O tráfico de africanos escravos para o Brasil começou em 1550.
A história conta que cerca de 5 milhões de africanos foram transformados em
escravos no nosso País. No correr da travessia pelo Atlântico, pelo menos 2
milhões de africanos foram atirados ao mar. Alguns, vivos.
Não é possível esquecer a tragédia da escravidão, no Brasil.
Num tempo lá atrás, ouvi muito pessoas referirem-se a negros como: "Coitado de
fulano, é um preto mas de alma branca".
Terrível.
E o que dizer de um negro fantástico como Martinho da Vila, de batismo
Martinho José Ferreira, referir-se a alguém da cor da sua pele como: “(...) É
um preto de alma branca."?
A pessoa a quem se refere Martinho ocupa um cargo importante na Fundação
Palmares. Essa pessoa tem trabalhado publicamente contra os negros, embora
negra seja.
A Fundação Palmares foi criada para defender a cultura produzida pelos negros.
Importantíssima essa fundação. Hoje, porém, desvirtuada nos seus propósitos
originais.
A fala de Martinho da Vila ocorreu segunda-feira 16, no programa
Roda Viva, da TV
Cultura, canal 2.
Na fala, o destaque:
“A Fundação Palmares era uma fundação criada para tratar dos assuntos da
cultura negra. Mas botaram aquele cara lá, o Camargo, um bolsonarista
radical. Ele é um preto de alma branca, como se diz. No duro, ele gostaria
de ser branco e se sente branco. Para ele, tem que acabar com todas as
coisas de negro".
Martinho da Vila é uma referência necessária, em qualquer tempo. Sua obra é
fundamental, grande do tamanho do seu talento.
Há alguns anos eu, o entrevistei no programa São Paulo Capital Nordeste.
Confira:
O cearense Klévisson Viana é ilustrador, quadrinista, cartunista, cordelista e
mais um monte de coisas ligadas à cultura popular. É palestrante, oficineiro,
roteirista, declamador e tudo mais. Fala pelos cotovelos. Tem uns 40 livros
publicados até agora e pelo menos 200 títulos de folhetos de cordel de sua
autoria rolando na mão do povo. É também editor e criador da Tupynanquim. Por
essa editora já publicou mais de mil folhetos de autores iniciantes e famosos
como José Costa Leite, Antônio Américo de Medeiros, Vicente Viturino, Marco
Haurélio, João Firmino Cabral, Rouxinol do Rinaré e
Mestre Azulão. “O paraibano Azulão, foi um dos grandes criadores da literatura de
cordel”, diz Klévisson Viana, acrescentando: “A obra desse mestre se acha
completa no acervo da nossa Tupynanquim”. Miolo da Rapadura é um dos
seus livros incluídos na rede de bibliotecas e salas de leitura do Estado do
Ceará. Esse é um livro recheado de histórias desenvolvidas em textos
corridos e em versos. Belíssimo. Com ilustrações, inclusive.Filho de seu
Evaldo e de dona Hathiane e irmão de
Arievaldo, Itamar, Marcos Aurélio, Autemar e Evandra, Klévisson Viana é provavelmente
o mais importante artista da cultura popular brasileira, na atualidade. É
múltiplo, multimídia, multitudo. Klévisson iniciou a carreira ilustrando
textos no jornal A Voz do Povo, de Canindé, CE. Tinha uns 15, 16 anos de
idade. Depois, aos 17 anos, ingressou como cartunista do jornal O Povo, de
Fortaleza, CE. Genialidade é uma coisa que não falta a esse cearense.
Marco Haurélio, Assis Ângelo e Klévisson Viana
Tinha
Klévisson 25 anos quando escreveu e publicou seu primeiro folheto de cordel: A
botija Encantada e o Preguiçoso Afortunado. Belíssimo. É muito difícil
falar de pessoas queridas, de pessoas que vivem à nossa volta. Conheci
Klévisson Viana há duas décadas, quando participou da exposição 100 Anos de
Cordel. Essa exposição, inaugurada no Sesc Pompéia, SP, em agosto de 2001, foi
idealizada pelo jornalista alagoano
Audálio Dantas
(1929-2018). Fiz parte dessa exposição, como curador da parte referente a
poetas repentistas. Dessa parte participaram Ivanildo Vila Nova, Oliveira de
Panelas,
Valdir Teles, Geraldo Amâncio, Andorinha, Sebastião Marinho, Mocinha de Passira e tantos
outros. Xilogravador, em 2001 Klévisson fez a sua primeira gravura em São
Paulo. Foi nesse mesmo ano que Klévisson escreveu com Téo Azevedo um
folheto intitulado “A peleja de São Paulo com o monstro da violência” e um
outro com seu irmão Arievaldo Vianna (1967 – 2020) sobre Bin Laden e a
destruição das torres gêmeas em Nova Iorque (Trend Center).
Sua primeira
xilogravura teve como “modelo” o autor do livro Dicionário Gonzagueano, que
não por acaso vem a ser eu. Klévisson cresceu e ficou do tamanho do
mundo, de um mundo sem tamanho. Correndo rápido que nem uma onça, em
disparada que nem um tufão, Klévisson entendeu muito cedo que era preciso
voar. E com as asas do pensamento tem realizado tudo que se possa imaginar.
Está se transformando num ser sem fronteiras. A obra de Klévisson
Viana já é conhecida em várias línguas, desde a França: México, Portugal,
Turquia, Bélgica... Há uns 10 anos fiz um roteiro sobre a vida do rei do
baião, Luiz Gonzaga, para Klévisson quadrinizar (Leia:
LUIZ GONZAGA O REI DO BAIÃO). Ficou muito bonito. Por esse tempo também compus com ele dois textos: um
sobre Dom Quixote e outro sobre Patativa do Assaré, ambos musicados e gravados
pelo baiano Gereba. Ouça:
QUIXOTEANDO Um
dos folhetos de Klévisson, A Quenga e o Delegado, foi adaptado para a série
Brava Gente (TV Globo, 2001). A personagem feminina do folheto teve a
brilhante interpretação de Ana Paula Arósio. Confira:
Antônio Clévisson Viana Lima nasceu no dia 3 de novembro de 1972, em
Quixeramobim (CE).
