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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

EU E MEUS BOTÕES (59)

O compositor Paquito
Cumprimentei todo mundo, como sempre faço aqui. Vocês que me leem, sabem disso. "E nós também, claro", interrompeu Barrica.
Bom, pessoal, cadê o Lamp...?
Nem bem acabei de falar o nome desse meu querido botão, eis que o próprio entra trocando as pernas e ao dizer "Bom dia" acrescentou um "Ick!". Na mão direita uma garrafa de Cinzano. "O que é isso, Lampa?", perguntou com estranheza o botão Jão.
Lampa, cabisbaixo, deseducadamente soltou um arroto e sentou-se cambaleante num tamborete. Quase cai. Quebrando o silêncio, disse com a voz engrolada: "É Carnaval!".
Zilidoro levantou-se após dizer "hmmm".
"Seu Assis, já é Carnaval em vários pontos do Brasil. Na Bahia inclusive. Aproveitando a deixa, pergunto se o Sr. sabe quem foi Paquito e o que ele fez para o Carnaval".
Está me testando é? Bom, começo dizendo que Paquito recebeu o nome na pia batismal de Francisco da Silva Fárrea Júnior. Nasceu no Rio no dia 9 de fevereiro de 1915 e morreu novo em 1975. Não sei de quê, mas deixou algumas coisas bonitas como as marchinhas Bigorrilho e Boi da Cara Preta, essa última gravada pelo paraibano Jackson do Pandeiro em 1956.
Lá do canto, no tamborete onde se achava, Lampa entrou na conversa dizendo que Paquito também compôs a marcha Daqui Não Saio. E tentou cantar, enrolando a língua: "Daqui não saio... Daqui ninguém me tira... Onde é que vou morar... O senhor tem paciência de esperar...". 
Todos voltaram os olhos a Lampa, que pra si próprio bateu palmas.
Achei graça e lembrei que era próprio do Paquito fazer letras sobre as dificuldades enfrentadas pelo povo do subúrbio carioca. Também é dele, por exemplo, Tomara que Chova.
"Essa aí eu sei de trás pra frente", gabou-se Biu e sem pedir licença já foi cantando: "De promessa eu ando cheio/Quando eu conto a minha vida/Ninguém quer acreditar/Trabalho não me cansa/O que cansa é pensar/Que lá em casa não tem água/Nem pra cozinhar".
Muito bem pessoal, gostei!
"Seu Assis, a gente vai sair num bloco. Quem inventou esse bloco foi o Mané. Quer ir com a gente?", disse Zoião, já em clima de samba.
O insuspeito Zé, que chegou atrasado e quieto num canto ficou, abriu a boca pra lembrar que hoje, 9 de fevereiro, faz 120 anos do nascimento do mineiro Ary Barroso. "Opa! Como pude me esquecer disso?", confirmou surpreso Zilidoro.
E o Jão de repente lembra que hoje também é o Dia do Frevo, olha só!
Pra encerrar, Barrica perguntou a Zilidoro se ele lembrava que hoje é o primeiro Carnaval sem a presença na telinha da Globo da repórter Glória Maria. Disse que sim e que até recebeu um desenho muito bonito do cartunista Fausto. "Sou amigo do Fausto há muito tempo e eu sei, seu Assis, que ele é também seu amigo. Ele pediu pra lhe mostrar o desenho que ele mandou".
Muito bem, muito bem! Vamos então compartilhar com nossos leitores o desenho do querido Fausto. Ei-lo:

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

E OS MANDANTES DO QUEBRA-QUEBRA EM BRASÍLIA, HEIN?


Hoje 8 faz um mês que aloprados bolsonaristas invadiram Brasília na tentativa insana de provocar um rompimento da lei da ordem. A ideia central era fazer com que as Forças Armadas assumissem um golpe evitando a posse do presidente democraticamente eleito, Luís Inácio Lula da Silva.
O quebra-quebra na Capital Federal começou ali pelo meio da tarde e estendeu-se até de noite com a prisão de centenas de vândalos.
Nas prisões de Brasília ainda se acham trancafiados mais de 900 criminosos bolsonaristas, 653 dos quais já foram devidamente identificados e qualificados na forma da Lei.
Enquanto os criminosos são indiciados, a polícia continua em campo cumprindo decisões legais do ministro Alexandre de Moraes.
A intenção da polícia é identificar todos os vândalos mandantes e apoiadores do quebra-quebra. 
Além de responder à Justiça, os criminosos deverão arcar com os prejuízos contra o patrimônio público por eles mesmos provocados.
Há um mês, uma semana e um dia o governo de Lula tem feito das tripas coração. Ou seja: a buraqueira e a insanidade deixadas por Bolsonaro têm levado o governo a apagar incêndio na Amazônia, literalmente.
É isso.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

FOME É TERREMOTO QUE MATA NO BRASIL

Há terremotos desde que o mundo é mundo. E continuam aqui e acolá a arrastar pessoas à morte, como agora na Turquia e na Síria. Mas não só de terremotos o mundo morre.

Como os terremotos, a fome é uma praga sem cura.

Há muita fome no continente africano e em outros lugares. No Brasil, por exemplo. 

Pois é, no Brasil mais de 30 milhões de pessoas não sabem se vão comer hoje, amanhã ou sei lá!

Gente gananciosa continua metendo a mão no erário das três esferas: municipal, estadual e federal. 

Gente gananciosa, sem espírito ou noção está matando índios e florestas.

Representantes das três armas já se acham na Amazônia prendendo ou botando pra correr madeireiros e garimpeiros que há anos vêm atuando ilegalmente na região. O detalhe é que esses caras estão se juntando em grupos para se apropriar dos mantimentos enviados aos indígenas. 

As forças legais têm muito mapeamento de área. 

Até agora já foram identificadas mais de 1.200 pistas clandestinas para pouso de aeronaves. É o começo do fim para os bandidos da área. Que assim seja!

Enquanto isso, policiais federais continuam cumprindo ordens do ministro Alexandre de Moraes, do STE/STF, no sentido de prender os aloprados bolsonaristas que pretenderam impedir a posse de  Lula como presidente da República. 

Isso tudo também é uma espécie de terremoto no nosso país, né não?


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

CRETINOS TAMBÉM SE MATAM

Idiotas têm nome e, eventualmente, endereço.
Terça passada um bolsonarista raiz ateou fogo ao próprio corpo berrando: "MORTE AO XANDÃO!". Foi no canteiro central da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. E claro, o cretino morreu. Mas de pirraça, não vou dizer o nome dele. Só a idade: 58 anos.
Outros cretinos bolsonaristas se candidataram a cargos eletivos dizendo que se eleitos e Bolsonaro não, renunciariam ao cargo. Caso confirmado foi o de uma deputada de Santa Catarina. Uma prefeita de Mato Grosso chegou a dizer que se Lula subisse a rampa, também renunciaria. E renunciou. É uma tal de Carmelinda.
Enquanto isso, ainda escondido em um lugar qualquer dos EUA, Bolsonaro diz que é italiano segundo a legislação brasileira. É pra rir ou pra chorar? A verdade é que o ex-presidente está com medo de retornar ao Brasil. Claro, tem lá seus motivos. Cana nele!
 
E POR FALAR EM SUICÍDIO...

