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sexta-feira, 23 de setembro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (41)

Olá pessoal, tudo bem? Estou sentindo a falta de alguém aqui. Cadê o Lampa?
Meus botões olharam-se e confirmaram: "É mesmo, cadê o Lampa?".
Fui dizendo que o dia está bonito, mesmo com um sol de geladeira. No rigor, o primeiro dia de primavera deste tumultuado ano de 2022. Perguntei se todos tinham visto o resultado da nova pesquisa Datafolha. "Eu vi, eu li, o Lula continua firme como candidato a vencer no primeiro turno", disse Zilidoro.
"Ainda acho cedo cravar o papo de que Lula já ganhou", opinou Barrica. "É, acho que é preciso tomar cuidado com o andor. O andor é de barro", disse Biu. "Ei! O filósofo aqui é o Zilidoro!", falou o botão Zé.
Zilidoro riu, quietinho.
"Aparentemente as ruas estão calmas. E tomara que permaneçam assim", disse Jão. E Mané emendou: "O pessoal do Bulsa tem mais é que ficar quieto. E se perder, enfiar a viola no saco e sumir", falou Zoião.
De repente ouviu-se o ranger de porta. Todos olharam em direção ao local de onde vinha o ruído, o ranger de dobradiças. Era Lampa. Com a cara meio inchada, com hematomas. Estava com uma muleta, arrastando-se, uma perna engessada e ao cumprimentar os colegas mostrou que havia avarias na boca. "O que é isso, Lampa?",  todos perguntaram. 
Mancando, Lampa entrou na casa pedindo licença para se sentar. Todos o ajudaram. Ele estava desarmado, sem seu inestimável punhalzinho. Sentado no seu banquinho, explicou: "Ontem quando saí daqui na minha bicicleta, fui agarrado por uns felasdaputa que me bateram covardemente... Eram caras que eu queria impedir de entrar aqui. Eu não ia votar no Lula, mas agora eu vou!".
"Calma, calma Lampa. Todo dia todo mundo bate em alguém. A violência mata e fere ou fere e mata", disse Zilidoro.
O bom Mané endossou a fala de Zilidoro e disse: "O importante Lampa, é que você está vivo. E isso é tudo". 
É fato que vivemos um momento difícil, angustiante. O Brasil se acha numa enrascada. A sorte, digamos assim, é que o STF e o TSE estão atentos. Tomara que nada de pior nos aconteça. O dia 2 de outubro está chegando, com calma vamos encontrar o caminho para salvaguardar a Democracia e tal. Ninguém vive bem sem liberdade, educação, saúde e trabalho. 
Zilidoro pede a palavra, levantando a mão: "Vamos mudar um pouquinho de assunto? Não sou baiano, sou paulistano. Isso todo mundo sabe, o que todo mundo não sabe é que sempre nutri uma grande admiração por um baiano chamado Heitor dos Prazeres. Esse Heitor foi sambista e pintor. Dos maiores".
"Por que você tá dizendo isso, Zilidoro?", perguntou Mané. Mané é paraibano. "Ora, ora, Heitor dos Prazeres é uma legenda no campo da cultura popular brasileira. Ele nasceu no dia 23 de setembro de 1898, mesmo ano do nascimento do jornalista e estudioso da cultura popular Luís da Câmara Cascudo".
Muito bem, seu Zilidoro. E quando foi que Heitor dos Prazeres morreu?
"Fácil, fácil seu Assis, o grande Heitor morreu no ano em que Chico Buarque e Geraldo Vandré empatavam com as músicas A Banda e Disparada. Isto é, em 1966".
Poxa! Estou muito orgulhoso de você, Zilidoro. Aliás estou sempre orgulhoso de vocês todos, a cada dia a nossa conversa fica mais bonita, rica.
De repente o som de um baque. Era Lampa que caía do tamborete, desacordado. 
"Lampa desmaiou! Lampa desmaiou! Vamos levar Lampa para o hospital! Vamos gente!", acudiram todos.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (40)

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"Oxente! O que é que você está fazendo aí de pé com essa cara feia e de braços cruzados?", perguntou surpreso o botão Mané a Lampa. Como resposta, ouviu: "'Tô aqui cuidando pra impedir a entrada de bolsonaristas".
Mané acomodou-se no seu canto, juntando-se aos demais amigos de conversa.
Pessoalmente, também achei esquisita aquela postura de Lampa. E confesso que não entendi o que ele quis dizer com "'Tô aqui cuidando pra impedir a entrada de bolsonaristas".
Zilidoro foi o último a entrar. Lampa olhou prum lado, olhou pro outro, passou a mão no cabelo, espirrou e acomodou-se no seu tamborete.
Eu: Lampa, ao que me consta, aqui entre nós não há nenhum bolsonarista. A propósito vamos todos votar no melhor candidato pra governar o nosso País e o presidente que se acha ora lá em Brasília não atende aos anseios do nosso povo. Bolsonaro é do mal, é destruidor, é uma pessoa que não merece confiança de gente que é gente. O atual presidente quebrou o País. Ele é negacionista.
Zilidoro: "Pois é, o tal capitão é a favor da morte. Ele lutou contra a vacina e foi a favor do vírus que se transformou em Covid-19. Ele quer muita gente armada, pois quer contar com essa gente para engrossar o seu time de capetas".
Quieto, Lampa ouvia tudo em silêncio enquanto cutucava as unhas com o seu inefável punhal.
"Concordo com tudo que seu Assis falou e concordo também com tudo que falou Zilidoro e acrescento: o Brasil não aguenta mais quatro anos com o Bolsonaro", disse Barrica apoiado pelo irmão Biu.
"Essa conversa tá ficando chata. Essa conversa tá chata", interrompeu o botão Jão. E Zé: "A primavera está chegando. É hoje, logo depois das 10 da noite".
Zoião bateu palmas e disse: "Pra mim, a primavera é a melhor estação do ano".
Jão discordou dizendo que a melhor estação é o verão. E justificou: "É no verão que os nossos olhos brilham mais, especialmente quando estamos na praia".
Zilidoro lembrou que o cantor e compositor Gonzaguinha nasceu no primeiro dia da primavera. E disse mais: "O seu Assis foi amigo de Gonzaguinha e Gonzagão, ele fez ótimas entrevistas com o pai e o filho...".
Mané contou que chegou a ler uma entrevista que fiz com Gonzaguinha e que foi publicada numa das revistas da Editora 3. Mexendo na Internet através do celular, ele começou a ler em voz alta:
Moleque de rua, peralta, arteiro como ninguém. Sempre foi e será. Ainda bem. É carioca, casado; tem 35 anos e dois filhos, Fernanda e Daniel. Ângela é sua amiga-amante-mulher-companheira. Gosta disso. Adora a vida, repudia a morte e luta pela paz da forma como pode: cantando, compondo e falando das mazelas do seu tempo e da dor do seu povo. O seu nome: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, mas podem chamá-lo Gonzaguinha, simplesmente.
Depois de ler em voz alta um trecho da entrevista, Mané disse que já estava compartilhando o meu blog com os amigos. Agradeci.
Zé perguntou se eu conheci o violonista Dilermando Reis. Eu disse que não, que não o conheci, mas sei da sua importância para a nossa música popular. Perguntei por que me fazia essa pergunta e ele: "É que hoje é aniversário de nascimento do Dilermando. Ele nasceu em 1916 e morreu em 1977".
Os meus botões estão in-su-por-tá-veis! É muita sabência! 
Cabisbaixo, ainda cutucando as unhas, Lampa apenas ouvia.
"Seu Assis, o sr. ficou sabendo das diabruras do Bolsonaro em Londres e no Plenário da Organização das Nações Unidas?", perguntou Zilidoro. Respondi que sim e que um juiz do TSE proibiu o uso de imagens em que o presidente aparece lá fazendo campanha política. 
De repente Lampa deu um pulo, enfiou o punhal nos quartos e saiu apressado. Ao mesmo tempo, todos perguntaram: Pra onde você vai, Lampa, com tanta pressa? Lampa parou, voltando-se: "Vou pra Brasília!".
Fazer o que em Brasília, Lampa?, perguntei. "Quero ter uma conversinha com esse sujeito que vocês tão falando aí". E nada mais disse, abriu a porta e foi-se.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (39)