É como diria minha vó Alcina: "a política tá pegando fogo!"
Pois é, não é de hoje, os políticos estão acesos. E o pavio, curto.
Semana que passou rolou um pandemônio dos infernos, em Brasília e alhures. Começou com Bolsonaro, chamando Barroso de "filho da puta". O agredido ficou na moita, como manda o figurino jurídico. Mas o homem da caneta bic não parou por aí: foi se arrepiando, foi se arrepiando... Até tanque botou na rua. Tanque fajuto, mas tanque. A ideia era nos arrepiar. Com fumaça e tudo.
A semana que passou começou pegando fogo e terminou pegando fogo.
O Ministro Alexandre de Moraes, do STF, mandou pro xinlindró um ex-deputado. Esse falastrão, taliquá seu inspirador palaciano. A cadeia está ficando cheia de deputado e de ex-deputado, também. Até aquela Flor de não sei o que, deixa pra lá!
O grave nisso tudo, o mais grave, é que Bolsonaro não ver a hora de dá um golpe no toitiço do Brasil. É isso que ele quer, tanto que chegou ao ponto de afirmar que as Forças Armadas são o "poder moderador".
O Poder Moderador foi criado em 1824 e como tal constante da nossa primeira Constituição que durou até o Golpe Militar desfechado pelo Marechal alagoano Deodoro da Fonseca, em 1889.
As Forças Armadas, meus amigos e amigas, são instituições legítimas e necessárias criadas para defender o Brasil de ataques externos ou balbúrdia interna.
É de ser estranhar o fato de haver discussão em torno da qualidade da urna eletrônica. Nos últimos 25 anos, todos os políticos foram eleitos através do voto eletrônico. E ninguém chiou.
Bom, estou pronto pra votar. Na paz, com paz.
E viva o Brasil.
Roberto Siviero
A Olimpiada de 2020 terminou com 21 medalhas no peito de brasileiros e brasileiras, no Japão. Isso sem maiores incentivos oficiais do Estado ou da Iniciativa privada.
Há no Brasil pessoas incríveis dedicando-se a história do esporte. Um desses brasileiros é o paulistano Roberto Siviero que estudou e continua estudando mundo a fora é PHD em Admistração pela Universidade do Texas, EUA.
O cabra aí sabe tudo e mais um pouco sobre gestão de esportes.
Logo mais às 20h30, Siviero vai mostrar o que aprendeu ao radialista Carlos Sílvio.
Ps: as Paraolímpiadas 2020 começam no próximo dia 24 e se estenderão até o dia 05 de setembro. O meu treinador, Anderson Gonzaga, disse para minha tristeza que não estou preparado, quer dizer, fora de forma, sequer pra disputar a simples modalidade um "cuspe à distância".
"A minha vida é um desfuturo", diz Jão com as sobrancelhas pra baixo. Eu não
entendi, o que você quis dizer com isso, Jão? "O Brasil que eu amo, é um
Brasil que o presidente desama".
Jão, um dos meus botões prediletos, estava em baixa. Estava triste. "Mas ele
vai se levantar já, já", falou firme Zilidoro.
O Zé, que é de poucas palavras, diz que entendia perfeitamente o que Jão
estava a falar: "O que o sujeito lá do Planalto está fazendo é uma obra de
matar o povo".
Os gêmeos Biu e Barrica correram a acudir Jão: "Isso tudo vai passar, você vai
ver, Jão".
Lá do canto onde se achava, Mané tentou mudar de assunto: "Calma, calma. Isso
tudo que ora vivemos, vai passar". Certamente, disse eu. Acrescentei: os dias
brasileiros têm sido dias muito compridos, terríveis. Na política,
naturalmente.
Zilidoro, filosoficamente, disse: "A CPI da Covid tá botando pra lascar. Essa
CPI vai levar o negacionista Bolsonaro à cadeia".
"Na cadeia, eu tenho uns amiguinhos...", disse Lampa enigmaticamente, lambendo o seu punhal.
Aos meus ilustres botões, perguntei: O que vocês acharam do desfile dos
blindados do Exército, diante do esquisito presidente?
Em uníssono, em uma bagunça total, todos responderam: "UM HORROR! UM HORROR!"
"Seu Assis, o sr. conhece uma música chamada Fumacê?", perguntou-me Zé,
assanhado. "Pergunto isso porque tem tudo a ver com aquele desfile horroroso,
patrocinado pelas Forças Armadas lá em Brasília, em que um tanque se dissolvia em fumaça. Triste e trágico". Eu disse hmmm... E Zé: "Eu
gostaria de ouvir essa música e compartilha-la com o povo do meu povo."
Conterrânea do cantor e compositor paraibano Jackson do Pandeiro, Margarida
Maria Alves nasceu no dia da fundação da Paraíba: 5 de agosto.
Margarida foi uma mulher de força retumbante. Acreditava que só com luta era
possível alcançar a liberdade. E lutou.
No dia 12 de agosto de 1983, um bandido negacionista como Bolsonaro atirou uma
bala certeira em seu rosto, enquanto uma criança filha sua brincava na calçada
da casa onde morava, em Alagoa Grande, PB. Testemunhando tudo.
A ditadura matou essa Margarida.
Margarida é liberdade.
O cantor, compositor e instrumentista Jorge Ribbas gravou um texto que eu
quero que você, meu amigo e minha amiga, ouça:
Os negacionistas são pessoas que transitam na vida de modo irracional. São frouxas. São pessoas que vivem fora do mundo real. Lunáticas. Pior: pessoas que vivem para prejudicar as outras. São ruins. Covardes.
Esse tipo de pessoa existe desde tempos imemoriais.
Os negacionistas são diferentes dos ateus.
Os ateus não acreditam em Deus, os negacionistas não acreditam na verdade histórica. São contra a Ciência, por exemplo.
Giordano Bruno acreditava na teoria de Nicolau Copérnico, que acreditava na teoria de Eratóstenes.
Eratóstenes, um grego, foi o primeiro cientista a calcular a esfera terrestre. E isso quase 3 séculos a.C. Quer dizer: ele acreditava, já àquela época, que a Terra é redonda.
