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terça-feira, 12 de abril de 2022

EU E MEUS BOTÕES (19)

Patrão, começou gritando Zoião, "o sinhô tá sabendo o que tá rolando no coração do Exército brasileiro?". 
Achei a frase do Zoião bastante provocadora, e respondi: "Mais ou menos, mais ou menos".
Falei baixo, com naturalidade, e assim falando notei que os meus botões estavam todos ligados em mim. Tipo, olho no olho. Zoião insistiu: "Pois é, o nosso Exército está todo de cabeça baixa mesmo engolindo sei lá quantas pílulas de Viagra por dia, ou por noite. Sei lá".
Fiquei reticente, porém pensando. 
A pergunta de Zoião tinha tudo a ver com a preocupação que a até então eu dedicava à questão Viagra.
De repente, não mais do que de repente, vem lá Lampa com aqueles olhos murchos cutucando as unhas com seu inefável punhal, tranquilamente. Assim como quem quer e não quer, à toa. Pergunta: "Chefe, o sinhô está a favor desse feladaputa chamado Bolsonaro? Se tiver, a gente conversa adespois. Se não, a gente conversa é agora!".
Calmo eu estava, calmo eu fiquei. 
E ele, Lampa, me zoiando de cabeça baixa. Tipo assim, quase ameaçando em silêncio...
Olhei pra todos os olhos dos meus botões. Mané, Zé, Jão, Biu e Barrica nada disseram no canto onde estavam. 
E o papo posto na roda, assim espontânea e de repentemente, era Viagra.
Na verdade, na verdade, a questão colocada no momento era uma questão um tanto delicada, sei. Pensemos: o Exército, as Forças Armadas do Brasil de cabeça baixa e precisando de Viagra pra se fortalecer diante e perante de quem?
Falei alto, é certo...
Zilidoro, intelectual de carteirinha, de dedo em riste se exalta: "É o fim da picada! Não entendo nada. As Forças armadas, formadas pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, existem para defender a Pátria", disse de modo impoluto, levantando-se do tamborete onde estava.
Entendi, eu sempre entendo Zilidoro.
De certo modo, é bom saber que as Forças Armadas estão preocupadas com a grandeza do País.
A cultura musical, a cultura brasileira, registra todos os momentos da nossa vida cotidiana.

"UM CEGO PRA PRESIDENTE! UM CEGO PRA PRESIDENTE!"

No campo político 2022 será um ano bastante animado, cheio de ondas e surpresas. Não precisa ser Bidu nem ter bola de cristal pra saber disso.
Uma tal janela partidária foi aberta no último dia 3 de março pelo Superior Tribunal Eleitoral (STE), para facilitar a vida dos donos de partidos e dos seus afiliados políticos. Essa janela foi fechada no dia 1º de abril. Sugestivo, não?
Bom, o resultado disso é que o partido do Bolsonaro, o PL, formou a maior bancada na Câmara dos Deputados: 75 assentos, seguido do PP (56), PT (55), União Brasil (47), PSD (44)...
Pra valer, a campanha eleitoral começa no próximo dia 16 de agosto, no rádio e televisão.
Os partidos políticos, mais de 30, receberão R$ 4,9 bilhões pra fazerem o que bem quiser. Fora isso, ainda tem mais um montão de dinheiro que será distribuído sei lá como. Só sei que é muito dinheiro, mas muito mesmo!
O dinheiro que cairá nas mãos do caciques políticos não cabe, em nota de 200 reais, em duas carretas. É muita coisa, não é?
Além disso, o STE acaba de liberar "showmícios" em ambientes fechados. Quer dizer: o candidato pode ser beneficiado por artistas que decidirem fazer apresentações com entrada paga. Hmmm... E vale Pix.
É dinheiro demais, é dinheiro demais. Enquanto isso, a inflação sobe à lua deixando o pobre cada vez mais pobre, miserável, passando fome no país que mais vende comida para o mundo. É de lascar, não é?
Mais do que nos anos anteriores, este ano de 2022 os partidos políticos vão apostar nas celebridades instantâneas e em profissionais famosos como as atrizes Maria Paula (Casseta & Planeta) e Lucélia Santos (Escrava Isaura); e jornalistas como Marcos Uchôa (TV Globo), para "puxar" votos.
Até os técnicos de futebol, ou ex, Joel Santana e Vanderlei Luxemburgo já anunciaram candidatura à Câmara Federal.
Eu, cá no meu canto, estou me coçando. E os meus botões, provocadores, atiçam-me em uníssono: "Pra presidente, um cego! Pra presidente, um cego!".
Pois é, não digo já, mas quem sabe em breve anunciarei minha candidatura à presidência da República. Zilidoro, um dos meus botões mais sabidos, intelectual de carteirinha, diz que até já tem até um slogan que cabe certinho em mim: "Veja bem, vote num cego pra presidente!".
Meu amigo, minha amiga, você conhece os meus botões?
Já há uma série de conversas entre eu e eles. Leia: EU E MEUS BOTÕES

VOCÊ CONHECE O INSTITUTO MEMÓRIA BRASIL?

segunda-feira, 11 de abril de 2022

VIAGRA E CORRUPÇÃO NO GOVERNO BOLSONARO

Cupins e ratos estão tomando conta das entranhas do governo Bolsonaro. Faz tempo. O caso está se agravando, a cada dia.
Multiplicam-se as denúncias de corrupção, ao mesmo tempo que Bolsonaro alardeia, através da sua rede de apoiadores suicidas, que no seu governo não há corrupção.
As denúncias têm vindo à tona através de bem elaboradas reportagens da Folha, Estadão e outros meios da Imprensa. O Estadão de ontem 10, por exemplo, deu na 1ª página em manchete: "Governo Abandona Obras Paradas e Monta um Esquema de 'Escolas Fake'". E na chamada, diz: "Com aval do FNDE, controlado pelo ministro Ciro Nogueira, deputados 'vendem' aos seus eleitores a ideia de que conseguiram recursos para construir colégios e creches".
Na Folha de hoje 11, "Bolsonaro ignora suspeitas de corrupção e diz que PF não precisa investigar seu governo".
Como nunca tinha programa de governo, e jamais imaginou que um dia seria presidente da República, Bolsonaro sempre pensou em si próprio. Boiando feito porcaria n'água, Bolsonaro está completamente dependente de políticos iguais a ele. Leia-se: Centrão.
Pra amenizar a situação, digamos assim, chega a notícia de que as Forças Armadas acabam de adquirir um lote de 35 mil comprimidos de Viagra. Ai, ai, ai, pra que isso?
Opinião pessoal: acho que os militares andam com a cabeça baixa... A coisa tá feia.


VOCÊ CONHECE O INSTITUTO MEMÓRIA BRASIL?

domingo, 10 de abril de 2022

DE COMO O ASSASSINATO DE UM JORNALISTA PROVOCOU A QUEDA DE UM REI (4)

Autógrafo de Líbero Badaró

Litografia de Líbero Badaró
Curiosidade: o jornalista Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000) foi o sétimo presidente da ABI, por duas vezes consecutivas: 1926 a 1929 e 1930 a 1932. E depois mais uma vez: em 1978 até 2000.
Herbert Moses, que substituiu Lima Sobrinho, em 1933, permaneceu à frente da ABI até 1964. Nesse período, recebeu todas as benesses do poder vigente. Em contrapartida, fez do presidente Getúlio Vargas sócio benemérito da ABI. Uma vergonha para muitos jornalistas.
Isso é história.
Ah! Emiliano Fagundes Varella viria a ser o pai do poeta fluminense Fagundes Varella, autor do poema O Exilado:

… O exilado está só por toda a parte!