"Que vergonha! Que vergonha! Que vergonha, seu Assis!", o bom Mané diz gritando, esbaforido, acrescentando: "Não é possível! Não é possível! Um presidente da República do nosso país dizer o que disse em Nova Iorque".
"É verdade! Eu não acreditei no que estava vendo na televisão: um presidente de um país tão grande e bonito como o nosso, falar o que falou num boteco em Nova Iorque", disse quase gritando, nervoso, o pacato Zé. Jão, por sua vez, balançou a cabeça decepcionado: "Pois é, que vergonha!".
Enquanto esses meus botões falavam, Lampa cabisbaixo cutucava as unhas com seu punhalzinho de estimação. Num momento qualquer, ele fez: "Hmmm... Hmmmrrr!".
Zoião deu uma geral em 360º e cutucou Biu, baixinho: "Sei não, sei não, acho que o Lampa tá tramando alguma coisa. Eu nunca vi esse cabra tão esquisito".
Biu olhou Zoião e baixinho respondeu: "Pois é, pois é, eu acho que você tem razão. O Lampa tá até mudando de cor, que nem um camaleão".
Barrica escutou a fala de Zoião e Biu, passou a mão na cara e espirrou. Depois, disse: "Vocês estão certos. Olha, olha! O Lampa tá se mexendo. Não tô gostando disso".
Pessoalmente, achei lamentável o comportamento do presidente da República lá na casa do Tio Sam. E mim mesmo perguntei: Como é que a mais importante autoridade do Brasil vai a um boteco comer churrasco e pronuncia um discurso mixuruca, trepado numa cadeira?
Antes que eu me estendesse o meu poeta predileto Zilidoro disse: "Um horror, um horror! Decepcionante! O cara vai pra Londres fazer campanha política no rastro de um velório e sepultamento de uma rainha e esculhamba com o candidato mais pontuado a ocupar o seu cargo no Planalto. Um horror! Um horror! Como é que pode!? Esse sujeito aí ainda ameaçou chutar o pau da barraca caso não ganhe no 1º turno com a diferença de pelo menos 60% dos votos do eleitor brasileiro. E isso tudo no plenário da ONU, que ele transformou em palanque de campanha política! É o fim da picada. E sabe o que eu acho mais, seu Assis? Acho que esse cara deveria é estar respondendo a processos criminais, pois o que ele tem feito contra nós, brasileiros, não é brincadeira não".
Lampa, num movimento rápido, olhou nos olhos de Zilidoro, levantou-se do tamborete e com força enfiou o punhal no lugar onde estava sentado. E num rompante, com sua voz tronitoante, desabafou: "Porra!".
No canto onde se achava, Barrica deu um pulo assustado: "Caralho!".
Calma, calma, Lampa! Calma Barrica, não é assim que a gente deve se comportar. O nosso péssimo presidente é o que é, não tem salvação. 
"Ele, o tal aí, não tem salvação mesmo, não. Mas nós temos. E vamos provar isso escolhendo alguém que possa levar o Brasil pra frente, com categoria, no próximo dia 2 de outubro", disse o poeta Zilidoro.
Respirei fundo, mudando de assunto. E perguntei: Alguém aqui já ouviu falar em Waldir Azevedo?
Barrica levantou a mão e falou: "Waldir Azevedo foi um artista de grande importância para a música instrumental brasileira. É dele o famoso baião Delicado".
O insuspeito botão Zé, abriu sorriso e disse: "Waldir, grande Waldir! Eu não o conheci, mas sei que o seu Assis o conheceu. E até o entrevistou".
Hmmm... Eu adoro o chorinho Delicado. A propósito, não custa lembrar que ele partiu há 42 anos, no dia 20 de setembro de 1980. Acho que agora é hora de a gente encerrar essa prosa nervosa ouvindo o Waldir. Que tal, hein?

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (38)

"Seu Assis! Seu Assis!", entrou esbaforido na casa o bom botão Mané.
O que ocorre? Você viu uma assombração por aí, Mané?
"Não, não, assombração coisa nenhuma! Eu vi agora na TV o louco do presidente Bolsonaro aproveitando a onda que tem provocado a morte da rainha Elizabeth para fazer política pessoal e partidária em Londres. Ele juntou um monte de fanáticos para esculachar seu principal oponente, o Lula, e pedir votos. Diz que vai ganhar no primeiro turno...", explicou seu estado assombrado o bom Mané, logo interrompido por Zilidoro: "O cabra é sem noção, Mané!".
"Esse sujeito aí precisa é de um corretivo", resmungou do seu tamborete o Lampa, cutucando as unhas com seu inseparável punhalzinho.
"É, pelo jeito não tem jeito. O Bulsa é sujeito perigoso e uma vergonha para o Brasil", disse Barrica. E Biu: "Eu concordo com o mano Barrica. O sujeito aí é uma vergonha nacional e nunca na nossa história houve alguém tão desqualificado comandando o Brasil".
"Seu Assis, o que é que o Sr. tá achando disso tudo?", perguntou-me o até então silencioso Jão. Respondi dizendo que os brasileiros que pensam e que querem um bom futuro para o nosso país, encontrarão a maneira mais adequada de tirar o Sr. presidente do cargo que ocupa. Esse caminho leva às urnas.
Zé e Zoião bateram palmas e Zilidoro, mexendo em seu celular, achou uma música intitulada Presidente Sem Noção: "É interessante essa música, é uma modinha. Vamos cantar juntos?" https://www.youtube.com/watch?v=o_uShAkXk54
Isso aqui tá virando uma festa. Estou gostando.
O tema Bolsonaro continuou despertando a atenção, para minha surpresa, até do circunspecto Lampa:
"É, o Brasil tá meio esquisito, chefe. O sinhô conhece isso: Presidente também morre/De morte matada ou não/Lugar de quem não presta/É lá no fundo da prisão!".
E Zilidoro: "Isso aí eu conheço, é do seu Assis". 
"Eu também conheço, eu também conheço! Fala até da Covid-19. É uma porrada!", falou entusiasmado de lá do fundo da casa o insuspeito Zoião. Para minha surpresa, Barrica levantou a mão dizendo que também conhecia o poema. E sem delongas, começou:

Já não são quinhentas mortes
Já não são quinhentas mil
A desgraça toma corpo
No coração do Brasil

Não são mortes naturais
As mortes de Silvas e Bragas
São mortes provocadas
Por vírus, pestes e pragas

Praga viva inda mata
Homem, menino e mulher
Mata completamente
Do jeito que o bicho quer

Maldito Coronavírus
Que pega e mata gente
O Brasil está morrendo
Nas garras do presidente

Presidente também morre
De morte matada ou não
Lugar de quem não presta
É lá no fundo da prisão!

A cadeia te espera 
Presidente matador 
Quem apanha hoje é caça
Amanhã é caçador

Meio sem jeito, fui encerrando a roda de conversa perguntando se alguém sabia quem foi Zequinha de Abreu. E Zilidoro, na ponta da língua: "Zequinha foi um paulista de Passa Quatro, autor do belíssimo chorinho Tico-Tico no Fubá. Ele nasceu em 19 de setembro de 1880 e morreu em 1935. Deixou uma bela obra. Ele nasceu no mesmo ano em que morreu o carioca Joaquim Antônio da Silva Callado: 1880".
Poxa vida, estou orgulhoso de você, Zilidoro. Você sabe que foi Carmen Miranda a primeira cantora a gravar Tico-Tico no Fubá?
E Zilidoro: "Sei, sim. Sei também que Charlie Parker também gravou essa música. Eu adorei a gravação dele, de 1951".

domingo, 18 de setembro de 2022

CARLOS GOMES: A GLÓRIA NO TREM DO ESQUECIMENTO (2, FINAL)

