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domingo, 16 de abril de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (8)

 A primeira história em quadrinhos feita no Brasil por Agostini chamou-se As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma viagem à Corte. Ano: 1869.
No dia 3 de julho de 1992, 2 dias antes de morrer, Alcides Aguiar Caminha, foi agraciado com o prêmio HQ Mix como “pai dos quadrinhos eróticos nacionais”. E ainda teve tempo de agradecer, segundo registro do jornal O Globo: “É um pouco tardio, mas fico lisonjeado. É uma homenagem justa porque os livrinhos instruíram os jovens daquela época e esclareceram muita coisa que eles desconheciam”.
As historiazinhas sacanas de Zéfiro publicadas em folhetos, grosso modo falando, marcaram época por terem objetivo masturbatório, de iniciação sexual, por isso mesmo chamados de “catecismos”. Educativos, vejam só! Valia tudo, na imaginação de Zéfiro: homem com homem, mulher com mulher, troca de casais, posições “papai-mamãe”, anal e tudo mais que se

Última edição de O Rio Nú
possa extrair da imaginação de um cidadão que passou boa parte da vida no gozo ou fazendo gozar.
As primeiras publicações que trataram da questão começaram no Rio de Janeiro, na virada do século 19. A primeira delas foi O Rio Nu. Ingênua e de nenhuma afoiteza de caráter sexual. Simples e banal. As ilustrações, desenhos feitos à meia-boca, não tinham aparentemente o propósito de despertar safadezas nas mentes masculinas e femininas da época, pelo menos no olhar de quem folheia aquelas páginas nos dias de hoje.
Esse jornal foi inaugurado no dia 13 de maio de 1898. Era editado por três amigos: Heitor Quintanilha, Gil Moreno e Vaz Simão.
Além de O Rio Nu, cuja circulação foi encerrada no dia 30 de dezembro de 1916, outros títulos o seguiram na temática, como Sans Dessous, O Coió, O Riso, O Tagarela, O Nu, A Banana, O Nabo.
O dia 30 de janeiro é o Dia Nacional das Histórias em Quadrinho, inspirado em Agostini.

sábado, 15 de abril de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (7)

Depois de Zéfiro as bancas de revista foram inundadas por quadrinhos de sacanagem feitos aos milhares, talvez milhões. Os títulos, como as histórias, explícitos.
Tinha historinha sacana pra tudo quanto é gosto. Exemplo é Pra onde a vaca vai o boi vai atrás, título claramente inspirado na bobagem brega de João da Praia, pseudônimo do paulista Antônio Zacarias (1950-1989). Trata de uma jovenzinha gostosa e um macho em ponto de bala. Ele, peão da fazenda do pai dela, vê-se "obrigado" a realizar as fantasias da moçoila. O pai desconfia e dá de garra de uma garrucha decidido a pôr fim à safadeza dos dois.
A Internet acabou com isso tudo, possibilitando aos admiradores e seguidores de Onã cenas em movimento e tal. Mais picantes, pois.
Onã é um personagem bíblico usado pela igreja para proibir sexo anal e masturbação, tomando-o como exemplo dessa prática tão comum em todos os tempos.
Ah! Sim: em São Paulo e no Rio de Janeiro há logradouros com os nomes de Angelo Agostini e Carlos Zéfiro.
Em 1996 a cantora Marisa Monte levou a público o CD intitulado Barulhinho Bom em homenagem a Zéfiro, que deixou como herança pelo menos 600 catecismos. Esse disco, um CD, foi lançado à praça brasileira sem nenhum problema. No lançamento, foram distribuídos alguns títulos do Zéfiro.
Nos EUA o mesmo disco de Marisa Monte recebeu como carimbo na capa uma tarja como censura. Isso na terra considerada o berço e exemplo de liberdade. Ora veja! Até o título foi traduzido para A Great Noise.Agostini e Zéfiro têm sido personagens de interesse do mundo acadêmico.
Em 2013 a então mestranda Érika Cardoso, da Universidade Federal Fluminense, apresentou num simpósio realizado no Rio Grande do Norte trabalho que desenvolvia sobre Zéfiro. Título: “O pornógrafo ingênuo — Carlos Zéfiro entre a História e a memória”.
Lá pras tantas ela lembra a antropóloga Maria José Silveira, segundo a qual “Na prática Carlos Zéfiro foi um autêntico precursor do feminismo, no que o feminismo tem de bom, já que seus catecismos evidenciam que as mulheres têm prazer, sabem tomar iniciativas, sempre revestem de paixão o ato sexual e que, com raras exceções, as narrativas nos catecismos não dão espaço ao moralismo”. Recomendo a leitura: http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364259543_ARQUIVO_ARTIGOANPUH.pdf


Também já foram escritos e publicados pelo menos 4 livros sobre o endeusado personagem. O primeiro A Arte Sacana de Carlos Zéfiro, organizado por Joaquim Marinho, com pequenos textos analíticos assinados por Roberto da Matta, Sérgio Augusto e Domingos Demasi; e o segundo Os Alunos Sacanas de Carlos Zéfiro, também assinado por Marinho. O terceiro, O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro, de Otacílio d’Assunção. E o mais recente, de 2018, O Deus da Sacanagem: a Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro. Autor: Gonçalo Junior.
Fora isso há documentários sobre Zéfiro e Agostini. Em 2020, o cineasta Carlos Tendler lançou o filme Em Busca de Carlos Zéfiro. Em 2013, Bira Dantas rodou o documentário Desvendando Ângelo Agostini ou 30 Anos da AQC.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

EU E MEUS BOTÕES (62)

