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domingo, 2 de fevereiro de 2025

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (165)

Chico Anysio criou mais de 200 personagens. Incluindo mulheres ditas da vida.

Casou-se várias vezes, inclusive com uma ex-ministra do governo Collor: Zélia Cardoso de Mello, que por sua vez teve um caso com o ex-senador Bernardo Cabral.

Chico foi quem foi, no humorismo desenvolvido de todas as formas. 

Na poesia, como no teatro são inúmeros os autores que abordam desde sempre o tema erótico, que a hipocrisia social teima em torcer o nariz. 

O poeta paraibano Augusto dos Anjos não deixou de enveredar por tais trilhas. Os exemplos são muitos e bons como esses que escreveu: Orgia, A Meretriz e o mais conhecido de todos: Versos Íntimos. 

Houve um tempo em que o autor era chamado de O Poeta das Putas. A razão disso devia-se ao fato de ele ser declamado por tudo quanto era “mulher perdida”. 

Aqui, um exemplo da escrita erótica do autor de Eu e Outras Poesias: 


Ah! Por que monstruosíssimo motivo

Prenderam para sempre, nesta rede,

Dentro do ângulo diedro da parede,

A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este lugar, moços do mundo, vêde:

É o grande bebedouro colectivo,

Onde os bandalhos, como um gado vivo,

Todas as noites, vêm matar a sede!

É o afrodístico leito do hetairismo,

A antecâmara lúbrica do abismo,

Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora

Matar a última força geradora

E comer o último óvulo do ventre!

Em 1982, Hilda Hilst lançou à praça o livro A Obscena Senhora D.
Nesse livro a narrativa é em primeira pessoa, o que aos desavisados ficam na dúvida de quem de fato a autora se refere: à ela mesma ou à personagem do título.
No decorrer de toda sua existência, Hilda Hilst provocou grandes polêmicas hora falando mal de Deus e tudo mais. A sua boca era uma espécie de cachoeira de palavrões e a sua mente, um universo de fogo sem preconceitos.
Hilda era filha de um fazendeiro do interior paulista da linhagem quatrocentona Prado. Apolônio, seu nome, conheceu a futura esposa Bedecilda no Rio de Janeiro. Corria o ano de 1920. Ele voltou para sua cidade, Jaú e Bedecilda logo depois foi a sua procura. Na cidade, começou a perguntar onde era possível achá-lo. Encontrou-o num bordel em Bauru, SP.
Voltaram os dois às boas e logo se casaram. Ele não queria filho. Em 1930 nasce, pra seu desespero, Hilda.
No correr do tempo, Hilda conta que o pai largou a mãe quando ela tinha dois ou três anos de idade.
Essa história é longa; longa e acidentada. A própria Hilda chegou a revelar que o pai ficara louco e fora internado num hospício. Morreu em 1966. Revelou também que a mãe era uma doidivana.
São muitos os textos em versos e prosa deixados por Hilda Hilst.
Aníbal Machado, que chegou a se esconder no pseudônimo Antônio Verde, é um nome pouco lembrado hoje em dia. Deixou boas coisas publicadas, entre essas coisas o conto Viagem aos Seios de Duília. Trata de uma história que tem como protagonista o funcionário aposentado José Maria. Solteirão. Uma hora, esse José lembra-se da sua primeira namorada e resolve procurá-la nos cafundó do Judas, onde nasceu. Reencontra a amada viúva com uma porrada de filhos e netos nas costas. As dificuldades a deixaram velhinha, velhinha da Silva. Num determinado momento, o personagem dá no pé arrependido de ter voltado ao passado. Virou filme, em 1964, mesmo ano em que aos 70 Aníbal morreu.

Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora

quarta-feira, 25 de julho de 2018

NA FLIP A PORNOGRAFIA DE HILDA HILST


Com a presença de gente de todo canto, foi inaugurada hoje a 16ª Feira do Livro de Paraty - FLIP. A feira, que contará com a presença de autores nacionais e estrangeiros, se estenderá até o próximo dia 29. A homenageada deste ano é a paulista de Jaú Hilda Prado Hilst (1930-2004).
Ainda nos dias de hoje continua sendo tabu falar de sexo. Hipocrisia pura. A pornografia é filha do sexo, a temática é antiga e não escandalizava tanto. Os velhos gregos falavam abertamente sobre sexo e putaria em geral. Eram devassos na compreensão extrema do termo. Os romanos também não eram brinquedo na cama, no chão, sei lá!
Na obra de Aristófanes (447 a.C - 385 a.C), há putaria explícita. Na obra de Ovídio (43 a.C - 17 d.C) também. Ele chegou a fazer até um guia para iniciantes
Calígula (12 d.C a 41 d.C) fazia coisas de arrepiar poste.
E o Marquês de Sade hein? Esse botou pra lascar.
E Henry Miller.
Mais pra cá, Jorge Amado também andou botando suas unhas pra fora. Ele gostava da coisa.
Entre as mulheres, Adelaide Carraro e Hilda Hilst deixaram marcas profundas no imaginário popular.
Hilda, que chegou a assinar parceria musical com Adoniran Barbosa, deixou de lado a sua obra bem comportada e partiu para o “vamos ver”. Queria ser lida de qualquer jeito, por isso partiu para a pornografia explícita.
E como esquecer os “catecismos” de Carlos Zéfiro, que faziam a alegria da molecada?
Zéfiro começou a publicar seus catecismos em 1949. Eram proibidos, vendidos ás escondidas. Publicou uns 500 até o começo dos anos de 1970. Viraram clássicos. São cult, raríssimos hoje. Zéfiro fez escola e com o seu nome verdadeiro, Alcides Aguiar Caminha, também assinou música com Nelson Cavaquinho. Incrível, não é?
No acervo do Instituto Memória Brasil, IMB, se acha uma quantidade enorme de catecismos e que tais sobre o fabuloso mundo do sexo. É vasta a literatura pornográfica em quase todas as línguas. A propósito, quem  não conhece ou nunca ouviu falar do clássico Kama Sutra? Escrito há mais de 500 anos por um indiano, Nesse livro há centenas de posições diferentes de como fazer sexo. Pode?





quinta-feira, 28 de maio de 2020

PNEUMOULTRAMICROSCOPICOSSILICOVULCANOCONIÓTICO, PORRA!


O cara sai de casa numa boa, assoviando e tal.
De repente, dá uma topada e, em alto e bom som...
O cara vai trocar a lâmpada queimada e leva um choque. Em alto e bom som...
O cara vai tentar estancar a água da torneira que não para de pingar e, de repente, o cano estoura. Em alto em bom som...
Pois é, o palavrão está na boca de todo mundo. De quase todo mundo. Na verdade, o palavrão tá na boca do mundo.
Em 1974 o folclorista, advogado e político pernambucano Mário Souto Maior (1920-2001) publicou o curioso Dicionário do Palavrão e Termos Afins, com prefácio do sociólogo Gilberto Freyre (). Nesse livro há cerca de 3.500 palavras pouco dicionarizadas. E cabeludas, como se diz.
A ditadura militar caiu de pau e soltou seus sabujos pra recolher o livro.
A menor palavra da nossa língua começa com “c”.
Todo mundo diz palavrão, mas há quem exagere. Na reunião ministerial de 22/4, tornada pública exatamente um mês depois, um raivoso presidente da República poluiu o ar soltando 29 palavrões em menos de duas horas. Palavrões de grosso calibre.
Envergonhado, um dos participantes, o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, retirou-se antes de terminar a reunião. Um palavrão, porém, nem sempre soa como tal, dizia o mestre Souto Maior.
A opinião de Souto Maior foi compartilhada pelo discreto poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade.
Aplaudidos artistas brasileiros como Costinha, Aracy de Almeida, Hilda Hilst, Isaurinha Garcia e Dercy Gonçalves adoravam soltar palavrões. Faziam isso com graça, alegria, ao contrário do candidato a ditador. Esse que aí está: Bolsonaro.
Todo mundo já ouviu falar da palavra anticonstitucionalissimamente.
Há, porém, outra que desbanca essa encontrável no dicionário Houaiss:
Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.                                      
O desbocado presidente Bolsonaro continua poluindo o ar.
No acervo do Instituto Memória Brasil, IMB, há centenas e centenas de livros, folhetos de cordel, compactos, lps’s e revistam antigas que tratam de palavrão.
Sobre palavrão e putaria, clique:

sábado, 16 de novembro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (147)

Grandes brasileiras marcaram presença no campo minado da poesia erótica como a paulista Hilda Hilst, a paulistana Adelaide Colombina e a carioca Gilka Machado. Todas fizeram o que bem quiseram, inventando ou narrando momentos por elas vividos entre lençóis.
Hilst respirava tesão que transformava em amor e cuspia palavrões com a graça de uma pavoa. Exemplo é Filó a Fadinha Lésbica. Um fragmento: 

Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe “Filó, a lésbica fadinha”.
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até...
Que escarafunchava bonecas.