A história de Carlos Gomes é uma história tumultuada, de altos e baixos, a começar do assassinato da sua mãe Fabiana Maria Cardoso Gomes (1816-1844). Ela tinha 28 anos de idade e foi morta a facadas e tiros. O assassino não foi preso e as suspeitas do crime recaíram no marido, que à época agarrou-se ao álibi de que enquanto a mulher era morta, estava ausente de casa jogando baralho com amigos.
Maneco Músico tinha, à época, 51 anos de idade e era pai de 26 filhos.
Essa história já foi contada por mim e pelo romancista mineiro Rubens Fonseca (1925-2020), no livro O Selvagem da Ópera.
No livro O Brasileiro Carlos Gomes, lançado pela Companhia Editora Nacional em 1987, eu faço uma biografia sobre o autor campineiro. A respeito, o compositor e maestro cearense Eleazar de Carvalho (1912-1996) escreveu de próprio punho: "Parabéns a Assis Ângelo por reviver o tempo passado e, como observou Roberto Machado, o tempo original, absoluto, idêntico à eternidade, que só a arte pode proporcionar".
Eleazar regeu algumas das principais orquestras do mundo e foi um dos professores da Juilliard School de Nova York. Fora isso foi diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica de São Paulo, OSESP, e criador do Festival de Inverno de Campos do Jordão.
E o jornalista e poeta Fernando Coelho escreveu: "O Brasil é o país da mentira. E do esquecimento. É
só ver o que fazem com a Música Popular Brasileira, entre outras coisas. Ainda bem que o jornalista Assis Ângelo, teimoso que é, com este livro sobre Carlos Gomes, vai continuar incomodando os que insistem em empastelar a nossa memória".
Em matéria de página inteira, o tabloide Il Corriere destacou o esquecimento do maestro Carlos Gomes na edição de 21 de setembro de 1987.
Durante muito tempo, é fato que Carlos Gomes recebeu pedradas da parte de seus patrícios. Entre esses, alguns maiorais da famosa Semana de Arte de 22. Atacou Oswald de Andrade, por exemplo: "Carlos Gomes é horrível. Todos nós o sentimos desde pequeninos. Mas como se trata de uma glória da família, engolimos a cantarolice toda do Guarani e do Schiavo, inexpressiva, postiça, nefanda. E quando nos falam do absorvente gênio de Campinas, temos um sorriso de alçapão, assim como quem diz: - É verdade! Antes não tivesse escrito nada... Um talento!" (Jornal do Commercio, São Paulo, 12 de fevereiro de 1922).
A obra de Carlos Gomes é extensa. Ele escreveu peças do repertório popular como lundus, polcas,
mazurcas, modinhas e hinos, além de missas e cantatas. Dentre as óperas que assinou Il Guarany foi a que lhe deu mais prestígio. No decorrer dos anos de 1870 essa ópera correu mundo.
Em 1914, o tenor italiano Enrico Caruso gravou em Nova Iorque, EUA, uma parte da famosa ópera baseada no livro homônimo de José de Alencar: Sento una Forza Indomita. Aliás, são inúmeras as gravações dessa ópera nas línguas mais diversas. A primeira gravação completa em disco ocorreu no Brasil em 1959. O autor dessa façanha foi o paulistano do Brás Armando Belardi (1898-1989). Essa gravação sairia na versão CD, numa caixa, em 1993. Dois anos depois, na Alemanha, seria a vez do maestro brasileiro John Neschling entrar no circuito regendo a ópera que virou também uma caixinha. Nessa versão, o tenor Plácido Domingo interpreta o parceiro de Ceci, Pery.
Mais de uma centena de livros conta a história do filho de Maneco Músico.
O compositor e maestro campineiro Antonio Carlos Gomes morreu doente e pobre em Belém do Pará, no dia 16 de setembro de 1896, exatos 100 anos antes de Eleazar de Carvalho. Tinha 60 anos de idade.

LEIA MAIS: ALBERTO NEPOMUCENO, 100 ANOSCARLOS GOMES: FILHO DE UMA TRAGÉDIAFRANCISCO SIMPLESMENTE

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 17 de setembro de 2022

CARLOS GOMES: A GLÓRIA NO TREM DO ESQUECIMENTO (1)

Numa conversa qualquer em que o tema seja música ou músicos brasileiros eruditos, o nome que logo vem à mente é o do compositor e maestro carioca Heitor Villa-Lobos, autor das Bachianas em que se acha O Trenzinho do Caipira. Numa forçação de barra, digamos assim, pode surgir outro nome: Antonio Carlos Gomes. E talvez também a soprano Bidu Sayão, até porque foi homenageada e desfilou em carro alegórico da Beija-Flor no carnaval de 1995. Morreria em 1999, com 97 anos de idade.
São muitos os artistas brasileiros atuantes no campo da música erudita, desde sempre. O primeiro deles foi o padre José Maurício Nunes Garcia que sabia tudo e mais um pouco a respeito do assunto.
Além de Villa-Lobos, Carlos Gomes e José Maurício, outros como Francisco Mignone, Guerra-Peixe, Alberto Nepomuceno, Francisco Braga, Alexandre Levy, Cláudio Santoro e Radamés Gnattali deixaram sua marca nesse campo. Mas a memória está sempre a negar fogo.
Carlos Gomes, um paulista da região de Campinas, muito cedo enveredou pelo fabuloso mundo da música. Ele ainda se achava nos primeiros anos da adolescência quando começou a tocar na bandinha marcial do pai Manoel José Gomes (1792-1868), popularmente chamado Maneco Músico. Com 13, 14 anos, já fazia música em pauta. Um dia, na bandinha do pai, foi visto pelo imperador Pedro II que na ocasião visitava sua cidade. Aquilo foi marcante e desde então o menino Tonico, como era chamado Carlos, começou a sonhar alto imaginando-se estudante de música no Rio de Janeiro, então capital do Império.
Antes de trocar Campinas pelo Rio, o jovem Carlos Gomes passou uma temporada na Capital paulista onde conheceu estudantes de Direito do Largo de São Francisco.
Corria o ano de 1859 e é dessa época o hino à Mocidade Acadêmica. É também dessa época a modinha Quem sabe?, com letra de seu amigo Bittencourt Sampaio. Essa modinha foi e continua sendo gravada por muita gente, inclusive Inezita Barroso (1925-2015). A letra é esta:

Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento

Quisera saber agora
Quisera saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento

Quem sabe? Se és constante
Se, ainda, é meu teu pensamento
Minh'alma toda devora
Da saudade agro tormento

Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera saber agora
Se esqueceste, se esqueceste o juramento

Quem sabe? Se és constante
Se, ainda, é meu teu pensamento
Minh'alma toda devora
Da saudade agro tormento

Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto

Suspiros, angustias, dores
Suspiros, angustias, dores
São as vozes, são as vozes
São as vozes do meu canto

Quem sabe? Pomba inocente
Se também te corre o pranto
Minh'alma cheia d'amores
Te entreguei já n'este canto

Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Suspiros, angustias, dores
São as vozes, São as vozes do meu canto

Quem sabe? Pomba inocente
Se também te corre o pranto
Minh'alma cheia d'amores
Te entreguei já n'este canto


O cartunista Fausto e eu estamos fazendo um livro com charges e textos, sobre encontros fictícios entre grandes artistas do Brasil. Inezita e Carlos Gomes são dois dos personagens que escolhemos para o livro, que se chamará Histórias de Esquina.


Já no Rio de Janeiro, estudando no Conservatório de Música, Carlos Gomes ganhava admiração de colegas e professores. Em 1861, compôs sua primeira ópera: A Noite do Castelo. Dois anos depois usufruía de uma bolsa de estudos concedida pelo Imperador, na Itália. E na Itália conheceu a fama com a ópera Il Guarany, que estreou na noite de 19 de março de 1870 no Teatro Alla Scala de Milão. O grande Giuseppe Verdi estava presente. Encantado com a atuação de Gomes, declarou a um repórter da Gazzeta Ferrarese: "Esse jovem começa por onde eu termino".
Carlos Gomes ganhou fama, mas não ganhou dinheiro com Il Guarany. Motivo: vendeu os direitos autorais ao primeiro editor musical que lhe apareceu à frente.
A ópera que mais dinheiro deu a Antonio Carlos Gomes foi Salvador Rosa, que estreou na noite de 21 de março de 1874, em Gênova. Essa ópera, desenvolvida em quatro atos, foi dedicada a André Rebouças.
Il Guarany é baseada no livro O Guarani do escritor cearense José de Alencar. É da linha indianista. Trata do romance entre a filha de um fidalgo português (Ceci) e de um indígena da tribo dos guaranis (Peri). Essa ópera estreou no Brasil no dia 2 de dezembro de 1870.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (37)