Barrica entra na casa com o celular na mão, chamando a atenção de todos para a notícia do G1, em voz alta lendo o título: Reunião que teve joias para Bolsonaro abordou ativos da Petrobras e Opep, mostra telegrama. "Isso não pode ser!", rebateu estupefato Jão. "Pode ser, sim! Esse Bolsonaro do Inferno afunhenhou o Brasil e fez do seu povo gato e sapato. Faturou e muito em nome próprio, quando dizia que era honesto. Honesto coisa nenhuma!", emendou Biu. A seu lado, Zoião murmurou: "Tem muita coisa ainda a vir à tona...".
Depois de ler o título do escândalo bolsonarista, mais um, Barrica continuou a leitura: "A reunião na Arábia Saudita na qual foram dados presentes para o então presidente Jair Bolsonaro, incluindo joias com valor estimado em R$ 16,5 milhões, discutiu a venda de ativos da Petrobras e um possível convite para o Brasil integrar uma versão estendida da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep)".
O que eu posso dizer diante dessas coisas todas, a não ser que no mínimo vem mais escândalos nesse nível.
"O MPE acaba de sugerir ao STE que torne Bolsonaro inelegível por 8 anos, por afirmar sem provas que as urnas eletrônicas não mereciam a confiança dos eleitores", lembra o conciso Zilidoro. "Esse cara vai pra cadeia, ou pra ponta do meu punhalzinho...", murmurou lá do seu canto o sempre cauteloso, e um tanto esquisito, Lampa. Todos olharam pra Lampa, que de bate-pronto disse, passeando seus olhos nos olhos dos demais botões: "Que que há, nunca me viram não? Na minha terra feladaputa nasce morto!".
Pedi calma, muita calma, pois o Brasil começa de novo a ficar na crista da onda. Agora mesmo Lula disse, na China, que não entende o fato de todas as transações comerciais no mundo sejam feitas na base do dólar. Biden não gostou...
De repente, Mané diz que está acompanhando tudo isso pelo rádio. E no rádio ouviu a notícia dando conta de que o presidente da Ucrânia tá metendo o pau na gente porque não aceitamos o seu pedido de lhe mandar armas para se defender dos russos...
"Sim, isso mesmo e tem mais: ouvi dizer que o francês Macron está estimulando o Ping-Pong a meter bala nos EUA", disse Zé naquele jeito atrapalhado de ser e foi corrigido por Zilidoro, pra muitos da casa um sábio: "Não é Ping-Pong não, Zé. O nome do presidente do homem de lá, da China é Xi Jinping!".
Zé agradeceu, humildemente.
Bom pessoal, a conversa tá boa e estou orgulhoso de todos vocês pelo fato de não se deixarem alienar. Alienação anda junto com burrice e fake news. Parabéns.
Pedindo a palavra, Barrica perguntou se Zilidoro conhecia um poeta chamado Riachão. Surpreso, Zilidoro disse que sim. Disse que era amigo de Riachão, na verdade um parente distante.
"Muito bem, seu Zilidoro!", agradeceu irônico o Barrica. E pedindo licença a todos, começou a declamar: 
 
Zilidoro e Riachão
São da lira popular
Fazem versos de cordel
Pra o povo apreciar
São versos bem bolados
que fazem rir, fazem chorar...

"Agora tem uma coisinha meio doida, aqui. É assim...", recomeçou Barrica:

Riachão trava luta
Contra a hipocrisia
Contra o proibido
Em nome da fantasia
Seu cordel a Quenga Pura
Traz somente putaria...

Chega, Barrica! Deixe isso pra lá. Isso é coisa de poeta e tem poeta de safadezas, sabia?

quinta-feira, 13 de abril de 2023

QUE TAL COMEMORAR O DIA DO BEIJO?

E aí, hein?
O beijo é uma coisa boa que se acha na boca de todo mundo. De homem, mulher e bicho de todo tipo, até no bico dos passarinhos.
O beijo tem um dia: hoje, 13 de abril.
Conta a lenda que o Dia Internacional do Beijo surgiu na Itália, em 1882. Por lá havia um gostosão que estava sempre na boca da mulherada. Invocado com a situação, um padre inventou de oferecer um prêmio a uma mulher que tivesse resistido aos encantos do rapagão. Resultado: todas as mulheres passaram pela boca do cara e o prêmio não foi entregue até hoje.
Tem Dia do Beijo, pois. Tem dia do Corno e o Dia do Sexo. Pois, pois.
São milhares, inúmeras as músicas que falam de beijo, de corno e de sexo. Em todas as línguas.
Em 1945 as Irmãs Castro gravaram uma coisinha linda, gostosa de ouvir, chamada Beijinho Doce. De Nhô Pai. Fica o registro e relembre que belezura é ouvir a dupla cantando essa cantiga. Ouça: https://www.youtube.com/watch?v=SiIQdMzwQfA
E veja:
 

quarta-feira, 12 de abril de 2023

SOCORRO LIRA ESTÁ NA PRAÇA

A cantora, compositora e instrumentista paraibana Socorro Lira, com duas décadas de carreira e uma dúzia e meia de discos gravados, está na praça com charme e beleza, apresentando um repertório muito bonito, a maior parte composta no correr da pandemia de Covid-19. 
Em março, Socorro marcou grande presença na Sala Itaú Cultural. Lotou com um público entusiasmado cantando e batendo palmas. Foi bonito. Socorro fez-se acompanhar dos músicos Jorge Ribbas e Ricardo Vignini. O espetáculo, durou pouco mais de uma hora. Começou às 20h.
Socorro Lira tem andado mundo afora apresentando a sua obra. Por onde passa, carrega gente. Entusiasma. Ela é uma das artistas mais reverenciadas no Brasil. A sua obra marca pela qualidade e importância. Fala de amor, companheirismo, meio ambiente e de paz, mesmo quando fala de guerra. No espetáculo apresentado em março no Itaú, Socorro mostrou parcerias inéditas com Zélia Duncan, Chico César, Cátia de França, Cecília Beraba e Ana Costa.
Jorge Ribbas faz arranjo das músicas de Socorro Lira há mais de 15 anos. São espécie de almas gêmeas, musicalmente falando.
O espetáculo Dharma foi gravado e pode ser acessado por você meu amigo, minha amiga. Para tanto, basta clicar:
 

domingo, 9 de abril de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (6)