domingo, 5 de fevereiro de 2023

YANOMAMI: UMA TRAGÉDIA PROGRAMADA

O processo de extermínio contra os indígenas originários do Brasil não é de hoje. Data dos tempos em que europeus por cá desembarcaram. Os primeiros desembarques ocorreram na costa baiana. O ano era 1500.
Diz a história que havia entre dois milhões a cinco milhões de indígenas divididos em pelo menos 1.000 grupos. O maior desses grupos carregava consigo a alma e a língua tupi-guarani.
A Amazônia brasileira é a maior floresta tropical do mundo. A parte que nos toca chega a 4,1 milhões de Km².
Não custa lembrar que a Amazônia fica ao Norte do nosso país. Essa região é ocupada por sete Estados. Além do Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
A Amazônia está dividida em duas partes: Ocidental e Oriental.
A Amazônia Ocidental é constituída por quatro Estados: Acre, Rondônia, Roraima e, naturalmente, o Amazonas.
Roraima é o Estado onde se acha a maior parte dos Yanomami.
O povo Yanomami foi um dos últimos a manter contato com o homem branco que o está dizimando, ali pela virada do século 19. São cerca de 30.000 indígenas. O seu território, de cerca de 9,6 milhões de hectares, está nas mãos de garimpeiros, madeireiros, narco-traficantes e de outros criminosos, inclusive engravatados com plantão diário em gabinetes da Câmara, Senado e palácios. Noutras palavras: os Yanomami estão abandonados e morrendo de fome, de gripe, de malária e de outras mazelas. Já não caçam, não pescam e nem plantam, pois a terra está contaminada e as águas dos rios envenenadas. Quem bebe adoece e morre que nem os peixes.
A situação atual dos Yanomami é uma verdadeira tragédia. Trata-se de omissão do Estado. Tudo indica que houve plano para pôr fim à vida dos Yanomami. Isso é genocídio.
O crime contra os Yanomami vem de longe, mas foi no governo Bolsonaro (2019-2022) que tudo piorou.
A gravidade do problema ganhou repercussão internacional com a visita do presidente Lula à Roraima, no sábado 21. Isso a partir de reportagem de Eliane Brum, segundo a qual 572 crianças do grupo Yanomami morreram vítimas de desnutrição, malária etc. Um horror!
Na contramão da imprensa estrangeira, a nossa imprensa não tem dado destaque necessário à tragédia Yanomami. O Estadão e o Globo até que têm falado. A Folha, com mais força. A TV Globo, também. Menos mal.
Lenda indígena dá conta de que as árvores sustentam o céu, mas se derrubadas o céu desaba sobre nossas cabeças.
Em 2010 o xamã e líder indígena Davi Kopenawa narrou histórias ao antropólogo francês Bruce Albert, que escreveu o livro A Queda do Céu, lançado primeiramente em francês.
Em 1990, Gianfranco Bolonha reuniu textos de 13 especialistas sobre a questão ambiental no livro Amazônia Adeus.
Livro que também merece atenção é Índios no Brasil, organizado por Luís Donisete Benzi Grupioni.
Na nossa literatura os indígenas aparecem como heróis, mas um tanto subordinados a brancos europeus. Caso de Peri, personalizado num índio da tribo Guarani que se apaixona por Ceci, moça de fino trato e filha de um poderoso português de nome dom Antônio de Mariz.
Ceci e Peri passeiam com desenvoltura nas páginas do romance O Guarany, de José de Alencar. Esse romance, originalmente publicado na forma de folhetim nas páginas do jornal Diário do Rio de Janeiro, virou livro em 1857.
Em 1870 o maestro Carlos Gomes levou o Guarany à cena na maior casa de ópera da Itália: alla Scala, de Milão.
Além de Alencar, outros grandes escritores viram nos indígenas objeto de suas histórias. Exemplos: Bernardo Guimarães, Mário de Andrade, Antonio Callado, Darci Ribeiro.
Bernardo Guimarães, autor do clássico A Escrava Isaura, publicou em 1872 o conto Jupira, que ganharia o palco como ópera em 1900 no Rio de Janeiro. O maestro Francisco Braga (1868-1945), autor da melodia do Hino à Bandeira (letra de Olavo Bilac), foi o regente da história criada por Guimarães.
A questão indígena se acha em todo canto, literalmente. Até em samba de enredo e em marchinha de carnaval.
Em 1959 o maestro Villa-Lobos compôs a belíssima peça Forest of The Amazon. Gravada nos EUA, obteve sucesso mundial.
Dalgas Frisch foi a primeira pessoa a gravar trinados de pássaros da Amazônia, inclusive do uirapuru. Suas gravações viraram discos elogiados pela imprensa internacional e até pelo presidente norte-americano John Kennedy (1917-1963).
A fotógrafa Claudia Andujar inaugura nessa sexta-feira 3/2 exposição sobre os Yanomami, em Nova York. Claudia tem dedicado boa parte da sua vida registrando o dia a dia Yanomami.
A Polícia Federal está investigando os responsáveis por mais essa tragédia indígena.

LEIA MAIS: CANA PARA O GENOCIDA BOLSONARO!O ÍNDIO MERECE RESPEITO…A SOLIDÃO COMO OPÇÃODIA DO ÍNDIO E DE TODOS NÓS, BRASILEIROSÍNDIO NÃO QUER APITOÍNDIOS VIVEM À MÍNGUA

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora.
Ilustrações por Fausto Bergocce.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

JACKSON DO PANDEIRO NO TEATRO

Num papo rápido por telefone, o craque Atilio Bari diz que ficou encantado com a performance do elenco que forma o musical Jacksons do Pandeiro - Na Barca dos Corações Partidos. E elogiou e elogiou e elogiou. Íntimo das coisas do teatro, Bari disse que nunca viu nada igual. Canto, sanfona, triângulo e tudo o mais são incríveis. Ele: "você tem que assistir esse espetáculo".
Eu sou paraibano de João de Pessoa.
Jackson, de batismo José Gomes, era paraibano de Alagoa Grande.
A obra Jackson no Pandeiro é espetacular. Ele começou a gravar em 1953. Seu primeiro sucesso foi sua primeira gravação: Sebastiana. No seu tempo, gravavam-se discos de 78rpm. No acervo Instituto Memória Brasil, IMB, criado por mim e por mim dirigido, há tudo e muito mais a respeito de Jackson.
Agora foi que me toquei: se Jackson gravou a primeira música, um forró em 1953... Pois é: este ano completam-se 70 anos da primeira gravação musical do nosso grande ritimista. A respeito, não custa lembrar que o papa da Bossa Nova, João Gilberto, era fã de carteirinha de Jackson. Fica o registro.
Perdi meus olhos, a luz dos meus olhos. 
Vou pedir à Ana, à Clarissa, à Maria ou ao próprio Atílio Bari pra me levar ao Teatro Porto Seguro, onde Jacksons do Pandeiro - Na Barca dos Corações Partidos se acha em cartaz.
Viva Jackson!



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

ABAIXO O MACHISMO!

Em entrevista a Kennedy Alencar da RedeTV! e UOL ontem 2, o presidente Lula da Silva foi questionado sobre afirmação de que não concorreriria às eleições de 2026. Respondendo ao repórter, lembrou que até lá estará com 81 anos de idade. Até aí tudo bem. O diacho é o que vem depois: "Eu só posso ser candidato com saúde perfeita, com 81 de idade, energia de 40 e tesão de 30".
A isso dá-se um nome: machismo.
Lula, aliás, é recorrente nessa questão. Num passado recente falou o que não vou falar agora.
O machismo é uma porcaria. Pega branco, pega preto, novo, velho, gordo, magro e, principalmente, pessoas sem educação e civilidade. Pena que isso ocorra também com o nosso presidente.
O presidente anterior, o porcaria Bolsonaro, foi não foi repete que é "imbroxável", "imorrível" e coisa e tal. Esse não tem salvação. Com jeito, Lula ainda pode se salvar. Digo isso porque a sociedade brasileira a todo dia se esclarece mais. E isso é importante.
Não à toa, as mulheres sofrem tanto nas unhas dos machões. Muitas e muitas apanham até a morte. Infelizmente.
O Brasil que queremos é um Brasil bonito, de pessoas que se respeitem mutuamente e que deem o real valor à educação e ao próximo. Sem isso fica difícil a convivência entre pessoas.
É isso.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

DEMOCRACIA E GLÓRIA MARIA

Acompanhei hoje na TV Câmara, ao vivo, discursos de  políticos do nosso cotidiano.
O Brasil precisa ser recomposto, politicamente. 
E quando falo politicamente falo também socialmente. 
O governo anterior procurou desenvolver um projeto de destruição sob todos os aspectos. 
Nos últimos quatro anos, o Brasil perdeu tudo e quase a sua própria história. 
Os discursos hoje 2/2 apresentados na abertura dos trabalhos legislativos do próximo biênio, a partir do Senado, tiveram um alinhamento natural: Democracia, respeito pelas pessoas. 
Nessa ideia de alinhamento,  a Democracia é mais do que necessária para a (re)construção de um Brasil melhor. 
O discurso do presidente do Senado e do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco, foi irretocável. Totalmente identificável com o que pensa o presidente da República, a presidente do STF e o presidente da Câmara. Gostei. Ouvi tudo pela TV Câmara, ao vivo.
Tomara que os discursos que eu ouvi hoje não fiquem apenas nas palavras. E aqui não custa lembrar uma coisa bonita: na abertura dos trabalhos legislativos, foi pedido no Senado um minuto de silêncio em memória da jornalista Glória Maria. 
Glória Maria, que carregou Silva no sobrenome, era carioca da safra de 1949. Marcou época. O jornalismo era tudo para ela. Fez do medo, coragem. Sentia-se sempre uma mulher comum. Negra, foi a primeira a registrar queixa em DP denunciando o racismo. Deixou duas filhas: Maria e Laura, adotivas.
Glória Maria Matta da Silva deixa o legado: o respeito pelas pessoas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