"Que frio dos infernos é esse, seu Assis!", falou tremendo e todo encolhido o mano de Biu, Barrica. "Eu já não tô aguentando, é um frio dos infernos!", repetiu Barrica. O mano Biu concordou: "O frio aqui em São Paulo tá muito mesmo. Ouvi no rádio agora pouco que hoje a temperatura máxima será de 16ºC".
Achei graça no modo como Barrica falou. Mas até onde eu sei, até onde dizem, no Inferno não tem frio.
O bom Mané, por sua vez, disse: "É, o frio tá grande. Mas tem uma solução: ou a gente se agasalha ou molha o bico pra esquentar o corpo".
Lupícino
Zilidoro, todo agasalhado, disse: "O Mané tá falando bonito. Deve ser o efeito do frio". Sentado num tamborete, Lampa mostrava indiferença ao assunto. Cutucando as unhas com seu inestimável punhal, só olhava para um canto e pra outro sem levantar a cabeça. Jão fazia que não via, mas via. E falou: "Seu Assis, o sinhô não tá com frio, não?".
Claro que estou com frio, mas estou bem agasalhado...
"Eu ontem à noite tomei um negocinho antes de dormir. E dormi feito um santo, feito um inocente, seu Assis", contou Zoião.
Zé pediu a palavra para perguntar se eu já ouvi falar no gaúcho de Porto Alegre Lupicínio Rodrigues. Sim, respondi. E ele: "O Lupi compunha muito bem e cantava melhor ainda! Pois cantava com a alma. Eu gosto de muita coisa que ele fez, especialmente Nervos de Aço".
Foi a vez de Zilidoro meter a colher na conversa: "Nervos de Aço foi uma música que Lupi fez depois de traído por uma mulher a quem ele amava muito. Essa mulher foi vista nos braços de outro pelo próprio Lupi".
Lupicínio, foi minha vez de falar, nasceu em 16 de setembro de 1914 e morreu no dia 27 de agosto de 1974. Por muito tempo a sua carreira de artista ficou travada, ameaçada pela Bossa Nova e o Tropicalismo. Mas Caetano Veloso incumbiu-se de salvar Lupi, gravando Felicidade. A partir da gravação de Caetano, artistas como Bethânia, Gal Costa e tantas e tantos gravaram e regravaram grandes títulos do compositor.
"Seu Assis, seu Assis! Lembrei-me agora que foi também num 16 de setembro que morreu o maior compositor operístico das Américas. Ele se chamava Carlos Gomes", disse Zilidoro. E eu: Muito bem, muito bem Zilidoro. E você sabia que um amigo meu também morreu num 16 de setembro? Era cartunista. 
Fortuna 
"Cartunista? Deixe-me ver... Não, não lembro. Não sei. Quem é, quem foi?", quis saber nosso poeta de plantão Zilidoro.
De repente, pra surpresa geral, Lampa levantou a cabeça dizendo: "Outro dia eu vi no jornal que o patrão aí chegou a escrever um livro sobre esse tal de Carlos Gomes".
Eu ri, não tinha outro jeito e acrescentei: É verdade, escrevi um livrinho sobre nosso querido compositor e maestro Carlos Gomes. E o amigo cartunista fez um cartum muito bonito anunciando o lançamento desse livro. O livro chamou-se O Brasileiro Carlos Gomes e o cartunista em questão tinha por nomeJosé Reginaldo de Azevedo Fortuna, ou Fortuna simplesmente.
"Esse Fortuna nasceu no Maranhão?", quis saber Barrica. Respondi afirmativamente. Foi a vez de Biu também falar: "Esse Fortuna tem a ver com os irmãos escritores Aloísio e Arthur de Azevedo?".
Não, não. A curiosidade fica apenas no nome Azevedo que os três tinham. E a coincidência é que todos nasceram em São Luís, MA.
Enquanto eu falava, Zilidoro mexia no celular. E de repente, disse "Eureka!". Ele acabara de localizar a capa do livro que escrevi sobre Carlos Gomes e o convite de lançamento feito pelo querido Fortuna. É isso. E um bom dia a todos!

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

O BRASIL SEM GAYA HÁ 35 ANOS

Não custa lembrar: hoje 15 faz 35 anos do desaparecimento do compositor e maestro paulista de Itararé Lindolpho Gaya (1921-1987).
Eu conheci o maestro Gaya no começo dos anos de 1980, quando o cantor e compositor Taiguara a ele me apresentou.
A história do maestro Gaya começa em 1942, quando começou a tocar piano em programas de calouros na Rádio Transmissora, RJ.
As primeiras músicas gravadas por Lindolpho Gaya foram Morrer Sem Ter Amado e Último beijo, ambas de Zequinha de Abreu, em 1951.
Um dos últimos trabalhos do maestro Gaya são os arranjos que fez para o último LP de Taiguara: Canções de Amor e Liberdade (Continental; 1984).
Outro dia, na TV Cultura, eu e o amigo Flávio Tiné andamos falando a respeito de Taiguara. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

HOJE É DIA DE ISMAEL SILVA

O carioca Ismael Silva é uma lenda.
Ismael Silva, mais do que uma lenda, é um nome importantíssimo para a cultura sambista do Brasil. Foi ele quem criou a primeira escola de Samba: Deixa Falar.
A vida de Ismael foi uma vida atribulada. Ele nasceu no dia 14 de setembro de 1905. Era brigão, mesmo franzino. Metido, como se diz na minha terra paraibana, João Pessoa.
O samba ainda não existia quando já existia Ismael. 
Os primeiros sambas, as primeiras músicas já letradas de Ismael, foram gravadas por Chico Alves. O tempo deu a Chico o título de Rei da Voz.
Curioso com minhas palavras ditas sobre Ismael, o amigo Wallace pergunta: "Assis, é verdade que o Ismael era gay?".
Bobagem, bobagem Wallace, as pessoas são o que são. E o que tem a ver uma coisa com a outra? Nada, não é? A grandeza do Ismael Silva não se mede por seu comportamento. Mas sim, ele era gay. Nenhum problema quanto a isso. Quem revelou esse comportamento de Ismael foi um dos mais importantes estudiosos da nossa história, José Ramos Tinhorão (1928-2021). Tudo na vida engrandece a vida do cantor e compositor Ismael Silva. Maravilhoso sob todos os aspectos. E, como eu disse: foi ele quem criou a primeira escola de samba. O resto é detalhe.
Wallace é paulista de Guarulhos. E hoje ele veio acompanhado de uma amiga Saara, estagiária de Fisioterapia (UNINOVE) na UBS Santa Cecília.
Saara é uma mulher nascida no município de Jardim do Ciridó. Fica lá no Rio Grande do Norte, terra de Luís da Câmara Cascudo, informalmente meu professor. E curiosa como Wallace, Saara pergunta: "Assis, Luís da Câmara Cascudo é mesmo do Rio Grande do Norte?". Respondi que sim, de Natal. Frequentei muito a casa de Câmara Cascudo, na Matias Ayres, RN. Foi um grande brasileiro, autor de 150 títulos. 
Nenhum estudioso da cultura popular brasileira foi tão importante quanto o mestre Cascudo.
De boca aberta, Wallace pergunta: "Qual a música mais bonita de Ismael Silva, Assis?". Respondi que há muitas músicas bonitas de Ismael. Particularmente eu gosto de Se Você Jurar. A letra é essa:
 
Se você jurar que me tem amor
Eu posso me regenerar
Mas se é para fingir, mulher
A orgia assim não vou deixar

Muito tenho sofrido
Por minha lealdade
Agora estou sabido
Não vou atrás de amizade

A minha vida é boa
Não tenho em que pensar
Por uma coisa à-toa
Não vou me regenerar

A mulher é um jogo
Difícil de acertar
E o home como um bobo
Não se cansa de jogar

O que eu posso fazer
É se você jurar
Arriscar a perder
Ou desta vez então ganhar
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

CARLOS GOMES CONTINUA ESQUECIDO


Há 35 anos eu publicava pela Companhia Editora Nacional o livro O Brasileiro Carlos Gomes. A ideia era alcançar leitores em formação. Não sei se o alvo foi alcançado, de qualquer modo o livro ganhou grande repercussão na Imprensa. O jornal Il Corriere, edição de 21 de setembro de 1987, publicou matéria de página inteira, destacando a barreira do esquecimento que separa Gomes do Brasil. Ele recebeu muitas pedradas de intelectuais que participaram da semana de arte moderna de 1922. Triste. Lamentável, mesmo. Leia o que publicou Il Corriere:



