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sábado, 9 de setembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (43)

Paulistano do bairro do Brás, da safra de 43, Drauzio Varella estudou na Universidade de São Paulo e lá formou-se em Medicina especializando-se em Oncologia, mas foi combatendo a AIDS entre os presos do Carandiru que ficou nacionalmente conhecido.
Seu trabalho voluntário na Casa de Detenção findou por gerar o livro Estação Carandiru, que virou filme.
E foi para o Carandiru que o Dr. Drauzio Varella levou o Vira Lata, personagem criado pelo roteirista Paulo Garfunkel, Magrão e transposto para a revista desenhada pelo quadrinista Líbero.
Eu pedi e Drauzio não se negou a dar um depoimento sobre a importância do Vira Lata entre os presos. Aproveita pra dizer como conheceu Magrão e Líbero. Leia, vale a pena:

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“Eu conheci o Paulo Garfunkel, o Magrão, através da minha mulher, Regina Braga, que fez uma peça com ele e o Jean Garfunkel, irmão do Magrão. E aí o Vira-Lata caiu nas minhas mãos um dia, era o primeiro número e eu achei muito interessante. Gostei muito do personagem e das ilustrações feitas pelo Líbero Malavoglia. E aí, um dia na cadeia, eu estava no Carandiru nessa época, eu levei uns folhetos de um Congresso Internacional de AIDS e distribui a cadeia. Era bonito, sabe? Um papel de ótima qualidade. Daí conversei com o pessoal da faxina e disse, “como é que o esses folhetos são recebidos aí?” Um deles falou: “ah, doutor... os folhetos são bonitos, mas o pessoal dá uma olhadinha e joga no lixo.

Bom, não é assim que a gente vai atingir essas pessoas. Então, lembrei do Vira-Lata e pensei: quem sabe um gibi? Porque eu via “eles” lendo gibis, especialmente naquelas celas coletivas, naquelas celas do “Amarelo”, por exemplo, para onde iam os marcados para morrer, via o pessoal lendo histórias em quadrinhos. “Pô” quem sabe, essa não é a linguagem pra atingir esse alvo, né? E aí conversei com o Magrão: por que que a gente não faz o Vira-Lata adaptado para a situação de cadeia? Ele gostou muito e conversou com o Líbero e já começou a pensar nas histórias, e a gente definiu quais eram as características principais do herói: ele não usava droga injetável de jeito nenhum, porque na época a cocaína injetável era muito usada nas cadeias e era a principal forma de transmissão do HIV e das hepatites. Segundo lugar, ele era um ex-presidiário, tinha cumprido pena no Carandiru, no passado. De tempos em tempos ele voltava à cadeia para visitar velhos amigos e alguns desses amigos contavam um problema que estavam tendo na rua. E o Vira-Lata saía então, para ajudá-los a resolver esse problema. E aí ele se envolvia em aventuras que tinham basicamente violência e sexo. Só que, e isso era uma característica fundamental do personagem, é que ele não fazia sexo sem preservativo. E na época, o que a gente queria falar na cadeia era exatamente isso, divulgar o preservativo, como parte da vida sexual. E os desenhos eram muito bem-feitos, era um gibi de cenas eróticas fortes.
Eu, quando era menino, tinha um gibi, que era feito pelo pelo Carlos Zéfiro que tinha histórias de sexo, era um Gibi de sacanagem, os “catecismos”. E dizem que o Carlos Zéfiro foi o grande educador sexual dos anos 50 e 60. E o Líbero era um desenhista, lógico, mais preparado do que o Carlos Zéfiro, e as cenas do Vira-Lata eram muito bem desenhadas com uma ilustração ótima. Ele ficou muito conhecido na cadeia, né(?), porque foram criados 7 números. A gente distribuía, à noite de cela em cela, juntava um bando de amigos íamos pra a Detenção e fazíamos a distribuição. A cadeia era muito grande tinha mais de 7.000 presos. A gente distribuía o Vira-Lata e imediatamente eles começavam a ler. Eu acho que esse tipo de personagem que foi popular lá no antigo Carandiru, seria popular hoje também nas outras cadeias. Lógico que teria que ser adaptado para os problemas atuais. Hoje droga na veia não é mais problema nas nossas cadeias. Mas o sexo sem preservativo é, então, se nós conseguíssemos adaptar para a situação atual, porque, afinal, já se passaram aí 30 anos, né(?). Mas eu acho que esse personagem poderia fazer sucesso entre a população carcerária se fosse distribuído pelos presídios todos. Eu fico muito feliz de ter participado do Vira-Lata, com toda historia escrita pelo Paulo Garfunkel, o Magrão e o Líbero Malavoglia fazia aqueles desenhos maravilhosos”.

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

VIVA A LITERATURA DE CORDEL!

 
 
Passamos nós ou o tempo?
Independentemente da resposta seja de que jeito for, o fato é que há 20 anos eu inventei de criar um concurso para incentivar e descobrir poetas da chamada Literatura de Cordel.
Eu disse há 20 anos?
Na verdade foi em 2002 que pus na rua o 1º Concurso Paulista de Literatura de Cordel. À época eu estava à frente do departamento de imprensa da Cia do Metropolitano de São Paulo. Foi sucesso, com profissionais e amadores enviando dezenas e dezenas de textos que obedeciam o que pedíamos no edital. O tema era o Metrô e tal. Foram escolhidos por uma banca especial 20 autores. Os três primeiros lugares foram premiados com computadores, impressoras e troféu. Esse concurso resultou na impressão de 200 mil folhetos acoplados em caixinhas especiais e assim distribuídos gratuitamente na rede estadual de ensino de São Paulo.
Em 2003, levamos à praça a 2ª edição do Concurso. O tema ampliamos e os participantes desenvolveram seus textos sobre a importância dos trens metropolitanos, CPTM, além do Metrô. Sucesso. Dessa vez foram publicados 210 mil folhetos, também distribuídos na rede pública de ensino.
Foi uma coisa legal.
Desses dois concursos participaram centenas de autores, porém somente 40 foram premiados e tiveram suas obras publicadas. Clique na imagem ao lado e saiba quem participou.
Há poucos dias o Metrô lembrou desses concursos promovendo uma exposição das capas dos folhetos na estação República. Começou no dia 2 de agosto e terminou no dia 4 de setembro. Mas quem não pôde visitá-la pode acessá-la no site do Metrô: 20 anos dos Concursos Paulistas de Literatura de Cordel
As capas dos folhetos e cartazes de divulgação foram criados pelo cearense Klévisson Viana e a potiguar Nireuda Longobardi.
A título de curiosidade: em 2001 o jornalista Audálio Dantas me chamou pra ajudá-lo a contar a história do cordel no Sesc Pompéia. A exposição ganhou o título 100 Anos de Cordel. Dezenas de cantadores repentistas participaram do evento. Cuidei dessa parte e da parte dos discos com gravações do gênero. Coisa bonita.
Em 2017 o mesmo Audálio me convidou para um depoimento no Centro de Documentação do Sesc. E lá fui eu. Valeu. E viva a Cultura Popular!
Ah! Sim: o tempo voa. 
Participei das comemorações dos 31 anos de existência do programa Globo Rural, que brindou os telespectadores com um especial sobre o cordel. Clique e curta:

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

INTELIGÊNCIA PERIGOSA

 Sem rumo ou rédeas, poderosos e idiotas de má índole estão cada vez mais ousados e complicando a nossa vivência neste mundo velho sem porteira. Isso e muito mais o que ora por aí ocorre.

Os crimes e criminosos se multiplicam em piscar d'olhos. 

O mundo, este mundinho, já virou um inferno pra lá de Dante.

Este mundinho infernal a que me refiro existe há mais de bilhão de anos e o homem há uns 300 mil anos.

Não aprendemos nada e nos transformamos em seres inimaginavelmente terríveis, raivosos, violentos, criminosos, assassinos de nós mesmos. 

A modernagem chegou com a Era Industrial e foi se modernizando, se modernizando, se modernizando e cá estamos num beco explosivo, sem saída.

E chegou a Internet e com ela fomos nos metamorfoseando.

Agora, como se não bastasse, chegamos à catastrófica era da "inteligência artificial". Um horror!