A teoria de Copérnico, que por pouco não o levou à fogueira, baseava-se no Heliocentrismo.
Bruno apostava todas as fichas em Copérnico. Resultado: ardeu na fogueira, no centro de Roma.
Os negacionistas são um horror.
Os negacionistas não acreditam na Santa Inquisição, no Holocausto e tudo o mais.
O presidente Bolsonaro, um idiota num estágio mais completo, não acredita que o Brasil viveu duas décadas mergulhado na ditadura militar (1964-1985).
Os negacionistas não acreditam na realidade que lhes incomodam. E não precisamos ir muito longe para confirmar isso.
Em 1902, a varíola invadiu os corpos dos brasileiros.
Os negacionistas não acreditaram na varíola.
Em 1918, os negacionistas botaram de novo as unhinhas de fora: não acreditaram na gripe espanhola.
Os negacionistas são um horror, loucos de pedra. Irracionais. Pe-ri-go-sís-si-mos.
Galileu Galilei apostou que a Terra é redonda, como Bruno, Copérnico e Eratóstenes.
Por pouco, Galileu escapou da fogueira. Pra isso, teve que desdizer a sua teoria perante à Igreja.
Essa raça, de negacionistas, existe há muito tempo.
João do Rio tinha 20 e poucos anos quando tentou seguir a carreira
diplomática, brecada injustamente pelo
Barão do Rio Branco.
Tarcísio como Hermógenes, em Grande Sertão: Veredas
Tarcísio Pereira de Magalhães Sobrinho tinha 20 e poucos anos quando tentou
seguir a carreira diplomática, tentativa essa brecada pelas notas baixas que
recebeu numa prova.
Esses dois Joões chegaram e partiram deixando obras inigualáveis.
Esses dois Joões são orgulhos nacionais, como Tarcísio Pereira de Magalhães
Sobrinho.
Ao ser reprovado pelo Itamaraty, o paulistano Tarcísio Pereira de Magalhães
Sobrinho trocou o nome de batismo pelo pseudônimo Meira, Tarcísio Meira.
O ator Tarcísio Meira começou a carreira no teatro em 1955. Três anos depois,
já ocupava o palco com destaque.
Em 1961 Tarcísio conheceu a gaúcha de Pelotas Nilcedes Soares e, olhos nos
olhos, apaixonaram-se.
Tarcísio Meira deixou uma obra muito bonita no teatro, cinema e TV
brasileiros. A Covid-19 o levou. Sua companheira Nilcedes, na arte Glória
Menezes, também pegou o novo Coronavírus e permanece internada no Hospital
Albert Einstein.
Em 1985, Tarcísio Meira interpretou brilhantemente o cangaceiro Hermógenes do
romance Grande Sertão: Veredas.
O Itamaraty perdeu um embaixador, mas ganhou um grande ator.
O Itamaraty perdeu João do Rio, mas o Brasil ganhou nele um grande jornalista.
É a vida
COVID-19/JORNALISTAS
Até agora o maldito novo Coronavírus contaminou milhões e milhões de
brasileiros.
Até agora, a maldita Covid-19 matou 278 jornalistas brasileiros. Desses, 199
até julho.
Fica o registro.
Ah! No dia 8 de agosto de 2020 escrevi e gravei o seguinte poema. Clique:
Tinhorão, Brau, Assis e Rosângela no Instituto Memória Brasil, IMB
Há uma semana o Brasil recebia a triste notícia do passamento do jornalista e historiador José Ramos Tinhorão. Pra muita gente, ele era uma pessoa inacessível, ranheta e personalista. Não era.
O meu convívio com Tinhorão foi longo. Posso dizer que ele foi o segundo jornalista que conheci em São Paulo, num ano qualquer dos 70. A seu respeito escrevi muitas matérias e fiz debates, o último em 2018, na Ação Educativa. O primeiro foi para o extinto Diário Popular, que ocupou duas páginas.
Uma das últimas vezes que Tinhorão esteve comigo, no Instituto Memória Brasil, IMB, foi no começo de 2019. Um pouco antes, o violonista Brau Mendonça e a cantora Rosângela Alves estiveram a me visitar. O resultado, foi um belo papo. Um trecho desse papo pode ser conferido num clique:
ANIVERSÁRIO
Ontem 10 foi um dia pra não esquecer: aniversário da menina Maria Cecília da Hora Sena Durães, que quer ser arqueóloga. A arqueologia é uma profissão que exige muita paciência de quem a abraça. Os profissionais dessa área, incluindo William Thoms são esforçadíssimos e pacientes. Fazem história da história. Foi não foi, correm notícias de que algum deles, ou alguns, descobriram pérolas enterradas há séculos, há milênios, na Paraíba, Piauí, Oriente Médio, na caixa e prego. E desse jeito, a história é reconstruída. Parabéns, Cecí!
No nosso acervo, a 3ª edição de Trovas Burlescas, de 1904
Luís Gonzaga Pinto da Gama tinha dez anos
de idade quando o pai, um português branco,
vendeu-o para saldar dívidas de jogo de azar.
Oito anos depois de ser vendido como
escravo, o menino Luís Gama fugiu e muito
tempo depois foi reencontrado servindo o Exército.
Estou falando de um tempo já distante, muito distante.
Luís Gama nasceu em 21 de junho de 1830 e morreu em 24 de
agosto de 1882.
Não foi fácil a vida desse menino.
A mãe de dele, Luísa, era uma africana livre.
Ela e o filho moravam
em Salvador.
Foi em Salvador que Luís Gama nasceu.
Logo após deixar o Exército, ele tentou estudar formalmente na
Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.
Mas
não conseguiu. O máximo que lhe permitiram foi assistir a aulas de
modo informal.
E assim virou rábula. E, como rábula, conseguiu a
libertação de centenas de escravos.
No momento, está em cartaz nos cinemas do País o filme Doutor
Gama, dirigido por Jeferson De. Gama é interpretado, em três fases
da sua vida, por Pedro Guilherme
(criança), Ângelo Fernandes (jovem)
e César Mello (adulto).
