
E Ciro Gomes, hein?
Ciro, paulista de Pindamonhangaba, que conheci na mesa de um bar ao lado do colega jornalista José Nêumanne, anda esquecido até pela Imprensa. Pena. Não entendo.
Ciro, que tem um currículo político invejável, é pouco lembrado. Mas é interessante ouvi-lo. Sua fala é boa, tem a ver com as necessidades que o povo pede e precisa.
As entrevistas do Ciro são claras e nelas ele diz do que o Brasil e brasileiros precisam.
Fausto e eu falamos e falamos e falamos. De artes, inclusive. De teatro. Lembramos da importância e sonhos da menina Anna da Hora. Anna concluiu há pouco a faculdade de Artes Visuais. Adora jornalismo, mas quer por na rua e na vida seu talento de atriz. "Anna é linda e não sei como é que ela aguenta figurinhas como você, Assis", disse Fausto molhando o beiço com um experimento de cana mineira. Aliás, pra dizer essa besteira, Fausto tinha que estar com o beiço molhado de caiana. Pois, pois.
Fausto, um dos mais importantes cartunistas do Brasil, ama desesperadamente o berço onde nasceu: Reginópolis, SP, que fica perto de Pirajuí, Novo Horizonte e Ibitinga.
O principal sonho de Fausto é doar a sua arte à cidade onde nasceu. E isso ele tem explicitado o tempo todo aos prefeitos. E eles nem, nem.
Pois é, Fausto é mais um brasileiro incompreendido pelos poderosos de plantão da terra em que nasceu.
Politizadíssimo, o artista do traço Fausto Bergocce conta que nunca deixou de votar. E ensina: "Votar, escolher nossos representantes, é importantíssimo. É importante votar em quem a gente acredita, a quem se apresenta com um projeto político para o povo".
Concordo, temos de votar em quem a gente acredita. No projeto que melhor atende às necessidades do povo.
É isso.

PARA LEMBRAR

Hoje é dia de São João.
Hoje também marca o dia da morte do cantor Ivon Curi. Ivon deixou uma obra magnífica, recheada de clássicos como Farinhada, de autoria do pernambucano Zé Dantas.
Hoje é dia de lembrar o nascimento do paulistano Vadico, que nasceu no mesmo ano em que veio ao mundo o poeta sambista Noel Rosa (1910-1937). Vadico foi o mais importante parceiro de Noel. É possível que sem Vadico, Noel não existisse.
Hoje também é o dia do nascimento do paulista de Guaratinguetá Gastão Formenti (1895-1974), um dos mais importantes cantores da nossa música popular. Morreu no Rio.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

ADEUS PAULO DINIZ!

Paulo Diniz, Marcelo Melo (Quinteto Violado) Jarbas Mariz e Cátia de França

Paulo Diniz e Jarbas Mariz, em 1982
O Brasil está de luto. E se não está, deveria. Motivo é o desaparecimento do cantor e compositor pernambucano Paulo Diniz.
Paulo Diniz, de batismo Paulo Lira de Oliveira, era também instrumentista. Tocava violão que só. Nasceu em Pesqueira.
Pesqueira é uma cidade distante 215km da Capital recifense.
A primeira gravação de Paulo Diniz, em disco, ocorreu em 1966. Nesse ano, Vandré e Chico Buarque tinham as músicas Disparada e A Banda empatadas, no II Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record. Mas essa é outra história.
A carreira profissional de artista Paulo iniciou no Rio de Janeiro, onde passou a morar em 1964. Lá seus primeiros amigos foram Paulinho da Viola e Caetano Veloso.
Não recordo bem o ano, mas Paulo Diniz participou umas duas vezes do programa São Paulo Capital Nordeste. Nesse programa, que apresentei na Rádio Capital durante mais de 6 anos, ele cantou e tocou coisas lindas. Entre essas coisas lindas Canção do Exílio.
Canção do Exílio é, originalmente, um poema do maranhense Gonçalves Dias feito em Coimbra, Portugal, musicado por Paulo.
Paulo também musicou um belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade: E Agora José?
Do meu programa, ele participou numa cadeira de rodas. Motivo: Esquistossomose que pegou num banho de rio, em Minas. 
Paulo Diniz morreu ontem 22 nos primeiros minutos da madrugada.
Dono de uma voz rasgada, meio anasalada e possante, deixou marca profunda na nossa música popular e amigos, como Jarbas Mariz.
A propósito, Jarbas chegou excursionar com Paulo Diniz no começo dos anos de 1980 (foto acima).
Jarbas lembra:
"Sempre fui fã de Paulinho, no começo da minha trajetória nos conjuntos de baile eu cantava as músicas de Paulo Diniz. De repente eu to com ele tocando junto no Projeto Pixinguinha ao lado de Cátia de França e do Quinteto Violado. Em 1982, fizemos shows do Rio até Belém do Pará passando por todas as capitais do nordeste. Em Belém que era a última cidade do Projeto, Paulo Diniz me chamou pra fazer 14 shows em Manaus, e assim foi feito. Depois ele me chamou pra ir tocar com ele na festa do caju em Fortaleza, ficamos uma semana por lá, fizemos Recife, voltamos pra Fortaleza até que o tempo passou e aqui em São Paulo eu e Luís Wagner falamos com Luís Carlos Bahia pra trazê-lo pro projeto da UMES, tocamos juntos mais uma vez. Gravei Severina Cooper (Acioli Neto) e José  (Paulo Diniz e Drummond) inspirado na sua performance. Saudades, descanse em paz Paulinho".
 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

FOME NO BRASIL. ATÉ QUANDO?

O Brasil alimenta boa parte do mundo, mas não alimenta boa parte do povo do próprio Brasil. Pena.
Ontem 21, uma entrevista chocou os brasileiros. Saiu no RJ1, da Globo.
Na entrevista uma mulher, Janete Evaristo de 57 anos, disse à repórter Lívia Torres que ela e quatro netos estão passando fome. Come alguma coisa um dia, no outro nada. Há seis meses perdeu o marido e dois anos antes, uma filha. 
No correr da entrevista, Janete disse que a situação dela está muito difícil. Nem sabe direito o que fazer. Conta:
"Muito difícil mesmo. No domingo não tinha nada. Sabe nada? E eu entrei em desespero. Porque no sábado [os netos] já não tinham comido. Aí, no domingo, não tinha nada pra dar. Aí, eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer".
Diante dessa fala, a repórter Lívia não aguentou e chorou (ver, abaixo).
Agora há pouco a candidata do MDB à presidência da República, Simone Tebet, disse que se ganhar sua primeira providência será resolver o problema da fome que atinge milhões de brasileiros.
A entrevista de Tebet foi dada à rádio CBN. E dela participaram o âncora Milton Jung, Cássia Godoy, Miriam Leitão, Vera Magalhães e o comentarista político da CBN Bernardo de Mello Franco.
Miriam perguntou sobre a Petrobras e a tentativa de Bolsonaro em rasgar a Lei das Estatais para enfiar na empresa asseclas políticos.
Vera quis saber, entre outras coisas se a candidata MDBista votou no segundo turno em Bolsonaro. E por aí mais.
Nem Lula nem Bolsonaro toparam, até agora, participar das entrevistas especiais que a CBN está promovendo desde ontem 21.
Dona Janete e seus netos moram no Morro dos Macacos, zona norte do Rio de Janeiro.


