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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022
A LUTA PELO VOTO FEMININO
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022
EU E MEUS BOTÕES (12)
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
DEPOIS DA VIDA, A MORTE
Sobre arte e cultura, acesse: INSTITUTO MEMÓRIA BRASIL
PEDRO, O MANDACHUVA DO CÉU
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
CACHORRO DÁ EXEMPLO DE AMOR AO DONO
- O HOMEM, INIMIGO DO CACHORRO...
- CACHORROS DÃO EXEMPLOS NA VIDA E NA FICÇÃO
- TINA
- CÃES E GATOS TAMBÉM TÊM DIREITOS "HUMANOS"
- VAQUEJADA, PEGA DE BOI E FORRÓ
Hoje 21 entra em vigor uma lei federal "que proíbe a eutanásia de cães e gatos de rua por órgãos de zoonose, canis públicos e estabelecimentos similares, exceto em casos de doenças graves ou enfermidades infectocontagiosas incuráveis que coloquem em risco a saúde humana e de outros animais".
Essa Lei é a de número14.228/21, com acesso disponível na rede.
sábado, 19 de fevereiro de 2022
ALMIRANTE, A GRANDE PATENTE DO RÁDIO
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
ANÍSIO SILVA, SAUDADE
NELSON CAVAQUINHO
Três anos antes da morte de Anísio Silva morria, no Rio de Janeiro, o cantor e compositor Nelson Cavaquinho. Nelson foi, provavelmente, a voz mais rouca do samba-canção. Fez história e deixou uma discografia invejável. Com Guilherme de Brito e Alcides Caminha, compôs e gravou A Flor e O Espinho. Obra-prima. Curiosidade: Caminha foi desenhista e roteirista dos "catecismos" assinado por seu alterego Carlos Zéfiro.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022
HÁ 100 ANOS, JORNALISTAS PARTICIPAVAM DA SEMANA DE 22
A Semana não foi tudo que se diz.
Na verdade a Semana foi, digamos, um festival ou salão de múltiplas expressões artísticas, incluindo exposição de quadros, declamações e música.
O evento, que teve lugar no Teatro Municipal de São Paulo, foi aberto com uma palestra do maranhense de São Luís Graça Aranha (1868-1931), à época um nome bastante conhecido das letras e da diplomacia brasileira.
Foi Graça, autor do livro Canaã (1902), o cara incumbido de arrecadar grana, entre cafeicultores, para a realização do que ficou conhecida como a Semana de Arte Moderna ou Semana de 22.
Essa semana foi feita quase toda por jornalistas: Graça Aranha, Ronald Carvalho, Afonso Schmidt, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e até Plínio Salgado.
Plínio, paulista de São Bento do Sapucaí, entrou para a história como o criador do movimento político Ação Integralista. Era da direita radical.
| Retrato de Graça Aranha |
Oswald foi um marqueteiro e tanto.
A ideia da Semana não partiu dos paulistanos. Partiu do jovem pintor carioca Di Cavalcanti (1897-1976).
À época, Di tinha 25 anos incompletos. E teria dito a Mário, ou a Oswald, de Andrade: “Está na hora de fazermos um grande evento artístico pra chamar atenção das pessoas”.
O evento contou com a exposição de uma centena de quadros, 20 e pouco dos quais assinados por Anita Malfatti (1889-1964).
| Mário de Andrade e Tarsila do Amaral no traço de Fausto Begocce |
Lobato é o autor do personagem Jeca Tatu e de Narizinho, que deu início às histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo.
Muita gente pensa que Tarsila do Amaral (1886-1973) participou da Semana, mas não. Na ocasião ela se achava em Paris. Aliás, foi em Paris que ela conheceu Oswald, com quem se casaria em 1926.
| Entrevista de Menotti Del Picchia a Assis Ângelo |
A Semana de Arte Moderna tinha por objetivo, segundo dizem, romper com as tradições inovando a arte brasileira. Conversa!
A Semana não quebrou tradição alguma.