O número com a matéria de
Zéfiro agora é peça de colecionador

As revistinhas do sacana Zéfiro passavam de mão em mão, literalmente.
Mas quem era Zéfiro?
Em novembro de 1991 a revista Playboy dedicou cinco páginas ao personagem que fez a alegria de jovens e marmanjos afoitos, durante pelo menos duas décadas. Como chamada de capa a revista trazia: "Acabou o mistério de 30 anos - Revelamos a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro, o lendário autor dos quadrinhos eróticos que enlouqueciam o País". E lá dentro, a manchete: "O Fim de 30 anos de Mistério".
O autor da matéria, jornalista Juca Kfouri, lembra que foi muito difícil convencer o autor dos "catecismos" a revelar o seu nome verdadeiro: Alcides Aguiar Caminha.
Encafifado sempre fui no tocante a essa história, peguei o telefone e Juca me disse que o momento era mais ou menos impróprio. Estava assistindo à TV uma partida de futebol para comentar no dia seguinte, mas papo vem papo vai, revelou e deixou-me fazer perguntas.
Contou-me detalhes que não contou na entrevista que fez com o criador de Zéfiro.
A história contada por Juca, à época diretor da revista Playboy, começa quando recebe um telefonema de Moacy Cirne, professor da Universidade Federal Fluminense. O professor perguntava se interessava fazer cobertura de uma exposição de revistas de sacanagem que estava na programação da Universidade. E Juca respondeu com outra pergunta: "E o Zéfiro vai estar?".
Como resposta, o professor disse que há muito tempo também estava à procura do famoso autor das historietas de libertinagem, tão procuradas por gente de todo tipo.
Pouco depois dessa conversa Juca recebeu um telefonema do diretor da revista Imprensa, Sinval de Itacarambi Leão. Queria saber se a Juca interessava entrevistar o "verdadeiro" Carlos Zéfiro. Claro, disse. Resumindo: Juca marcou encontro, no Rio, com um cara chamado Eduardo Barbosa (1914-2006). Desenhista dos bons, dos antigos, que dizia ser o o Zéfiro e queria pela entrevista 25 mil dólares.
A essa altura, Juca Kfouri já havia mantido contato pessoal com o primeiro editor de Zéfiro: Hélio Brandão, dono de um sebo na capital fluminense.
Zéfiro produziu e publicou pelo menos
600 títulos dos famosos catecismos
Também a essa altura Juca já havia chegado ao nome de Caminha e até tentara convencê-lo a dar a tão pretendida entrevista à Playboy. Negativo, no primeiro momento. Depois, no segundo momento, Juca apostou alto. E disse a Caminha na sua casa em Anchieta, RJ: "Eu vou publicar entrevista com o Barbosa. É ele o Zéfiro".

Caminha não gostou do que ouviu. E terminou por contar a sua história, mas gostaria de ler o texto antes de publicado. Pedido feito, pedido atendido.
"Voltei a casa do Caminha com a matéria pronta. Reunida numa mesa grande, Caminha, sua mulher e a família toda me aguardavam. Comecei a ler o texto. Lá pelas tantas, ouvi um fungado ou algo parecido. Depois, mais um e mais outro. Eram ele e a mulher chorando, emocionados".
Todos eram a favor de que Alcides Caminha revelasse o fato de que Zéfiro era ele mesmo, mas resistia. Juca: "Foi uma das melhores matérias que já escrevi na minha vida. Orgulho-me disso".
A matéria de Juca Kfouri é do caralho!
Essa matéria, cuja cópia Juca me mandou, virou peça de colecionador. Compartilho com vocês: https://drive.google.com/file/d/12DUEnjAPfFn9VqPzt1wQ7zqWY8N78cja/view?usp=sharing
Caminha morreu oito meses após a publicação da entrevista.
Alcides Caminha foi também um compositor musical bastante inspirado. É dele, por exemplo, em parceria com Nelson Cavaquinho e Guilherme Brito o samba A Flor e o Espinho.

sábado, 8 de abril de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (5)

Já foram publicados pelo menos
4 livros sobre as aventuras de Zéfiro
No dia 8 de abril de 1843 nascia na Itália um cara chamado Angelo Agostini. Esse cara foi levado pelos pais à França. E lá estudou. Tinha 16 anos de idade quando chegou ao Brasil. Morou em São Paulo.
Agostini foi o nosso primeiro quadrinista.
Quadrinista é o artista desenhista que conta histórias em desenhos.
No dia 26 de setembro de 1921 nascia em São Cristóvão, bairro do Rio de Janeiro, um cara chamado Alcides Aguiar Caminha.
Caminha foi um dos criadores pioneiros das revistinhas de sacanagem no Brasil. O mais explícito.
Até o ano de 1949 os jovens, principalmente os jovens, para se satisfazerem sexualmente sozinhos tinham de apelar para a imaginação sem o "auxílio" de revistas de mulher pelada. Dureza. Até então o que havia à disposição dos onanistas de plantão eram revistas "naturalistas" com fotografias de mulheres nuas em jardins, parques e publicações com mulheres desfilando em maiôs pelas praias.
Estou falando principalmente de revistas, mas é bom que se diga que já na virada do século 19 havia jornais direcionados a um público que na intimidade dava asas à imaginação, sexualmente ou putanamente falando. Um desses jornais, O Rio Nu, marcou época. Começou a circular em 1898 e foi até 1916. O último número, de dezembro daquele ano, trazia o conto O Don Juan de Calças Largas. Putaria implícita.
O Rio Nu foi o jornal que inventou o "gênero alegre".
A primeira revista ou revistinha de sacanagem explícita chegou à praça no ano de 49, nas bancas do Rio. O governo era Gaspar Dutra. O pioneiro nessa história foi Carlos Zéfiro.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

DIA DO JORNALISTA TEM HINO

No dia 7 de abril de 1931 a Associação Brasileira de Imprensa, ABI, criava o dia dedicado aos jornalistas brasileiros. Foi em decorrência do assassinato de Libero Badaró, sobre quem me inspirei e compus Hino a Badaró. A melodia é de Jorge Ribbas. Ouça: 


LEIA MAIS: DE COMO O ASSASSINATO DE UM JORNALISTA PROVOCOU A QUEDA DE UM REI (1) JORNALISTAS EM FESTA E OPERETA INFANTIL

quinta-feira, 6 de abril de 2023

METRÔ DARÁ NOME DE ASSASSINO A UMA ESTAÇÃO

Paulo Freire na visão do cartunista Fausto Bergocce
 
Em breve, o Metrô de São Paulo dará o nome do bandeirante Fernão Dias Paes Leme a uma de suas futuras estações. A estação está programada como extensão da Linha 2-Verde, que atualmente liga a Vila Madalena à Vila Prudente. O nome de Fernão Dias estará numa das estações dessa linha, que se prolongará até o bairro da Penha.
O nome antes escolhido era o do educador pernambucano Paulo Freire.
Segundo a direção do Metrô, a nova escolha foi resultado de uma pesquisa entre sabe-se lá que grupo de pessoas.
Fernão Dias foi um bandeirante que entrou para a história como assassino e responsável pela prisão e "venda" de indígenas que escravizava. Morreu em Minas Gerais aos 73 anos de idade, achando que tinha descoberto uma enorme jazida de Esmeraldas. O que achou, na verdade, foi uma coisa chamada Turmalina.
Paulo Freire foi um dos mais importantes brasileiros, cuja vida foi toda dedicada à educação.
Em 1963, há exatos 50 anos, Freire criava o métodos que leva o seu nome.