HERÓDOTO TEM NOVO LIVRO NA PRAÇA

Paulistano da safra de 1946, Heródoto Barbeiro é um dos nomes mais representativos e queridos do rádio brasileiro. Está na área há muito tempo. Foi um dos criadores da rádio CBN, passou pela TV Cultura e outros veículos da Imprensa de São Paulo. "É bacharel, licenciado, pós-graduado e mestre em História pela USP (Universidade de São Paulo), onde lecionou durante 12 anos. É também inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, em São Paulo", aponta o seu vasto e rico currículo.
Heródoto Barbeiro, carinhosa e reconhecidamente chamado de Professor pelos colegas, é daquelas pessoas que, com talento e graça, encanta a todos à primeira vista. É bom papo, é bom sujeito, marcante por onde passa.
Autor de muitos livros, Heródoto Barbeiro apresenta o jornal da Record News desde maio de 2011. Faz podcasts, faz textos pra blog e pra jornais. Antenado, está sempre atento às alegrias e mazelas da vida. O jornalismo está nele como nele está o jornalismo.
O mais novo livro de Heródoto, 100 anos do Rádio no Brasil (Ed. Lafonte), traz a assinatura de mais dois colegas: Nilo Frateschi e Fernando Vítolo (acima, com o radialista Carlos Silvio).
No próximo dia 1° de outubro Heródoto Barbeiro vai estar no programa Paiaiá na Conectados, apresentado por Carlos Sílvio. Bom papo, quem perder é bobo.

domingo, 11 de setembro de 2022

O RÁDIO GANHA HINO EM RITMO DE SAMBA (2, FINAL)

Em 1919, ano que os pernambucanos reivindicavam para si a instalação do rádio, o carioca Chico Alves fazia sua primeira gravação em disco. Título da música, uma marcha: Pé de Anjo, de autoria do compositor Sinhô.
Naquele mesmo ano de 19, nascia em Santana do Livramento, RS, Antônio Gonçalves Sobral. Esse Antonio viria a se tornar o primeiro cantor Rei do Rádio: Nelson Gonçalves.
O curioso nessa história toda é que até agora, 100 anos passados, ninguém teve a ideia de compor um hino em homenagem ao Rádio.
Em 1936 João de Barro, Lamartine Babo e Alberto Ribeiro compuseram a marcha Cantores do Rádio, que foi gravada pela primeira vez, na Odeon, pelas irmãs Carmen e Aurora Miranda no dia 18 de março daquele ano de 36.
Hoje em dia é comum as emissoras de rádio venderem horários.
É comum também as emissoras abrirem espaço para programas temáticos.
Há programas longevos que tratam especificamente de gêneros musicais. Na Rádio USP, por exemplo, há um programa dedicado ao samba, há 40 anos. Título: O Samba Pede Passagem, apresentado por Moisés da Rocha. Ainda na USP há o programa Vira e Mexe, de forró, apresentado pelo paulistano Paulinho Rosa. Na Rádio Imprensa FM 102,5 há o programa Pintando o Sete, também de forró, apresentado pelo pernambucano Luiz Wilson. Esse programa já dura 15 anos, como 15 anos dura também Vira e Mexe.
Em Teresina, PI, o professor universitário de física Wilson Seraine apresenta todos os sábados o programa A Hora do Rei do Baião, que já dura 15 anos e é todo dedicado a Luiz Gonzaga e a sua obra. Ele diz:
“Não lembro bem da primeira vez que ouvi um rádio, mas sei bem que ouvi várias vezes na infância com os moleques nordestinos nas ruas do subúrbio de Realengo, no RJ, donde saí para o meu Piauí aos 12 anos. Depois, ao longo da vida, não ouvia muito. Mas, um dia um amigo me convenceu a apresentar um programa sobre as coisas do Nordeste. Luiz Gonzaga inclusive. Resumo, lá se vão 15 anos do programa – A HORA DO REI DO BAIÃO, na FM Cultura de Teresina. Nunca mais largo esse vício, o rádio me fisgou de vez”.
Em Recife, PE, pela Rádio Universitária, é apresentado diariamente o programa Forró, Verso e Viola. Apresentador: Ivan Ferraz, que também é compositor e cantor com um compacto, nove LPs, 11 CDS e um DVD na bagagem.
É inegável a importância do rádio em qualquer lugar do mundo.
No Brasil, o rádio ajudou a enterrar a República Velha e a criar o lamentável Estado Novo (1937-1945) de Getúlio. Ajudou também no fortalecimento da Democracia, antes e depois da ditadura militar (1964-1985).
Há até uma rádio, no Brasil, cuja programação é toda direcionada ao jornalismo: CBN, levada ao ar pela primeira vez em outubro de 1991. À época, um de seus criadores foi o jornalista Heródoto Barbeiro, autor do livro 100 anos de Rádio no Brasil (Ed. Lafonte).
Eu, da minha parte, lembro aos desavisados que há muito estou fora do "dial". Ah! Sim: iniciei a carreira de jornalista e radialista no jornal O Norte e na Rádio Correio da Paraíba, em João Pessoa, PB.
Bom, por não ter o que fazer, compus uma letra e convidei o craque Jarbas Mariz para melodia-la. Título: O Samba do Rádio.

Uma caixinha mágica
Faz o mundo se ligar
Dessa caixa sai a voz
De quem tem o que falar

Sobre tudo conta a voz
Que tem sempre o que contar
Pra saber o que se passa
Basta fazê-la falar

Ligada a caixa fala
Toca e canta sem parar
Fora isso diz a hora
Pra ninguém se atrasar

Variadas formas tem
Essa bela invenção
Que cabe bem certinho
Até na palma da mão

O autor dessa magia
Foi o padre brasileiro
Roberto Landell de Moura
Famoso no mundo inteiro

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora
Charge de Fausto Bergocce

sábado, 10 de setembro de 2022

O RÁDIO GANHA HINO EM RITMO DE SAMBA (1)

Para radialistas e especialistas em radiodifusão o dia 7 de setembro é o Dia do Rádio no Brasil, mas a data é questionada por pesquisadores do tema em Pernambuco, PE.
Segundo pesquisadores da terra de Capiba, grande compositor e pianista reinventor do frevo, no dia 6 de abril de 1919 um grupo de amadores diletantes do telégrafo fundou a Rádio Clube de Pernambuco. Na ocasião foi instalada uma geringonça que permitia a transmissão de voz a pouca distância. Era o rádio chegando em Pernambuco de modo amadorístico.
No estrangeiro, o italiano Marconi patenteava o que afirmava ser invenção sua. Pegou.
Em São Paulo, SP, o padre cientista Roberto Landell de Moura queimava as pestanas fazendo cálculos e cálculos e testes direcionados a mais uma de suas investidas no mundo encantado da Ciência. O objetivo, desafio mesmo, era transmitir a voz humana através de fios e tal.
Os esforços do padre Landell não receberam atenção nem compreensão de ninguém, nem dos membros da sua congregação. Achavam-no louco e até feiticeiro. Se a Inquisição ainda estivesse em voga, Landell teria certamente ardido em chamas numa fogueira qualquer.
No Brasil corria o ano de 1881.
Por meios próprios, sem apoio econômico ou político, Landell de Moura conseguiu patentear suas pesquisas em torno do rádio nos EUA. Mas já era tarde e, assim, Guglielmo Marconi levou todos os créditos e aplausos como inventor do rádio.
No dia 7 de setembro de 1922, realizava-se no Rio de Janeiro uma exposição multifacetada para lembrar e comemorar o primeiro centenário da independência do Brasil. Marconi foi convidado e lá esteve. Uma antena transmissora foi instalada no Corcovado e, como num passe de mágica, habitantes de Niterói,
Petrópolis e adjacências, além das capitais fluminense e paulista, ouviram extasiados o presidente Epitácio Pessoa proferir laudatório discurso sobre o evento.
No ano seguinte, 1923, o cientista Roquette Pinto juntava-se a amigos e fundava a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, oficialmente considerada a primeira emissora de rádio do Brasil.
A Rádio Sociedade tinha como programação música de boa qualidade, erudita e popular.
Antonio Carlos Gomes e Sinhô, de batismo João Batista da Silva, foram os primeiros compositores a terem obras executadas pela Rádio.
Era tudo feito de forma precária, amadorística.
Roquette Pinto usava muito o microfone da sua emissora para ler notas sobre artes e música, publicadas nos jornais da época. Talvez tenha sido ele o inventor do radiojornalismo. É meio esquisito dizer isso, mas a possibilidade não pode ser afastada.
Antes de 1930, as emissoras foram se multiplicando no Rio e em outros lugares.
Em 1926, surgiu a primeira rádio "comercial" do País: a Mayrink Veiga.
Logo após a tomada do poder por Getúlio Dornelles Vargas, as emissoras de rádio foram autorizadas por decreto para faturar com comerciais. A propósito: foi no governo Vargas que surgiu o programa A Voz do Brasil, no começo chamado Programa Nacional e A Hora do Brasil.
A Voz do Brasil é o programa de rádio mais antigo do mundo. Foi criado em 22 de julho de 1935, por um cara chamado Armando Campos. Esse Campos vinha a ser amigo de infância de Vargas.
Em 1936, Roquette Pinto doou a Rádio Sociedade para o Ministério da Educação e Cultura, MEC.
A Rádio MEC está no ar até hoje com programação voltada à cultura.
No mesmo ano de 36, precisamente no dia 12 de setembro, era inaugurada a Rádio Nacional.
A Nacional marcou época na radiodifusão, no Brasil. Seus estúdios eram amplos, modernos, e funcionavam no prédio do jornal A Noite, localizado na praça Mauá, RJ.
Todos os grandes artistas da época passaram pela Nacional. Inclusive os humoristas.
A Rádio Nacional era riquíssima no item humor com Castro Barbosa, inclusive.
Em janeiro de 2003, o jornalista Paulo Perdigão lançava à praça o livro PRK-30, contando a história da Rádio Nacional e os artistas que por lá passaram. Detalhe: Esse livro traz dois importantíssimos CDs com trechos de vários programas apresentados na Nacional.
E não custa lembrar que a primeira radionovela no Brasil foi apresentada na Rádio Nacional. Título: Em Busca da Felicidade, do cubano Leandro Blanco. Essa mesma novela iria, em 1965, para a televisão. No caso, a extinta Excelsior.
Nos fins de 1937, começaram os concursos para "eleger" as cantoras mais admiradas. Foi assim, no começo de 1938, que a cantora Linda Batista virou a primeira Rainha do Rádio. As quatro seguintes foram: Dircinha Batista, Marlene, Emilinha Borba e Ângela Maria.
Linda Batista ficou como "rainha" durante quase 11 anos.
Emilinha Borba era a favorita, a preferida, da Marinha. E Marlene, a cantora do Exército.
Ângela Maria foi a "rainha" que mais recebeu votos na história dos concursos do gênero: 1,5 milhão. Ângela era, para Getúlio Vargas, a melhor cantora do Brasil. Foi ele quem a apelidou de Sapoti.
Atualmente existem mais ou menos 10 mil emissoras de rádio no Brasil, metade delas comunitárias.
Os tempos hoje são, claro, bem diferentes dos tempos de ontem.
Hoje tudo parece correr na velocidade dos raios.
A rádio, diziam, que estava com os dias contados com a chegada da televisão no Brasil, ocorrida no dia 18 de setembro de 1950. Coisa nenhuma, rádio e TV deram-se as mãos e continuam vivendo muito bem. Detalhe: entre os anos de 1940 e 1950 havia no país a Revista do Rádio e Radiolândia, que destacavam os artistas e apresentadores do rádio. E existia também revistas abordando temas ligados à rádio e a TV.
O rádio está na TV e a TV, no rádio.
E agora tem o Podcast chegando e, pelo jeito, pra ficar.
Fora isso, tem as rádios Web, como a rádio Conectados. Nessa rádio o baiano Carlos Silvio apresenta, ao vivo, o programa Paiaiá na Conectados. Sobre a sua relação com o rádio, diz o apresentador:
“Como nasci e vivi até os meus 21 anos na roça, lá no Paiaiá (Bahia), sem luz elétrica e o luxo da televisão, o meu companheiro sempre foi o rádio. O rádio de pilha. Ao chegar na maior cidade do País, São Paulo, em busca de uma vida melhor, o amor pela comunicação me levou para o maravilhoso mundo do rádio. Jamais imaginaria ser indicado ao Prêmio Melhores do Rádio, pela APCA. O rádio é, para mim, o veículo de comunicação mais importante e com o advento da internet, deu mais vida ao que jamais morrerá. Viva o rádio!”.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

NO RÁDIO, O NORDESTE EM SÃO PAULO

Assis Angelo e convidados do
São Paulo Capital Nordeste
Eu comecei a minha carreira de jornalista e radialista em João Pessoa, PB.
Meus primeiros textos foram publicados no jornal O Norte, da cadeia associada formada pelo paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello. À época, 1972, eu assinava meus textos sob o pseudônimo Di Angelus. Esses textos ocupavam uma coluna intitulada Arte e Espetáculos. 
No rádio iniciei carreira, ainda nos anos de 1970, na Correio da Paraíba como produtor e locutor noticiarista, à tarde de hora em hora. À época eu me identificava pelo pseudônimo D'Ângelo Bianchini.
No decorrer do tempo, usei quase duas dezenas de pseudônimos.
Na Paraíba, o rádio foi inaugurado no dia 25 de janeiro de 1937. Era estatal e se chamava, como se chama até hoje, Tabajara.
Depois da rádio Tabajara, foi inaugurada a Arapuan no dia 18 de agosto de 1950. Eu nasceria dois anos, uma semana e 2 dias depois: a 27 de setembro.
No dia 22 de agosto de 1976, eu chegava à Capital paulista.
Em São Paulo apresentei programas nas rádios Mulher, Atual, Capital e Trianon. 
Na rádio Atual eu apresentei o programa Gente e Coisas do Nordeste.
Na rádio Capital eu apresentei o programa São Paulo Capital Nordeste.
Na rádio Trianon eu apresentei o programa O Brasil Tá Na Moda.
Na rádio Jovem Pan trabalhei na chefia de reportagem.
Entrevistei centenas e centenas de artistas como Dominguinhos, Inezita Barroso, Mário Zan, Otacílio Batista. Muitos.
Otacílio Batista foi um dos mais importantes repentistas do Brasil.
Muitos nordestinos ocuparam, e continuam ocupando, os microfones de rádio em São Paulo. Entre esses, Germano Júnior, Mano Veio e Mano Novo e Luiz Wilson.
No dia 9 de setembro de 2007, o compositor e cantor pernambucano Luiz Wilson entrava no ar pela rádio Imprensa FM 102,5 apresentando o programa Pintando o 7. É ele quem conta:
 
Minha inspiração começou na infância, no Sítio Recanto Verde-Sertânia, PE, com aproximadamente 10 anos ouvindo a Rádio Cardeal de Arcoverde. Iniciei na carreira musical e abracei o rádio depois. Já  gostava do Rádio,  mas só tive oportunidade de me dedicar quando deixei a área comercial, onde trabalhava. Iniciei no rádio gravando uns Programas e seleções musicais para a Rádio Nacional de Cotia, a pedido do saudoso Sr Waldemar Ciglione. Posteriormente apresentei Progranas em Rádios Comunitárias. Estreei o Programa Pintando o 7 na Rádio Imprensa FM 102,5 de São Paulo. Comemorando 15 Anos, o programa é compromissado com o resgate e a Preservação do Forró Pé de Serra e demais segmentos da cultura popular. Em 2016 ampliei o Pintando o 7 para a Rádio Itapuama FM 92,7 da Cidade de Arcoverde, PE, a caminho de sete anos no ar. Como Intérprete gravei 15 discos, sendo dois compactos duplas,  01 LP e 12 CDs. Aproximadamente 140 músicas gravadas. Como Cordelista são aproximadamente 20 folhetos, em destaque o Livro/ Método de Vendas: Vendendo e Aprendendo em Cordel.

O programa Pintando o 7, produzido pela cantora mineira Fatel, é um programa recheado de xotes e
Beto Alves, Paulinho Rosa e Dominguinhos na Rádio USP
forrós, como é o programa do paulistano Paulinho Rosa. É ele quem conta:

Talvez por amar rádio e achar um veículo de comunicação fantástico acabei conseguindo criar, produzir e apresentar um programa chamado Vira e Mexe na Rádio USP, programa este que mostra tudo sobre o FORRÓ desde de 2009 e que teve ninguém menos que Dominguinhos como parceiro e ainda o Beto Alves, um ótimo técnico que ajuda em tudo o programa. O programa reflete a minha vivência como produtor de FORRÓ há 22 anos no Canto da Ema e muito do que aprendo na musica sendo sócio da Casa Natura Musical.
 