Passei tristonho dos salões no meio,
atravessei as turbulentas praças
curvado ao peso de uma sina escura;
as turbas contemplaram-me sorrindo
mas ninguém divisou a dor sem termos
que as fibras de meu peito espedaçava.
O exilado está só por toda a parte!

Quando, à tardinha, dos floridos vales
eu via o fumo se elevar tardio
por entre o colmo de tranqüilo albergue,
murmurava a chorar: -Feliz aquele
que à luz amiga do fogão doméstico,
rodeado dos seus, à noite, senta-se.
O exilado está só por toda a parte!...


Em homenagem ao fundador do jornal O Observador Constitucional, escrevi Hino a Badaró. Este:

Líbero!
Líbero!
Oh! Líbero

O teu nome virou marca
Da Imprensa, da verdade
E da luta de quem luta
Pela paz e liberdade!

Como jornalista lutaste
Desassombradamente
Defendendo nossa Pátria
Nossa terra, nossa gente

Mas isso teve um preço
Que pagaste com a vida
A bala que te matou
Deixou a terra ferida

Com firmeza declaraste
Antes de virar saudade
Que morria um liberal
Mas jamais a liberdade

Líbero!
Líbero!
Oh! Líbero

O teu nome virou marca
Da Imprensa, da verdade
E da luta de quem luta
Pela paz e liberdade!


Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora.

sábado, 9 de abril de 2022

DE COMO O ASSASSINATO DE UM JORNALISTA PROVOCOU A QUEDA DE UM REI (3)

Litografia de Badaró
Os restos de Giovanni Battista Libero Badaró, trasladados da Igreja do Carmo, acham-se no cemitério paulistano da Consolação. No dia do traslado, em 1889, foi distribuído a quem esteve presente uma litografia retratando o perfil de Badaró.
Não custa lembrar que foi Badaró o primeiro jornalista a ser assassinado por defender suas idéias no jornal que fundou, indo de encontro aos interesses de poderosos de plantão.
Foi também Badaró o primeiro jornalista a falar de Liberdade de Imprensa. Exemplo:

Muitos já disserão e muitos repetirão: que a liberdade de imprensa era a alma de qualquer governo fundado sobre direitos e não sobre força: mas também muitos não o entenderam ou fizeram mostra de não entender e continuárão a vociferar, que tudo se não devia dizer, que ninguem se devia metter nos negocios do governo, que os empregados bons e máos, se devião respeitar por causa da bôa ordem e do socego, e mil outras cousas tão mesquinhas como estas, que descobrem o fraco d’estes taes e confirmam admiravelmente o ditado “que o peior surdo é aquelle que não quer ouvir”...
(…) De todas as garantias que o pacto social concede aos cidadãos, parece-nos, que a liberdade inteira de publicar os seus pensamentos (salvo responder pelos abusos) seja aquella a quem menos se deve atacar; por isso que em certa maneira é o guarda de todas as outras. Um governo que queira o bem dos povos, já temos indicado quanto precisava d’esta liberdade, principalmente em um paiz aonde tudo ha de se fazer ou modificar, e aonde as leis para serem efficazes, devem ser não sómente bôas, mas tambem conformes ao voto geral. É por isso, que a liberdade de imprensa torna-se a melhor garantia do governo, quando as suas operações não são escondidas e tenebrosas, pois que tendo sido discutidas, examinadas pela nação e adoptadas aquellas que mais com o voto d’ella se conformão, ella tem um interesse particular de sustentar a sua obra e de repellir qualquer ataque que se tencionasse fazer-lhe. Mas pelo contrario quando tudo se faz ás escondidas, quando o cidadão ignora o motivo e a utilidade das medidas do governo, quando vê os inconvenientes sem vêr as vantagens, então se entregará ás desconfianças, ás maquinações, deixando-se facilmente seduzir pelos hypocritas, que, vociferando continuamente as vantagens do povo, querem sómente pescar nas aguas turvas…

A morte de Libero Badaró foi uma morte anunciada, como se vê.
O dia 7 de abril é o Dia do Jornalista.
Esse dia é, também, o dia em que foi fundada a Associação Brasileira de Imprensa, em 1908.
O fundador dessa Associação foi o jornalista Gustavo de Lacerda (1854-1909). Socialista, negro e pobre. E assim morreu num 4 de setembro.
Lacerda criou a ABI, inicialmente chamada de Associação da Imprensa dos Estados Unidos do Brasil, com o propósito de dar garantias trabalhistas a seus associados.
A data de criação da ABI tem nada a ver, ou se tem é muito pouco, com Libero Badaró. Não custa lembrar, porém, que foi no dia 7 de abril de 1831 que o Imperador Pedro I, chamado de O Rei Soldado, abdicou da coroa a favor do filho, Pedro II.
A renúncia à coroa de Pedro I tem a ver com a repercussão extraordinária da morte de Giovanni Battista Libero Badaró.
Badaró era a favor do liberalismo e contra o obscurantismo de Pedro I.
A rua Nova de São José ganhou nova denominação no dia 24 de agosto de 1916. Desde então é rua Libero Badaró, que liga o Mosteiro de São Bento ao Largo de São Francisco, SP.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

DE COMO O ASSASSINATO DE UM JORNALISTA PROVOCOU A QUEDA DE UM REI (2)

Clique na imagem para ler o texto

Túmulo de Líbero Badaró, no
Cemitério da Consolação
De fato, constatou-se depois que Badaró tinha razão. Mas só um dos criminosos, de nome Henrique Stock foi preso e levado a julgamento. Primeiro na província de São Paulo, depois no Rio de Janeiro, onde foi absolvido.
Todos os caminhos, até aqui conhecidos, levam a um mandante do crime: Cândido Ladislau Japiassú, ouvidor geral da província de São Paulo e inimigo nº 1 de Badaró.
Badaró virou inimigo de Japiassú quando passou a chamá-lo de ignorante e inimigo do povo. E “um caligolazinha”.
Japiassú, por sua vez, via em Badaró um inimigo que precisava ser aniquilado, o mais rápido possível.
No leito de morte, o fundador do jornal O Observador Constitucional disse mais de uma vez, para quem quisesse ouvir, que o mandante do crime de que fora vítima era Japiassú. E disse mais, convicto do seu fim: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade”.
Essa última fala de Badaró se acha reproduzida na matéria que começa na 1ª e termina na 2ª página do jornal que fundara, edição de 26 de novembro de 1830 (acima).
Curiosidade: na 1ª edição de O Observador Constitucional, lançado no dia 23 de outubro de 1829, Badaró já dizia que “não devia vegetar no Brasil a planta do despotismo”, mostrando com clareza o seu perfil de homem livre.
Depois, na edição de 17 de setembro 1830 ele diz, prevendo o seu fim:

