Vários jornais foram empastelados no Rio, entre essas além da República, Liberdade e Gazeta da Tarde. Esses dois pertenciam ao conde Afonso Celso (1860-1938), que escreveria pouco depois o livro Por que me Ufano de Meu País? (1900). O texto desse livro é uma ode às belezas do Brasil. Mais: retrata a pureza nacionalista do autor. Chega aos píncaros do nacionalismo com a cor da ingenuidade. Depois do fim da censura prévia, o governo de Deodoro criou formas para combater o que se chamou de excesso jornalístico. Não havia a censura prévia explícita, mas havia renhida perseguição a jornais e jornalistas que não seguiam as normas. Essas normas, em resumo, tinham a ver com os “contra” e os “a favor”. Não era brincadeira o que acontecia no fim do Império. Rigorosamente falando haviam os Republicanos e os Monarquistas. A República estava começando e quem estava com a República, estava ganhando. Uma curiosidade: Quintino Bocaiúva foi o primeiro e o único jornalista a virar General de Brigada (honorário). Outra: Em 1893, o sergipano Quintino de Lacerda, botou pra quebrar e virou o primeiro e único Major (honorário) do Exército Brasileiro. Esse Quintino nasceu em 1839, mesmo ano do nascimento do escritor Machado de Assis e morreu em 1898. Mais: depois de comprar a própria alforria, foi eleito o primeiro vereador negro do Brasil pela cidade de Santos, SP. Não assumiu. Dentre todos os jornalistas da época, talvez o mais combativo tenha sido o baiano Cipriano Barata. Barata formou-se em medicina em Portugal. O jornalismo, porém, foi a profissão que assumiu para justificar a sua passagem por cá. Barata foi preso muitas vezes e jamais rendeu-se às ameaças dos poderosos do seu tempo. Foi fundador do jornal Sentinella da Liberdade, que ganhou leitores, admiradores e seguidores em várias partes do País. Escrevia até na cadeia e da cadeia em Pernambuco, Bahia e outras províncias, conseguia publicar o seu Sentinella. Em 1823, escreveu:
Toda e qualquer sociedade, onde houver imprensa livre, está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alimento, alegria, segurança e fortuna; se, pelo contrário, aquela sociedade ou o povo, que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja abaixo de que pretexto for, é escravo, que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro.
Passei a vida ouvindo, na escola e fora da escola, pessoas dizerem que a
princesa Isabel cometera um crime ao assinar a Lei Áurea.
Sempre me perguntei porque diziam isso, que fora um crime o que a
princesa fizera.
Logo após a assinatura da Lei Áurea, na tarde do domingo de 13 de Maio
de 1888, milhares e milhares de negros comemoraram entusiasticamente a
libertação do trabalho forçado a que eram submetidos nas fazendas e em
todos os cantos do País.
A Lei Áurea não foi assinada à toa.
Antes dessa lei houve as Leis Eusébio de Queirós, do Ventre Livre e do
Sexagenário.
Essas Leis, não por acaso, foram também assinadas pela filha de D.Pedro II.
Aliás, nessas ocasiões o Imperador, pai de Isabel, sempre se encontrava
ausente do Brasil.
D. Pedro só foi saber do que assinara a filha, duas semanas depois, quando se
achava em visita à Itália.
O movimento de libertação dos escravos foi iniciado nos fins da primeira parte
do século XIX. À frente desse movimento se achavam Luiz Gama, José do
Patrocínio, André Rebouças e outros mais.
Os libertos transformaram a Princesa Isabel numa verdadeira heroína e o golpe
republicano foi dado para freá-la no posto de rainha, que certamente ocuparia
após a morte do pai, D.Pedro II.
Meu amigo, minha amiga, você sabia que ao invés do Cristo Redentor, era
para estar no seu lugar uma estátua com todas as características da
princesa? Pois é, essa ideia foi de bate pronto anulada por ela mesma.
No último 20 de novembro, da Consciência Negra, não ouvi de nenhum
governador, e nem do presidente da República falar sobre o triste período
vivido pelos negros escravizados. Ouvi sim, um discurso profundo e
significativo do ex-presidente Lula. Uma pérola, sem dúvida, que compartilho
aqui com vocês. Cliquem:
A partir do lançamento do jornal O Homem de Cor, 5 meses depois do jornal
político O Grito dos Opprimidos, muitos jornais em defesa do negro começaram a
pipocar País afora. Na primeira edição do jornal O Homem, lançado em
Recife no dia 13 de janeiro de 1876, podia-se ler:
Há tempo de calar e há tempo de falar. O tempo de calar passou, começou o
tempo de falar. A classe dos homens de cor, sem dúvida nenhuma, a mais
numerosa e a mais industriosa do Brasil, parece atualmente voltada ao
ostracismo pelos homens que nos governam, contra toda a justiça, contra a
própria lei fundamental do país. Embora os particulares tratem-nos com
as atenções merecidas, embora muitos dentre eles se achem ligados conosco
pelos laços da mais sincera amizade, todavia os fatos denunciam que o
partido que há tempos predomina na província parece manter o propósito
desleal de ir apartando dos empregos públicos aqueles nossos que para eles
haviam sido nomeados por consideração de seus talentos e virtudes, conforme
preceitua a Constituição do Império.
Mesmo depois da Lei Eusébio de Queiróz e com a violência de sempre, os africanos
continuavam sendo laçados e trazidos em navios negreiros sob as rédeas dos
portugueses, principalmente. Essa vergonha, esse drible contra a Lei, durou
mais 2 ou 3 anos. Não sabiam os traficantes que estavam trazendo também
cultura ao Brasil. Em 1889, um ano depois da Lei Áurea, foi lançado em São
Paulo o jornal A Pátria, cujo epíteto era: “Órgão dos Homens de Cor”. Logo
depois, em 1897, foi lançado o jornal O Progresso, também em São Paulo.
Detalhe: No dia 13 de maio de 1888, um menino de 7 anos era levado pelos
pais a assistir a solenidade de anúncio da Lei Áurea pela princesa Isabel
(1846-1921), no Paço Imperial, RJ. Esse menino era Lima Barreto, um preto
pobre que virou um grande escritor. Referência da nossa literatura. Um
dia, Barreto escreveria para o jornal Gazeta da Tarde, edição de 4 de maio de
1911:
Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem
emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições
desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o
seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção
que o mês sagrado me traz, se misturam recordações da minha meninice. Agora
mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai
chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos.
E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Na
minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje
repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das
janelas eu vejo um homem que acena para o povo. Não me recordo bem se
ele falou e não sou capaz de afirmar se era mesmo o grande Patrocínio. Havia
uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão.
Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas
o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com
lenço, vivas... Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida,
vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de
folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e
harmonia. Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também
com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao
assisti-la, me vinha aos olhos a "Primeira Missa", de Vítor Meireles. Era
como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez... Houve o barulho de
bandas de música, de bombas e girândolas, indispensável aos nossos
regozijos; e houve também préstitos cívicos. Anjos despedaçando grilhões,
alegorias toscas passaram lentamente pelas ruas. Construíram-se estrados
para bailes populares; houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro
que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos,
assistindo àquela fieira de numerosos soldados desfiar devagar. Devia ser de
tarde, ao anoitecer. Ela me parecia loura, muito loura, maternal, com
um olhar doce e apiedado. Nunca mais a vi e o imperador nunca vi, mas me
lembro dos seus carros, aqueles enormes carros dourados, puxados por quatro
cavalos, com cocheiros montados e um criado à traseira. Eu tinha então
sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror;
não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa
escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os escravos rareavam,
faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir
bem os aspectos hediondos. Era bom saber se a alegria que trouxe à
cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha
entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão. Quando
fui para o colégio, um colégio público, à rua do Resende, a alegria entre a
criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria
ambiente nos tinha tomado. A professora, Dona Teresa Pimentel do
Amaral, uma senhora muito inteligente, a quem muito deve o meu espírito,
creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental
de criança, só uma coisa me ficou: livre! livre! Julgava que podíamos
fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos
propósitos da nossa fantasia. Parece que essa convicção era geral na
meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: "Vou
dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos
livres?" Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos
enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis! Dos jornais e
folhetos distribuídos por aquela ocasião, eu me lembro de um pequeno jornal,
publicado pelos tipógrafos da Casa Lombaerts. Estava bem impresso, tinha
umas vinhetas elzevirianas, pequenos artigos e sonetos. Desses, dois eram
dedicados a José do Patrocínio e o outro à princesa. Eu me lembro, foi a
minha primeira emoção poética a leitura dele. Intitulava-se "Princesa e Mãe"
e ainda tenho de memória um dos versos: "Houve um tempo, senhora, há
muito já passado..." São boas essas recordações; elas têm um perfume de
saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo...
A princesa Isabel, ao centro, na missa de 17/5/1888
Em 1897, em Porto Alegre, era lançado O Exemplo. Esse jornal, que durou 52
números e teve 3 fases, chegou a acolher textos de brancos. Mas findou, em
1930, por falta de grana.
Os jornais abolicionistas ou não abolicionistas eram de pouca tiragem e de
curta duração, mas bastante atrevidos.
Uma vez, o poeta e contista Olavo Bilac (1865-1918), meio fulo da vida, disse
que eram muitos os jornais da sua época. Mas, acrescentou: “juntando todos,
não chegavam a 150.000/mês de exemplares”.
Em 1833 havia, em circulação, 35 jornais no País.
No dia 17 de outubro de 1915 era lançado na Capital paulista o jornal O
Menelick, editado por
Deocleciano Nascimento, com proposta de circulação mensal. A redação era na
casa dele, na rua da Graça, Bom Retiro. Durou, porém, 2 números, mas fez
história.
O título era uma homenagem ao rei da Etiópia, falecido em 1913. Para os
etiópios, esse rei era “O rei de todos os negros”.
Depois de A Pátria e O Progresso e antes de O Menelick foram editados em São
Paulo os jornais O Baluarte, O Propugnador, A Pérola, O Combate e O Patrocino.
Em 1924, ainda em São Paulo, José Correia Leite lançava à praça o jornal O
Clarim da Alvorada. Nesse jornal foi publicada a primeira coluna sobre música.
Seu colunista era Horácio da Cunha.
Era um jornal altivíssimo, como altivíssimo foi o jornal A Voz da Raça.
Era tudo por tudo contra o preconceito e tudo mais.
A Voz da Raça surgiu exatamente 100 anos depois do jornal O Homem de Cor.
Fortíssimo, claríssimo nas ideias, era esse jornal.
Muitos jornais, tabloides, surgiram depois.
Em setembro de 1931 surgiu, em São Paulo, a Frente Negra Brasileira (FNB).
Houve um racha nesse movimento e desse racha surgiu a Legião Negra.
A Legião Negra, que contou com mais ou menos 2 mil cidadãos, pegou em armas
contra Getúlio Vargas em 1932.
Importante também lembrar que a “Imprensa Negra”, definição do sociólogo
francês Roger Bastide (1898-1974), contou com jornalistas tão importantes
quanto Francisco de Paula Brito. Entre esses Luís Gama, André Rebouças e José
do Patrocínio, criadores da Confederação Abolicionista (1883).
José do Patrocínio amargou o degredo no Amazonas, no segundo governo da
República (Floriano).
Isso ocorreu pelas críticas que ele fazia ao governo que sucedeu Deodoro.
Comeu o pão que o Diabo amassou. Sofreu nos infernos.
Naquele tempo, monarquistas e republicanos se dividiam, no pensar e no agir. E
o pau continuava a comer, sem dó.
Não custa lembrar que Patrocínio começou a carreira no jornal Gazeta de
Notícia, seguiu na Gazeta da Tarde e findou criando Cidade do Rio, no qual
empregou o futuro criador da reportagem, no Brasil:
João do Rio.
Os jornais de linha moderada ou de centro-esquerda, como se diz hoje, não
mediam palavras para atacar os jornais de direita ou de direita-conservadora
como o Diário de Pernambuco, criado em 1825. Vivo até hoje.
Um dos mais intransigentes republicanos foi Quintino Bocaiúva.
Primeiras edições dos jornais O Clarim e A Voz da Raça
Em 1870, Bocaiúva reuniu contrários à Monarquia e lançou o Manifesto
Republicano no jornal A República, editado pelo paraibano Aristides Lobo
(1838-1896).
A República foi o primeiro dos grandes jornais surgidos no Rio de Janeiro. Sua
posição anti-monarquista irritou poderosos da época, que o destruíram através
de empastelamento.
No Rio de Janeiro, no começo da segunda parte do século 19, intelectuais pretos
e pardos arregaçaram
as mangas e foram à luta, em defesa dos seus direitos. O Rio era a sede do
Império. À época, o Rio contava com cerca de 160 mil habitantes. Mais ou
menos. O preconceito e a discriminação eram a marca principal daquele
tempo. Quando o carioca Francisco de Paula Brito nasceu, a Imprensa ou
Impressão Régia já existia há 1 ano, 2 semanas e 4 dias. A Imprensa Régia
nasceu no dia 13 de maio de 1808. Nessa data nasceu também a censura prévia, que
se estendeu até 1821, ano de fundação do jornal Diário do Rio de Janeiro.
Editado por Zeferino de Meireles e Antonio Maria, esse jornal foi o primeiro a
publicar anúncios publicitários. Sua linha política pendia para a independência,
entre brancos pobres e negros. Aqueles eram tempos lamentáveis, em que a
Elite dizia que “mulheres brancas eram pra casar, pretas para trabalhar e
mulatas para fornicar”. O primeiro jornal brasileiro chamou-se Correio
Braziliense, editado por Hipólito José da Costa. O 1º número desse jornal saiu
no dia 1º de junho em 1808, em Londres. Em terras brasileiras, o 1º jornal
a ser publicado chamou-se Gazeta do Rio de Janeiro, editado por frei Tibúrcio
José da Rocha. Seu 1º número saiu no dia 10 de setembro de 1808. O redator desse
jornal, Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, lançaria pouco depois o jornal O
Patriota. Dentre os colaboradores desse jornal, se achavam Manuel Inácio da
Silva Alvarenga e José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Moço”. Naqueles
começos de século, o Rio e o Brasil todo ferviam. Turbulência de norte a sul da
Colônia. Éramos Colônia. Dom João, acuado por Napoleão Bonaparte, cortou o
Atlântico até chegar a nossas terras com a trupe formada por milhares de
portugueses, numa esquadra protegida pela força marítima inglesa. Aqui,
seu refúgio. A escravidão comia solta por cá, desde o começo da 2º parte do
século 16. Indígenas e negros, sob
chicote de bandeirantes e fazendeiros, penavam. Nos finais da 1ª metade
do século 17, militares portugueses se juntaram ao líder indígena Filipe
Camarão e ao negro mestre de campo Henrique Dias. Essa união tinha por
finalidade expulsar os holandeses que invadiram o Brasil. Finalidade
alcançada. As normas do Exército brasileiro começavam aí, com heroísmo.