A Semana foi um evento de pouca repercussão e sem nenhuma importância, a rigor. Foi apenas um movimento de jovens insatisfeitos com o momento em que viviam. Um momento de tensão, de pressão política. O presidente da República era, não custa lembrar, o paraibano Epitácio Pessoa.
Não foi a Semana de 22 um evento direcionado ao povo. Mas de elite para elite.
Alguns nomes que participaram da Semana entrariam para a história independentemente da Semana.
Em maio de 1984 publiquei uma matéria de 2 páginas no extinto suplemento literário D.O. Leitura, de São Paulo, com o último dos participantes daquela Semana: Menotti Del Picchia (1892-1988). Na entrevista, o autor de Juca Mulato diz, com todas as letras, que “Mário de Andrade era um gênio”. Diz também coisas curiosas como acreditar em fantasmas, embora não cresse em reencarnação, que gostava de Mozart e de poetas como Cassiano Ricardo.
| Capa da revista Klaxon e Charge de Belmonte. |
Menotti Del Picchia teve uma vida agitada na imprensa paulistana. Foi redator chefe, por exemplo, dos jornais Tribuna de Santos, A Gazeta e Diário da Noite.
No dia 15 de maio de 1922, logo após a realização da Semana, começou a circular em São Paulo a revista Klaxon. No expediente, entre os colaboradores, se achavam Guilherme de Almeida, Mário e Oswald de Andrade.
Em suma, a Semana de 22 não serviu praticamente pra nada, até porque a cultura popular (expressão maior do povo, de qualquer povo) esteve completamente ausente da programação.
E pensar que Mário de Andrade foi o autor da belíssima moda Viola Quebrada, hein?
O chargista Belmonte (Benedito Carneiro Bastos Barreto, 1896-1947) foi um dos muitos críticos da Semana de 22.
PRESIDENTE MENTIROSO. E PERIGOSO
| Charge de Renato Aroeira |
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
O RÁDIO NA TV: ULISSES COSTA É O CARA
| Carlos Silvio e Ulisses Costa no programa Paiaiá Conectados |
OPINAR É BOM. VIVA BENEDITO LACERDA!
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022
FAUSTO: O TURISTA APRENDIZ
| À esquerda, o casarão que Nelson Gonçalves cresceu e à direita, Fausto na Av. João Pessoa |
Ainda em Bento Gonçalves, tive a honra de conhecer o grande escultor Bez Batti. O amigo Ademir Bacca me levou para esse encontro: que me honrou muito.
Depois em minha passagem por Porto Alegre, pude cultivar outras grandes amizades: com o cartunista
Enfim, foi uma ótima viagem, depois de 2 anos sem poder fazer nenhuma, por conta da pandemia.
Tomei todos os cuidados possíveis e fiquei bem e voltei bem".
domingo, 13 de fevereiro de 2022
TINHORÃO PELO OLHO DA CARA
O Samba Agora Vai, O Rasga, Festa de Negro em Devoção de Branco, Rei do Congo e Os Romances em Folhetins no Brasil.
Esses são títulos de alguns livros que o jornalista e historiador paulista José Ramos Tinhorão publicou a partir da 2ª metade dos anos de 1960, ainda no tempo em que morava no Rio de Janeiro. Foi no Rio, aliás, que ele iniciou sua brilhante carreira.
Alguns de seus livros foram publicados em Portugal e só depois, no Brasil.
O legado de Tinhorão é incomparável, especialmente no tocante à área musical.
Antes de Tinhorão não havia, a rigor, uma bibliografia da história da nossa música popular.
Todos os seus livros se acham no mercado, à exceção do que foi escrito sobre ele próprio: Tinhorão, o Legendário, de Elizabeth Lorenzotti.
Esse livro, esgotado, está “inflacionando” o mercado livreiro. É certo que o biografado não concordaria com o valor pedido por um exemplar do livro que conta parte de sua história e obra: R$1.590 (Amazon).
Muita gente considerava Tinhorão uma pessoa chata, mal resolvida. Nada disso. Era um gozador. Tirava sarro de si próprio.