PACHECO É REELEITO PRESIDENTE DO SENADO

A votação foi rápida neste início de noite, lá em Brasília. Durou 18 minutos. Ao final deu Rodrigo Pacheco na cabeça, com 49 votos que o levaram pela 2ª vez à presidência do Senado. A diferença para o concorrente bolsonarista Rogério Marinho foi de apenas 8 votos, valiosíssimos votos.
A vitória de Pacheco é vitória de Lula, que assim deixa para trás o arqui-inimigo da democracia: Bolsonaro, que ainda se acha num lugar qualquer dos EUA, arrotando ódio e tramando malvadezas. Tem dito que é "imorrível" e "imbroxável". A quem interessa isso?
Com Pacheco seguindo na posição de presidente do Senado, e também no Congresso, as pautas na Casa do Povo poderão ser aprovadas com alguma folga. É o que se espera.
Logo após a vitória Pacheco pegou o telefone e falou com Lula, que o parabenizou.
Enquanto batuco essas linhas, na Câmara os deputados continuavam votando para a provável recondução de Arthur Lira à presidência.

Pra lembrar a última eleição da Câmara, clique: A PRÁTICA POLÍTICA DA TRAIÇÃO

NOSSA DEMOCRACIA ESTÁ VIVA

 Hoje cedo acompanhei pelo rádio a solenidade de reinício dos trabalhos jurídicos no STF. Foram feitos quatro discursos. O primeiro coube à presidente do Supremo, Rosa Weber. Importantíssimo. Em vários momentos foram lembrados os ataques contra a democracia. Vândalos destruíram o que encontraram pela frente, no espaço onde se acham os prédios que simbolicamente representam os três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. 

Depois de Rosa Weber, discursou o inacreditável PGR, Augusto Aras.

Com a maior cara de pau do mundo, o bolsonarista PGR começou lembrando pateticamente alguém que ama alguém profundamente. E tascou: "Democracia eu te amo, te amo, te amo!". E sem se quer enrubescer, chegou a tecer loas à figura do filósofo italiano Norberto Bobbio. Pra quem não sabe ou lembra, Bobbio (1909-2004) foi um dos maiores intelectuais defensores da Democracia e direitos humanos no mundo. Sua obra é vasta e necessária para que entendamos os descalabros cometidos ou que se possam cometer contra as liberdades.

O Aras é uma vergonha à vida brasileira. 

O terceiro discurso feito hoje no STF coube ao presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco. Sem muito brilho, mas ainda assim um bom discurso para o novo ano jurídico inaugurado na manhã de hoje.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse da necessidade de resolver os problemas do Brasil e do povo brasileiro. Voltou a falar do quebra-quebra de 8 de janeiro. Os envolvidos nessa tentativa de golpe pagarão por tudo que fizeram, garantiu. E garantiu também que todos os esforços, da parte do governo, estão sendo feitos para pôr fim definitivo aos crimes praticados até aqui contra os Yanomami. Isso quer dizer que garimpeiros  e madeireiros que atuam ilegalmente na Amazônia serão todos postos pra correr. Cadeia neles!

Como se vê, o Brasil não é pra principiantes.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

VIVA O BREGA BRAGA!

Eu sou um ser puro e simples, nascido nas beiradas da linha do Equador. Todo mundo sabe disso, não é mesmo?
Desde tempos imagináveis frequentei ambientes habitados por mulheres desprezadas pela sociedade canalha.
Frequentei essas casas no velho Varadouro pessoense.
As casas a que me refiro eram casas simples, cheias de moçoilas e mulheres simples.
Nessas casas eu molhava o bico com cervejas cujas marcas nem existem mais. Meu tempo.
Apaixonei-me até uma ou duas vezes por moçoilas habitantes daquelas casas. Bons tempos foram aqueles. Elas achavam que eu era uma coisa e eu achava que elas eram muito mais. E eram.
À época, ali pela metade dos anos 70, eu era repórter e editor de página do jornal Correio da Paraíba.
Naquelas casas do Varadouro e proximidades, Maciel Pinheiro por exemplo, eu relaxava depois do dia corrido que era sempre aquele em que eu saía do jornal tenso. E lá, naquelas casas, eu ouvia da vitrola Orlando Silva, Waldick Soriano, Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo e tantas e tantas outras belíssimas vozes bregas. 
Meu amigo, minha amiga, você já ouviu falar de um cara cantor chamado Evaldo Braga?
Evaldo Braga era um fluminense de Campos. Nasceu em 1947. Não conheceu nem pai nem mãe, nem mãe nem pai. Fodido. Pobre. Vozeirão. Passou o tempo e virou um grande cantor.
Eu amava Evaldo.
A voz forte e sincera desse cantor me entusiasmava.
Dizer mais o que sobre brega, breguice e Evaldo Braga?
No começo dos anos de 1970, Braga lançou o 2º volume do LP Ídolo Negro. Nesse disco, há uma faixa que cativou os corações mais sensíveis.
Ah! Hoje, 31 de janeiro de 2023, faz exatos 50 anos que Evaldo Braga morreu vítima de um acidente de carro ocorrido na BR3 (Rio/Minas).

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

HOJE É O DIA DA SAUDADE

Uma vez perguntei a Adoniran Barbosa, autor de sambas clássicos como Trem das Onze e Saudosa maloca, uma definição para saudade. E ele: "Saudade é um bichinho que rói, rói nosso coração".
Pois é, tenho pensado em muitas pessoas queridas, amigas, como Inezita Barroso e Paulo Vanzolini; José Ramos Tinhorão e Roberto Luna.
Os meus amigos tão se indo.
Com o sumiço dos meus amigos, sinto-me cada vez mais triste.
Sinto saudade das pessoas acima citadas e mais: Papete, Manezinho Araújo, Luiz Gonzaga que quando chegava a São Paulo uma das primeiras coisas que fazia, segundo ele mesmo, era me telefonar. E nos encontrávamos num hotel qualquer onde ele costumava se hospedar.
Pois bem, sinto saudade.
Às vezes sentado numa poltrona ou me balançando na rede, penso nos amigos que partiram.
Eu costumava tomar umas biritas com Paulo Vanzolini e Inezita Barroso. Paulo gostava de cerveja e Inezita, de whisky sem gelo. Papete, de uma caninha. Tinhorão era chegado a um vinhozinho e também de uma boa cachaça. Ai, ai...
Mas, enfim, é como disse-me uma vez Adoniran: "Saudade é um bichinho que rói, rói nosso coração" .
A cantora de compositora Dolores Doran fez uma coisa bonita falando, a seu modo, de saudade. Ouça:


LEIA MAIS: HOJE É DIA DE SAUDADE SAUDADE É BOA E DOCE QUE NEM RAPADURA, MAS DÓI! O QUE É SAUDADE? VIVA A POESIA!

sábado, 28 de janeiro de 2023

A ARAPUAN E A HISTÓRIA DO RÁDIO NA PARAÍBA

Sob a direção geral de Otinaldo Lourenço, o Rádio Arapuan constituiu, durante o consulado militar, instrumento da mais autêntica resistência democrática.
É claro que esta deve ser considerada em termos. A certa altura, a emissora sabia que não poderia conceder passo em falso. Na reabertura, o próprio Governo advertira:
— Vocês tomem cuidado para evitar novo fechamento!
(Do livro A Arapuan e o Rádio Paraibano; pág. 103)