Triste heroísmo. Com sangue, muito sangue. Foram muitas as
revoltas, revoluções, guerras
envolvendo negros, pardos brasileiros. Dom João volta a Portugal no dia
26 de abril de 1821, atendendo a rogos do povo português. No Porto
estourara uma revolução braba. A essa altura, porém, Napoleão já havia
morrido na ilha inglesa de Santa Helena. Segundo Napoleão, no seus escritos de
memórias, Dom João foi o único monarca a lhe “passar a perna”, de acordo com o
que se lê no livro 1808 (Laurentino Gomes, Globo Livros, 2007). Após
proclamar a Independência do Brasil de Portugal, em 1822, Pedro I prepara
terreno para seguir os passos do pai. Nesse meio tempo, a vida
continuava tensa na nossa terra agora Império. Periódicos de várias
tendências criticam e elogiam o comportamento do imperador. Aqui e ali ele se
irrita publicando textos apócrifos em vários jornais, entre os quais O Espelho
e O Analista sob os pseudônimos Duende, Derrete-Chumbo-A-Cacete, Piolho
Viajante e O Espreita. Os humanos de África continuavam chegando aos
milhares e à força, não só à Corte. No dia 14 de setembro de 1833, Paula
Brito leva à praça o primeiro jornal que trata das condições em que viviam os
negros à época. Péssimas. Título: O Homem de Cor, de circulação quinzenal.
Durou 5 números, o último lançado dia 4 de novembro daquele ano, que trazia
como subtítulo O Mulato. Já na 1º edição desse jornal era estampada
referência à Constituição de 1824, outorgada por Pedro I. Dizia, no seu artigo
14: “Todo o cidadão pode ser admittido aos Cargos Publicos Civis, Politicos,
ou militares, sem outra differença, que não seja a dos seus talentos, e
virtudes.” Francisco de Paula Brito era filho de mãe liberta (Maria). O
pai (Jacintho) era carpinteiro. Fez tudo que um pai faria pelo bem do filho.
Ele fez. Muito cedo, Paula Brito identificou-se com a profissão de
tipógrafo. Nas tipografias que conseguiu fazer, entre as quais A Fluminense,
imprimiu vários jornais, quase uma centena. Um desses, O Restaurador, por
pouco não o levou à bancarrota. Política e ideologicamente, Paula Brito
mostrava-se a favor da liberdade. Lutava por ela. Nos fins do dia, numa
sala contígua a sua tipografia, Brito reunía-se com clientes e amigos para
discutir os rumos da vida que viviam. Entre esses amigos,
Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha), em início de
carreira literária. E até Eusébio de Queiróz, que transformaria a vida do
Brasil ao conseguir ter aprovada no Congresso uma lei que impediria o tráfico
de escravos. Importantíssima. O barão do Rio Branco era presença
constante nessas reuniões. O Reino Unido teve participação fundamental na
aprovação da Lei Eusébio de Queiróz, como ficou conhecida a Lei nº 581 de 4 de
setembro de 1850. História. Antes disso, no dia 7 de novembro de
1831, o Parlamento brasileiro aprovou uma Lei que extinguia o tráfico de
africanos para o Brasil. Essa Lei ficou conhecida como “Para inglês ver”. Quer dizer, essa Lei (Feijó) nunca funcionou. Funcionou a Lei Eusébio
de Queiróz.
Lá na úmida senzala, Sentado na estreita sala, Junto o braseiro,
no chão, Entoa o escravo o seu canto, E ao cantar correm-lhe em
pranto Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra
escrava Os olhos no filho crava, Que tem no colo a embalar... E
à meia voz lá responde Ao canto, e o filhinho esconde, Talvez,
pr'a não o escutar!
Minha terra é lá bem longe, Das bandas de onde o sol vem; Esta
terra é mais bonita, Mas à outra eu quero bem!
O sol faz lá
tudo em fogo, Faz em brasa toda a areia; Ninguém sabe como é belo Ver
de tarde a papa-ceia!
Aquelas terras tão grandes, Tão
compridas como o mar, Com suas poucas palmeiras Dão vontade de
pensar...
Lá todos vivem felizes, Todos dançam no terreiro; A
gente lá não se vende Como aqui, só por dinheiro.
O escravo calou a fala, Porque na úmida sala O fogo
estava a apagar; E a escrava acabou seu canto, P'ra não acordar
com o pranto O seu filhinho a sonhar! ............................. O
escravo então foi deitar-se, Pois tinha de levantar-se Bem antes
do sol nascer, E se tardasse, coitado, Teria de ser surrado, Pois
bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada Deita seu filho,
calada, E põe-se triste a beijá-lo, Talvez temendo que o dono Não
viesse, em meio do sono, De seus braços arrancá-lo! (A Canção do Africano, de Castro Alves; 1863, Recife, PE)
A partir de hoje 20 até o próximo sábado 27, publicaremos neste blog uma série
de 7 capítulos contando a história do que podemos chamar de Imprensa Negra no
Brasil. É uma história interessantíssima, resistente e heroica como disse uma
vez o colega jornalista Audálio Dantas. Muitas curiosidades o amigo leitor
encontrará no decorrer da leitura dessa série. É isso.
Aliás, detalhe: A Lei Áurea foi assinada na tarde de domingo 13 de maio, do
ano de 1888. Assinou o documento, além da princesa Isabel, uma figura pouco
lembrada na história: Rodrigo Augusto da Silva (1833-1889).
E vamos à leitura. Tomara que goste.
***
Imprensa negra, resistente e heroica À parte: Samba, cordel e repente −
uma história para estudo e reflexão
Por Assis Ângelo (Para Anna Clara da Hora Sena Durães, pela infinita
paciência de ouvir e digitar os textos que lhe dito)
Aqui eu dou de mão do leitor e o levo a um passeio na história. O ponto de
partida é o achamento de Pindorama pelos portugueses, como o Brasil era
chamado nos primórdios por seus habitantes. Após isso e logo depois da
fundação da primeira cidade brasileira, São Vicente, os africanos começam a
desembarcar na Bahia, Rio e São Paulo pra dar duro na Ilha de Vera Cruz, como
denominou nossas terras Pedro Álvares Cabral (1467-1520). O objetivo é pôr luz
na história. O primeiro jornal a tratar da questão negra foi O Homem de
Cor, de 1833. No correr do texto, o leitor vai topar com um personagem
de importância fundamental na incipiente Imprensa brasileira: Francisco de
Paula Brito (1809-1861). Brito foi o pioneiro da chamada “Imprensa Negra”. Paula
Brito foi o cara que abriu as portas para Machado de Assis. Foi Machado o
nosso primeiro grande romancista. Muita água correu por debaixo da ponte
desde o lançamento do jornal O Homem de Cor. Depois desse jornal, que
durou 5 números, muitos outros vieram abrindo caminho que levaria o negro à
liberdade. Não era brincadeira o que o negro vivia no século 19. Desde
então, pouca coisa mudou no campo da exploração humana. O jornalista
alagoano
Audálio Dantas
(1929-2018), uma vez resumiu a importância dessa Imprensa: “Persistente,
heróica”. A Importância da cultura africana no Brasil é sem tamanho.