Certa vez perguntei-lhe se conhecia a rua Tinhorão. Não, respondeu. Informei-lhe que existe, em Sampa, uma rua com o nome dessa planta, mas que não fora feita em sua homenagem. Disse qualquer
Essa rua, Tinhorão, localiza-se no bairro de Higioenópolis.
Como se vê, o jornalista e historiador José Ramos Tinhorão continua na pauta do dia.
Sobre Tinhorão, escrevi muitos textos. Alguns:
sábado, 12 de fevereiro de 2022
O MUNDO É UMA BOMBA
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
ARNALDO ROSA, SAUDADE
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022
HOLOCAUSTO NUNCA MAIS
TRIBUNAL INTERNACIONAL DE HAIA
O documento aponta nove crimes do presidente Jair Bolsonaro (PL), como prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado de morte, infração a medidas sanitárias preventivas, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documentos particulares, crime de responsabilidade e crimes contra a humanidade.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022
HOJE É DIA DO FREVO. VIVA O FREVO!
terça-feira, 8 de fevereiro de 2022
QUEM NASCE PRA CASTRO, NÃO CHEGA A TINHORÃO
Ele − Sim, claro. Todo mundo ficava na redação escrevendo coisas. Era assim com Machado (de Assis), por exemplo. Eu gostava dele, mas ele era muito fechado. E com Alphonsus de Guimarães e tantos… Eu sempre me senti muito à vontade nas ruas. Ia pra casa só pra dormir. Mas escrevia nas praças, nos cafés, nos trens. Em todo canto.
Eu − E o Lima Barreto?
Ele − Ah, o Lima era complicado, mas muito talentoso… Era da minha cor. E pobre. A gente não se entendia. Quer dizer, ele não me entendia. Ele dizia umas coisas horrorosas a meu respeito. Não sei por quê. Até me fez personagem de um dos seus livros, o primeiro: Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Não liguei. Pra falar a verdade, eu gostava do Lima. Mas ele era complexado, coitado. Chegou a ser internado com doença de doido. Era mais velho do que eu uns três meses. Morreu em 1922. Assis, não é? Pois bem, seu Assis, pela primeira vez vou dizer uma coisa: não participei, mas assisti aos três dias da Semana de Arte Moderna. Ninguém me reconheceu. Achei foi bom.
Eu − Mas como ninguém o reconheceu, se o senhor era um rosto tão conhecido?
Ele − Parabéns, meu filho. Você é atento ao que ouve. Bem, eu estava meio escondido. Entende? Num canto sem luz. Eu e uma amiga minha.
Eu − O que o senhor achou daquela Semana?
Ele − Interessante, muito interessante. Gostei muito da apresentação do Villa-Lobos com aqueles pezões branquelos à mostra, mas gostei mais foi das vaias que ganhou. O Mário, o Oswald, o Menotti, muito bons. Bons mesmo! E, à parte disso, sempre gostei de São Paulo. Bela cidade.
Eu − E o senhor escreveu alguma coisa a respeito?
Ele − Não, não. Estava ali como espectador. Eu já havia abandonado a carreira de jornalista.
Eu − O senhor mudou a forma de fazer jornal, indo às ruas em busca de notícias. Seguindo seus passos, apareceu uma menina chamada Eugênia Brandão…
Ele − Ah… Eu amava a Geninha. Uma mineirinha muito meiga, muito inteligente, sem preconceito nenhum. Estava em todas. E gostava de um choppinho… Foi com ela que acompanhei a Semana de 22. Ela foi a segunda mulher a escrever num jornal. A primeira foi a maranhense Maria Firmina dos Reis. Negra.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
TINHORÃO E CARNAVAL
domingo, 6 de fevereiro de 2022
JOÃO RAMALHO: HERÓI OU VILÃO?
Eu disse, João, não Zé.
Esse João chegou ao Brasil do nada.
Há quem diga que João Ramalho foi um náufrago; de qual navio ninguém sabe.