Hoje 7 na Folha ouvi notícia dando conta de que estão tentando destruir a bela imagem do nosso grande Drauzio Varella. Estão imitando até a sua voz e distorcendo seus textos, frases, com o intuito de transformá-lo em garoto propaganda para vender remédios a incautos portadores de tudo quanto é doença. 

O paulistano Drauzio Varella é um dos médicos mais respeitados do Brasil. Tem dedicado a vida pelo bem do próximo. Tem sido assim há mais de meio século. E garante, com todas as letras, que "jamais faria propaganda de medicamentos".

Eu conheci o Dr. Drauzio Varella quando fui convidado pelo SESC para mediar um debate sobre a vida e obra do Dr. Paulo Emílio Vanzolini, pra todos que gostam de boa música Paulo Vanzolini, simplesmente. Foi na unidade Pinheiros, há uns dez anos. Na mesa o  compositor, cantor e violinista Eduardo Gudin, o produtor de TV Fernando Faro, o próprio Paulo e Drauzio Varella. Por que Drauzio? 

O Dr. Drauzio Varella foi aluno de Paulo Vanzolini na Faculdade de Medicina da USP.

No samba Volta por Cima, o autor Paulo Vanzolini ressalta que "Um homem de moral/Não fica no chão...".

Pois é: o Dr. Drauzio Varella é um homem de moral, um brasileiro que nos orgulha sob qualquer aspecto. E fiquemos de olho nessa tal de inteligência artificial. 


terça-feira, 5 de setembro de 2023

UM DIA TODO PARA PENSAR NA AMAZÔNIA

Hoje 5 de setembro é o Dia da Amazônia e o dos Irmãos.
Nada mais natural do que hoje e todos os dias voltarmos o nosso olhar à floresta amazônica.
A Amazônia está sendo destruída pela mão do homem há muitos anos. Até agora já foram destruídos cerca 700.000km². À medida que as árvores caem pela brutalidade e ganância humanas caem por terra a vida e sonhos dos povos originários do Brasil e de toda extensão da mata que passa por nove dos 13 países sul-americanos.
É enorme e rica a biodiversidade amazônica, ambicionada por todos os povos incluindo os ricos.
É óbvio, mas não custa repetir que a Amazônia tem que ser defendida com unhas e dentes pelo governo brasileiro.
A floresta amazônica tem inspirado, ao longo do tempo, poetas, compositores e romancistas do nosso País principalmente.
São inúmeras as músicas sobre a Amazônia.
O primeiro poema sobre a Amazônia gravado em disco no Brasil foi Amazônia, de Cassiano Ricardo. Esse poema foi interpretado por Helena de Magalhães Castro e gravado em 1929 num estúdio da extinta Victor e lançado no ano seguinte.
A primeira música gravada sobre a Amazônia foi a canção Amazonas de Henrique Vogler, Lamartine Babo e J. Menra. Foi gravado em 1929 e lançado em 1930 na voz de Zulmira Miranda. Gravadora Odeon.
O dia da Amazônia deve-se à Fundação da Província do Amazonas, feita por iniciativa do imperador Pedro II. O causo ocorreu, através de decreto, no dia 5 de setembro de 1850.
Sempre e sempre é bom pensar, falar e agir em defesa da Amazônia.
Quanto ao Dia do Irmão... Bom, irmão é irmão. E a convivência entre irmãos nem sempre é o que deveria ser: harmônica.
Caim matou Abel e tal.
O escritor português José Saramago escreveu uma joia a respeito de Caim e Abel.
O escritor brasileiro Machado de Assis nos legou uma beleza de história chamada Jacó e Isau.
E por aí segue a história: os irmãos Karamazov, de Dostoiévski; os irmãos Grimm, que transformaram contos adultos em contos infantis; Meu irmão eu mesmo, de João Silvério Trevisan...
 
 
Na música são muitos irmãos e irmãs que formaram dupla: Célia e Celma, Irmãs Medina, Irmās Pagãs, Irmãs Portela, Irmās Vidal, Irmās Rocha, Irmās Santos, Irmãs Soares, Irmãs Souza, Irmãs Andrade, Irmãs Bianchini, Irmãs Campeirinhas, Irmãs Castro, Irmãs Galvão, Irmãs Ibeji, Irmãs Lacerda, Irmãs Maria, Irmãs Castro, Irmãs Cavalcanti, Irmãs Meirelles; Irmãos Laureano, Irmãos Petra De Barros, Irmãos Tapajós, Irmãos Almeida, Irmãos Alves, Irmãos Amorim, Irmãos Andrade, Irmãos Correia, Irmãos Diogo, Irmãos Divino, Irmãos Franco, Irmãos Kurimori, Irmãos Kurimori, Irmãos Messias, Irmãos Neier, Irmãos Paranaenses, Irmãos Portela, Xerém e Tapuya (irmãos indígenas nascidos numa extinta tribo do Ceará), Irmãos Eymard, Cristian e Ralph, Jacó e Jacozinho, Paulo e Chico Caruso, Paulo e Jean Garfunkel, Tonico e Tinoco...
No começo dos anos de 1970, o governo militar rasgou a Amazônia com o projeto Transamazônica. Um crime. A dupla Tonico e Tinoco gravou uma música falando dessa "coisa". Ouça:
 

LEIA MAIS: O GOVERNO CORRE PRA TRÁSYANOMAMI: UMA TRAGÉDIA PROGRAMADA • DEU MICO!

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

VANDRÉ AGORA EM HEBRAICO

Caminhando, na visão do cartunista Fausto
Em termos de quantidade, a obra do cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré é pequena. Se, porém falarmos de qualidade, a obra de Geraldo Vandré é enorme. E consistente.
Das músicas que compôs em parceria a mais famosa é Disparada.
Das músicas que compôs sozinho a mais famosa é Pra Não Dizer que Não Falei de Flores (Caminhando).
Disparada, feita com Théo de Barros (1943-2023), recebeu versões em castelhano, francês, alemão e italiano.
Caminhando, já gravada pelo próprio autor em espanhol, marcou época na boca do povo de vários países. Agora mesmo em Israel, cuja língua oficial é o hebraico.
A maior parte do povo israelense não está gostando das reformas em andamento na esfera do poder Judiciário.
Desde o começo do ano os protestos contra a reforma vêm se multiplicando. Centenas de pessoas já foram presas. Para embalar os protestos, o ator Shalom Korem fez uma versão muito própria  de Caminhando. Essa música de Vandré ganhou, na versão israelense, o título de Você não quer uma omissão como Yom Kippur. Ouça:
 


Manifestando e cantando
A música certa
A gente não quer que um cara corrupto
Permaneça no poder
Ashkenazim, Mizrahim
Tanto na aldeia como na cidade
Manifestando e cantando
Com a garganta cheia
Vamos sair juntos
Porque nós decidimos
Nós não queremos
Outra omissão como Yom Kippur
Os olhos devem ser mantidos abertos
Vamos encarar a verdade
Se não agirmos agora
A ditadura vai assumir
 

domingo, 3 de setembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (42)

ASSIS ANGELO: Foi namoro e paixão à primeira vista que você teve pelo personagem Vira Lata ao ler o roteiro do Magrão?
LÍBERO MALAVOGLIA: Não foi amor à primeira vista, não. Quando li as primeiras cenas, achei que tinha muito sangue correndo e que talvez não fosse pra mim esse trabalho. Só
depois, quando tentei fazer é que vi que eu podia sim, representar uma violência real da nossa sociedade. O sangue correu como a tinta. Sou grato por ter sido convidado pelo Magrão para essa co-criação aventureira, erótica e jornalisticamente denunciante de realidades fortes, e por ter conhecido o Carandirú.

ASSIS: Conte do mergulho que você deu para trazer à tona, para o nosso imaginário, esse tão fustigante personagem.
LÍBERO: Eu queria muito fazer quadrinhos. Era o que eu mais conhecia. Minhas influências eram bem variadas, super-heróis, piratas rebeldes do Pacífico, samurais, muito cinema… muita fantasia. Aí conheci o Magrão e seu personagem trazendo minha arte para toda uma temática social de desigualdade, racismo, injustiça e maldade que existe aqui, no Brasil, bem à nossa volta (Um pouco antes havia ocorrido os massacres da Candelária no Rio e o do Carandirú em São Paulo). Tudo isso era temperado com muito, mas muito mesmo, erotismo e tinha ao fundo um universo mágico-espiritual e misterioso que falava de nossas raízes. Uma oportunidade! Esse mergulho me levou a conhecer depois, uma realidade social fortíssima; a vida dentro de uma penitenciária e também a viajar dentro da minha imaginação e aí sim, me apaixonei pelo filhote.