 

CORRUPÇÃO

Agentes da Polícia Federal prenderam nesta manhã o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro e os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, acusados de corrupção. Com essa prisão fica clara a existência de um gabinete paralelo. A curiosidade é que Bolsonaro insiste ainda a bater na tecla de que em seu governo não há corrupção. Essa é mais uma historinha para boi dormir. Aguardemos os próximos capítulos.

terça-feira, 21 de junho de 2022

ENFIM, UM CANDIDATO CONTRA O SISTEMA

Na manhã de hoje 21 ouvi na rádio CBN uma entrevista lúcida do candidato à presidência da República Ciro Gomes. Nessa entrevista ocorrida entre às 8 e 9 horas Ciro falou de tudo e dela participaram, além do âncora Milton Jung, Cássia Godoy, Miriam Leitão, Vera Magalhães e Bernardo Mello Franco. Boas perguntas sobre temas atuais foram feitas e o entrevistado a todas respondeu com firmeza e objetividade.
A uma pergunta feita por Miriam sobre os riscos que corre a nossa democracia, Ciro respondeu: "Na cabeça de Bolsonaro está o delírio de um golpe, mas não vejo a menor possibilidade desse delírio prosperar".
Depois de Miriam, o âncora convocou Vera Magalhães que perguntou a Ciro o que faria para desarmar o mecanismo do orçamento secreto. Resposta: "Não quero ser presidente do Brasil para repetir a tragédia que está aí. Só quero ser presidente se for para mudar o modelo de governança política".
E por aí seguiu o candidato, que se posiciona como opção nas urnas.
No decorrer da entrevista, Ciro posicionou-se a favor de uma política de preços diferente da que é praticada hoje pela Petrobras. A uma pergunta do comentarista Bernardo Mello Franco, afirmou: "A Petrobras é um monopólio. O governo tem que administrar o preço porque não existe concorrência". E acrescentou: "A Petrobras está entregue a uma baderna absoluta".
A fala de Ciro Gomes sobre a política de destruição do meio ambiente, notadamente da Amazônia, foi salutar: "O narcotráfico é claramente protegido por autoridades brasileiras, inclusive as Forças Armadas".
Ao fim da entrevista, e respondendo a uma pergunta de Cássia Godoy, Ciro disse que não cabe ao presidente da República mudar a lei do aborto. Ou seja, não cabe ao presidente ser contra ou a favor desta questão. E disse mais: que é um "candidato contra o sistema" e se ganhar vai mudar tudo, para o bem do Brasil.
Confira o que disse Ciro à CBN, clicando:
 

Se continuar falando no ritmo em que falou hoje à CBN Ciro, certamente, vai tirar muitos pontos ora favoráveis a Lula. Pode ter racha. E pode também, quem sabe, levá-lo a cadeira de Presidente. E pelo andar da carruagem, Lula e Bolsonaro não participarão de debates de rádio e TV e aí será para Ciro uma festa. Aguardemos os próximos capítulos.

domingo, 19 de junho de 2022

VIVA CHICO!

O Brasil é um país de muitas histórias, de muita gente boa.
O dia 19 de junho marca o nascimento do carioca Francisco Buarque de Hollanda. Ano: 1944. Esse Francisco é Chico, autor musical de uma obra fantásticas. E também escritor! Autor de Calabar, Budapeste e Estorvo. 
Estorvo eu comprei em Portugal. Vale a pena lê-lo.
A obra de Chico é enorme e muito bonita. 
No comecinho dos anos de 1980 entrevistei Chico para a revista Homem, acho, da Editora Três. Duas páginas, falamos de tudo e mais um pouco, inclusive sobre licenciosidade na cultura popular. Não tenho o número em que saiu essa entrevista. Quem tiver, peço uma cópia.
Chico Buarque teve sua primeira música gravada, em disco, pelo paraibano Geraldo Vandré. A propósito em 1966, Vandré e Chico saíram empatados do festival de música popular. O empate ocorreu com A Banda X Disparada.
É muita história que o Chico tem pra contar.
Por não ter o que fazer, sobre Chico escrevi:

O mundo tá cheio de Chico
É Chico que vai e Chico que vem
Todo mundo quer ser Chico
Você quer ser Chico também?

Todo Chico é Francisco
Todo Francisco é Chico
Neste mundo de mentiras
E de muito fuxico

Mas é muito bom ser Chico
Tem Chico papa, Chico santo
Tem Chico aqui e acolá
Tem Chico em todo canto

Tem Chico no Pará, Piauí
Em Nova York e Belém
E até na Conchinchina
Se brincar tem Chico também

Ah!, toda mulher quer um Chico
Pra fazer judiação
Um Chico logo disse: Eu, hein? Mulher com Chico não.

sábado, 18 de junho de 2022

A MELHOR FESTA DE SÃO JOÃO É AINDA NO BRASIL

Meu amigo, minha amiga: você sabe quais são as origens da fogueira e da consequente festa de São João?
Isabel era prima de Maria.
Isabel e Maria nasceram nas bandas de Israel, Jerusalém e tal.
Isabel tinha uns 60 anos ou mais. Era estéril.
Maria foi a escolhida para ser a mãe do filho de Deus, Jesus. Era casada e já tinha filhos, mas um belo dia, o anjo Gabriel bateu a sua porta dizendo que por obra e graça do Espírito Santo ela seria a mãe daquele que morreria crucificado por nós.
Isabel era prima de Maria, que foi a mãe de Jesus.
Antes de ser mãe de Jesus, Maria recebeu de Isabel a dica de que ao nascer o filho João Batista ascenderia uma fogueira para avisá-la do sucedido. E assim foi feito. De um dia para o outro, João nasceu e com ele, por obra da mãe Isabel, a fogueira.
João era filho de Isabel e Zacarias, um sacerdote.
O tempo passou e a fogueira virou símbolo dos festejos joaninos, de João. Ou juninos, de junho.
E são três os santos que ornam a festa junina: Antônio, João e Pedro. Esquecido, há São Paulo. Pouca gente sabe, mas o dia de São Pedro é também o dia de São Paulo, 29 de junho.
Antônio nasceu em Lisboa, mas é conhecido como Santo Antônio de Pádua.
João nasceu ali pela terra prometida. Morreu decapitado, para satisfazer o desejo de Salomé. Quer dizer, perdeu a cabeça à toa.
Pedro foi o primeiro Papa da Igreja e tal. Antes, negou conhecer Jesus. Arrependeu-se. Preso pela soldadesca romana, pediu para ser crucificado de cabeça pra baixo.
Pois é, e Paulo?
Paulo foi um famoso perseguidor de judeus. Era militar. Um dia, a caminho de Damasco, ficou cego. Um clarão fortíssimo o cegou. Desde então, converteu-se ao Cristianismo. Morreu decapitado.
A tradição junina tem origens pagãs e chegou ao Brasil no século 19, por iniciativa dos colonizadores portugueses. Mas era sem graça.


A festa junina ganhou forma, mesmo, com a introdução da quadrilha.
A quadrilha tem origens da França, de Bonaparte.
Dizem que Bonaparte não gostava da dança da quadrilha.
Em lugar nenhum do mundo a festa junina ganhou tanto brilho e beleza como no Brasil. A ver com Assis Valente, Luiz Gonzaga e tantos e tantos mais: Bidu Saião, Chico Alves, Pedro Raymundo, Jackson do Pandeiro, Manezinho Araújo… Mas agora estão acabando com essa bela festa. E por não ter o que fazer, por não ter muito o que fazer, escrevi essa coisinha:

O céu fica enfeitado
Nas noites de São João
E alegre o povo dança
Nos forrós lá do Sertão
Embalado pelo som
De Luiz, rei do Baião

É uma festa bonita
A festa de São João
Tem pipoca e pau de sebo
Arrasta-pé e rojão
E a dança da quadrilha
No terreiro ou no salão

Tem de tudo nessa festa
Tem fogueira e tem quentão
Tem comadre e tem compadre
Arrastando os pés no chão
E todo mundo gritando:
Viva o Senhor São João!


É isso. Clique: 

LEIA MAIS: O FIM DAS TRADIÇÕES JUNINASESTÃO ACABANDO COM SÃO JOÃO

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

sexta-feira, 17 de junho de 2022

É BOM ABRIR A PORTA PARA AMIGOS

Atílio, Assis e Tiné
 
É bom, de fato, receber queridos amigos em casa. Foi o que aconteceu, quarta 15.
No começo da tarde abri a porta para o colega Atilio Bari, jornalista, autor de livros infantis e apresentador do belo programa Persona.
Persona, da TV Cultura canal 2, vai ao ar todos os domingos a partir das 10 da noite.
Grandes personagens da cena artística brasileira têm passado por lá. Entre esses personagens, o ator Lima Duarte e o cantor e compositor baiano Tom Zé.
Atilio, que conheço há pelo menos duas décadas, veio bater papo e gravar uma participação minha no seu programa.
Conheci Atilio num papo que tivemos no programa Em Cartaz, que apresentava numa TV chamada canal Aberto, ou algo parecido. Eu tinha também um programa lá.
Logo após abrir a porta para Atilio, chegou outro amigo: o jornalista pernambucano, e também autor de livros, Flávio Tiné.
Tiné é um desses grandes amigos que a vida nos oferece de mão beijada.
Tiné foi durante anos, mais de 20, assessor do Hospital das Clínicas.
No HC passei maus bocados. Foi lá que me submeti a sete cirurgias, na tentativa infrutífera de recuperar o brilho dos olhos. Pois é, não deu.
Atilio, Tiné e eu conversamos sobre tudo ou quase tudo. Tiné, por exemplo, falou de Marcos Maciel e até de Fidel Castro e Che Guevara, que conheceu pessoalmente em Cuba. Ano: 1962. Brincando, perguntei se ele tinha passado a mão na bunda dos dois famosos guerrilheiros. Ele riu e disse que não fez isso, não. Só apertou as mãos de ambos.
Falamos também do desclassificado presidente Bolsonaro. Mais: jornalismo de rádio e TV, de jornal e seu futuro e tal e tal. De meio ambiente, inclusive do duplo assassinato recentemente ocorrido na Amazônia. 
No Amazonas o indigenista Bruno Pereira e o jornalistas inglês Dom Philips tombaram mortos pela língua assassina do presidente da República.
Os irmãos que acionaram o gatilho contra Bruno e Dom estão presos, mas até quando ninguém sabe.
O presidente Bolsonaro continua livre para matar.
Ai, Brasil!

quarta-feira, 15 de junho de 2022

SEMPRE É TEMPO DE LEMBRAR TAIGUARA

Poucos artistas foram tão necessários à cena musical brasileira como Taiguara Chalar da Silva, nascido no dia 9 de outubro de 1945, em Montevidéu, Uruguai, mesmo mês em que os aloprados Hitler e Mussolini ainda insistiam em fazer deste mundinho de Deus uma simples bola de chutar.
Taiguara era uma figura e tanto!
Se alguém quisesse vê-lo irritado, que o chamasse de estrangeiro; e se o chamasse, que se preparasse para correr ou ficar e ouvir umas boas, já que não era de levar desaforo para casa. Parecia ter fogo nas ventas, o danado.
Deixou um legado musical comparável a pérolas do mais alto quilate.
E não quero aqui falar das canções clássicas como Hoje, Viagem, Universo no Teu Corpo, Que as Crianças Cantem Livres e nem dos nossos encontros no bar da esquina tomando jurubeba Leão do Norte; e chimarrão na minha casa. Tampouco, quero lembrar a vez que me pediu para levá-lo ao apartamento do cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré, para um dedo de prosa.
E por que deveria lembrar o dia que duvidou que eu, trabalhando na TV Globo, mandasse registrar uma de suas passagens de som no Anhembi, em São Paulo, para o jornal da noite? E por que também deveria lembrar que foi gravado pelos franceses Françoise Hardy e Maurice Monthier? Que importância tem? E pelo sueco Jay Jay Johanson? Ah! Contar que ele próprio se aventurou a cantar na língua sábia de Shakespeare? Não, nada disso. Pra quê?
Também não quero lembrar o óbvio: que foi o artista que mais teve composições classificadas nos festivais de música popular no País. Era um craque, mestre na interpretação musical.
Há como esquecer a interpretação que deu à Modinha, de Sérgio Bittencourt, e à Helena, Helena, Helena, de Alberto Land? Voz suavíssima, encantadora por dizer o mínimo.
Em compensação, eu poderia aqui lembrar que este ano há pelo menos duas boas razões para se falar dele, Taiguara. Uma triste: o seu desaparecimento do mundo dos vivos. A outra alegre: a sua estréia em disco, ocorrida em 1965.
O que quero lembrar, mesmo, é que no baú das suas obras se acha o elepê Imyra, Tayra, Ipy, de 1976, recolhido das lojas 72 horas depois de lançado, por força e estreiteza mental do governo militar. É hoje uma relíquia nunca ouvida no formato cedê. Nunca aspas, pois essa relíquia acaba de ser relançada no Japão. No Japão! Em cedê, e eu disse: no Japão, repito. Uma de suas filhas, Imyra, se indignou ao saber da notícia:
— Não é justo que os brasileiros paguem em dólares para ouvir o meu pai cantar.
Aproveito para gritar: cartolas da Odeon, relancem logo os discos de Taiguara, pois as novas gerações não podem ficar alheias a eles. Precisam conhecê-los para saber que no Brasil já houve quem fizesse bonito na arte musical: o operístico e ao mesmo tempo popular Carlos Gomes; o chorão Callado, a chorona genial Chiquinha Gonzaga, o frevista Capiba, o bandolinista Jacob, o violonista Dilermando, o sambista Noel, o sanfoneiro Gonzaga, o mineiro Ary Barroso... Sem falar de Pixinguinha, Elomar, Vandré, Vital, Gereba, Sivuca, Osvaldinho, Dominguinhos e tantos mais.
As palavras que dão título ao disco censurado de Taiguara são mantras tupis, no esclarecer do próprio artista: imyra, uma volta à infância no bairro carioca de Santa Tereza; tayra, o sêmen do tempo; e ipy, o encontro ou mistura do velho com o novo.
Mais ou menos isso.
Nesse disco, ele se atira às raízes brasileiras a partir de Kuarup, de Darcy Ribeiro, mostrando que não se deixou levar pelo fácil canto falso das sereias transnacionais; e que soube, como poucos, usar as armas do inimigo para se fortalecer, não deixando de registrar sua obra no vinil por serem estrangeiras as gravadoras instaladas no Brasil. Assim, com esperteza, talento e determinação ele legou para a posteridade um punhado de sambas e canções, no meio alguns experimentos dodecafônicos, como Sete Cenas de Imyra.
No Imyra há letras e melodias absolutamente fantásticas.
Para começar, abre com pianice, uma “pecinha sinfônica” em que o autor usa o seu piano amestrado e segue lírico em Delírio Transatlântico e Chegada no Rio, passando pela saudade que morria do Brasil no exterior contida no lamento Terra das Palmeiras, inspirado no poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias; e fecha com a pequena peça de pouco mais de um minuto Outra Cena, em que usa a voz e o piano para falar de sol, sêca, sertão, povo, ladrão. Antes, na faixa penúltima (Primeira Bateria), clama por liberdade com a conivência do bandoneon ensinado do pai, Ubirajara.
E por aí ele vai que nem um mago trocando o condão pela batuta, enquanto se investe de maestro ao lado do bruxo Hermeto Pascoal, na flauta; de Toninho Horta, no violão; de Novelli, no baixo acústico; de Nivaldo Ornellas, no sax; de Lúcia Morelembaun, na harpa... De músicos, enfim, de primeiríssima linha.
Se por cá estivesse, certamente sorriria ao ler este texto e levantaria o braço direito com o punho cerrado, dizendo:
— Viva o Brasil, companheiro!
Era o seu jeito. 
 

terça-feira, 14 de junho de 2022

HÁ 14 ANOS MORRIA JAMELÃO

O carioca José Bispo Clementino dos Santos tinha 95 anos 1 mês e dois dias de vida quando morreu em 2008.
Esse José ganhou fama como Jamelão, um negro forte e de voz belíssima. Era pouco afável. Não costumava dar bola a desconhecidos. Era de riso contido, de pouca graça.
Jamelão começou a aparecer com esse apelido nos programas de calouro, entre os quais Calouros em Desfile. Nesse programa, apresentado pelo mineiro Ary Barroso, surgiram grandes nomes da nossa música popular.
Luiz Gonzaga, o rei do baião, apresentou-se muitas vezes no programa do mineiro Ary.
Profissionalmente, Jamelão começou a gravar músicas nos fins dos anos de 1940. Em 1950, integrou-se ao time de puxadores de samba tradicional Escola Mangueira.
Jamelão detestava ser chamado de "puxador de samba".
Estive várias vezes com Jamelão e insisti, várias vezes, para que ele participasse de programas de rádio que apresentei em São Paulo, entre esses São Paulo Capital Nordeste. Não topou. Fazer o que, hein?
Jamelão, que gostava de tocar tamborim e cavaquinho, emprestou a sua voz a compositores de clássicos como Lupicínio Rodrigues (1914-1974) e Lúcio Cardim (1932-1982). 
De Lupicínio Jamelão gravou Nervos de Aço e de Lúcio, Matriz e Filial.
Curiosidade: Jamelão é o nome de uma fruta típica da Índia, cuja a árvore pode chegar a 10 metros de altura.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

VIVA A LÍNGUA PORTUGUESA! (4, FINAL)

São nove os países que falam a língua portuguesa. Língua difícil e bela.
No nosso alfabeto há 26 letras, incluindo o K, W e Y.
Em 1953, o compositor pernambucano Rosil Cavalcanti compôs o coco Sebastiana, gravado por Jackson do Pandeiro. Essa obra, o autor cita o nosso abecedário, incluindo a letra Y, que chama “ipsilone”. Assim:

Convidei a comadre sebastiana
Pra cantar e xaxar na paraíba
Ela veio com uma dança diferente
E pulava que só uma guariba
E gritava a, e, I, o, u, ipslone


Atualmente o português é formado por cerca de 600 mil palavras ou expressões, das quais 150 mil são identificadas como técnicas.
Mais de 260 milhões de pessoas falam a língua que fez de Camões o poeta mais famoso de Portugal.
Por cá, nossa terra, grandes poetas burilaram e continuam burilando o belo idioma. Um desses foi Olavo Bilac. É dele o poema A Última Flor do Lácio.
Mais recentemente, o jornalista e poeta paraibano José Nêumanne gerou o belíssimo poema A Seara de Saramago. Confira:
 
 
José Saramago foi um grande escritor português, cujo centenário de nascimento deverá ser amplamente comemorado ainda este ano de 2022.
No dia 10 de junho comemora-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
A 26ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que deverá se realizar entre os dias 2 e 10 de julho no Expo Center Norte, será dedicada a Portugal.

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora.

domingo, 12 de junho de 2022

VIVA A LÍNGUA PORTUGUESA! (3)

A gramática do padre
Fernão de Oliveira
No Brasil o também padre Antonio da Costa Duarte repetiu a iniciativa de Fernão de Oliveira, publicando em 1829 o Compêndio da Gramática Portuguesa.
O português ganhou forma clara e bela com a publicação de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. Essa obra foi pela primeira vez publicada em março de 1572.
Os Lusíadas, no Brasil, chegou a ser objeto de estudo na rede escolar.
Não dá, porém, para ignorar outras obras igualmente representativas da língua como o Diccionario dos Synonymos Poetico e de Epithetos da Lingua Portugueza, de J.I. Roquete e José da Fonseca, lançado em Lisboa na dobradura de tempos distantes.
Num dos primeiros verbetes desse dicionário lê-se o quão difícil era ainda mais a nossa língua:
Abstracto, abstruso.
Uma coisa abstracta é difícil de entender, porque dista muito das ideias sensíveis e comuns. Uma coisa abstrusa é difícil de compreender, porque depende de um encadeamento de raciocínios…

O mais famoso dicionário da língua portuguesa até hoje citado nos compêndios afora, lançado no século 19, foi o do lisboeta Francisco Caldas Aulete (1826-1878).
Muitos brasileiros continuam atentos à evolução da língua portuguesa.
Até hoje o português por cinco reformas em Portugal. A primeira em 1911, quando Portugal virou

República. A segunda, em 1920. A terceira, em 1931. A quarta, em 1945. E a quinta em 1963.
No Brasil, o português passou por duas reformas: em 1943 e 1971.
Em 1948, a Academia Brasileira de Letras, ABL, levou a público o resultado da reforma de 1943. Título: Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
Em 1997 o poeta, romancista, tradutor e jornalista cearense Gerardo Mello Mourão publicou a obra prima Invenção do Mar. Na forma, seguiu os caminhos trilhados por Camões.
Invenção do Mar foi dedicado ao artista popular pernambucano Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
Pra Mourão, o primeiro escritor brasileiro indicado ao prêmio nobel de literatura, Gonzaga representou com fidelidade o povo brasileiro, notadamente o nordestino.
Gerardo Mello Mourão dizia que Luiz Gonzaga fora uma espécie de Homero.
É fantástica a obra de Mourão.
É de Luiz Gonzaga (e Zé Dantas) a beleza musical intitulado ABC do Sertão:

Lá no meu sertão pros caboclo lê
Têm que aprender um outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê

O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê

Até o ypsilon lá é pissilone
O eme é mê, i o ene é nê
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto ê

A, bê, cê, dê
Fê, guê, lê, mê
Nê, pê, quê, rê
Tê, vê e zê

Lá no meu sertão pros caboclo lê
Têm que aprender outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê

O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê

Até o ypsilon lá é pissilone
O eme é mê, i o ene é nê
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto ê

A, bê, cê, dê
Fê, guê, lê, mê
Nê, pê, quê, rê
Tê, vê e zê

Até o ypsilon lá é pissilone
O eme é mê, i o ene é nê
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto ê

A, bê, cê, dê
Fê, guê, lê, mê
Nê, pê, quê, rê
Tê, vê e zê

sábado, 11 de junho de 2022

VIVA A LÍNGUA PORTUGUESA! (2)

Geograficamente, o Brasil está muito bem localizado. Além do mais, a nossa proximidade (e parentesco) com o índio e o negro africano possibilitaram uma salutar mistura de culturas. Como se não bastasse, ainda há o fator colonizador.
No passado, fomos invadidos pela Espanha, Inglaterra e Holanda, depois de Portugal. O chafurdo foi grande. Em tempos mais recentes, especialmente depois da Primeira Guerra, os norte-americanos passaram a nos mandar bobagens e bobagens, que fomos ora deglutindo, ora armazenando para um possível aproveitamento.
Por acolher muito bem os visitantes de todos os recantos, o Brasil passou a assimilar comportamentos e expressões bastante interessantes. De Portugal herdamos a língua e boa parte da cultura, como a cantoria e o cordel. Da França, Itália, Alemanha, Inglaterra e Japão temos assimilado costumes e hábitos alimentares. Entre outras coisas, a África, por exemplo, nos deu a receita da feijoada. Hoje, até as cozinhas árabes e chinesas já nos são familiares. Isso nos levou a formar uma identidade sem similar, embora ainda sejamos uma nação relativamente nova.
Bom, o português que hoje falamos é completamente diferente do português falado em Portugal. Inclusive o sotaque. Por isso, acho que já é hora de se discutir com seriedade o fala do nosso povo, o nosso falar, como fez João Ribeiro em 1933, ao lançar o livro A Língua Nacional. Treze anos antes, Amadeu Amaral entrara no assunto ao publicar O Dialeto Caipira, rico e interessantíssimo estudo feito à luz da ciência, que em edição posterior ganharia maior brilho com notas assinadas por Paulo Duarte (em 1944, um dos livros de Duarte, Língua Brasileira, editado em Lisboa, foi proibido em todo o território português, por obra e mando do Estado Novo de lá).
O tema é tão estimulante que já em 1853 surgia, em Portugal, o primeiro Dicionário Brasileiro, de Braz da Costa Rubim, com o propósito de ensinar (ou esclarecer) aos portugueses o português então falado no Brasil. Trinta anos depois, o filósofo Leite de Vasconcelos também publicava uma obra abordando o mesmo assunto, intitulada Dialeto Brasileiro, em que reconhecia as rápidas transformações por que passava a língua portuguesa no Brasil. Em 1940, foi a vez de o estudioso Edgard Sanches tentar provar com a+b a existência de uma língua genuinamente brasileira, num livro que deu o título de A Língua Brasileira.
Está na hora, pois, de retomar o debate. Enfim, o brasileiro fala brasileiro ou português?
Antes, muito antes do Descobrimento, a língua que se falava por aqui era a língua geral, isto é, o guarani, mas em 1727 Portugal decidiu proibir o uso dessa língua, por entender que o português estava se descaracterizando, donde conclui-se que os absurdos não tem idade nem época para se concretizarem.
Curiosidade: até o século XVIII, falava-se no Brasil duas vezes mais o guarani que o português. Isso é história, está nos compêndios.
Antes de Portugal virar o país que é, não havia a língua portuguesa. A propósito Portugal era apenas um condado fincado na Península Ibérica. Estava ali pertinho da Espanha.
À época, e estamos falando do tempo antigo, os romanos imperavam na região.
O Império Romano dominou a região onde se acha hoje Portugal durante séculos.
Houve muita briga lá na Península.
Como os romanos, os árabes também botaram pra quebrar.
O idioma falado pelos romanos era o Latim.
Havia o latim culto e o latim inculto, o popular, o vulgar.
Foi do latim vulgar que o idioma português surgiu.
Na verdade, outras línguas e dialetos também tiveram influência na formação da dessa língua. A principal influência, diga-se de passagem, foi o galego-português.
Àquela altura Portugal já tinha vida própria.
Importante lembrar que um dos reis que mais força deram à língua portuguesa foi Dom Dinis I, o sexto rei de Portugal, que viveu entre 1261 e 1325.
Dom Dinis, que reinou entre 1279 e 1325, era chegado às artes populares. Dizem que tocava até viola ou coisa parecida. Seus súditos o chamavam de Rei Trovador.
Um dia Dom Dinis se achava no porto observando a movimentação de embarcações. Estranhou ao não identificar nenhuma embarcação com a chancela ou bandeira do seu país. Quis saber a razão, perguntando a um de seus conselheiros. A resposta foi mais ou menos esta: “Não temos madeira especial para construir embarcações”.
Ao deixar o porto, dom Dinis já tomara a decisão de iniciar a plantação de árvores apropriadas para construir navios e tal. Dez anos passados, Portugal já tinha o mar e rios cheios de embarcações.
Outra de dom Dinis: insatisfeito por ouvir seu povo falar em latim enviesado, decidiu oficializar o português corrente.
Tempos depois, mais precisamente em 1536, surgia a primeira gramática ensinando como falar a língua adotada por dom Dinis. O autor dessa façanha foi o padre Fernão de Oliveira (1507-1581).

sexta-feira, 10 de junho de 2022

VIVA A LÍNGUA PORTUGUESA! (1)

O mar inventou o Brasil
E os portugueses, o mar
Tal façanha só foi feita
Pra que se pudesse contar
Que o poeta rei Dinis
Chegou longe sem nadar

Nadar mesmo não sabia
Mas sabia inventar
Foi ele quem inventou
De por seu povo no mar
Balançando sobre as ondas
Foi o mundo conquistar

Tinha já uns trinta anos
Era bom e coisa e tal
Não gostava do latim
Tão falado em Portugal
Depressa ele pensou
Numa língua mais legal

Essa "língua mais legal"
Era a língua portuguesa
Cultivada com esmero
Como flor da realeza
Portugal lhe deu a forma
O tom, graça e beleza

No mundo há muita gente
Falando em japonês
Falando grego e russo
Alemão, turco e chinês
Mas na vida coisa boa
E falar em português


O Brasil é formado por um enorme agrupamento de outros Brasis: 26 Estados e 1 Distrito Federal. O resultado disso é um país absurdamente fantástico, de dimensões continentais, com 8.622.996 quilômetros quadrados, área equivalente a pelo menos 17 Espanhas, 28 Itálias, 206 Suíças, 251 Holandas, 279 Bélgicas e 797 Cubas, ou algo — ainda territorialmente falando — como quase uma China ou Estados Unidos da América, ou duas Índias Inteiras.
Diante disso, um desavisado qualquer pode, ou poderia, concluir que o nosso Patropi é uma espécie de torre de Babel. Mas não é. Aqui todos se entendem, pelo menos linguisticamente. A língua é uma só: o português, embora à essa altura — quatrocentos e tantos anos depois da descoberta — eu ache que melhor seria, sem xenofobia, se pudéssemos chamá-la de brasileira, de língua brasileira.
Mesmo sem outras línguas (ou dialetos), o Brasil carrega no bojo uma peculiaridade especialíssima: o sotaque.
O sotaque da língua de um povo não substitui um dialeto, é claro, pois a língua é a fala de um povo, de uma nação, O sotaque é o canto de uma língua.
Em cada canto ou região do Brasil podem se fazer descobertas verdadeiramente incríveis: para tanto, basta um pouco mais de atenção.
Na Paraíba ou em Pernambuco as palavras têm um sentido bastante diferente do sentido a elas dado no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Nesses lugares, as palavras são carregadas de um quê que não existe em regiões como o Rio Grande do Sul ou Brasília, por exemplo. No Rio, jerimum é abóbora e aipim é macaxeira, pode?
Na Bahia, mais precisamente na capital Salvador, as palavras parecem nascer das ondas do mar, do sol posto num fim de tarde, dos balouçantes coqueirais, do sorriso e do requebro dos quadris das rainhas negras encontradas em cada praça ou esquina; da música, do trinar dos passarinhos, dos tocadores de berimbaus, das danças, dos terreiros de umbanda, das pretas baianas vendedoras de acarajés vindas de mãe África transbordantemente carregadas de carinho, graça e sensualismo.
O falar dos nortistas é um, o dos nordestinos é outro, o dos sulistas etc. Em cada região do Brasil há uma linguagem própria, popularíssima. Sem contar o uso da gíria, que se renova no dia a dia das grandes cidades…

Os paulistas carregam no r, assim: porrrta, porrrteira, aberrrtura, porrrr aí.
No Nordeste, a tônica forte é a vogal, com o som escandalosamente aberto. Pronuncia-se: p(óóó)rta, p(óóó)rteira, ab(ééé)rtura etc. etc. Nessa região, formada por nove Estados — incluindo o Maranhão, terra dos Ribamares —, há muitas outras peculiaridades no linguajar. A consoante v, por exemplo, lá é quase sempre trocada e pronunciada com o r dobrado: cerreja (cerveja), carralo (cavalo), raquinha (vaquinha) etc. E em alguns casos, as palavras chegam a ser totalmente descaracterizadas, como velho, pronunciada como réi. Noutros, o r simplesmente desaparece, como, aliás, o m. Ex.: cab(r)a, viage (viagem), marge (margem), virge (virgem).
Os verbos, nalguns tempos, como no gerúndio, também apresentam mudanças. Ex.: ino (indo), andano (andando),fugino (fugindo). Quer dizer, nesses casos, o d vai para a cucuia, como para a cucuia também vai o tratamento você, humilhantemente reduzido para a forma cê ou ocê, assim pronunciado em quase todo o território nacional.O nordestino fala apressadamente, Por isso, talvez, muitas letras abandonem as palavras, como nos exemplos citados. Curiosidade: quando isoladamente, o e costuma ganhar o som de i (em São Paulo, ê). Pode? Pode, pois este é o Brasil-brasileiro cantado em prosa e verso numa só língua, mas com sotaques diversos nos seus 26 Estados.

O BRASIL SOFRE NAS UNHAS DE BOLSONARO

Eu não sei se estou ficando doido, mas o fato é que cada vez mais me sinto com os nervos à flor da pele.
Nos meus silêncios tremo, me enervo e até choro ora de raiva, ora de tristeza, mesmo.
Sou de um país incrível, muito bonito, de gente trabalhadora.
Milhões de brasileiros estão sofrendo por não terem o que comer, por não terem emprego, por não ganharem o básico necessário para a sua existência e o seu futuro.
A educação está em pandarecos, idem o setor de saúde e tudo o mais.
A Amazônia brasileira está sendo engolida pelos garimpeiros e traficantes.
Nossas árvores estão tombando e virando objeto de venda ilegal. E já faz tempo.
Os indígenas, sempre desrespeitados, rogam aos céus paz e piedade...
Enquanto isso, o presidente eleito pela maioria segue desrespeitando as regras civilizadas e atacando as pessoas que não concordam com ele, com seus gestos abruptos e fala de quem anda precisando ser barrado ou posto numa camisa de força.
Estamos afunhenhados.
Bolsonaro foi à Los Angeles participar da Cúpula das Américas, periodicamente realizada por iniciativa do presidente de plantão norte-americano. No caso ora em pauta, Joe Biden.
A Biden, Bolsonaro disse que o Brasil continua às mil maravilhas. Que o Brasil continua sendo os pulmões do mundo, o celeiro alimentar do mundo. Mentira! Falou também, como não haveria deixar de ser, das urnas eletrônicas que serão pilotadas em outubro pelo Tribunal Superior Eleitoral, TSE. E insistiu na tecla: são falhas. 
Para que as eleições sejam validadas, é preciso que "sejam limpas e auditáveis". Quanto ao desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, Bolsonaro disse que ambos fizeram o que não deveriam fazer: "Realmente, duas pessoas apenas num barco numa região daquela, completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendável que se faça. Tudo pode acontecer, pode ser um acidente, pode ser que eles tenham sido executados. Tudo pode acontecer...".
Pois é, aí está, segundo Bolsonaro, Pereira e Phillips são culpados pelo o que fizeram.
Em várias partes do mundo está havendo manifestações públicas de pessoas e entidades ligadas aos direitos humanos (acima). Todos querem saber onde se acham Pereira e Phillips.
A Tower Bridge, famosa ponte de Londres, amanheceu com enormes cartazes em que se liam indagações sobre o desaparecimento de Pereira e Phillips.
Meus amigos, minhas amigas, eu acho o seguinte: qualquer adjetivo, por pior que seja, cabe certinho como definição do que é Bolsonaro.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

MORRE O CARTUNISTA ROGÉRIO TADEU

Integrantes da equipe do jornal +Humor,
com Rogério (agachado) e Fausto (à direita)
Mais um grande cartunista brasileiro partiu para a Eternidade.
A informação é do Fausto, amigo e colaborador deste Blog. Diz Fausto:
"O cartunista Rogério Tadeu faleceu vitima de câncer nesse 8/6/2022, aos 68 anos. Há algum tempo ele se achava internado por conta de um tratamento. Cartunista muito criativo, era um dos editores do jornal +Humor juntamente com Amorim, Luis Pimentel, Mayrink, Ykenga Mattos entre outros. Sua produção era vasta com muitos cartuns, charges e personagens: Bola Furada e Mão Estendida, em parceria
com o jornalista Luis Pimentel (ao lado). Muito criativo, tinha vários projetos inclusive para o jornal +Humor que estava em planejamento de voltar após um período de paralisação por conta da pandemia. Boa gente e de bem com a vida, era vascaíno fanático".
Fausto conta um pouco a respeito do jornal +Humor:
"O +Humor, criado e editado  no Rio de Janeiro, tem com distribuição gratuita a população, em locais determinados e é vendido por assinatura para pessoas fora do Rio de Janeiro. A festa de 1 ano do jornal aconteceu na Lapa, Rio, com a edição do numero 9 em 2020.
Depois teve de ser interrompido per conta da Pandemia. Era até então, o único jornal de humor impresso no Brasil, em tamanho tabloide. Equipe de cartunistas: Amorim, André Brown , Dil Márcio, Guidacci, Jaguar, Luis Pimentel, Ykenga, Eu (Fausto) e Rogério Tadeu".
No decorrer da pandemia provocada pelo novo Coronavírus, morreram dezenas de artistas do traço brasileiro. Assim, infelizmente, o humor brasileiro continua perdendo a graça

Charge de Rogério Tadeu

A INVENÇÃO DO BRASIL

O dia hoje é 9, o mês junho e o ano 2022. 
Esse dia registra o espanhol José de Anchieta, Apóstolo do Brasil, como mais um santo em terras brasileiras.
São José de Anchieta foi canonizado pelo Papa Francisco no dia 24 de abril de 2014. A base da canonização foi o registro de 5.350 "milagres" atribuídos a ele.
Amanhã 10 marca o dia de nascimento do baiano João Gilberto. Faria 91 anos de idade se vivo estivesse, mas não está a não ser na memória de quem é tarado pela bossa nova.
João Gilberto, que morreu no dia 06 de julho de 2019, cantava e tocava violão bem baixinho. Chamavam-no de gênio da raça, mas eu gostava mesmo era das caretinhas que ele fazia.
Mas não é a respeito desses dois "santos" que venho aqui batucar nas teclas.
Amanhã 10 é consagrado como Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.
São nove as comunidades portuguesas: Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor Leste Macau e, naturalmente, Brasil.
Camões, Luís Vaz de Camões, é o nome mais expressivo da língua dos portugueses. Nasceu em 1524 e encantou-se em 1580, depois de ver publicado a sua obra mais importante: Os Lusíadas, que foi à praça em março de 1572.
Existem pouquíssimos exemplares da primeira edição de Os Lusíadas. Um desses exemplares se acha na Biblioteca Nacional, RJ.
Sobre a língua portuguesa, desenvolvi para o Newsletter Jornalistas & Cia um texto que tomara que vocês, leitores deste blog, gostem. O texto completo se acha na página 23, cliquem: J&Cia - EDIÇÃO 1362
A partir de amanhã 10 e até segunda 13, publicarei em partes o texto Viva a Língua Portuguesa!. Antes, ouça o poema que fiz sobre a nossa língua:

quarta-feira, 8 de junho de 2022

FOME, FOME, FOME!

Triste: mais de 19 milhões de pessoas passam fome no Brasil, atualmente.
Essa informação consta da mais recente pesquisa desenvolvida pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN). 
Isso não é brincadeira. É lamentável sob todos os aspectos e pontos de vista.
É problema antigo e sem solução até os dias de hoje.
Passar fome não é brinquedo. É algo torturante, humilhante.
Um dos primeiros levantamentos mais sérios sobre a questão se acha no livro Geografia da Fome, do pernambucano Josué de Castro (1908-1973).
O livro de Josué causou grandes polêmicas no Brasil e fora do Brasil, tanto que chegou a ser publicado em mais de 30 idiomas. É referência temática até hoje. Quem não o leu, leia.
Josué chegou a ser deputado por sua terra e teve o mandato cassado pela ditadura militar.
Pois é, o Brasil é cheio de incongruências.
O Brasil, segundo o presidente Bolsonaro, é o maior celeiro alimentar do mundo.
O romancista Kafka, do absurdo, encontraria por cá se por cá vivesse um verdadeiro manancial para as suas histórias aparentemente sem pé nem cabeça.
Kafka é o autor de Metamorfose.
Entre janeiro de 2019 e março de 2021 Bolsonaro, com seu cartão corporativo mágico, já gastou mais de 21 milhões de reais. Nessa dinheirama se acha tudo que um nababo gosta: comida fina de todos os tipos etc.
Os gastos de Bolsonaro pelo cartão corporativo são feitos em sigilo e guardado à 7 chaves.
Os exageros de Bolsonaro, todos, estão sob sigilo. Mas sabe como é repórter, né?
Na pesquisa da Rede PENSSAN há três fases de fome: leve, moderado e grave.
A fase grave, como indica o nome, é terrível e nela se acha 9% da população.
A população brasileira é calculada pelo IBGE em mais de 200 milhões de pessoas.
E que nem cachorro, Bolsonaro não quer largar o osso nem a pau. Pra se reeleger, venderia até a mãe. Ui!
A porta dos açougues Brasil afora formam-se filas e filas de pessoas em busca de osso.
Meu Deus! 
O cartunista mineiro Henfil, de batismo Henrique de Souza Filho (1944-1988),  criou o triste personagem Rango. 
Rango correu mundo: França, EUA etc.
O personagem de Henfil continua, infelizmente, atualíssimo.

Tirinha de Rango com seu filho

A mesma tirinha na versão em francês

 

O compositor e pianista mineiro Ary Barroso (1903-1964) tinha na TV e no Rádio um programa muito famoso. Por esse programa passou até Luiz Gonzaga.
Um dia, Ary recebeu a então caloura Elza Soares. Pobre, muito pobre, Elza apareceu diante do compositor bem magrinha, triste, enfiada num vestido surrado da mãe. Vendo a figura, Ary Barroso perguntou de modo sarcástico: "De onde você vem, menina?". E Elza: "Eu venho do planeta fome!".

terça-feira, 7 de junho de 2022

VIVA A LIBERDADE!

Hoje é o dia Internacional da Liberdade de Expressão. Porém não há o que comemorar. A propósito, há duas pessoas desaparecidas atualmente na Amazônia: o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Philips. Podem ter sido mortos por garimpeiros e traficantes que atuam na região. Torçamos que estejam sãos e salvos.
Ontem 6 o Exército soltou duas notas oficiais. Numa delas dizia que não tinha condições de procurar os desaparecidos. Na segunda nota, dizia que tinha condições.
Pois é.

Veja: JORNALISTA INGLÊS DESAPARECE NA AMAZÔNIA/ ASSIS ÂNGELO

segunda-feira, 6 de junho de 2022

GERARDO MELLO MOURÃO: UMA HISTÓRIA

Pesquisa do Datafolha publicada no último fim de semana dá conta de que quase 50% dos brasileiros atuam, politicamente, na linha esquerda.
Isso me fez lembrar da Coluna Prestes, que atuou com intensidade no correr dos anos de 1920.
A Coluna era esquerda vermelhíssima.
Uma vez Prestes me disse, contrariamente ao que se dizia, que a Coluna que levou seu nome não partiu pra cima dos cangaceiros de Lampião. Disse-me o famoso comunista que seus homens, enfileirados, acompanharam de longe a movimentação dos homens do famoso cangaceiro. E só. Explicação do velho Prestes: "Se o governo queria pegar Lampião e também a Coluna, alguma coisa estava errada". 
Os cangaceiros e a Coluna Prestes eram contra o governo vigente. Portanto, não fazia sentido os cangaceiros e a Coluna se digladiarem.
Digo isso para lembrar de Carlos Lacerda e Gerardo Mello Mourão (1917-2007).
Lacerda começou na política como comunista.
Mourão conheceu de perto a Coluna Prestes. Era menino, tinha ali por
Assis com DVD sobre Gerardo Mello Mourão
volta de 8 anos de idade. Integrantes da Coluna chegaram a pernoitar na casa de Mourão, em Crateús, CE.
Politicamente Gerardo Mello Mourão ingressou na política partidária defendendo os ideais da ação integralista. Ora, veja! Mas o tempo passou, e depois de 18 prisões, Mourão aliou-se à esquerda.
Carlos Lacerda, por sua vez, trocou a esquerda pelos ideais da direita canina. A morte de Vargas deve-se a ele, diga-se de passagem.
A história do cearense Gerardo Mello Mourão é interessantíssima.
Lacerda tinha um cérebro privilegiado. Falava várias línguas e hipnotizava multidões. O mesmo pode ser dito sobre Mourão.
Lacerda e Mourão, além de oradores, eram intelectuais de grande peso na vida brasileira. E também atuaram como jornalistas. 
A obra literária de Mourão é fantástica. Recomendo, aliás, a leitura do livro A Invenção do Mar. Voltarei ao tema, mas antes leiam a entrevista que Mourão deu a Tarcísio de Holanda e Ana Maria Lopes poucos anos antes de morrer. Acesse: DEPOIMENTOS: GERARDO MELLO MOURÃO

A ENCANTADORA VISITA DA JOVEM TINA (3, FINAL)

Antes de sair, Tina voltou-se tirando da mochila que levava às costas uma publicação ilustrada, e em braile, de Dorinha e a Turma da Mônica — Brincando pelo Brasil.
“É mais uma publicação dos Estúdios Maurício de Sousa”, informou.
Flor Maria, que discretamente acompanhava nossa conversa, pediu licença pra dizer que adora a personagem Dorinha. E contou: “É a história de uma personagem baseada na paulistana Dorina de Gouvêa Nowill, que ficou cega quando tinha 17 anos de idade. Morreu aos 91 anos, em agosto de 2010. Li que ela foi a primeira aluna cega a frequentar um curso regular na Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo. Posteriormente, Dorina colaboraria para a elaboração da lei de integração escolar, regulamentada em 1956. Estudou e fez vários cursos, inclusive a de especialização em educação de cegos na Teacher´s College da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, EUA”.
Poxa, eu disse sem me conter: “Como você sabe disso tudo?”.
A resposta foi rápida: “Sabendo”.
Após isso, Maria levou Tina até a porta e despediram-se.
A Fundação Dorina Nowill para Cegos é uma Instituição surgida em 1946 sob a denominação Fundação para o Livro do Cego no Brasil.

domingo, 5 de junho de 2022

A ENCANTADORA VISITA DA JOVEM TINA (2)

Personagem Cebolinha, por Maurício de Sousa
Quando pensei que já havia atendido a todas curiosidades de Tina, ela veio perguntando como desenvolvi a adaptação de Os Lusíadas. Ai, ai, ai, quanta curiosidade!
Eu respondi à jovem, filha de Maurício, que Os Lusíadas é uma obra encantadora e como tal sempre despertou em mim a vontade de recontar a história das navegações escritas pelo grande poeta português Luís Vaz de Camões. “Seu Assis, eu li Os Lusíadas graças ao Sr. e gostei. Muito. Agora quero saber se a sua adaptação da obra de Camões vai a teatro e virará livro”.
Entusiasmei-me, confesso, com a abordagem da jornalista. E de repente, vi-me falando pelos cotovelos. Disse-lhe que meu sonho, um dos meus sonhos é ver A Fabulosa Viagem de Vasco da Gama no Mar para canto e cordel. Pensei numa ópera popular. Mas não está fácil realizar essa minha vontade. “O Sr. já falou com o governo português, com os representantes do governo português no Brasil?”.
Tina realmente é uma menina muito interessante, atenta a tudo.
Quando pensei, de novo, que havia satisfeito a sua curiosidade, ela soltou mais perguntas: “E o rádio? E a televisão? Eu soube que o Sr. já publicou até folhetos de cordel. Na verdade já li alguns, gostei muito daquele A Vida como Tragédia e um Cego por Testemunha. Também gostei muito do folheto Jornalismo e Liberdade nos Tempos de Pandemia. O Sr. não pretende voltar ao rádio ou à televisão?".
Havia tempo que eu não falava com alguém tão jovem e tão curiosa a respeito do dia a dia que vivemos. Bom, respondi que sim. Que pretendo voltar às ondas do rádio e à TV. Mas para isso, faço necessário que alguém me veja e entenda meus propósitos: “Tornei-me invisível, Tina”.
A jovem filha de Maurício parece não ter gostado muito da palavra “invisível” e rebateu: “Desculpe, mas acho que o Sr. não está invisível coisa nenhuma, o Sr. tem produzido muita coisa, muita coisa mesmo! Na verdade, acho que o fato do Sr. ter ficado cego ficou foi melhor. Adoro seus poemas e todos os seus textos. Sou sua fã”.
Para provar o que dizia, Tina começou a declamar um poema que fiz pouco tempo depois que perdi a visão:

É magra e graciosa
Elegante e mágica
Não tem pena nem pecado
É dócil, é prática
É bela, belíssima
De beleza clássica

Ela é solidária
E não sabe dizer não
Ela abre meus caminhos
Com firmeza e decisão
E vai prá onde eu vou
Sem largar a minha mão

Eu adoro essa magrela
Pela sua discrição
Por gostar do que eu gosto
E me dar sua atenção
Eu a ela dou a vida
E ela a mim sua visão

Quieta, mas atenta
Sai comigo a passear
Com um passo mais à frente
Em silêncio, sem falar
Mas tudo que lhe peço
Ela dá sem reclamar

Mas que magrela é essa
Que me tira da rotina
E me leva a ver a vida
Pela ótica feminina
Seja dia, seja noite
Oh, meu Deus! É Serafina.


Espantei-me e, claro, não deixei de perguntar onde ela tinha descoberto esse texto.
Com ar de mistério, Tina riu e disse: “Eu não revelo as minhas fontes”.
Achei graça e ri também. E ela: “Aliás, aproveitando a oportunidade, gostaria que me dissesse como perdeu a visão. A propósito, esse poema é uma homenagem a bengala, não é?”.
Bom, perdi a visão em 2013 depois de várias cirurgias no Hospital das Clínicas. Essa perda foi provocada por descolamento de retina. Muita gente passa por isso. É de repente e não tem uma causa específica. Perder, perdi. Fazer o quê? O caso é adaptar-me à nova vida que vivo. Claro que ainda sofro problemas decorrentes do descolamento, como depressão. Mas a gente vai levando, com apoio de amigos e amigas. Amigos novos, pois os outros deixaram-me a ver navios e lamentando o que tinha que lamentar. Não é brinquedo não. Tenho feito muitos poemas abordando o tema da cegueira. Um desses, este:

Devastadora e sonsa
E filha da implosão
Ela pega, ferra e mata
Em nome da solidão
Não gosta de alegria
Ela gosta da perdição

Não tem cara, corpo ou alma
É invisível e letal
Nunca fez bem a ninguém
Pois é um mal universal
E não vou falar mais dela
Porque não presta e ponto final!

Enfim a cegueira não é o fim, não é mesmo?
Em determinado momento, agora sim satisfeita, Tina despediu-se com um aperto de mão, lembrando: “O dia 10 de junho é o dia da Língua Portuguesa. Nesse dia também é lembrada a morte de Camões. Vai escrever algo?”.Talvez, respondi.

sábado, 4 de junho de 2022

A ENCANTADORA VISITA DA JOVEM TINA (1)

Eu estava pra lá e pra cá na cadeira de balanço quando o telefone tocou. Fui atender, caiu. Voltei à cadeira. O telefone tocou novamente. Dessa vez consegui. Era Tina.
Tina é uma jovem jornalista que tem combatido o tempo todo as Fake News espalhadas no terreno livre da Internet, por gente que não tem tocômetro. Tina perguntou: “É o Assis?”.
Segundos após eu confirmar que sim, que era eu, Tina perguntou se poderia me atender para uma entrevista e conhecer o meu acervo de livros, discos e outros documentos brasileiros. “Sobre tudo, o assunto são vários”, foi logo falando.
Achei graça no jeito descontraído, leve, da menina Tina se expressar. E respondi: “Claro, estou à sua disposição”.
Horas depois, Tina bateu à porta apresentando-se. Disse que nascera em São Paulo e sempre sonhou ser jornalista. Não foi difícil. Seu pai, o cartunista Maurício de Sousa, deu-lhe todo o apoio.
Maurício é um dos mais importantes nomes dos quadrinhos brasileiros. A sua história é conhecida por todo mundo.
Em 2005, o jornalista alagoano Audálio Dantas (1929-2018), lançou o livro A Infância de Maurício de Sousa (ao lado).
Com o canudo conquistado na Faculdade, Tina logo foi às ruas em busca de notícias. Paralelamente, enquanto caçava fatos, Tina mergulhava nas redes sociais e espantou-se com o volume enorme de mentiras colocadas à disposição dos incautos.
A jovem contou-me isso sem esconder a revolta que as Fake News lhe causam. “Foi assim, seu Assis, que decidi dar rumo a minha vida. Tenho várias amigas e amigos que me ajudam nessa tarefa. O cartunista JAL é um desses amigos”, contou.
Solidário, ofereci-lhe o meu apoio.
Depois disso, dessas breves revelações, Tina disse que acompanha os meus passos no jornalismo há muito tempo e que sentia muito o fato de eu ter perdido a visão dos olhos. Disse também que não perde os textos que publico no Newsletter Jornalistas & Cia. Até lembrou alguns como o que fiz sobre João do Rio, sobre a Imprensa Negra do Brasil e, especialmente, sublinhou: “Adorei a entrevista que o Sr. fez com Deus, Jesus e Marx”.
Realmente, Tina é muito inteligente. Esperta diriam alguns, mas prefiro o termo inteligente.
Depois de falas e falas, perguntas e perguntas, Tina elogiou o site do Instituto Memória Brasil e o blog que mantenho na Internet. Curiosa, quis saber como é que produzo meus textos, já que não posso mais escrever. “Eu os dito”, respondi, acrescentando: “Pessoas incríveis me auxiliam nessa tarefa. Entre essas pessoas queridas destaco a Anna da Hora”.
Ainda muito curiosa, quis saber quem é Anna da Hora. E eu disse: “Anninha é uma jovem como você recém-formada em Artes Visuais”.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

O POVO SOFRE, EM QUALQUER LÍNGUA

Ucranianos em fuga
Os EUA querem pegar a Rússia, que quer pegar a Ucrânia e anexá-la ao seu imenso território.
A Rússia, comandada por Vladimir Putin, invadiu o território ucraniano no dia 24 de fevereiro deste ano de 2022.
Hoje 3 portanto faz três meses, uma semana e três dias que esse horror começou no Leste europeu. Ou seja, há 100 dias.
O caso é seriíssimo.
Pelo menos 14 milhões de ucranianos já deixaram a sua terra.
O número de mortos e feridos no que Putin chama de "operação especial", é desconhecido. Fala-se de 100 mortos/dia. Só do lado ucraniano. Paralelamente à guerra convencional, outra guerra é visível na Rússia e Ucrânia: a guerra de Fake News, segundo a qual um lado diz que fez e aquilo e o outro, também.
Os EUA e países do bloco europeu continuam apostando na força ucraniana, mandando pra lá armas de todos os tipos. Muitas delas pesadíssimas.
Fora essa ajuda que a Ucrânia tem recebido, os EUA e países aliados têm tomado várias decisões contra o governo russo. Entre essas decisões se acham o embargo às importações de petróleo e o congelamento de bens de personalidades do país de Putin.
Ainda não se vê no horizonte possibilidade de um acordo de paz entre os dois países em guerra, infelizmente.
Atualmente há mais de 20 países em guerra, entre os quais Etiópia, Iêmen, Mianmar e Síria.
A Síria é apoiada pela Rússia. Curioso, não?
Puxando mais pra cá, mais uma curiosidade: Bolsonaro e Lula são a favor de Putin.
Bolsonaro é contra o atual governo venezuelano, mas está se inspirando nele para prosseguir no poder.
Ao municiar a Ucrânia, os EUA estão jogando gasolina na fogueira.
Isso é péssimo.
O povo sofre, em qualquer língua.

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