Eu tenho três teses: a primeira, é que ele fugiu ou foi atirado de uma das caravelas do navegador Duarte Pacheco. Pacheco foi enviado ao Atlântico Sul pelo rei Manuel I, de Portugal.
Outra tese é que João Ramalho deixou Portugal a nado, até o Brasil. Por fim, acho que ele chegou ao nosso país — que nem país ainda era — num disco voador.
O fato — e fato é fato — é que João Ramalho chegou por cá na primeira década de 1500. Antes de Duarte Pacheco e de Cabral. Em aqui chegando, atirou-se nos braços das índias e, correspondido, amou e formou um batalhão de filhos. A matriz foi a filha dileta do cacique Tibiriçá, Bartira.
João Ramalho foi herói ou vilão?
Foi esse João quem fundou Santo André e São Bernardo, e tornou-se capitão-mor da Vila de São Paulo de Piratininga.
Corriam os anos de 50 e 60 do século XVI.
Há muitos quilômetros de São Paulo fundava-se a cidade de Nossa Senhora das Neves. Ano: 1850.
Em 1930, Nossa Senhora das Neves viraria João Pessoa.
João Ramalho tem origens em Portugal. Eu, da minha parte, tenho origens fincadas no reino encantado da Parahyba do Norte.
Tudo isso pra dizer o seguinte, respondendo à curiosidade de quem me pergunta por que troquei João Pessoa pela capital paulistana: adoro São Paulo.
São Paulo foi e é, pra mim, um eterno desafio, de vida e morte.
Em 1990, comecei a desenvolver um estudo sobre a música feita em homenagem à cidade fundada pelos jesuítas Nóbrega e Anchieta.
Toda essa história tem a ver com o cabra João Ramalho.
Para a história, João Ramalho é uma incógnita. Eu, não.
É isso.
Muita gente me pergunta qual a música mais bonita composta até hoje pra São Paulo. Indico uma dezena:
- Rapaziada do Brás
- Perfil de São Paulo
- Quarto Centenário
- Ronda
- Sampa
- Lampião de Gás
- São São Paulo
- Trem das Onze
- Samba do Arnesto
- Vai no Bixiga pra Ver
São mais de três mil músicas que colhi no decorrer de duas décadas.
Não
dá pra esquecer
São Paulo, Coração do Brasil, que tão bonitamente gravou Chico Alves.
Não dá pra esquecer a
belíssima
Sinfonia Paulistana, de Billy Blanco.
Não dá pra esquecer
São Paulo de Todos Nós, de Peter Alouche...
Eu, da minha parte, compus e interpretei
Declaração de Amor a São Paulo. E noutra ocasião, compus com Gereba
Hino ao Céu. Essa música, que chamo de hino, foi gravada pelo inesquecível sanfoneiro
pernambucano Dominguinhos.
Ia me esquecendo: cidadãos que, de uma forma
ou de outra, colaboram com São Paulo têm um dia reconhecimento pela Câmara
Municipal, por exemplo.
Em agosto de 1998, compareci à Câmara de São
Paulo para receber o título de Cidadão Paulistano. Fiz discurso e tal. O amigo
historiador José Ramos Tinhorão estava presente. E o auditório, lotado. A
Banda de Música da Polícia Militar tocou o Hino Nacional e arrepiei-me.
Curiosidade:
no Hino Nacional o Ipiranga, riacho e hoje bairro paulistano, é citado.
OLHARES SOBRE SÃO PAULO
SÃO PAULO ME ESCOLHEU, Reynaldo Bessa
"Uma esfinge se precipita no abismo,
tão logo o enigma é decifrado."