Além de abolicionista de primeira
hora, Luís Gama deixou uma obra
poética de grande expressão. Pequena, mas densa.
Em 1859, seus principais poemas
foram reunidos no livro Primeiras
Trovas Burlescas (Bentley Junior &
Comp − foto). Raríssimo.
Está mais do que na hora de as
editoras relançarem a obra desse
grande brasileiro.
Ia me esquecendo: a mãe de Luís
Gonzaga Pinto da Gama foi uma
pessoa muito importante na Revolta
dos Malês (1835).
Antes de mais nada, o seguinte: já passou da hora de José Ramos Tinhorão virar nome de um prêmio cultural, seja em que esfera for. Particular, inclusive.
O jornalista e historiador José Ramos Tinhorão fechou os olhos e partiu para a eternidade terça-feira 3.
Esse José eu conheci de perto.
Frequentei o seu espaço desde o tempo em que ocupava um minúsculo apartamento da Rua Maria Antônio, SP.
Costumávamos, nos últimos anos, molhar o gogó com uma boa cana ou um bom vinho na minha casa.
Muitas vezes, depois que perdi meu par de olhos, ele com toda simplicidade do mundo e atenção lia livros pra mim.
Sinto profundamente a sua falta. Era inteligentíssimo, persistente e arguto. Deixou uma trintena de livros publicados sobre a nossa formação cultural.
Nos últimos anos, nos últimos vinte e poucos anos, a historiadora aposentada pela USP, Maria Rosa, sua companheira, foi de grande importância na sua vida. Ele a ouvia com muita atenção. Maria o ajudava passando a limpo seus textos, já que ele costumava escrever à mão.
Guardo boas lembranças do amigo.
Lembro do "esporro" que me deu quando cheguei à Câmara Municipal de São Paulo para receber o título de Cidadão Paulistano, em 1998.Por ali. Eu estava atrasado para a solenidade e ele a minha espera do térreo do elevador que nos levaria ao andar onde recebi o título. O esporro deveu-se ao fato de eu não está engravatado. Só de bleize. "Como é que você vem receber o título de cidadão da cidade mais importante do Brasil, sem gravata?". Passo seguinte, tirou a própria gravata e a enfiou no meu pescoço.
Muitas histórias.
Muita gente passou a vida esculhanbando Tinhorão, dizendo que ele era um chato e tal. Não era.
Tinhorão era um doce de pessoa: afávio, solícito e atencioso.
Ganhei muito discos e livros dele. Eu retribuia-o com livros e discos que trazia das minhas andanças por lugares distantes da capital paulista.
Uma vez Tinhorão me disse que ficara curioso com um ritmo musical que até então desconhecia: o Rasga, de origem portuguesa e que não existe mais. Foi quado lhe disse que tinha um discos de 76 rpm(voltas) e com isso ele encerrou sua pesquisa que resultou no livro O Rasga.http://assisangelo.blogspot.com/2011/07/jose-ramos-tinhorao-e-sua-grande-obra.html
O cantor, compositor e instrumentista paraibano Vital Farias teve o seu nome
nacionalmente reconhecido primeiramente pelo jornalista, historiador e crítico
musical José Ramos Tinhorão. Isso em 1978. Detalhe: Tinhorão não gostava de
ser chamado de crítico.
Vital telefonou há pouco para dizer da gratidão que tinha por Tinhorão. Na
visão de Vital, Tinhorão foi um diferencial entre os jornalistas que escrevem
sobre discos e músicas.
A mesma coisa diz o compositor e instrumentista Osvaldinho da Cuíca, que um
dia decidiu mergulhar no mar das pesquisas. De certo modo, para Cuíca,
Tinhorão mudou sua vida. "Foi ele quem me chamou à atenção para a pesquisa
musical", conta o instrumentista.
Muitos e muitos artistas brasileiros não esquecem a seriedade com que Tinhorão
estudava a história brasileira, especialmente a história da música.
Lembro de certa ocasião em que Geraldo Vandré e Tinhorão discutiam
civilizadamente sobre música popular. Foi aqui, em casa. Tinhorão perguntou a
Vandré por que ele começou a carreira cantando e tocando bossa nova. Vandré
disse que não, que não cantava ou tocava bossa nova. E rindo, Tinhorão
cantarolou algumas faixas do primeiro LP de Vandré, lançado em 1964.
Era grande o respeito que Vandré tinha por Tinhorão.
Mas houve também artistas que tapavam o ouvido toda vez que o nome de Tinhorão
era lembrado. Caso de Aldir Blanc (1942-2020), que chegou a compor uma música
em parceira de Maurício Tapajós (1943-1995) depreciando o velho jornalista:
Querelas do Brasil, gravada por Elis Regina (1945-1982).
Audálio, Tinhorão e as gêmeas
"Tinhorão era um doce de pessoa", lembra o cartunista Fausto.
O jornalista alagoano Audálio Dantas também dizia do respeito que nutria por
Tinhorão. Idem as cantoras mineiras Célia e Celma: "Ele levava muito à sério a
história do Brasil".
Num dia qualquer de 2016, os jornalistas Colibri e Cilene, mais o ator e
câmera man Davi de Almeida, chegaram de repente a minha casa e surpresos deram
de cara com José Ramos Tinhorão. Colibri logo o convidou para uma entrevista
na Rádio que dirige, Brasil Atual. O papo foi longo.
Tinhorão era uma pessoa muito afável, muito alegre. Não tinha raiva, nem
guardava mágoa de ninguém. Era brincalhão, espirituoso, cheio de onda.
VOZ DISSONANTES
E deixou frases clássicas como essas: "Tenho pena de não poder ter sido amigo
do Tom (Jobim), porque ele era um bom sujeito, coitado. Só que pensava que
fazia música brasileira e fazia música americana".
Em 2002 convidei Tinhorão para participar do programa São Paulo Capital
Nordeste, que durante anos apresentei na Rádio Capital 1040 AM. Ele foi.
Na ocasião, vários artistas ficaram espantados com a sua presença. Fagner foi
um desses. E pra minha surpresa, li texto que ele escreveu a respeito do meu
programa:
Ainda não está tudo dominado. Também prefaciou um livro meu, sobre Luiz Gonzaga: Eu vou Contar pra Vocês.