(…) altamente declaramos que não temos o menor medo de ameaças. Aconteça o que acontecer, a nossa vereda está marcada e não nos desviamos dela: não há força no mundo que nos possa fazer dobrar, senão a da razão, da justiça e da lei. Estamos em face do Brasil e para servi-lo daremos por bem empregada a vida. A opinião pública está bem fixa a respeito de certa gente; qualquer atentado lhe será imputado, e ficarão com um crime a mais, sem que isso acabe com os públicos escritores…

E tinha razão.
Em sessão especial da Câmara de Vereadores da Capital da província de São Paulo, realizada no dia 20 de dezembro de 1830, o nome do ouvidor Japiassú voltou à baila:

(...) Os membros desta Câmara asseveram que o Ouvidor denunciado é o autor desse crime, porque estão tão certos disso, assim como estão da sua existência. Deixando pois chicanas, e desdenhando a censura de pretendidos apáticos que exigem a frieza do gelo em todas as peças oficiais, a Câmara muito pelo contrário, sendo como é composta de cidadãos, que ou nasceram debaixo do ameno clima paulistano, ou a ele ligaram sua existência, clama vingança e invoca o Brasil inteiro contra o malvado que veiu ludibriar sua pátria, assassinar seus concidadãos, e fez quanto pôde para torná-la o teatro da guerra civil, da carnagem, e da assolação

Usando de foro privilegiado a que tinha direito, o ouvidor Candido Ladislau Japiassú escapou ileso das acusações. Sequer foi a julgamento.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

DE COMO O ASSASSINATO DE UM JORNALISTA PROVOCOU A QUEDA DE UM REI (1)

Ilustração de Fausto Bergocce

Livros sobre Líbero Badaró
Um tiro de bacamarte quebrou o silêncio da rua Nova de São José, no centro da Capital da província de São Paulo.
Era noite e era sábado.
Uma lua bonitona Cheia, pendurada no céu, espraiava seus raios alumiando os logradouros até então existentes. Naquele tempo, as poucas ruas da Capital da província eram muito mal iluminadas. Havia, apenas, 24 lampiões espalhados nas ruas, becos e vielas.
O vento frio, primaveril, batia na cara dos transeuntes que se atreviam a permanecer mais tempo fora de casa, insones.
Em seguida ao tiro, ouviram-se um “Ai!” e o barulho de passos apressados de pessoas que fugiam. Eram três homens, aparentemente de origem alemã.
O estudante Emiliano Fagundes Varella, do curso de Direito do Largo de São Francisco, foi a primeira pessoa a acudir a vítima. Colegas seus o seguiram e logo descobriram que o atingido pelo disparo de arma de fogo era Giovanni Battista Libero Badaró, médico e jornalista fundador e principal redator do jornal bissemanal O Observador Constitucional, de linha política liberal.
Badaró, muito querido pelos estudantes, foi atingido à queima roupa a altura do baixo ventre. E desabou num baque surdo, esvaindo-se em sangue.
Ainda na cena do crime, a vítima conseguiu dizer que lembrava-se de três alemães.
Essa é a história que se lê nos poucos livros escritos a respeito, até agora.
Essa também é uma história que começa em 1826 quando Libero Badaró chega ao Rio de Janeiro procedente da Itália, onde nasceu. Tinha 28 anos. Seu desejo era ampliar conhecimentos no campo da Botânica, especialmente. Estudara em Turim, Bolonha e Gênova.
Era alto e usava óculos redondos, de muitos graus.
De família bastarda, tinha tudo e muito mais do que alguém pudesse desejar.
O pai, Andrea, foi médico e amante das letras. Lia muito, sua biblioteca era enorme. No Rio, o jovem Badaró logo fez amizade com os intelectuais do naipe de Evaristo da Veiga (1799-1837).
Evaristo foi fundador e editor do jornal Aurora Fluminense.
Badaró era muito comunicativo. Falava fluentemente, além da língua mãe, francês e inglês. Em pouco tempo, dominou o português e no começo de 1828 trocou o Rio por São Paulo, à época com cerca de 20 mil habitantes.
Em São Paulo conhece e hospeda-se na casa do baiano José da Costa Carvalho (1796-1860), fundador do jornal O Farol Paulistano.
O Farol, de linha liberal inaugurado no dia 7 de fevereiro de 1827, foi o primeiro jornal da Capital da província de São Paulo. Durou até o final da primeira parte de 1832.
Em suma, diga-se com todas as letras: foi um baiano o criador da Imprensa de São Paulo.
Já em casa, levado pelos estudantes, Badaró morreria 24 horas depois do atentado. Mas insistia: sabia que os desconhecidos que o atacaram eram alemães, pois falavam essa língua.

EDGAR FERREIRA, 100 ANOS

Se vivo, o recifense Edgar Ferreira completaria hoje 100 anos de idade.
Edgar, de família humilde, desenvolveu na vida várias tarefas para garantir o pão diário.
Foi até metalúrgico o Edgar.
Em 1941, Edgar Ferreira se achava pelejando na Capital da República, Rio de Janeiro.
No comecinho dos anos de 1950, Edgar conheceu o paraibano Jackson do Pandeiro.
Jackson gravou várias de suas músicas, incluindo Forró em Limoeiro e 1 x 1. Sucesso.
As músicas do pernambucano Edgar Ferreira continuam recebendo gravações de muita gente boa, como Zé Ramalho e o grupo de rock Paralamas do Sucesso. Vão vendo! Ele morreu no dia 19 de dezembro de 1995, no Rio.

RASGANDO VOTOS

Pra valer, pra valer mesmo, oficialmente falando, a campanha à presidência da República ainda nem começou, mas já está provocando um Deus nos acuda.
Lula anda falando pelos cotovelos, dizendo coisas que se quer lhe perguntam. Por exemplo: é sonho seu regular a Imprensa. 
Nesses dias ele tem dito, sem revelar de qual lado está, que acabaria com a guerra entre Rússia e Ucrânia num boteco. Em dois palitos. Negociação regada à cerveja, claro. Com uma caninha, hic!
Disse que é direito da mulher abortar. Mais ou menos isso. Questão de saúde pública, política pública. Foi além: se eleito, tirará do poder os militares de Bolsonaro.
Essas questões têm chamado a atenção de muita gente.
Muitos políticos ficaram de cabelo de pé quando o Lula disse que, se eleito, incentivaria o povo a formar grupos para pressionar deputados nas suas residência. Hmmmmm...
Mais de 11 milhões de brasileiros estão desempregados, sem carteira assinada. A inflação já se acha nos 2 dígitos.
Os assaltos e mortes continuam a se multiplicar, principalmente nas grandes cidades.
Enquanto isso, Lula diz que a classe média brasileira nunca ostentou tanto seus bens como agora.
Eu, hein!
O que acho disso, o que acho mesmo? 
Acho que Lula está desperdiçando, rasgando, possíveis votos do eleitor conservador.
O pessoal do Centrão está feliz da vida com as falas do Lula. E a cúpula do PT, preocupada.
É isso.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