Outro paulistano que fazia da música do Nordeste bandeira no rádio foi Jorge Paulo (1938-2015).
Durante anos e anos Jorge apresentou o programa Chapéu de Couro nas rádio Bandeirantes, Cultura, Globo. Até um filme ele estrelou. Neste filme, Chapéu de Couro, participou o rei do baião Luiz Gonzaga. Éramos amigos e ele costumava abrilhantar nossas conversas com suas histórias. Chegou a ser deputado.
O compositor e cantador mineiro Téo Azevedo também usou os microfones de rádio (Record e Atual) para mostrar os artistas da sua terra e do Nordeste.
Ao lembrar do rádio da Paraíba, lembro-me imediatamente de nomes famosos como Enoque Pelágio e Bernardo Filho, com quem trabalhei na rádio Correio da Paraíba.
Enoque, durante anos, apresentou o programa líder de audiência Eu Sou Eu e o Povo é o Povo. Essa história é contada pelo historiador José Octávio de Arruda Mello, no Livro A Arapuan e o Rádio Paraibano — Uma Biografia Dual (Ed. A União, 2020).
Por ninguém ter se tocado em compor um hino para o rádio, Jarbas Mariz e eu compusemos O Samba do Rádio. Abaixo, na voz do próprio Jarbas: 

O IDIOTA E A RAINHA

A minha filha Ana Maria telefona perguntando se eu vou ou não escrever sobre o desaparecimento de uma de suas melhores amigas. Foi ontem, ela disse. Curioso, perguntei: quem é essa sua amiga, filha?
Com um sorrizinho cheio de graça, Ana Maria respondeu: "A Beth, pai. A minha rainha morreu".
Diante de tal curiosa revelação, prometi escrever algo. Começo assim:

A rainha Elizabeth
Partiu silenciosamente
Deitada na sua cama
Pensando na sua gente
Pra sempre seu nome fica
Gravado na nossa mente

Com certeza foi grande
A rainha dos ingleses
Amada por muitos povos
Entre os quais os franceses
Sem esquecer os alemães
Esquimós e holandeses

Mas posso também falar
Da rainha Flor Maria...


Elizabeth II (1926-2022), a mais longeva dentre todas as rainhas, deixou exemplo a ser seguido por governos e povos de todas as línguas. Há mais de seis mil línguas na boca dos povos. Línguas vivas. E há tiranos e democratas no mundo.
A democracia é o melhor sistema de governo pra tudo quanto é gente.
Elizabeth II era democrata.
Bolsonaro é um idiota.
Pela primeira vez na história da nossa República, um presidente não comparece a uma solenidade de homenagem à independência do Brasil. Triste. Lamentável, sob qualquer ponto de vista.
O presidente do Senado, Ricardo Pacheco, foi a primeira autoridade brasileira a se manifestar publicamente sobre o desaparecimento da rainha Elizabeth.
E já que falei do Senado, não custa lembrar que houve lá uma sessão especial muito bonita em comemoração ao bicentenário de Nossa Independência. À cantora Fafá de Belém coube interpretar o Hino Nacional. Representantes de vários países, como o presidente de Portugal, prestigiaram o evento. 
No dia 7 de setembro a Embaixada britânica em Brasília acusou o recebimento de uma mensagem de parabenização ao Brasil assinada pela rainha Elizabeth II. A mensagem é a seguinte:
"Em meio à celebração da importante ocasião dos 200 anos de independência, gostaria de parabenizar Vossa Excelência e enviar minhas felicitações ao povo da República Federativa do Brasil, lembrando com carinho da minha visita ao país em 1968. Que continuemos trabalhando com esperança e determinação para superar os desafios globais juntos ".
A rainha Elizabeth foi recepcionada em São Paulo no ano de 68 pelo magnata da imprensa brasileira: Assis Chateaubriand. 
Há sim! Ia-me esquecendo de recomendar a leitura do livro O Idiota, de Dostoievski.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

JÚLIO MEDAGLIA E A IMPORTÂNCIA DO RÁDIO

Júlio Medaglia e Assis Angelo
O erudito e o popular se misturam no rádio e televisão.
Há 100 anos, quando o rádio foi inaugurado no Brasil, ainda não havia repórteres pondo a voz e as reportagens no ar. Só no final dos anos 30, começo dos 40, é que a figura do rádio-repórter passou a informar os ouvintes. Hoje há rádios voltadas especialmente para o radiojornalismo, como a CBN (Central Brasileira de Notícias; FM 90,5).
A primeira emissora de rádio com Frequência Modulada (FM) surgiu em 1971. Nome: Imprensa, FM 102,5.
Todos os grandes artistas, principalmente da música popular, passaram e continuam passando pelas emissoras de rádio. E até compositores e maestros, como o paulistano Júlio Medaglia, tem programa no rádio. No caso, na Cultura FM 103,3.
Há 35 anos, Júlio Medaglia faz-se presente com o programa Fim de Tarde. 
A história de Júlio Medaglia é uma história interessantíssima, importantíssima. Fez parte do Tropicalismo e até um programa de TV criou e apresenta desde outubro de 2005 na TV Cultura. Título: Prelúdio. E chegou a ser até diretor da rádio Roquette Pinto. 
Eu pedi e Júlio escreveu o texto que segue:

O rádio brasileiro representa (ou representou) um dos exemplos mais significativos de nossa cultura popular. Na época de sua implantação na Europa, os profissionais foram logo buscar em suas tradições culturais, a matéria prima do veículo. O rádio europeu transmitia peças literárias, teatrais, concertos, o máximo a que chegaram da cultura mais popular, era o cabaré. Ou seja. O rádio naquele continente era um veículo de outros veículos.
Como o Brasil não possui tradições tão pesadas como as europeias, os brasileiros foram brincar com o som transmitido e acabaram criando uma linguagem própria e muito original. O radialista nacional imediatamente inventou uma forma de jogar com a imaginação dos ouvintes, manipulando de forma brilhante o feitiço sonoro, fazendo o fazendo absorver aquelas sonoridades de forma criativa. As radiofonizações de novelas eram um primor, pois envolvidas em riquíssima sonoplastia de música clássica do século XX e final do XIX, transformava as ingênuas novelinhas em verdadeiras óperas faladas. Sim, porque os radio-atores impostavam a voz como se estivessem cantando.
Toda a música popular brasileira, da fundação do rádio até os anos 60, tinha no rádio seu principal veículo. Todas as emissoras possuíam orquestras sinfônicas – algumas enormes, como as da Rádio Nacional ou as das grandes emissoras de São Paulo, ou menores, de acordo com as possibilidades comerciais da empresa.
O noticiário era envolvido num tipo de locução e sonoplastia como se a coisa acontecesse num palco teatral em sua casa.
Quando o rádio completou 50 anos eu era diretor da Rádio Roquette Pinto do Rio de Janeiro. Recebi na época, patrocinado pelo Goethe Institut uma visita de radialistas alemães que aqui exibiram suas riquíssimas produções.
Deveriam fazer 4 palestras e eu uma pelo rádio brasileiro. Reuni trechos de novelas, humor dos mais variados, exibição de músicos populares famosos, irradiações de jogo de futebol e coisas assim. Quando acabou minha palestra um radialista alemão disse: não queremos fazer nossa última palestra. Pois o rádio que estamos trazendo e começando a fazer na Alemanha, moderno e criativo, é o que vocês fazem aqui no Brasil há 50 anos... Me orgulho, portanto, de ter, nesse veículo, um programa diário na Rádio Cultura de São Paulo à 5 da tarde, há 35 anos. Fim de tarde com o maestro Júlio Medaglia que assina esta crônica.
 
LEIA MAIS: JÚLIO MEDAGLIA, DO POPULAR AO ERUDITO 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

FINALMENTE UM HINO PARA O RÁDIO

Não custa lembrar, e é sempre bom lembrar, que no dia 7 de setembro de 1922 foi realizada a primeira experiência de transmissão da voz humana por meios magnéticos. Foi no Rio de Janeiro. Naquele dia inaugurava-se uma exposição sobre o 1º centenário da Independência do nosso País.
Foi também num mês de setembro de 1922 que os brasileiros ganharam, de modo definitivo, a letra e música do Hino Nacional. 
O Hino Nacional Brasileiro é formado por 12 decassílabos, sete tetrassílabos, dois heptassílabos, dois hendecassílabos e dois trissílabos. E mais, traz dois versos do poeta Gonçalves Dias: "Nossos bosques têm mais vida/Nossa vida no teu seio mais amores".
Oficialmente, o rádio nasceu no Brasil há 100 anos. O seu inventor foi o padre Roberto Landell de Moura.
O músico Jarbas Mariz e eu compusemos O Samba do Rádio. Fizemos isso para homenagear essa caixinha mágica. É um hino, diferente, mas hino. Ouça:

terça-feira, 6 de setembro de 2022

LIBERDADE É DEMOCRACIA!

O 7 de setembro é o dia que marca a separação política e social do Brasil de Portugal. Isso ocorreu em setembro de 1822 quando o imperador Pedro I se achava na Capital paulista, mais precisamente na região do Ipiranga.
O Ipiranga é um bairro da zona Sul de São Paulo.
Muita coisa boa e muita coisa ruim aconteceu antes e depois que o imperador anunciou, alto e bom som, que o Brasil já não pertencia a Portugal. O seu pai, dom João VI, ficou tiririca da silva. 
O filho de dom Pedro I, Pedro II, foi deposto por militares no ano de 1889. 
Vários militares governaram o Brasil, desde a primeira República. Até hoje os brasileiros lutam por paz e bem estar.
São muitas as manifestações populares que visam a preservação da Democracia entre nós.
Getúlio Vargas pôs fim à "velha República", em 1930.
Getúlio permaneceu à frente dos destinos do Brasil até 1945, quando foi obrigado a renunciar e no seu lugar ficou o marechal Eurico Gaspar Dutra.
Na discografia da nossa música popular se acham muitos títulos que falam de paz, progresso, liberdade e democracia. 
Ainda no governo Vargas foi lançada a marcha Democracia, de autoria de Aldo Cabral, Medeiros Neto e, embora não conste no selo do disco Odeon, Constantino Silva. Essa música foi gravada no dia 16 de setembro de 1946, por Gilberto Alves.
Nascido no Rio de Janeiro em 1912, Aldo Cabral foi jornalista, radialista, ator e autor de texto para o teatro de revista. Deixou mais de 60 músicas feitas em parceria com Benedito Lacerda e Ataulfo Alves, entre outros. Curiosidade: Aldo Cabral foi o primeiro jornalista a publicar uma reportagem sobre Luiz Gonzaga, em 1941. Essa reportagem saiu na extinta revista Vitrine, do Paraná, PR.
Aldo morreu em 1994, no Rio de Janeiro. 
Leia e ouça a marcha Democracia: 
 
Democracia para um mundo novo 
É o sol que nasce com deslumbramento 
Eleito o povo para o próprio povo 
É liberdade à voz do pensamento 
 
Democracia é a luz que invade 
Todas as grandes nações pela soberania 
É que na verdade 
Só há liberdade 
 
Onde há democracia 
Louvemos, pois, e com respeito 
Esse regime que defende e protege o Direito 
Ideal comum que assim exprime 
 
O direito que tem cada um 
Porque reduz, ponto final 
A opressão desigual 
O poder tirania 
 
Abaixo reino-unidos 
Mil e um partidos 
E viva a democracia.
 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

CEGA ESCAPA DA MORTE NO METRÔ

Vida de cego não é mole. De portadores de deficiência física, em geral.
Quinta 1º Magda de Souza Paiva, de 45 anos, dirigia-se ao trabalho quando, na estação Trianon-Masp do Metrô, escorregou e caiu da plataforma onde aguardava o trem. Assustados, os passageiros gritaram para que Magda se deitasse entre os trilhos e lá ficasse. Isso a salvou, pois segundos depois um trem com seis vagões passou sobre ela.
O caso é incrível. A passageira nasceu de novo.
Magda de Souza Paiva foi levada ao metrô pelo marido Marcos. No Metrô foi atendida por um funcionário. Inexplicavelmente a passageira alcançou a plataforma sozinha, sem ajuda de ninguém. E foi aí que aconteceu o imprevisto.
O Metrô de São Paulo opera com menos funcionários do que precisa.
Diariamente, segundo a diretoria de operação, são atendidos pelo Metrô cerca de 2.000 pessoas portadoras dos mais diferentes tipos de deficiência. Magda é 100% cega.
Nos poucos mais de 10 anos que trabalhei como assessor de imprensa do Metrô paulistano, nunca soube de algo sequer parecido com o que ocorreu com Magda de Souza Paiva, que trabalha como assessora parlamentar da senadora e candidata a vice-presidente Mara Gabrilli.

domingo, 4 de setembro de 2022

HUMOR, POLÍTICA E PROTESTO (2, FINAL)

O suicídio de Getúlio, além de enlutar o País, provocou uma enxurrada de folhetos de cordel e músicas nos gêneros mais diversos. Jackson do Pandeiro, por exemplo, emplacou o sucesso Ele Disse:

Ele disse muito bem:
O povo de quem fui escravo
Não será mais escravo de ninguém.

Para todo operário do Brasil
Ele disse uma frase que conforta
Quando a fome bater na vossa porta
O meu nome é capaz de vos unir
Meus amigos por certo vão sentir
Que na hora precisa estou presente
Sou o guia eterno desta gente
Com meu sangue o direito eu defendi.

Ele disse com toda consciência
Com o povo eu deixo a resistência
O meu sangue é uma remissão
A todos que fizeram reação
Eu desejo um futuro cheio de glória
Minha morte é bandeira da vitória
Deixo a vida pra entrar na história
E ao ódio eu respondo com o perdão.


Em 1959, o cantor e compositor Luiz Wanderley (1931-1993) mandou à praça o atualíssimo xamego Trabalhadores do Brasil:

Trabalhadores do Brasil.
Jamais o nome do Velhinho.
Será esquecido perante.
O operariado da nossa pátria.

Eu não aguento mais a situação.
Tá faltando carne, tá faltando pão.
Tá faltando leite e não tem feijão.

Trabalhadores do Brasil.
Vocês agora não tem pai.
O homem que lutou por vocês.
Que derramou seu sangue por vocês.
Foi embora e não volta nunca mais.
Ta faltando carne, tá faltando pão.
Tá faltando leite e não tem feijão.

Nosso povo hoje em dia.
Tá passando privação.
O dinheiro que ganha.
Não dá pra despesa.
Nem comprar um quilo de feijão.
Todo mundo vivendo na base do agrião.
Tá faltando carne, tá faltando pão.
Tá faltando leite e não tem feijão.

Na eleição de 1959, o povo de São Paulo elegeu a rinoceronte Cacareco como vereadora. Nenhum político teve tantos votos à época, como Cacareco. Protesto claro, claríssimo, dos eleitores de São Paulo.
Fechando com chave de ouro a história de Cacareco, a dupla Ouro e Prata lançou a marcha Cacareco.
Outra marcha que fez grande sucesso, em disco de 78 RPM, foi Só Mamãe Votou Em Mim na voz do ator e humorista Zé Trindade.
Na linha de Trindade, Waldomiro Lobo lançou O Candidato (Parte I e Parte II).
O teatro e os discos do desbocado Costinha, de batismo Lírio Mário da Costa (1923-1995), eram todos recheados de palavrinhas e muitos palavrões do mar agitado da sacanagem, diferentemente do que fazia seu colega de palco Zé Trindade (Milton da Silva Bittencourt; 1915-1990).
Diante de Costinha, Trindade era um santo, como Walter D'Ávila (1911-1996), com aquela carinha de besta...
No formato de LP, o satírico menestrel Juca Chaves deitou e rolou, falando/cantando política. Quem não se lembra de Presidente Bossa Nova, hein?
Como Juca, o humorista acreano José Vasconcelos (1926-2011) também deitou e rolou no campo político. Impagável o texto que interpreta intitulado Lançamento de Candidatura.
Chico Anísio e Jô Soares fizeram enorme sucesso com os personagens Salomé e o general argentino Gutiérrez.
Quem não se lembra da Salomé, do programa Chico City?
E quem não se lembra também do general Gutiérrez, que no Brasil tentava passar-se por baiano.
O escritor gaúcho Fernando Veríssimo também marcou bonito ao criar a Velhinha de Taubaté, que era a única pessoa que ainda acreditava no governo. Morreu diante da televisão, ao receber notícia sobre o Mensalão. Decepcionada, colapsou.
Os personagens políticos da vida real continuam pairando no imaginário popular, os mais frequentes são Getúlio, Juscelino, Jânio e Lula. Há muitas músicas compostas em louvor à Lula e uma ou outra "dedicada" a José Sarney e Collor.
São muitas as músicas de protesto. Chico Buarque e Vandré são os nomes mais lembrados nesse campo, mas o autor de Pra não Dizer que Não Falei de Flores não aceita essa classificação. "Não sou cantor de protesto coisa nenhuma, nunca protestei contra nada", disse ele um dia a este escriba de plantão.
É isso e a história segue.Quem não se lembra de Arueira? Clique:

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