Melhor: é de um tamanho que a vista humana nem alcança. O maestro paulistano
Júlio Medaglia resume essa história numa frase: “A cultura brasileira é negra
e devemos aos negros a cultura brasileira”. Na tarde de 13 de maio de
1888, a princesa Isabel assinou no Paço Imperial, RJ, a Lei que tirou o poder
dos escravocratas sobre os negros escravizados. Isabel Cristina
Leopoldina Augusta Micaela Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon nasceu
em 1846 e morreu em 1921, na França. Há 100 anos, portanto.
...Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o
brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de
açoite... Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a
dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras
crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças,
mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em
ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente... E
da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais ... Se o velho
arqueja, se no chão resvala, Ouvem-se gritos... o chicote estala. E
voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia, A
multidão faminta cambaleia, E chora e dança ali! Um de raiva
delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece, Cantando,
geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra, E após
fitando o céu que se desdobra, Tão puro sobre o mar, Diz do fumo
entre os densos nevoeiros: "Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente... E da ronda
fantástica a serpente Faz doudas espirais... Qual um sonho
dantesco as sombras voam!... Gritos, ais, maldições, preces ressoam! E
ri-se Satanás!... (Trecho do poema O Navio Negreiro,
de Castro Alves)
Navio Negreiro, pintura de Johann Moritz Rugendas
O Brasil tem cor: preta. E outras cores também tem: verde, amarela, azul e
branca, como ostenta a bandeira nacional que traz como tema “Ordem e Progresso”,
extraído de frase do positivista francês Auguste Comte (1798-1857). E ainda
deveria ter a cor do sangue dos índios e dos negros escravizados. O Brasil
é rico demais, sempre foi. O Brasil tem água em abundância e rios de ouro e
prata. E mais ainda o Brasil tem: terra fértil onde o que se planta dá
incluindo coco, cajú, cajá, siriguela e cana caiana, que virou cana de beber na
invenção de pretos em ferros nos engenhos coloniais. Como se não bastasse,
o som do samba faz o vento dançar e balançar o arvoredo. São mais de 8,5
milhões de quilômetros quadrados… No ranking, o Brasil ocupa o 5º lugar
entre os maiores e mais populosos países do mundo. O Brasil é um país de
dimensões continentais, sem vulcões, furacões, terremotos, tsunamis, mas com
muito cabra safado. Ao tempo de 1500, só indígenas habitavam a terra
brasilis, originalmente chamada de Pindorama. Em Tupi-Guarani, Pindorama
significa “Terra das Palmeiras”. Quando Cabral aportou na costa baiana, o
Brasil foi chamado de Ilha de Vera Cruz. Logo depois, em 1501, o rei Dom Manuel
reintitulou o Brasil de Terra de Santa Cruz. Antes disso, em 1498, aportou
por estas terras o primeiro navegador de além mar:
Duarte Pacheco Pereira. No dia 20 de novembro de 1530, o Brasil ganhou uma vila: São Vicente,
sei lá por que em homenagem ao santo espanhol Saragoça. Em 1532, São
Vicente passaria a ser conhecida como a primeira cidade do nosso País. Nessa
cidade o seu fundador, Martim Afonso de Sousa (1500-1564), construiu Câmara,
pelourinho, cadeia e uma capela, símbolos do reino de Portugal. A
história, a nossa história, é recheada de violência, tragédias e tristeza. Até
hoje. Nosso sangue é preto. Nossos indígenas foram os primeiros a
serem escravizados pelos invasores.
O pajé Awa Kuaray Wera e Assis Ângelo
“A verdade é clara, muito clara: sofremos até hoje, somos violentados até hoje e
o tempo todo, todos querem as nossas terras e dela extrair o ouro e outras
coisas”, conta e reconta o Pajé Guarani Awa Kuaray Wera. Kuaray Wera lembra
que em 2020 quase 200 índios foram assassinados pelos brancos no Brasil. “A
gente era muita gente, milhões. A gente hoje não chega nem a 1 milhão e o número
de línguas, menos de 300. Podemos acabar”, acrescenta o Pajé. Em 1550,
portugueses começaram a traficar humanos de África para torná-los escravos cá,
no Brasil. A partir de então, os horrores passaram a se multiplicar, na cor
preta. Por essa época, uma jovem princesa angolana foi laçada por captores
e trazida até nós, à força. Seu nome: Zacimba Gaba. Essa princesa, da nação
de Cabinda, foi desembarcada no porto de São Matheus (província de Espírito
Santo). E lá sofreu até fugir das mãos dos seus algozes. Foi uma
guerreira. Um ano antes de 1550, começaram a chegar em Pindorama os
jesuítas. Entre eles, José de Anchieta (1534-1597). Anchieta chegou em 1553
e um ano depois, fundou com Manuel da Nóbrega (1517-1570), a cidade de São
Paulo. Depois dos jesuítas, chegaram os carmelitas e os beneditinos. Os
jesuítas autoproclamavam-se “soldados de Deus”. Até hoje. Essa organização
religiosa foi criada na França, em 1534 e reconhecida pelo Papa em 1540. Seu
fundador foi o santo Ingnacio de Loyola. Negros e indígenas que
vislumbravam a liberdade, fugiam do trabalho escravo.
Zimbu, pintura de Antônio Parreiras
Quilombos começaram a surgir aqui e ali. Depois, multiplicaram-se. O mais famoso
deles, Palmares, chegou a acolher milhares e milhares de fugitivos, que eram
recebidos por Ganga Zumba (1630 -1678). Zumba, que morreu em luta, foi
substituído pelo sobrinho Zumbi, diz a história. Zumbi, de batismo
Francisco, criado por um padre, lutou ao lado da companheira Dandara até o fim.
Foi degolado e sua cabeça exposta em uma rua de Pernambuco, em 1695, por aí. Ano
em que foi descoberto ouro em Minas, Mato Grosso e Goiás, para onde foram
levados milhares de escravos para explorar a nova riqueza descoberta. Crianças,
inclusive. Zumbi tinha mais ou menos 40 anos quando o mataram.