NA PRAÇA, UM LULA REPAGINADO

Agora eu não vou falar de música, não vou falar de artes. Agora vou falar de escravidão branca, negra, indígena.
Sim, ainda há escravidão no Brasil.
Sim, parece que estou falando de coisas passadas, de ontem. WAACK E RACISMO
O Ministério do Trabalho e da Previdência acaba de soltar uma "lista suja" acrescentando novos nomes de empresários sacanas que escravizam pessoas em várias partes do nosso País.
Segundo a nova lista, há 89 empresários sacanas fazendo o que não deve contra pobres e ingênuos trabalhadores brasileiros. 
Todas as providências contra esses maus empresários devem ser tomadas, legalmente. Há lei pra isso.
O nosso País é habitado por mais de 200 milhões de pessoas. 
O número de desemprego no Brasil, atualmente, passa da casa dos 11 milhões de trabalhadores.
Há trabalhadores conscientes e trabalhadores não conscientes do trabalho que prestam à Nação.
São centenas e centenas de profissões com cargos vazios.
O paulistano Paulo Galo, 32 anos, é uma nova liderança que está surgindo em São Paulo. É do ramo de entrega "Delivery".
A fala do Galo é clara, direta, bate forte na mente de quem minimamente pensa a respeito da exploração de mão de obra do trabalhador. Eu poderia até dizer que Galo tem uma fala parecidíssima a do Lula dos anos 70. Repaginado, é claro.
Não será exagero dizer que Galo é um novo Lula. 
A propósito: em 1977, Lula tinha 32 anos de idade. O seu auge, no ABC, foi em 1978.
Numa de suas entrevistas, Galo diz que luta em prol da causa. Do trabalhador. E que luta também pelo direito à preguiça: "Uma hora de almoço, uma hora de repouso", exemplifica.
A princípio, a diferença entre Lula e Galo é que Galo não tem projeto de virar político de carteirinha: vereador, deputado, senador...
Ouça:

CÍCERO NUNES, UM NOME ESQUECIDO DA NOSSA MÚSICA

A vida do carioca Cícero Nunes (1912-1993) foi agitada. Pra sobreviver, fez de tudo e mais um pouco. Foi até motorista de hospital, no Rio. Aprendeu a tocar violão na metade dos anos de 1930. Houve um momento que trocou o Rio pela Paraíba, mas lá não durou muito. Ainda na década de 30, Cícero Nunes começou a compor nos mais diversos ritmos. 
Nunes teve músicas gravadas por Dircinha Batista, Aracy de Almeida, Nelson Gonçalves, Chico Alves, Buci do Pondero e até Carmem Miranda, a portuguesinha de grande sucesso no Brasil e nos EUA.
Em 1946, a paulistana do Brás Isaurinha Garcia lançou o samba-canção Mensagem. Essa música traz a assinatura de Cícero Nunes e Aldo Cabral.
Aldo Cabral (1912-1994), que além de compositor era ator e jornalista, foi quem fez e publicou a primeira entrevista de Luiz Gonzaga, o rei do baião. A entrevista de Cabral saiu na extinta revista Vitrine, acho que do Paraná, PR. Mas essa é outra história.
 
Vamos lembrar Nunes na voz de Isaurinha?
 


Você já ouviu falar do site do Instituto Memória Brasil? Clique: https://institutomemoriabrasil.com.br/

terça-feira, 5 de abril de 2022

O BRASIL ESTÁ PERDENDO A GRAÇA

(clique na imagem, para melhor visualizar o texto)

Charge de Mariano,
feita por Fausto
É triste dizer, mas o fato é: o Brasil está perdendo a graça, de modo relâmpago.
Há 3 anos, uma semana e um dia morria em São Paulo a chargista e ilustradora política Mariza, de batismo Mariza Dias Costa. Tinha 66 anos de idade, quando sofreu um mau-estar na rua e socorrida às pressas foi levada ao Hospital das Clínicas, HC, onde morreria poucas horas depois.
Mariza foi uma profissional atuante nos principais jornais e revistas de São Paulo, entre os quais a Folha. Ela ilustrou muitas matérias minhas no Folhetim e em revistas da Editora Três.
De 2019 até o último dia 29, 20 artistas do traço trocaram este mundo pelo
Os cartunistas Fausto e Benicio
 desconhecido. O último desses artistas a nos dar adeus foi o paranaense Elifas Andreato. 
Em 1984 fiz e publiquei entrevista com Elifas e o cantor Jessé.
Jessé foi um grande amigo de Elifas. Ambos chegaram a compor várias músicas e todas as capas dos LPs de Jessé foram geradas por Elifas. A entrevista que fiz com ambos foi publicada no extinto
Fausto e Nani

Pasquim (acima).
Além de Mariza e Elifas os artistas do traço que nos deixaram, segundo o levantamento feito pelo chargista Fausto, foram: Daniel Azulay, Mordilo, Sabat, Quino, Vilachã, Paulo Paiva, Klebs, Mariano, Biratan Porto, Lailsson, Lan, Tacho, Ota, Nani, Ramade Martins, Benicio, Geep e Luscar.
Fausto conviveu com quase todos esses artistas incluindo Nani, Benicio e Sabat. 
Fausto e Sabat

Não conheci Nani nem Sabat, mas Benicio, sim.
Benicio foi a mim apresentado pela cartunista Laerte, num ano que não me lembro bem.
Brincando, eu disse a Fausto: "Cuida-te amigo. Esconde-te debaixo da cama, pois a megera anda a solta com aquela arminha cortante que carrega às costas". Ele riu.


segunda-feira, 4 de abril de 2022

LYGIA FAGUNDES TELLES, UMA MULHER DE FIBRA

"Me leiam, não me deixem morrer", pediu certa vez a escritora paulistana Lygia Fagundes Telles.
Lygia partiu pra uma viagem sem volta domingo ontem 3, faltando duas semanas e dois dias para completar 99 anos de idade. Foi uma mulher fantástica, incrível mesmo.
Em 1938, um ano depois de Vargas criar o famigerado Estado Novo (1937-1945), Lygia tinha 15 anos. E foi com essa idade que ela estreou no campo da literatura com o livro Porões e sobrados.
Ela deixou uma obra monumental, com cerca de 40 títulos, entre esses Ciranda de Pedra (1954) e As Meninas (1973).
As Meninas trata de uma história envolvendo três amigas: Lorena, Ana Clara e Lia. 
O enredo desse livro tem a ver com a ditadura que o Brasil viveu entre 1964 e 1985. É um livro que traz cenas chocantes, como prisão, tortura e morte de quem protestava contra o sistema militar da época. Virou filme em 1995.
Ciranda de Pedra teve adaptação pra novela da Globo, em 1981 e 2008.
Lygia Fagundes Telles foi uma mulher extremamente participativa e defensora dos direitos humanos. No começo dos anos de 1970, ano em que As Meninas foi publicado, Lygia esteve à frente de um movimento de intelectuais contra a censura. Deu reboliço.
A autora de As Meninas viveu a vida na plenitude, sem jamais render-se à covardia de poderosos.
A sua obra deveria estar sendo estudada nas escolas.
Em 2016, Lygia Fagundes Telles teve o nome indicado ao Nobel de Literatura. 
Que Deus a tenha.


HORRORES DA DITADURA

Um dos filhotes do presidente Bolsonaro, Eduardo, voltou a achincalhar o Brasil e brasileiros de bem, como a jornalista Miriam Leitão.
Miriam foi presa e torturada por agentes da ditadura militar, naqueles anos de chumbo. Estava grávida e depois de levar socos e pontapés, foi obrigada a despir-se e assim ficar durante horas com os torturadores. Depois disso, Miriam ficou presa num compartimento do Exército tendo por "companhia" uma jiboia. Tudo às escuras. Foi um terror e hoje Eduardo, que é deputado federal por São Paulo, diz na sua rede social ter tido pena da cobra. Esse deputado fere quaisquer normas de cidadania. É um beócio, pra dizer o mínimo.

domingo, 3 de abril de 2022

POEMA DOS OLHOS

Nos últimos anos tenho feito poema de tudo quanto é tipo, com temas dos mais diversos. A figura do cego, porém, aparece com mais frequência. Talvez pelo fato de eu ter perdido a visão dos olhos. Sofri muito, mas passou. Vamos andando.

Há uns 3 ou 4 anos, não lembro bem, fui levado a um programa de rádio (Globo) apresentado pela jornalista paulistana Maria Júlia Coutinho, a Maju. Pessoa incrível. E no programa dela, declamei:


DIA DO BRAILE

No próximo dia 8 comemora-se, nacionalmente, o Dia do Braile. Leia: J&CIA ABORDA O TEMA "DEFICIENTES"

sábado, 2 de abril de 2022

CHEGA DE GUERRA!

Todos sabem muito bem
Que o mundo anda mal
Girando um tanto torto
No seu eixo natural

É caso muito sério
De difícil solução
Pode tudo se findar
À base de explosão

Como rastro de pólvora
Feito sempre pra matar
As guerras se multiplicam
No campo, na serra, no mar

Aviões atiram bombas
Aleatoriamente
Destruindo meio mundo
E matando muita gente

Tudo isso sob as ordens
De um ser que planta o mal
De um ser que quer fazer
Nova guerra mundial

Pare enquanto é tempo
Chega de tanto terror
Em fuga o povo chora
Pedindo paz e mais amor

sexta-feira, 1 de abril de 2022

PRESIDENTE PINÓQUIO?

Brasília, como sempre, continua fervendo.
Os políticos estão em polvorosa, agitados, no maior troca-troca do ano. Mais de 100 deputados já trocaram de sigla partidária, como permite a "janela" criada pelo TSE para esse fim.
O PL é, até agora, o partido que mais cresceu no decorrer do troca-troca, que termina às 23h59min de hoje: de 42 deputados, foi para 72.
O PP também cresceu.
O PT, numa lista de 10, perdeu uma posição. Estava no 2º, foi para o 3º lugar. No momento, a lista de partidos em movimento é esta:
  1. PL (72)
  2. PP (56)
  3. PT (54)
  4. UNIÃO BRASIL (48)
  5. REPUBLICANOS (43)
  6. PSD - 41
  7. MDB - 33
  8. PSDB - 26
  9. PSB - 24
  10. PDT - 22
Assim dito, de repente, parece mentira. Não é. Mentira mesmo é tudo que diz o ocupante da mais cobiçada cadeira do Brasil. Fake News é sua praia. 
Desde que assumiu a presidência da República, Bolsonaro mentiu algumas milhares de vezes.
Não há um dia que Bolsonaro não minta. É o Pinóquio do mal.
Uma das mentiras mais repetidas é que "há fraudes nas urnas eletrônicas".
Várias vezes ele disse também que "a OMS é contra vacinar adolescentes para Covid".
O PIB brasileiro, lá embaixo, "cresceu 9%", mentiu de novo. E mentiu também ao afirmar que o TCU teria dito haver supernotificação de mortes por Covid em 2020.
Cara de pau sequer gaguejou ao declarar várias vezes que "o STF me impediu de atuar no combate da pandemia".
E por aí vai semeando mentiras o inquilino do Palácio.
Inesquecíveis são estas: "Não há corrupção no meu governo", "Pandemia é só uma gripezinha", "o desmatamento na Amazônia não existe" e outras pérolas como "Nunca houve golpe militar no Brasil".
Que o cara se parece com o personagem Odorico Paraguaçu, parece.