- Heinrich Heine
Na época em que decidi tomar o rumo do Sudeste, nada acontecia fora do eixo Rio-São Paulo. Qualquer artista que confiasse no taco das composições que andava fazendo, uma hora teria de aceitar o grande desafio de deixar o lar. Pegar a estrada rumo ao desconhecido. A brincadeira perigosa à qual se referiu Raul Seixas. Não era fácil. Existia sim, a vontade de não ficar — pelo anseio de partir —, mas havia também o medo de ir embora. Como deixar os lençóis limpinhos e cheirosos, o som dos grilos e sapos na madrugada, o céu entupido de estrelas, o café quentinho da minha mãe e o seu acolhedor beijo de boa noite?
sábado, 5 de fevereiro de 2022
SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (FINAL)
Adoniran Barbosa – O “oriundo” do povo
(reprodução da entrevista publicada na edição nº 27 da revista Homem, de novembro de 1980)
O maior sambista paulistano acaba de completar setenta anos de vida e quarenta de carreira artística, em meio a uma grande festa. Mas ele não está feliz. Seu coração tem mágoa acumulada durante os muitos anos que passou sem ver seu trabalho reconhecido.
Nóis pega, nóis peguemo, nóis ia, mas num fumo. Óianóis cá travêiz! Cês num ligue não, é assim mermo. Ora, diacho, mas quem danado fala desta forma? – Num sou eu não, garanto. Eu até que falo certo, quem fala errado é o povo. Só que tem um negócio: eu sou Adoniran Barbosa, o Oriundo.
Então está explicado: Adoniran Barbosa, o que Adoniran Barbosa – O “oriundo” do povo (reprodução da entrevista publicada na edição nº 27 da revista Homem, de novembro de 1980) veio daqui mesmo, do povo. E não duvidem, povo verdadeiramente ele é.
– Óia, eu fui entregador de marmita, faxinêro, tecelão, serralhêro, garção de casa de ministro e muitas outra coisa eu fiz: rádio, televisão, cinema. Fui calôro e cantei muitas música de Noé Rosa... Hoje tô muito calejado. Sou um artista apusentado.
Adoniran não é de falar muito e com pouco se enche. É esquivo, escorregadio, mas quando toma “uns mé” – uísque, de preferência – ou se avista com amigos do tempo passado, se transforma numa torrente de palavras. Frequentemente amargo, diz de si:
– Não sinto mais emoção alguma, o que vier eu traço na maior indiferença.
Massificado pela cidade grande, que conheceu tão pequena e pacata? Sim, talvez. Apesar disso, não se fiem muito na conversa desse jovem de setent’anos, não. E uma coisa é certa: ele é incrível.
Uma vez a repórter Dulce Tupy escreveu que há muitas maneiras de se anunciar Adoniran Barbosa; uma delas: senhoras e senhores, com vocês o incrível, o fantástico, o extraordinário Adoniran Barbosa... Ou então: gente, olha mais um disco do Adoniran, que loucura!... Ou assim: veterano da música popular brasileira lança mais um LP após 40 anos de carreira artística em rádio, cinema e televisão...
Mas até ser considerado pela crítica como um dos maiores valores da música popular brasileira, João Rubinato – este o seu verdadeiro nome – comeu o pão que o diabo amassou. Muito cedo ele teve de lutar para sobreviver junto com mais cinco irmãos – três mulheres e três homens. A família vivia numa penúria de dar dó. O pai, italiano de Veneza, era ferroviário no Brasil. E, por isso, o pequeno João tinha de sair correndo da escola – fez até o 3º ano primário, em Jundiaí – direto à estação para ajudar o “velho”, que trabalhava sem descanso.
Lembrando tudo isto, Adoniran Barbosa diz hoje: – A vida me ensinou a viver. De vida ele fez curso e se formou.
A fama chega no trem das onze
perseverante, o pequeno João alimentava a esperança de um dia ser famoso, ser artista. E nas horas vagas, muito poucas, ele dedilhava um violão e compunha coisinhas maravilhosas assim, já nos anos 50: ”
...Eu sou a lâmpida
E as mulhé é as mariposa,
Ficam dando vorta
Em vorta de mim todas noite
Só pra me beijá...”