Dandara preferiu suicidar-se a correr o risco de ser presa e torturada
pelos inimigos. A história não oferece dados suficientes para se traçar o
perfil dessa guerreira. Quem destruiu o Quilombo dos Palmares foram
bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho (1641-1705), um assassino. Não
custa lembrar o que a história conta: os jesuítas André João Antonil (1649-1716)
e Antônio Vieira (1608-1697). Antonil era completamente a favor de que se
escravizasse indígenas e africanos. “Os escravos são as mãos e os pés do senhor
do engenho”, escreveu no livro Cultura e Opulência do Brasil sob o pseudônimo “O
Anonymo Toscano”. Nesse mesmo livro, publicado e depois destruído a mando de Dom
João V, o mesmo Antonil escreveu: “O Brasil é o inferno dos negros, purgatório
dos brancos e o paraíso dos mulatos e mulatas”. E de lambuja, ainda disse: “Pão,
castigo e trabalho”. Vieira, por seu turno, mostrava-se levemente inclinado
à não escravidão. Mas também escreveu num de seus sermões, comparando a dor do
escravizado com a dor sentida por Cristo pregado à cruz:
Não se pudera nem melhor nem mais altamente descrever que coisa é ser
escravo em um engenho do Brasil. Não há trabalho nem gênero de vida no mundo
mais parecido à Cruz e Paixão de Cristo que o vosso em um destes engenhos.
[...] Bem-aventurados vós, se soubéreis conhecer a fortuna do vosso estado,
e, com a conformidade e imitação de tão alta e divina semelhança, aproveitar
e santificar o trabalho! Em um engenho sois imitadores de Cristo
crucificado: Imitatoribus Christi crucifixi – porque padeceis em um modo
muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua
paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é
de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na
Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a
esponja em que lhe deram o fel. A paixão de Cristo parte foi de noite sem
dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os
vossos dias.
O lenga-lenga desse padre que costumava levitar sobre muros, pode ter dado
origem à máxima popular segundo a qual: “A Fé salva”. Três ordens
religiosas marcaram a história do Brasil dos portugueses: jesuítas, carmelitas
e beneditinos. Os beneditinos tinham sob seu domínio pelo menos 4 mil
pessoas escravizadas. Desde o achamento de Pindorama, muita água correu
debaixo da ponte.
O Brasil atual é resultado de uma mistura enorme de gente, coisas e músicas.
São muitas as influências que a música brasileira sofreu no decorrer do tempo. No entanto não custa dizer que a discografia brasileira foi iniciada por dois baianos: o compositor Xisto Bahia e o cantor Manoel Pedro dos Santos, Bahiano.
Os primeiros solos de sanfona registrados em disco traziam a assinatura do italiano naturalizado Giuseppe Rielli.
Rielli, nascido no dia 19 de novembro de 1885, veio da Itália para ganhar a vida no Brasil.
Foi São Paulo que Rielli escolheu para morar e trabalhar. Mas foi no Rio de Janeiro que ele registrou quase todas as gravações que fez. Seus discos foram gravados e lançados pela extinta Casa Edison.
No decorrer da sua vida profissional, o artista, que morreu no dia 22 de março de 1947, não esqueceu de presta homenagens a São Paulo. São dele, por exemplo, as músicas Saudades de S.Paulo e Bella Paulista. Ouça:
O jornalista paulista de Divinolândia Manoel Dorneles Rodrigues é pai de Vitor e companheiro da jornalista paulistana, Silvana.
Divinolândia é uma cidade que fica a 285km da capital de São Paulo. Faz limite com São José do Rio Pardo, Caconde, São Sebastião da Grama e Poços de Caldas. Sua população, segundo IBGE, é de pouco mais de 11.000 habitantes.
"A minha cidade é linda, é maravilhosa. A minha cidade tem vida, a minha cidade tem alma. A minha cidade é de café, é de batata, é de cebola e tudo mais que faz bem a vida", derrete-se em elogios a seu berço o divinolandense Manoel Dorneles; Dorneles, para os íntimos.
Dorneles é uma figura incrível do universo humano.
Eu trabalhei com Dorneles nos anos 70, na Agência Folha. Meus companheiros, e dele, foram pessoas do naipe de Hely Vanini, Hipólito Oshiro, Celsinho, Leivinha, Ancelmo, Zanfra, Ubirajara, Valmir Salaro e tantos e tantos.
Quantas lembranças!
Essas e outras lembranças vieram à tona quando Dorneles bateu a porta dizendo que estava com saudade. E eu também. E nos abraçamos. Eu com já 3 doses tomadas no muque e ele, também.
Nascido em Divinolândia, como já dito, Dorneles conquistou diploma de jornalista em Mogi das Cruzes, SP. Fez pós-graduação na Casper Líbero e não demorou muito, viramos amigos.
Dorneles bateu a minha porta, ontem 17. Fiquei feliz. Ficamos.
E conversamos, e conversamos e conversamos sobre tudo e um pouco mais. Até o corno Bolsonaro entrou na nossa conversa, rapidinho, mas entrou. Peste!
Eu e Dorneles, como os nomes acima citados, fizemos reportagens de tudo quanto é coisa, de política à polícia.
Eu levei porradas a dar com o pau, se é que me entendem.
Andei por muitos jornais, revistas, rádios e TVs.
Dorneles preferiu o jornalismo escrito, no papel. Preto no branco.
Dorneles foi editor de jornais e revistas, incluindo Meio & Mensagem e Kalunga.
Da Kalunga, Dorneles foi editor durante duas décadas. A propósito, dele mereci a ocupação de várias páginas na referida revista, à guisa de entrevista. Confira:
Natural de uma pequena cidade do interior paulista, Reginópolis, Fausto Bergocce tornou-se com o tempo um dos mais respeitados e aplaudidos chargistas do Brasil. A carreira profissional, Fausto iniciou em 1972, no jornal Diário de Guarulhos. O primeiro trabalho de próprio punho que publicou tinha o Cosmos como inspiração. Simples, de uma tranquilidade franciscana, Fausto trabalhou na Folha de S.Paulo, Diário Popular e até na TV Cultura. No currículo deste artista acham-se 14 livros, reunindo parte pequena e significativa de tudo quanto publicou na imprensa brasileira. O mais recente livro de Fausto intitula-se Pré-Histórias. Uma obra-prima, diga-se de passagem. Fausto, talentosíssimo, é um arguto observador da vida cotidiana e da natureza. Sem exagero, afirmo que Fausto é uma marca importantíssima da nossa imprensa. Crítico, lírico e mais das vezes feroz. Seu traço é um traço marcante, como marcante são os traços de Picasso, Brennand, Millôr e Miguel dos Santos. A propósito, ele diz dos mestres que o influenciaram: “Marcaram a minha vida profissional Jaguar, Ziraldo e Millôr no Brasil. O estrangeiro com quem mais mostro identificação é Saul Steinberg”.
Este texto foi publicado originalmente no newsletter Jornalistas&Cia
No correr da vida, Fausto já conheceu centenas de municípios brasileiros e duas dezenas de países mundo afora como França, EUA, Itália, Bélgica, Inglaterra… Depois de estrear no Diário de Guarulhos, Fausto passou a ocupar páginas e páginas de jornais e revistas no Brasil. Ele ilustrou muitos textos meus no Folhetim, no Pasquim e revistas da Editora 3. Fausto é mágico. Filho de seu Antônio e dona Maria, Fausto é o 3º dentre os 6 irmãos. Mas só ele deu para as artes, no caso o cartoon e a charge. Fausto Bergocce nasceu no dia 18 de novembro de 1952. Esse cara é uma graça, literalmente falando e escrevendo. Um talento incrível. Conversar com Fausto é aprender um pouco mais sobre a história do Brasil e sobre boa parte do mundo. É isso, viva Fausto! Ah! Ia-me esquecendo: ele tem um monte de histórias em quadrinhos animadas...