LEIA MAIS: PAULO FREIRE EM CORDEL BOLSONARO, EDUCAÇÃO E PAULO FREIRE

quarta-feira, 5 de abril de 2023

LUIZ GAMA VIRA PRÊMIO DE DIREITOS HUMANOS

Clique para ler
 Todo mundo sabe e se não sabe deveria saber que Lula, presidente do Brasil pela terceira vez, tem seu pensamento e ações voltados a valorização das pessoas e dos direitos humanos. Muita coisa já fez, nesse sentido. E continua fazendo.
No último dia 3 o Diário Oficial da União, DOU, revogou a Ordem do Mérito Princesa Isabel, criado pelo governo anterior. No seu lugar foi criado o Prêmio Luiz Gama, que "será dado a cada dois anos a pessoas físicas ou jurídicas de direito privado cujos trabalhos ou ações mereçam destaque especial nas áreas de promoção e de defesa dos direitos humanos no País".
Isabel, de batismo Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon e Bragança, feita princesa pelo pai Pedro II, foi quem assinou a Lei Áurea "libertando" pessoas escravizadas até o dia 13 de maio de 1888. Essas pessoas, porém, ganharam a rua e nada mais. Quer dizer, o que a princesa fez ficou muito aquém do necessário.
Jornais da época, como o Gazeta de Notícias (acima), deram destaque ao ato da princesa no Paço Imperial, no Rio, naquele distante 13 de maio.
A luta pela dignidade humana levada à cabo pelos abolicionistas de primeira hora, como Luiz Gama e José do Patrocínio, não ficou só na assinatura formal da princesa. Foi além e como tal, continua.
O jornalista e poeta Luiz Gama dedicou sua vida a essa luta. Portanto a iniciativa de Lula é bem vinda.
Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, só neste ano mais de 1.127 brasileiros foram libertos de trabalhos análogos à escravidão só neste 1º trimestre.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

O BRASIL MAL-EDUCADO. QUE PENA!

É um horror, é um horror!
Ouço no rádio notícias dando conta de pessoas, simples, sendo massacradas por pessoas. Também simples.
O que é que está havendo no meu País?
O Bolsonaro fodeu tudo, eu sei. Mas não está na hora de a gente repensar na importância da vida e das pessoas?
Somos o que somos, iguais no rigor.
No rádio ouvi notícia de uma aluna de 45 anos de idade sendo humilhada, zombada, ridicularizada... Preconceito às favas!
No rádio também ouvi notícia dando conta de uma garota autista sendo "zoada" por alunos e alunas da sua classe. Escola no Rio de Janeiro.
Deus do céu, até quando nós pessoas humanas continuaremos assim a menosprezar nossos iguais?
Estou triste.
O Brasil precisa se reeducar. Precisamos nos reeducar.

domingo, 2 de abril de 2023

HÁ 40 ANOS MORRIA GREGÓRIO BEZERRA

 O golpe militar de 1964 foi efetivado no final da madrugada do dia 1° de abril. Loucura. Pego de sopetão, o Brasil calou estupefato. O pior viria em seguida, com perseguições e tudo o mais.

No dia 2 de abril daquele ano o líder das Ligas Camponesas e ex-deputado federal Gregório Bezerra foi preso e torturado em praça pública.  Isso em Recife, PE. Bezerra foi manietado e arrastado por um jipe do Exército. Sofreu, sangrou e quase morreu diante de pessoas comuns que a tudo assistiam nas ruas da capital pernambucana. O horror foi transmitido ao vivo por canais de TV locais. Esse horror só foi suspenso por intervenção de freiras de um colégio perto de onde tudo acontecia.

A violência contra Gregório foi tanta que prefiro parar por aqui.

Não conheci pessoalmente Gregório Bezerra, mas fui escalado pela chefia de reportagem da Folha para fazer a cobertura de seu velório no hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. Bezerra morreu de um ataque cardíaco na madrugada do dia 21 de outubro de 1983. Para minha surpresa deparei-me com Luís Carlos Prestes, o da Coluna. Entrevistei-o. Falou-me da sua relação histórica com Bezerra. Aproveitei a ocasião para perguntar a Prestes se ele conhecera o gangaceiro Virgolino Ferreira, o Lampião. Olhou-me surpreso e respondeu-me o que lhe perguntara. Foi um papo de uns 20 minutos, talvez um pouco mais. Disse-me que não conheceu Lampião pessoalmente, mas se viram à distância. Enfileirados,no Ceará, acho que em 1926 ou 1927.

O causo foi o seguinte: o governo usou padre Cícero para convencer Lampião a combater a Coluna Prestes. Para isso, o famoso cangaceiro receberia armas e ganharia a patente de capitão. Prestes disse-me algo como "não topou por entender rapidamente que estaria combatendo contra quem combatia o mesmo inimigo. Ou seja, o governo".

Lampião virou capitão por conta própria. 

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (4)


 Seguindo a mesma temática, isto é a licenciosidade como tema do nosso dia a dia, o poeta repentista Otacílio Batista publicou de sua autoria o cordel em décimas de sete sílabas O Corpo da Mulher Nua. Na penúltima estrofe diz:
Assis Angelo e Otacilio Batista, em programa da Rádio Atual

Sobe tudo neste mundo
Sem dó e sem compaixão,
O relógio da inflação
Nunca atrasou um segundo.
É raro um cheque ter fundo
Num país mal governado.
A rolinha do passado
Abre o bico mas não canta,
Mulher pelada levanta
Salário de aposentado…


O editor e cordelista cearense Klévisson Viana transformou em literatura poética o caso de uma prostituta que providencia um catimbó pra matar um delegado que a humilhou desferindo socos e pontapés. O final é feliz. Começa assim:

Leitores, não se enfadam
Vou retornar ao passado
Para narrar uma história
Que passou em nosso Estado
O caso de um puta
Que matou, numa disputa,

Um temível delegado...