quinta-feira, 31 de março de 2022

DITADURA MILITAR: TRISTE LEMBRANÇA

Milico, ilustração de Fausto Bergocce

Tudo começou numa madrugada de abril.
Nunca é tarde, digo e repito, para lembrar que 64 começou em 61, com a renúncia de Jânio. ÓBVIO, DITADURA NUNCA MAIS
Depois da renúncia, Jânio seguiu na vida pública e acabou como prefeito da maior e mais importante cidade do Brasil: São Paulo. E no seu lugar, assumiu o sãoborjense João Belchior Marques Goulart, o Jango. JÂNIO, RENUNCIA: 60 ANOS
Os anos de 1960 foram tumultuados em boa parte do mundo. Guerras pipocaram aqui e ali. Revoltas e revoluções, também.
À época os EUA pagavam pecados no Vietnã. Um jornalista brasileiro, José Hamilton Ribeiro, foi pra lá. Foi cobrir a guerra. O FAZENDEIRO ZÉ HAMILTON, EM MINAS
Isso, especificamente, em 1968.
Por aqui movimentos populares pipocavam, na cidade e no campo.
O Araguaia, lá pros lados de Tocantins, TO, virava campo de guerra.
Era a primeira vez que brasileiros faziam treinamento de guerrilha na China para confrontar e derrubar o governo militar, iniciado em 1964. Não deu. Muita gente foi presa, torturada e morta.
O cearense Humberto de Alencar Castello Branco (1897-1967) foi o primeiro general a assumir o cargo de presidente do ciclo militar. E foi, também, o primeiro presidente do Brasil a morrer na queda de um avião. Antes dele, nenhum.
O segundo general a ocupar o cargo de presidente foi o gaúcho Artur da Costa e Silva (1899-1969), que um dia teve um ataque no coração e foi-se.
O terceiro a ocupar o mesmo cargo, o de presidente, foi o general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985). Esse foi o mais violento, o que sabia de tudo que rolava nos porões da ditadura e calava passivamente.
O quarto general a assumir a presidência da República, no ciclo militar, foi o gaúcho Ernesto Beckmann Geisel (1907-1996). Esse era, declaradamente, a favor da tortura.
O quinto e último general desse ciclo foi o carioca João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999), aquele que antes de pedir pra ser esquecido dizia gostar mais do ccheiro do cavalo do que do cheiro do
povo. Merecia ter levado um coice.
Entre uma coisa e outra, ali em 1969, houve um hiato: a morte de Costa e Silva.
A morte desse Costa gerou a formação de uma Junta.
Essa Junta foi formada por Augusto Rademaker, Aurélio Tavares e Márcio de Sousa Melo, e durou de 31 de agosto a 30 de outubro.
Há uma vasta literatura sobre o ciclo militar que estendeu-se por 21 anos, terminando em 1985.
Muita coisa aconteceu até a democracia voltar a imperar no território brasileiro.
O primeiro político a ganhar o cargo de presidente, após o golpe militar, foi o mineiro Tancredo de Almeida Neves (1910-1985).
Antes de ser eleito pelo Colégio Eleitoral, Tancredo participou de movimentos que visavam a queda do regime sangrento, de chumbo. Entre esses movimentos, o das Diretas Já.
O golpe de 64, que resultou no governo militar, ficou marcado por censura à Imprensa, cassação de políticos e fechamento do Congresso Nacional. Mais: perseguição, prisão, tortura e morte.
Muitos brasileiros foram exilados no período, entre eles Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré. Muitos protestos ocorreram no país antes das Diretas Já.
Em 1968, a cantora e atriz Vanja Orico colocou-se diante de veículos do Exército. O protesto de Vanja correu mundo.
Clique na imagem para visualizar melhor o texto
Nem todos os artistas, porém, foram perseguidos pelos donos do poder à época. Exemplo: Raul Gil.
Em agosto de 1997, entrevistei Raul Gil para a Agência Brasileira de Reportagens, ABR, empresa da qual eu era colunista. Essa entrevista foi publicada em vários jornais, entre os quais o Jornal da Bahia.
Na madrugada de 8 de dezembro de 1980 a sede da ABR, na rua Dr. Homem de Melo, Perdizes, SP, foi alvo de um atentado que resultou em destruição.
Pra entender o que aconteceu no decorrer do ciclo militar, fundamental é ler livros como A Ditadura Envergonhada, de Elio Gaspari (Companhia das Letras, 2002).
O napolitano e comunista de carteirinha em 1962, Gaspari, nascido em 1944, escreveu uma obra completa sobre tudo que aconteceu no decorrer da ditadura militar, desde 1964.
Se foi amigo dos generais ou não, isso não tem importância.
A importância do Gaspari está na obra que escreveu, em 5 volumes.
Gaspari conta bastidores do poder que nos ferrou. Entrevistou todo mundo, durante horas e horas.
Ele conta da importância de Heitor Aquino Ferreira e Golbery do Couto e Silva. Detalhe: Golbery nunca foi general, mas sim tenente-coronel.
Heitor e Golbery foram de extrema importância para Geisel no comando da Presidência.
Pois então, como acho, vale a pena ler livros para, no mínimo, entendermos a nossa história. Recente, até. O começo é este: As duas guerras de Vlado Herzog, Audálio Dantas (Civilização Brasileira, 2012); Linha Dura no Brasil, de Daniel Drosdoff (Global, 1986); 1978: A Hora de Enterrar os Ossos, de Carlos Rangel (1978); Veja Sob Censura, Maria Fernanda Lopes Almeida (Jaboticaba, 2008) e 1964: A conquista do Estado, René Armand Dreifuss (Vozes, 1981).
Paulo Francis, que conheci de perto na Folha, era um cara cheio de ondas. Boa praça.
Uma vez lhe perguntei se de fato lia todos os livros que comentava. E com aqueles óculos enormes, cheios de graus, ele apenas ria: “Isso não tem importância”.
Era franco, ou quase.
A respeito do livro de René Armand Dreifuss, Francis foi claro: Não li e não gostei, é uma massaroca de mais de 800 páginas.
Além desses livros até aqui citados, há muitos outros cuja leitura só ilustrará o leitor sobre as mazelas que os brasileiros viveram naquele período sombrio em que os militares faziam e desfaziam.
Que isso nunca mais aconteça.
Recomendo a leitura de todos os livros aqui citados, incluindo mais estes:
  • Ditadura: o que resta da transição, de Milton Pinheiro;
  • 1964: O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a Ditadura Militar no Brasil, de Angela Maria de Castro Gomes e Jorge Luiz Ferreira
  • Ditadura e Democracia no Brasil: Do golpe de 1964 à constituição de 1988, de Daniel Aarão;
  • A Casa da Vovó, Marcelo Godoy;
  • 1964: O Golpe, Flávio Tavares;
  • Marighella, Mário Magalhães;
  • Tortura: A história da repressão política no Brasil, Antonio Carlos Fon;
  • Jornalismo de Guerrilha, Rivaldo Chinem.
  • E o Livro Negro da Ditadura Militar, Divo Guisoni; com capa do artista gráfico Elifas Andreato.
Elifas, que morreu no dia 29 deste mês, assinou a capa do Livro Negro da Ditadura Militar e deixou uma obra incrível pra que se entenda o que foi de fato o golpe militar de 64.

Foto e reproduções: Flor Maria e Anna da Hora.

LEIA MAIS: DITADURA NUNCA MAIS!DITADURA NUNCA MAIS! (2)A DEMOCRACIA NÃO VESTE FARDAUM ARTISTA DE BEM COM TORTURADORES

MENTIRAS DE MILITAR

Eu já disse mais de uma vez que Kafka encontraria no Brasil o lugar ideal para desenvolver os seus textos ficcionais. Não lhe faltariam personagens, além dos muitos que criou. Fantásticos. Todos eles. E as situações em que foram encaixados, também.
Há exatos 58 anos, os brasileiros acordavam com os tanques nas ruas e soldados armados até os dentes.
Muita gente foi presa, torturada e morta, sabe-se. Todos os anos, desde 1964, somos "presenteados" com "ordens do dia" assinadas pelos comandantes das 3 forças: Exército, Aeronáutica, Marinha e pelo ministro da Defesa. Ridículas.
Neste março de 2022, não foi diferente.
O pior de tudo é que os textos chamados de ordem do dia são mentirosos.
Ontem 30, por exemplo, os comandantes do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira; da Marinha, Almir Garnier Santos e da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior, assinaram essa pérola:
... Em março de 1964, as famílias, as igrejas, os empresários, os políticos, a imprensa, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), as Forças Armadas e a sociedade em geral aliaram-se, reagiram e mobilizaram-se nas ruas, para restabelecer a ordem e para impedir que um regime totalitário fosse implantado no Brasil, por grupos que propagavam promessas falaciosas, que, depois, fracassou em várias partes do mundo. Tudo isso pode ser comprovado pelos registros dos principais veículos de comunicação do período.
Nos anos seguintes ao dia 31 de março de 1964, a sociedade brasileira conduziu um período de estabilização, de segurança, de crescimento econômico e de amadurecimento político, que resultou no restabelecimento da paz no País, no fortalecimento da democracia, na ascensão do Brasil no concerto das nações e na aprovação da anistia ampla, geral e irrestrita pelo Congresso Nacional.
As instituições também se fortaleceram e as Forças Armadas acompanharam essa evolução, mantendo-se à altura da estatura geopolítica do País e observando, estritamente, o regramento constitucional, na defesa da Nação e no serviço ao seu verdadeiro soberano – o Povo brasileiro.
Cinquenta e oito anos passados, cabe-nos reconhecer o papel desempenhado por civis e por militares, que nos deixaram um legado de paz, de liberdade e de democracia, valores estes inegociáveis, cuja preservação demanda de todos os brasileiros o eterno compromisso com a lei, com a estabilidade institucional e com a vontade popular.
Pois é, como se vê, o texto aí reflete inverdades que a história jamais registrou. E nem poderia. 
Devia haver cadeia pra quem mente. Pra quem mente, simplesmente, como os autores dessa obra.
Mas enfim, o mês que ora entra é de Carnaval.