O documentarista Vladimir Carvalho
A história do rádio é pra ser lembrada sempre. Tudo começa na virada do século 19 para o 20, a partir de experiências científicas do padre gaúcho Roberto Landell de Moura.
A luta do padre foi titânica. Lutou, lutou e morreu na praia, triste e decepcionado pela indiferença dos homens poderosos de seu tempo, que poderiam ter reconhecido seus estudos científicos que apontavam o rádio como sua grande descoberta.
O louvor da invenção do rádio coube ao italiano Guglielmo Marconi.
No Brasil o rádio deu seus primeiros sinais de vida, oficialmente falando, no dia 7 de setembro de 1922. O presidente da República era o paraibano Epitácio Pessoa, cujo governo e o País comemoravam o 1° centenário do falacioso "grito do Ipiranga".
Para efeitos históricos, a primeira emissora de rádio a entrar no ar com um esboço de programação própria foi a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, no dia 20 de abril de 1923.
Em 1936 a Rádio Sociedade, que tinha à frente o cientista Roquette Pinto, seria doada ao governo Vargas e ganharia o nome de Rádio MEC.
A partir dos anos 30, o rádio começava a se espalhar pelo território nacional.
Enoque Pelágio
A primeira emissora de rádio na Paraíba chamou-se Rádio Clube da Paraíba. Essa rádio passaria a se chamar Tabajara, em 1937. Oficial, do governo do Estado. Existe até hoje e foi lá, nela, que o cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré quebrou seu longo silêncio na terrinha deixando-se entrevistar. Ao vivo. Isso em 2 de abril de 2018. E foi lá também que Jackson do Pandeiro nasceu para o Brasil.
No dia 16 de agosto de 1950 os paraibanos foram presenteados com a inauguração da Rádio Arapuan.
O novo livro do historiador José Octávio de Arruda Mello trata do que bem diz o título: A Arapuan e o rádio paraibano (Uma Biografia Dual).
Desde o título, passando pelo preâmbulo e dados finais, José Octávio mostra a importância de Otinaldo Lourenço, seu irmão, na radiodifusão paraibana. E à página 69, escreve:
Foi com Otinaldo Lourenço, na direção artística do Rádio Arapuan, em 1959, que teve início a mais ampla renovação do rádio paraibano.
Começou na Tabajara, na área de esportes, e na Arapuan mostrou seu talento por completo. Foi inovador tanto na redação, reportagem e direção.
Não é demais afirmar que Otinaldo inovou na forma de transmitir notícias. Isso em áreas diversas. Esportiva, por exemplo. Formou ao lado de nomes importantes da imprensa local como Ivan Bezerra, Bernardo Filho e Vladimir Carvalho.
Pra quem não liga o nome à pessoa, necessário se faz dizer que o Vladimir aqui citado é o famoso e mais importante documentarista cinematográfico do Brasil, autor da pérola O País de São Saruê, baseada no folheto de cordel de Manoel Camilo (1905-1987).
O País de São Saruê foi um dos primeiros filmes nacionais censurados pela ditadura militar.
A Rádio Arapuan levava a seus ouvintes programas dos mais diversos: Dramas e Comédias da Cidade, por exemplo, com o repórter policial Enoque Pelágio (1934-1987) e Antena Política, com Otinaldo e seu irmão José.
Otinaldo Lourenço e José Octávio entrevistaram expressivos nomes da política brasileira, como Ulisses Guimarães, Abelardo Jurema, ex-ministro da Justiça e o general Costa e Silva que na ocasião, em 1967, soltou a gracinha: "Jornalista sem gravador é como soldado sem fuzil".
A religião também não ficou de fora da grade da emissora.
Otinaldo entrevista o general Costa e Silva
Aos sábados e domingos os ouvintes podiam ouvir representantes das igrejas católica e evangélica. Até representantes da umbanda tinham espaço na velha Arapuan.
Sem dúvida, afirmo com todas as letras que a Rádio Arapuan marcou época.
A Arapuan foi a primeira emissora do Brasil a dar em primeira mão a notícia do assassinato do presidente chileno Salvador Allende, no dia 11 de setembro de 1973. Furo!
O jornal Furo… Essa é outra história.
Otinaldo era natural de Surubim, PE, nascido em 1934. Foi, além de radialista, bacharel em Direito e professor da Universidade Federal da Paraíba, como o irmão José. Morreu no dia 13 de fevereiro de 2021, quando se comemora o dia mundial do rádio, criado pela UNESCO em novembro de 2011. Em abril de 2022 foi lançado um livro póstumo: A Revolução do Rádio na Paraíba e Anotações Autobiográficas.

Foto e reproduções Flor Maria e Anna da Hora

SÃO PAULO 469 ANOS

Nesse dia 25 de janeiro os paulistanos comemoram com ênfase o 469º aniversário de fundação. São Paulo é a cidade mais cantada do mundo em músicas de todos os gêneros: forró, baião, xote, xaxado, samba, rock, choro e tudo o mais. Eu mesmo cheguei a compor música em homenagem à Sampa. Jarbas Mariz e eu compusemos São Paulo Esquina do Mundo. Compus e interpretei Declaração de Amor a São Paulo. Sobre essa cidade, que tão bem me acolheu em 1976, já escrevi muita coisa e até uma exposição/ocupação fiz em 2012 intitulada Roteiro Musical da Cidade de São Paulo, na unidade Sesc Santana/SP. Para o Newsletter Jornalistas&Cia escrevi o texto abaixo. Leia: SÃO PAULO EM MÚSICA, PROSA E VERSO

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

HÁ 100 ANOS NASCIA WALDIR AZEVEDO

 
Infelizmente, é fato: O brasileiro, grosso modo falando, é de curta memória.
Não ouvi hoje 27, nem no rádio nem na TV, notícia dando conta do centenário de nascimento do carioca da Zona Norte Waldir Azevedo.
Waldir era músico, mais precisamente instrumentista. Começou a carreira muito cedo, menino ainda. Não tinha nem dez anos ainda quando apaixonou-se pela flauta, depois pelo bandolim e, sua paixão maior, o cavaquinho.
O cavaquinho é um pequeno instrumento de 4 cordas que faz a festa de quem gosta de ouvir música dedilhada.
O cavaquinho, pode se dizer, existe o antes e depois de Waldir.
Waldir Azevedo foi quem deu categoria maior a esse cativante instrumento.
O cavaco está para o Waldir como a sanfona está para Luiz Gonzaga e a cuíca para Osvaldinho. Sim, ele mesmo: Osvaldinho da Cuíca, de batismo Osvaldo Barro.
Bom, pessoal, era de Waldir Azevedo de quem queria falar. Falei. É dele o choro Brasileirinho. Ouça:

LEIA MAIS: TÉO AZEVEDO HOMENAGEIA WALDIR AZEVEDO WALDIR AZEVEDO, O MÁGICO DO CAVAQUINHO

RADAMÉS GNATTALI

O gaúcho Radamés Gnattali nasceu num dia como hoje: 27 de janeiro. O ano foi 1906.
Radamés era um figuraça. Sabia muita coisa do contexto musical, naturalmente. Foi maestro, arranjador, compositor. Fez arranjos de todos os grandes cantores da sua época. Fazia coisa boa, mesmo. Mas, encantado pelo som dos gringos americanos, enfiou osquestra no samba dos morros do Rio. Eu o conheci e o entrevistei. É uma história curiosa essa. Foi no Centro Cultural São Paulo. Gravador ligado, comecei a fazer perguntas. E ele falou, falou, falou. Bom papo. Meteu o pau no Tinhorão. Achei graça. Ao voltar para o jornal, Folha, fui transcrever a entrevista e, para minha surpresa, nada fora gravado. Mas ainda assim, escrevi. É isso.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

HOJE É DIA DE BOSSA

Duas notícias quero destacar hoje 25 para os seguidores deste Blog: o rompimento da barragem de Brumadinho, na grande BelZonte, e o Dia Nacional da Bossa Nova.
Comecemos pela Bossa de João Gilberto, Vinícius e tal.
No dia 17 de abril de 2009, o presidente da República Luís Inácio Lula da Silva sancionava a lei que escolhia o 25 como o Dia da Bossa Nova.
O maestro, compositor, pianista, cantor e violonista Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nascia no Rio de Janeiro, exatamente no dia 25 de janeiro. Ano: 1927.
Tom escreveu algumas centenas de músicas, muitas delas ele as gravou cantando e tocando piano.
A Bossa Nova chegou como disco pela primeira vez em 1958. Foi uma mulher a primeira artista a cantar Bossa: Elizeth Cardoso (1920-1990).
A primeira música no ritmo Bossa Nova foi Garota de Ipanema.
Tom Jobim morreu no dia 8 de dezembro de 1994.
E agora, Brumadinho.
A barragem de Brumadinho, MG, rompeu-se logo após o meio-dia de 25 de janeiro de 2019.
Mais de 270 pessoas morreram. Os corpos de três outras pessoas ainda não foram achados. Detalhe: até agora nenhum diretor da Vale do Rio Doce, a que pertencia a barragem, foi presa. Mas ontem 24, a Justiça aceitou denúncia oferecida pelo Ministério Público contra 16 empregados de altíssimo escalão. E nada mais vou dizer porque os jornais de hoje já dizem tudo. E como sempre, sem ter o que fazer, fiz o poema a que intitulei Uma Canção Pra Brumadinho. Ouça e dê sua opinião:

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

PELÉ É BRASIL. PELÉ É SÃO PAULO!