ASSIS: Dá pra comparar o Vira Lata com outros personagens de histórias em quadrinhos do Brasil ou de fora do Brasil?
LÍBERO: Acho que ele é uma mistura de Corto Maltese, Lobo Solitário e Batman, mas
não qualquer Batman (que agora tem uma infinidade deles), o Batman “Ano Um“, Miller e Mazzuchelli que ainda é o mais real, noturno e mais “ justiceiro fora da lei“ (estou falando de quadrinhos). No Brasil, talvez algum cangaceiro do Flávio Colin, não sei.


ASSIS: Na sua visão, quem são os maiores roteiristas e quadrinistas do nosso País? Estamos com saudade do Vira Lata…
LÍBERO: Li tanta HQ de fora que sou obrigado a dizer que talvez eu não conheça tão bem a produção nacional, mas acho o Colin importante com seu traço único e temas nossos. Falando de traço, tem essa tradição do humor. J. Carlos, Jaguar, Ziraldo … e claro, Los 3 amigos, Glauco, Angeli e a Laerte genial. Sei também de uma grande produção alternativa que a internet possibilitou nos últimos anos para muitos autores, muitos vindos de comunidades e isso é muito bom. E tem o João Pinheiro, muito bom!

SAIBA MAIS:


sábado, 2 de setembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (41)

Eu costumo dizer que o Brasil é rico em tudo: no ar, terra e mar.
Nossas tempestades são grandes e não provocam danos tão catastróficos como frequentemente ocorre em outros ares.
Na nossa terra, de milhões de quilômetros quadrados, tem de tudo e mais um pouco. Tem água doce a granel, minérios de todos os tipos, florestas incríveis como a Amazônia e uma gente bem humorada e trabalhadora. Sem falar na fauna. Não há terremotos, nem vulcões a nos assustar. O campo movediço fica por conta dos políticos ávidos por fama e poder.
No riachinho que banha a nossa terra, o Atlântico, tem peixe bom pra valer, baleia que canta com graça e até tubarão voador, como já nos provou mestre Luiz Gê. Não há tsunamis no nosso mar que já gerou um cantor próprio: Dorival Caymmi, autor de belíssimas canções chamadas "praieiras".
Pois é, o Brasil é rico em tudo.
Foi aqui que nasceu um dos mais antenados craques do traço em quadrinhos: Líbero Malavoglia, o cara que deu estampa a um herói fora da lei batizado Vira Lata.
O Vira Lata nasceu da imaginação de Paulo Garfunkel, como já vimos.
Líbero, leitor voraz de grandes roteiristas e quadrinistas estrangeiros como Hugo Pratt e Crepax,  conheceu Paulo, o Magrão, praticamente por acaso. Isso já foi dito, o que não foi dito é que o personagem de Magrão não despertou interesse imediato do quadrinista. O interesse veio depois. Líbero: "Não foi amor à primeira vista, não. Quando li as primeiras cenas, achei que tinha muito sangue correndo e que talvez não fosse pra mim esse trabalho. Só depois  quando tentei fazer é que vi que eu podia sim, representar uma violência real de nossa sociedade".
No papo ping-pong que segue abaixo Líbero preenche a curiosidade dos leitores revelando, inclusive, seu amor pelos quadrinhos e a influência que recebeu de mestres estrangeiros da área que hoje ele próprio domina.
Após citar J. Carlos, Jaguar, Ziraldo, Angeli, Glauco e Laerte, Líbero confessa que não tem acompanhado passo a passo a produção dos quadrinistas nacionais.
As histórias "estreladas" pelo Vira Lata trazem momentos especiais com Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Noel Rosa e Dorival Caymmi.
O médico paulistano Drauzio Varella tem participação interessantíssima em várias partes da história do Vira Lata.


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ASSIS ANGELO: Sabemos que você gosta muito dos traços de Hugo Pratt e do Crepax. Pergunto: em quem ou em que você se inspirou para dar cara e corpo ao Vira-Lata? Bastaram as referências do roteirista Magrão?
LÍBERO MALAVOGLIA: Salve Assis! O Pratt foi uma inspiração para além do desenho. Foi a primeira vez que os quadrinhos se mostraram pra mim como literatura. A “Balada do Mar Salgado“ é na verdade um romance aventureiro da primeira metade do século xx que poderia ter sido escrito pelo Joseph Conrad ou pelo Jack London (que inclusive aparece em uma das aventuras do Corto Maltese). Corto, o personagem principal da maioria de suas histórias é praticamente um alter ego do autor, ele mesmo um aventureiro. O curioso é que conheci esses desenhos muitos anos antes de me encantar por esse personagem, quando lia ainda criança outras histórias do Pratt no Corriere dei Piccolli, suplemento juvenil semanal do Corriere della Sera (que meu pai trazia). Essa maravilhosa revista vinha impressa em quatro, três e duas cores! Um luxo! E foi lá na verdade que me apaixonei por quadrinhos. Foi lá que conheci Hugo Pratt, Sergio Toppi…um monte de autores…e Jean Giraud, o Moebius. Pratt, Moebius e o Jack Kirby da Marvel foram minhas influências fortes. Eles me apresentavam universos inteiros desde a desobediência/rebeldia política até a psicodelia. Quando penso de onde veio a cara do Vira Lata, acho que veio desse arquétipo do rebelde que a gente vê no Corto Maltese misturado com o desejo de representar a miscigenação do povo brasileiro. O Indígena, o negro, o caboclo, tinham que estar presentes na cara e no corpo do herói. Isso já vinha do texto do Magrão, mas foi muito bom criar esse nosso “rosto”. Crepax não foi uma influência direta, mas me socorri no erotismo do Milo Manara, porque não é fácil desenhar corpos entrelaçados!

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

DITADURA É UMA PRAGA!

(...) Libertemo-nos daquele que nos domina
Na miséria traga-nos o teu reino de justiça
E igualdade sopra como o vento a flor do precipício
Limpa como fogo o cano do meu fuzil 

No próximo dia 16, completam-se 50 anos do sequestro e morte do cantor, compositor e violonista chileno Victor Jara.
A obra de Jara é muito bonita, toda voltada aos problemas provocados pelo homem na terra. 
A Justiça é sonho na obra "jariana".
Vejo semelhança ideológica na obra de Victor Jara e do brasileiro Geraldo Vandré.
Certa vez, perguntei a Vandré se conhecera Jara. Sim, ele disse. Lembrou, porém, que não chegaram a se tornar grandes amigos. Não houve tempo, mas ocasionalmente encontravam-se na "Peña de los Parra", espécie de barzinhos frequentados por artistas em Santiago, Chile. Eram de Isabel e Ángel Parra.
Jara tinha 40 anos de idade quando foi sequestrado, torturado e morto pela tropa de assassinos do ditador Augusto Pinochet.
O general de brigada chileno Hernán Chacón enfiou um tiro no peito, ou sei lá onde, e caiu mortinho da Silva no chão. Foi terça-feira 29, diante de soldados destacados para prendê-lo e levá-lo pra cadeia, onde deveria cumprir pena de pelo menos 25 anos.
A decisão de prender Chacón foi dada segunda-feira 28 pelo STF chileno.
Porém é bom que se diga que o militar não matou-se simplesmente porque tinha a mente pesada. Fez isso por covardia, para não enfrentar o cárcere.
Último manuscrito de Victor Jara
A pena a Chacón proferia pelo STF do Chile foi consequência de processos que pesavam contra ele por ter sequestrado, torturado e assassinado o cantor, compositor e violonista Victor Jara.
Jara foi sequestrado cinco dias após o golpe militar que apeou do poder o presidente Salvador Allende e pôs no seu lugar o milico estrelado Augusto Pinochet. Isso ocorreu exatamente no dia 11 de setembro de 1973. Allende foi assassinado nesse dia e durante 17 anos seguidos o Chile viveu sob o símbolo da ditadura.
A ditadura Pinochet sequestrou, torturou e deixou muitos cidadãos e cidadãs desaparecidos.
Jara além de uma obra engajada, reunida em quatro CDs numa edição especial, deixou muitos admiradores órfãos.
Pouco antes de ser assassinado com uma saraivada de 44 tiros, Victor Jara conseguiu a duras penas escrever aquele considerado seu último texto que logo depois seria declamado e musicado por muitos artistas. Entre esses León Gieco, Ángel Parra e o norte-americano Pete Seeger. Ouça:
 