Tinhorão, Assis Angelo e Téo Azevedo no Instituto Memória Brasil
Eu tive dois grandes professores: Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) e
José Ramos Tinhorão (1928-2021).
Aprendi, aprendi muito com eles.
Cascudo me apresentou o Nordeste como ele é e Tinhorão, a história do Brasil a
partir da nossa música popular. Como ela é.
O Brasil é o 5º maior país do planeta, territorialmente e populacionalmente
falando.
Somos um povo que vive num lugar sem terremotos e tsunamis.
Somos um povo simples e trabalhador.
Somos um povo de gênios, em todos os cantos da vida cotidiana. E multifacetado.
Fiquei triste, muito triste quando Cascudo partiu para a Eternidade.
Também fiquei triste quando Tinhorão partiu para a Eternidade.
Perdi meu pai e minha mãe há muito tempo.
Eu era menino de calça curta quando os meus pais partiram.
Ele Severino, ela uma Maria.
O luto faz parte da minha vida. Até parece que o luto me persegue: além dos
meus pais, perdi irmãos e muita gente querida. E agora lá se vai Tinhorão.
Toda perda é luto.
Fiquei de luto quando perdi o par de olhos que iluminava a minha cara redonda
de nordestino desembestado na vida.
Maria Rosa, aposentada historiadora da USP e companheira de Tinhorão por
muitos anos, telefonou-me para falar do sucedido.
Tinhorão sofreu um AVC no domingo de 27 de janeiro de 2019. Dois dias antes,
ele esteve comigo bebericando vinho.
"Ele sofreu muito, antes de morrer", disse-me Maria.
Tinhorão morreu num hospital do Alto da Lapa, SP.
Pra muita gente, ele era um intelectual raivoso. Não era. Quem privou da
sua amizade sabe disso. Na verdade, na verdade, ele era um tremendo
brincalhão.
Um dia, Tinhorão chegou cá em casa dizendo que estava cansado da vida. "Acho
que estou ocupando espaço alheio", disse. E disse sério. Acrescentando: "Ser
velho é uma merda!".
Tinhorão era ateu.
A obra desse brasileiro é importantíssima, toda desenvolvida pelo viés
marxista-leninista.
Tinhorão dedicou todo o seu tempo a entender e explicar o Brasil, para brasileiros. Houve momentos que sofreu com isso, sofreu por sentir-se incompreendido. Muito.
Chamavam-no de crítico musical. Ele não gostava disso. "Eu sou um historiador", disse-me mais de uma vez.
Tinhorão acreditava no povo e na força do povo. Casou-se com a filha de um
general... Não deu certo. Um dia disse à mulher: "Eu vou ali à padaria e volto
já". E não voltou.
Eu conheci José Ramos Tinhorão num dia qualquer de 1976 ou 1977. No tempo em
que morava numa kitnet da rua Maria Antônia, centro paulistano.
Viramos amigos, desde então.
O tempo passou e surpresas o tempo me deu. Fiquei cego, dos olhos. Só dos
olhos. Ao saber disso, Tinhorão ficou mais perto de mim. E eram boas as horas
que passávamos conversando, trocando ideias. "Você é um menino", provocava. E
rindo, "O que vamos ler hoje?". E aí pegava um livro, dentre milhares que há
aqui em casa, e lia.
Tinhorão e Fausto, no Instituto Memória Brasil
Às vezes ele trazia livros de casa para ler para mim. Revistas, às vezes.
Cá em casa foram muitas as vezes que a Tinhorão apresentei pessoas, como
Geraldo Vandré e Audálio Dantas. E tanta gente.
Certa vez, numa discussão agradabilíssima, Vandré tentou negar ter sido
bossa-novista. Tinhorão riu. E explicou cantando várias músicas do repertório
do primeiro LP do autor de Pra Não Dizer que Não Falei de Flores. Ao fim,
rimos todos.
Lembro de Tinhorão ouvindo atentamente o mineiro Téo Azevedo tocando viola e
cantando, cá em casa.
Lembro também de Tinhorão ouvindo atentamente o cartunista Fausto. E Fausto
encantado, dizendo: "Que alegria lhe conhecer, Tinhorão".
Muitas e muitas são as histórias que tenho com Tinhorão.
José Ramos Tinhorão partiu, mas deixou uma obra necessária para quem quiser conhecer a história da música e do Brasil.
Nascido em Santos, SP, José Ramos era formado em Direito e Jornalismo.
Começou a carreira de repórter como freelancer do Diário Carioca, em 1951.
Foi amado e odiado.
Quem amava Tinhorão, amava de verdade.
Quem odiava Tinhorão, odiava de verdade.
Certa vez lhe perguntaram o que achava da bossa nova. Uma bobagem, disse. E acrescentou: "O ritmo dessa bobagem é um pingo de chuva".
O "iê, iê, iê" era para Tinhorão, uma tradução mal feita do rock. "Uma coisa de otário, para otário", definiu.
Tinhorão foi o segundo jornalista que conheci quando troquei João Pessoa, PB, por Sampa. O primeiro foi o alagoano Audálio Dantas (1929-2018). À época, presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo.
A última vez que eu e Tinhorão nos encontramos foi na tarde do dia 25 de janeiro de 2019. Morávamos perto. Eu na alameda Eduardo Prado e ele na alameda Barão de Limeira, Campos Elíseos, SP. Ele costumava vir na minha casa (fotos acima) todas as quartas e sextas. Vinha bater papo. Vinha me distrair, especialmente depois que perdi a visão dos olhos.
Antes, dois dias depois de vir à minha casa, sofreu um AVC que o prostrou na cama até hoje 3, logo depois das 15h.
Começou com o apresentador falando da vida pregressa do entrevistado.
A primeira pergunta tratou de sua infância.
Depois, a entrevista ganhou corpo com diversos temas postos à mesa. E Filipe, falou, falou, falou. Bonito e rindo. Sempre rindo. Disse do seu interesse pela vida, pela profissão, pelo conhecimento. È também músico. Pianista.
Disse que sua cegueira tem aumentado no decorrer do tempo.