Esse folheto, intitulado O Romance da Quenga que matou o Delegado, foi adaptado para um capítulo da série Brava Gente, da TV Globo. A personagem feminina foi interpretada pela atriz Ana Paula Arósio. Confira:

sábado, 1 de abril de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (3)


Muitos cordelistas, também chamados de poetas de bancada, optam pelo anonimato ou pseudônimo ao escreverem histórias nas quais inserem palavras, frases e versos de baixo calão. Mas há também autores que publicam este tipo de história com nomes que corriqueiramente os identificam perante o seu público. São muitos os casos. Entre esses Mestre Azulão, Erotildes Miranda dos Santos, Abrão Batista, Cícero
Lins de Moura, Manoel Monteiro, Gonçalo Ferreira da Silva, Alípio Bispo dos Santos, Manoel Caboclo e Silva.
É vasta a produção de histórias picantes na poética de cordel e da dita literatura erudita em que se destacam nomes de brasileiros como Olavo Bilac, Jorge Amado, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, sem falar no primeiro de todos: Gregório de Matos Guerra (1639-1696).
O português Bocage, por extenso Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), fez piadas e versos picantes. E põe picante nisso! É dele a história A Mulher do Amigo, adaptada para quadrinhos e publicada no formato de folheto. Nessa história rola um triângulo amoroso, do tipo capaz de enrubescer até poste. Curiosidade: Bocage foi preso sob a acusação de, digamos, libertino. Isso em 1797. Os versos que o levaram à cadeia diziam:

Pavorosa Ilusão de Eternidade
Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
D'almas vãs sonhos vão, chamado inferno;
Sistema de política opressora...


Gozador em todos os sentidos, Bocage escreveu um soneto intitulado Epitáfio. Termina assim:

… Aqui dorme Bocage, o putanheiro
Passou a vida folgada e milagrosa
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro


Em 2022 a editora BoiTempo publicou uma antologia do poeta intitulada Da Erótica. A organização da obra é do crítico literário e estudioso dos textos de Marx, José Paulo Neto.
Mas voltemos aos nossos compatriotas, que usam a putaria para se expressar. O campo é minado, mas não tem como reconhecer a graça originária fixada em letras de forma nos folhetos de cordel. Mestre Azulão, ora veja, paraibano um dos criadores da Feira de São Cristóvão, RJ, escreveu e publicou O Poder que a Bunda tem. Engraçadíssimo.
O pernambucano José Francisco Borges, o J. Borges, é cordelista e xilogravador dos mais conhecidos e premiados no Brasil e mundo afora. É dele a bela xilo A Chegada da Prostituta no Céu e o cordel A Filosofia do Peido, cuja primeira estrofe é essa:

Vários poetas escreveram
O valor que o peido tem
Eu achei muito engraçado
O peido é feito um trem
Tanto apita como ronca
Na hora que o peido vem…

sexta-feira, 31 de março de 2023

O BRASIL SOBREVIVEU AO GOLPE MILITAR. VIVA A DEMOCRACIA!

Na manhã do dia 31 de março de 1964, sob o comando do general Mourão Filho (1900-1972), milhares de soldados marchavam de Minas para o extinto Estado da Guanabara pela rodovia 040. O propósito era apear do poder o presidente João Goulart, acusado pelas forças armadas de ser comunista.
Comunista?
Goulart, chamado de Jango, era um possante fazendeiro no Rio Grande do Sul com ideias voltadas ao bem do Brasil.
As tropas de Mourão Filho alcançaram a Guanabara na madrugada de 1º de abril. Tanques na rua e tal. O povo, de boca aberta, foi pego de surpresa. E Jango caiu. No seu lugar assumiu por breve tempo uma junta militar.
A queda de Jango pôs fim à Quarta República, iniciada em 1889.
Os militares ficaram dando ordens e massacrando civis durante 21 anos, ininterruptamente.
A Quinta República começou em 1985, quando o mineiro Tancredo Neves foi escolhido presidente por um colégio eleitoral. O resto é história.
A rodovia 040 ficou conhecida como BR-3 que, em 1970, ganhou uma música no gênero soul feita por Antônio Adolfo e Tibério Gaspar. Essa música, BR-3, ganhou o 1º lugar no V Festival Internacional da Canção promovido e realizado pela TV Globo no dia 25 de outubro de 1970, no Maracanãzinho. Foi defendida por Tony Tornado, acompanhado pelo Trio Ternura. Pra lembrar, clique:


A respeito do golpe de 64, leia mais: A DEMOCRACIA NÃO VESTE FARDA DITADURA MILITAR: TRISTE LEMBRANÇA ÁUDIOS CONFIRMAM O ÓBVIO: A DITADURA MATOU ÓBVIO, DITADURA NUNCA MAIS DEMOCRACIA SEMPRE

MEDO E DELÍRIO EM BRASÍLIA

Tem muita coisa boa rolando na Internet. Há ótimos podcasts, como Medo e Delírio em Brasília, produzido e levado avante por uma certa Rádio Novelo. O pessoal desse podcast junta realidade com ficção. É pra morrer, ou viver de rir, sei lá! Quem descobriu essa joia foi a minha filha Clarissa. É ótimo. Na edição de hoje, aí embaixo, o ministro Flávio Dino, da Justiça, dá um banho de crítica e sabedoria nos integrantes da CCJ que o "convidaram" para questionamentos. Não percam e passem pra frente, pois vale a pena:

quinta-feira, 30 de março de 2023

UMA PALAVRA PELO BEM DO BRASIL: PAZ

Já faz tempo que o Brasil está meio afunhenhado. E afunhenhou-se praticamente de vez no período em que O Coiso governou o Brasil. Quer dizer, desgovernou. O propósito dele era fechar o Congresso e o País. Não deu. E findou por fugir e homiziar-se num ponto qualquer dos EUA. Voltou hoje 30, com o rabo entre as pernas e decepcionado por ter a esperá-lo apenas alguns gatos pingados, que não tinham o que fazer, no aeroporto de Brasília.
A nossa história política tem sido complicada, como de resto em boa parte do mundo.
Até hoje governos autoritários fecharam Congresso 18 vezes. A primeira vez que isso ocorreu foi em novembro de 1823, há quase 200 pois.
O Brasil já teve oito Constituições, incluindo a de 1988, a 2ª com o maior tempo de duração na nossa história. A anterior, de 1967, entrou em vigor em março daquele ano. A 1ª, não custa lembrar, foi outorgada também num mês de março (1824).
Digo tudo isso para que não nos esqueçamos que o perigo sempre nos ronda.
O Coiso voltou hoje para atiçar aqueles com quem se identifica.
No dia 30 de março de 1964 os quartéis estavam em movimento, como cobras no ninho prontas para tumultuar o ambiente, o que acabaria por ocorrer na madrugada de 1º de abril.
Não custa permanecermos atentos a movimentos estranhos. Pois o mal não tem cor nem sexo.

quarta-feira, 29 de março de 2023

VIVA BRAGUINHA!

Não custa lembrar que, grosso modo, o Brasil através de seus governantes têm o péssimo hábito de esquecer os seus grandes filhos. Isso seja nas artes em geral, seja em que campo for da atividade profissional. Hoje 29, por exemplo, é dia do aniversário de nascimento do compositor carioca Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, também conhecido por João de Barro.
João de Barro é o nome de um pássaro.
Braguinha, ou João de Barro, é autor de uma grande quantidade de sucessos musicais. Entre esses Carinhoso, Touradas em Madri e Yes! Nós Temos Bananas. Foi gravado por grandes nomes da nossa música, a partir de Carmen Miranda.
Entre 1929 e 1931, Braguinha integrou o grupo musical Bando de Tangarás. Desse grupo participava Noel Rosa, Almirante, Henrique Brito e Alvinho.
Eu conheci e entrevistei Braguinha em São Paulo. Na ocasião, ele disse que me deixaria muitas canções inéditas. E deixou, certamente.
Braguinha morreu no dia 24 de dezembro de 2006.

terça-feira, 28 de março de 2023

O BRASIL PRECISA DE REVISÃO!

Ouvi no rádio a triste e lamentável notícia da assassinato de uma professora da rede pública do Estado. O assassino é um estudante na pré-adolescência, que pôs uma máscara de caveira na cara e armou-se de uma faca peixeira para praticar o crime. Uma tragédia, na verdade.
É muita morte nas ruas e em todo canto.
Todo dia ouço notícia de marmanjo praticar feminicídio. 
Acho que o que vivemos hoje não se vivia no tempo da pedra lascada.
Ouço no rádio notícia dando conta de que várias autoridades foram ao local do crime, uma escola na Zona Oeste, mais precisamente no bairro de Vila Sônia, divisa com Taboão da Serra.
O governador disse que providências estão sendo tomadas, que irá colocar policiais em todas as escolas.
O prefeito diz que está chocado.
É preciso mudar a forma de ensino.
É preciso valorizar os professores e professoras. Chega de agressão.
A sociedade precisa imediatamente de uma revisão.
Vivemos uma barbárie.

segunda-feira, 27 de março de 2023

ONZE ANOS SEM MILLÔR FERNANDES

Millôr Fernandes no traço mágico de Fausto

 Na noite do dia 27 de março de 2012, uma terça-feira, falecia na sua casa no Rio o jornalista, dramaturgo, tradutor e artista plástico, gráfico e visual, Millôr Fernandes, no registro civil como Milton Viola Fernandes.
Millôr foi um dos mais importantes e completos intelectuais que o Brasil já deu. Começou a carreira não como artista, mas como contínuo da revista O Cruzeiro. Tinha 15 anos de idade e logo revelou-se através do traço gráfico e da sua inteligência ímpar. Foi nessa revista, do magnata da Imprensa Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, através do pseudônimo Vão Gôgo. Seu colega na revista foi o pernambucano Péricles, criador do personagem Amigo da Onça. Péricles morreu em 1961.
Em 1963, Millôr criou a revista Pif-Paf junto com os amigos Claudius, Fortuna, Jaguar e Ziraldo. A revista durou oito números. 
Autor de muitos livros, Millôr Fernandes ocupou espaço na Revista Veja, Jornal do Brasil e tal. Gerou muitas frases que caíram no gosto dos leitores. Dizia que no roteiro que estava preparando o personagem era ele mesmo, que não morria no fim.
Entre as comparações que fez, pérolas como "confundir Liberdade com Licenciosidade".
Millôr completaria 100 anos de idade no próximo dia 16 de agosto. Um de seus grandes amigos foi Flávio Rangel (1934-1988), que nasceu 11 anos e 10 dias depois de Millôr.

JUCA CHAVES

O cantor, compositor e humorista Juca Chaves morreu no último dia 25 em Salvador, BA. Tinha 84 anos de idade.

NEGREIROS

O cartunista Negreiros morreu sexta-feira 24, aos 68 anos de idade.
Como se vê, o Brasil está perdendo a graça.

domingo, 26 de março de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (2)

Na literatura popular se acham definições no mínimo engraçadas para o cidadão que é premiado com chifres pela mulher. Exemplo:
O Corno Ateu: Aquele que leva chifre, mas não acredita;
O Bravo: Aquele que quando é chamado de corno, quer brigar;
O Bateria: O que vive dizendo," Vou tomar uma solução";
O Cebola: Quando vê a mulher com outro, chora;
O Vidente: Aquele que diz "Eu já sabia";
O Cigano: Aquele que toda vez que leva chifre, muda de bairro;
O Famoso: Aquele que por onde passa, é reconhecido como tal;
O Fofoqueiro: Aquele que leva chifre e sai contando para todo mundo;
O Frio: O que leva chifre e não esquenta;
O Iô-Iô: O que vai mas volta;
O Matemático: O que vê a mulher fazendo 69 com outro e vai para o bar tomar uma 51, pois enfim ninguém é de ferro.
A poesia publicada em cordel não foi inventada por brasileiros. Referências há desse tipo de poesia desde a Idade Média.
Muitos autores clássicos tiveram e ainda têm partes da sua obra adaptada para folhetos. Caso de Giovanni Boccaccio. Que viveu no século 14. É dele a obra-prima Decameron. Dessa obra são extraídos textos para a adaptação. Exemplos: Chifre com Chifre se paga e o Homem que foi ao Inferno e Voltou Chifrudo.
São muitas as piadas em volta do corno. Uma delas trata de um sujeito tentando pular de um prédio pra se matar. Lá embaixo a mulher diz: “Para, não pula! Eu pus cornos em você e não asas!”.
A vida é uma comédia. VEJA: O TOMÉ DE SOUZA DE ZÉ LIMEIRA

Foto e ilustração por Flor Maria e Fausto Bergocce.

sábado, 25 de março de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (1)

A literatura de cordel é coisa boa, séria e engraçada.
Na literatura de cordel tem de tudo: história geral, fatos corriqueiros e inventados; histórias de príncipes e princesas, fadas, bruxas, natureza, animais e de coisas outros mundos. A classificação vai desde temas como religião, cangaço e gracejo. Trata também de figuras famosas como Padre Ciço, Lampião, Getúlio, Lula e até Roberto Carlos.
Na literatura de cordel não é difícil achar folhetos que tratam de temas do cotidiano e de personagens comuns que de uma hora pra outra caem na boca do povo.
O adultério é tema comum e picante desenvolvido por cordelistas desde o passado.
O corno como personagem folclórico aparece em inúmeros folhetos.
O ato de cornear é tão antigo e natural como o movimento das ondas do mar e o pôr do sol.
Contraditória em muitos pontos e temas, a Igreja condena os pulos de cerca.
Nas páginas do Velho Testamento é dito que a mulher deve obedecer e atender a todos os desejos do homem.
Segundo a Igreja é pecado trair. A mulher traidora deve arder no fogo dos infernos. Ai, ai, quanto exagero!
No dia 26 de março de 1986 estreou no Rio de Janeiro a comédia Trair e Coçar é só Começar, do ator Marcos Caruso. Tudo gira em torno de um casal fora de qualquer suspeita no tocante à infidelidade. Na história entra uma doméstica. Milhões de pessoas já viram essa peça, que já é referência no Guinness. Engraçadíssima.
Infidelidade conjugal é assunto que anda na boca de todo mundo. E também nas mídias.
Nomes conhecidos da chamada cultura de massa às vezes nos surpreendem com histórias mirabolantes envolvendo personagens que fazem da traição um hábito.
O compositor e cantor brega Falcão escreveu, para deleite de seus fãs, um folheto de cordel em que narra o encontro dele com um ET vindo sabe-se lá de onde! Queria conselhos de como se comportar após receber um belo par de chifres na testa: aceitar ou ir pro pau? Começa assim:

Se você acha que gaia
É coisa do imaginário
Que tem o nosso planeta
Como seu único cenário
Veja então este relato
Onde é narrado o fato
De um chifre interplanetário...

O tal ET conta que no seu planeta não tem bodega pra se beber boa pinga e tal. E corno é coisa rara, mas tem. Ele, por exemplo. Tanto que veio à Terra pra recorrer aos préstimos de Falcão. Chateado, o ET classificou a iniciativa da sua mulher como um “deslize”, só comparável ao que fez o personagem do poeta popular Zé Limeira:

O velho Tomé de Sousa
Governador da Bahia
Casou e no mesmo dia
Passou a pica na esposa
Ele fez que nem raposa
Comeu na frente e atrás
Chegou na beira do cais
Onde o navio trefega
Comeu o padre Nobrega
Os tempos não voltam mais!

Depois de aconselhado, e bem aconselho por Falcão, o ET voltou todo satisfeito ao lugar de onde veio. Parecia tranquilo. Falcão:

Enfim, o ET me disse
Feliz e muito contente
Que só tem a agradecer
Pra sempre e eternamente
Ter visto de um modo enfático
De um jeito assim tão didático
Que corno também é gente

sexta-feira, 24 de março de 2023

EU E MEUS BOTÕES (61)

"Bom dia seu Assis!", disseram em coro de modo ensaiado os meus fiéis botões.
Estou sentindo a falta de Zilidoro. Por onde anda Zilidoro? Pegou gripe? Levou queda? Ou...
Nem bem acabei de fazer essas indagações, eis que adentra a casa o querido poeta Zilidoro.
"Desculpem-me o atraso. É que tive dificuldade de apanhar ônibus ou carro de aplicativo. A cidade tá uma loucura. Quilômetros e quilômetros de engarrafamento, tudo por causa da greve dos metroviários cá de Sampa. Um horror!", justificou.
Bom pessoal, a política tá comendo solta. Os presidentes da Câmara e do Senado estão pegando pesado. O ego dos caras está lá em cima e quem paga por isso é o povo. Não se vota nada no Congresso.
Barrica se levantou da cadeira e concordou comigo, acrescentando: "Tem muita coisa pra ser votada na Câmara e no Senado. Isso todo mundo sabe, até eu que sou besta. Cadê o projeto da reforma tributária, hein?".
Zili, como é chamado na intimidade o Zilidoro, pôs a colher na pauta: "O pior disso tudo é que o presidente Lula está sem base política nas duas casas do povo. E não custa lembrar que o Senado e a Câmara têm, a rigor, maioria conservadora e sacana contra ele".
Enquanto meus ilustres botões falavam, Lampa quieto no tamborete, apenas cutucava as unhas com seu estimado punhalzinho. Sim, e com aquele olhar esquisito, tronxo, introspectivo. De repente ele se levanta e dá um soco no vento, depois de enfiar o punhal na cinta. Disse: "Ouvi há pouco no rádio informação dizendo que aquele feladaputa está voltando terça-feira que vem!".
Todos grudaram os olhos na cara do Lampa. Biu: "Cê tá falando de quem?".
Zoião deu uma risada, no que foi seguido por Zé, Jão e Mané. Risada geral. Lampa: "Eu tô falando do Bozo, do corno, dsquela coisa chamada Bolsonaro. Ele fugiu pros Estadozunido, mas de mim não escapa!".
Perguntei a Zilidoro o que ele achou da fala que Lula fez a respeito do possível sequestro e assassinato do Moro, planejado pelo PCC. Ele: "Seu Assis, o que acho é que o Lula tá falando demais. Podia ficar mais quieto, na dele. Enfim, há muita coisa importante a se fazer pelo povo. O desemprego ainda está lá em cima, o salário lá embaixo, doenças infestando o ar e a gente, os indígenas na pior... Pois é, há muito trabalho a ser feito e toda vez que o Lula fala de alguém, esse alguém sai ganhando. Moro é nada. É um oportunista, um sujeito sem escrúpulos".
Jão bateu palmas, concordando: "O Zili tem razão, mas é preciso lembrar que o Lula levou muita porrada e foi condenado sem provas pelo Moro e seus seguidores".
Mané pediu a palavra e emendou: "Pois é, o Lula está até aqui de mágoas. Foi acusado por crime que não cometeu e levado à cadeia pra cumprir pena injusa. Isso certamente causa trauma até num poste!".
Zoião levantou-se de onde estava e fazendo uma parte: "Tudo bem, tudo bem, mas o Lula não pode esquecer que é o presidente da República de todos os brasileiros. Tudo o que ele diz tem peso, para o bem ou para o mal".
Não tem como não ficar satisfeito ouvindo tudo isso dos meus queridos botões.
Jão pediu para mudar de assunto. Disse: "Eu sei que tem muita gente aqui que me critica por ser quem eu sou. Sim, eu sou um cara sem muito saber, sem muita leitura, estudei pouco que nem o Lampa. Mas eu me esforço para aprender coisas. Como exemplo eu posso dizer que tenho lido livros e escutado boas músicas no rádio. Posso até dar uma informação aqui. Hoje, 24 de março, é o dia em que nasceu o poeta e jornalista recifense Olegário Mariano. Ele era de 1889, ano da proclamação da República, e morreu em 1958, ano do surgimento da Bossa Nova. Foi o autor do cateretê...".
Antes de concluir o que estava dizendo, Jão foi bruscamente interrompido por Barrica que começou a cantarolar desafinadamente:

Eu não quero outra vida
Pescando no rio de Jereré
Tenho peixe bom
Tem siri patola
Que dá com o pé

Quando no terreiro
Faz noite de luar
E vem a saudade me atormenta
Eu me vingo dela
Tocando viola de papo pro a...
 
Essa música, foi a vez de Zilidoro por a régua no papo, "foi gravada originalmente em 1931 por Gastão Formenti. Essa música contou com a parceria do grande Joubert de Carvalho".
Todos se levantaram batendo palmas, menos Jão que ficou um pouco ressentido por não ter sido reconhecido por seus esforços em busca de conhecimento.
Biu, que não conhecia a moda De Papo pro Á, perguntou onde poderia ouví-la. E Jão, rápido que nem um raio, adiantou-se: "No Youtube! No Youtube!".

quinta-feira, 23 de março de 2023

EX-PRESIDENTE LALAU TEM QUE DEVOLVER O QUE ROUBOU

O Plenário do Tribunal de Contas da União, TCU, por unanimidade decidiu ontem 22 que o ex-presidente lalau Bolsonaro devolva no prazo de cinco dias, sob pena de prisão, os mimos milionários que recebeu em forma de armas e joias do rei déspota da Arábia Saudita. Do rei ou do filho do rei, sei lá! O fato é que é pra valer: Bolsonaro tem que entregar à União o que subtraiu dela. Não é nada, são só quase 20 milhões de reais.
Aproveito a ocasião pra sugerir que Bolsonaro entregue-se à polícia ao entregar os mimos que embolsou. É isso. A vida continua.
 


Pois é...

Ex-presidente também morre
De morte matada ou não
Lugar de quem não presta
É lá no fundo da prisão!

A cadeia te espera
Presidente matador
Quem apanha hoje é caça
Amanhã é caçador

quarta-feira, 22 de março de 2023

SEM ÁGUA MORREREMOS DE SEDE

O nível do reservatório da Cantareira já de 80%
Nós e o nosso mundo somos algo em torno de 90% líquidos. Isso no corpo físico humano e do planeta. É tudo muito simples, é tudo muito complexo. Somos quase todos água e para vivermos bem precisamos de água. Sem água não dá nem pra tomar um porre provocado por uma boa cachacinha, um bom uisquinho, por aí.
Hoje é o Dia Mundial da Água. Essa data foi criada pela Organização das Nações Unidas, ONU, há exatamente 31 anos. A data serve para refletirmos a respeito da importância da água que consumimos no nosso dia a dia por total necessidade.
Muita chuva caiu no decorrer da última estação. Reservatórios do País inteiro ficaram até aqui de água. Quer dizer: quase cheios, como o Cantareira que abastece milhões e milhões de pessoas que vivem em São Paulo.
O assunto é bom e merece reflexão.
Sem água de beber, doce, não há água pra porre. E tenho dito!
 

Visite meu Instagram: @assis_angelo

domingo, 19 de março de 2023

LEANDRO GOMES DE BARROS CONTINUA VIVO (4 final)

Leandro morreu em 1918, com 53 anos de idade. Sua obra foi vendida para João Martins de Athayde (1880-1959) e depois para José Bernardo da Silva (1901-1971). Eram cordelistas e donos de gráficas. O detalhe é que tanto Ataíde quanto Bernardo assinaram como se fossem deles folhetos de Leandro Gomes de Barros. Isso tem nome: apropriação indébita. É crime constante no nosso código penal. Exemplo dessa apropriação é o clássico O Cavalo Que Defecava Dinheiro.
Até hoje não se sabe com exatidão quantos folhetos de cordel Leandro escreveu e publicou. O poeta repentista pernambucano Otacílio Batista falava em 1.004. Falo disso no livro A Presença dos Cordelistas e Cantadores Repentistas em São Paulo (Ed. IBRASA; 1996). Nesse livro também falo da discriminação sofridos pelos poetas da viola.
Mas voltemos ao tema guerra.
É claro que o assunto é polêmico.
Uns poucos cordelistas do passado falaram nos conflitos internos registrados pela história.
A guerra ou massacre de Canudos, que durou menos de um ano no sertão da Bahia, mereceu o olhar de
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poetas de cordel: Minelvino Francisco da Silva (Antonio Conselheiro e a Guerra de Canudos), Arinos de Belém (História de Antonio Conselheiro), Jota Sara (História da Guerra de Canudos) e até o profícuo Maxado Nordestino, autor de As Profecias de Antonio Conselheiro.Nas fileiras de combate contra os miseráveis liderados pelo cearense Conselheiro, se achava o cordelista paraibano de Bananeiras João Melchíades Ferreira da Silva (1869-1933). A respeito desse personagem e da Guerra de Canudos faço referência no livro O Clarim e a Oração (Geração Editorial; 2002).
Atualmente Klévisson Viana e Rouxinol do Rinaré, do Ceará, e o baiano Marco Haurélio são os mais importantes e profícuos cordelistas em atividade no País.
Tem aumentado substancialmente o número de mulheres escrevendo e publicando cordéis no Brasil. LEIA: A MULHER NA LITERATURA DE CORDEL
Eu já disse e repito: a cultura popular é a identidade de um povo.
É isso, minha gente.
Ah! Sim, ia-me esquecendo: o primeiro filólogo a dicionarizar a expressão cordel foi o padre português Francisco Caldas Aulete. Curiosidade: todos os dicionaristas brasileiros, inclusive Antônio Houaiss, repetem quase ipsis litteris o escrito por Aulete.

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

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