 


UMA CANÇÃO INACABADA

O último texto poético de Victor Jara inspirou o título do livro Uma Canção Inacabada, da jornalista e dançarina Joan Alison Turner, sua viúva. Nesse livro há muita coisa desconhecida em torno do artista e fotografias inéditas. Curiosidade: uma das canções mais famosas de Jara, Te Recuerdo Amanda, foi composta em homenagem à filha. No Chile se acha a sede da Fundação Victor Jara criada por Joan, hoje com 96 anos de idade.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

O PAÍS DOS ESQUECIDOS

Orlando Dias, Francisco Petrônio, Nazareno de Brito, Catulo de Paula e Emilinha Borba

Realmente, os valores estão invertidos nessa sociedade de gente maluca. E no campo artístico/musical nem se fala!
Outro dia andei falando a respeito de um Marcinho, MC Marcinho, morto não sei porque num hospital das bandas do Rio. Era funkeiro, cantor de um monte de coisas ditas musicais ou algo assim. Mas muita baixaria nas letras. A Imprensa o chamou de "ícone" em matérias com chamada de capa. Até o Jornal da Cultura, canal 2, foi encerrado com ele cantando. O Jornal Nacional, da plim-plim, findou no dia da sua morte, sexta última, com a redação em silêncio e em penumbra.
Enquanto loas eram ditas em homenagem ao funkeiro, partiam para a Eternidade o cantor Carlos Gonzaga e a cantora Lana Bittencourt. Nada ou quase nada sobre esses dois nomes que marcaram época.
De Carlos Gonzaga eu já disse alguma coisa e alguma coisa eu também já disse sobre Lana, que além de cantora foi atriz.
Fora os nomes até aqui citados, não custa lembrar que neste ingrato mês de agosto nós deixaram outros grandes nomes da nossa música popular. E entre esses vale lembrar que não só partiram como, se vivos fossem, teriam feito 100 anos de nascimento Orlando Dias, Francisco Petrônio, Nazareno de Brito, Catulo de Paula e o menino craque Vassourinha.
Orlando faria 100 anos no último dia 1º, Francisco Petrônio no dia 11 e Catulo dia 13. Antes, no dia 26 de fevereiro, ninguém comemorou os 100 anos de Nazareno de Brito. Em maio foi a vez de tecer loas aos 100 anos de Vassourinha. 
Pois é, não sei a razão de tanto silêncio em torno da arte e dos nossos artistas. Os gringos do Norte, ao contrário de nós, preservam a memória dos seus. Caso de ontem 29, por exemplo, quando o Jornal da Cultura foi encerrado com Michael Jackson cantando... Era seu aniversário.
E sobre Lana, nada.
Considero Lana Bittencourt tão grande como sua colega de profissão Dalva de Oliveira. Confiram Lana e Dalva cantando, em gravações diferentes, a beleza que é Ave Maria: Ave Maria, Lana Bittencourt; Ave Maria, Dalva de Oliveira
À propósito, hoje 30 faz 51 anos do desaparecimento de Dalva de Oliveira.
Amanhã 31 é de se lembrar, ou deveríamos todos lembrar dos 100 anos de nascimento de Emilinha Borba. Aliás foi ela quem lançou, em Campina Grande (PB), o baião Paraíba.
Virou história a "disputa" de Emilinha Borba com Marlene. Emilinha era a preferida da Marinha e Marlene, da Aeronáutica. Era briga do faz-de-conta, pois na verdade eram amigas. Mas essa é outra história. 
Ouçam Emilinha cantando Paraíba, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira:



terça-feira, 29 de agosto de 2023

O DESCARTÁVEL COMO VALOR

 Já faz tempo, muito tempo, que a sociedade vive consigo terrível conflito. Esse conflito, que podemos pluralizar data de tempos imemoriais. Deve ter começado quando o bicho macaco desceu das árvores e virou o tal "Homo Sapiens".

No começo de tudo, há coisa de 300 mil anos, o tal sapiens teve um relampejo de saber e passou a fazer troca-troca com seus pares. Não havia dinheiro. Trocava-se isso por aquilo, enchia-se do que comia e partia para o descanso. Pois, pois.

E aí inventaram-se problemas para uns afunhenharem outros. A isso deu-se o nome de capitalismo.

Marx tentou pôr as coisas nos trilhos, mas o que conseguiu foi piorar a situação. O mesmo fez Freud.

Pois é, a sociedade vive momentos periclitantes.

Construímos e vivemos uma sociedade sem futuro, pelo menos no tocante à alegria de viver espontaneamente para o bem de todos.

Tudo anda no caminho do descartável.

Os valores sociais estão completamente invertidos.

As artes cada vez mais perdem adeptos e admiradores reais.

A cultura popular, por exemplo, perde terreno para a banalidade. 

Não à toa que o criminoso de guerra Goebbels dizia que quanto mais uma mentira fosse repetida, mais se tornaria verdadeira. E aí danou-se a perseguir escritores e artistas e a queimar em praça pública quadros e livros aos montes.

O passado se repete, com a ignorância ganhando contornos inimagináveis. 

Celebridades se criam da noite para o dia.

Os ditos rítmos musicais se repetem à exaustão, emburrecendo quem nessa onda se mete.

Pergunto ao amigo leitor se ainda saberia distinguir uma bela voz de uma péssima voz. Mais: se ainda saberia distinguir um poema ou letra musical de boa qualidade ou de má qualidade.

Esse arrodeio todo faço para lembrar que grandes artistas se fazem com muito trabalho, muito estudo, perseverança e talento. Exemplo?

Enquanto eu dava ponto final ao texto sobre o sepultamento do cantor Carlos Gonzaga, no final da tarde de ontem 28 morria de uma parada cardíaca a cantora carioca Lana Bittencourt. Nos jornais de hoje 29, aqui e ali uma notinha dizia que ela havia morrido.

Dizer mais o quê, hein?

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

CARLOS GONZAGA DÁ ADEUS NA ITÁLIA

Foi sepultado hoje 28 de manhã num cemitério da Itália o corpo do cantor mineiro Carlos Gonzaga, um dos poinoneiros do rock no Brasil.
Carlos Gonzaga, de batismo José Gonzaga Ferreira, tinha 99 anos de idade e ia completar 100 em janeiro de 2024. As causas de sua morte não foram reveladas pela família.
Carlos Gonzaga muito cedo trocou a cidade onde nasceu, Paraisópolis, pelo Rio de Janeiro e depois por São Paulo. Começou a carreira cantando sambas, calipsos, guaranias e outros gêneros musicais. Sua primeira gravação foi feita em 1955, num estúdio da extinta RCA Victor, no Rio. As músicas foram Anahí, de Osvaldo Sosa Cordero e José Fortuna; e Perdão de Nossa Senhora, de Teddy Vieira e Palmeira.
José Fortuna foi um dos bons compositores de São Paulo, invencionista muito respeitado.
Teddy Vieira e Palmeira compuseram muitas músicas em parcerias. Ambos foram executivos da extinta Continental.
Eu conheci Carlos Gonzaga no programa Jô Soares, em 1990. Na ocasião eu estava lançando o livro Eu Vou Contar Pra Vocês, sobre Luiz Gonzaga (prefácio de Dominguinhos). Na ocasião eu estava acompanhado da cantora Anastácia.
O sucesso pra valer bateu à porta de Carlos Gonzaga somente em 1958, quando gravou a versão de Diana (Paul Anka) feita por Fredy Jorge, que também conheci de perto ali pelo começo dos anos de 1980. Era poeta e diretor por longo tempo da extinta gravadora CBS, em São Paulo.

domingo, 27 de agosto de 2023

O FAMOSO... QUEM?

 A velha frase de autoria desconhecida "quanto pior melhor" continua valendo. A constatação disso é fácil: basta um clique numa plataforma qualquer. E pronto!

