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quinta-feira, 18 de maio de 2023

VIVA ZÉ NÊUMANNE!

O jornalista paraibano de Uirauna José Nêumanne Pinto nasceu no dia 18 de maio de 1951 e hoje, portanto, está completando 72 anos de idade. É mais velho do que euzinho aqui coisa de um ano e meio. É cabra bom, de inteligência rara. Sabe tudo e mais um pouco da vida mundana em que vivemos. Tem filhos, livros e tal. Acho que já até plantou algum pé de coisa por aí. Se fez isso, é um homem realizado.
Nêumanne, como os amigos o chamam, tem livros de reportagem e até de poesia.
A poesia de José Nêumanne é de raro valor. Das boas. Seus versos chegaram a arrancar lágrimas do escritor português José Saramago. Vejam só!
Zé e eu chegamos a trabalhar juntos no centenário jornal paulistano O Estadão. Ele como editor de política e eu como chefe de reportagem dessa mesma editoria. Pra ele, Jarbas Mariz e eu compusemos a embolada Pinto Novo Quer Brigar. Ouçam e não tenham vergonha de dizer que está bem bonitinha:


quarta-feira, 17 de maio de 2023

DIA FRIO E MÚSICA BOA

Tom Zé: talento à toda prova
Lá fora o tempo tá frio, ventando na alma, mas com promessa de mudança. Tomara.
No correr do desjejum, ouvi músicas que me fizeram bem. Comecei ouvindo Chico e Mônica Salmaso, Ode aos Ratos. Uma joia, que compartilho com vocês: https://www.youtube.com/watch?v=RkTfRC-bU2Q. Outra música que alegrou-me ouvi na voz da irmã de Caetano, Bethânia, esta: https://www.youtube.com/watch?v=MGDI-fb8kLY.
A terceira música que ouvi hoje Leva Eu, Saudade, de autoria da bela Renata Rosa. Essa música, aliás, lembrou-me pelo título a canção Leva Eu Sodade, Alventino Cavalcânti e Tito Neto, gravada originalmente por Nilo Amaro e seus amigos do grupo Cantores de Ébano. Essa música também ganhou a voz do paraibano Zé Ramalho. À propósito, Zé um dia me contou que encontrou perambulando à mingua numa rua de São Luís, MA, um dos autores dessa música. Triste. Ouçam Renata Rosa: https://www.youtube.com/watch?v=7bRvX0ehSX0
Lua Cheia é uma música que me faz bem e creio também que vocês dela gostarão. Ei-la, com Ana Maria Carvalho: https://www.youtube.com/watch?v=e6CNXB0SMpM
Por fim, achei graça na letra de O Amor é um Rock. Uma joia. Linda, toda cheia de firulas próprias do seu autor, Tom Zé. Engraçado também e num tom de pilhéria aparece no miolo da moda do Tom a canção paraguaia Meu Primeiro Amor, de Hermínio Gimenez, versionada por José Fortuna e Pinheirinho Júnior.
O talento de Tom Zé enriquece nossa música. Ouçam-no:

terça-feira, 16 de maio de 2023

HÁ 100 ANOS NASCIA VASSOURINHA

 
O jovem paulistano Mário Ramos de Oliveira passou pelo mundo que nem um cometa. Foi brevíssima a sua presença entre nós.
Esse Mário Ramos nasceu no dia 16 de maio de 1923 e, com 12 anos de idade, foi "contratado" como contínuo da Rádio Record. Era um menino alegre, cheio de graça. Todo mundo gostava dele. Suas tarefas ele as desenvolvia cantarolando. Era afinado, muito bem afinado. Voz gostosa, possante.
Perguntei certa vez ao radialista Raul Duarte, ali num ano qualquer dos 80, como era o garoto Mário. E ele disse-me o que digo aí acima, e tal. Eu quis saber de Raul se ele sabia das origens do Mário. Sabia nada ou muito pouco.
A cantora paulistana Isaurinha Garcia também pouco sabia a respeito do jovem Mário Ramos de Oliveira, ao lado de quem se apresentou poucas vezes. Pouquíssimas.
Em 1940, um pouquinho antes talvez, Mário deixou momentaneamente a rádio Record e foi tentar carreira no Rio de Janeiro, na Rádio Clube do Brasil.
Foi no Rio que Mário Ramos conheceu o compositor Braguinha, que fora parceiro do mestre Noel Rosa. Braguinha, ou João de Barro, tinha muito trânsito nas gravadoras cariocas. Chegou a ser, aliás, diretor da extinta Continental. Mas foi na Columbia, que viraria Continental, a gravadora que abriu as portas para Mário gravar seus únicos seis discos de 78 rpm. No total, foram 12 músicas que o jovem artista nos legou.
Mário Ramos de Oliveira entrou para a história da nossa música popular como Vassourinha.
O primeiro disco que Vassourinha gravou, em 1941, trouxe os choros Seu Libório, de Braguinha e Alberto Ribeiro e Juraci de Ciro de Sousa e Antônio Almeida.
Vassourinha morreu no dia 3 de agosto de 1942, provavelmente de tuberculose.
Pois é, incrível: por que não se fez ou se faz nenhuma comemoraçãozinha em lembrança desse grande artista, hein?
 
Ouça Seu Libório:

segunda-feira, 15 de maio de 2023

ÓPERA POLITICAMENTE CORRETA

Acompanhei tudo através de audiodescrição
A tomada e exploração das terras indígenas é fato que perdura até hoje, desde o começo do século 16.
O romance O Guarani, do cearense José de Alencar, tem como enredo a história envolvendo o guarani Peri e a branca Cecí, filha de um poderoso português que se instala na mata para dela se apossar. Tem espanhol na área. O pau canta.
Na história de Alencar, publicada originalmente em 1857, consta a bravura dos aimorés, também chamados de botocudos.
Os aimorés eram antropófagos e contra eles foi declarada guerra até pelo imperador Dom João VI, no mesmo ano em que chegou ao Brasil, em 1808.
É de cunho romântico a história de José de Alencar e como tal permanece na nova encenação que tem como palco o Theatro Municipal de São Paulo. Claro, isso não dava pra mudar. Não dá pra mudar. Houve adaptação em vários pontos da história, que pela primeira vez foi levada à cena no teatro Ala Scala de Milão, em 1870, com libreto assinado pelo italiano Antonio Scalvini. A nova encenação traz a chancela do jornalista e escritor ambientalista Ailton Krenak, autor do livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo.
A intervenção de Krenak no original de Carlos Gomes podemos classificar como "politicamente correto". Mas não dá pra falar de alienação ou má fé de José de Alencar e do maestro Carlos Gomes, pois culturalmente o Brasil estava ainda criando sua identidade.
A obra de José de Alencar tinha por fundo tocar o coração dos apaixonados. Isso na metade do século 19. De lá pra cá muita coisa mudou no Brasil e no mundo. Com isso quero dizer que são bem-vindas as intervenções de Krenak. Noto, porém, que houve exagero nisso. O real, no caso, chega a se sobrepor ao lirismo cunhado por Alencar e Gomes.
A última pesquisa do IBGE, de 2010, dá conta de que havia menos de 1 milhão de indígenas falando 274 línguas em pouco mais de 300 etnias.
A nação guarani é formada aproximadamente por 50 mil indígenas, distribuídos em São Paulo, Rio e mais cinco ou seis Estados.
A nação aimoré praticamente não existe desde 1911, ano que foi coincidentemente inaugurado o Theatro Municipal de São Paulo.
A nação guajajara, formada por cerca de 25 mil pessoas está presente na atual versão, talvez com apresentada da ópera O Guarani, talvez em homenagem à ministra dos Povos Indígenas.
Esteticamente e politicamente, a ópera O Guarani na sua versão atual é muito bonita.
É louvável que os indígenas tenham encontrado na obra O Guarani caminho para fortalecer denúncias contra a invasão e exploração de suas terras por criminosos. 

PS: Quero deixar aqui meus agradecimentos aos profissionais que formam integram o projeto Ver com Palavras representados nas pessoas de Marina, Angela e Priscila. 
 
Ficha técnica da atual versão de O Guarani:

Roberto Minczuk, direção musical
Ailton Krenak, concepção geral
Cibele Forjaz, direção cênica
Denilson Baniwa, codireção artística e cenografia
Simone Mina, codireção artística, cenografia e figurino
Livio Tragtenberg, assistente musical

Ligiana Costa, dramaturgismo
Aline Santini, design de luz
Vic von Poser, design de vídeo
João Malatian, assistente de direção

David Vera Popygua Ju, Peri (ator)
Zahy Tentehar
, Ceci (atriz)

Solistas dias 12, 14, 17 e 20
Atalla Ayan, Peri
Nadine Koutcher, Ceci
Rodrigo Esteves, Gonzales

Solistas dias 13, 16 e 19
Enrique Bravo, Peri
Débora Faustino, Ceci
David Marcondes, Gonzales

Elenco único (todas as récitas)
Lício Bruno, Cacique
Andrey Mira, Don Antonio
Guilherme Moreira, Don Alvaro
Carlos Eduardo Santos, Ruy
Orlando Marcos, Pedro
Gustavo Lassen, Alonso

Corifeus
Luaa Gabanini
Raoni Garcia
Augusto Ortale Trainotti

ORQUESTRA E CORO GUARANI DO JARAGUÁ KYRE’Y KUERY
AVAKUE (Homens): Naldo Karai, Claudio Vera, Adilson Vera, Lourival Tupã, Lenilson Karai, Jovelino Karai, Dario Tataendy, Guilherme Vera Mirim, Joaci Karai, Felipe Vera, Juca Kuaray, Messias Karai, Pedrinho Karai, Juscelino Karai KUNHANGUE (Mulheres): Jaqueline Jaxuka, Silvana Ara, Priscila Para, Marines Poty, Patricia Kerexu, Layne Jera, Marilda Yva, Maricela Yva, Ciara Ara


domingo, 14 de maio de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (16)

O insuspeito baiano Assis Valente, autor do clássico Boas Festas, criou a bela canção Boneca de Pano que fala de uma mulher que se lasca todinha num cabaré. Era bela, ficou feia. Não confundir essa música com o bolero Boneca Cobiçada, de Bolinha e Biá.
E Jamelão, hein?
De batismo José Bispo Clementino dos Santos, Jamelão cantou como ninguém a dor que os cornos sentem, mas sem palavrão. No máximo a palavrinha leviana, a propósito título de um samba canção feito por Zé Keti e Amado Régis. Ouça:



Se o homem sofre com a traição da mulher, é possível que a mulher sofra com a traição do homem.
Na discografia brasileira, ali pelos começos do século 20, há registro de marchas, sambas e canções em que os personagens das histórias cantadas deixam em casa a "patroa" e vão marcar presença nas orgias, como a coisa mais natural do mundo. Mas aí surgem personagens femininas, poucas é verdade, fazendo o mesmo. Algumas chegam até a cansar das orgias.
A portuguesinha Carmem Miranda, investida da personagem que assume diz que inauguraram um cabaré no morro e querem que ela o frequente. Diz que não e desafia quem a convença do contrário.
Numa canção de João Roberto Kelly, autor da marchinha de carnaval Cabeleira do Zezé, o cantor Jamelão interpreta um personagem que fica em casa esperando pacientemente a amada que passa as noites dançando como quer nos bailes da vida. Seu conformismo se acha quando diz que ela dança com os outros, mas o melhor dela é dele.Agora explícito ou de modo quase explícito, canta a escrachada sergipana Clemilda.
Clemilda, no RG Clemilda Ferreira da Silva (1936-2014), começou a carreira de cantora ainda nos anos de 1960. Até então o seu estilo era leve, de intérprete de canções até folclóricas. Mas num momento qualquer dos 70/80 rompeu essa linha e partiu pra música de duplo sentido. Privilegiou os ritmos do Nordeste. Um dos seus grandes sucessos foi Prenda o Tadeu. Outros sucessos dela: O Anel do Eno, Coitadinha Da Tonheta, Seu Tuzinho, É Mais Embaixo.
O fato, porém, é que a boa música popular brasileira está hoje se acovardando e dando espaço à má música popular ou “pra pular”, sem conteúdo no formato.

sábado, 13 de maio de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (15)

Assis em uma entrevista com Nelson Gonçalves

Não dá pra comparar as músicas de duplo sentido de ontem com as de hoje. As de hoje não são nem de duplo sentido, são claramente explícitas, sem valor literário.
O cantor, compositor e redator de programas de Chico Anísio, o pernambucano Arnaud Rodrigues, falava de putaria de modo tão sutil que parecia ingênuo. A expressão "puta que pariu", por exemplo, ganhou algo como não-sei-o-quê Paris. Ele procura imprimir graça quando canta um flagra que a sogra lhe deu quando se achava nu e pronto pra transar com sua mulher. Noutra música ele tenta fazer graça quando a mulher se abaixa para apanhar um sabonete no banheiro.
Hoje, no rádio, os humoristas se divertem e divertem os ouvintes falando de putaria com toda tranquilidade possível. O programa A Hora do Ronco, no ar diariamente no começo da manhã via Band FM, é amostra clara disso.
Programas das FMs Nativa e Imprensa tocam bastante músicas sem graça nenhuma e de baixo calão, nos ritmos de plástico ou algo que o valha. Forrós de péssimo nível e sofrências transformadas em sertanojo.
É de se lembrar, aqui, a obra do cantor gaúcho Nelson Gonçalves.
São inúmeras as músicas que falam das amarguras dos cornos, das prostitutas, cabarés, constante no repertório gonçalviano.
Instigado pessoalmente, Nelson era terrível. Um despudorado sem limite.
Não encontrei dificuldade nenhuma quando lhe fiz perguntas relacionadas a sexo. A entrevista saiu na extinta revista Privé, em 1982, sob o título "Com uma mulher sou bom: com duas, melhor; com três, sou ótimo!".
Confira a entrevista:


De autoria de David Nasser e Herivelto Martins é o tango Estação da Luz, que o famoso cantor gaúcho eternizou. Fala da vida difícil das mulheres fáceis.Outro gaúcho, Lupicínio Rodrigues, também falou na sua obra de cabaré, prostituição e dor de corno. Clássica é uma de suas canções, Vingança. Começa assim: "Eu gostei tanto/Tanto quando me contaram/Que a encontraram/Bebendo e chorando/Na mesa de um bar...".

sexta-feira, 12 de maio de 2023

LULA E A CULTURA POPULAR

Presidente Lula ao lado da ministra da cultura Margareth Menezes, no lançamento da Lei Paulo Gustavo
 
"Os ignorantes deste país precisam aprender que cultura não é gasto, que cultura não é pornografia, que cultura não é uma coisa menor".
Sim, sem dúvida, como brasileiro garanto que fiquei todo orgulhoso quando ouvi o presidente Luís Inácio Lula da Silva dizer de modo absolutamente sincero e sensível que "cultura não é gasto".
Isso Lula disse ontem 11 num rápido discurso que proferiu ao anunciar a promulgação da Lei Paulo Gustavo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves em Salvador, BA. Na ocasião, ele se fazia acompanhado da ministra Margareth Menezes. E acrescentou, fazendo-me estufar ainda mais o peito: 
"Cultura é o jeito da gente falar, é o jeito da gente comer, é o jeito da gente dançar, é o jeito da gente andar, é o jeito da gente cantar, é o jeito da gente pintar, é o jeito da gente fazer aquilo que a gente sabe fazer. E cultura significa emprego, cultura significa milhões de oportunidades para gente que precisa comer, tomar café, almoçar e jantar".
É certo que o querido amigo Luís da Câmara Cascudo também iria gostar muito do que Lula disse ontem.
Certa vez perguntei a Câmara Cascudo uma definição para cultura popular. E ele: 
 

quinta-feira, 11 de maio de 2023

POBRES E PRETOS AINDA SÃO VÍTIMAS DO SISTEMA

A cegueira não pode motivo para a Justiça
condenar inocentes
O Brasil, como certa vez disse o compositor maestro carioca Tom Jobim, "Não é para amadores".
Pois é, o Tom tinha razão.
Lembro da fala do Tom por causa de notícia que acabo de ver no rádio e no jornal. Trata-se de um caso envolvendo um homem negro, nordestino, pobre, semi-analfabeto; filho de pais separados, casado, dois filhos... Estou falando do porteiro, sem carteira assinada, Paulo Alberto da Silva Costa, 36 anos.
Esse Paulo foi "identificado" através de fotografias por supostas vítimas. Ocorreu no Rio, mais precisamente em Belford Roxo. Preso, Paulo se acha na cadeia até o momento em que batuco estas tontas, tortas, tantas linhas. Está preso desde o dia 6 de maio de 2020, em Bangu.
Ontem 10, o Supremo Tribunal de Justiça, STJ, anunciou o absurdo da prisão de Paulo Alberto e emitiu mandato de soltura, que até este momento não foi cumprido. Isso, claro, depois de reconhecê-lo inocente.
Paulo Alberto da Silva Costa é acusado de cometer 62 crimes. Notícia publicada há pouco no portal de O Globo, RJ, destaca que entre os crimes cometidos pelo acusado estão 59 roubos de veículos, cargas, uma receptação, um homicídio e um latrocínio na mesma região, leia-se: Belford Roxo.
Como esse Paulo, nas cadeias brasileiras existem muitos outros Paulos, Josés, Joões, Marcos, Rogérios, Antônios, Franciscos; Marias, Ritas e tantos outros brasileiros e brasileiras pobres, negros, analfabetos ou semi-analfabetos; putas, homossexuais...
Enquanto isso, Bolsonaro continua na moita, assediado por puxa-sacos e cercado por advogados contratados a peso de ouro.
Meu amigo e minha amiga, vocês sabem o que eu acho disso?
Acho uma vergonha que a polícia encerre um processo sem fazer as precisas e necessárias investigações. Faço minhas as palavras do ministro do STJ Sebastião Reis: 
 
“O sistema (Judiciário) não está funcionando. Em situação anterior, já tinha votado aqui minha preocupação com o racismo. Ele existe, não há como contestar. Basta a leitura dos processos que a gente vai perceber que o preto pobre é principal alvo da atuação policial. Se pegar mesma situação em região periférica do Rio e no Leblon, o comportamento é diferente. Quando é branco, de melhor condição, há tratamento cuidadoso e quando é preto a violência prepondera.”



quarta-feira, 10 de maio de 2023

FÃS SE DESPEDEM DE RITA LEE

 
Muita gente, entre fãs e artistas, compareceu ao prédio do Planetário do Ibirapuera para dar o último adeus à cantora e compositora paulistana Rita Lee. A tristeza bateu forte.
Inúmeras foram as pessoas, principalmente mulheres, que não se contiveram e acabaram chorando.
"Surpreendi-me com uma senhora muito parecida com a Rita, nos trajes e gestos. Cabelos pintados e óculos vermelhos, idênticos ao da artista mostrava-se inconsolável diante do caixão", conta a atriz Anna da Hora. "Penso que o desaparecimento de Rita foi uma grande perda para a música popular. Ela é insubstituível", completa Anna.
Rita Lee foi uma das artistas mais censuradas pelos trogloditas da ditadura militar. Inúmeras foram as músicas que eles vetaram completamente ou mutilaram. Rita não tinha papas na língua, sempre disse e escreveu tudo que lhe vinha à telha. Vetos absurdos, como no caso da canção As Duas Faces de Eva. A letra:

...Mulher é bicho esquisito
Todo o mês sangra
Um sexto sentido maior que a razão
Gata borralheira
Você é princesa
Dondoca é uma espécie em extinção...

Também censurada foi Lança Perfume, que todo mundo conhece de trás pra frente. O corte ocorreu ali onde a compositora escreve:

... Me vira de ponta-cabeça
Me faz de gato e sapato
Me deixa de quatro no ato
Me enche de amor...

O nome de Rita Lee aparece como autora em 315 composições. Entre essas, pelo menos 20 não receberam gravação dela.
Até o momento em que batuco essas linhas, fãs e artistas continuam chegando ao velório de Rita Lee. O término está previsto para às 17h. Em seguida, ocorrerá o ritual de cremação com a presença apenas de familiares e amigos.
 

terça-feira, 9 de maio de 2023

MORRE RADIALISTA DE ARARIPINA

Cacá e Josafá em frente a rádio Grande Serra de Araripina

Morreu hoje 9 em Araripina, PE, o radialista Josafá da Costa Reis.
"Josafá foi um dos pioneiros do radialismo da nossa cidade. Nasceu em 1939. Começou na rádio Cultura de Araripina. Senti muito o seu passamento", diz pesaroso o cantor e compositor arapinense Cacá Lopes.
Josafá da Costa Reis morreu no começo da manhã. Seu corpo será sepultado ainda hoje.
Cacá Lopes fala do amigo radialista num folheto que publicou em 2017, A Primeira Rádio. Leia:

Cultura de Araripina
A antiga rádio local,
Gerente Arnaldo Laje,
Locutores do dial
Orlando e Gilvan Gomes
Falavam pra o pessoal.

Josafá Reis nessa época
Já fazia locução,
Sua audiência atingia
Pouco mais de um quarteirão,
Na rádio comunitária
Pioneira da região.

Gilvan o proprietário
De uma amplificadora,
Movida à luz de motor
Chamada de Difusora,
Esse antigo equipamento
Da cultura é propulsora.

A Voz de Araripina
Era o nome oficial,
O som dos alto-falantes
Fanhoso meridional,
Nas ruas e nas esquinas
Programa sentimental.

RITA LEE DÁ ADEUS À VIDA

Rita Lee no traço de Fausto Bergocce

 
 
A cantora e compositora paulistana Rita Lee, de batismo Rita Lee Jones de Carvalho, morreu no final da noite de ontem 8 num sítio no interior paulista, onde morava. Tinha 75 anos de idade. A causa foi um câncer no pulmão, que tratava há dois anos.
Rita começou a carreira se apresentando nas escolas e depois integrando como cantora o trio Teenage Singers. Tinha 16 anos. Em 1964 foi convidada para participar do grupo Sid Sider Rockers, que se transformaria no Mutantes. Esse nome foi dado pelo cantor e compositor da Jovem Guarda Ronnie Von. "Um dia eu disse a Rita que ela era a mulher mais bonita que eu já tinha visto. Ela riu e respondeu dizendo que eu era também o homem mais bonito que ela já vira. E perguntou: Por que nunca nos pegamos?", contou Ronnie lembbrando da amiga que acabara e morrer.
É fato que Rita Lee inovou no chamado rock nacional. Não tinha papas na língua, falava o que lhe dava na veneta. Em 1976, grávida, Rita foi presa em casa por agentes da ditadura militar. Eu a conheci em 1979, quando a entrevistei para o extinto suplemento Folhetim, do jornal Folha de S.Paulo.
Deixou muitas músicas de sucesso como Lança Perfume, Doce Vampiro, Ovelha Negra e Agora Só Falta Você.
Em 2003 Rita gravou, de Moacyr Franco, a faixa Tudo Vira Bosta. Ouça:

domingo, 7 de maio de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (14)

A violência da censura se estendeu por todos os campos das artes: literatura, incluindo romance e poesia, dança, pintura...
Até o escritor, poeta e crítico literário, Mário de Andrade não escapou da burrice ativa dos trogloditas da Censura. O alvo deles no caso foi Pauliceia Desvairada.
E passado por passado, lembro uma vez o rei do baião Luiz Gonzaga dizer que tivera uma música sua proibida. Título: Asa Branca.
Gonzaga, como Genival Lacerda, compôs e gravou várias músicas com duplo sentido.
O rei do baião, além das brincadeiras que fazia com os mais próximos, achava bacana dizer o tempo todo que era macho. Aliás, título de um dos seus LPs: Sanfoneiro Macho.
Ainda acho, porém, que Genival foi o artista que mais e melhor cantou putarias implícitas. Nunca chegou às vias de fato. Era um humorista. A molecada adorava vê-lo se balançando com aquele barrigão.
Ao contrário de Gonzaga, Genival era cheio de graça. Ria à toa. Mas devo dizer o seguinte: aqui e acolá os dois se encontravam, musicalmente. Gonzaga cantou um matuto em Copacabana "Zé matuto foi à praia só pra ver como é que é/ Mas voltou ruim da bola de ver tanta rabichola/ Nas cadeiras das muié/ Zé matuto matutou matutou/ Escreveu pra Clodovil..." (Deixa a Tanga Voar).
Nessa mesma onda, Genival fez o mesmo com um certo Severino que "Foi na praia e ficou de queixo caído/ Viu um bumbum vestido em um tal de fio dental..." (Fio Dental).
Curiosidade: uma vez, na allTV, onde eu mantinha um programa semanal, ao vivo, perguntei a Clodovil o que achara da música de Gonzaga. Indiferente, com ar de desdém, disse que não achava nada.
Quem também ria à toa era Costinha. Boca suja, mas engraçado.
Engraçado também era Walter D'Ávila, com aquela cara aparentemente amarrada. Suas caretas eram impagáveis. Meio de bunda.

sábado, 6 de maio de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (13)

Quem viveu uma ditadura militar terá sempre o que dizer.
Os militares, apoiados pelos poderosos civis de plantão, tomaram de assalto a nossa Democracia. Foi na virada de 31 de março de 1964.
Os brasileiros ainda dormiam quando os primeiros blindados invadiram as ruas da capital fluminense.
Além de prisões, torturas, desaparecidos e mortes, o governo dos generais, na marra, calou a boca de todo mundo. Os artistas foram os primeiros a serem silenciados.
Os chamados artistas "cabeça" como Chico, Caetano, Gil e Vandré foram imediatamente perseguidos. Trajando roupas femininas Vandré conseguiu na surdina escapar e exilar-se mundo afora, primeiro no Chile.
Artistas chamados "bregas" como Odair José e até Genival Lacerda não escaparam da sanha dos militares.
O forró Severina Xique Xique, de João Gonçalves e do próprio Genival, já estava bombando nas rádios do Nordeste quando a bem comportada família cearense botou o bedelho no meio e fez de tudo para que a música fosse oficialmente vetada. Isso em 1975.
Em 1973 a Censura caiu de pau na peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra. As músicas da obra, quase todas, foram mutiladas.
Na canção Não existe Pecado ao Sul do Equador (abaixo), que anos depois seria gravada por Ney Matogrosso, o corte ocorreu nos versos "Vamos fazer um pecado safado/Debaixo do meu cobertor". Bobagem.
Bobagem também ocorreu em 1982, quando os idiotas da Censura vetaram as duas últimas faixas do lado B do LP de estreia dos roqueiros da banda Blitz. As faixas vetadas, Cruel Cruel Esquizofrenético Blues e Ela Quer Morar Comigo na Lua em que constavam as expressões "puta que pariu" e "bundando", além de um trocadilho besta feito em torno da palavra "peru", saíram propositadamente arranhadas impossibilitando sua audição natural.
Isso ocorreu, como se vê, três anos antes do ciclo militar expirar. Curiosidade: em 1983 as duas faixas vetadas do LP da Blitz foram lançadas à praça num compacto simples. Sem problema nenhum. E também nenhum problema ocorreu quando lançadas em fita K7, em 1982.
Essa história ganhou as páginas do livro As Aventuras da Blitz, em 2009, e dez anos depois o documentário Blitz, o Filme.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

PERIFERIA FAZ A FESTA NO CENTRO

Na programação da II Feira do Livro Periférico, que começa hoje 5 e se estende até domingo 7, se acha o Sarau Bodega do Brasil. O evento contará com a presença de Cacá Lopes, Lúcia Cavalheiro e Costa Senna. Outros artistas, poetas e escritores farão a festa, junto com representantes de 32 editoras de livros da periferia. "Esse é um evento muito esperado por nós, dado a sua importância", disse o cantor, compositor e cordelista Cacá Lopes.
Ao lado da II Feira do Livro Periférico também ocorrerá a I Feira da Agroecologia Periférica, coordenado pelo agitador cultural cearense Eleilson Leite.
Os dois eventos aqui relacionados ocorrerão no Galpão do Armazém do Campo, localizado à alameda Eduardo Prado, nº 460 — Campos Elíseos, SP. A entrada é gratuita!

Cacá Lopes com sua maleta de cordéis

CONECTADOS COMEMORA 7 ANOS DO PAIAIÁ

Os ouvintes da Rádio Conectados comemoram amanhã 6 os primeiros sete anos do programa Paiaiá na Conectados. O programa, sempre ao vivo, vai ao ar a partir do meio-dia. É uma hora praticamente sem interrupção, apenas com pequenas intervenções dos colunistas Darlan Zurc, José Nêumanne e Sérgio Martins. Vez por outra apareço por lá, dizendo coisas ou declamando versos.
O programa, apresentado pelo baiano Carlos Sílvio, leva no aniversário de sétimo ano de criação o poeta e jornalista Ricardo Viveiros.
Viveiros, figura de velha data, está sempre antenado com tudo que ocorre segundo a segundo neste país historicamente tão judiado.
Eu gosto de ouvir Ricardo Viveiros.
O poeta é o entrevistado nº 202 do programa.
É isso aí.

 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

VIVA DRAUZIO VARELLA!

Nestes tempos de horrores, que vivemos todos os dias, bom é falar de gente que engrandece o nosso País.
No dia 3 de maio do ano de1943, quando o mundo em guerra tentava se defender de Hitler, nascia na Capital de São Paulo Drauzio Varella.
Drauzio Varella, de origem humilde, mostrou riqueza na inteligência e ajudou, e ainda ajuda, o Brasil a ter consciência da beleza e grandeza que é.
Drauzio cresceu no bairro do Brás, um bairro construído por gente de todo o canto. Do Nordeste, inclusive.
Drauzio é aquele doutor que em 1985 escreveu um artigo pioneiro no massudo jornal paulistano O Estado de S.Paulo a respeito da peste que contaminou gente no mundo todo: AIDS.
Esse cidadão, Drauzio, é uma referência de cidadão.
Como cidadão, o Dr. Drauzio Varella é completo.
A história de Drauzio Varella é enorme, incrível, fantástica.
À propósito, foi em 2003 que Drauzio Varella estreou um quadro no programa Fantástico, da TV Globo, acho.
Muitas e muitas histórias há em torno de Drauzio Varella.
Meu amigo, minha amiga: você já ouviu falar de um personagem chamado Vira-Lata?
Voltaremos ao assunto.
Ah! Ia-me esquecendo: num ano qualquer fui mediador de um debate sobre a obra de Paulo Vanzolini, autor do samba-canção Ronda, no SESC Pinheiros. Na mesa Eduardo Godin, Fernando Faro e Drauzio Varella.
Drauzio foi aluno de Medicina do professor e compositor Paulo Emílio Vanzolini, na USP.
Antônio Drauzio Varella completa hoje 80 anos de idade. Hoje, portanto, é dia de bater palmas para esse grande brasileiro!

terça-feira, 2 de maio de 2023

MEIA VACA DE OURO É VENDIDA EM MINAS

A querida Anninha da Hora diz que gostou do que falei hoje 2 sobre a venda de uma vaca por 2 milhões de reais. Rindo, ela acrescentou: "Não foi 2 milhões, não. Foram mais de 2,5 milhões!".
Se eu já ficara boquiaberto com a notícia que ouvi na CBN, meu queixo quase caiu com a informação atualizada de Anninha. Caraca!
Essa vaca me lembrou de outra vaca, a vaca Mordaça.
A vaca Mordaça foi posta à disposição de um boi e tanto!
O boi, que deveria cobrir Mordaça, era, simplesmente, um boi santo, casto, puro. Era um boi de mangeidora.
Essa é uma história que o saudoso amigo Paulo Dantas me contou. Aliás, contou no livro Sertão do Boi Santo, que anda por aí pra quem quiser ler. 
A história começa com um beato tangendo um boi com sua varinha santificada. Atrás do beato e do boi, uma pequena multidão de peregrinos louvando a Deus pela existência do bovino, da raça Zebu.
A vaca que seria coberta pelo boi era também de raça, para parir outros animaizinhos de raça. Pois, pois.
O boi tangido pelo beato no começo da história, tem um triste fim: é morto e esquartejado por determinação do secretário do Padim Ciço.
Perguntei a Anninha o por quê da vaca custar tanto dinheiro. E rindo, ela responde: "E da vaca foi vendida somente a metade. Pra ela ser tão cara assim, só podia ser de ouro".
Acho que Anninha tem razão.
Bom, a metade da tal vaca foi arrematada num leilão domingo 30 em Uberaba, MG.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

POR QUE NÃO COMPRAR UM FAUSTO BERGOCCE?

 "Telas em acrílico sobre tela (medida 30x40). Vendi por uma questão de desapego (pois não sei vender) e para capitalizar para a produção de meu novo livro o Historia de Esquina".
Emocionei-me hoje quando o querido Fausto Bergocce disse o que disse em aspas.
Fausto é um dos mais importantes cartunistas do Brasil. Ele tem 70 anos, e besta que não sou, também tenho 70.
Trabalhamos juntos.
Fausto ilustrou textos meus na Folha, Pasquim, Diário Popular. Não necessariamente pela ordem.
Eu nasci latindo, Fausto nasceu miando.
Ao saber que o Fausto está vendendo quadros dele, já comprei 8. Quatro, paguei à vista.
Se eu fosse vocês entraria nessa. O email dele é este: faube@uol.com.br
Fausto é do caralho, um poeta do traço.
Fausto Bergocce é história.
 

domingo, 30 de abril de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (12)

A pernambucana de Recife Flaira Ferro tem composto e cantado coisas bonitas, e instigantes. Afinadíssima. Numa de suas músicas mais recentes, ela enaltece o prazer de ser mulher, a liberdade. Enfim, faz-se presente na sociedade machista em que vivemos. Um trecho: “Não tem coisa mais bonita/ Nem coisa mais poderosa/ Do que uma mulher que brilha/ Do que uma mulher que goza/ Toda mulher que deseja/ Acende a força erótica que excita a criação/ Dê suporte à mulher forte/ Quem sabe a gente muda a nossa sorte…”
Em 1826, o criador da modinha como gênero musical, Domingos Caldas Barbosa, escrevia para quem quisesse ouvi-lo: "Quem quiser ter seu descanso/Quem sossego quiser ter/Na densa mata do mundo/Fuja do bicho mulher...".
Aos desavisados devo lembrar que Barbosa era religioso e chegou a travar polêmica com o desabusado Bocage, a rigor, um preconceituoso.
Ah! A grande Chiquinha Gonzaga, de batismo Francisca Edwiges Neves Gonzaga, também chegou a levantar a saia no minado terreno da música de safadeza ao compor Corta Jaca que começa assim: "Neste mundo de misérias/Quem impera é quem é mais folgazão/É quem sabe cortar-jaca nos requebros/De suprema perfeição, perfeição...".
A ditadura militar que se implantou no Brasil em 1964, implantou também a censura. E muita gente boa se fodeu à época. Odair José, por exemplo, ao ousar lançar a música Pare de Tomar a Pílula.
A censura militar impedia que artistas cantassem palavrões ou fizessem meras referências a sexo. E sobre o mundo gay nem pensar!
O livro Eu Não Sou Cachorro Não, de Paulo César de Araújo é de importância fundamental para a compreensão da música que entendemos como licenciosidade na cultura popular. Importante também para entender isso tudo que digo é o que Rodrigo Faour diz no livro História Sexual da MPB.
A obra de Paulo César de Araújo e de Rodrigo Faour são obras de referência, especialmente no tema aqui abordado.
Por não ter muito lá o que fazer, fiz uma emboladazinha com o craque Jarbas Mariz para o próprio gravar. É uma espécie de homenagem ao querido conterrâneo José Nêumanne Pinto. É um trocadalho. Ouça: 
 

OUÇA MAIS: CHIFRUDOA BESTEIRA É A BASE DA SABEDORIADAKO É BOMGIRASSÓIS DE VAN GOGH

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora.

sábado, 29 de abril de 2023

É PRECISO APOSTAR NA EDUCAÇÃO!

Manifestação de professores, em São Paulo

O ensino escolar no Brasil sempre foi precário.
Formalmente os professores começaram a ensinar na segunda parte do século 19. Ainda no Império, portanto.
São milhares os estabelecimentos de ensino espalhados nos mais de 5.000 municípios brasileiros. Muitos só têm uma escola. Ensino precário, precaríssimo. Professores, boa parte deles, sem a formação necessária e carentes de tudo, como de resto a maioria dos estudantes do Ensino Médio e de outros graus. Universitário inclusive.
O governo anterior teve como objetivo afunhenhar completamente o País, a partir da educação formal. O MEC despedaçou-se, como o Ministério da Cultura. Até ministros inqualificáveis, como um certo Milton Não-sei-o-quê, foram convocados pra ajudar a acabar com a Educação.
Lula, agora pela terceira vez no poder, escolhe a dedo um ministro para a Educação. Mas o projeto desse ministro anda bambo. A primeira e polêmica iniciativa que tomou foi providenciar uma MP, Medida Provisória, de cima pra baixo impondo diretrizes para o que chama de "Novo Ensino Médio". Assinada por Lula, uma catástrofe!
Na última quarta 26, professores de São Paulo realizaram manifestação reivindicando a revogação do projeto chamado Novo Ensino Médio.
O assunto é seriíssimo!
Eu gostaria de ver, mas não vi, nenhum jornal, rádio ou televisão debatendo pra valer esse que é um dos mais importantes assuntos que têm por fim mexer direta e profundamente com a vida do brasileiro em formação. 
Cadê a Folha, cadê o Estadão, cadê a Globo, cadê a Bandeirantes? E a CBN? Isso em São Paulo...
Bom, quer saber mais?
O pessoal da Rádio Novelo, ligado à revista Piauí, tem feito um trabalho excepcional no campo das comunicações, mastigando e possibilitando aos ouvintes também mastigar assuntos de grande importância postos em pauta na vida afunhenhada deste nosso tão querido país. Isso tudo em podcast. Clique:


LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (11)

Todos os principais compositores brasileiros cantaram e decantaram situações em que o homem e a mulher partem destemidos e prontos para gozar a vida, se me entendem. De todas as formas e maneiras. Singelas, muitas vezes, como se ouve na belezoca Festa do Casamento, que tem o Coroné Ludugero e o secretário Otrope como personagens.
A licenciosidade na cultura popular é ampla. Abrange a chamada Sete Artes, até mais.
O cantor Dicró foi um gozador. Tirou sarro de tudo, enquanto pôde. O mesmo fez o grupo paulistano Mamonas Assassinas. Tirei sarro deles em texto publicado no extinto paulistano Jornal da Tarde. Deu uma polêmica danada por eu ter dito que musicalmente o grupo não faria falta ao mercado.
Escrachado, o Mamonas brincava com tudo. A molecada esperta adorava. Gosto de Sabão Crá crá. Gosto também de Vira-Vira. Começa assim: "Fui convidado pra uma tal de suruba/Não pude ir, Maria foi no meu lugar/Depois de uma semana ela voltou pra casa/Toda arregaçada, não podia nem sentar...".
Todos os grandões e pequeninos de nossa música fizeram e continuam a fazer o que os conservadores de plantão costumam chamar de obscenidade ou pornografia explícitas. Entre esses Chico Alves, Orlando
Silva, Aracy de Almeida, Nuno Roland, Nelson Gonçalves, Paulo Vanzolini, autor do escracho Amor de Trapo e Farrapo; Zé Rodrix, Antonio Barros, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Caetano, Milton Nascimento, Djavan, Tom Zé, Rolando Boldrin, Rita Lee, Roberto e Erasmo Carlos, Cazuza, Wando, Zé Ramalho, Ângela Ro Ro, Gabriel, o Pensador, Marisa Monte, Genival Lacerda. Todos.
Genival Lacerda, também chamado de O Senador do Rojão, foi provavelmente o artista que mais gravou músicas de duplo sentido. Do seu repertório fazem parte, por exemplo: Severina Xique-Xique, Radinho de Pilha, Mate o Véio Mate, Caldinho de Mocotó e A Brusqueta da Zezé, que começa assim: “Menino eu já comi calango assado/Comi carne de viado/ Eu já comi jacaré/ Comi rabada, feijoada, acarajé/ Mais nada se compara/ A brusqueta da Zezé…”.
Luiz Gonzaga, o rei do baião, não ficou de fora dessa parada. Gravou coisas como Ovo de Codorna, Karolina com K e Não Vendo, Nem Troco, por exemplo. No primeiro caso, ele come ovo de codorna pra ter tesão. No segundo caso, dançando num forró de pé de serra, ele funga safadamente no cangote da Karolina, que se derrete toda. E no terceiro, o causo tem a ver com uma égua de estimação "disputada" com o filho, Gonzaguinha.
A putaria implícita ou explícita na música brasileira não é de hoje. O detalhe é que a mulherada está tomando as rédeas da história.
Isso é arte?

sexta-feira, 28 de abril de 2023

DEZ ANOS SEM PAULO VANZOLINI

Ilustração de Fausto Bergocce
 
Hoje faz exatamente 10 anos que o compositor paulistano Paulo Vanzolini morreu.
Além de compositor, e dos bons, Paulo Emílio Vanzolini teve presença marcante no mundo da medicina tanto no Brasil, como no Exterior. Sua especialidade era Herpetologia, parte da ciência que estuda a existência e o comportamento dos répteis. Pelo menos uma dúzia de répteis e anfíbios foram nomeados cientificamente com o nome de Vanzolini.
Suas pesquisas de campo foram realizadas em várias partes do Brasil, do Nordeste ao Norte, incluindo a Amazônia.
Há pelo menos dois ou três documentários enfocando o personagem que durante muitos anos foi diretor do museu de Zoologia da USP.
Paulo Vanzolini deixou publicado um livro de poesia (Tempos de Cabo), de memórias; e de estudos da área que dominou, entre os quais A Evolução ao Nível de Espécie: Répteis da América do Sul (FAPESP, 2010).
Paulo e Assis, num momento de descontração
Como compositor Paulo deixou uma discografia pequena, mas densa. Destaque para Ronda, Volta por Cima, Praça Clóvis, Boca da Noite, Samba Erudito e Amor de Trapo e Farrapo.
2024 será o ano do centenário de nascimento de Paulo Vanzolini.
No nosso acervo há registro de todas as composições de Paulo Vanzolini, inclusive uma inédita que pedi que gravasse para mim numa fita K-7. A letra é essa:

Minha neguinha
Hoje eu acordei disposto
Pra fazer seu gosto
Vamos nos casar

Hoje é o dia
De enfrentar a Pretoria
De na pausa ou na agonia
A gente se amarrar

E o padre e o cartório
Já estão avisados
O bifê tá contratado
Nada vai faltar

Você se pinte
Você se enfeite
Você se vista
Que eu vou dar uma passada
No dentista e volto já.

Para lembrá-lo, clique: 

terça-feira, 25 de abril de 2023

SIM, HOJE É O DIA DOS CORNOS!

Em vários pontos, o Brasil é muito modesto. Exemplo: não há no nosso calendário comemorativo o Dia dos Cornos.
Em Portugal e Espanha acho que o dia 25 de abril é dedicado aos cornos ou cornudos, como dizem os patrícios. Surgiu em tempos longínquos.
O nosso repertório musical, no tocante aos cornos é imenso e variado. Fala de homens e mulheres que dão seus pulinhos fora da cama de origem, alcançando terrenos além das cercas.
Infidelidade conjugal existe desde sempre, desde que o homem desceu das árvores.
Oitenta porcento das pessoas ouvidas numa pesquisa feita pelo portal O Hoje curtem ser cornos. Desse total, 30% disseram desejar ver o parceiro ou a parceira assistindo o transgressor ato. Mais: segundo a pesquisa, 35% das mulheres ouvidas manifestaram a vontade de assistir o macho em peleja sexual.
A pesquisa foi feita no ano passado.
Trair e Coçar é Só Começar, peça de Marcos Caruso, foi escrita e levada ao palco há mais de 30 anos. É sucesso até hoje. Trata do que diz o título. Está no Guiness.
O cantor e compositor pernambucano Reginaldo Rossi deitou e rolou com o tema. Garçom chegou às paradas e virou clássico do gênero. Ouça:

Frase no para-choque de caminhão diz tudo: "Um homem sem chifre é um animal sem proteção".
O povo é sábio.
 

segunda-feira, 24 de abril de 2023

GUERRA: MAIS AMOR E MENOS ÓDIO

É impossível, quero crer, uma pessoa concordar 100% com o que diz outra pessoa. Nem Deus é unanimidade.
É no mínimo curiosa a fala do governo Biden criticando o que disse recentemente de Lula sobre a invasão da Rússia à Ucrânia.
Lula fala de paz e da necessidade de se criar um bloco de países para negociar o fim da guerra iniciada por Putin, há mais de um ano.
Ouço o governo norte-americano dizer que o Brasil está preocupado em por comida no prato e não com a guerra Rússia x Ucrânia. Ora, ora, não podia ser diferente.
Claro que o Brasil está preocupado em por comida no prato dos brasileiros e fazer com que todos progridamos.
Os EUA estão faturando, e muito, com essa guerra. O faturamento vem, lógico, do pesado armamento que tem destinado aos ucranianos.
O mercado bélico não brinca em serviço e não podemos esquecer dos males que os EUA já provocaram no Brasil. Lembremos 1964.
Foi no dia 1º de abril de 1964 que os militares brasileiros, incentivados pelos EUA, assumiram o poder e mergulharam o Brasil numa escuridão que durou 21 anos seguidos.
Bom, estou com Lula. Com a paz. À propósito fiz o poema Mais Amor e Menos Ódio. Leia:

Todos sabem muito bem
Que o mundo anda mal
Girando um tanto torto
No seu eixo natural

É caso muito sério
De difícil solução
Pode tudo se findar
À base de explosão

Como rastro de pólvora
Feito só para matar
As guerras se multiplicam
No campo, na serra, no mar

Aviões atiram bombas
Aleatoriamente
Destruindo meio mundo
E matando muita gente

Tudo isso sob as ordens
De um ser que planta o mal
De um ser que quer fazer
Nova guerra mundial

Pare enquanto é tempo
Chega de tanto terror
Em fuga o povo chora
Pedindo paz e mais amor

CHICO BUARQUE

Ali pelo meio-dia de hoje 24 o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda receberá o Prêmio Camões, que ganhou em 2019.
O Prêmio Camões foi criado em 1988 para levantar a bola de grandes poetas e romancistas que se manifestam na língua portuguesa. Vários brasileiros já receberam esse prêmio. Um desses brasileiros foi o pernambucano João Cabral de Melo Neto.
A propósito: adaptei de Camões a obra-prima Os Lusíadas. LEIA: CAMÕES, SEMPRE CAMÕES (2, FINAL)

domingo, 23 de abril de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (10)

 Desde sempre homens matam mulheres por ciúmes.
 Fita K-7 que depois viraria LP e CD

O cantor Lindomar Castilho, pela imprensa chamado de "Gatilho", matou a tiros, em 1981, uma mulher a quem dizia amar, Eliane de Grammont.
Em 1977, o cantor Sidney Magal alardeava aos quatro cantos a sua posição de machista radical cantando: "Se te agarro com outro te mato/Te mando algumas flores e depois escapo...".
Em junho de 1981 publiquei na extinta revista Privé entrevista que fiz com o compositor e cantor Valdik Soriano, assumidamente "macho" como Nelson Gonçalves. Soriano contou na conversa que tivemos a respeito de suas origens até a chegar à condição de estrela da "música brega". De cara, disse, já no título: "EU COMO TODO MUNDO!".
Na íntegra, leia a entrevista que fiz com ele: VALDIK SORIANO DÁ O SERVIÇO
Aqui, quero deixar registrado uma coisa pessoal: um dia, numa mesa de bar, eu disse que não era certo o homem deixar a mulher em casa e ir pra gandaia. Ela poderia fazer o mesmo, por que não?
Quase levei porrada. Chamaram-me de demagogo.
Não à toa há mulheres que rompem a tradição machista.
E não à toa há homens que brincam com isso.
O cearense cantor e compositor Falcão fez e gravou a pérola Todo Castigo pra Corno é Pouco.
 

Em 1994, um cara chamado Alves Correia lançou o LP joia Chifrudo. A música título começa assim: "Toda vez que o namorado sai/Ela vai ficar com outro rapaz...".
O LP de Correia, cujas músicas são todas dele, termina com a inimaginável Oração de São Cornélio. Curiosidade: o referido Correia é considerado o radialista mais famoso do Agreste alagoano. Foi deputado por Alagoas, em 2002. Questões políticas o levaram a cair numa emboscada em 1993, ocasião em que foi atingido por nove tiros de arma de fogo.

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora.

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