Filipe chegou a fazer tratamentos específicos, em Cuba e tal.
Chamou-me a atenção o fato de Filipe falar pouco sob sua condição de deficiente visual. Contratado pela jornal Folha e São Paulo é titular do blog semanal Haja Vista.
Segundo dados da ONU, a cada minuto uma pessoa fica cega no mundo.
No Brasil, o IBGE até agora não nos deu dados relacionados à questão. Fala de quinhentos e não sei quantos mil, 1 milhão, sei lá!
Há pessoas que nascem cegas, outras não.
Eu nasci vendo e agora já não vejo.
Para meu problema, houve uma explicação: descolamento de retina.
No começo, não foi fácil encarar a situação.
Submeti-me a nove cirurgias, a maioria no HC.
Foi terrível, principalmente na hora que os especialistas me deram a notícia de que pra meu caso, não há solução.
Meu mundo caiu, como na canção de Dolores Duran. Só que no meu caso, a questão não era de amor. Era de dor profunda na alma.
Os anos passaram e eu renasci, revivi.
Estou-me reinventando e a minha vontade maior, agora, é levar avante um programa pra tv. Título: Visão Cidadã.
Filipe Oliveira é paulistano do bairro da Bela Vista.
Ia-me esquecendo: há pouco ouvir uma belíssima fala do filósofo Clóvis de Barros.
Clóvis é jornalista e filósofo, perdeu um olho e agora corre o risco de perder o outro. Ele fala isso com toda naturalidade do mundo. Paulista de Ribeirão Preto, 55 anos. Confira:
O paraibano Bráulio Tavares é próxima entrevista de Carlos Sílvio. Amanhã, às 20h30.
Bráulio é um curinga da cultura popular brasileira. Sobre o assunto, sabe tudo e mais um pouco. Como se não bastasse, ele faz poesia e música. É bom de papo.
Depois de quase seis anos em obra, o museu da Língua Portuguesa volta a ser reinaugurado.
A solenidade de reinauguração ocorreu hoje e amanhã 1° será aberto à população. O museu da Língua Portuguesa, instalado no complexo da Estação da Luz, SP, foi engolido pelo fogo na madrugada de 1° de dezembro de 2015.
O incêndio engoliu tudo, incluindo um bombeiro que lutava contra as chamas.
É de grande importância esse museu. Ele conta a história da nossa língua e de línguas que influenciaram a língua portuguesa.
Convidados, os ex-presidentes FHC e Michel Temer compareceram e falaram a respeito da nossa língua. Lula e Dilma declinaram do convite. Bolsonaro, preferiu brincar de motociclista no interior de São Paulo.
Nove países falam português, entre os quais Angola e Moçambique, que herdamos de Portugal.
Eu estive na solenidade de entrega da área onde se acha o museu. À época eu estava à frente da assessoria de imprensa do Metropolitano.
Também estive na reinauguração do museu, mas não estive hoje na sua reinauguração.
O Brasil está de parabéns por ter uma museu tão importante.
No calendário oficial de comemorações, há um dia especial para lembrarmos a importância da língua que falamos, 5 de maio.
O radialista baiano Carlos Sílvio continua emplacando boas entrevistas no programa Paiaiá na Conectados, feitas ao vivo pela internet. Leia-se Youtube.
Durante a Pandemia que ora maltrata a humanidade Sílvio já entrevistou mais de 260 personagens, muitos das quais do meio cultural e jornalístico. Seu entrevistado mais recente foi o jornalista paulistano Wilson Baroncelli.
Baroncelli, editor executivo do news latter Jornalista & Cia, falou de sua vida pessoal e da sua vida profissional. Disse, por exemplo, que a tecnologia veio pra botar de ponta cabeça o jornalismo mundial. E que nesse área se considera um craque. Lembrou também dos grandes jornalistas como Zuenir Ventura, Jânio de Freitas e José Hamilton Ribeiro, "um exemplo de jornalista". Ressaltou a importância de Samuel Wainer (1910-1980) e Audálio Dantas(1929-2018). Disse que nasceu no bairro da Bela Vista e, antes do jornalismo, chegou até a trabalhar em instituições bancárias.
Foi uma bela entrevista.
Confira:
FILIPE OLIVEIRA
Daqui a pouco o radialista Carlos Sílvio entrevistará o jornalista Filipe Oliveira, paulistano de 37 anos.
Filipe, deficiente visual, falará da sua experiência profissional no jornal Folha de São Paulo, onde mantém a coluna Haja Vista.
No começo do século XX, o jornalista João do Rio emplacou vários furos de reportagem no jornal Gazeta de Notícias.
João, não à toa o criador da reportagem, subiu e desceu morros e lugares outros nunca frequentados por intelectuais ou repórteres.
A prática de furos nunca ficou de lado.
O repórter João do Rio morreu no dia 23 de junho de 1921. O newsletter Jornalista e Cia publicou edição especial a seu respeito. Clique.
Nos tempos atuais, os jornais Estadão, Folha, O Globo, a rádio CBN e programas de TV como Jornal Nacional e Fantástico têm abastecido a curiosidade dos leitores, ouvintes e telespectadores.
A podridão do governo Bolsonaro têm sido escancarada quase todos os dias. Isso é bom para os brasileiros e a própria democracia.
A história do jornalismo brasileiro e mundial é recheada de furos.
Na segunda parte dos anos de 1960, o repórter José Ramos Tinhorão brindou aos leitores uma belíssima entrevista com a viúva do Marechal Hermes da Fonseca, Nair de Teffé.
Eu mesmo realizei vários furos de reportagens.
Furo de reportagem é uma reportagem exclusiva ou uma entrevista igualmente exclusiva.
É isso.
Terça 27 o radialista Carlos Sílvio levou ao ar uma ótima entrevista com o repórter norte americano Ken Silverstein.
Silverstein é repórter investigativo. Já foi correspondente do Brasil para jornais estrangeiros. Uma vez lhe perguntaram, qual é o seu lado? "Não tenho lado", respondeu o jornalista. Confira a entrevista completa:
Os jogos Olímpicos sempre encantaram o mundo, desde tempos anteriores a Cristo.