É comum, mais do que comum, ouvir de outrem a pergunta sobre a morte de alguém que provoca celeuma: quem foi o famoso que morreu?

Isso me lembra dos falados 15 minutos de glória aludidos pelo mago da comunicação Andy Warhol.

Não era pra tanto, mas confesso que mais uma vez fui pego de calças curtas pela repercussão tsunâmica da morte de um cara famoso na periferia carioca pelas letras que punha numa coisa ritmada chamada de "funk". Esse cara, MC Marcinho, ocupou não sei quanto tempo as emissoras de rádio do Rio. Suas letras, ricas em baixarias, fizeram a cabeça de cantoras como não sei lá Popozuda. Há até quem o chamasse de "Príncipe do Funk" ou "Poeta do Funk". 

Gilberto Gil, cantor, compositor e ocupante de uma das cadeiras dos "imortais" da ABL, abriu a boca pra dizer com todas as letras Marcinho "marcou várias gerações".

O governador do Rio de Janeiro disse que o funkeiro foi o "cara" que mais contribuíu para o sucesso do rítmo nas plagas cariocas. Chegou a apontar que o funk nasceu no Rio.

O funk tem suas origens num ano qualquer da década de 1960, no Sul dos EUA.

Um dos principais artífices do funk foi James Brown.

Pois é, depois de ouvir o vice-presidente da República tecer loas sobre o funk chego à conclusão de que tudo é normal nessa vida de anormalidades.

Esse Marcinho, de batismo Márcio André Nepomuceno Garcia, morreu ontem sábado 26 aos 45 anos de idade. Era de Duque de Caxias, RJ.

O Jornal Nacional encerrou sua edição de sábado com a redação em silêncio. 

O Jornal da TV Cultura encerrou sua edição de sábado com o MC cantando um de seus sucessos. E por aí seguiu a repercussão da morte do artista. 

A morte faz parte da vida e vice-versa. Claro, como tal os mortos carecem da nossa atenção e respeito independentemente do sexo, cor, religião, posição política ou social. A questão aqui é: funk é arte?


sábado, 26 de agosto de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (40)

ASSIS: Conte um pouco da história do Vira Lata. Ele surgiu exatamente quando e por que se encontra hoje fora do mercado?
MAGRÃO: Um dia lá pelo final da década de 1980, um amigo meu pianista me contou que na adolescência, uma moça transou com alguns rapazes do bairro e engravidou sem saber quem era o pai. Quando nasceu, o menino era a cara desse meu amigo. Eu pensei, e se o moleque fosse filho de todos? Se nascesse híbrido, como um vira-lata ou, em linguagem de veterinário, SRD - sem raça definida? Eu comecei a escrever o roteiro em 1988 e o Líbero aderiu mais ou menos um ano depois. A primeira revista foi lançada em 1991 pela editora VHD Diffusion na Bienal internacional de Quadrinhos no Rio de Janeiro e foi pras bancas.
O Doutor Drauzio Varella, a quem eu conhecia por ter trabalhado com sua esposa, Regina Braga, atriz talentosíssima, cruzou com o Vira Lata numa banca e me ligou contando sobre o projeto de redução de danos na Casa de Detenção de São Paulo, o implodido Carandiru. Lá ele notou que os caras liam muito gibi. Era dezembro de 1992, o clima estava pesado só dois meses depois do massacre que completou 30 anos em outubro do ano passado. Naquela época, a Aids era praticamente uma sentença de morte e mais de 17 por cento dos 7.700 detentos era HIV positivo, muito por conta do baque, a cocaína injetada. No calor da luta, tomando nos canos, os caras compartilhavam as seringas improvisadas com canetas bic e o vírus nadava de braçada. Nas edições da cadeia, o Vira já tinha puxado cana e estava sempre pronto a ajudar os amigos presos. O herói destruía seringas e corações femininos (sempre com camisinha). Quanto ao fato de estar recolhido, fora do mercado, temos planos e uma boa parte do roteiro escrito pra lançar uma aventura inédita. O Vira anda sumido, mas tá de butuca, sempre à espreita pronto pra dar o bote. O Brecht disse: Infeliz o povo que precisa de heróis.

ASSIS: O Vira Lata é um anti-herói, mas tem pinta de herói aqui e acolá. Você já
pensou em levá-lo à TV ou à telona? No mínimo pode dar mini série, não?
MAGRÃO: Eu já recebi algumas propostas pra longa metragem e série. Escrevi roteiros pros dois formatos. Tenho fé de que quando chegar a hora vai rolar.

ASSIS: Corajoso, destemido, o Vira Lata respeita as leis e ama tudo quanto é mulher. Será que algum dia vai se apaixonar, casar e ter filhos?
MAGRÃO: O herói não sabe, mas tem uma filha Yumi (flecha), fruto do seu primeiro amor com Tieko. O Vira se apaixona todos os dias mas casar, acho que não convém a um cão de rua.

ASSIS: Por que tanto sangue e sexo nas aventuras do Vira Lata?
MAGRÃO: Sexo porque é o bom da vida, violência porque tem muito filho da puta à solta que merece uma bela surra.

ASSIS: Aqui e ali você insere referências a nossa música popular: Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Noel Rosa, Cartola, Zé Gonçalves, Marino Pinto... e até ponto de umbanda…
MAGRÃO: Ninguém melhor do que você, meu amigo Assis  ngelo, sabe que o Brasil tem um legado imenso, um patrimônio imaterial que são as suas canções. A canção é uma crônica alada. Nas asas da melodia uma história atravessa o tempo e tem o poder de acender o pavio de uma revolução. "Vem vamos embora/ Que esperar não é saber…" (Vandré). A faísca do Vira Lata já estava expressa na estrofe de uma canção que eu fiz em
parceria com meu mano velho Jean Garfunkel quase dez anos antes de pensar em escrever o primeiro roteiro.

O coração saindo pela boca
Meio triste, meio rindo
Da desgraça pouca

Sou parceiro do destino nesta vida torta
Passageiro clandestino pra qualquer lugar
Eu tenho o sangue grosso, misturado
Meio preto, meio índio
Meio degredado

Na cabeça um sonho lindo sempre engatilhado
Sou da terra das palmeiras onde um sabiá
Tem que saber se virar
Feito vira lata, camelô
Cantador, cangaceiro
Feito brasileiro


LEIA O VIRA LATA COMPLETO:


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

FAUSTO LEVA HUMOR À PIRACICABA

Fausto Bergocce com seu mais novo livro

Amanhã sábado 26 será inaugurada a 50ª Edição do Salão de Humor de Piracicaba. Humoristas de todos os seguimentos, do traço ao palco, estarão presentes.
Em clima de festa de abertura do belo Salão estará lançando novo livro o craque da graça e tudo mais Fausto Bergocce. Seu novo livro, Histórias de Esquina, está fazendo o maior sucesso entre as pessoas sensíveis e inteligentes deste meu Brasil varonil.
Eu, da minha parte, só tenho a dizer que sinto-me inserido nessa festa de bom traço e humor. Enfim, assino o livro Esquinas junto com Fausto.
Né, não?

Contracapa de Histórias de Esquina

LEIA MAIS: FAUSTO SETENTÃO!POR QUE NÃO COMPRAR UM FAUSTO BERGOCCE?JOGANDO CONVERSA FORAFAUSTO: O TURISTA APRENDIZ

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

MAIS UM 24 SEM GETÚLIO

A notícia do suicídio do presidente Getúlio Vargas provocou uma onda de profunda tristeza em todo País. Essa onda começou bem cedo, ali pelas 5h da manhã.
O dia era 24 de agosto e o ano, 1954.
Em poucas horas poetas repentistas levaram ao público folhetos de momento, enquanto nas rádios ouviam-se o tempo todo depoimentos de pessoas comuns e autoridades sobre o presidente que resolvera tirar a própria vida.
Aquele 24 de agosto ficou marcado definitivamente na história do Brasil.
Getúlio Vargas foi o primeiro e até aqui o único presidente a se suicidar.
Compositores fizeram músicas enaltecendo as qualidades do morto. Ouça Teixeirinha:



LEIA MAIS: EU E MEUS BOTÕES (8) • ESTADO NOVO NUNCA MAIS! • GETÚLIO VARGAS E BELCHIOR • HUMOR, POLÍTICA E PROTESTO (1) • FILOSOFIA E SUICÍDIO

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

O QUE É ESPERANÇA?