quarta-feira, 30 de março de 2022

É SEMPRE BOM RECEBER AMIGOS

Da esquerda pra direita: Fatel, Assis, Castanha, Cacá Lopes e Luiz Wilson
 
Ontem 29, no final da tarde, tive a alegria de receber na minha casa os amigos Cacá Lopes, Castanha, da dupla Caju e Castanha; Luiz Wilson e Fatel.
A prosa foi até às 21h, mais ou menos.
A mineira Fatel, de batismo Maria de Fátima Barbosa, é cantora das grandes. E produtora musical, também. Começou a gravar disco ali pelos anos de 1980. Cheguei a escrever texto pra contracapa de um de seus LPs, lançado pela extinta gravadora Copa Cabana.
Luiz Wilson é o apresentador do programa Pintando o 7, no ar todos os domingos na rádio Imprensa FM 102,5, entre às 10 e 13 horas.
Além de comandar o programa Pintando o 7, Wilson é cantor, compositor, violonista e, como se não bastasse, poeta repentista. E cordelista, autor de Caju e Castanha em Cordel: História Verdadeira e Emocionante.
De batismo José Roberto da Silva, Castanha tem muitas histórias pra contar.
Conversa vai conversa vem, sempre bem humorado, Castanha contou impagáveis passagens ocorridas nos primeiros tempos em que passou a morar na Capital paulista, ao lado do irmão José Albertino. Lembrou que comeu o pão que o Diabo amassou. Foi humilhado muitas vezes, até pela cor da pele. O apresentador de TV Bolinha chamava Castanha e Caju de "macaquinhos".
Integrantes ocasionais de uma tal Caravana do Bolinha, Caju e Castanha jamais se esqueceram da noite em que o famoso e bajulado apresentador de TV, ao entrar no restaurante junto com um político, gritou pra todo mundo ouvir: "SAI DAÍ MACACO, DA CADEIRA DO DEPUTADO!".
O caso aconteceu em Ponta Porã, cidade de Mato Grosso do Sul. Naquela noite, lembra Castanha, "Caju, meu irmão, chorou feito menino e até pensou em desistir da carreira que estávamos abraçando".
Uma vez, ainda no início da carreira, chamaram Caju e Castanha para uma participação num programa da extinta rádio Globo, SP: "Chegamos cedo, como pediram".
O programa ocupava quase toda a manhã, encerrando-se ao meio-dia. Faltando 2 minutos para o encerramento, chamaram a dupla. O apresentador, impoluto na sua condição de estrela, perguntou quem eram, de onde vinham e o que faziam. Ao ouvir as respostas, ainda perguntou: "o que diabo é embolada?". E aí acabou o programa, sem entrevista, sem nada. Até porque as perguntas foram feitas enquanto era apresentado um comercial. Pois é. O nome do apresentador? Hmmmmm... Um certo Pessoa, Boca de Não-sei-o-quê.
Ao tempo em que Caju e Castanha viviam em Sampa, a violência já era grande. E pra escapar dos assaltantes, os dois fingiam serem "da pesada".
Certa vez, policiais da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) abordaram os dois e, naquele estilo "bateu e pronto!", pediram os documentos. "Mostramos a capa do nosso primeiro LP, porque os documentos não bastavam e era preciso apresentar, também, a carteira de trabalho assinada. Escapamos e os policiais, ao fim, nos recomendaram pra não circular a noite na cidade", lembrou Castanha.
Detalhe: esse conselho os dois não levaram em conta, pois adoram andar na cidade. "Quem vem do lixo, não se perde no bagulho", explica o famoso embolador.
O primeiro artista a estender a mão a Caju e Castanha foi o mineiro Téo Azevedo. "Temos, até hoje, uma enorme gratidão a Téo. Chegamos a morar na sua casa, no seu apartamento", diz o parceiro de Caju.
Cacá Lopes, pernambucano como Luiz Wilson e Castanha, trouxe o violão e a vontade de cantar. E cantou, como cantaram Fatel, Castanha e Wilson.
Ao final da visita, Luiz Wilson e Castanha improvisaram umas loas a mim. Confira:


Você já ouvir falar do Instituto Memória Brasil? Acesse: institutomemoriabrasil.com.br/

terça-feira, 29 de março de 2022

ELIFAS ANDREATO, ADEUS

Assis com o livro
Elifas Andreato: 50 anos
de carreira

O Brasil que pensa, o Brasil que luta por dias melhores, o Brasil bonito está de luto. Sim, de luto: morreu Elifas Andreato, na manhã de hoje 29.
Elifas Andreato era paranaense da safra de 1946 e um ataque cardíaco o levou ao hospital, de onde partiu.
Antes de se tornar o mais importante e aplaudido designer do Brasil, Elifas foi metalúrgico. 
Foi pelas mãos do jornalista alagoano Audálio Dantas que Elifas alçou voo no campo das artes plásticas. Já escrevi muito a seu respeito.
Eu conheci Elifas ali pelos começos dos anos de 1980.
A sua atuação nas áreas social e política foi de grande importância para o País. Para o País, reforce-se, que pensa, que luta por tempos melhores. Sempre. Elifas não pensava duas vezes para jogar-se de corpo e alma no trabalho que tinha por objetivo o refortalecimento da Democracia.
Era radicalmente contra qualquer tipo de agressão e censura. São famosas as capas e ilustrações que fez para jornais da chamada "Imprensa Nanica", como Opinião e Movimento.
Há muitos quadros seus retratando os "anos de chumbo" no Brasil.
Há obras em várias entidades democráticas. No Congresso Nacional, inclusive.
Em 1972, Elifas fez a capa do Livro Negro da Ditadura Militar. Esse livro provocou grande polêmica. É ele mesmo quem fala: Elifas Andreato e a capa do Livro Negro da Ditadura 
Semeador, por Elifas Andreato
Em 2011, o artista recebeu o prêmio Vladimir Herzog concedido pelo Instituto Vladimir Herzog, pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), pelo Comitê Brasileiro de Anistia, pela Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP e Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo.
Poucos sabem, mas Elifas Andreato escrevia letras poéticas para amigos seus, como Jessé, musicar. Até um prêmio internacional ele ganhou. Foi num festival de música realizado em terras do Tio Sam. 
Capista de LPs de Chico Buarque, Martinho da Vila, Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola, Elis Regina, Clara Nunes e da dupla Toquinho e Vinícius e centenas de outras mais, Elifas também fez cartazes para teatro etc. Morreu pobre e endividado, com um banco ameaçando tirar-lhe do lugar onde morava. 
Eu soube dos problemas materiais que Elifas enfrentava através de amigos. Mas ele, mesmo, não costumava falar sobre o assunto.
A última vez que falei com Elifas foi num dia qualquer de janeiro deste ano, quando por telefone lhe pedi que escrevesse um pequeno texto contando o que o trouxera de Rolândia (PR), para a Capital paulista. Esse texto seria incluído numa reportagem que fiz especialmente para o Newsletter Jornalistas & Cia. Prometeu, mas não fez. Talvez por já estar vivenciando problemas relacionados à saúde.
Elifas Vicente Andreato foi um grande poeta do traço.
No livro Elifas Andreato: 50 anos de carreira, lançado em 2018, ele inicia dizendo o seguinte:
Somos aquilo que lembramos. A frase é do filósofo e jurista italiano Noberto Bobbio e está no livro O Tempo da Memória.
Lembro-me de outra, não sei se com as mesmas palavras, mas o significado é o seguinte: nossa riqueza são nossos pensamentos, as ações que cumprimos, as lembranças que conservamos e não deixamos apagar e das quais somos o único guardião.
Depois de um certo tempo de vida temos que batalhar para que as lembranças não nos abandonem. Devemos nos entregar a elas com afinco porque as recordações não aflorarão se nós não as procurarmos nos mais distantes recantos da memória.
Este livro (Elifas Andreato : 50 anos de carreira) são minhas lembranças.