Os tempos de hoje são enriquecidos ainda por esses jogos, pelas apresentações dos atletas concorrentes.
Isso tudo é muito bonito, visualmente.
A nossa sociedade, a sociedade mundial, é rigorosamente visual e preconceituosa.
Sofro com isso. Eu e milhões de cegos espalhados por aí afora.
Os apresentadores de TV não narram para cegos, narram para eles próprios: os visuais. Os jogos, esses jogos, continuam encantadores.
Orgulho-me ao saber da vitória dos nossos irmãos brasileiros. Emocionei-me ao "acompanhar" os movimentos de Ítalo Ferreira (Ouro); Rebecca Andrade, Raissa Leal, Kelvin Hoefler (Prata); Fernando Scheffer, Mayra Aguiar, Daniel Cargnin (Bronze).
Pra chegar ao podium, não é fácil. Principalmente quando se trata de atleta brasileiro, que não costumam receber apoio oficial. Ao contrário da China, Japão e EUA, cujos governos tratam os esportes e esportistas com todo carinho possível.
No Brasil, a luta de todos é hercúlea.
Até agora, dentre os sete medalhistas, há duas meninas e dois meninos de origem negra, e pobres. Quer dizer, a história se repete.
É preciso muito esforço e esperança pra que se concretize destaques entre os mais de cinco mil atletas que participam dos jogos em Tóquio.
Por onde vocês andaram, perguntei a meus botões: Zé, Mané, Biu, Lampa, Barrica, Zilidoro e Zoião. Barrica, que é chegado a um bom mé, fez hic e disse: "Tenho andado quieto, sem ter o que fazer".
Os outros botões, quase ao mesmo tempo, disseram: "Você nos abandonou e nos enfiou no armário".
É verdade, com esse frio que tem assolado nosso São Paulo, obrigou-me a trocar a camisa por vocês habitada por uma blusa de lã... "Sem botão, você é muito individualista", acusou-me Zilidoro. Fazendo coro, seguiram-se Barrica e Biu.
Barrica e Biu são irmãos gêmeos. Tem não sei quantos anos e uma cara safada de dar raiva. Ao mesmo tempo, disseram: "Na próxima vez que nos abandonar, nós é que lhe abandonaremos". Retruquei, tá bom, tá bom.
E joguei a eles uma provocação: "O que vocês acharam da última live do presidente?".
Lampa foi o primeiro a falar: "Eu já não aguento esse cara, estou amolando meu punházinho...". Ao ouvir isso, Zé gritou: "Já já ele vai ver!".
No Nordeste, quem diz que "você vai ver, você vai ver...", está ameaçando. Eu hein!
Quando já estava enfiando meus botões nas suas casas, ouvi Zoião falar: "O Brasil tá cheio de político safado e esse aí (Bolsonaro) é dos mais pior".
Despedindo-se, Barrica disse: "O frio continua, vou tomar uma". Mané riu, perguntando de modo irônico: "Eu só não entendi o que estava fazendo na Live o lunático que se identificou como astrólogo e acupunturista de árvore". Zilidoro explicou: "Ele estava ali alimentando o ego do seu criador".
“A fúria de papéis espalhados” é um livro que reúne 24 textos do crítico
literário Darlan Zurc. Nesses textos, o autor demonstra uma leveza inusual ao comentar
e descrever os personagens que escolheu para o seu livro, entre eles Paulo
Francis, José Ortega y Gasset e Karl Marx.
Ao comentar a obra de Francis (1930-1997), por exemplo, Zurc ressalta
que “ele foi e continua sendo uma das grandes influências em minha vida
intelectual. Foi por meio dele que comecei a mergulhar no mundo do jornalismo,
da história, da literatura e... a lista não acaba”.
É curioso também o destaque que Zurc também dá ao espanhol Ortega y
Gasset (1883-1955): “Na sua incrível obra ‘Estudos sobre o amor’, o filósofo
espanhol José Ortega y Gasset chama a atenção para o aspecto segundo o qual uma
falsa ideia, tipo a imagem stendhaliana sobre a relação amorosa, é altamente
nociva porque ela suplanta a verdadeira, dando origem a equívocos sucessivos”.
Gasset marcou profundamente a vida literária de boa parte não só do seu
país, mas de outros países.
Interessante, e muito interessante, é a abordagem que Darlan Zurc dá ao
fundador do comunismo. Ele destaca, por exemplo, o fato de Marx (1818-1883) ter
sido nas origens um cristão, e o tempo o transformou num ateu e num furioso
inimigo do capitalismo (clique
aqui).
Segundo Marx, escreve Zurc, a ideia de modo de produção “baseia-se na
premissa segundo a qual, em determinadas épocas da história, um tipo de relação
econômica é hegemônico, desenvolve-se por um tempo perante outros possíveis e
define a sociedade e a cultura”.
E por aí vai o autor de “A fúria de papéis espalhados”.
O livro, de 176 páginas, foi impresso em dezembro do ano passado e lançado
no formato convencional no final de abril deste ano.E, agora, publicado em
vários formatos digitais, merece toda a atenção possível do público-leitor de
Darlan Zurc.
No portal da Amazono livro pode ser acessado a qualquer hora do dia e
da noite pela quantia não tão irrisória de R$25. Mas vale a pena. Garanto.