O que difere a fé da esperança?
A esperança é uma fênix que não morre nunca, no máximo se esconde diante dos nossos olhos. E cegos, nem sempre a vimos, mas a sentimos quando nos achamos à beira de um abismo e prestes a sucumbir.
Fora isso, também posso dizer que a esperança fantasia-se sempre de vida quando nos encontramos à beira da morte.
E se eu disser com a firmeza dos astros que a esperança quase sempre nos chega como uma descarga elétrica, hein? Melhor: a esperança é um bichinho pixototinho do tamanho da vontade maior de viver.
Sem esperança não há vida, sem vida não há esperança.
E se eu disser que a esperança é uma mola, uma catapulta, um dínamo que nos leva ao lugar que desejamos, hein?
A esperança é a soma de todos os nossos desejos, até o momento que não os realizamos.

A esperança é menina
É menina a esperança
Sem ela não há vida
Não há nada, nem lembrança...

terça-feira, 22 de agosto de 2023

HOJE É O DIA DO SABER DO POVO

Ilustração de Fausto Bergocce
 
Com seus poucos mais de 500 anos de invasão ou "descoberta", o Brasil é bonito de todas as formas e como tal cobiçado por mundo e meio.
Os indígenas foram os primeiros habitantes racionais a dar cor ao nosso País, com seus cantos, danças e credos. 
Os milhões e milhões de indígenas originários estão reduzidos hoje a algo em torno de 1,7 milhão, de acordo com dados recentemente divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE.
Crenças é um item que se acha em destaque no vasto campo do folclore. 
Folclore é uma palavra de origem anglo-saxônica e se escreve assim: "Folk lore".
Quem estuda a crença lendas e coisas do arco da velha é chamado ou chamada de folclorista. Diz-se: Fulano é folclorista ou Fulana é folclorista.
A palavra "folclorista" atende ao feminino e ao masculino.
O potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) não gostava dessa palavra, da palavra folclorista e tampouco do original "folk-lore".
No português bom e fluente folk-lore virou "folclore", que quer dizer: Povo, Ciência. Ou ainda de modo claro e rasteiro, "Ciência do povo".
Cascudo, que falava várias línguas, preferia ser chamado de estudioso das coisas do povo. Mais ou menos isso. Pelo menos foi o que apreendi das nossas conversas na sua casa em Natal, RN.
Certa vez, a meu pedido, mestre Cascudo discorreu longamente sobre cultura popular, sua matéria. Resumiu:

Cultura popular é a que vivemos. É a cultura tradicional e milenar que nós aprendemos na convivência doméstica. A outra é a que estudamos nas escolas, na universidade e nas culturas convencionais pragmáticas da vida. Cultura popular é aquela que até certo ponto nós nascemos sabendo. Qualquer um de nós é um mestre, que sabe contos, mitos, lendas, versos, superstições, que sabe fazer caretas, apertar mão, bater palmas e tudo quanto caracteriza a cultura anônima e coletiva.

Pra lembrar, clique:

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

O BRASIL E SEUS FILHOS ESQUECIDOS

Guio de Morais

Alguém, e muita gente mais, já disse que somos um povo esquecido, sem memóri.

Chegamos a nos esquecer de nós mesmos. Pode ser incrível, mas é a pura verdade.
Muita gente bonita, de tamanhos enormes, chega e desaparece num piscar de olhos.
Muita gente some como chega: do nada, de repente, sem deixar rastros ou notícias.
São muitos os exemplos do passado e do presente que se encaixam perfeitamente nessa dezena de linhas até aqui ditadas.
Meu amigo, minha amiga, você já ouviu falar de Guiomarino Rubens Duarte?

Bom, acho difícil você já ter ouvido falar nesse Guiomarino... E Guio de Morais, hein?
É muito provável que vocês, meus amigos e amigas, também não tenham ouvido falar sobre esse Guio. E se eu disser que esse Guio de Morais era um pernambucano de Recife e excepcional compositor de música popular, pianista, maestro, arranjador, criador de grupos musicais e orquestras o que você diria? Sei, sei, você diria que não sabe.
O recifense Guio de Morais é um nome que deveria estar estampado em letras garrafais em todo canto, principalmente nas escolas de música. Mas não. O nome desse artista não se acha em canto nenhum e quando, aqui e acolá, descobre-se algo com o seu nome, ou simplesmente o seu nome, o que se lê é a história truncada de um brasileiro. A rigor, até as datas de nascimento e morte são conflitantes.

Guio de Morais nasceu em 1920 ou 1921. Morreu em 1993 ou 1999. 

O que se sabe desse Guio é que começou a gostar de música ainda quando era menino, na sua terra. E que foi autor de um clássico composto em parceria com Luiz Gonzaga e pelo próprio Gonzaga imortalizado: Pau de Arara, maracatu levado à gravação em julho de 1952. O disco, um 78rpm, foi à praça com a chancela da extinta gravadora RCA Victor.
O maracatu Pau de Arara representa uma espécie de chave para abrir e possibilitar a compreensão da obra gonzaguiana. Na letra dessa música se acha a história do velho "rei":

Quando eu vim do sertão
Seu moço, do meu Bodocó
A malota era um saco
E o cadeado era um nó

Só trazia a coragem e a cara
Viajando num pau de arara
Eu penei, mas aqui cheguei
Eu penei, mas aqui cheguei

Trouxe um triângulo, no matolão
Trouxe um gonguê, no matolão
Trouxe um zabumba dentro do matolão
Xote, maracatu e baião
Tudo isso eu trouxe no meu matolão...


Pau de Arara alcançou grande sucesso e eternizou-se como clássico da nossa música gravado até pelo gringo norte-americano Dizzy Gillespie (1917-1993), em 1962. Ouça:

Curiosidade: Se Guio de Morais morreu em 1993, pelas contas, faz 30 anos que isso ocorreu. E seguindo essas contas, chegamos também a conclusão de que Dizzy Gillespie também se acha ausente deste mundo há 30 anos.

sábado, 19 de agosto de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (39)

Paulo Garfunkel e Libero Malavoglia
A rigor vira-lata é um cachorro de rua, sem dono, sem eira nem beira. Não tem passado nem futuro, vive ao deus-dará. Leva pancada e grito de todo mundo. Não é à toa que há o ditado: "Sofre que nem um cão sem dono", direcionado a alguém que "está na pior", sem comer, sem beber, sem dinheiro, devendo a Deus e ao mundo; sem pai, sem mãe, sem mulher, sem nada. Lascado.
Essa descrição é o que é um cão sem dono ou um vira-lata com letra minúscula.
Vira Lata com letra maiúscula é um anti-herói com pinta de herói admirado, principalmente, pelas mulheres. 
O Vira Lata a que me refiro com maiúscula é aqui representado por um homem jovem, forte, bom papo, boa pinta, que vence todas as paradas. Bandido bandido não tem vez com ele. É a favor da justiça, sempre. 
Esse personagem é uma criação de um músico e mestre em roteiros para quadrinhos, cinema e TV Paulo Garfunkel, o Magrão. 
"Eu criei esse personagem em 1988. Um ano depois chegou o parceiro quadrinista Líbero. Um craque!", conta Magrão acrescentando: "... um amigo meu pianista me contou que na adolescência, uma moça transou com alguns rapazes do bairro e engravidou sem saber quem era o pai. Quando nasceu, o menino era a cara desse meu amigo...".
Paulo Garfunkel, um paulistano da cepa, é um devorador de quadrinhos. Conhece tudo sobre roteiristas e desenhistas de HQs, do Brasil e do mundo todo. Entre seus favoritos se acham os quadrinistas Guido Crepax, Alex Varenne, Manara, Georges Lévis, os cineastas Francis Leroi e Jodorowsky e outros mais.O italiano Crepax marcou época com a personagem que criou, Valentina. Isso a partir de 1965. Sensualíssima, a personagem representa a realidade e a ficção e preenche com facilidade as fantasias da mente masculina. Na sua vida “real”, Valentina é uma profissional da fotografia.
Crepax nasceu e morreu em Milão.
O Vira Lata de Magrão se movimenta que nem um gato nas páginas da revista que leva seu nome. Fácil, fácil conquista leitor. O autor explica : “O Vira Lata tem muita influência do “Lobo Solitário” do Gozeki Kojima e do Kazuo Koike e do “Corto Maltese” do mestre Hugo Pratt”.
A estreia do Vira Lata ocorreu na Bienal dos quadrinhos no Rio de Janeiro, em 1991. Logo depois o médico Drauzio Varella o descobriu numa banca. E foi assim, que "O Vira Lata entrou na Casa de Detenção de São Paulo, onde o Dr. Drauzio atendia os detentos como voluntário. Fez o maior sucesso", recorda Magrão. 
Quando o Vira Lata chegou na Casa de Detenção a AIDS corria solta. Dos 7.700 detentos, 17% estavam contaminados. 
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ASSIS:
Como surgiu a ideia de criar o Vira Lata?
MAGRÃO: O Vira Lata nasceu da minha crença de que a nossa força como povo vem justamente da mistura, do amálgama como já dizia o José Bonifácio de Andrada e Silva em mil oitocentos e pouco. Ele nasceu também da indignação diante da desigualdade absurda
com a qual a gente convive diariamente. Aí veio o Vira, defendendo as putas, as travestis, os moradores de rua, os párias, os desvalidos. Ele solta os cachorros em cima de quem é mau caráter e trata muitíssimo bem as mulheres.
ASSIS: Você se inspirou em quem?
MAGRÃO: Eu sempre fui rato de quadrinhos, gostos mais das HQs européias e japonesas do que das americanas. O Vira Lata tem muita influência do “Lobo Solitário” do Gozeki Kojima e do Kazuo Koike
e do “Corto Maltese” do mestre Hugo Pratt. Mas eu sentia falta de enredo nos gibis eróticos, porque uma boa bronha tem que ter um bom roteiro, ( solidão é não dar na veneta nem musa pra punheta); e nos gibis de ação, geralmente, faltava uma bela sacanagem, então resolvi juntar tudo no mesmo imbróglio, com destaque pras belas mulheres e pras artes marciais japonesas (o Líbero é faixa preta de Aikido e eu pratico Kenjutsu há bastante tempo).
ASSIS: Tem a ver com o famigerado Esquadrão da Morte, criado no Rio de Janeiro?
MAGRÃO: Tem tudo a ver, porque infelizmente sempre existiram grupos de extermínio no Brasil. Dos Capitães do Mato do período colonial, passando pelo CCC (Comando de Caça aos Comunistas), OBAN (Operação Bandeirantes), Scuderie Le Cocq e as nefastas Milícias.
Esses canalhas só mudam de nome. Nas páginas do Vira Lata, os exterminadores assinam com cruel ironia Saneamento Básico.

(Continua na semana que vem!)

Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora.

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

GRAFITE PRA CEGO NO BECO DO BATMAN

A Polícia Federal apreende celulares do advogado Frederick Wassef.
A Polícia Federal e o FBI estão nas pegadas de Bolsonaro nos EUA.
O hacker Walter Delgatti abre a bocarra no Senado e dela expele bombas de todos os tamanhos.
Enquanto o cerco se fecha entorno de Bolsonaro e de seus asseclas fardados, a vida continua nos seus altos e baixos. A mais nova: o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a quebra do sigilo bancário e fiscal de Bolsonaro e da mulher Michele. Isso ontem 17.
Hoje 18 o hacker Delgatti prestou novo depoimento à PF. No decorrer das horas, reafirmou tudo o que disse no Senado e apresentou indícios claríssimos de tudo que dizia. Mais trabalho para a PF.
O fardado de patente Mauro Cid, deve afrouxar a boca e dizer o que a Polícia e a Justiça ainda não sabem. A dica é de seu novo advogado, o terceiro, Cezar Bittencourt. E não custa lembrar que o pai desse Mauro, o também Mauro Cesar Lourena Cid, está mais enrolado do que rabo de porco, especialmente no caso das joias e relógios das Arábias. E tem mais: Bolsonaro acaba de ser condenado em 2ª instância por 175 agressões a jornalistas. O processo foi promovido pelo Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo.
Bolsonaro responde a dezenas de processos na Justiça, inclusive no TSE e STF.
Pois é, o Brasil não é pra principiantes.E nem era disso que eu estava querendo falar. Queria não, quero: amanhã 19 será inaugurado no Beco do Batman, na Vila Madalena, a amostra Graffiti #PraCegoVer.
Quem me falou sobre isso foi a coleguinha jornalista Cilene Soares. Ela disse que lembrou de mim pelo fato do papai aqui não enxergar porra nenhuma pelos olhos, mas sim pela memória. E, claro, através dos olhos dos amigos e das amigas.
Lê pra mim o seguinte: 
"Muito além das legendas em braile disponibilizadas para esse público em exposições de arte, o primeiro Graffiti #PraCegoVer será em um muro do Beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo, todo coberto por uma obra inteiramente tátil, impressa em 3D com texturas e contornos para que, ao ser tocado por um deficiente visual, traga detalhes da arte com texturas, dimensões espaciais e principalmente emoção".
O evento será aberto na manhã de amanhã. É de graça e tudo quanto é cego está convidado para ir nesse negócio aí. Se me levarem, eu vou.

LEIA MAIS: NÃO SE VÊ SÓ COM OS OLHOS... • J&CIA ABORDA O TEMA "DEFICIENTES" • OS CEGOS, ESSES INVISÍVEIS SERES • CEGO TAMBÉM VÊ • Assis Ângelo, cego há sete anos, lança cordéis sobre a pandemia • A cegueira não é o fim

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

VIVA ELBA RAMALHO!

Agosto é, de fato, um mês danado de conturbado e triste por ser recheado de agouros e levar muita gente para o outro lado da vida.
Não à toda agosto é chamado de "o mês do desgosto".
Agosto levou muita gente famosa em tudo quanto é área. Política, inclusive:
Foi num dia 2 de agosto que o Rei do Baião Luiz Gonzaga nos deixou.
Foi num dia 4 de agosto que o humorista Oscarito nos deixou.
Foi num dia 5 de agosto que o cantador repentista Otacílio Batista nos deixou.
Foi num dia 19 de agosto que o cantor "El Broto" Francisco Carlos nos deixou.
Foi num dia 21 de agosto que o compositor e cantor Raul Seixas nos deixou.
Foi num dia 27 de agosto que o gaúcho Lupcínio Rodrigues nos deixou.
Foi num dia 31 de agosto que a cantora Dalva de Oliveira nos deixou...
Elba e Assis
Pois é, o céu está cheio de cantador, sanfoneiro, e tal. Mas tem coisa e gente bonita nascida e nascendo neste alvoroçado mês "agostiano":
Foi num dia 2 de agosto que o compositor Aldir Blanc nasceu.
Foi num dia 6 de agosto que o compositor Adoniran Barbosa nasceu.
Foi num dia 10 de agosto que o cantor e compositor Gordurinha nasceu.
Foi num dia 12 de agosto que a cantora Clara Nunes nasceu.
Foi num dia 20 de agosto que o rei da voz Chico Alves nasceu.
Foi num dia 30 de agosto que o compositor Edu Lobo nasceu.
Foi num dia 31 de agosto que a cantora Emilinha Borba nasceu...
E foi num dia como hoje, 17 de agosto, que nasceu na Paraíba a querida cantora Elba Ramalho, prima do Zé.
Elba é da safra de 1951 e antes de tornar-se cantora atuou com categoria nos teatros da vida. E mesmo como cantora de sucesso Elba topou desafio de participar da peça Vida e Morte Severina, de autoria do pernambucano João Cabral de Melo Neto.
Nunca é demais enaltecer o canto personalíssimo de Elba.
Num ano que já não me lembro direito, dos anos 90, tive a alegria de ter Elba declamando comigo no CD Assis Angelo Interpreta Poetas Brasileiros. Confiram:


NEM MISSA, NEM VAQUEIRO PRA GONZAGÃO

Recebo do amigo Onaldo Queiroga a notícia de que já não há mais a Missa do Vaqueiro, que desde 1970 era celebrada pelo Padre João Câncio em Serrita, PE. Dessa Missa participavam Luiz Gonzaga e centenas de vaqueiros da região. Isso ocorria todo segundo domingo de agosto. 
A Missa do Vaqueiro, que rendeu um álbum duplo lançado pela extinta Copacabana, foi criada por Gonzaga, Padre João e Pedro Bandeira, dos mais aplaudidos poetas repentistas do Brasil.
A notícia trazida por Onaldo é esta:
MISSA, SEM VAQUEIROS
Assis, Gonzaga e o padre João Câncio

A obra de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, possui um traço importante que é a seara de protesto, ou seja, existem muitas músicas criadas como forma de protestar contra determinadas situações injustas, na visão desse ícone maior da canção nordestina.
Dentre tantas canções há uma de muito significado – A morte do Vaqueiro, que fora construída como protesto e para homenagear o vaqueiro Raimundo Jacó, tido como o mais afamado do sertão nordestino, morto covardemente e por interesses políticos, além de que a justiça do homem deu pro mundo, como bem diz a canção.
Raimundo Jacó tornou-se símbolo dos vaqueiros e, em decorrência dessa canção, Gonzaga e o Padre João Câncio dos Santos, resolveram também criar a Missa do Vaqueiro, celebrada em Serrita, Pernambuco pela primeira vez em 1971.
Celebrada sempre ao terceiro domingo do mês de julho, ao ar livre, num local onde fora construído um altar de pedra rústica em forma de ferradura, a missa do vaqueiro, todos os anos reúne vaqueiros de todos os recantos do Nordeste, que assistem a missa, onde a celebração é conduzida por um padre, com chapéu de coro na cabeça, tendo o canto inicial entoado por um cantor nordestino, com trajes de vaqueiro, destacando em seu canto de aboio a identificação do vaqueiro, a fé e as dificuldades enfrentadas nas ressequidas terras do sertão.
Neste ano de 2023, a missa completou 53 anos de celebração. Contudo, o terceiro domingo de julho deste ano foi de muita tristeza. A missa foi completamente descaracterizada pelo gestor municipal de Serrita – PE, que de forma desconstrutiva agrediu um dos maiores símbolos da cultura gonzagueana, do próprio Estado de Pernambuco e do Brasil – A MISSA DO VAQUEIRO.
Quebrando toda ritualística da Missa, o prefeito integrou ao evento um festival musical que em nada tem ligação com contexto da Missa. Inacreditavelmente, parecem que desejam a todo custo aniquilarem a cultura nordestina. Este ano, a missa, sem vaqueiros foi regada ao som de Gustavo Lima, Xande Avião, Nattan, Tarcísio do Acordeom, Simone Mendes e outras atrações que não possuem conexão alguma com esse evento.
Mas, o que significa Missa do Vaqueiro? A Missa do Vaqueiro é um evento religioso, tradicional na cultura popular do sertão pernambucano, então, indago, qual o motivo de se agredir tão violentamente essa cultura.
Há tempos que existe um articulo movimento para a desconstrução da nossa cultura e, não podemos assistir tudo isso calados. É preciso reagir. Não se pode permitir que esse evento possa ser transformado numa missa, sem vaqueiros e sem a essência para a qual fora idealizada, criada e que já se perpetua por 53 anos.
Quer fazer um festival musical, seu prefeito? Faça, mas de outra forma, sem aniquilar a cultura de um povo chamado Nordeste. É preciso respeito. É preciso que as autoridades competentes tenham responsabilidades e que o Estado de Pernambuco, por seu Ministério Público, possa adotar medidas que visem freiar essa conduta destrutiva.
Esperamos que em 2024, a Missa volte a ter o seu formato original, até porque, missa não combina com esse tipo música, que muitas vezes troca o “P” da poesia pelo “p” da pornografia.
Como escritor e amante da cultura nordestina não podia, nem posso ficar silente diante de tão grave situação.
Viva Luiz Gonzaga, Viva Padre João Câncio, Viva a Missa do Vaqueiro!
ONALDO QUEIROGA
LEIA MAIS: ESTOU TRISTE: MORREU PEDRO BANDEIRA CARMÉLIA ALVES: 100 ANOS DE VIDA E CARNAVAL (1) VAQUEJADA, PEGA DE BOI E FORRÓ

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

MILLÔR, 100 ANOS

Millôr no traço de Fausto Bergocce

É certo que a população de um país que ri, vive melhor. E já não rimos como outrora, pois são muitas as desgraças e tragédias que ocorrem no nosso dia a dia. Pena. Muita gente boa, de bom traço e graça hilários, já nos deu adeuzinho e foi para um lugar que só Deus sabe.
Assim pensando, de repente, lembro de figuras incríveis que amenizaram momentaneamente nossas dores e mágoas com seus remédios de nos fazer rir.
Lembro-me de José Vasconcelos, Zé Fidélis, Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Jô Soares. Mas houve outros, muitos outros: Paulo Silvino, Bussunda, Juca Chaves, Rony Cócegas e Paulo Gustavo.
E Millôr Fernandes, hein?
Millôr Fernandes foi um dos mais completos intelectuais do Brasil. Fez tudo de bom no tocante ao intelecto, entre 16 de agosto de 1923 e 27 de março de 2012. Era carioca de Ipanema. Começou a carreira ainda meio moleque na extinta revista A Cigarra, em 1939; e daí sentou seu talento na famosa O Cruzeiro, do conglomerado do imperador da imprensa Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello. Seu primeiro pseudônimo artístico foi Vão Gôgo (ao lado). 
Não custa lembrar, e é sempre bom lembrar, que Millôr desenhava e fazia graça de tudo, hora pelo caminho filosófico e coisa e tal. Escreveu belas peças e traduziu vários livros. Deixou uma obra bonita e gigantesca. Nessa obra, impossível esquecer suas milhares e milhares de frases definitivas sobre tudo. Aqui, uma dúzia delas:
  • Em agosto, nas noites de frio, a pobreza entra pelos buracos da roupa.
  • A diferença entre a galinha e o político é que o político cacareja e não bota o ovo.
  • Em política nada se perde e nada se transforma - tudo se corrompe.
  • Além de ir pro inferno só tenho medo de uma coisa: juros.
  • Brasil: um filme pornô com trilha de Bossa Nova.
  • Ainda está pra nascer o erudito que se contenha em saber só o que sabe.
  • Quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade de consumo.
  • Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.
  • Está bem. Deus é brasileiro. Mas pra defender o Brasil de tanta corrupção só colocando Deus no gol.
  • Aviso aos navegantes: Em Brasília ainda tem dois deputados do baixo clero sem patrocinador.
  • Além de transformarem o Brasil num cassino, viciaram a roleta.
  • Canalhas melhoram com o passar do tempo (ficam mais canalhas).
O cartunista Fausto e a torcida do Corinthians concordam comigo.
O cartunista lembra a vez que assistiu embevecido a um debate entre Millôr e o publicitário Carlito Maia, no Salão de Humor de Piracicaba. "Foi incrível! Lá pras tantas, lembro que Carlito caiu na besteira de dizer que era da Globo. Todo mundo caiu na risada e o chamou de bozó".
Bozó foi o personagem inventado por Chico Anysio, que fez muito sucesso na TV Globo.
O debate aqui referido foi mediado pelo mestre maranhense Fortuna. Aliás, foi Fortuna quem me levou uma vez à Piracicaba para uma tarde de autógrafos do livro O Coronel e a Borboleta e Outras Histórias Nordestinas. Capa e edição dele. Foi no Salão e lá reencontrei o craque Jaguar, do velho Pasquim de saudosa memória. Publiquei muitas coisas nesse heroico hebdomadário carioca.
E por falar nesse povo todo aí, bonito de traço e ação, não dá pra esquecer do querido Paulo Caruso.
Um dia pedi ao Paulo que me mandasse alguma foto em que se achasse ao lado do Millôr. Fez isso no dia 1º de março de 2019. Ele, por e-mail:
Assis amigo véio,
aqui uma legenda de quem está na foto,
de cima pra baixo, da esquerda pra direita:
Chico, Jaguar e Claudius; abaixo: Cláudio Paiva, Eu, Reinaldo, Ziraldo e Millôr; em pé encostado na parede o Amorim;
em baixo, à frente rabiscando, o velho Nássara, logo atrás o Hubert, Nani ajoelhado e Mariano o bigodudo...
baitabraço
Paulo Caruso

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