JOSÉ XAVIER CORTÊZ
Hoje 18 é um dia pra ser lembrado não só pelo aniversário do cartunista fausto, mas também por ser o dia de aniversário do editor potiguar José Xavier Cortêz. Saudade. Leia mais:
O carioca Heitor Villa-Lobos, compositor, instrumentista e maestro, deixou o seu nome definitivamente gravado na história da música erudita, ou clássica, como a música de concerto é mais comumente chamada.
Antes de Villa, o Brasil marcou terreno com os eruditos José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) e Antônio Carlos Gomes (1836-1896).
Nunes Garcia teve por berço o Rio de Janeiro e Carlos Gomes, São Paulo. Ambos eram negros.
O autor das bachianas brasileiras, Villa-Lobos, nasceu em 1897 e aos 6 anos de idade já encantava tocando instrumentos de corda, como violoncelo.
É vastissíssima a obra de Villa-Lobos, tão vasta quanto a grandeza do seu talento.
Na metade dos anos de 1920, Villa-Lobos já tinha como ideia definitiva descobrir e valorizar a música nascida do conhecimento e sentimento dos autores brasileiros. Pra ele, música é música. E por pensar dessa maneira, facilmente aproximou-se e fez amizade com inspirados compositores e intérpretes da música popular. Entre esses, João da Baiana, Donga, Pixinguinha e João Pernambuco, coautor de Luar do Sertão. À propósito, durante muito tempo, pensou-se que essa música, uma toada, era só de autoria do maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946).
Depois que o pai Raul morreu e a mãe também, Villa arrumou dinheiro pra investir no conhecimento. Foi quando começou a viajar pelo Brasil, Nordeste inclusive. O Norte, também. Chegou a estudar e apreciar repentes e emboladas dos cantadores nordestinos. Do Brasil profundo, recolheu cantigas de roda que o inspiraram a compor cirandas.
São incríveis as adaptações de Villa para as cantigas infantis.
Quem não conhece Xô, Xô Passarinho?
A variante desta cantiga é Xô Pavão, assinada pelo pernambucano Zé Dantas e gravada pelo rei do baião, Luiz Gonzaga.
Xô, Xô Passarinho tem origem ibérica. A base desta história, uma lenda é uma criança judiada pela madrasta, na ausência do pai. A menina finda enterrada viva e com o tempo, sobre a cova, nascem gramas que parecem cabelos. Tanto que um jardineiro quando vai cortar a grama, ouve do chão a voz pedindo para que não faça isso. O caso é que a menina gostava de brincar com pássaros, daí a expressão "Xô passarinho!".
Introdutor, assim podemos dizer, do canto orfeônico no Brasil, Villa encontrou no milionário Carlos Guinle (1889-1956) o seu primeiro mercenas. O segundo mercenas, digamos assim, foi o presidente Getúlio Vargas.
Villa participou do Governo Vargas e dele teve todo o apoio pra mexer com a música. E assim foi feito.
A obra de Villa é reconhecida no Brasil e no mundo todo.
Inaugurada em Julho de 1999, a Sala São Paulo, continua sendo o templo da boa música de Concerto e de Câmara. Fazia tempo que eu não ia à Sala. Uma das últimas vezes, foi em 2015, quando Rolando Boldrin me convidou para assistir a uma belíssima apresentação musical para marcar os 10 anos do seu programa, Sr. Brasil. Fui com o saudoso amigo José Ramos Tinhorão (1928-2021). Eu já havia perdido a visão dos olhos, mas mesmo assim apreciei o repertório escolhido pela produção do programa do Boldrin. Domingo 14 voltei à Sala São Paulo para assistir à apresentação do Coro Acadêmico e da Academia da OSESP- Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. A programação foi aberta pontualmente às 11hs, como previsto, com uma peça ligeira do compositor, instrumentista e maestro, Heitor Villa-Lobos (Quarteto de Cordas nº 1, em 6 movimentos), Jacques Ibert (Três Peças Breves), Geraldo Vandré/Théo de Barros (Disparada), Edu Lobo/Chico (Beatriz), Gilberto Gil/Torquato Neto (Geleia Real), Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira (Qui nem Jiló) e Sivuca/Glorinha Gadelha (Feira de Mangaio). Foi tudo muito bonito, com quase metade das 1498 cadeiras ocupadas por um público atento, alegre e espontâneo que facilmente atendeu ao convite do regente Felipe da Paz para dançar. Isso, já no final. Tudo que se passava no teatro, a partir do palco, foi transmitido por audiodescrição, pela profissional Lívia Motta, diretora da Ver com Palavras, ao meu lado na foto (ao lado). Lívia, dona de uma voz macia e carinhosa, encantou a quem teve a oportunidade de ouvi-la. Integrava a plateia duas dezenas de pessoas cegas ou outras com baixa visão. Tomara que eventos como esse que tive a graça de assistir se repitam, pelo menos, uma ou duas vezes por mês, na Sala São Paulo e noutros ambientes do gênero. Villa-Lobos morreu aos 72 anos de idade, no dia 17 de novembro de 1959.
A madrugada do dia 15 de novembro de 1889, foi uma madrugada que entraria, definitivamente, para a história.
Foi nessa madrugada que os inimigos da Monarquia depuseram Pedro II (1825-1891) e no seu lugar, puseram o marechal Deodoro (1827-1892).
Não houve derramamento de sangue, até porque o povo não deu bola à questão. E assim, Deodoro assumiu o poder a que renunciaria no dia 23 de novembro de 1891. Há 130 anos, portanto.
O movimento pró-República intensificou-se uns 10 anos antes da assinatura da Lei Áurea, pela princesa Isabel (1846-1921).
O imperador Pedro II só soube da "libertação" dos escravos 2 semanas depois, quando achava-se em visita à Itália.
Pedro II era um cara leve, livre, solto, chegado às artes. Nos momentos mais difíceis do País, ele dava um jeitinho para pirulitar-se e conhecer outras culturas, como a egípcia.
Esse Pedro virou amigo do grande romancista e poeta francês Victor Hugo (1802-1885). Mas essa é outra história.
Quando os militares golpearam e derrubaram a Monarquia, Pedro II se achava em Petrópolis, RJ.
Foi no começo da madrugada que o imperador tomou conhecimento do que o marechal Deodoro e seus comandados acabavam de fazer na capital do Império. Não quis acreditar, mas a ficha acabou por cair no final da manhã do fatídico 15 de novembro de 1889.
Antes de ser forçado a exilar-se, Pedro II permaneceu em prisão domiciliar por horas e horas até embarcar num navio com destino à França. E lá morreu. E lá morreu também a filha Isabel e filhos dela e tal.