Ouço no rádio notícia dando conta que um novo software (Pegasus) está na praça aterrorizando jornalistas. É de origem israelense e já se acha nas mãos de governos que desrespeitam as pessoas e seus direitos. O jornal The Guardian, de Londres, foi o primeiro jornal a dar notícia, sábado 18/07. E como uma coisa puxa a outra, lembrei-me que Londres foi o lugar que acolheu Karl Marx (1818 – 1883). Marx tinha 23 anos quando começou a ser perseguido pelos governos. Da sua terra, inclusive. Lembrei-me também que foi em Londres que Marx (e Engels) lançou o Manifesto Comunista, em 1848. Lembrei-me ainda que foi a partir das ideias de Marx (e Engels) que o Exército Prussiano meteu bala e encheu de sangue as ruas de Paris, em 1871. Foram muitos os mortos naquele ano, precisamente no decorrer da última semana de maio. Há 150 anos, portanto. Ates e depois de 1871, os jornais de direita tascaram o pau em Marx. Entre esses jornais, o Liberatión, que chegou a publicar uma carta falsa assinada por Marx. Pois é, Fake News já naquele tempo. O massacre de 1871 resultou na morte de pelo menos 30 mil integrantes e simpatizantes da Comuna de Paris. Além dos mortos, entre os quais mulheres e crianças, foram presas pelo menos 15 mil pessoas. Logo após o massacre, que entrou para a história como o mais violento do século XIX da Europa, o poeta francês Eugène Pottier (1816 - 1887) escreveu a letra do hino A Internacional. Essa letra ganhou melodia do franco-belga Pierre De Geyter (1848 –1932). Resultado: essa obra foi gravada em muitos idiomas. Mas cá pra nós: ainda prefiro a canção Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, do paraibano Geraldo Vandré. Detalhe: não custa lembrar que Marx foi o primeiro filósofo a expor a ideia favorável a imposto único, escola gratuita para todos, direitos do trabalhador, trabalho zero para criança e respeito às mulheres. Marx nasceu em berço macio, na Alemanha, e comeu o pão que o diabo amassou depois dos 20 anos de idade. Teve 7 filhos, mas só três chegaram à idade adulta. Eram mulheres, mas duas delas se suicidaram.
O ex-presidente da Câmara dos Deputados Aldo Rebelo está lançado o novo livro: O Quinto Movimento, pela editora JA. Ainda não leram pra mim esse livro, mas o colega jornalista José Antônio Severo descreveu-me o conteúdo. Trata-se de um mergulho na história do nosso País. E começa com o autor já falando da chegada de Cabral à Costa baiana. Segue com a Independência, a Escravidão e Proclamação de República. A história do Brasil é uma história complexa, cheia de roubos, confusões e movimentos sangrentos. Antes de Cabral aportou no Brasil o navegador Duarte Pereira. Pereira chegou ao Brasil em 1498. Parou ali pelo Norte. http://assisangelo.blogspot.com/2017/04/historia-pra-bopi-dormir.html Antes do primeiro movimento referido por Rebelo ocorrido em 1500, antes mesmo de Duarte Pereira, Portugal fechou "negócio" com a Espanha. Desse negócio surgiu o Tratado de Tordesilhas. Isso em 1494. Aldo Rebelo encerra o seu primeiro movimento fazendo referências ao Tratado de Madrid, que nada mais era do que mais um negócio entre Portugal e Espanha. Tratava da separação de espaços da região sul americana para cada um dos países citados. Nós no cardápio. Àquela altura, o Tratado de Tordesilhas era completamente desrespeitado por Portugal e Espanha. O novo tratado pôs ordem na bagunça lá deles. O autor de O Quinto Movimento destaca o grito, que não houve, do Imperador Pedro I. Dos horrores da escravidão e do Golpe Militar que mandou às favas o Segundo Império. Para Aldo Rebelo, O Quinto Movimento está pra ser desenvolvido pelas forças democráticas do Brasil. A atual situação política no nosso país é grave e prenuncia confusão. E Bolsonaro, hein? Bem, eu diria: aos quintos!
Jansen Filho foi um dos mais inspirados e brilhantes poetas paraibanos. Diferentemente de Augusto dos Anjos (1884 - 1914), Jansen deixou uma obra repleta de otimismo. Na sua poética, há os mais diferentes temas. Falou de mãe, pai, família, negro, tudo. O Nordeste foi seu grande foco e o humanismo também. Deixou um bom punhado de livros, sendo o primeiro Auroras e Crepúsculos (1948). Nascido em Monteiro, terra do mais rápido repentista do Brasil (Severino Lourenço da Silva Pinto; 1895 – 1990), Jansen Filho cresceu ouvindo os violeiros da sua terra. Aos seis anos de idade já fazia poemas. Alfabetizou-se ouvindo os pais lendo folhetos de cordel. Seus primeiros estudos formais ocorreram em Monteiro. Ainda muito jovem, trocou sua cidade pela cidade do escritor Monteiro Lobato (Taubaté, SP), onde concluiu o curso secundário. No decorrer da sua vida, Jansen chegou a trabalhar na rádio Inconfidência, MG. Em 1981, já residindo na Capital paulista, participou do programa Som Brasil. Num ano que já não me lembro, comprei num sebo de Belo Horizonte, MG, o livro Obra Completas (ao lado), do poeta. Jansen, que nasceu no dia 1 de março de 1925, precisa ser descoberto ou redescoberto pelas gerações mais novas. O poeta morreu no dia 18 de julho de 1994, em Sampa. Leia:
De olhos fechados, Ana e Clarissa "mergulham" no mundo dos cegos.
Essa é uma espécie de homenagem ao pai, Assis
Há milhares e milhares de cegos no Brasil e no mundo, milhões.
Houve um tempo em que aos cegos era negado tudo.
Houve um tempo em que os cegos dependiam completamente da bengala e de pessoas
para guiá-los.
Eu não sou daquele tempo, daquele tempo antigo.
Mas ainda dói ser cego.
Conforto-me ouvindo livros e o noticiário pelo rádio. E fazendo poemas e
outros textos, como este.
Conforto-me também de saber que a minha volta há pessoas queridíssimas.
Amores, como minhas filhas mais nova Clarissa e a mais velha, Ana Maria.
Cla e Ana estiveram comigo ontem 16 (foto ao lado). Também estiveram comigo os
jornalistas José Antônio Severo e Flávio Tiné. Com eles, Danilo e as manas
Célia e Celma.
Severo é um poço de conhecimento. Sabe tudo e um pouco mais sobre o Brasil e,
particularmente, da sua terra o Rio Grande do Sul. E falamos e falamos e
falamos e aprendi.
Entre as falas uma sobre o novo livro do ex-ministro e ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo. Chama-se O Quinto Movimento, sobre algo amanhã.
Tiné e Danilo são dois cabras da peste de Caruaru, PE.
Foi uma tarde excepcional a de ontem. Pintou até leitura de cordel.
A região com maior número de pessoas cegas é a Sudeste.