Nessa época João – já Adoniran Barbosa – era homem feito e bastante conhecido em São Paulo. Mas no começo da carreira, ele era conhecido apenas na rua Aurora – onde morou quase dez anos – e proximidades da praça Júlio Mesquita. No mais, não passava de um ilustre cidadão comum anônimo na multidão. Até que, achando o seu nome de batismo – João Rubinato – “difícil de pegar”, resolveu dar um jeito.
– Foi assim: o Luís Barbosa, cantor de samba carioca, meu amigo, vinha sempre a São Paulo e aqui a gente costumava passear; o Adoniran era um rapaz do Correio, também muito meu amigo. Aí juntei os dois nomes e ficou assim: Adoniran Barbosa.
Depois disso, a coisa mudou de figura. O pseudônimo deu certo e logo caiu na boca do povo. Quando fez a “operação nominal”, por volta de 1940, ele era locutor – disc-jóquei – de rádio, mas nem por isso tão famoso quanto hoje. Adoniran ficou famoso mesmo foi quando compôs o Trem das Onze, a Saudosa Maloca, a Iracema e, com Vinicius de Moraes, Bom Dia Tristeza, no tempo em que o poeta era embaixador em Paris. Adoniran:
– Você lembra de As Mariposa? É assim: Quando chega o frio/Fica dando vorta em vorta da lâmpida/ Pra se esquentá/Elas roda, roda, roda/... Eu sou a lâmpida/E as mulhé é as mariposa... Boa noite, lâmpida/Boa noite, mariposa/Permita de oscular-lhe a sua face/Pois não, mas rápido/Daqui a pouco eles me apaga. Bunita, né?
Pela Colúmbia, Adoniran Barbosa gravou, há muitos anos, a primeira música. Título: Agora Pode Chorar, de Baiton. Sua primeira parceria: Dona Boa, uma marchinha, com Jota Emere.
Agora Pode Chorar era um samba e começava assim: Chora, chora/-Quem te ensinou a chorá não foi eu/-Chora, chora purque o nosso amô morreu. Depois dessa ele fez e assinou muitas outras parcerias: Guiomar Pafunça, O Casamento do Moacir, Prova de Carinho, Aguenta a Mão, João, Torresmo à Milanesa, etc. etc .etc..
– Com Vinicius eu só tenho um trabalho, que é Bom Dia Tristeza. E foi muito engraçado o jeito como nóis fizemo ela. Naquele tempo eu nem conhecia Vinicius, ele tava em Londres, Paris, sei lá, nem me lembro direito. O ano acho que era 56. Apôis bem, ele mandô uns verso numa carta para a sua amiga Aracy de Almeida, dizendo: pode fazer o que você quiser com estes verso. Aí ela me procurou e pediu para eu pôr música. No mesmo dia eu botei, numa hora que eu tava no Nick Bar em cumpanhia do João Maria de Abreu. Musiquei o poema e o João achou muito bom. E disse: dêxa que eu iscrevo a música na partitura. Disse e fêis. Vinicius também adorou. Bom Dia Tristeza foi gravada pela própria Aracy de Almeida, Elizeth e mais um monte de artista.
Conta-se que Vinicius de Moraes não gostava muito de Adoniran, do jeito como até hoje ainda compõe as letras de suas músicas. Mas, depois de ouvir Bom Dia Tristeza, Vinícius teria mudado de opinião chegando até a dizer: ora, ora, mas como é que pode?... Conta-se também que, ainda por causa de Adoniran, Vinícius teria dito que “São Paulo é o túmulo do samba”, como se somente os cariocas fossem capazes de fazer samba. Porém essa versão é negada pelo autor de Iracema:
– Nada disso, isso é cunversa fiada. Inclusive, quando ele me conheceu gostou muito de mim, das minhas músicas, das minhas letras. Vinícius achava o meu estilo maravilhoso, inconfundível. Formidável mesmo. Ele dizia que eu sou um grande artista... Deve ser cunversa mole, né? Mas ele falou, tá falado.
Um sujeito muito calejado
Adoniran Barbosa é ciente do valor da sua obra, da sua “bagagem” musical. E, talvez por isto mesmo, costuma dar pouca importância aos elogios que lhe fazem com frequência. Arredio, dificilmente aceita ir a uma festa. E quando a festa é em sua homenagem... nem fala. Meio chateado e com uma indisfarçável pontinha de mágoa, segreda:
– Quando eu precisava de homenage, de uma força, ninguém tava nem aí. Agora que eu sou cunhecido, vêm com um lenga-lenga sem fim pru lado de mim. Tô sabendo.
Faz pequena pausa. Passa alguém à nossa volta e ele cumprimenta: “ÔI”. Baixa a cabeça e, indiferente, repete:
– Sou hoje um sujeito muito calejado.
Há dois meses, a direção da gravadora Odeon promoveu uma grande festa em homenagem a esse grande e magoado artista. Motivos: o lançamento do seu terceiro LP e o seu 70º aniversário de nascimento. Os amigos, cabreiros, imaginaram, como não poderia deixar de ser, que o jovem Adoniran não compareceria. Ledo engano, ele surpreendeu a todos indo à festa e tudo foi muito bonito, “só que perdi o sossego”, diz, acrescentando:
– Desde o cumeço do mêis de agosto que tudo quanto é repórter de jorná, rivista, rádio e televisão tem vindo me prucurá querendo intrivista. Sabe, tô tão cansado que já num guento mais.
Ele não gosta muito de lembrar a passagem do seu 70º aniversário e nem falar de planos futuros. Diz que as coisas estão assim, assim, e quer ver como é que vão ficar. As entrevistas que tem dado, quase que diariamente, começam com ele dizendo, invariavelmente, o tanto que batalhou para chegar onde chegou.
– Meu fio, eu fiz de tudo na vida. O sucesso eu cunheço desde o tempo que eu tinha programas de rádio: Casa de sogra, O crime não compensa, História da maloca, com Charutinho. Na televisão, eu fiz quatro novelas: Mulheres de areia, Os inocentes, Xeque mate e Ovelha negra. E no cinema: O cangaceiro, Candinho, A carrocinha. Entrei no rádio como calôro, por volta de 33. Eu interpretava mais Noé Rosa, que cunheci pessoalmente mas só de passagem, de bom dia, ôi, como vai. O Charutinho que eu fazia no rádio é famoso até hoje. Criei personage de todo tipo: criôlo, italiano, francês, por aí. Mas nenhum foi inspirado em alguém: tudo criação minha.
E São Paulo de hoje, muito diferente da cidade de ontem? Ele faz um muxoxo, como se dissesse: quá, num quero nem falá!
– Hoje a minha cidade está completamente transformada, muito diferente daquela que cunheci no cumeço do século. Nem as ruas do meu tempo num ixiste mais, é uma pena. São Paulo era uma cidade muito bonita. Hoje eu procuro São Paulo e não acho, tá tudo mudado, mudou tudo para pior. Tá tudo muito violento, tem muita gente, muito cimento, muito corre-corre, muito automove, muita buzina. Deus do céu!
Boêmio pobre, mas boêmio
Mesmo assim, Adoniran Barbosa continua sendo o cronista-sambista mor de São Paulo – cidade que, para Lourenço Diaféria, se resume numa questão de fé e “é um arroubo emocional acima de razões e certezas”. Fiel a si próprio, ultimamente Adoniran tem registrado suas reminiscências nas páginas do periódico paulistano Feijão com Arroz. Além disso, ele tem procurado imortalizar os bairros da cidade que conhece tão bem como a palma da mão, através dos seus sambas. Motivo de composições já foram: Mooca, Vila Esperança – uma obra-prima –, Brás, Jaçanã, Casa Verde etc. A avenida São João, claro, o artista não poderia esquecer jamais, como Paulo Vanzolini. E assim, ele continua indo. Aos 70 anos de idade, ainda se considera um “boêmio inveterado”.
– Sou um boêmio pobre, mas boêmio; de rua, de esquina, de botequim. Pra você ter uma ideia: sou do tempo de serenata na rua. Mas na rua agora não posso mais fazer serenata com violão e tudo, como as serenata eram feita. Serenata na rua a gente fazia antes de São Paulo ficar como ficou: feia e triste. Tudo acabô, foi proibido pelas otoridade. O que se há de fazê agora?
Adoniran Barbosa lamenta também o fato de as emissoras de rádio e televisão não oferecerem mais bons programas, como antigamente. Para ele, o que se salva ainda é um Chacrinha e mesmo Os Trapalhões. O resto é o resto e nada mais se salva.
– Chico Anísio é bom, mas saiu da televisão.
E o samba?
– Ah, o samba! O samba é tudo pra mim. Quando alguém me pergunta o que é que eu acho do samba, nem sei responder direito: eu sou o samba.
Nostálgico? Não, nem um pouco.
– A única coisa de que sinto saudade é da carne, do pão bom, enfim: da boa comida de antigamente. Hoje é tudo enlatado, horrive! E o rádio, o cinema? Garante ele que “nunca jamais” voltaria a empunhar um microfone para fazer um programa.
– Sou um artista apusentado. De positivo, só acha uma coisa: os jornais. E explica:
– Os jorná de hoje dão muita força a nóis artista. Antigamente num era assim, não. Tão muito bom. Mas eu também num ligo muito para isso não. Num quero mais me preocupá. Quero mesmo é vivê. Eu gosto muito da vida. É pena que eu me judiei muito na minha juventude. Me maltratei mesmo, sabe como é: boêmia, noitada e mais noitada, cigarro, bibida. É, me judiei muito. Hoje cum setent’anos era pr’eu tá mais forte um pouco. Tô forte, graças a Deus, mas era pra tá mais. Num tô arrependido, mas eu não faria tudo outra vêiz do mesmo jeito que fiz.
Se João Rubinato não tivesse conhecido o sambista carioca Luis Barbosa e o carteiro Adoniran, dificilmente existiria o artista Adoniran Barbosa. Talvez Jean Rubinê ou Giovanni Rubinato, isso porque o João estava decidido a adotar um pseudônimo. Ele brinca: “Já pensou um artista sendo chamado de João Rubinato?”.Não soaria bem, é o que João achava. Mas, felizmente, surgiram Luis Barbosa e Adoniran e os dois em João estão vivendo muito bem, diga-se de passagem. Para os mais íntimos, o artista Adoniran Barbosa atende pelo apelido de “Rei da Estufa”, que ganhou tempos atrás por gostar muito de pastéis, coxinhas e empadinhas que ficam expostas nas estufas dos bares. Mas, cuidado: tem que ser íntimo para chamá-lo pelo apelido.
Jornalistas&Cia é um informativo semanal produzido pela Jornalistas Editora Ltda. • Tel 11-3861-5280 • Diretor: Eduardo Ribeiro (eduribeiro@jornalistasecia.com.br) • Editor executivo: Wilson Baroncelli (baroncelli@jornalistasecia.com.br)
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
PARABÉNS A VOCÊ: 80 ANOS!
Na origem é uma adaptação da canção Happy Birthday to You, publicado num livro do norte-americano Robert Caleman.
Em 1942, essa canção ganhou versão assinada por Bertha Celeste Homem de Mello (1902-1999), ou Léa Magalhães, paulista de Pindamonhangaba concorrente de um concurso musical promovido pelo cantor e radialista carioca Almirante, de batismo Henrique Foréis Domingues.
Desse concurso, levado a efeito pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro, participaram centenas de compositores de todo o País.
A canção, desenvolvida em quadrinhas, começa assim:
Parabéns pra você
Nesta data querida
Muita felicidade
E muitos anos de vida...
O TIETÊ TEM SALVAÇÃO?
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Escondidinho de carne seca e caldinho de feijão antecederam o tirinete poético travado ao som de violas repentistas ontem à noite, na casa ...
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Intriga, suspense, confusão, mentira, emoção atentado contra a ordem e a lei e otras cositas mas . O cantor, compositor e instrumentista To...