O conteúdo aqui tem um quê do perfil do personagem de Memórias do Abade de Choisy Vestido de Mulher (1868), não? O título já diz tudo: o personagem se vestia como tal e como tal dava prazer à mulherada.
Colombina, que nasceu em 1882 e morreu em 1963, era de classe social abastada. Não deixou uma obra monumental, mas ainda assim bons poemas que ficaram na memória de quem aprecia o gênero. Um desses poemas, Intimidade:

Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados. 

Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu… Sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados. 

Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua…E, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta… 

E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual das delícias sem conta…

Gilka Machado, por sua vez, fez barulho e tanto. 
Nem o paulistano Mário de Andrade ficou indiferente ao ler o que Gilka escrevia. Ora falava mal, ora falava bem. 
Ao contrário de Mário, o mineiro Carlos Drummond de Andrade foi direto ao referir-se à autora de Cristais Partidos, lançado em 1915: “Gilka foi a primeira mulher nua da poesia brasileira”. 
Nessa mesma linha de enaltecimento à poesia de Gilka, se sobressaem os escritores Henrique Pongetti, Agripino Grieco e Medeiros e Albuquerque.
Sobre a destemida e invulgar poetisa disse Albuquerque: “É impróprio o elogio do corpo masculino pela mulher, pois parece coisa brutal, luxuriosa, cínica”.
Mas não foram poucos os intelectuais que aplaudiram Gilka já nos seus primeiros poemas e livros. Entre seus admiradores mais entusiastas se achavam Lima Barreto, Afrânio Peixoto, Osório Duque Estrada e o cri-cri poeta e prosador Humberto de Campos, fundador da revista ilustrada A Maçã. Essa publicação durou nove anos, de 1920 a 1929. A sua característica óbvia era o erotismo. Carioca.

sábado, 16 de maio de 2020

SEXO E SUICÍDIO AINDA SÃO TABUS

Hoje, em pleno século 21 ainda é tabu falar de sexo e suicídio.
Não deveria ser tabu tema nenhum, mas...
Pesquisas indicam que os sites mais acessados na Internet são os sites de conteúdo pornô.
Até hoje não ouvir no rádio ou televisão especialistas falarem do sexo nestes tempos terríveis de Pandemia.
Falar de putaria tudo bem, mas falar de sexo como algo importante e natural na vida não pode. Ixe!
Suicídio...
Dados colhidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), indicam que pelo menos 10,5 milhões dividem a moradia consigo próprio.
Quer dizer, milhões e milhões de brasileiros optaram por viverem sozinhos.
É solidão que não acaba mais!
Anualmente cerca de 800 mil pessoas procuram o caminho da morte por meios próprios. Isso quer dizer que a cada 40 minutos uma pessoa se mata.
Mais de 30 pessoas no Brasil, dia-ri-a-men-te.
Não adianta negar: todo mundo dono de si já pensou em suicídio. Eu mesmo, mas já sair dessa.Viver é coisa boa, apesar da violência e do cotidiano político. Exemplo? Daqui a pouco, às 20h, o atual presidente vai, mais uma vez em pouco dias, dizer asneiras ao povo.
Já falei muito sobre tudo, ou quase tudo,  neste blog. Quer ler? Clique:

http://assisangelo.blogspot.com/search?q=suic%C3%ADdio

http://assisangelo.blogspot.com/2017/05/o-suicidio-na-historia.html


Ainda nos dias de hoje continua sendo tabu falar de sexo. Hipocrisia pura. A pornografia é filha do sexo, a temática é antiga e não escandalizava tanto. Os velhos gregos falavam abertamente sobre sexo e putaria em geral. Eram devassos na compreensão extrema do termo. Os romanos também não eram brinquedo na cama, no chão, sei lá!
Na obra de Aristófanes (447 a.C - 385 a.C), há putaria explícita. Na obra de Ovídio (43 a.C - 17 d.C) também. Ele chegou a fazer até um guia para iniciantes
Calígula (12 d.C a 41 d.C) fazia coisas de arrepiar poste.
E o Marquês de Sade hein? Esse botou pra lascar.
E Henry Miller.
Mais pra cá, Jorge Amado também andou botando suas unhas pra fora. Ele gostava da coisa.
Entre as mulheres, Adelaide Carraro e Hilda Hilst deixaram marcas profundas no imaginário popular.
Hilda, que chegou a assinar parceria musical com Adoniran Barbosa, deixou de lado a sua obra bem comportada e partiu para o “vamos ver”. Queria ser lida de qualquer jeito, por isso partiu para a pornografia explícita.
E como esquecer os “catecismos” de Carlos Zéfiro, que faziam a alegria da molecada?
Zéfiro começou a publicar seus catecismos em 1949. Eram proibidos, vendidos ás escondidas. Publicou uns 500 até o começo dos anos de 1970. Viraram clássicos. São cult, raríssimos hoje. Zéfiro fez escola e com o seu nome verdadeiro, Alcides Aguiar Caminha, também assinou música com Nelson Cavaquinho. Incrível, não é?
No acervo do Instituto Memória Brasil, IMB, se acha uma quantidade enorme de catecismos e que tais sobre o fabuloso mundo do sexo. É vasta a literatura pornográfica em quase todas as línguas. A propósito, quem  não conhece ou nunca ouviu falar do clássico Kama Sutra? Escrito há mais de 500 anos por um indiano, Nesse livro há centenas de posições diferentes de como fazer sexo.

A VOLTA DO FUTEBOL

O futebol como tal conhecemos existe desde a segunda parte de século 19. Começou na Inglaterra e foi de lá que veio para o Brasil, pelas mãos de Charles Muller (1874-1953). O primeiro jogo de futebol no Brasil, aconteceu numa várzea paulistana. Pari, por ali. A seleção brasileira de futebol surgiu em 1914. A seleção masculina, a feminina em 1986. No caso não é tabu, é preconceito. Essa história o Carlos Sílvio estará abordando na conversa que terá com o craque esportivo Rodrigo Bueno da TV Fox Sports. Não perca, é coisa boa.
Siga o Instagram: @cspaiaia




sábado, 16 de setembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (43)

Na vida tudo é muito óbvio. Até costumo dizer que só não vê quem não quer ver.
O sexo é uma obviedade latente e indiscutível. Está em todos nós, em todos os animais. Como animais somos esquisitos, ignorantes, hipócritas principalmente.
O assunto é longo, histórico e polêmico.
Muito já se falou e ainda se falará a respeito de sexo, erotismo e coisa e tal.
Ouço desde sempre que a profissão mais antiga do mundo é a de prostituta.
Muita loucura já foi feita por sexo e em torno do sexo. Isso tem a ver com namoro, casamento, infidelidade e tudo mais que existe no mundo real e no mundo da fantasia envolvendo mulher com homem, mulher com mulher, homem com homem e variantes identificadas na sigla LGBTQIAPN+.
Tudo isso se acha nas Escrituras Sagradas. É só ler.As religiões já nem discutem a questão: proíbem.
A Igreja Católica sequer aceita a união estável entre pessoas do mesmo sexo.
Grandes poetas e romancistas do Brasil e de todo canto têm se debruçado sobre tão instigante tema. Destaque para Gregório de Matos, Olavo Bilac, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Hilda Hilst, Adelaide Carraro, Cassandra Rios, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Nelson Rodrigues; Pietro Aretino, Oscar Wilde, Henry Miller, Jean Genet, Anaïs Nin, Boccaccio, Sade, Masoch...
E não só esses e outros autores que falam explicitamente de sexo. Há autores, como José Saramago que aqui e acolá encontram tempo pessoal e espaço na sua obra para densa ou levemente desenvolver o assunto. No caso de Saramago considero inadiável a leitura do seu envolvente e fustigante Caim.
Não é só em livros de autores consagrados que o sexo e suas variantes são tão frequentemente abordados, discutidos, polarizados, polemizados.
Até aqui abordamos o sexo nas suas diversas facetas. No escracho, no implícito e no explícito, por aí.
O duplo sentido erótico, sensual, se acha com frequência na música popular e até na música erudita. Ouvir a ópera Don Giovanni, por exemplo. No caso nacional, são muitas as músicas nesse sentido que dão o que pensar e os autores vão de Roberto Carlos a Chico Buarque, Genival Lacerda, Jackson do Pandeiro e até Luiz Gonzaga.
Os folhetos de cordel são pródigos na questão sexo que envolve tudo, inclusive infidelidade. Exemplos: Dicionário dos Cornos, O Encontro de Falcão com um ET Corno, A Desventura de um Corno Ganancioso, A diferença entre o Corno Rico e o Corno Pobre, Relação dos Cornos Brasileiros.
O sexo também se acha, e já falamos disso, nas revistas de quadrinhos como as que fazia o famoso Carlos Zéfiro.
De modo natural e implícito cantoras e bailarinas fazem o diabo nos palcos, nas TVs e nos ambientes da Internet.
O diretor e ator Celso Martinez Corrêa fez estátuas corarem com suas diabruras nos teatros da vida.
Pois é, a coisa é antiga.
Dizem que Cleópatra traía seus machos a torto e a direito. Essa foi a forma que ela encontrou para completar-se no panteão do Poder de seu tempo.
A história registra loucuras ditas e praticadas por Calígula e tantos outros doidos.
No Egito, na Pérsia, na Síria, na Grécia e Roma Antigas cultivavam-se o falo como símbolo da força masculina e da natureza. Pois é, já naquele tempo a mulher ficava em segundo plano. Voltaremos ao assunto.
Bom, macho é o cavalo-marinho que pare.

Fotos e reproduções Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 29 de julho de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (34)

A licenciosidade no cordel vem desde fins da Idade Média, que começou no século V e terminou no século XV com a tomada de Constantinopla pelos turcos. A donzela Teodora é exemplo. E o tempo vai, vai, vai até os dias de hoje. Na poética bilaquiana, bandeiriana, drummondiana e tantas; Hilda Hilst
A temática é sempre revisitada, aqui e alhures.
Mineiro e Manduzinho
É raro encontrar um poeta popular ou compositor popular, de coisas simples do povo, que não aborde o tema erótico no duplo sentido. Mais das vezes as abordagens beiram a banalidade, o chulo. Porém, diga-se, aqui e acolá se acham coisas engraçadas.
O mineiro Téo Azevedo, o mais prolífico dentre todos os compositores contemporâneos, popular no sentido estrito do termo, brinca com palavras que formam composições de baixo calão. Daí, muitas vezes, a graça. Exemplos: Abelha Tubi, Aperto na Ruela, Atola João Cabeçudo, Baile do Jacú, Boiola, Cacete Armado, Castrado, Cagão na Camisa, Carimbó do Filho do Tuta, Ele é Boiola, Eu Comi a Jaca Dela, Filho do Tuta, Forró do Zé Atola, O Fumo Só Ta Entrando, Jaca Dela, Sem Calcinha, Tira a Saia Maria, Vou Te Dar Minha Pitomba, A Mulher do Corno Rico, Acorda Corno, Corno Conformado.
É vasto o repertório que trata musicalmente do corno como personagem do infortúnio, digamos assim. E nunca é tarde para lembrar das gracinhas musicais que fazia o grupo Mamonas Assassinas, que tinha Dinho como vocalista. Na valsa Bois Don’t Cry, Dinho canta: “… Soy un hombre conformado/ Escuto a voz do coração/ Sou um corno apaixonado/ Sei que já fui chifrado/ Mas o que vale é tesão…”.
Até no mundo animal há bichos que pulam a cerca, ou ninhos, segundo levantamentos de cunho científico.
E a história do João de Barro, hein?
Uma lenda dá conta de que o João de Barro, quando descobre ter sido “corneado”, tranca na sua casa a infiel. E presa, morre.
Zé Mulato e Cassiano
A dupla caipira Mineiro e Manduzinho gravou em 1956 uma toada de autoria de Moíbo Cury e Teddy Vieira, que diz: “Mai neste mundo o mal feito é descoberto/ João de Barro viu de perto sua esperança perdida/ Cego de dôr trancou a porta da morada/ Deixando lá sua amada presa pro resto da vida…”.
Os violeiros Zé Mulato e Cassiano fazem comparação do homem com a espingarda, que quando jovem se acha com todo o vigor. A espingarda, no caso, é o órgão genital masculino. Diz:

— Em compade pensando bem. A vida da gente é mesmo que ver uma espingarda. É mema coisa compade. No princípio a gente dá tiro.
— É verdade. Atirar é muito bão. Vai tirando vida a fora, mais lá por fim o tem lenca. Eh, mais quando tá ficando bão lenca compade.

Dos vinte até os trinta
Nossa vida é muito boa
A espingarda anda armada
E o atirador caçoa

Sortimento tá sobrando
Muitas veiz atira à toa
É só triscar no gatilho
Que a língua de fogo avoa…

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (34)

Assis Ângelo entrevista Glauco Mattoso


É sério, como se vê, o papo cego, este papo cego que iniciamos no

dia tal neste nosso Jornalistas&Cia. Há pouco, enviei uma dúzia de perguntas ao camarada Glauco Mattoso. O cabra é bom. Bom, não: é ótimo. 

As perguntas que pediram respostas podem não ser o suprassumo de um caboco como eu, mas as respostas são pra lá de ótimas. Dividimos este papo pelas ondas da Internet em duas partes. Na primeira, Glauco conta de si e dos outros findando com citação ao mestre inglês John Milton. Esse Milton, autor do clássico Paraíso Perdido nasceu no 9 de dezembro de 1608. E deste planetinha despediu-se em no dia 8 de novembro de 1674. Bom, vamos nessa edigam o que acharam.

1. Glauco, conte-nos um pouco sobre a sua vida incluindo filiação, irmãos etc...

GM - Ja fallei e escrevi muito sobre tudo isso e muito ja escreveram sobre mim. Mas neste caso nossa conversa é como si fosse battepappo entre collegas no bar. Vale repisar toda a coisa. Para começar, quem lê para você vae reparar que escrevo pela antiga orthographia neste computador fallante. A orthographia é uma de minhas muitas manias e faz parte da rebeldia que me characteriza. No caso, contra um sacco de gattos pingados que se acha no direito de cagar regras a toda uma communidade lusophona. Ser retrô, às vezes, significa ser anarchista, até vanguardista. Mas vamos la. Sou Ferreira da Sylva só por parte do avô paterno, mas os outros antepassados são italianos, os Canettieri e os Torrezani. Sou da Zona Leste de Sampa, redondezas da Mooca. Mais velho de trez irmãos. Só eu nasci com glaucoma, como o Ray Charles e o filho do Roberto Carlos. Ray Charles não era rico e perdeu a visão ainda creança. O filho do Roberto, mesmo rico, tambem accabou perdendo.

Eu, da classe media baixa, passei por oito cirurgias, perdi primeiro o olho direito e, ja muito myope, o olho esquerdo depois dos quarenta. 

Suppondo que ficaria cego, e sem poder fazer tudo que a molecada fazia, virei leitor e escriptor desde cedo. Melhor alumno tambem, claro. Por causa disso sempre me bullyingavam, dentro e fora da eschola, e por causa disso virei sadomasochista: me fizeram lamber pés e chupar paus. 

Molecada typica de peripheria: nos annos cincoenta os arredores da avenida Sapopemba ainda eram muito baldios e os mattagaes o melhor scenario para curras entre moleques. Trauma duplo, o da deficiencia visual e o das curras, mas a litteratura serviu para desabbafar e a poesia para glosar. Para gozar, bastava a punheta. Até que eu encontrasse minha turma, nos annos septenta, nos gruppos de theatro e de militancia gay. Emquanto isso, me formei bibliothecario, trabalhei como bancario e desbundei como um dos poetas "marginaes" daquella geração. O que me destaccou foi um poezine muito anarchico, chamado JORNAL DOBRABIL (parodiando o JORNAL DO BRAZIL), que era uma folha dobravel, ou seja, "dobrabil". Recyclei a anthropophagia oswaldiana, mas, como sou mais escatologico, a minha foi uma "coprophagia". Durante a dictadura, tal irreverencia chamou a attenção dos artistas e intellectuaes. Virei discipulo do Augusto de Campos e do Millor Fernandes, que me davam força. Até Caetano Velloso deu. Esse pamphleto virou livro e se tornou meu chartão de visita. Em seguida escrevi um romance autobiographico, o MANUAL DO PODOLATRA AMADOR: ADVENTURAS E LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS, onde narro essa porra toda. Mas o que eu queria mesmo era ser poeta. 

Junctei os poemas do DOBRABIL em livro, mas não eram os sonnettos que hoje faço. Essa disciplina e esse rigor vieram depois da cegueira completa, ou talvez por causa della, ja que a metrica e a rhyma adjudam a memorizar e a compor na cabeça antes de passar para o computador fallante. Prompto, fallei, por fallar nisso.

2. Sei que o seu nome de batismo é Pedro José Ferreira da Silva.

Como surgiu o pseudônimo Mattoso? Conte detalhes.

GM - Paresce piada prompta. O portador de glaucoma é glaucomatoso. Claro que eu percebi a analogia com Gregorio de Mattos, outro satyrico e fescennino. Mas a intenção era usar meu logar de falla como deficiente para sacanear todas as deficiencias como parte duma "missão" sadomasochista, ja que meu pae era kardecista e eu, embora não siga nenhuma chartilha, me tornei uma mixtura de antagonismos: sou exsistencialista e espirita. A contradicção e o paradoxo são outra de minhas manias. Gosto de explorar os conflictos humanos, a dupla personalidade, entre a perversão e a perversidade, entre a compaixão e a humanidade, en tudo e em todos. Por isso desdenho das censuras, que só visam a apparencia pornographica exterior, ignorando contehudos mais profundos. Nem sei o que é peor, a censura de "bons costumes" da direita ou a "politicamente correcta" da esquerda.

Para mim, pisar no callo dos excluidos me irmana a todos os injustiçados, os da graça divina e os da desgraça humana.


3. Particularmente, tenho muita dificuldade de aceitar com naturalidade o problema que me causou o descolamento de retina. Eu estava entrando na casa dos sessenta. Fui submetido a nove cirurgias em vão. E você como recebeu a notícia dos médicos dando conta de que você estava cego? Passou por tua cabeça a ideia de suicídio?

GM - Como eu dizia, passei por oito cirurgias, a primeira aos oito annos e a ultima aos quarenta e quattro. A cada operação, os medicos repetiam que, si eu continuasse enxergando, estaria no lucro, pois meu glaucoma congenito é fatal. Perdi o olho direito depois dos vinte e o esquerdo depois dos quarenta. Ja sem visão no direito, fui morar no Rio para poder trabalhar como bibliothecario no Banco do Brazil, mas na verdade eu queria sahir da casa dos paes para não me suicidar emquanto la morasse, a fim de poupar a familia do choque directo.

Elles receberiam a noticia à distancia. No Rio os abysmos são faceis de accessar e eu queria seguir o exemplo de outros artistas que se precipitaram. Para mim a perda do olho esquerdo viria logo, mas não veiu e segui tocando a vida, mas ja convivendo com gente do meio artistico e intellectual. Foi la que comecei a editar o DOBRABIL. Isso me entreteve e accabei addiando o suicidio. Na volta a Sampa, comecei a morar em appartamento (no Rio a pensão ficava num casarão), primeiro num segundo andar, depois num nono, donde planejei me jogar assim que perdesse o olho esquerdo. Depois da perda total, mamãe veiu morar commigo uns mezes e addiei de novo. Mais tarde, percebi que conseguia me virar sozinho dentro de casa e, de repente, o sobrenatural interferiu. Traduzi Borges juncto com o professor Jorge Schwartz, ganhamos um Jaboty pela traducção, e adquiri meu primeiro computador fallante, installado com o programma DOSVOX, da UFRJ, editor de texto que uso até hoje. Esse programma me permittiu digitar tudo que vinha na cabeça, inclusive uma poesia rhymada e metrificada que eu nem imaginara poder compor. No primeiro anno, passei dos trezentos sonnettos e, no terceiro, dos mil. Hoje passei dos quattorze mil poemas, interrompi varias vezes a producção poetica para escrever e publicar outras coisas e, depois de duzentos livros, entendo que esse affan me dissuadiu do suicidio, appesar duma cegueira cada vez mais soffrida com a chegada da velhice e de outras doenças, como a neuropathia diabetica. Entretanto, a coincidencia com Borges não foi só na cegueira progressiva e na perda em meia edade: foi tambem na vida conjugal, ja que, a exemplo da Maria Kodama, tambem me casei com um japonez, cuja companhia me reforçou a decisão de ir

addiando o suicidio, que não está definitivamente deschartado, ja que a morte assistida do Antonio Cicero me suggere que agora a coisa fica mais viavel.

4. Pra falar a verdade, ainda não me considero com a cabeça totalmente no lugar. Ainda entro em depressão... A literatura me faz bem. É como se fosse remédio. Ouço livros e dito textos a pessoas queridas como a historiadora Flor Maria. E você ouve muito livro, mexe na Internet com facilidade?


GM - Não gosto de audiolivros. Prefiro ler/ouvir um texto no computador fallante, digitado por mim mesmo ou por outros auctores. Meu esposo lê para mim, inclusive jornaes, e ouço radio para me informar do noticiario. Tambem ouço muita musica em CD e cheguei a produzir CDs de punk rock em sociedade com o membro duma dessas bandas. Um desses CDs, chamado MELOPÉA, junctou gente que musicou meus sonnettos, desde Arnaldo Antunes ao cearense Falcão. Mas o DOSVOX só me permitte trocar emails, pois nas redes é meu esposo Akira, alem do meu editor Lucio Medeiros, quem monitora o facebook, o instagram e o twitter. Nada disso remedia a depressão, a insomnia e a angustia exsistencial, todavia. Continuo maldizendo a cegueira e, ao contrario de Borges, não acho que seja uma dadiva divina. Dadiva foi a veia poetica, graças à assistência espiritual de Borges, Homero, Milton, Joyce, sem fallar no Cego Adheraldo...

5. Eu sempre li autores diversos, nacionais e estrangeiros. E você, de quais autores mais gosta? E gêneros literários como romance, conto, poesia...?

GM - As influencias directas são do Augusto de Campos na poesia e do Millor no livre pensar. Com elles convivi e dialoguei. Mas as influencias remotas vão da sexualidade violada à cantoria violeira, passando por Sade, Masoch, Aretino, Bocage, Gregorio e chordelistas da "litteratura de bordel", practicantes da chamada glosa fescennina, herdeira dos epigrammas latinos e dos goliardos medievaes. Sou, portanto, um legitimo expoente da tradição pornographica na litteratura canonica, ja que sou estudado em theses de universidades nacionaes e extrangeiras. Na prosa tambem curto Genet, Henry Miller, Orwell e Burgess, mas, como tenho a cultura encyclopedica dos bibliothecarios, apprecio muitos classicos universaes, de Boccaccio a Rabelais.

6. Acabei de escrever uma série sobre licenciosidade na cultura popular. Nesse trabalho, que pretendo que vire livro sob o título Do Popular ao Erudito: o Sexo como Expressão Artística, tem de tudo, incluindo obras de autores como Gregório de Matos e Guerra, Dalton Trevisan, Hilda Hilst, Marquês de Sade, Restif de La Bretonne, entre muitos outros. Você é um apaixonado pelo Boca do Inferno. O que você tem escrito sobre ele? E no campo propriamente poético, de que você mais gosta: quadra, redondilhas, sextilhas, décimas ou sonetos?

GM - Estou nas principaes anthologias eroticas, inclusive a da Eliane Robert Moraes e a do Alexei Bueno, subtitulada DE GREGORIO DE MATTOS A GLAUCO MATTOSO. Em Gregorio sigo a linha satyrica, não só sexual mas tambem politica, alem do modello sonnettistico camoneano. Minha producção mais volumosa é de sonnettos (onze mil, um recorde), mas já glosei muito motte e pellejei com gente de respeito, como o Moreira de Acopiara, que publicou nosso folheto.

Não satisfeito, inventei gêneros alternativos, como o dissonnetto de quattro quartettos ou o "infinitilho" de estrophes illimitadas, cada estrophe sem limite de versos, mas rhymadas na sequencia das anteriores, typo ABCDEFG... O exemplo barroco de Gregorio é instigante no sentido de crearmos jogos de palavras e eschemas estrophicos/rhymaticos engenhosos. O concretismo tambem me estimulou nesse terreno. Em alguns cyclos narrativos mais longos usei formatos estrophicos variados, como decima seguida de quartetto, oitava camoneana e verso livre, mas a cegueira sempre predominando como thema, como em "São Sansão, Sancta Dalila", "Evangelho de Judas Izrahiah" ou "Historia da cegueira", estes reunidos no livro OBSCURAS ESCRIPTURAS, satyrizando a mythologia biblica, a exemplo do John Milton, que revisitou a lenda de Sansão.

Meu amigo, minha amiga: você está gostando desse nosso papo?

Tem mais. Aguarde...

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