O marechal Deodoro, depois de 2 anos no poder, renunciou à presidência da República por discussões e brigas no Parlamento. No seu lugar, ficou o marechal Floriano Peixoto (1839-1895).
Peixoto, que era vice de Deodoro, assumiu o poder depois de um golpe.
Floriano deixou o poder sem cumprimentar o sucessor, Prudente de Morais (1841-1902).
E a República é o que temos.
O Jornal do Brasil, edição de 16 de novembro de 1889, começou abriu texto sobre a queda do imperador Pedro II assim:
Surpreendente movimento militar que estourou ontem nesta Corte, espalhando agitação e disseminando boatos que duraram todo o dia tomaram conta da cidade, acabou impondo a deposição, pelas armas, do governo do Visconde de Ouro Preto – e ao mesmo tempo, do regime monárquico instaurado no país desde Independência, há 67 anos. O Brasil é agora uma república, segundo os oficiais que comandaram a manobra. O imperador D. Pedro II, há 49 anos no trono, encontra-se em prisão domiciliar, com todos os demais membros da família imperial, no Paço da Cidade.
A pandemia endoidou e continua endoidando o mundo. Reflexos dessa doidice acham-se até na língua portuguesa dos portugueses.
Os portugueses estão de orelhas de pé, assustados, pelo simples fato de a criançada estar-se afinando melhor com o português brasileiro. Isso mesmo!
A permanência mais longa diante da telinha do computador tem feito a petizada imbuir-se no idioma por nós, brasileiros, falado.
É grave a situação, ora pois, ressalta uma professora de lá. "A maioria (das crianças) usa expressões soltas, como 'estás a trolar comigo'. Mas aquele menino falava com sotaque e dizia todas as palavras tal e qual como nos vídeos a que assistia na internet, reproduzindo as expressões [...] O que sei, e tenho vindo a conversar com as minhas colegas, é que os meninos estão viciados, tal qual como os adolescentes estão com os jogos, por exemplo".
A fala aspeada acima é da educadora portuguesa Ana Sofia.
O youtuber Luccas Neto tem sido um verdadeiro "terror" para os pais portugueses.
A mãe de uma das crianças seguidoras de Luccas, Alexandra Patriarca, chegou a dizer: "Todo o discurso dele (filho) é como se fosse brasileiro. Chegámos ao ponto de nos perguntarem se algum de nós era brasileiro, eu ou o pai".
Já há até crianças se submetendo em sessões de fonoaudiologia.
Mas para a professora Catarina Menezes, também portuguesa, a situação pode ser relativizada. E explica: "Quando eu era menina havia o mesmo pânico social com os livros do tio
Patinhas, que era traduzido em português do Brasil. Lembro-me bem da
minha professora do primeiro ciclo ter esse pânico. A mesma coisa quando
apareceram as novelas...que eram completamente massificadas. Ora, eu
acho que esta discussão dos youtubers não é muito diferente".
Pois, pois, a situação não é tão grave, creio. De qualquer modo é, digamos, "a volta do cipó no lombo de quem mandou dar", como diria o compositor e cantor brasileiro Geraldo Vandré.
Enfim, é o português de hoje experimentando um pouco do que o Marquês de Pombal (1699-1782) nos empurrou goela abaixo, ao decidir pela extinção da língua geral que se falava no Brasil.
Foi Pombal quem, por decreto, trocou a língua geral (Tupy) pela língua portuguesa lá dele. Isso em 1758.
Nestes tempos loucos, de políticos sem noção e desmatamento brabo no Brasil, poucos são os artistas que insistem em preservar a nossa memória.Aliás não é de hoje o hábito de os brasileiros esquecerem seus patrícios e patrícias. Meu amigo, minha amiga, você já ouviu falar de Maria Firmina dos Reis? Pois bem, Firmina dos Reis nasceu em março de 1822 e foi registrada em cartório em 1825. Caso você não saiba quem foi essa mulher, corra depressa e vá procurar o CD Cantos à Beira-mar (abaixo). Nesse disco, belíssimo, há 10 poemas musicados pela cantora, compositora e instrumentista paraibana Socorro Lira. Após musicados, os textos poéticos de Maria Firmina dos Reis receberam incrível arranjo do compositor, cantor, instrumentista e maestro Jorge Ribbas. Ribbas é pernambucano e vive em Campina Grande, PB, há vários anos. Socorro Lira é uma das mais afinadas e sensíveis vozes brasileiras. Já tem 13 álbuns lançados e um DVD (Amazônia, entre Águas e Desertos), os mais recentes são o já citado Cantos à Beira-mar e Chama. Os dois últimos trazem capa assinada pelo craque do traço Elifas Andreato. Essa artista detentora de prêmios e apreciada por um público que vai do Brasil à Europa, Ásia e por todo o continente africano, tem o bom costume de trazer ao presente figuras do passado como a poeta ora homenageada em disco. Dentre os resgates poéticos/musicais feitos por Socorro estão Zé do Norte e José Marcolino.
Zé do Norte rendeu à artista o troféu de melhor cantora na 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira, em 2012. No disco Cantos à Beira-mar Socorro Lira aparece declamando uma das 11 faixas, com acompanhamento de Ribbas. “Fiz um merengue e acho que ficou bastante legal o poema O Meu Desejo”, diz o maestro arranjador. Os ritmos musicais encaixados nos poemas de Firmina dos Reis são claramente identificados como bolero, reggae, maracatu, choro, fado, canção, valsa, samba-canção e até um baião, além do já dito merengue. “No momento, estou em estúdio pondo voz no novo disco que deverá ser lançado em 2022”, revela Socorro Lira, acrescentando que no próximo dia 23, às 19h, estará a frente de mais uma edição do Prêmio Grão de Música, por ela dirigido há 8 anos. “Avisa o povo para assistir a edição desse prêmio no canal Grão de Música”, pede rindo.Os primeiros textos poéticos de Firmina dos Reis foram publicados no jornal A Verdadeira Marmota (1861), Revista Maranhense (1887) e os últimos no O Federalista (1903). Além dos poemas, deixou de herança um romance abolicionista (Úrsula), uma novela indianista (Gupeva) e um conto (A Escrava).Maria Firmina dos Reis, maranhense de nascimento, morreu esquecida, pobre e cega no dia 11 de novembro de 1917.
O cantor, compositor e instrumentista baiano Gilberto Gil acaba de ser escolhido, por 21 votos, para ocupar a cadeira nº 20 da Academia Brasileira de Letras, a ABL. Essa cadeira tem como patrono o fluminense Joaquim Manuel de Macedo, autor do romance A Moreninha.
Gilberto Gil é autor de pelo menos 5 dezenas de discos e um ou dois livros publicados.
Junto com Caetano, Gil foi um dos líderes do movimento tropicalista.
Além de músico, o artista baiano enveredou pela política no começo dos anos de 1980. Primeiro como vereador em Salvador, BA, depois como ministro da Cultura do governo Lula.
Logo após a decretação do AI-5 na noite de 13 de dezembro de 1968, Gil e Caetano foram presos por agentes da ditadura e depois obrigados a se exilar no Exterior.
Em Londres, Gil gravou um LP em inglês e Caetano um LP no qual incluiu a toada Asa Branca, de Luiz Gonzaga (1912-1989).