As últimas ilustrações para discos de Elifas Andreato foram estampadas nas capas de CDs de Socorro Lira e Jorge Ribbas. O HOMEM NÃO TEM JEITO. O PRECONCEITO MATA.

segunda-feira, 28 de março de 2022

O FAZENDEIRO ZÉ HAMILTON, EM MINAS

Somente hoje 28 consegui ouvir a bela reportagem sobre o colega jornalista José Hamilton Ribeiro (ao lado comigo e com minha filha, Ana), levado ao ar no último dia 20, no programa Globo Rural (TV Globo). 
Nessa reportagem Zé mostra a intimidade do seu lar, uma fazenda em Uberaba, MG.
Na fazenda tem umas 30 vacas, leite bastante e um ambiente incrível.
Zé, aos 86 anos, parece ainda um meninão. Ou um vô daqueles que todo mundo gostaria de ter.
Doido por alegria, saúde e vida boa, Zé Hamilton insiste em achar e viver a felicidade.
A reportagem a que me refiro faço questão de compartilhar com vocês. Clique: De jornalista a fazendeiro: saiba onde está José Hamilton Ribeiro
Não custa lembrar que, em 1968, Zé Hamilton foi cobrir guerra no Vietnã. O MUNDO PÓS VIETNÃ
Em agosto de 2018, fiz um poema pra o Zé. O amigo Jorge Ribbas pôs uma violinha de acompanhamento. Acompanhe:

O mundo anda perdido
Que nem galo sem terreiro
Que nem um cego sem guia
Ou barco sem timoneiro
Mas ainda bem que tem
José Hamilton Ribeiro

Repórter de boa cepa
Ouro puro, verdadeiro
É um galo bom de briga
Doido por galinheiro
Hoje seu nome é marca
Do jornalismo brasileiro

Na pauta desse José
Tem sanfona, tem pandeiro
Tem cantiga de Matuto
E prosa de marrueiro
Fora isso ainda tem
Verso, viola e violeiro

Ele foi a todo o canto
Foi até o estrangeiro
Foi à luta, foi à guerra
Lutou foi bom guerreiro
Caiu mas levantou-se
De modo muito ligeiro

Incansável segue firme
Livre, leve e faceiro
Redescobrindo na vida
O prazer aventureiro
De fazer mais reportagens
Com o carimbo Zé Ribeiro

Novas guerras continuam
No Brasil, no mundo inteiro
É gente matando gente
Por nada, só por dinheiro
Mas nem a morte mata
José Hamilton Ribeiro

domingo, 27 de março de 2022

CAMÕES, SEMPRE CAMÕES (2, FINAL)

Retrato de Dom Sebastião
no livro Os Lusíadas
O feito do poeta Camões é insuperável. Em qualquer língua.
No Brasil houve tentativa de se compor algo parecido ao feito de Camões.
Em 1923 o poeta Augusto Meira (1873-1964) tomou para si essa tarefa. Ou seja, a de transportar com tinta verde/amarela a história do achamento das nossas terras até a Guerra do Paraguai (1864-1870). Essa tentativa, naturalmente frustrada, pode ser conferida pela leitura do livro Brasileis, a Epopeia Nacional (Instituto Lauro Sodré).
Eu não quis fazer o que Meira tentou. Resolvi fazer, simplesmente, uma readaptação d’Os Lusíadas. Usei os principais personagens, mas não trouxe a narrativa para o Brasil. No sentido histórico do termo. Acrescentei por acrescentar, dois poetas cantadores nordestinos contando a história de Vasco da Gama e a história de Vaz de Camões.
A essa adaptação, dei o título de A Fabulosa Viagem de Vasco da Gama no Mar (adaptação livre de Os Lusíadas para canto e cordel). Começo assim:

Aqui neste ambiente
Eu venho para contar
A história de um homem
De força espetacular
Que nunca fugiu à luta
Nem na terra nem no mar

Esse homem eu conheço
Dele já ouvi falar
É pessoa corajosa
Treinada para lutar
Esteve em todo canto
Navegando pelo mar

Eu e minha viola
Viemos pra espalhar
A coragem desse homem
Forte, justo, exemplar
Que nunca teve medo
Do terror que há no mar…


E sigo, no canto 2:

Um dia Júpiter chamou
Seus pares pra conversar
Queria deles saber
Que posição adotar
Sobre uma certa viagem
De certo homem do mar

Num piscar d’olhos chegaram
Os deuses para escutar
Queriam eles saber
O que Júpiter tinha a falar:
Seria sobre a viagem
Daquele homem do mar?

Ouviu-se um zum, zum, zum
Eram Deuses a murmurar:
Quem seria esse valente
Decidido a enfrentar
Os mau humores do tempo
E as estranhezas do mar?

Esse homem era forte
Fora feito pra lutar
Pensava o tempo todo
Num modo de viajar
Queria ir pra longe
Bem pra longe pelo mar…

E no canto 3, eu digo:

Sob céu de brigadeiro
Dia bom pra passear
Com ruas embandeiradas
Saltimbancos a brincar
Anunciando boas novas
Com salva de tiros no mar

Tudo está perfeito...
"É preciso navegar
Viver não é preciso"
Isso é certo vou contar
Três ou quatro navios
Seguiriam pelo mar…


E mais um pouco, sigo adiante:

Tinha 28 anos
Ao resolver aceitar
O enorme desafio
De fazer o mundo vibrar
Com a grande façanha
De ir à Índia pelo mar

Reuniu a marujada
Para tudo por a par
Lembrou de graves perigos
Que iriam encontrar
Agora principalmente
Na viagem pelo mar

Ele estava firme
Já pronto pra embarcar
Tinha mais do que certeza
De seu alvo alcançar
Realizando o sonho
De ganhar a terra pelo mar…


No 5º canto, eu trago a Ilha dos Amores criada pela deusa Vênus:

Há na Ilha dos Amores
Mitos e lendas no ar
E figuras encantadas
Dançando à luz do luar
Enquanto o vento canta
Antigas cantigas do mar

Desde sempre se sabe
Que na vida é bom sonhar
Na Ilha dos Amores
Não é pecado pecar
Pecado é não ouvir
Os cantos que vêm do mar

Cantos que sempre contam
De guerreiros a guerrear

De seres apaixonados
Que morrem só por amar
De segredos das estrelas
E de mistérios do mar…

A história é, de fato, fabulosa, incrível. E tudo começa quando Camões decide contar o heroísmo do seu povo, depois de ler Homero e Virgílio.
Homero contou cantando a história do seu povo. O mesmo o fez Virgílio.
É isso.
Outro dia falei a respeito desse épico ao repórter Ivan Finotti, da Folha de S.Paulo. Sem cuspir pra cima, sem querer isso, apenas lembro: eu perdi a visão dos olhos, mas não perdi a visão da memória. Fiquei invisível, é certo. Estou cego, dos olhos. Só. Poucos me veem, paciência… E digo a quem quiser ouvir, estou vivo.
Pois é, há 450 anos era lançado o clássico Os Lusíadas.

LEIA MAIS: NINFAS E DEUSES EM CAMÕESCAMÕES E A LÍNGUA PORTUGUESA

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