Pelé como compositor, um pouquinho além do nada. Pelé como futebolista, de todos os tempos o maior.
Pelé compositor, hmmmm...
Pelé, Edson Arantes do Nascimento (1940-2022), foi grande de todos os modos. Peraqui: não reconheceu uma filha que teve fora do casamento.
Ninguém é perfeito, porra! Nem Pelé.
Pelé chutou bola pra danado.
Pelé tentou coisas fora de si: tentou violão.
Pelé foi um cara comum, fora do incomum.
História.
Até uma música para São Paulo o mineiro Pelé achou de inventar. Ouçam:


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O BRASIL É "NUESTRA AMERICA"

 Ei, ei, ei! Vem cá: hoje é 23 de janeiro. Faz, pois, 23 dias que Lula virou o novo presidente do Brasil. Se ele foi bom nas duas primeiras vezes, agora certamente será melhor. 

Cego dos olhos hoje que sou, vejo e ouço em boa parte do rádio e da televisão coleguinhas cobrarem do governo Lula que agora está apenas começando. Isso não é certo! 

Lula acaba de fazer a primeira visita oficial a um país. No caso, a Argentina. 

Politicamente poderemos classificar a Argentina como um país de esquerda. E daí?

Bolsonaro estava fechando e fechou a sua posição política com países que tinham a ver com sua ideologia de prepotente matador. E não foram poucos. Turquia, inclusive. 

Bolsonaro é assassino, genocida. E por isso certamente terá que pagar. Lei é lei.

A visita de Lula à Argentina, no meu ponto de vista foi necessária. 

Não sou economista, não sou cousa nenhuma. Sou um jornalista que pergunta, que pergunta. E pergunto porque nada sei...

Lula na Argentina levou à discussão a possibilidade de se criar uma moeda para transações financeiras e comerciais. Nada a ver com o Euro.

A América Latina, a América do Sul, não pode estar isolada do mundo.

O Brasil é o quinto maior país do nosso planetinha, territorialmente falando. 

Viva o Brasil!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

CANA PARA O GENOCIDA BOLSONARO!

Crimes contra os povos indígenas no Brasil continuam sendo praticados o tempo todo.
Quando Cabral chegou ao nosso País, estima-se que havia entre 2 a 5 milhões de indígenas ocupando o território nacional. Hoje o total não chega a 900 mil, segundo dados preliminares do censo 2022 ainda em andamento.
São chocantes as notícias que se lê na imprensa sobre a vida dos nossos indígenas. Somos deles descendentes. Aliás, há alguns anos, a cantora cearense Marlui Miranda foi vaiada e xingada por alguns negacionistas. Ela parou o espetáculo e disse, firme ao microfone: "Quero que levante o primeiro que não tenha sangue indígena". Apagaram-se as luzes e ela continuou a cantar um repertório feito com base nas músicas dos povos originários.
Minha garganta deu nó nesse fim de semana quando ouvi no rádio e na TV, notícias a respeito da péssima situação de vida em que se acham os Yanomami.
Nos últimos 4 anos, morreram pelo menos 570 crianças yanomami vítimas de desnutrição e outras mazelas que poderiam ter sido combatidas e vencidas caso o governo anterior tivesse vontade de assim proceder.
São cerca de 20 mil yanomami habitando as nossas matas.
São cerca de 20 mil garimpeiros extraindo das terras indígenas, ouro e outros minérios, irregularmente. Criminalmente.
Bolsonaro terá de pagar também por isso. Foi no seu governo, melhor dizendo desgoverno, que os exploradores das terras indígenas fizeram a festa. Tudo sob seu incentivo.
Sábado passado 21, o presidente Luís Inácio Lula da Silva esteve na região Yanomami e decretou estado de calamidade pública.
Tudo muito triste.

 Presidente também morre
De morte matada ou não
Lugar de quem não presta
É lá no fundo da prisão!

A cadeia te espera 
Presidente matador 
Quem apanha hoje é caça
Amanhã é caçador 
 

domingo, 22 de janeiro de 2023

PERSONA REPRISA TAIGUARA NA TV CULTURA

Logo mais às 21h será reprisado o programa Persona, da TV Cultura, que enfoca vida e obra do cantor e compositor Taiguara. Eu já vi e se você, meu amigo, minha amiga, ainda não o viu tem agora a oportunidade de ver. Anota aí, dia 22/01, às 21hs.

sábado, 21 de janeiro de 2023

EUCLIDES DA CUNHA MORRE EM DUELO DEPOIS DE DAR ENTREVISTA


No dia 21 de janeiro de 1866, o jornalista escritor carioca Euclides da Cunha não havia sequer recebido esse nome na pia batismal. Tinha apenas 1 dia de vida. Viveu 43 anos, 6 meses, 3 semanas e 5 dias. No total viveu 15.912 dias. Pois, pois.
A vida de Euclides da Cunha foi uma vida muito atribulada, corrida mesmo. Estudou no Exército, mas interrompeu a carreira depois de bacharelar-se em Matemática e Ciências Naturais. Seguiu a carreira de Engenheiro. Em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, começou a escrever o livro que o tornaria famoso: Os Sertões, que foi publicado em 1902.
Os Sertões é uma obra-prima do jornalismo brasileiro, pra dizer o mínimo. É dividido em três partes: a Terra, o Homem e a Luta.
Os Sertões beira a perfeição. Talvez seja a perfeição encontrada por um intelectual completo, como foi Euclides. Confesso que emocionei-me às lágrimas ao concluir a leitura. É assim o final: 
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.
Canudos invadida pelo cearense Antônio Conselheiro era uma região pobre, localizada no sertão baiano. Ninguém queria morar lá ou viver, só os miseráveis conselheiristas que não tinham onde cair mortos.
A presença do povo de Conselheiro na região despertou medo e ira da elite daquele tempo. Fins do século 19.
Canudos tombou depois de quatro tentativas das foças militares arregimentadas, a última, pelo primeiro presidente civil do Brasil: Prudente de Morais.
A Guerra de Canudos começou, pra valer, no dia 7 de novembro de 1896.
A Guerra de Canudos acabou no dia 5 de outubro de 1897.
Antônio Conselheiro, de batismo Antônio Vicente Mendes Maciel, morreu ferido e com dor de barriga no dia 22 de setembro de 97. O resto é história e tragédia.
No dia 15 de agosto de 1909, Euclides da Cunha concedeu aquela que seria a sua última entrevista. Foi no final da manhã, a Viriato Correia (1884-1967). Nessa entrevista, que foi publicada na revista Ilustração Brazileira, Euclides fala de tudo um pouco. Lembra inclusive detalhes de como desenvolveu o enredo de Os Sertões. Não custa lembrar que Os Sertões é o resultado de uma série de reportagens do próprio Euclides feita quando ele foi destacado pelo jornal O Estado de S.Paulo para cobrir a tragédia que foi Canudos. Tragédia também foi a morte dele, num duelo a tarde do mesmo dia em que deu a entrevista a Viriato.
A tragédia pessoal de Euclides da Cunha está umbilicalmente ligada a sua mulher Anna e ao assassino Dilermando de Assis (1871-1931). À propósito sugiro a leitura do livro Anna de Assis, de Jeferson de Andrade. 
Leia na íntegra a entrevista de Euclides da Cunha a Viriato:

A ÚLTIMA ENTREVISTA

É ali, em Copacabana, ao rumor das ondas, numa casa batida pelo vento do mar e de janelas abertas para o azul do oceano, que Euclides da Cunha vive a sua existência extraordinária, do mais completo e do mais artista historiador brasileiro.

Uma tarde, em que à rua do Ouvidor, falávamos de livros e de arte, ele me bateu amigavelmente nos ombros:

— Vai um domingo lá em casa, que diabo! Conversamos, almoçamos e depois sairemos descalços, a passear na praia.

Desde as primeiras páginas de Os Sertões que eu comecei a ter pelo historiador de Canudos a mais cega e comovida admiração. Não era admiração apenas, era mais — adoração — adoração por aquele escritor, que, imprevistamente, surgia onipotente e supremo, para o espanto de uma língua e de uma raça, por aquele narrador de guerra que de tão alto se punha para historiar todos os problemas da luta, pelo artista ruidoso e formidável, que abria uns novos painéis de arte robusta e essencialmente nossa, pelo paisagista incomparável. evocador, como nenhum outro, gigantesco, resplandecente, como ninguém.

Foi num domingo que lá estive. Era sol e era azul. A casa estava com as janelas abertas para o vento do mar, rumorejante da alegria das ondas, que, na areia se esfarelavam toda lavada do sol daquele domingo álacre.

Euclides é um simples como nunca vi assim. Quem o encontra na rua, magro, o rosto carregado, numa profunda concentração, não acredita o que pode haver de alegre, carinhoso e desprendido naquela alma. Quem devora as páginas rutilantes de Os Sertões imagina que ali está um escritor de sossego e método e que a obra foi feita com o maior dos métodos e o mais regular dos sossegos.

Nada disso. Nem uma coisa nem outra. Euclides nunca “se assentou”. A sua vida tem sido uma vida errante, ora aqui, ora ali, numa comissão, noutra, as malas sempre prontas, os livros dentro das malas. Ora em Minas, em São Paulo, no Amazonas, no Acre, em Canudos; de lápis na mão, enchendo de algarismos os livrinhos de notas, como engenheiro.

Ao que ele conta, desde estudante que o seu sonho é pousar; ter uma vida pacata, a sua casa, tudo em ordem, os seus livros arrumadinhos, a hora certa de começar o trabalho, a hora certa de terminá-lo, e hora certa de dormir. E nunca teve. A sua existência tem sido revolta, sem assento em lugar nenhum, irregular, imprevista, incerta, nômade, uma hora aqui, outra onde o diabo perdeu as botas, sempre carregado de trabalho, trabalhando noites além, um dia no costado de um cavalo, percorrendo sertões, outro medindo terras, outros suando, entre o fragor dos martelos, numa ponte que se constrói. Um horror!

— Continuo a ser o estudante que era. Tudo à revelia.

Ao entrar-se em casa de Euclides, a gente fica à vontade. Não parece que se está em frente de um dos máximos prosadores de uma língua, mas sim de um rapaz amigo, de um velho camarada com quem se viveu larga quadra, de um companheiro que nos fala de suas coisas como se fossem nossas, uma dessas criaturas que vão, logo à primeira vista, espavorindo a cerimônia, e a quem a gente se sente mal de dar até o tratamento de “senhor”.

E o que é curioso, o que mais ressalta e o que mais comove, é a profunda modéstia de Euclides. Isso dele ser o mais completo dos nossos historiadores, o artista extraordinário, o escritor surpreendente, o paisagista formidável, isso, somos nós aqui fora que o dizemos. Ele, ele é que não está convencido disso. A sua modéstia é orgânica. Os Sertões para ele nada tem de extraordinário. É um livro como outro qualquer.

Aquelas páginas assombrosas cheias daquele fragor e daquela comburência de frase, daqueles painéis faustosos, que nos fazem vibrar e arder de entusiasmo e de orgulho, para ele são páginas rasteiras, cobertas de defeitos. De defeitos!

— De defeitos, sim! — confirma Euclides, muito espantado de ninguém ter dado por isso. — Aqui estão eles. Na nova edição de Os Sertões fiz seis mil emendas. Não se diga que sejam erros de revisão, são defeitos meus, só meus. E mostrou-nos o livro, onde em cada página aparecem pelo menos três remendos. — Hei de consertar isto por toda a vida. Até já nem abro Os Sertões porque fico sempre atormentado, a encontrar imperfeições a cada passo.

É ao almoço, numa sala para o mar, enquanto o vento da praia agita os guardanapos, que Euclides me conta como escreveu Os Sertões.

Estava por esse tempo em São José do Rio Pardo, reconstruindo uma ponte. Era um trabalhar sem conta, noite e dia, ele ali a dirigir as obras, sempre à frente, no tumulto dos operários.

A ponte construída por outros engenheiros havia uma noite desabado desastrosamente e o governo de São Paulo convidara-o a reconstruí-la.

A obra era da mais alta responsabilidade, principalmente depois do desastre. Euclides, por amor próprio, em respeito à sua carta de engenheiro, estava sempre à tese de tudo. Morava numa casinha a dois passos das obras e passava os dias, em cálculos, a lutar com os xx da matemática. Foi aí que veio a ideia de escrever Os Sertões.

Um livro daquele peso toda gente tem a impressão de que o seu autor escreveu-o cercado de volumes para consultar. Não foi assim. Euclides não tinha um livro consigo, nem um volume de geologia. Nada.

Mas assim mesmo atirou-se. A todo o momento tinha que levantar-se, para vir ver a marcha do trabalho da ponte, que se ia erguendo, quando estava num trecho, desses com que os escritores se torturam e dão um pedaço de vida para acabá-Io, eis que um operário vinha chamá-lo para resolver uma dificuldade. Apesar disso Os Sertões iam caminhando. À tarde o juiz de direito, o presidente da Câmara Municipal, mais duas ou três pessoas de Rio Pardo, reuniam-se à casinha de Euclides, para ouvir o folhetim.

Ele lia então as tiras que havia escrito durante o dia. Dentre as pessoas que vinham ouvi-lo havia um paulista conhecedor d’Os Sertões; um desses talentos fulgurantes, estupendos que nunca são coisa alguma porque nunca entraram numa escola. Esse homem tinha cócegas de escritor. Tinha lá os seus versos, as suas tiras de papel cheias de rascunhos literários. Euclides da Cunha falou que ia descrever o estouro de boiada, dos quadros mais épicos e mais sinistros dos campos e matas brasileiros.

Nunca havia visto o estouro; sabia-o apenas por informação, por ouvir contar. O paulista vira diversos, estava “cansado de ver”, dizia ele.

— E se seu doutor quiser, seu doutor escreve, eu escrevo também e vamos ver quem é que faz mais perfeito.

Euclides teve, deveras, medo daquela proposta. Atirou-se à descrição, receoso de ser derrotado. No outro dia, à tarde, o matuto apresentou-se corajosamente, com as suas tiras de papel. O juiz de direito, o presidente da Câmara, as duas ou três pessoas de Rio Pardo esperavam o duelo.

— Leia!

— Leia o doutor primeiro!

Euclides leu. Leu aquela descrição incomparável, assombrosa, que nós todos conhecemos n’ Os Sertões. E ao terminar voltou-se para o homem.

— Leia!

— Qual, nada seu doutor. Olhe ali.

No chão, as tiras do pobre homem estavam aos pedacinhos, esfrangalhadas.
— Eu vou então ler alguma coisa depois disso?! Não é possível, não é possível, que o senhor não tenha visto pelo menos cem “estouros de boiada”.

E no meio da barulhada infernal dos martelos, das travas de ferro, dos foles, Os Sertões caminhavam. Quando a ponte ficou concluída, o livro estava concluído também. Ninguém sabia nesse tempo que Euclides era escritor. Ele apenas se havia mostrado no Estado de S. Paulo, numas crônicas, ligeiras, com as iniciais. Tinha medo da publicidade. Mas resolveu a publicá-lo. O juiz de direito, o presidente da Câmara de Rio Pardo, o matuto do “estouro” haviam-lhe dito que o livro era bom. Foi a São Paulo e levou-o ao Estado, para publicá-lo em folhetins. O maço de tiras era enorme. Isso parece que espantou. Seis meses depois, ao voltar a São Paulo e ao subir à redação do Estado, lá encontrou, num canto, o seu embrulho de tiras, empoeirado. Pô-lo debaixo do braço, e veio ao Rio de Janeiro. Não conhecia aqui nenhum escritor, a não ser Lúcio de Mendonça. Lúcio de Mendonça procurou-lhe editor. O escritor era desconhecido e o volume de tiras assustava. Os editores torciam o nariz.

O Jornal do Commercio não quis a obra para folhetins. Afinal o velho Masson da casa Laemmert, depois de muito pensar e de muito vacilar, disse que ficava com o rodo de tiras. Entra o livro no prelo. Meses depois Euclides, que por essa feita estava em Lorena, ao chegar à Companhia Tipográfica, à rua dos Inválidos, abrindo ao acaso um volume, lá encontrava um a com uma crase intrusa, adiante uma vírgula de mais, etc., etc. Ele estava nesse tempo atacado de uma neurastenia profunda. Aquela crase, aquela vírgula, aqueles outros erros, pareceram-lhe grandes blocos de pedra, que vinham atacar o seu nome. Que horror! E a ponta de canivete (parece mentira, mas verdade), em dois mil volumes, Euclides raspou oitenta erros. Foram cento e sessenta mil emendas! Levou dias e dias nessa trabalheira gigantesca. Os operários da tipografia estavam assombrados com aquilo. Ele passava os dias, as noites curvado sobre os volumes, a raspar com a pontinha do canivete. Só acabou na véspera da chegada do barão do Rio Branco, em dezembro de 1902. O livro ia ser posto à venda no dia seguinte. Um estranho pavor se apoderou de Euclides. Tinha certeza de que a obra ia ser um desastre. E pediu ao editor que retardasse a venda para daí a três ou quatro dias. E tocou-se para Lorena.

O seu pavor tinha crescido estupendamente, tanto que, chegando a Lorena à meia-noite, às três da manhã estava de viagem. Para onde? Sabia lá! O que ele queria era fugir, esconder-se no fim do mundo, não ver mais ninguém, rasgar o livro, não ter notícias do desastre. E andou oito dias a cavalo pelo interior de São Paulo, sem destino. O que lhe passava pelo espírito era curioso: via-se inteiramente achatado, a sua reputação de engenheiro por terra, o seu nome espatifado nas crônicas dos jornais.

— Para que me fui meter eu nisso, senhores!

Ao chegar aos pousos do sertão, onde os sertanejos vinham recebê-la ao terreiro, para hospedá-lo, as reflexões que lhe acudiam eram interessantes.

— Ora veja, dizia, esses homens me tinham em tão boa conta!

Ao fim de oito dias sentiu saudade da família. Do livro não tinha a mais vaga notícia. Mas via-se servindo de troça nas rodas literárias da rua do Ouvidor, o editor desesperado com a bucha, a mandá-lo para o inferno. Chegou a Taubaté, de volta, empoeirado, à tarde. Depois da chegada do trem do Rio, seguia um expresso para Lorena. Enquanto esperava o expresso, foi comer alguma coisa, no restaurante da estação. Chega o trem do Rio. Uma multidão de passageiros salta e corre para o restaurante. Entre eles um homem alto, barbado, de guarda-pó e um livro debaixo do braço. Euclides tem um sacolejão. Se não se enganava tinha visto Os Sertões, sob o braço do homem. Parece que foi alguma mola que o fez levantar-se. Chegou-se ao tipo, sacudido de emoção:

— O senhor pode deixar-me ver esse livro?

O senhor fitou-o, mediu-o e sério, desconfiado da má vontade, estendeu-lhe mudamente o livro, sem largá-lo. Era Os Sertões.

— Obrigado.

O seu desejo foi atirar-se ao sujeito e abraçá-lo. Mas voltou para a sua mesa e pôs-se a pensar e repensar. O livro estaria fazendo sucesso? Teria sido bem sucedido? Os jornais o que estariam dizendo? E a figura do passageiro de guarda-pó surgia-lhe à imaginação. Aquele sujeito não tinha cara de gostar de ler. Se estava lendo seu livro é porque estava gostando. Quem sabia se aquilo não era apenas ostentação, vaidade de mostrar-se aos outros passageiros do trem como leitor de um livro grosso! Poderia ser! Mas como foi que ele comprou o livro? O volume custava dez mil-réis. Só se dão dez mil-réis por um livro, quando se sabe, ou se ouve dizer, que esse livro é bom. Se aquele homem comprou, é porque ouviu dizer, ou por um amigo ou pelos jornais. Mas podia ser que aquilo fosse um presente. Podia. E o sujeito estaria gostando? Se ele não estivesse, ao saltar do trem para tomar um refresco na estação, deixaria o volume no seu banco. Se o trouxe debaixo do braço era porque o livro lhe era precioso. Mas também podia ser que fizesse aquilo para que não lho roubassem. Mas um livro ninguém se importa que carreguem com ele.

E nesse torturar de espírito, Euclides chegou a Lorena. Esperavam-lhe jornais e cartas. Cartas do editor. Do editor havia duas. Abriu uma por acaso, por felicidade era a segunda. Nessa carta, o editor dizia que estava assombrado com a venda do livro e que em oito dias estava quase esgotado um milheiro; contava-lhe do sucesso, das críticas dos jornais, do barulho que a obra estava fazendo. A outra carta, a primeira, era esmagadora. O editor confessava-se-lhe redondamente arrependido de tê-lo editado, dizia que não havia vendido um único volume e mais: que, sendo cada volume pelo preço de dez mil-réis, mandara oferecer aos “sebos” da rua de São José por cinco e nem um só aceitara.

— Se eu tivesse lido essa carta em primeiro lugar, parece que morreria, conclui Euclides, sorrindo.

É essa a história da obra máxima da nossa literatura. A profunda modéstia de Euclides é orgânica. Com a publicação de Os Sertões, quem mais se espantou foi ele. Nós nos espantamos de ver que a nossa raça já tinha um escritor, que atingira ao mais alto grau da perfeição. Ele se espantou ao saber que esse escritor era ele.


V. C.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

O BRASIL ESQUECE SEUS FILHOS. VIVA EUCLIDES DA CUNHA!

O Brasil tem por hábito esquecer o Brasil. Pena. Mas enquanto o Brasil esquece o Brasil, alguns brasileiros não esquecem o Brasil.
O fluminense de Cantagalo Euclides da Cunha foi um dos mais importantes brasileiros, do século 19 e até hoje.
É de Euclides a obra-prima Os Sertões, o primeiro e mais importante livro escrito por um jornalista. Sim, Euclides foi jornalista. Dos bons. E como escritor, excepcional. Claro que a Academia Brasileira de Letras, ABL, o levou para assumir uma de suas cadeiras. Como se não bastasse, Euclides foi bacharel em Matemática e em Ciências Naturais.
Em agosto de 1986, Euclides foi mandado pelo jornal O Estado de S.Paulo para cobrir a Guerra de Canudos.
Canudos é uma região que fica no sertão da Bahia.
A guerra de Canudos começou no dia 7 de novembro de 1896. Terminou no dia 5 de outubro do ano seguinte. O líder dessa guerra, cujo o Exército era formado por miseráveis nordestinos, morreu no dia 22 de setembro de 1897. Semanas antes do fim da guerra, que deixou cerca de 30 mil mortos.
Em qualquer levantamento que se faça sobre os livros mais importantes do Brasil, na área de história real, Os Sertões aparece como um dos primeiros.
Em 2002 eu participei de um livro chamado O Clarim e a Oração. Da Geração Editorial. Esse livro começa com um texto do saudoso Ariano Suassuna e segue com um texto deste imodesto escriba, dizendo coisas de fundamentais importâncias para a compreensão da nossa história. Ali falo, não sei em quantas páginas, da presença do cantador repentista nas fileiras do exército que foi a Canudos acabar com tudo.
Quem acabou com tudo, em Canudos, foi o primeiro presidente civil do Brasil: Prudente de Morais.
É história.
O jornalista e escritor Euclides da Cunha foi assassinado em 1909 pelo amante da sua mulher, Dilermando Cândido de Assis (1888-1951).
Euclydes Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu no dia 20 de janeiro de 1866.
O tema Canudos continua em voga, até hoje.
Em 1997, o selo CPC-Umes lançou um belíssimo e histórico CD intitulado Canudos. Uma joia, com o cantor e compositor baiano Gereba. Ouça:


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

JOSÉ OCTÁVIO DE ARRUDA MELLO: O HISTORIADOR DO BRASIL


José Octávio de Arruda Mello, o 4º dentre 7 filhos do casal Arnaldo e Otília, nasceu no dia 18 de março de 1940 e tornou-se um dos mais dinâmicos e expressivos historiadores do Brasil. É paraibano, de João Pessoa. Publicou cerca de 50 títulos, incluindo textos avulsos. É também jornalista. É doutor e pós-doutor pela Universidade de São Paulo, USP. Num dos seus livros, li:
Historiador de ofício, com doutorado em História pela USP e pós-doutorado pelo IEB/USP, integrante dos IHGB, IHGP, APL, API, Centro Internacional Celso Furtado e Conselho Consultivo da Revista do IHGB. Anistiado político do Movimento de 64, pelo Ministério da Justiça, professor aposentado dos UNIPÊ, UFPB, UEPB. Autor de, entre outros, Nova História da Paraíba – Das origens aos tempos atuais (2019) e autor e organizador de O Movimento de 1964 na Paraíba – Origens, Assalto ao Poder e Repressão (2021).
Eu comecei minha carreira de jornalista no jornal O Norte, PB.
A sede desse jornal era na Duque de Caxias, que depois migrou para a Av. Pedro II. Acho que foi por ali que conheci José Octávio, mesma época que conheci José Leal (1891-1976).
Zé Leal foi uma figura incrível. Era quieto, tranquilo. Passos lentos, mas seguros. Fumava muito. De poucas palavras.
Nesta entrevista, que começa hoje e termina semana que vem, O amigo leitor e amiga leitora terão uma pequena amostra da grandeza intelectual desse paraibano, cuja amizade me honra. Aqui ele fala sobre ditadura e democracia. Ressalta o governo de FHC e lembra que Dutra não foi bolinho, não. Para ele, “Ditadura nunca mais!”.
Lá pras tantas José Octávio diz que nestes tempos de pós-tudo, de modernagem e coisa e tal, “Nada substitui a leitura, com base na documentação e a respectiva interpretação”.
Curiosidade: José Octávio de Arruda Mello deve ser o único historiador brasileiro que ainda escreve à mão.
A entrevista:

JOSÉ OCTÁVIO DE ARRUDA MELLO: O HISTORIADOR DO BRASIL

Assis Ângelo — O ano de 2023 está começando. Você como historiador acompanhou e analisou muitas situações políticas no Brasil. O que espera do ano que se inicia sob a batuta do pernambucano Luís Inácio Lula da Silva? O Brasil tem futuro?
José Octávio de Arruda Mello — Considero a situação do Brasil delicada. Porque a direita que se movimenta não é a modernizadora, comprometida com a democracia, mas a de Jair Bolsonaro, golpista e voltada para os quartéis. Como ela se dispõe a criar problemas para a presidência Luís Inácio, caberá a este, assegurando a governabilidade, pacificar o país mediante o primado da democracia, pluralismo e direitos humanos.
Dentro desse quadro, o futuro do Brasil dependerá da hegemonia do seu povo que, como sustentava o saudoso San Thiago Dantas (1911-1964), é sempre maior que suas elites dirigentes.

Assis — Qual foi o momento que o Brasil teve a maior desgovernança, politicamente falando?
José Octávio — Politicamente, há governos brasileiros que não me agradam. Um deles, a presidência Eurico Dutra (1946/51) que acentuou a repressão e liquidou os créditos acumulados durante a guerra. Outro, o General Médici (1969/74), o mais duro dos militares de 1964, responsável por crescimento econômico montado sobre a supressão dos direitos individuais. Em compensação, tivemos administrações federais como as de Getúlio Vargas (1930/45 e 51/54), Juscelino Kubitschek (1946/51) e Fernando Henrique Cardoso (1994/2002), sem dúvida os melhores de todos.

Assis — Dentre os presidentes nordestinos, qual deles foi o pior e o melhor?
José Octávio — A república principiou com dois presidentes nordestinos, os marechais alagoanos Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, sendo este, apesar da virulência, bem melhor que o primeiro, graças às inspirações do ministro paraense Serzedelo Correia (1858-1932). O paraibano Epitácio Pessoa (1919/22) teve altos e baixos e o ministro José Linhares (1856-1957) que como presidente do STF e cearense, exerceu o mandato entre a derrubada de Getúlio e a ascensão de Dutra, nomeou tanto que se motejou: “e os Linhares? – são milhares...” Café Filho (1954/55) era do Rio Grande do Norte e se deixou envolver pelo golpismo da ESG e UDN, enquanto o cearense Castelo Branco (1964/67)


desmontou a democracia populista de 1946. Já o maranhense José Sarney, retomando a democracia, viu-se melhor no plano politico que no econômico-social, ao tempo em que o pernambucano Lula da Silva registrou mais sucesso no primeiro que no segundo mandato.

Assis — Você foi professor de história e de outras matérias. Quais?
José Octávio — Ensinei quase todas as disciplinas da área social, além de História Geral e do Brasil – Geografia, Teoria Política, Sociologia, Literatura Portuguesa e Organização Social e Política do Brasil (O.S.P.B). Na área jurídica lecionei Teoria Geral do Estado, Economia Política, Direito Constitucional e Direito Romano.

Assis — Qual a importância do estudo na formação de um país?
José Octávio — A educação tornou-se fundamental no deslanche de nações como Estados Unidos, Inglaterra, Costa Rica, Austrália, Japão, Alemanha e Coreia do Sul. O Brasil demorou a compreender a questão.

Assis — A partir de quando você passou a se interessar pelo estudo da História? Quais os personagens nordestinos que mais lhe despertaram interesse?
José Octávio — Creio que aos 6 anos, quando agrônomo e colega do meu pai, na Estação de Alagoinha, me passava estampas das principais cidades do mundo. Depois disso, tive professor de História que me ensinou oito anos, desde o Admissão. Eles me induziram a apreciar, no Nordeste, mais fenômenos sociais, como Urbanização, Cangaço e Partidos Políticos, que os personagens.

Assis — Quais os grandes historiadores brasileiros e, dentre eles, qual o que você mais se identifica pelo rigor dos estudos?
José Octávio — Desde pequeno que apreciei os cearenses Capistrano de Abreu (1853-1927) e Barão de Studart (Guilherme Chambly Studart; 1856-1938). Eles lideram sequência continuada por João Ribeiro (1860-1934), Rodolfo Garcia (1873-1949) e principalmente José Honório Rodrigues (1913-1987), em homenagem a quem organizamos grupo de estudos integrados pela esposa, Leda Boechat. Para honra minha, Rodrigues proclamava que eu e o mineiro Francisco Iglésias (1923-1999) pertencíamos a essa constelação.

Assis — Dentre todos os seus livros, qual ou quais você gosta mais?
José Octávio — Meu melhor livro é A Revolução Estatizada – Um Estudo Sobre a Formação do Centralismo em 30 (3 a ed., 2014) em cujas 620 páginas busquei novo entendimento da Revolução de 30. O que, porém, mais aprecio é Da Resistência ao Poder – O (P)MDB na Paraíba (1965/1999), de 2010.

Assis —
Quem são os novos talentos da matéria História?
José Octávio — Três mulheres – Mary del Priore, Maria Beatriz Nizza e Miridán Knox Falci. Afinadas com a Nova História, desenvolvem a chamada História do Cotidiano, de raiz antropológica.

Assis — Que contribuição tem o jornalismo na história de um país, democrático ou não?
José Octávio — Como o conhecimento principia pela informação, o Jornalismo revela importante papel na sociedade. Sua função na construção da democracia é indiscutível. Em consonância com isso, alguns dos principais historiadores brasileiros da atualidade são periodistas como Elio Gaspari, que estudou o ciclo militar 1964/78.

Assis — Aparentemente, hoje é mais fácil destrinchar os enigmas e mistérios da história. A Internet tem participação nisso? Qual a importância da Internet na nossa vida cotidiana?
José Octávio — Modernas tecnologias como a internet são fundamentais para o armazenamento da História. Mas é preciso não exagerar. Nada substitui a leitura, com base na documentação e a respectiva interpretação.

Assis — Você é um dos poucos brasileiros que não têm e-mail e não usa a internet para nada. Por que? É melhor escrever à mão do que num teclado de computador?
José Octávio — Não utilizo as modernas tecnologias - e disso não me orgulho – porque sou um pouco desajeitado, já que, quando pequeno, sequer aprendi a andar de bicicleta. Fora daí, considero que a escrita manual me assegura melhor ordenação do pensamento.

Assis — O jornalista Mino Carta, fundador da revista Veja, não escreve à mão. Ele prefere, como poucos, escrever numa máquina de datilografia. Você só escreve à mão e deixa de lado até mesmo a Olivetti?
José Octávio — De uns vinte anos para cá, quando passei a escrever à mão, transferia rigorosamente meus textos para a máquina de datilografia. Quando esta quebrou, dei para recorrer a uma senhora que mimeografa meus trabalhos mediante pagamento.

Assis — Fale um pouco a respeito da sua genealogia?
José Octávio — Como disse Afonso Arinos (1905-1990), genealogia no Brasil termina sempre na senzala ou na sacristia. Eis porque nunca lhe dei bolas. Mas não esqueço meu pai que me recomendou a leitura de Alberto Torres e a mãe que, viúva, formou todos sete filhos.

Assis — Como cidadão e historiador, qual o sonho que ainda alimenta para si e para o Brasil?
José Octávio — Ver a democracia consolidada no Brasil – “ditadura nunca mais” – ajudar na formação do filho Victor Raul e contribuir para redução das gritantes desigualdades sociais de nossos dias.


JORNALISTAS E CIA

Originalmente entrevista com o José Octávio foi publicada em duas partes. A primeira no dia 11 (à pág. 14) e a segunda no dia 18 de janeiro (à pág. 13). Caso tenha curiosidade, clique: PARTE I e PARTE II

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