O resto é história. E por falar nisso, uma historinha:
Num dia qualquer dos anos de 1980, fim de tarde, eu, Luiz Gonzaga e Gil saíamos de um estúdio da extinta gravadora RCA Victor, em Sampa.
Nós três. Gonzaga à direita, Gil no meio e eu à esquerda, todos nós de manga curta. Eu fumando.
Gonzaga e Gil não fumavam.
De repente, com o cigarro aceso, toquei sem querer no braço de Gil. Pra que! Gil endoido, berrou, chamando-me de filho da outra.
Ao nota o que se sucedera, rachou o bico com uma risada estrondosa.
Pedi desculpas, mas até hoje desculpas Gil não me deu.
Às vezes tenho a impressão de que involuímos. Mais: que involuímos à galope, galopadamente.
Poetas romancistas, pintores sabiam de tudo e mais um pouco, ali no passado.
Paula Brito, tipógrafo, tradutor e jornalista; José de Alencar, jurista, poeta, romancista e dramaturgo; Machado de Assis, poeta, romancista e tradutor, doido pela obra de Shakespeare.
Em 1859, a maranhense Maria Firmina dos Reis publicava o primeiro romance. Mulher e negra, pobre. Ela escreveu além do romance, Úrsula, uma novela indianista e um conto abolicionista.
Firmina dos Reis era culta. Essa percepção é clara na sua produção literária e poética.
O poema O Meu Desejo, que dedicou a um admirador, faz citação a Camões, Dante e Milton.
Camões o grande poeta português, é autor da obra prima Os Lusíadas que, modéstia às favas, transformei em uma ópera popular desenvolvida em sextilhas. Ainda inédita, mas essa é outra história.
Dante Alighieri, o grande poeta italiano da Idade Média, legou à posteridade o belíssimo Divina Comédia.
Por fim, Maria Firmina dos Reis cita no seu já referido poema o inquieto e talentosíssimo Milton.
Com relação a Dante e Camões, Milton era o caçula.
O poema clássico deixado por Milton tem conteúdo parecido com o conteúdo de Divina Comédia. É incrível. Trata de um pega-pra-capá entre anjos e o Paraíso. Adão e Eva entram no enredo. O Capeta, também.
Nos dias atuais, existem mais livros do que autores.
Cadê os clássicos de hoje?
Leiam Maria Firmina dos Reis, que morreu 11 de novembro de 1917 abandonada, pobre e cega.
Uma curiosidadezinha: Nos fins dos anos de 1930, o mineiro Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil. Um clássico musical. Nesse clássico, o autor insere um verso lindo: "...A merencória luz da Lua".
Firmina dos Reis, no poema O Meu Desejo (abaixo) insere o verso "...A merencória Lua".
O MEU DESEJO
A um jovem poeta guimaraense
Na hora em que vibrou a mais sensível Corda de tu'alma - a da saudade, Deus mandou-te, poeta, um alaúde, E disse:Canta amor na soledade. Escuta a voz do céu, - eia, cantor, Desfere um canto de infinito amor.
Canta os extremos duma mãe querida, Que te idolatra, que te adora tanto! Canta das meigas, das gentis irmãs, O ledo riso de celeste encanto; E ao velho pai, que tanto amor te deu, Grato oferece-lhe o alaúde teu.
E a liberdade, - oh! poeta, - canta, Que fora o mundo a continuar nas trevas? Sem ela as letras não teriam vida, menos seriam que no chão as relvas: Toma por timbre liberdade, e glória, Teu nome um dia viverá na história.
Canta, poeta, no alaúde teu, Ternos suspiros da chorosa amante; Canta teu berço de saudade infinda, Funda lembrança de quem está distante: Afina as cordas de gentis primores, Dá-nos teus cantos trescalando odores.
Canta do exílio com melífluo acento, Como Davi a recordar saudade; Embora ao riso se misture o pranto; Embora gemas em cruel soidade... Canta, poeta, - teu cantar assim, Há de ser belo enlevador enfim.
Nos teus harpejos juvenil poeta, Canta as grandezas que se encerram em Deus, Do sol o disco, - a merencória lua, Mimosos astros a fulgir nos céus; Canta o Cordeiro, que gemeu na Cruz, Raio infinito de esplendente luz.
Canta, poeta, teu cantar singelo, meigo, sereno com um riso d'anjos; Canta a natura, a primavera, as flores, Canta a mulher a semelhar arcanjos. Que Deus envia à desolada terra, Bálsamo santo, que em seu seio encerra.
Canta, poeta, a liberdade, - canta. Que fora o mundo sem fanal tão grato... Anjo baixado da celeste altura, Que espanca as trevas deste mundo ingrato. Oh! sim, poeta, liberdade, e glória Toma por timbre, e viverás na história. ----------------
Eu não te ordeno, te peço, Não é querer, é desejo; São estes meus votos - sim. Nem outra cousa eu almejo. E que mais posso eu querer? Ver-te Camões, Dante ou Milton, Ver-te poeta - e morrer.
ADEUS
A jornalista Cristiana Lôbo despediu-se hoje do planeta. Tinha 63 anos quando um câncer a levou.
Cristiana falava de política com naturalidade e por vezes participou de debates do extinto programa Onze e Meia, do Jô Soares. Fica o registro.
Ocorreu num mês de novembro uma das grandes revoltas a entrar na história. Não popular, propriamente. Refiro-me à Revolta da Chibata, no Rio. A história é a seguinte:
Marinheiros negros, principalmente negros, eram duramente castigados por uma coisa qualquer que fizessem em discordância à cartilhas dos seus superiores. E apanhavam, apanhavam, apanhavam. Até que no dia 22 de novembro, de 1910, até o marinheiro João Cândido deu um grito de liberdade por seus companheiros aprovado. A situação, pois, inverteu-se.
Muitas coisas aconteceram e continuam acontecendo contra os negros, no nosso País.
Meu amigo, minha amiga, você sabia que o Ceará foi o primeiro Estado a abolir completamente a escravidão 4 anos antes de a princesa Isabel assinar a Lei Áurea?
Quem aboliu a escravidão no Ceará em 1884, mais precisamente no dia 25 de março, foi o baiano — veja só! — Sátiro de Oliveira Dias. Esse Sátiro foi médico e político de grande popularidade.
Antes de presidir a província do Ceará, Sátiro presidiu as províncias do Amazonas e do Rio Grande do Norte.
Não tem sido fácil historicamente, a luta dos negros e descendentes pela liberdade social e democrática.
Digo e repito o que disse vezes anteriores: a luta dos negros, não é uma luta só dos negros. É uma luta de todos nós.
João Cândido, gaúcho que entrou para a história como o Almirante Negro, nasceu no dia 24 de junho de 1880 e morreu no dia 6 de dezembro de 1969.
Sátiro de Oliveira Dias nasceu no dia 12 de janeiro de 1844 e morreu no dia 18 de agosto de 1913. Em sua homenagem, foi criado um município ao norte da Bahia.
Culturalmente é riquíssima a cultura legada ao Brasil pelos negros.
Em 1980, o tieteense Itamar Assumpção lançou o LP Beleléu e Banda Isca de Polícia. Ouça: