Seguir o blog

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (4)



Joana e Lucinda disputavam a pau o coração do viúvo João Batista. 

Joana tinha 38 anos de idade quando atendeu a um anúncio de jornal para trabalhar numa casa como governanta. Era decidida e convictamente virgem. Nesse ponto, agia com total discrição. Parecia feliz.

Lucinda era mais nova de idade do que Joana. Casou-se com 17 anos, por exigência do pai. O seu par era um oficial da Marinha lá do lugar onde nasceu. Ficou viúva aos 28 anos de idade.

Joana logo ganhou a confiança de João, o autor do anúncio no jornal. 

João era um viúvo podre de rico. Tinha dois sobrinhos que não viam a hora do tio bater as botas.

Essa história classificada como conto, A Melhor das Noivas, foi publicada no Jornal das Famílias em 1877. O autor, Machado de Assis. 

As noivas nessa história referidas, não eram formalmente noivas.

Joana era uma pobre diabo, sem eira nem beira nem lugar sequer pra cair. 

Lucinda, por sua vez, era uma remediada de classe média. Seu sonho era brilhar nos salões das noites burguesas. Joana, ao contrário, sonhava ter apenas as atenções de João, como mulher. 

A obra de Machado de Assis é, basicamente, um espelho da sociedade canalha que tão de perto observou e viveu. Politicamente, Machado pode ser hoje entendido como um intelectual de esquerda. 

Os sobrinhos de João Batista ficaram a ver navios. 

Lucinda, que apostou o que não podia, ficou só, pois não deu certo o plano que engendrara: casar-se com o viúvo João, setentão e dele herdar a grana com a qual realizaria seu desejo de ser estrela nas noites de frivolidades. 

Ah! Sim: João Batista casou-se com Joana e com ela foi feliz durante 200 anos, pelo menos...

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (3)



Nos tempos de ontem e de hoje, dificilmente encontra-se registro de moço rico casando-se com moça pobre. 

Moça rica dificilmente registra a história que aja-se casado com moço pobre. A não ser nos contos de fada.

Na vida real o fato é o que aí está dito.

Na vida dita ficcional, a coisa é outra. Isto é, mais ou menos. 

Sabemos que a realidade facilmente é transportada para a ficção. É quando o real se mistura com o irreal.

Pois, pois. 

O Bruxo de Cosme Velho, como era chamado Machado de Assis, em 1866 publicou no Jornal das Famílias o conto  A Pianista. 

A história trata de uma belíssima e simples jovem de 22 anos, chamada Malvina.

Malvina era órfã de um rábula. 

Pobre, mas muito educada e decidida a seguir em frente cuidando da mãe, dando aulas particulares de piano. Uma das suas alunas, Elisa, era filha de um sujeito riquíssimo de nome Tibério Valença. Esse tinha, além de Elisa, um filho de nome Tomás. 

Dito o que já foi dito, acrescente-se: o ricão aí queria para o filho e a filha altos e boníssimos partidos. Estava tudo pronto. Pra Elisa, um deputado do Norte com o bolso cheio de grana e um futuro brilhante de ouro. Com o tal ela casou-se.

O perrengue nessa história é que Tomás tomou gosto pelo comportamento e boniteza de Malvina. Quando o pai soube disso, despenteou-se dando socos no ar. Ameaçou deserdar o pimpolho. 

O finalmente é o seguinte: Tomás juntou-se a sua amada, casando-se modestamente. O pai foi convidado, mas nem nem.

Na realidade, como na ficção, nada melhor do que um dia depois do outro. 

Num determinado momento, Tibério cai de cama com febre de mil graus. O médico fica doido. Malvina sabe da coisa e se oferece para cuidar do sujeito. Com o passar dos dias o doente retoma a vida. E assim, o tal cai na realidade e vê que dinheiro não é tudo.

Amor e solidariedade curam, pois não?

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (2)



Ao contrário de Duarte, um cara que nasceu pobre e que lutou para ficar rico e depois milionário, Falcão nasceu pobre e virou milionário já ali na casa dos 40 anos. Seu prazer era fartar-se a ver a montanha de dinheiro, ouro e títulos. Gastava só o extremamente necessário. 

Duarte é um pai dedicado e bem casado. Depois de trabalhar muito e ganhar o que queria, satisfazia-se em ajudar amigos necessitados.

Duarte é cria do escritor José de Alencar. 

Falcão é cria do escritor Machado de Assis e personagem central do conto Anedota Pecuniária.

A história aqui começa em abril de 1870, com Falcão andando pra lá e pra cá dentro de casa. Uma casa simples, de poucos cômodos. A cama em que dormia não era fofa. 

Solteiro, ao chegar aos 45 de idade Falcão passou a sentir falta de um filho ou uma filha. Mas aí já era tarde. A sorte é que o personagem recebeu a incumbência de criar uma sobrinha de 11 anos cuja mãe morrera. 

A menina, Jacinta, logo apegou-se a Falcão e Falcão a ela. 

O tempo foi passando e, com 13 anos de idade, a menina já tomava conta da casa. Aos 17, era já como se fosse a dona. É quando chega um gavião...

Chico Borges era um cara que tinha grana e era amigo de Falcão com quem, aliás,  matava parte do tempo noturno jogando cartas. Sem dinheiro na parada. 

Um dia Falcão procura Chico para oferecer um negócio envolvendo títulos bancários. Falcão já esperava faturar uns 30 ou 40 contos. Chico respondeu que iria lhe fazer proposta idêntica. 

A história segue. E o detalhe é que Chico estava de olho crescido na figura de Jacinta. 

Chico e Jacinta terminam juntos, casando-se. Pra isso porém, Chico ofereceu um negócio a Falcão, que sem titubear aceitou. Era negócio envolvendo grana, tenso como objeto Jacinta.

O tempo, no seu movimento incessante, continuou a passar.

Um dia, Falcão recebe em casa mais uma sobrinha órfã. Linda, nos seus 17 anos, Virgínia chamava fácil, fácil a  atenção de todos. 

Um dia, a menina recebe a carta de um jovem admirador. Vem dos EUA.

A carta cai nas mãos de Falcão, que já fica todo ligado.

Reginaldo é o cara que está chegando dos EUA trazendo na bagagem 300 mil dólares e uma coleção de moedas de vários países. 

Encurtando a história: Falcão encontra-se com Reginaldo, que nem precisa pedir a mão da bela Virgínia. O motivo disso, dessa rapidez,  é que Falcão aceita de bom grado a coleção de moedas estrangeiras que lhe fez brilhar os olhos.

O castigo, alguém já disse, anda a galope: as moedas estrangeiras da coleção que tanto encantou Falcão eram falsas.

domingo, 5 de janeiro de 2025

MULHERES: NA REALIDADE E NA FICÇÃO (1)



Data de muito tempo o surgimento do casamento como trato, contrato e instituição social que junta duas pessoas para viverem juntas o tempo todo até que um dos dois morra, segundo o combinado perante o que se chama "lei divina".

O trato ou contrato entre duas pessoas ocorre quase sempre por interesse pecuniário. Hoje nem tanto, mas no passado era algo mais do que comum.

A realidade de casamentos por interesse aparecem o tempo todo na literatura de época. 

Em 1875, o cearense José de Alencar pôs à praça Senhora, romance que se tornaria clássico do gênero. 

O enredo de Senhora gira em torno de uma órfã, Aurélia Camargo. 

Aurélia, é cuidada por uma parente chamada Firmina.

Firmina é viúva e muito dedicada à Aurélia. 

Aurélia, ainda muito jovem, arrastada as asas para um alpinista social chamado de Fernando Seixas. 

Seixas troca Aurélia por uma garota de família de posses. Seu dote seria de 30 contos. 

De uma hora pra outra, Aurélia recebe uma herança de uns mil contos, ficando rica derrepentemente e, assim, desejada pelos caçadores de fortuna fácil. É quando surge na sua cabeça privilegiada, pois inteligentíssima que é, a ideia de vingar-se do namorado interesseiro, cuja mãe viúva vive com simplicidade criando duas filhas. Em suma: Aurélia tem êxito no seu intento e...

Depois de se casar com Seixas, comprando-o por um dote de 100 contos, Aurélia dá-se por feliz. 

E qual será o fim dessa história?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

EU E MEUS BOTÕES (76)

Olá pessoal, tudo bem?

Fui eu perguntando e, em uníssono, meus queridos botões levantaram-se batendo palmas. E disseram, juntos, "Tudo bem, mestre!".

Que coisa é essa de mestre?

Zilidoro, sem segurar o riso, por todos respondeu: " É que a gente ouviu por aí que o sr. foi premiado com, vá lá, um negócio chamado Mestre da Cultura Popular".

"Realmente, vimos isso em algum lugar", disseram juntos os amigos Bil e Barrica. "Me-re-ci-da-men-te", aplaudiu Zoião, logo interrompido por Lampa: "Para de puxar o saco, cara".

Bem, pessoal, eu trouxe aqui uns amigos para lhes apresentar. Este aqui é o músico e roteirista Magrão. Este aqui é maestro, dos bons. Representa o Brasil, mundo afora, há muito tempo. E aqui temos a jornalista Cilene Soares. É sabidona. Emprestou o seu talento à TV Globo, TV Bandeirantes e à TV do sistema SESC. 

"Há muito tempo o Assis fala de vocês. E bem", foi falando fácil o artista da nossa boa música Magrão. 

Eu da minha parte, foi dizendo Cilene "Sinto-me bem aqui com vocês, como certamente diria o cantor Nelson Gonçalves".

A referência feita a Nelson deve-se ao fato de ele ter gravado uma música, um samba, com esse título. Foi a primeira da sua longa discografia desenvolvida na extinta gravadora Victor. Isso aconteceu numa tarde de março de 1941.

"Bom, aqui estou", disse o maestro Marcos Arakaki. 

O maestro contou da trajetória que tem trilhado no espaço musical de concerto. Antes de gabaritar-se como regente de orquestras, Arakaki formou-se em violino. Em 2001, acrescentou, "Ganhei um concurso musical denominado Eleazar de Carvalho".

Pois é, pessoal, essas são as pessoas que eu tenho o prazer de trazer a esta casa.

"E cadê a dona Flor Maria, seu Assis?", foi dizendo sem gaguejar e afoitamente, o desabrido Lampa. 

Respondi a pergunta prometendo trazer em breve a dona Flor. Agora, é o seguinte: estou notando que há duas pessoas a mais nesta casa.

Lampa,  de repente, levanta-se num pulo e diz que um dos desconhecidos é amigo seu. "O Fuinha é gente boa, corajosa e sem papas na língua".

Pedi que Fuinha se apresentasse. Ele: "Eu sou da terra de Ariano Suassuna, de Taperoá, sertão paraibano. Toco viola, toco sanfona e toco também pau na cabeça de quem não presta".

Todos caíram na risada, até mesmo o sempre desconfiado e sisudo Lampa. Antes que eu pedisse que a outra figura aqui chegada se apresentasse, Zilidoro levantou a mão e disse: "Seu Assis, o Pitoco é um amigo de infância. Gosto muito dele. Perdeu o pai numa emboscada, no interior de Pernambuco. Filho único. A mãe morreu de desgosto, de tristeza com a morte do marido...".

Puxa vida, que história! "E tem uma coisa ainda, seu Assis. O Pitoco é meio gago".

Hummm... Essa história de meio gago é que nem aquela história de meio gay, meio grávida!

Pitoco, um tanto acanhado confirmou o que Zilidoro dissera. "Eeeu,eeeu, eu sooou aaassim. Assim mesmo! Eeeu, eeu, eu fafalo assim, maas penso direito!".

Pois olhe só, Pitoco, eu gostei de você. 

O maestro Arakaki,  Magrão e Cilene riram puxando palmas para Pitoco. 

De repente, Zé, Jão e Mané surgiram do fundo da casa trazendo bandejas com suco, queijo e outras cositas mais incluindo uma cachacinha do nosso engenho em Areia e aos dois novos ocupantes da casa brindamos: saúde e vida longa a nós todos. 


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (159)

Eu não ia falar de mais um romance de Asimov, mas vou falar. 

No livro O Fim da Eternidade (1955) há o que não poderia haver no seu enredo: um cara, chamado Andrew, treinado pelo sistema para não ter emoção de tipo algum, apaixona-se perdidamente por uma cientista de nome Nöys.

Quem é essa mulher e o que ela pretende?

Essa história passa-se quase toda na casa do chapéu, num inimaginável século 482.

Será que Nöys é uma figura perigosa?

Será que Nöys vai corresponder à paixão de Andrew?

Andrew é um técnico de uma organização chamada Eternidade. Os habitantes dessa coisa são chamados de “Eternos”.

Ora, ora, não posso deixar de comparar Asimov a Guimarães Rosa, mas numa bobagenzinha só: Rosa era um paquerador e amante incorrigível, como o autor Isaac Asimov.

A pergunta: quem matou o primeiro e o segundo cientistas de As Cavernas de Aço e de O Sol Desvelado?

Uma coisa a mais: houve um escritor que inspirou a criação do Dia da Ficção Científica Brasileira. Era paulistano e chamava-se Jeronymo Monteiro (1908-1970).

Como Machado de Assis, Jeronymo Barbosa Monteiro era autodidata e poliglota. E também jornalista e um dos pioneiros da ficção científica ou ficção do futuro, como também esse gênero é chamado.

Como Machado, Jeronymo traduziu livros de autores como Victor Hugo. Falava quatro línguas: francês, italiano, espanhol e inglês.

E como Coelho Neto, Jeronymo caiu no esquecimento, pois são poucas as pessoas que lembram dele hoje e da obra que deixou. Entre seus livros se acham Três Meses no Século 81 (1947), A Cidade Perdida (1948) e Os Visitantes do Espaço (1963). 

E ainda como Coelho Neto, Jeronymo escreveu livros direcionados ao público infantil.

Sua atividade como jornalista estendeu-se pelas páginas da Folha, Estadão e O Globo.

No jornal Tribuna de Santos, Jeronymo assinou uma coluna intitulada Admirável Mundo Novo. Nessa coluna, ele divulgava notícias do mundo científico.

Antes de trabalhar nesses jornais, assumiu a direção e edição da primeira revista publicada pela Editora Abril, em 1950. São dele a tradução e adaptação dos primeiros números do gibi O Pato Donald.

O maranhense Henrique Maximiano Coelho Neto foi um dos mais criativos jornalistas e ficcionistas da vida intelectual brasileira. Publicou centenas e centenas de contos, crônicas, poesias, romances. Muita coisa ele escreveu, até livros para o público juvenil. Chegou a assinar obras com Olavo Bilac.

Neto tem um conto bastante curioso no qual um cientista gera um ser esquisito denominado James Marian. Esse ser foi resultante da junção de um corpo masculino jovem cuja cabeça fora degolada e de uma jovem que teve o corpo esmagado de que sobrou apenas a cabeça intacta.

Cabeça de uma jovem num corpo de um jovem resultou no personagem próximo a Frankenstein. Detalhe é que, ao contrário de Frankenstein, Marian é bonito e encantador.

Lá pras tantas, Marian conta sobre seu criador:


…Tive um protetor, Arhat. Vivi em sua companhia e ele velou por mim. Não era de amor que me cercava, mas de cuidados. Eu era feitura sua, obra do seu saber. Tinha grande zelo por mim, sempre atento à minha saúde, às minhas tristezas, medicando-me, defendendo-me de todo o mal para que eu resistisse. Eu era para ele como objeto delicado que se conserva em vitrina. Amor não havia. Que fez por mim? Deu-me a vida, educou-me e instituiu-me herdeiro da fortuna que dissipo. Eu dormia e ele despertou-me... e ando agora como estremunhado, só desejoso de voltar ao sono…


Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (158)

Isaac Asimov

Mulheres também têm sido personagens de muitos contos e romances de ficção científica mundo afora, nas mais diversas línguas. 

No primeiro livro de contos do russo naturalizado norte-americano Isaac Asimov, (1920-1992), Eu, Robô (1950), aparece uma personagem identificada como psicóloga roboticista. Seu nome: Susan Calvin.

Susan é alguém que desfruta de prestígio e respeito  numa empresa fabricante de máquinas robóticas. Nada vai adiante sem a sua aprovação. E aí é que vem a coisa. 

Um dia, um jornalista bate à porta de seu escritório pedindo entrevista. Ela anda ali pela casa dos oitenta, carregando consigo histórias tantas. É simpaticíssima. No campo sexual, porém, parece ser completamente inexperiente. Ingênua até, embora um dia tenha se apaixonado por um cientista conceituado. Coisa do tipo platônico.

Ao jornalista a personagem abre o coração e diz o que a mente manda.

O livro contém nove contos. Um deles surpreende quando o personagem, um robô, convence a psicóloga dizendo que há correspondência entre ela e uma paixão oculta. Esse robô é programado para obedecer ordens e jamais ferir ou decepcionar um ser humano. Assim é, pode ou poderá ser. E ela chora desesperadamente ao descobrir a verdade. Que verdade?

A psicóloga Susan é o elo de ligação entre os contos que formam o livro Eu, Robô. 

Não custa lembrar que esse livro começa com um robô babá cuidando de uma criança que por ele se afeiçoa. A mãe da menina é contra máquinas de inteligência artificial cuidando de humanos. 

Em 1954 Asimov lançou o livro As Cavernas de Aço. Conta uma história que se passa num futuro longínquo, com humanos habitando subterrâneos de Nova Iorque. Nesse imaginário mundo há mais robôs do que gente. Num determinado momento, um cientista é assassinado e para descobrir o assassino é destacado um superinvestigador de polícia, Elijah Baley.

Esse livro é cheio de ação, emoção, suspense, suícidio, amor e paixão. É um tempo em que há controle de natalidade. 

Esse foi o primeiro romance de Asimov. O segundo, O Sol Desvelado (1957), traz a continuação do primeiro. 

O enredo desse novo romance trata de descendentes de terráqueos habitando dezenas de mundos diferentes. São chamados de solarianos, habitantes do planeta Solaria, onde há 20 mil “humanos” e 20 milhões de robôs. Lá também ocorre um misterioso crime. A vítima é um importante cientista.  Para elucidá-lo são convocados o investigador Elijah e seu parceiro no livro anterior, o humanoide R. Daneel Olivaw, movido a energia nuclear.

Como o primeiro, esse segundo romance de Asimov, tem como pano de fundo o tempo futuro.

Isaac Asimov começou a publicar suas coisas em 1940, em revistas de ficção científica. No total deixou quase 500 livros, incluindo livros didáticos e da história universal. De profissão era bioquímico. 

Os crimes que aparecem em As Cavernas de Aço e O Sol Desvelado têm como vítimas especialistas em robôs, quer dizer: cientistas e tal.

As histórias de robôs contadas por Asimov são mais do que curiosas: interessantíssimas.

Até no mundo dos robôs há leis. Estas:


1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal

2ª lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei

3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis

domingo, 22 de dezembro de 2024

EU E MEUS BOTÕES (75)

"Barrica, o que está acontecendo que até agora o seu Assis não chegou? Já era pra ele ter chegado...", falou sussurrando no ouvido do irmão, Bil.

A casa estava em completo silêncio. 

Bil nada disse a Barrica. 

Mané olhou pra Zoião, fazendo um sinal de interrogação. "Não me pergunte nada, não sei de nada", adiantou-se Zoião. 

O silêncio era constrangedor na casa de Zilidoro,  que calado estava e calado ficou. 

Mané levantou-se batendo palmas e quase gritando... "Ôôôô pessoal! Cadê o papo? Sem papo não há graça na vida!".

Segundos depois da provocação de Mané todos se levantaram.

Jão, quieto até então, sugeriu: "Quem espera sempre alcança, vamos tomar uma?".

Todos os botões estavam ali reunidos a espera do seu Assis. 

De repente,  derepentemente, soa a campainha na casa onde todos estão. Antes de quem quer que fosse acessar a porta, entrou na casa com sorriso relaxado Flor Maria. Foi entrando e dizendo que estava feliz por ali estar chegando. 

Até então, Lampa continuava sentado no seu tamborete cutucando as unhas com o seu inseparável punhalzinho. Levantou-se rapidamente e com um sorriso meio sem graça, disse: "Doutora a gente tava isperando a senhora até agora. A senhora é legal e muito sabida".

Todos os colegas botões de Lampa acharam graça do que foi dito. Lampa não gostou e por não gostar, olhou nos olhos de todos com a mão já no punhal. 

"O que é isso, Lampa? Poxa, você falou que eu sou legal e tal...", interveio Flor Maria. 

Lampa, constrangido, ajoelhou-se pedindo milhões de desculpas pelo comportamento até ali inadequado. 

Enquanto essa cena se registrava, Zilidoro deu um pulo da cadeira onde estava, dizendo animado em voz alta: "Olha aí, olha aí quem está chegando! É o Assis, o seu Assis!".

Todos se levantaram, incluindo Lampa...

Boa tarde pessoal, andei fora do Brasil...

Flor Maria aproximou-se, cumprimentando-me.

De repente, tudo virou festa. E começaram a cantar Jingle Bell. Era o Natal chegando. 

É isso aí, pessoal. Bom Natal e Bom Fim de Ano pra todos nós.

Lá do canto Zé complementou: "E que 2025 seja um ano do caralho!".

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

PASSEIO QUEBRADO

São Paulo é a capital mais importante do Brasil e da América Latina. No ranking se acha no 4° ou 5° lugar, entre as maiores do mundo. 

Dados estatísticos indicam ter Sampa quase uma centena de distritos e milhares e milhares de ruas e avenidas. Não são poucas também as praças públicas abertas ao lazer de moradores. 

Diante disso, acrescento ter a cidade milhares e milhares de quilômetros de calçadas e alguns calçadões como aquele localizado no Vale do Anhangabau. 

Agora, o seguinte: nós que perdemos o brilho e a graça dos olhos sofremos com a buraqueira das calçadas. Até já caí ao chão e o resultado foi um problemão no meu joelho direito. 

Ainda sofro toda vez que lembro da queda que por pouco não provocou em mim maiores consequências. 

Pois é, sofremos de todo jeito o tempo todo no Brasil e cá em Sampa.

Ah! Sim: a população do município de São Paulo é, segundo o IBGE, de quase 12 milhões de pessoas. 


quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (157)

Marques Rebelo
A vida tem por costume nos surpreender de tudo quanto é jeito.

Uma Senhora é título de um conto do jornalista carioca Marques Rebelo (1907-1973). Nada a ver com Senhora, de José de Alencar. Rebelo conta o caso de uma mulher que passa o ano todo cuidando da casa, dos filhos e do marido. Seu prazer é desfilar no Carnaval.

Não são poucos os contos e romances que trazem o Carnaval como pano de fundo para personagens de todo tipo se movimentarem, tanto na avenida como nos bares e camas da vida. 

Há livros inteiros abordando a temática momesca. 

É do baiano Jorge Amado o livro O País do Carnaval. O título já diz tudo. E foi esse livro o primeiro da densa bibliografia de Amado. 

Carnaval é fantasia, brincadeira e coisas tais que podem nos remeter à série monumental de contos e causos que formam As Mil e Uma Noites.

Coisas das Arábias. 

Um Beijo no Deserto, que nada tem a ver com folia carnavalesca, traz uma história fantasiosa e mirabolante capaz de facilmente encantar o leitor ou leitora de qualquer idade.

Começa em Londres e tem desfecho fantástico lá pras bandas de Beirute. A protagonista, Christine, aceita o desafio para passar-se por uma princesa e como tal convence o sheik Abu Hamid a negociar com o irmão Charles e o amigo Michael, esse um conde que pretende realizar uma grande compra de cavalos árabes.

Quanto ao amigo do irmão Charles, esse termina por apaixonar-se por Christine. Os dois pombinhos não se aguentam e dão uma passadinha em Delfos, na Grécia… E mais não digo.

Barbara Cartland

A autora dessa história é Barbara Cartland.

Histórias do Oriente sempre mexeram com a cabeça de todo mundo, principalmente da molecadinha, dos jovens em formação. 

Quanto à molecada mais robusta o que mais encanta hoje tem a ver com histórias cujos roteiros são permeados por personagens vagando mundos desconhecidos, muito além desse nosso mundinho besta, esculhambado e sem futuro que estamos destruindo ao destruirmos o meio ambiente.

Há escritores de ficção científica, incluindo mulheres: Octavia Butler, Connie Willis e Carol Façanha.

A afro-norte-americana Octavia Butler (1947-2006) ficou conhecida pelos livros de ficção científica que escreveu.  No livro Kindred - Ligações de Sangue (1979), ela cria personagens que têm tudo a ver com o racismo ainda reinante no mundo todo.

A escritora Carol Façanha, doutora em Literatura Inglesa pela UFRJ, tem vários livros publicados, entre os quais Não Esqueça (2021). A história que insere nesse livro se passa numa imaginária São Paulo do futuro. A personagem principal, Pandora, enfrenta problemas de todos os tipos. Perde a memória e corre risco de morte.

Juízo Final (1992), de Connie Willis, é um mergulho no passado e no futuro. Vai até à Idade Média e num salto maior chega ao ano de 2050. A personagem Kivrin faz uma incrível viagem de pesquisa em campo colhendo informações sobre doenças que afetam e afetaram a humanidade, como a Peste Negra. Em Juízo Final, a protagonista corre um grande perigo.


Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (156)

A literatura estrangeira sempre teve espaço no Brasil.

Escritores brasileiros como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José de Alencar, Machado de Assis, Zé Lins do Rego, Jorge Amado e tantos e tantos também ocupam espaços privilegiados nas estantes de estrangeiros que gostam da boa literatura. 

Pouca sabe que o maranhense Coelho Neto (1864-1934) escreveu e publicou mais de uma centena de livros com temática realista, naturalista e até poeta parnasiano ele foi. 

Quanto à Audálio, de quem já falamos linhas atrás, não custa dizer que ele foi bem mais do que um simples e mortal jornalista. Gostava de escrever contos e poemas no estilo cordelista. Uma vez até sugeriu a Vandré trocar um verso da canção Fabiana.

Pois é, poetas não faltam no nosso querido Patropi.

Em 2011, o cearense de Fortaleza Celso de Alencar publicou um livro, Poemas Perversos, sobre homens e mulheres de vida fácil ou difícil. Sei lá! Entre seus poemas, As Putas do Jardim da Luz:


São velhas e belas as putas do Jardim da Luz. 

Elas me amam à tarde 

e mastigam docemente as minhas mãos 

e colocam-se dentro do meu pênis 

como se fossem um oceano suntuoso e perfumado.

Eu caminho sóbrio como os pássaros 

para beijar-lhes as bocas de álcool fecundado 

entre a língua e a garganta.


Elas me amam e são puras 

e eu lhes digo que escuro está o dia 

e o vento dobra as árvores sobre mim 

e o meu coração murmura levemente os meus pecados.


Eu as ouço:

Vem comigo!

O vulcão dorme pela manhã 

e nos meses em que tudo é noturno.

Olha os nossos nomes que tremulam na

bandeira da estação ferroviária.

Mede a profundidade de nossas vaginas prolongadas. 

Escuta o som das flautas e dos trens

que sai de nossas almas. 

Ouve as histórias que contamos sobre

a vida breve de nossos filhos acinzentados. 

Coloca-te dentro da loucura incandescente e amarga.


Eu amo as putas do Jardim da Luz.

Elas são puras e eu ouço as vozes de seus filhos 

entre os lençóis que flutuam

como cortinas coloridas

nas portas dos quartos

onde a morte se encontra.

domingo, 15 de dezembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (155)

Graciliano Ramos foi um dos primeiros escritores brasileiros a escrever sobre bullying, quando essa expressão ainda nem existia.
Em 1939, Graciliano escreveu e publicou A Terra dos Meninos Pelados, cujo personagem, Raimundo, tem um olho azul e outro preto. Isso é suficiente pra ele ser maltratado pelas pessoas à sua volta. Sofre e termina indo para um lugar habitado por iguais a ele. 
Essa história foi adaptada pela TV Globo, em dezembro de 2003.
Nessa mesma linha, a contista neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923) escreveu, um ano antes de morrer de tuberculose, A Casa de Bonecas. Nessa história há duas irmãs, Lil e Else Kelvey, que são menosprezadas por colegas de escola só pelo fato de serem pobres e morarem em uma comunidade, como se diz hoje. 
As colegas de escola de Lil e Else, as riquinhas Kezia, Isabel e Lottie, não as convidam para conhecer a casinha de boneca recebida de presente de uma amiga ricona da mãe das três irmãs. É um conto incrível, uma lição sutil pra quem faz bullying.
Guimarães Rosa foi um craque que pintou com originalidade o roteiro pelo qual se movimentaram seus inúmeros personagens. E tinha por gosto inventar palavras e anular sinais gráficos na sua prosa. O mesmo fazia, vejam só, o irlandês James Joyce (1882-1941). 
Ulisses, de Joyce, traduzido para o português por Antônio Houaiss (1915-1999) é exemplo disso.
Joyce foi buscar em Homero inspiração para desenvolver a história que tem como personagens principais Leopold, Marion e Stephen. Esses três representam respectivamente na obra de Homero Ulisses, Penélope e Telêmaco.
Primeiramente publicada em capítulos na revista Little Review de Nova Iorque, a história de Joyce foi censurada. Liberada por um tribunal dos EUA, a obra saiu no formato de livro em 1922.
A obra de Homero continua viva na memória de muita gente. Tem sido publicada em tudo quanto é língua e é referência dos mais diversos autores, como Voltaire.
Na obra-prima Cândido, Voltaire cita Homero e sua Ilíada. Mais: Virgílio, Camões, por aí.
O personagem que dá título ao clássico de Voltaire é um jovem pra lá de otimista. Anda por várias partes do mundo, enfrentando diversidades. Começa na Alemanha e segue por países da América do Sul incluindo Paraguai e Argentina. Essa história termina em Constantinopla depois de passar pela França e Inglaterra. 
A personagem feminina que faz par com Cândido é Cunegundes.
No correr dos capítulos, 30 no total, há muita violência e até estupros.
Mais uma vez a ficção leva autores a desenvolver histórias extraídas do real. Caso aqui de Cangaceiros, romance do paraibano José Lins do Rego, publicado em 1953.
A heroína é Alice, uma jovem que finda por apaixonar-se por Bento, filho de um cangaceiro e que tem por irmão um celerado impiedoso chamado Aparício. Violentíssimo e temido até pelo cão. 
Numa parte do livro, lê-se: “...Aparício tinha atacado a cidade de Pão de Açúcar e feito uma desgraça, matando o sargento do destacamento, arrastando para a rua a família de Fidélis de Sousa. Os cabras serviram-se da mulher do homem, até que a pobre não deu mais sinal de vida…”.
A mãe de Bento e Aparício, Josefina, foi estuprada e acaba por suicidar-se com uma corda no pescoço. 
Nesse livro de Zé Lins há muitas cenas chocantes e violentas.
Bento, incentivado por um cantador repentista, foge com a sua amada.
O real também se acha no romance A Inquilina de Wildfell Hall, de Acton Bell, pseudônimo da inglesa Anne Brontë (1820-1849), a caçula dentre as irmãs literatas Emily e Charlotte.
O livro conta a história de Helen que ao casar-se descobre que o marido não é o cara que ela imaginara. Arthur é violento, jogador, beberrão e mulherengo. Humilha a mulher de todas as formas. Um dia ela toma coragem e vai-se embora com o filho de cinco anos, deixando o ex-amado irado e a subir paredes. No lugar que escolhe para morar troca de nome e passa a viver dos quadros que pinta. Discretíssima, ela chama a atenção das fofoqueiras da região e de um jovem que logo demonstra ter muito carinho para dar: Gilbert.
Emily Brontë (1818-1848) é a autora do clássico O Morro dos Ventos Uivantes, publicado um ano antes de ela morrer.
A outra irmã, Charlotte (1816-1855), também deixou grande marca na literatura inglesa. 
Não teve sorte na vida pessoal. Apaixonou-se por um sujeito já casado e com ele não teve futuro. 
As principais obras de Charlotte são Jane Eyre (1847); Shirley (1849); Villette (1853); O Professor, publicado postumamente em 1857; Emma, deixado inacabado e publicado em 1860.
Curiosa e também quase real é a trilogia formada por A Empregada (2023), O Segredo da Empregada (2024) e A Empregada Está de Olho (2024), de Freida McFadden. A personagem principal desses três livros é Millie, uma mulher que foi presa e condenada por assassinar um desclassificado que partira pra cima de uma jovem decidido a violentá-la. Passou dez anos na tranca e ao sair encontra mil e uma dificuldades para trabalhar. Ficha suja.
No primeiro dos três livros dá graças a Deus por conseguir emprego na casa de um casal que tem uma filha chatíssima. A patroa a humilha de todos os modos e humilha também o maridão, que parece conformado com a situação. E por aí vai.
No segundo, Millie carrega consigo um segredo, o clima cresce a cada capítulo. O terceiro volume… tã-tã-tããã…. Millie encontra um italiano chamado Eno, com ele tem uma menina e um menino… Decidida ela a ser feliz com o marido… É aí que a coisa pega fogo. O final é hilariante.

Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

VIVA A AMIZADE!



Como um relâmpago com flores e asas, vindo do futuro para o presente e a mim chamando a atenção para o passado brilhante e cheio de cores vi-me, pois, em exato êxtase...
Realismo e ficção se misturam desde sempre.
Tudo é muito bonito quando a gente tem gente nas nossas proximidades. 
A minha casa hoje 12 ficou em festa quando amigos bateram-me à porta. 
Um dia antes de hoje, o querido Maurício Pereira telefonou dizendo que não aceitaria de mim um "não" e que tampouco lhe batesse a porta na cara. 
Achei graça no que disse. 
Hoje o lugar onde moro foi maravilhosamente invadido por Maurício, Marcelo Cunha o Cunhão; Carlos Alqueres, Alberto Horta e a sua companheira, Val.
Maurício enfurnou-se na cozinha e deu uma grande amostra do que sabe profissionalmente de gastronomia. 
O cara Maurício não é brinquedo, não. 
O que saiu das mãos de Maurício nos embriagou a partir do cheiro.
Tudo incrível, tanto que nem sei o que dizer. Tinha carne do Ceará e dos céus. Tinha magia nos pratos e... sei lá!
Bom, pessoal, hoje eu tive um dia realmente maravilhoso com as pessoas que aí citei. Pra se ter ideia, eu há mais de 15 anos não me encontrara com Horta e Alqueres. 
Disse-nos Maurício e Marcelo que também há 15 anos ou mais não tiveram o prazer e a alegria de abraçar Horta e Alqueres. 
Depois de tão salutar comida providenciada por Maurício, em comum acordo e com desejo à flor da pele, fomos todos deglutir o boníssimo e saboroso whisky que Cunhão trouxe debaixo do braço. 
Pois então, como diz a querida Flor Maria: do futuro nada sabemos, do passado é possível saber o que queremos. 
Quanto ao presente, depende de o que queremos saber. 
E a história segue. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

TREVISAN DÁ ADEUS À VIDA



Machos e fêmeas insaciáveis se movimentam nas páginas dos livros de Dalton Trevisan (1925-2024). São tipos em constante busca de aventuras e prazeres que o sexo proporciona. 

Nelsinho é o Ricardão de Trevisan. Ele aparece nas 15 histórias inseridas no livro O Vampiro de Curitiba, lançado em 1965 e que encheu de fama e grana o seu autor.

Dalton Trevisan já havia publicado dúzia e meia de livros. Todos de contos.

O único romance de Trevisan foi A Polaquinha, lançado em 1985. Nele brilha a modo próprio a personagem que dá título ao livro. É jovem, loira e bonita. A sua beleza é estonteante, provocando nos marmanjos o desejo de possuí-la a todo custo. Ainda adolescente, a protagonista é desbravada por um macho de plantão, que depois de fazer o que fez a abandona. E aí a história vai ganhando escopo.

Na primeira e na segunda vez que transa, a polaquinha não sente grandes prazeres. Isso ela só iria alcançar com um motorista de ônibus denominado Pedro. Casado, o tal tem filhos e um monte de amantes. Imbroxável, do jeito desejável pela mulherada que cai na sua rede. 

Pedro é uma espécie de Ricardão e de Nelsinho, o vampiro que deu fama ao seu criador. 

O curitibano Dalton Trevisan escreveu e publicou pra mais de 700 contos.

Antes de tornar-se o grande escritor que foi, Trevisan estudou Direito e começou a ser conhecido como repórter policial de um jornal de Curitiba. Morreu no dia 9 de dezembro aos 99 anos, seis meses e cinco dias.

O corpo do escritor foi cremado na terça 10, sem velório, sem nada. Como desejava.


domingo, 8 de dezembro de 2024

JULIO MEDAGLIA É DO CARALHO

Clique para ler
No meu Brasil, há grandes brasileiros e brasileiras que nos orgulham. 
Brasileiros que pensam Brasil intensamente. 
Agora há pouco, a querida Flor Maria leu pra mim uma reportagem/entrevista muito interessante, bonita e forte, sobre e com o maestro Júlio Medaglia. 
Matéria importantíssima, bonita e bem feita pra quem queira saber de Brasil.
Júlio não tem papas na língua, a língua desse cara é solta e inteligente como o dono.
Ele tasca ripas em coisas ditas musicais com a grandeza de seu pensamento. Funk e coisa e tal ele manda pra casa do chapéu. 
Medaglia é Brasil, brasileiríssimo.
Os idiotas de plantão que nada sabem e nada leem têm que ser alfabetizados musicalmente. 
É de fundamental importância a leitura da matéria publicada sábado 7 na Folha. 
A história de Júlio Medaglia é uma história muito bonita.
Ele começou lá embaixo e foi lá pra cima e lá pra cima ele continua fazendo coisas que normalmente ninguém faz.
Gênio?
Genialidade nas artes e em todos os campos do cotidiano da vida é aquele ou aquela que está acima do que entendemos normal.
Na matéria de sábado da Folha, o compositor e maestro Júlio Medaglia disse que "...é possível ganhar muito dinheiro sem ser um filho da puta".
Dito o que disse, digo: Júlio é do caralho!.
PRELÚDIO 
Prelúdio é um programa de "calouros" que trafegam no campo erudito. Foi criado pelo maestro paulistano Júlio Medaglia. Estreou na TV Cultura no sábado 1 de janeiro de 2005. Estamos, pois, às vésperas de 20 anos da estreia desse programa. 
Prelúdio é, historicamente, o único programa do gênero criado por Medaglia.



LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (154)

Graciliano Ramos

O que posso dizer, e que pouca gente sabe, é que Guimarães Rosa chegou a escrever e a publicar histórias com contexto policial. Mais: também chegou a escrever e a publicar em jornais poemas com rima e tudo mais. Aliás, o compositor Téo Azevedo chegou até a musicar alguns poemas de Rosa espalhados na sua rica bibliografia.

Poderíamos até dizer que a prosa de Rosa é pura poesia, certo?

Bom, não custa lembrar que Audálio foi conterrâneo do escritor Graciliano Ramos e sobre ele publicou dois livros: A Infância de Graciliano Ramos (2011)  e O Chão de Graciliano (2007), feito em parceria com o fotógrafo Tiago Santana.

Graciliano escreveu pouco sobre temas eróticos. Pouco, mas não tão pouco assim.

Os seus três primeiros romances foram Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Angústia (1936).

No primeiro, um empregado se apaixona pela mulher do patrão. Termina em sangue. 

No segundo, que também termina em sangue, o protagonista é um menino adotado por uma doceira. Cresce e conhece uma jovem com quem passa a ter relações. Surge na parada um Ricardão que cai nas graças da moçoila. Nervoso, o protagonista comete o primeiro crime e vai parar na cadeia. Ao sair, vira uma espécie de “coroné” prepotente e coisa e tal. Ao casar-se, quer dominar a esposa, mas não consegue. O ciúme o corroi. Ao fim e ao cabo, a mulher se suicida.

No terceiro livro, Angústia, o personagem central Luís da Silva, um pobre diabo, apaixona-se pela vizinha Marina. Chega a noivar, mas aí entra na história um bambambã bonitão e cheio de grana… Luís entra em desespero ao flagrar a sua amada com o rival. Num segundo, agiganta-se e devorado  pelo ciúme dá fim ao adversário. E pronto.


Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 7 de dezembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (153)

Audálio Dantas
O alagoano de Tanque D’Arca Audálio Dantas (1929-2018), que marcou época na Folha e na extinta revista Realidade, escrevia e fotografava muito bem. Escreveu de tudo ou de um tudo como costumava dizer. Cobriu o lançamento do livro Grande Sertão: Veredas numa livraria do centro da Capital paulista, em 1956. Tentou entrevistar o autor Rosa, mas “ele estava mais interessado em paquerar uma jovem admiradora e não falar com repórter”, lembrou rindo.
Escreveu e publicou vários livros. Também participou de coletâneas como Corpos: Contos Eróticos, 2001. Esse livro se inicia com um conto seu intitulado Sob o Sol da Manhã.
A história trata de um homem e de uma mulher masturbando-se, sem que ela o veja no seu ato de prazer solitário.
Ela uma dondoca, tomando banho numa banheira de seu apartamento e ele, um limpador de vidraças, pendurado num banquinho a muitos metros do chão.
Nesse livro também se acham textos de Fernando Bonassi, Mouzar Benedito, Moacyr Scliar e outros.
O autor de Grande Sertão: Veredas gostava muito de abordar essa temática. Exemplo disso são os personagens Riobaldo e Diadorim e raparigas que alegram os machos do romance.
A identidade feminina de Diadorim só é descoberta quando morre, com o corpo cheio de balas durante um tiroteio entre jagunços.
Bom de se ler e também cheio de erotismo é o livro Corpo de Baile, especialmente o último conto intitulado Buriti.
E quem não leu ainda é tempo de ler Hora e Vez de Augusto Matraga. O protagonista é do tipo pernóstico, prepotente e que judia de todo mundo. Provoca brigas e é chegado a tomar a mulher dos outros. Uma hora cai em desgraça, é quando a porca torce o rabo. A mulher dele vai-se embora com outro e a filha Mimita cai na vida. Virou filme com trilha sonora de Vandré.
Hora e Vez de Augusto Matraga é o último dos nove contos que encerra o livro Sagarana, o primeiro de Rosa publicado em 1946.
O penúltimo conto de Sagarana é Conversa de Bois.
Conversa de Bois foi originalmente escrito em 1937 e incluído num livro de contos apresentado no concurso literário Humberto de Campos, em 1938. Ficou em segundo lugar, perdendo apenas por um voto para Luís Jardim.
O conto Conversa de Bois é uma história do tempo em que bichos falavam.
O carreiro da história, Agenor Soronho, é um cara chato, brabo, metido a besta e amante da mulher de um amigo seu, que morre lascado e cego. O corpo é transportado num carro de boi carregado de rapadura. O guia do carro é um menino, um pedacinho de gente como diz o autor, chamado Tiãozinho. Tinha ali uns 9 ou 10 anos. Estava triste, pois sobre o carregamento de rapadura achava-se o corpo de seu pai, Jenuário.
Os bois à frente do carro, Buscapé e Namorado, captam a tristeza de Tiãozinho que consigo mesmo matuta: se eu fosse grande, eu vingaria meu pai…
Era comum antigamente dar-se nome aos bois. No caso aqui, os bois tocados por Agenor tinham por nome Capitão e Brabagato, Dançador e Brilhante, Realejo e Canindé, além dos dois primeiros já citados.
E desse conto não vou dizer o final. Nem amarrado!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

AMIGOS É BOM TÊ-LOS...

Novo ano está se aproximando. Faltam poucos dias para 25. 

Bom, este 24 que já está se indo já vai tarde. Não que eu tenha me queimado ou chamuscado pelo fogo do ano, que já já chamaremos de velho.

Pessoas maravilhosas estiveram e estão a minha volta. Só tenho a agradecer. 

Tive uma gripizinha besta neste ano que se vai e coisas outras bem legais. Uma dessas, foi o lançamento pomposo do livro que gerei como adaptação do clássico de Camões, Os Lusíadas. Saiu em duas versões: em braille e em letras impressas.

Antes, ali pelo mês de maio ou junho, andei fazendo palestra sobre Camões e sobre forró e artistas nordestinos, na Biblioteca Mário de Andrade e no IPHAN.

Hoje 6 tive a alegria de receber a visita do amigo Oswaldo Mendes. E conversamos e conversamos... Ele está entusiasmadíssimo para levar de volta ao palco a peça que escreveu sobre Plínio Marcos.

Ontem 5 recebi o fonema do querido Ignácio de Loyola Brandão. Jornalista e escritor de histórias ótimas. 

Foi ali no final dos 70 ou inícios dos 80 que eu o entrevistei em sua casa, na Paulista. A coleguinha Ângela Alves lá estava. O papo rolou bonito. Falamos de tudo e mais um pouco, inclusive sobre a Censura que existia à época. Aliás, o livro Zero de Loyola foi primeiramente publicado na Itália, em italiano. Ao chegar aqui foi impedido pelos militares de chegar às livrarias.

Zero é um marco da obra de Loyola Brandão. 

A entrevista que fiz com o autor de Não Verás País Nenhum será publicada no livro que estou preparando sobre sexo como expressão artística. 

Ia-me esquecendo, pelo fone Loyola todo cheio de graça perguntou se eu sabia da diferença do idoso para o velho. Brincando respondi que ainda não chegara à condição de idoso ou velho. Rindo disse que o idoso tem projeto e o velho tem saudade. E em tom firme, garantiu: "Eu tenho muitos projetos!".

Ah! Sim: a entrevista que fiz lá atrás com Loyola Brandão foi publicada originalmente no extinto suplemento dominical da Folha, Folhetim. Atualíssima. 


POSTAGENS MAIS VISTAS